A eleição do 1º
turno terminou com Flávio Bolsonaro em 1º lugar e com Lula e o PT experimentando
o gosto azedíssimo de uma derrota que não esperavam. O próprio Lula disse que
achava que ia vencer no 1º turno, ainda que tenha dito, também, que o povo
brasileiro gosta sempre de vê-lo disputar o 2º turno.
Em uma virada espetacular, Lula venceu a eleição impondo uma derrota à extrema direita que tem vários significados, pois não só tirou a diferença do 1º para o 2º turno, como a ampliou em 2.205.226 votos. Também, não é em toda eleição, e nem em todo país, que um mesmo candidato vence o pai e o filho em duas eleições seguidas.
Inclusive, foi a primeira vez, desde o final da ditadura militar, que um candidato que terminou o 1º turno em 2º lugar venceu a disputa no 2º turno. De 1989 até 2026 tivemos dez eleições presidenciais e apenas duas (1994 e 1998) foram resolvidas já no 1º turno. Nas quatro eleições que venceu (2002, 2006, 2022 e 2026) Lula foi ao 2º turno. Esse histórico não autoriza o otimismo que tomou conta da campanha petista no 1º turno e deveria servir de exemplo para evitar a acomodação, inclusive do próprio Lula, nos meses de agosto e setembro.
Mas, o mês de outubro
foi algo épico, pois Lula precisava ter no 2º turno o que não teve no 1º. O
desafio era hercúleo, pois ele precisava realinhar seu partido e sua
coordenação de campanha, além de buscar os votos, algo em torno de 9 milhões, que Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo
Caiado, todos de direita, tiveram no 1º turno.
Para se ter ideia do feito, Lula foi reeleito com mais do dobro da vantagem que teve sobre Jair
Bolsonaro em 2022. Outro desafio de Lula era convencer os 3 milhões de
eleitores que se abstiveram no 1º turno de ir às urnas no 2º. Ele
precisava, também, convencer os 1.8 milhão de eleitores que votaram em
branco ou anularam o voto no 1º turno de votar nele no 2º. Enfim, havia margem
para aumentar o capital eleitoral.
O fato é que Lula
teve mais 10,4 milhões de votos entre o 1º e o 2º turno, passando de 45.2%
dos votos para 51.8%, ou seja, ele teve uma alta de 6.6% pontos percentuais. Já
Flávio Bolsonaro teve apenas 3,7 milhões de votos adicionais, indo de 47% para
48.2% - um crescimento pífio de 1.2%.
Estes mapas
mostram que Lula cresceu em quase todos os municípios brasileiros entre o 1º e
2º, enquanto Flávio Bolsonaro ou diminuiu ou estacionou em quase todas as cidades.
O candidato da extrema direita caiu 1.700 cidades, derretendo 30% de seu
capital eleitoral – isso explica uma derrota que terá inúmeras consequências
graves para o bolsonarismo.
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1) Todo eleição tem
um dilema a ser desvendado. Em geral, vence a eleição quem primeiro desvenda o
dilema.
Tanto no 1º como
no 2º turno o dilema era quem pautaria a eleição. No 1º turno, a direita pautou
a eleição presidencial e nos estados com sua questão única em torno da violência e da corrupção. A extrema direita impôs a tese da violência que
ameaça as famílias brasileiras. No 2º turno, a esquerda saiu das cordas,
invertendo o discurso, ao mostrar que o crime, que gera a violência, vem da
ação das milícias que defendem que cada cidadão tenha uma arma
em casa com a numeração raspada, claro.
Com a discussão
do fim da Escala 6X1, Lula pode falar sobre a questão dos direitos
sociais e trabalhistas pautando a discussão do 2º turno. Lula passou a ser o
único candidato a ter discurso, já que Flávio Bolsonaro não podia falar daquilo
que não entende, e levou a discussão
para um patamar extremamente politizado. Isso foi mortal para Flávio Bolsonaro
que não tinha como deixar de lado seu perfil virulento.
Flávio Bolsonaro ficou
encurralado: se agisse com seu perfil de liderança fascista da extrema direita,
destilando ódio, cinismo e o receituário trumpista não atingia a margem de votos
em disputa no 2º turno; se, por outro lado, tentasse ser mais moderado, mais
palatável, desagradava seu fiel eleitorado que não aceita votar em um candidato
defensor da democracia por preferir o perfil ditatorial.
2) Vence a eleição
quem consegue jogar o jogo eleitoral no terreno do adversário.
Havia uma espécie
de mantra das campanhas eleitorais que dizia que a esquerda controla as ruas
e a direita o mundo digital das redes sociais, ainda que a direita
tenha ganhado às ruas desde 2013 e a esquerda tenha se aventurado pelo mundo da
internet com personagens como André Janones, Ana Elisa Santos e Jones Manoel, eleitos para a Câmara Federal a partir de suas atuações nas redes
sociais.
A esquerda invadiu o terreno das redes sociais dominado pela direita e
impôs uma nova agenda com Lula menos analógico e mais digital.
O canal do WhatsApp “Exército de Lula”, criado por Janones, é a prova disso. Ao
mesmo tempo, os estudantes voltaram às ruas para belíssimas manifestações provando
que têm a primazia do movimento político e social nas ruas.
Desenvolver a campanha eleitoral, com novas linguagens, nas ruas e nas redes
sociais, fez Lula ganhar alcance inimaginável.
3) Questões
fundamentais que alavancaram a campanha de Lula no 2º turno.
Ao tempo em que a
mídia corporativa normalizava o extremismo da direita miliciana, a partir da ideia
de que na democracia todos têm direito de se expressar e de participar livremente,
expunha a face criminosa de uma candidatura que não apresentava currículo e sim
extensa folha corrida. Flávio Bolsonaro foi exposto para todo país,
principalmente no 2º turno, como o que ele é de fato - um perigoso miliciano
que pratica o banditismo em suas várias vertentes.
A capacidade que o PT teve de fazer uma severa autocrítica, nos dois dias que se seguiram ao domingo de eleição do 1° turno, sobre os muitos erros cometidos, foi irrepreensível. O PT foi eficiente em corrigir a rota deixando de lado certa arrogância de quem pensa que já ganhou. Lula foi, como sempre, importantíssimo ao chamar o partido e seus aliados para aquela conversa que não pode ser publicada.
Vários setores da
sociedade brasileira, os estudantes principalmente, entenderam que precisavam
urgentemente fazer alguma coisa para impedir que o banditismo da extrema
direita bolsonarista voltasse ao poder. Sem pedir permissão ou esperar algum
direcionamento, foram às ruas pedir votos para Lula e defender a democracia.
Essa eleição ficará marcada pela mobilização dos estudantes que lutaram exemplarmente!
4) Vence a eleição
quem consegue expor a verdade sobre a face obscura de um adversário de alta
periculosidade
Principalmente no
2º turno caíram todas as máscaras de Flávio Bolsonaro. Nos dois debates que
tivemos, na Band e na Globo, pudemos ver que o candidato das milícias é o que é. Ao
passo em que a imprensa corporativa e alternativa ia desvendando
e expondo a ficha corrida do candidato bolsonarista, fomos despertando para os
riscos que corríamos caso ele fosse eleito.
O debate da Band
foi fundamental para sabermos que Flavio Bolsonaro é um abusador. Ficamos
sabendo que ele é capaz de desrespeitar um homem de 80 anos de idade, que ele
mente de forma contumaz e que não responde às várias perguntas feitas para não produzir
provas contra si mesmo.
No início da
campanha, tentou-se apresentar Flávio como o “melhor dos Bolsonaros”. A ideia
era mostrá-lo como um mediador, como alguém que dialoga ao contrário de Jair Bolsonaro.
O PT e Lula fizeram o movimento contrário e passaram a apresentar Flávio como o
que de fato ele é. Quando vieram os debates, foi possível ver que a propaganda
eleitoral de Lula estava falando a verdade.
Ante scriptum (escrito ainda no domingo de
noite durante a apuração)
O fato é que tem muita gente em Brasília rodando a Crimeta de Flávio Bolsonaro, o miliciano.
A lista dos que querem se vingar é enorme dentro e fora do PL. De Alexandre de
Morais, passando Joice Hasselmann e Michele Bolsonaro, até setores da esquerda,
ninguém pensa em deixar o filho Zero-Um de Jair Bolsonaro sair impune desse processo.
É bom lembrar que a candidatura do miliciano trouxe à tona uma série de coisas
gravíssimas que precisam ser bem investigadas. Por isso mesmo, ele deve ir se
aconselhar com o pai, em seu cativeiro domiciliar, e depois deve viajar para os
EUA só com uma passagem de ida.
Donald Trump não vai fazer nada, além de pronunciar algumas sandices estapafúrdias. É que ele tem que se preocupar com as Midterms, eleições de meio de mandato, até porque o Partido Republicano está ameaçadíssimo de perder e os Democratas já avisaram que ganhando vão bancar o impeachment de Trump.
Parece existir no PL um movimento de acomodação que
começa com a demonstração de que a provável derrota é dos Bolsonaros, não do
partido. É que o PL venceu a eleição parlamentar e vai ter 1/3 do Congresso
Nacional. O PL parece querer se livrar da pecha de ser golpista. Deve haver um
rearrumação no partido para enquadrar os bolsonaristas.
Já os Bolsonaros não têm muito o que comemorar, pois
Jair está cumprindo pena, Eduardo está foragido nos EUA, Flávio deve mesmo perder
a eleição. Apenas, Carlos e Renan foram eleitos senador e deputado federal
respectivamente. Mas, Carlos é um psicopata descontrolado e Renan mal sabe articular
uma frase com mais de 3 palavras. Sem contar que Michelle foi eleita senadora e
ela é capaz de se aliar até a Alexandre de Morais para se vingar de Flávio
Bolsonaro.
Post scriptum:
Vejamos o timing das coisas após o resultado das urnas:
- Flávio Bolsonaro perde a eleição, anuncia que não reconhece o resultado, e passa a esperar que Donald Trump intervenha não reconhecendo, também, o processo eleitoral brasileiro. Mas, Trump desconversa, diz que a eleição brasileira foi fraudada, mas que gosta de Lula. Diz, ainda, que ele não é presidente do Brasil e sim dos EUA.
- Presidentes de países dos 5 continentes reconhecem a vitória de Lula, parabenizando o país pelo fortalecimento da democracia. Presidentes da direita latino-americana saúdam a vitória de Lula deixando Flávio Bolsonaro de lado.
- PL diz que não quer briga, que a eleição foi limpa, e que vai respeitar o resultado democraticamente. Waldemar Costa Neto e outras lideranças do PL pressionam Flávio Bolsonaro a fazer o mesmo.
- As urnas ainda não tinham esfriado e Flávio Bolsonaro já estava na casa do seu pai, Jair Bolsonaro, para se aconselhar.
- Alexandre de Morais cassa os passaportes de Flávio Bolsonaro, determina que ele preste depoimentos sobre os processos em que está sendo investigado no STF e o proíbe de ter algum tipo de contado com Willer Tomaz.
- Flávio Bolsonaro recua e desiste de questionar vitória de Lula nas urnas.
- Flávio Bolsonaro foge para a Argentina e de lá para os EUA.











