DIRETAS JÁ!

DIRETAS JÁ!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO – ESSA INSTITUIÇÃO TÃO BRASILEIRA.



Sempre que um governante tem que justificar porque está criando uma nova secretaria ou um novo ministério se refere às condições de governabilidade que precisa ter. Todos dizem que sem maioria no parlamento não se governa. Raramente admitem que estam apenas criando as condições para acomodar aliados em sua base. Aceitamos bem a ideia de que só se governa com amplo apoio parlamentar, já que é o legislativo quem chancela as políticas públicas que os governos querem desempenhar. Nosso governo é chefiado quase que individualmente pelo presidente da República.



Nosso presidencialismo tenta, mas nem sempre consegue, manter independência e harmonia entre os poderes. Foi assim, fruto dessa mania que temos de dar jeitinho em tudo, que criamos uma forma de fazer com que executivo e legislativo convivam bem. O jeitinho que demos foi a COALIZÃO. Uma espécie de contrato de cooperação verbal, feito entre atores e partidos políticos atuantes em nosso sistema, com o objetivo de garantir a funcionalidade do sistema presidencialista.



Existe um consenso entre os cientistas políticos que o termo “presidencialismo de coalizão” foi cunhado pelo cientista político Sérgio Abranches há 25 anos num artigo intitulado “Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro”. Essa expressão foi incorporada ao nosso sistema político e revela a questionável realidade de um sistema que, sendo presidencialista, se torna refém de um parlamento, corporativista por definição, com um sistema que aceita 32 partidos.



Nas democracias só se governa com maioria no parlamento. Nos EUA, o Presidente Barack Obama sofre para aprovar projetos por não ter maioria no Senado. No Brasil, só se governa com uma ampla maioria no Congresso Nacional e isso é normal. O problema é o jeitinho que demos para obter essa tal maioria. Nos EUA, ela é disputada entre democratas e republicanos nos processo eleitorais. Essa maioria se garante nas urnas, não na seara parlamentar.



No Brasil, a maioria se garante na relação entre executivo e legislativo e sempre após cada nova eleição. Não somos afeitos a montar uma maioria por afinidades político-ideológicas. Aliás, as ideologias foram banidas do sistema partidário brasileiro. Os partidos se deixam atrair para a base aliada do governo sem considerar o programa da agremiação que está no poder. Ou será que os partidos que apoiam o governo de Dilma, e que se dizem liberais, estam preocupados com o estatismo desenfreado do PT?


 


O fato é que a base aliada se forma desconsiderando programas partidários, sendo presa fácil dos problemas do dia a dia. Uma base aliada formada apenas pelo critério da quantidade vive ao sabor dos conflitos que, claro, seus diferentes membros enfrentam. Forças políticas distintas por aspectos sociais, econômicos e até geográficos tendem a travar violenta competição interna. Daí que a coalização termina sendo uma droga para os governos. Eles não conseguem viver sem ela, apesar de saberem o mal que causam.



Agora mesmo o PMDB, principal partido da coalização que dá sustentação ao governo Dilma, está em rota de colisão com o PT, o partido governista. São aliados, mas vivem as turras pela falta de afinidades e pela sobra de interesses individualizados. Foi por isso que Sérgio Abranches falou em “dilema institucional” brasileiro. É que se o presidente é eleito diretamente pelo povo, ao contrário do que acontece no parlamentarismo europeu, ele não poderia se tornar refém do Congresso.



Já o Congresso, forte o bastante por ser o poder que representa diretamente o povo, tem amplas condições de tornar a vida de um presidente insuportavelmente difícil. Se o presidente não tiver uma sólida base aliada fica sem musculatura para governar. Enfraquecido, não tem como ditar o ritmo da política e nem enfrentar, com razoável autonomia e celeridade, as grandes e as pequenas questões nacionais. A anomalia desse sistema é o que os presidentes precisam fazer para garantir uma encorpada base aliada.



Sem afinidades político-ideológicas, vale o fisiologismo da política partidária. Governos montam suas bases aliadas a partir da distribuição de ministérios ou secretarias, de cargos, de favores, de verbas públicas, de afagos e seja lá mais o que der para distribuir. Foi com a Constituição de 1988 que a coalizão surgiu. É que os governos militares usavam o decreto-lei, eles não precisavam de um parlamento para governar. Com a “Nova República” se entendeu que o legislativo tinha que ter um papel atuante. Mas, como nós não acreditamos na separação democrática dos poderes, demos um jeitinho para que um poder pudesse chantagear o outro a seu bel prazer e criamos essa perversão do presidencialismo onde o governo só age se o legislativo permitir.



Deve ter sido por isso, que os presidentes passaram a fazer o papel do legislativo ao usarem, sem nenhum pudor, medidas provisórias e pedidos de urgência, que obrigam os parlamentares a votar prioritariamente projetos do Executivo. No Brasil é assim mesmo, o governo legisla e o parlamento governa.




Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com

AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.






quarta-feira, 30 de outubro de 2013

E OS ATORES SE MOVIMENTAM.








Ontem, eu analisei o papel que o “Blocão” vem desempenhando na política paraibana e chamei a junção de PT, PP e PSC de “condomínio partidário”. Algumas pessoas não gostaram de eu ter dito que uma candidatura própria contestaria a natureza do “Blocão”. Eu, ainda, afirmei que o “Blocão” não é dono de suas vontades e que seu oxigênio vem do projeto eleitoral do PT nacional.



Um ouvinte me contestou dizendo que o “Blocão” tem autonomia suficiente para lançar candidatura própria e que torce por isso. Eu devo dizer, também, que torço para que surjam alternativas, de modo que o eleitor não fique preso às bipolaridades eleitorais de sempre. Mas, a realidade política é sempre bem mais complexa do que queremos e gostamos. Nas últimas 72 horas atores políticos relevantes tem se movimentado intensamente pelo cenário onde os palanques serão montados em 2014. A deputada estadual, pelo PP, Daniella Ribeiro disse que o “Blocão” terá candidatura própria, forte e competitiva.



Ela disse acreditar que o cenário das eleições municipais se repetiria nas eleições estaduais. Daniella se referia à aliança que PT e PP realizaram e que, por exemplo, elegeu Luciano Cartaxo prefeito de João Pessoa. Mas, o presidente estadual do PP, e pai da deputada Daniella, desautorizou sua filha e disse que seu outro filho, Ministro Aguinaldo Ribeiro, não será candidato nem a Senador, como quer a presidente Dilma, e nem a governador, como querem os deputados que compõem o “Blocão”.




Enivaldo Ribeiro falou na qualidade de presidente e cacique de seu partido, além de chefe de uma família influente nas coisas da política paraibana. Mas, o que verdadeiramente o autoriza a falar é o fato de ser pai do Ministro e da deputada. De posse de todos esses predicados, o ex-deputado vaticinou que Aguinaldo Ribeiro será candidato a deputado federal para estar no cenário nacional em 2015, apto para voltar ao Ministério das Cidades se Dilma for reeleita, claro. Enivaldo Ribeiro disse que “essa não é uma decisão do partido, e sim uma opinião pessoal”.



Mas, não duvidem, será isso mesmo que vai acontecer, pois, no Brasil, a opinião de hoje do cacique político é a decisão partidária de amanhã. A família Ribeiro, e o PP, não querem abrir mão do Ministério das Cidades, por isso que o “Blocão” é e continuará sendo um instrumento para viabilizar esses interesses, independente do queriam alguns deputados, inclusive a própria Daniella Ribeiro.




O PT, claro, apoiou tal decisão, pois tudo gira em torno da reeleição de Dilma Rousseff e o clã dos Ribeiro é, hoje, o principal cabo eleitoral da presidente na Paraíba. Quem não gostou nem um pouco dessa história do “Blocão” ter candidatura própria foi o PMDB. O ex-prefeito Veneziano Vital foi logo dizendo que só existe uma candidatura, a dele, no campo das oposições ao governo de Ricardo Coutinho. Ele disse que, por causa da questão nacional, PT e PP tem que apoiar a candidatura do PMDB ao governo estadual.




Veneziano disse, ainda, que o PP deveria parar de especular e lançar uma candidatura. Mas, papai Enivaldo veio logo em defesa de sua filha, sendo duro com o ex-prefeito de Campina Grande. Nessas horas, os laços sanguíneos falam sempre mais alto. Ele disse que “Veneziano deve cuidar do PMDB, não impor candidatura para o lado de cá e convencer o povo de Campina que não quer mais votar nele”. O fato é que eles discutiram por nada, pois bem sabem que o “Blocão” não lançará candidatura.




O ex-governador José Maranhão anunciou que será candidato a deputado federal e disse que até faria um esforço para disputar uma eleição majoritária, mas que percebeu que “devo me sacrificar em nome do meu partido”. Vejam que atitude magnânima! Mas, existem outras questões. Maranhão entendeu que não tem mais forças políticas suficientes para disputar o governo do estado ou uma cadeira no senado. Entendeu, também, que disputar contra lideranças bem mais jovens do que ele exigiria uma energia que ele parece não ter mais.




E, como sempre, tem a questão familiar. É que, no Brasil, os interesses familiares se sobrepujam aos interesses republicanos. O fato é que Maranhão ainda não digeriu que seu sobrinho, Benjamim, tenha saído do PMDB para se filiar ao Solidariedade. Se Benjamim não tivesse fugido da órbita político de seu tio, ele o apoiaria, mas Maranhão se sentiu traído por seu sucessor político e agora parece querer vingança. São coisas da família que podem ser resolvidas num almoço de domingo lá em Araruna.


 



PT e PMDB estam em pé de guerra na Paraíba. O deputado Anísio Maia disse que o PMDB está em processo de decadência. Trócolli Júnior rebateu dizendo que “Maia vai ter que engolir essas declarações infelizes”. Essa briga é a de sempre. Os partidos são aliados, mas se enfrentam para ver quem terá mais espaço nos palanques. PT e PMDB não pensam em desfazer a aliança que possuem na Paraíba, até porque Lula e Michel Temer não deixariam isso acontecer por nada desse mundo.



Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com


AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.





terça-feira, 29 de outubro de 2013

AFINAL, PARA QUE SERVE O “BLOCÃO”?



No começo deste ano se formou na Assembleia Legislativa da Paraíba o chamado “Blocão” – uma espécie de condomínio político-partidário composto pelo Partido dos Trabalhadores, pelo Partido Progressista e pelo Partido Social Cristão. Naquele momento, os deputados que estavam se agrupavam neste “Blocão” diziam que o objetivo era “tomar decisões conjuntas nas votações em plenário”. Mas, claro, nem eles acreditavam numa justificativa tão frágil.



Na verdade, o “Blocão” surgiu para fazer frente às bancadas do PMDB e dos partidos que dão sustentação ao governador Ricardo Coutinho na Assembleia Legislativa. O “Blocão” surgiu para tornar forte quem saiu fragilizado das urnas em 2010. A lógica que orientou a formação do “Blocão” foi a mais formal possível. Os deputados se basearam na ideia de que uma andorinha só não faz verão. Resolveram reunir as andorinhas perdidas pelos três partidos para fazer um sol daqueles na Assembleia.



Vejam que a bancada da situação tem, hoje, algo em torno de 17 deputados. É difícil precisar o número, pois virou moda entre os parlamentares aquela história de não ser nem da oposição e nem da situação. Muitos gostam de dizer que são independentes. O PMDB tem 06 deputados. O PT e o PSC têm cada um 02 deputados e o PP tem a deputada Daniella Ribeiro. Desblocados, esses partidos seriam meros figurantes no jogo político. Por isso, se uniram num condomínio que soma cinco parlamentares. O deputado Carlos Batinga, do PSC, disse que o “Blocão” tem, na Paraíba, mais força do que o PMDB, que é formado por deputados independentes, todos pertencentes à base da presidente Dilma e que fazem oposição ao governo de Ricardo Coutinho.



De fato, é isso. O “Blocão” é um ajuntamento conjuntural de partidos para fazer oposição ao governo visando demarcar espaços para as eleições de 2014. A ideia é que eles cresçam juntos no Estado para que depois cada um siga seu caminho. Aliás, esse negócio de criar blocos de partidos no parlamento não é novidade. Em 2010, PSB, PC do B e PDT (que eram três pequenos partidos na Câmara Federal) criaram o “bloquinho da esquerda” buscando um maior lugar ao sol e o fato é que conseguiram.



Nos últimos dias, a deputada Daniella Ribeiro (PP) deu declarações confirmando que o “Blocão” já decidiu que terá candidatura própria ao governo do Estado e que, pelo menos no 1º turno, não pretende apoiar a candidatura do PMDB. Ela disse que o apoio ao PMDB só existiria se não houvesse a pré-candidatura do ex-prefeito Veneziano Vital. Daniella completou que os “partidos só devem se juntar no 2º turno, pois todos são da base aliada de Dilma e fazem oposição ao governo do Estado”.



Mas, as coisas não são tão simples como quer a deputada Daniella. O “Blocão” está atrelado às composições partidárias em nível nacional e aos interesses individualizados de lideranças estaduais como o Ministro Aguinaldo Ribeiro e o Senador Vital Fº. O “Blocão” surgiu para viabilizar, na Paraíba, o palanque da campanha pela reeleição de Dilma e para dar lastro à campanha eleitoral de Aguinaldo Riberio ao Senado ou a Câmara Federal, para que ele possa se manter no cenário nacional após as eleições.


O jornal “O Estado de São Paulo” trouxe matéria dando conta que o PP seguirá aliado a Dilma e que a presidente prometeu a Aguinaldo que ele continuará sendo Ministro das Cidades, caso ela seja reeleita, claro. Aguinaldo deixaria o Ministério das Cidades para se candidatar a um mandato parlamentar. Inclusive, o ministro não deve ter visto com bons olhos essa história do “Blocão” querer lançar candidatura própria, pois isso atrapalharia as negociações.



O lançamento de uma candidatura contrariaria a natureza do “Blocão”, pois ele não é dono de suas vontades. O oxigênio do “Blocão” vem do projeto eleitoral do PT e do PP. Num segundo plano distante, interesses localizados poderiam até ser atendidos. O ex-presidente Lula deu a orientação quando disse que a estratégia, nos estados, é a unidade, já no 1º turno, dos partidos que compõem a base, e que as candidaturas mais fortes do esquema devem, claro, ser privilegiadas. Por essa lógica, teríamos na Paraíba uma composição entre PT, PP e PSC (os três partidos do “Blocão”) e o PMDB, pois todos são aliados em nível nacional e fazem parte desse grandioso condomínio eleitoral que tentará reeleger Dilma.


 


O arranjo aqui na Paraíba deve ser o seguinte. O PMDB indicaria o candidato a governador, o PT indicaria o vice, e o PP bancaria o nome de Aguinaldo Ribeiro para o Senado, que, além disso, coordenaria a campanha de Dilma na Paraíba. As declarações de Daniella Ribeiro desagradaram lideranças do PMDB. Veneziano Vital disse que a única candidatura legítima no meio das oposições é a do PMDB. Se isso é verdade ainda não se pode afirmar, o fato é que não demorará muito para que venha de Brasília a determinação de como o “Blocão” deve se comportar.



Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com


AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PCC DIZ QUE VAI “TOCAR O TERROR”!



 Nos últimos dias o “Partido do Comando da Capital”, mais conhecido pelo nome de fantasia que a mídia lhe deu “Primeiro Comando da Capital” e por sua sigla PCC, mandou avisar ao Comando Geral da Polícia Militar de São Paulo que (SIC) “vai tocar o terror na Copa do Mundo do ano que vem”. Líderes do PCC se deixaram flagrar em conversas telefônicas para que a justiça soubesse que ordenariam novos ataques caso fossem transferidos para o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) da penitenciária de Presidente Bernardes, no interior de São Paulo.



Vejam a porca miséria em que vivemos. A escuta telefônica (que só pode ser utilizada com a devida autorização judicial) passou a ser um mecanismo de comunicação entre o crime organizado, que manda e desmanda nos presídios, e as autoridades policiais, que seguem sem saber com lidar com o PCC. Funciona assim: quando os líderes do PCC querem se fazer ouvir deixam-se pegar pelas escutas que o serviço de inteligência da Polícia Militar utiliza e vão repassando suas demandas, reivindicações e ameaças. Ou seja, o próprio Estado termina disponibilizando para o crime organizado o instrumento que deveria servir para combatê-lo.



Promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (GAECO/SP) repassaram ao Comando Militar do Sudeste o resultado de suas investigações, pois o Exército terá importante papel na segurança durante a Copa. Parece que os promotores não acreditam na eficiência da PM quando o assunto é PCC. Marcos Willians Camacho, mais conhecido como Marcola, é o chefe supremo do PCC. Foi ele quem começou com as ameaças ao saber que o Ministério Público de São Paulo havia pedido sua transferência para o RDD de Presidente Bernardes.



Em 2012 o comando do PCC ordenou uma série de ataques no interior e na capital de São Paulo para mostrar força e para se vingar de uma série de prisões que a polícia havia realizado. Naquela ocasião, 106 agentes da Polícia Militar foram assassinados. A maior cidade do país foi transformada em uma praça de guerra. Vimos abissais e violentos acontecimentos no Estado de São Paulo. Cidadãos, policiais e bandidos foram mortos, os bens públicos e privados depredados, prisões transformadas em arenas de terror, i.e, a segurança pública deixou de existir. Foram cenas de uma guerra civil de proporções alarmantes e isso me faz constatar que o Estado de direito sofria pesados golpes ao ponto de ser duramente ameaçado. Prova cabal da fragilidade do nosso Estado de Direito foi o governo de São Paulo ter ido dialogar com as lideranças do PCC, como se eles tivessem reivindicando algo legítimo que merecesse uma negociação. Ao decidir ir conversar com o crime organizado o governo sinalizava em fortes cores o quanto a democracia que representava era (continua sendo) frágil.



Agora, o comando do PCC ameaça “tocar o terror” porque teve acesso, através de advogados, aos detalhes de uma investigação que vem sendo realizada a mais de três anos e que revela que o PCC tem uma estrutura organizacional muito bem elaborada. Claro, o que o PCC quer é forçar outra “negociação”, como aquela de 2012, para demonstrar que pode emparedar o governo quando bem quiser. O serviço de inteligência da Polícia Militar de São Paulo viu que o PCC tem uma estrutura hierárquica para o caso da cúpula ser isolada no RDD de Presidente Bernardes. Cada líder, como Marcola, tem uma espécie de vice que assume o lugar do titular caso ele morra ou vá para o RDD. Dessa forma, a administração da organização e o negócio do tráfico não sofrem solução de continuidade.


Os lideres fizeram as autoridades saber que não mais aceitarão que novos membros da organização sejam levados aos presídios de segurança máxima. E avisaram que querem ter trânsito livre nos pátios dos presídios, ao invés de ficarem trancafiados em suas celas, como é praxe no RDD. Ainda disseram que se, e quando, a ordem de tocar o terror for dada os presídios que são comandados por oficiais da PM terão suas atividades paralisadas independente de qualquer comunicado. Pior, se Grupo de Intervenção Rápida da Secretaria de Administração Penitenciária ou da Tropa de Choque entrar em presídios, onde os chefões estam, os atentados nas ruas se iniciam automaticamente, sem que alguma ordem expressa seja dada.




O Estado está de quatro frente ao PCC que faz ameaças em represália ao fato da justiça paulista estar analisando dois recursos do Ministério Público Estadual contra decisões de juízes que negaram a transferência da cúpula do PCC para o Regime Diferenciado. O PCC é ciente do alto poder de barganha que possui para negociar com o Estado. Com que cara ficaremos se o PCC tocar o terror em plena Copa? O que diremos ao mundo se tivermos policiais e turistas sendo mortos pelas ruas enquanto o evento acontece?



A pergunta que não quer calar é: O QUE FAZER? Negociar com o PCC e ficarmos, mais uma vez, de cuia na mão esperando a boa vontade de Marcola e Cia? Muitos dizem que já está mais do que na hora do Estado tocar o terror para cima do PCC. Mas, será que o Estado tem condição de realmente enquadrar o PCC? Se o tiro sair pela culatra, as manifestações de junho e julho e as bandalheiras desse “black blocs” estúpidos vão ser mera diversão frente ao PCC tocando o terror sob a sociedade.


Talvez não seja tarde, ainda, para que as instituições coercitivas estudem a fundo a organização criminosa que tanto nos ameaça. Aliás, o PCC sabe bem como agir frente ao Estado exatamente porque o conhece bem. Marcola, por exemplo, é um estudioso da Teoria Geral do Estado. Quando não está cuidando dos negócios ele lê obras de Maquiavel, de Thomas Hobbes, de John Locke, enfim, dos filósofos que elaboraram as bases do nosso sistema político.



O sociólogo José de Souza Martins, professor da USP, diz que o “PCC criou uma sociedade paralela, com regras que parecem as nossas, mas que funcionam ao contrário (...) a cadeia é parte da organização, é seu instrumento de proteção e poder”. O PCC não dispõe do aparato legal que os governos e as instituições coercitivas possuem, mas leva a incrível vantagem sobre o Estado de poder agir sob o manto da clandestinidade e de não precisar respeitar as normas e procedimentos democráticos, já que se posiciona a margem do Estado de direito. Graças a isso, o PCC pode transformar a simples delinquência organizada numa atividade empreendedora de criminosos que atinge altos níveis em termos de competência empresarial. O PCC modernizou a atividade criminosa tornando-a gerencial. O delinquente isolado e amador é coisa do passado. O crime, para o PCC, é uma atividade racional como outra qualquer, como uma empresa, um banco, uma rede de lojas ou de supermercados. Da cadeia, o PCC administra empresarialmente a atividade fim, que é o tráfico de drogas, e dá conta de sem número de atividades, que vão do suborno a agentes públicos corrompidos, passando pelos assassinatos e chegando a proteção de seus associados. O fato é que de nossas estranhas surgiu essa anomalia que foi se fortalecendo e que age, como um Estado paralelo, para que não acreditemos nas instituições e no próprio sistema democrático que temos. A impressão que tenho é que voltamos ao Estado de natureza onde a lei que vale é a do mais forte.




Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com

AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.






sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A RADIOGRAFIA DE UM MOMENTO.






Quando do anuncio da aliança entre o governador Eduardo Campos e a ex-senadora Marina Silva eu recomendei boas doses de cautela para os mais afoitos, pois em se tratando de política eleitoral as aparências não só enganam como desenganam. Alguns saudavam a união entre Eduardo e Marina como o fato que mudaria o cenário eleitoral. Outros diziam que a reeleição de Dilma estava ameaçada. E tinha os iludidos de sempre que se apegam as novidades sem fazer uma leitura detida da realidade. Eu vi a movimentação do PSB com a REDE Sustentabilidade tão somente como o que ela era, i.e., como uma aproximação entre forças políticas visando um embate eleitoral. Agora, vamos ver como essa questão é retratada pela radiografia do momento.



Chegou, então, a hora de analisar a primeira pesquisa, sobre a eleição presidencial/2014, feita após o anuncio da aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos. Os dados podem nos mostrar se essa aliança tem o potencial que promete. Talvez eles revelem se a reeleição de Dilma é algo realmente viável. E ainda tem algumas questões acerca do comportamento da oposição no processo, mas especificamente sobre o PSDB e suas indefinições sobre que ator ganhará o papel do “anti-Dilma”. Sempre lembrando, claro, que estou apenas analisando este momento. Aliás, eu vou sugerir ao caro ouvinte que nunca, jamais, tome o momento político-eleitoral que estiver analisando como a demonstração do resultado final.



A pesquisa, feita pelo Ibope, foi encomendada pela Rede Globo e pelo Estado de S. Paulo. Daí, tenho mais uma sugestão a fazer. Dê as pesquisas o benefício da dúvida não só por causa de quem as encomenda, mas por que elas têm lá suas vulnerabilidades. A pesquisa, divulgada ontem, alegrou os petistas. É que ela traz dados que demostram uma real possibilidade da presidente Dilma se reeleger já no 1º turno. Eu, particularmente, não acredito que uma eleição tão complexa se resolva facilmente.




A pesquisa ouviu 2.002 eleitores, em 143 municípios brasileiros, entre os dias 17 e 21 de outubro, i.e., ela começou a ser feita 12 dias depois do anuncio da aliança entre Marina e Eduardo. Tempo suficiente para o eleitor fazer alguma análise do fato. O IBOPE desenhou três cenários e, em pelo menos dois deles, os adversários elencados para Dilma não conseguiriam forçar a realização de um 2º turno. A preço de hoje, a maior ameaça para o projeto de reeleição de Dilma chama-se Marina Silva. A pesquisa atesta a força de Marina e não traz boas notícias para Aécio Neves, pois mostra José Serra com mais potencial para tirar votos de Dilma do que ele. Isso pode dar algum ânimo a Serra para voltar a pleitear sua candidatura junto ao PSDB.



No 1º cenário Dilma tem 41% das intenções de voto, contra 14% de Aécio e 10% de Eduardo. Vamos considerar, aqui, que a margem de erro da pesquisa é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos, e que Aécio e Eduardo somam 24 pontos. Com este cenário não haveria 2º turno, pois Dilma abre um frente de cerca 15 pontos sobre Aécio e Eduardo. Assim, se a oposição quer ter sucesso eleitoral em 2014 terá que abrir mão ou do governador ou do senador. O problema é: quem aceita sair do jogo? Este cenário mostra que o PT sabia bem o que fazia quando partiu para impedir o registro da REDE Sustentabilidade. O governo sabia (sabe ainda) que tirar Marina do páreo é um importante passo no projeto da reeleição.




No 2º cenário, permanece Aécio, sai Eduardo e entra Marina. Dilma fica com 39%, Marina com 21% e Aécio com 13%. Este cenário torna real um 2º turno, pois Dilma só teria algo em torno de 5% de vantagem sob a soma dos percentuais de Marina e Aécio. Este cenário enfraqueceria Eduardo e fortaleceria Marina quando PSB e REDE tiverem que enfrentar o dilema de terem dois candidatos para o mesmo cargo. Marina vai lembrar a Eduardo que ela leva algo em torno de 11% pontos de vantagem sobre ele.



O 3º cenário é improvável na medida em que, teoricamente pelo menos, Marina e José Serra não seriam candidatos. Ela porque o PSB já teria definido que o candidato é Eduardo Campos e ele porque o PSDB teria fechado questão em torno de Aécio Neves. Mas, os números servem, dentre outras coisas, para implodir pretensões eleitorais e libertar vontades represadas. Neste cenário, Dilma tem 39%, Marina tem 21% e Serra 16%. Somados, Marina e Serra chegariam a 37% e forçariam um 2º turno.



Se vontades individuais não se sobrepuserem ao projeto da oposição, que é voltar ao poder depois 12 anos de governo petista, este cenário seria o melhor de todos para a oposição, pois leva Dilma a um 2º turno e com empate técnico. Os cenários mostram que a união entre Marina e Eduardo não fortaleceria a oposição no embate eleitoral com o governo, pois Eduardo segue com o pior percentual de todos e Marina só força o 2º turno se estiver junto com o PSDB.




A fotografia do momento mostra que a eleição será mais complexa do que se pensa. Mostra que bater o projeto de reeleição de Dilma requer bem mais coisa do que uma simples aliança pirotécnica entre atores políticos tão diferentes com Marina e Eduardo.




Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com


AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.






quinta-feira, 24 de outubro de 2013

ESSES POLÍTICOS E SUAS FRASES MARAVILHOSAS.



O Humorista Millôr Fernandes dizia que democracia é eu mandar em você e que ditadura é você mandar em mim. Millôr foi um mestre do humor e um dos melhores criadores de frases que eu já vi. Mas, ele sofria dura concorrência. Hoje, eu vou lembrar frases magistrais de alguns políticos brasileiros. Quando eles tentam explicar o inexplicável não dá outra, só sai pérolas do pensamento político verde-e-amarelo. Nossos políticos são grandes frasistas.


A presidente Dilma disse essa semana algo interessante na tentativa de explicar que o leilão da camada pré-sal não foi uma privatização. Dilma, com aquele jeito sério e sisudo, também não resiste a uma boa frase com pitadas de bom humor. A presidente disse que seu governo não faz privatização e sim parcerias. Ela ainda afirmou que quem faz e fez privatizações é o PSDB e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais um pouco e ela ia lembrar das “privatarias” de José Serra.


Adorei o eufemismo. A presidente foi inteligente e substituiu um termo pesado, uma expressão inconveniente para quem é candidato, por outra mais suave, mais agradável aos ouvidos do eleitor brasileiro. Assim, saiu o pejorativo termo privatização e entrou o termo parceira, que dá ideia de união. É como se todos estivessem irmanados pelo bem do Brasil. Mas, não importa o termo, o Brasil vendeu mesmo parte considerável da camada pré-sal para os chineses.


Paulo Maluf, símbolo do comportamento antirrepublicano no Brasil, é um frasista de marca maior. Maluf é um praticante do humor politicamente incorreto. Ele perde tudo, perde a viagem, perde o amigo e até o eleitor, mas não perde a chance de uma boa frase. Certa vez Maluf disse que “se você tiver uma fazenda e, na hora da colheita, tiver que optar entre um administrador petista e uma nuvem de gafanhoto, fique com os gafanhotos”. Fantástico. Nunca pensei que diria isso, mas eu concordo com Maluf. É que o jeito petista de administrar o Estado brasileiro causa tantos estragos quanto uma nuvem de gafanhotos sobre uma plantação. Vejam que a extensão dos danos causados pelos mensaleiros petistas ainda não foi devidamente calculado.


José Sarney disse certa vez que “Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”. Essa frase é de um realismo que assusta. Os políticos são assim. Quando candidatos o discurso é de esquerda, uma vez eleitos, a prática é de direita. Fernando Henrique Cardoso morou muito tempo no Chile e na França, pode estudar bastante e requintar seu estilo. Foi por isso que ele constatou que “os brasileiros são caipiras, desconhecem o outro lado, e, quando conhecem, encantam-se”. Na verdade, FHC estava se referindo a ele próprio que quando conheceu o outro lado passou a pensar e a agir como o outro lado. Nada mais caipira do que um presidente brasileiro pensando como se fosse um presidente da França.

 

Quando era presidente Fernando Collor se sentia como Luis XIV, o Rei-Sol. Certa vez, numa entrevista, afirmou (se dirigindo a jornalistas pelos quais nutria profundo desprezo) que: “Eu faço a historia vocês escrevem a historia”. Collor era assim mesmo. Ele se sentia o astro-rei, o protagonista da história, o presidente que ia acabar com a inflação com um único tiro. Ele era o cara e tinha certeza disso, tanto é que disse, em outro momento, que “eu tenho aquilo roxo”.


E Severino Cavalcanti, o rei do baixo clero, que confessou, quando deixou a Câmara dos deputados, que havia empobrecido com a política. Coitado, ficou tão pobrezinho que teve que ir assaltar os cofres da prefeitura de sua cidade. O governador do Ceará, Cid Gomes, disse em 2011 que o "professor deve trabalhar por amor não por dinheiro". Eis a frase autoexplicativa. O que mais dizer diante de um cinismo sem limites desse? Mas, Cid Gomes não fez nada de mais. Apenas deixou escapar o que a maioria dos governantes pensam sobre os professores da rede público de ensino.


Política com longo histórico em termos de frases é Martha Suplicy, aquela mesma do “relaxa e goza”. Outro dia, Martha disse que “se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar na segunda e na sexta?”. Exato. Porque, Martha Suplicy, você tem que trabalhar tanto? Podia só trabalhar uma vez por semana e depois ficar só ... relaxando. Para finalizar tem um clássico da fraseologia política brasileira. Rogério Magri, que era ministro de Collor, foi flagrado levando seu cão de estimação a um veterinário num carro oficial e deu a seguinte explicação: “mas, cachorro também é gente”.


 Que o caro ouvinte não pense que eu estou apenas fazendo graça. Na verdade, estou demonstrando que por trás das gracinhas de nossos políticos estam as verdades que eles tanto acreditam.


Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com
AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.