O
ex-presidente do Equador Rafael Correa me fez pensar: “Imagine
por um momento que Vladimir Putin capturasse Volodymyr Zelensky”. Gostaria
mesmo de saber como estaria o mundo, agora, se uma tropa de elite russa tivesse
sequestrado Zelensky e sua esposa, levando-os para uma prisão em Moscou?! O que
fariam o Império do Norte e seus asseclas europeus se Xi Jinping, presidente da
China, tivesse montado uma operação militar para invadir e reanexar Taiwan ao
território chinês? Provavelmente já estaríamos na 4ª Guerra mundial, aquela que
Albert Einstein disse que lutaríamos com paus e pedras.
Enquanto
a comunidade internacional hablaba pelos canais diplomáticos, Donald Trump
enviava sua armada para a costa venezuelana em outubro de 2025. Assim foi em
1938 – enquanto Hitler invadia a Polônia, os Aliados tentavam estabelecer
compromissos democráticos com os nazistas, como se isso fosse possível! Correa
foi certeiro em dizer que a invasão praticada pelos EUA, com o sequestro do
presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, é exemplo da hipocrisia
global e de aplicação seletiva do direito internacional.
A
operação militar na Venezuela é assustadora, porém não surpreendente. Ela
lembra ações como quando os EUA
invadiram o Panamá em 1989 e sequestraram seu presidente, Manuel Noriega,
levando-o para os EUA onde foi condenado, sob acusação de narcotráfico, a mais
de 20 anos de prisão. Na época, não importava se Noriega era traficante, pois a
questão é que ele ameaçou fechar o Canal do Panama aos EUA e países europeus.
Também não se trata de se Maduro é ou não chefe de uma organização
narcoterrorista. Importa que os EUA querem TODO O PETRÓLEO DA VENEZUELA, pois a
matriz energética do capitalismo não sobrevive a base de energia renovável que
não degrada o meio ambiente.
Os
EUA não costumam falar a verdade quando vão invadir um país ou entrar em uma
guerra. Eles preferem mistificar a realidade. Em geral, dizem que estão
defendendo a liberdade e a democracia ou que estão caçando um perigoso ditador
que é também terrorista, narcotraficante, corrupto ou coisa que o valha. Quando
o Departamento de Estados montou a Operação
Brother Sam em 1964, o governo de Lyndon Johnson disse que estava enviando
tropas ao Brasil para garantir liberdade e democracia e depor um presidente
corrupto. Simples assim!
Em 1917, o presidente Woodrow Wilson disse que
os EUA iam à Guerra Mundial para levar
democracia à Europa e o povo estadunidense apoiou o envio de tropas. Nos
anos 1950 Edward Bernays, sobrinho de Freud, trabalhava na United Fruit
Company, multinacional que produzia frutas tropicais na América Central e
Caribe. Quando o presidente da Guatemala, Jacob Árbenz, quis nacionalizar as
terras da United Fruit, Bernays produziu publicidade falsa, recheada de
desinformação, acusando Árbenz de ser um comunista a serviço da URSS e os EUA
promoveram um golpe de Estado na Guatemala, mandando a CIA depor Árbenz.
Inspirando-se
no expansionismo bélico de Hitler, Donald Trump disse que tudo
remonta à Doutrina Monroe. De fato, tudo se relaciona a Ideia Base da
Dominação de que a América é para os americanos, mesmo que os estadunidenses
estejam falando em um tal "Documento Donroe", uma espécie de acrônimo
entre os nomes de Trump e James Monroe, presidente dos EUA entre 1817 e 1825
que lançou a doutrina que colocava os EUA como nação protetora dos países
latino-americanos. Na verdade, ainda no início do século XIX, os EUA já
postulavam seus interesses intervencionistas sobre o que sempre considerou ser
o seu quintal.
As
Ideias Base da Dominação serviram (e ainda servem) para orientar a política
externa estadunidense em relação a América Latina tendo como pressuposto
(falso) que o destino dos povos latino-americanos está atado aos interesses dos
EUA sob laços de submissão. Aliás, o Estado e a sociedade estadunidenses
cultivam desde sempre um dogma de superioridade que deu lastro, por exemplo, ao
supremacismo e ao neocolonialismo.
Em
1855, eles lançaram a doutrina do Destino Manifesto para provarem ao mundo sua
autoconfiança e ambição suprema. Em “EUA X América Latina: As Etapas da
Dominação”[i], Voltaire Schilling demonstra como eles desenvolveram a ideia de
que anexar, abarcar, para si os territórios que vão do México até a Patagônia
seria o cumprimento de uma inevitável missão moral que teria sido determinada
pela providência divina. As Ideias Base partem de doutrinas (leis que orientam
a política externa por longos períodos) que vão sendo atualizadas pelos
ideários (ideias que referenciam políticas intervencionistas) e pelo corolários
(que adequam doutrina às conjunturas). Dessa forma, seria mais correta nos
referirmos a um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Se Monroe queria a
“América para os americanos” e Roosevelt a queria apenas para os americanos do
norte, Trump quer a América para ele mesmo e para seus amigos brancos,
supremacistas e ultraliberais.
Dessa
forma, fazem mais de dois séculos que os EUA sustentam em doutrinas suas ações
militares pelo mundo afora. Foi assim com a Política da Boa Vizinhança (que
visava aproximação com Brasil, Argentina, México, etc, através de relação
diplomáticas, culturais, políticas e econômicas) e com a Doutrina de Segurança
Nacional (que intervinha na América Latina com golpes de Estado e ditaduras
militarizadas durante a Guerra Fria).
Schilling afirma que as Ideias Base eram utilizadas
pelo imperialismo ianque para camuflar, por trás de princípios liberais e
humanitários, os interesses que tinha sobre as Américas Central, Caribenha e do
Sul. Apenas, temos uma diferença, na forma não no conteúdo, entre a Doutrina
Monroe e o Corolário Donroe. É que se a primeira se preocupava em ter uma
feição idealista, de que a América deveria ser dos americanos, o segundo não
tem maiores veleidades de negar o que de fato é, pois Trump até faz questão de
dizer que quer o petróleo da Venezuela e que está pouco se lixando para o que
vai ser do povo venezuelano.
O
fato é que os EUA atendem a seus propósitos e interesses ao invadirem a
Venezuela. O primeiro deles é o de se apropriar do petróleo venezuelano porque
sem este não se faz nada e o Império do Norte sabe que terá que ir à guerra
contra o mundo multipolar se quiser continuar em sua zona de conforto bipolar.
Claro, ocupar a Venezuela significa estabelecer uma base militarizada em plena
América do Sul com fronteiras escancaradas para o Mar do Caribe e toda América
Central, Colômbia, Guiana e Brasil e, consequentemente, Peru e Equador. Também,
invadir um país e depor seu presidente mostra aos aliados e reais adversários e
inimigos a verdadeira lógica perversa dos governos ultraliberais e de extrema
direita.
Reeditar
a Doutrina Monroe, com a invasão\usurpação da Venezuela, significa ao Império
do Norte voltar a se sentir “dono do mundo” e a ter, novamente, a América
Latina sob rédeas curtíssimas. Com seu Corolário, Trump faz o povo
estadunidense lembrar de quando os EUA se comportavam como a “polícia do
mundo”. Numa fantasmagórica coletiva de imprensa, logo após o sequestro de
Maduro, Trump deixou claro que governará
a Venezuela e levará Washington para Caracas e que só quando a situação
estiver estabilizada, com a extração de petróleo a todo vapor, é que fará uma
transição política, seja lá o que isso posso significar.
A
invasão da Venezuela não é um ato isolado, apenas para cumprir objetivos
localizados. Os EUA estão provando ao mundo que estão no jogo, dispostos a ir a
uma grande e universal guerra. Com suas ações, Trump traz à tona as Ideias Base
da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e
de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o ultraliberalismo. Como
bem disse seu fiel amigo, Elon Musk: "Vamos dar golpe em quem quisermos!
Lidem com isso". Ao invadir um país latino-americano, os EUA estão dizendo
ao mundo: “Vamos fazer a guerra com quem bem quisermos! Lidem com isso!”.
[i] SCHILLING, Voltaire.
EUA X América Latina: As Etapas da Dominação. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1991,