sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE II

 A cor como relato identitário da extrema direita

Para Novelino (1998) representar a informação significa substituir uma “entidade linguística longa e complexa” - o texto de um documento, por exemplo, por uma descrição abreviada que prove sua essência. A representação da informação realiza a transferência da informação útil para se obter a essência do documento, considerando, claro, sua recuperação. Guimarães (2003) nos diz que a cor é uma informação, desde que seja usada para organizar, hierarquizar e atribuir significado à informação.

Mas, para lidarmos com a cor como informação, temos que considerar a visualização da imagem e seu processo de significação. Aqui, interessa pouco descrever dados (ou metadados) de uma imagem por suas cores, mas sim fazer uma análise de seu conteúdo, mais especificamente do que ela pode representar por sua descrição abreviada. É por isso mesmo que Fraser & Banks (2007) afirmam que a cor informa “complexas interações de associação e simbolismo”, além de mensagem e palavras.

Vejamos como povos do Sul Global e do Hemisfério Norte dão significados diferentes ao preto e ao branco. Atentemos para o que essas cores representam para colonizadores e colonizados. Como uma sociedade estruturalmente racista dá significação ao preto e ao branco? Para os estadunidenses (do norte) ou para a maioria dos europeus, o branco é símbolo da paz e da luta pelos direitos humanos; mas para estadunidenses (do sul), latino-americanos e africanos, o branco é símbolo de opressão, violência, terror e escravidão. Em países ocidentais, ditos democráticos, o preto é a cor do luto, mas em muitos países orientais é o branco que representa o luto e que tem conotações negativas.

Para Pereira, Franca & Freitas (2023) a cor informa o que vemos a partir da conformação social em que vivemos - ela importa como fenômeno cultural e social a partir do uso que se faz do poder de comunicação política, caracterizado pelos confrontos entre grupos diferentes. Notemos os significados que o vermelho e o azul recebem historicamente, mesmo que o Partido Republicano, ao qual Donald Trump pertence, adote o vermelho. Certo, o vermelho é a cor do comunismo e de partidos e movimentos socialistas, mas também aparece nas bandeiras do Japão, Espanha, Bélgica, França, EUA, Itália, etc. É Olivo (2004) que diz que a comunicação na política tem sua própria linguagem, materializada no discurso e em símbolos.

A mensagem enviada ao eleitor se ancora em signos (cores) que conformam a imagem de uma candidatura, por exemplo. Pereira, Franca & Freitas (2023) fizeram uma análise qualitativa que gerou uma interpretação dos significados das cores que identificam princípios e norteiam comportamentos de grupos políticos. Eles tratam da intencionalidade no uso das cores que dá visibilidade às peças gráficas, informa dados de uma campanha e projetam uma imagem positiva de candidatos. 

Um movimento político de extrema direita pode considerar-se vitorioso ao tornar as cores nacionais de seu país em símbolo próprio, mesmo que perca eleições. Ao contrário do partido nazista alemão, que adotou cor inexistente na bandeira alemã para suas milícias, o bolsonarismo tornou seu o amarelo. Ele não criou um novo símbolo, pois se apoderou (ou sequestrou) a bandeira nacional. Guedes & Silva (2019) dizem que houve uma apropriação das cores e da bandeira nacionais para se atender a interesses políticos.

O processo foi tão bem idealizado que se criou uma espécie de permissão (ideológica) para quem poderia e quem não poderia usar a camisa amarela. Tornou-se algo proibitivo para os que se consideravam de esquerda usar as cores nacionais, sendo que os eleitores de Jair Bolsonaro se sentiam autorizados, para não dizer obrigados, a usarem o verde-amarelo. Também, havia (e segue havendo) o patrulhamento ideológico nas hostes da extrema direita para que não se usasse o vermelho. Pereira, Franca & Freitas (2023) confirmam isso ao demonstrarem que, ao sequestrar as cores nacionais, se afetou e deturpou o comportamento dos brasileiros em relação às cores. Podemos, por exemplo, lembrar que na Copa do Mundo de 2022 muitos se recusaram a usar verde-amarelo e até mesmo a torcer pela Seleção Brasileira pelas óbvias implicações que isso causava.

Os símbolos nacionais foram manipulados a partir do poder de suas cores em informar um conteúdo de instrumentos de legitimação políticos e ideológicos, que funcionavam como descrição abreviada, cumprindo o papel de representação da informação que substitui uma entidade linguística por um símbolo em cores vivas. Ao invés de longos discursos, ou mesmo de propaganda política exaustiva, lançavam efusivamente símbolos verde-amarelo que cumpriam a função de descrição abreviada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE I

As cores, aqui tratadas como informação, nos falam sobre lealdades políticas e ideológicas. Por isso interessa saber o papel delas no processo de empoderamento de um movimento político de massas. A cor influencia propagandas políticas e estratégias de partidos e candidatos, com as imagens servindo para compreendermos como a associação entre cores e contexto político importou no processo que levou a extrema direita ao poder.


Em 2012, ano de eleições municipais, eu compunha o corpo docente de um curso de pós-graduação lato sensu pela Universidade Estadual da Paraíba. As aulas aconteciam aos sábados e eu me deslocava a partir de Campina Grande(PB) para dar aulas. Em setembro, que antecedeu às eleições de outubro, fui lecionar a disciplina de Introdução à Política numa cidade da mesorregião do agreste paraibano. Como era de se esperar, a eleição monopolizava atenções, interesses e afetos da população local e a disputa se dava entre duas candidaturas - uma que adotava o amarelo e a outra que envergava o laranja.

A turma a qual dava aulas estava bastante contaminada pelo clima político eleitoral da cidade a ponto de parte dela vestir sempre camisas laranjas e a outra parte trajar camisas amarelas. Chamava-me atenção que não havia exceções, todas(os) as(os) alunas(os) assumiam um dos matizes políticos - ninguém usava  azul, vermelho, verde ou branco. As camisas eram iguais, tanto na cor como no modelo, e todas(os) usavam uma espécie de fardamento de campanha – calça jeans, tênis branco, camisas laranjas ou amarelas.

Mas, aconteceu que eu, inadvertida e descuidadamente, fui em um dos sábados dar aula com uma camisa laranja, idêntica as que as\os eleitoras(es) da candidatura laranja usavam. Adentrei na sala de aula e me deparei com duas reações distintas: uma parte da turma me saudou eufórica enquanto a outra demonstrou descontentamento com lamúrias de toda sorte. O fato é que não lhes passou à cabeça que eu não poderia, nem deveria, ter alguma relação com as colorações políticas daquela cidade. A única forma de contornar a situação foi trajar uma camisa amarela na aula do sábado seguinte.

Essa situação me fez refletir sobre a relação que as cores têm com a política, mesmo que já tivesse ouvido tanto sobre o uso das cores em eleições no Nordeste brasileiro. O fato é que as cores servem para que digamos ao mundo o que, como e porque somos. Se quero que todos saibam minha ideologia, uso vermelho ou azul; se desejo que entendam que me preocupo com o meio ambiente, uso verde; se estou preocupado com paz mundial, uso branco; se apoio a causa LGBTQIAPN+ uso as cores do arco-íris; se quero protestar contra a corrupção, uso preto. Da mesma forma, posso procurar me vestir com as cores do meu time de futebol, evitando usar as cores do seu principal rival.

A cor informa algo sobre nós, é uma forma de nos expressarmos. Como informação ela pode representar ideias, opiniões e crenças. A cor pode materializar ou que é imaterial. Vejamos que historicamente movimentos políticos totalitários associaram cores as suas ideias e práticas. Foi assim que o fascismo italiano adotou o preto, ficando conhecido como os “Camisas Pretas”; que o Nazismo alemão fez do marrom claro uma de suas cores oficiais; que o Integralismo brasileiro usava o verde escuro; que o Salazarismo português usava o azul; e que o fascismo mexicano era conhecido como os “Camisas Douradas”.

Para Olivo (2004) a cor é fenômeno e manifestação cultural na comunicação humana e fala de um tipo de comportamento que gera sentidos. Tudo o que se refere a cor não é devido ao acaso, pois o que ela apreende, transmite, armazena e informa é orientado por normas e preceitos sociais e culturais. A cor é própria da comunicação humana que se dá por interferência dos códigos da linguagem e dos códigos culturais.

Considerando que a cor informa desde sentimentos e afetos até interesses de toda sorte, qual seria o papel dela nos processos políticos e sociais que vivenciamos? No caso do empoderamento da extrema direita bolsonarista, entre 2013 e 2018, vimos como as cores da bandeira nacional passaram a informar a lealdade política de militantes a uma candidatura e a uma causa sustentada em valores morais (conservadores) e políticos (reacionários). Ficou manifesto que o verde-amarelo, usado pela extrema direita, seria a descrição resumida de sua conformação.

A camisa da Seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se tornou um tipo de crachá para informar que seu usuário foi ou é eleitor de Jair Bolsonaro e que aderiu a ideias e a um modus operandi comportamental. E isso ocorre pois a cor empresta significado a um movimento quando a relacionamos a uma ideologia. O amarelo representa algo na política, pois dificilmente deixaremos de relacionar ao bolsonarismo alguém que traja uma camisa da Seleção da CBF. Fraser & Banks (2007) afirmam que associamos um conceito a uma cor para levá-lo para onde bem quisermos. O conceito vai para toda parte levado pela cor, com os significados que queremos que tenha.

Mesmo com a derrota do bolsonarismo nas eleições de 2022 ainda vemos seus símbolos espalhados: são pessoas vestindo camisas da Seleção da CBF e\ou usando capacetes pintados com as cores da bandeira nacional; são carros ostentando adesivos ainda da campanha de 2022; são casas com muros pintados em verde-amarelo e edifícios ostentando a bandeira nacional em suas janelas; são lojas comerciais vendendo bandeiras, toalhas, bonés e toda quinquilharia verde-amarelo. Fato é que para parte da sociedade usar amarela é o mesmo de vestir uma camisa com a imagem de Jair Bolsonaro.

A cor, como informação, teve papel central na atuação da extrema direita entre os anos de 2013, quando ela acessou as ruas através das manifestações antidemocráticas, e 2018, quando logra êxito em levar seu principal representante à presidência da República. Aqui, analiso imagens do período citado para compreender como a associação entre cores e contexto político importa no processo que leva a extrema direita ao poder.

Também, expresso uma indignação sentida ao ver as ruas pintadas de verde-amarelo para se praticar a mãe de todos os paradoxos que é usar liberdade de expressão para pedir a volta da ditadura militar. Estou atento ao oxímoro democracia autoritária, pois parte dos brasileiros se utiliza de procedimentos democráticos (eleições, por exemplo) para pedir o fim da democracia e a implantação de uma ditadura (Soares, 2023).

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Golpes e suas tentativas no Brasil Republicano

Ao invés de termos regimes democráticos duráveis e ocasionalmente ditaduras, nos acostumamos, no Brasil, aos regimes de força intermináveis, tendo poucas situações em que formalismos democráticos eram seletivamente utilizados.

Em nossa existência republicana a regra foi sempre os regimes ditatoriais, militares ou não; já a exceção é quando adotamos regimes que se utilizam de alguns procedimentos democráticos.

Note-se que o termo “estado de exceção”, para denominar uma ditadura, não se aplica, pois, aqui, a regra é o uso do autoritarismo, da força, e a exceção é quando se pratica a democracia. Não é de se estranhar que tivemos duas longas ditaduras, com um período democrático entre elas.

1937-1945: Ditadura do Estado Novo

1945-1964: Interlúdio Democrático

1964-1985: Ditadura Militar

Aqui temos uma breve contagem de golpes de Estado e congêneres. Mas, essa lista é incompleta e falha nas denominações.



A América para os americanos do norte, supremacistas e ultraliberais!

A atualização da Doutrina Monroe através do Corolário Trump e das Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o neoliberalismo.

        O ex-presidente do Equador Rafael Correa me fez pensar: “Imagine por um momento que Vladimir Putin capturasse Volodymyr Zelensky”. Gostaria mesmo de saber como estaria o mundo, agora, se uma tropa de elite russa tivesse sequestrado Zelensky e sua esposa, levando-os para uma prisão em Moscou?! O que fariam o Império do Norte e seus asseclas europeus se Xi Jinping, presidente da China, tivesse montado uma operação militar para invadir e reanexar Taiwan ao território chinês? Provavelmente já estaríamos na 4ª Guerra mundial, aquela que Albert Einstein disse que lutaríamos com paus e pedras.

Enquanto a comunidade internacional hablaba pelos canais diplomáticos, Donald Trump enviava sua armada para a costa venezuelana em outubro de 2025. Assim foi em 1938 – enquanto Hitler invadia a Polônia, os Aliados tentavam estabelecer compromissos democráticos com os nazistas, como se isso fosse possível! Correa foi certeiro em dizer que a invasão praticada pelos EUA, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, é exemplo da hipocrisia global e de aplicação seletiva do direito internacional.

A operação militar na Venezuela é assustadora, porém não surpreendente. Ela lembra ações como quando os EUA invadiram o Panamá em 1989 e sequestraram seu presidente, Manuel Noriega, levando-o para os EUA onde foi condenado, sob acusação de narcotráfico, a mais de 20 anos de prisão. Na época, não importava se Noriega era traficante, pois a questão é que ele ameaçou fechar o Canal do Panama aos EUA e países europeus. Também não se trata de se Maduro é ou não chefe de uma organização narcoterrorista. Importa que os EUA querem TODO O PETRÓLEO DA VENEZUELA, pois a matriz energética do capitalismo não sobrevive a base de energia renovável que não degrada o meio ambiente.

Os EUA não costumam falar a verdade quando vão invadir um país ou entrar em uma guerra. Eles preferem mistificar a realidade. Em geral, dizem que estão defendendo a liberdade e a democracia ou que estão caçando um perigoso ditador que é também terrorista, narcotraficante, corrupto ou coisa que o valha. Quando o Departamento de Estados montou a Operação Brother Sam em 1964, o governo de Lyndon Johnson disse que estava enviando tropas ao Brasil para garantir liberdade e democracia e depor um presidente corrupto. Simples assim!

 


Em 1917, o presidente Woodrow Wilson disse que os EUA iam à Guerra Mundial para levar democracia à Europa e o povo estadunidense apoiou o envio de tropas. Nos anos 1950 Edward Bernays, sobrinho de Freud, trabalhava na United Fruit Company, multinacional que produzia frutas tropicais na América Central e Caribe. Quando o presidente da Guatemala, Jacob Árbenz, quis nacionalizar as terras da United Fruit, Bernays produziu publicidade falsa, recheada de desinformação, acusando Árbenz de ser um comunista a serviço da URSS e os EUA promoveram um golpe de Estado na Guatemala, mandando a CIA depor Árbenz.

Inspirando-se no expansionismo bélico de Hitler, Donald Trump disse que tudo remonta à Doutrina Monroe. De fato, tudo se relaciona a Ideia Base da Dominação de que a América é para os americanos, mesmo que os estadunidenses estejam falando em um tal "Documento Donroe", uma espécie de acrônimo entre os nomes de Trump e James Monroe, presidente dos EUA entre 1817 e 1825 que lançou a doutrina que colocava os EUA como nação protetora dos países latino-americanos. Na verdade, ainda no início do século XIX, os EUA já postulavam seus interesses intervencionistas sobre o que sempre considerou ser o seu quintal.

As Ideias Base da Dominação serviram (e ainda servem) para orientar a política externa estadunidense em relação a América Latina tendo como pressuposto (falso) que o destino dos povos latino-americanos está atado aos interesses dos EUA sob laços de submissão. Aliás, o Estado e a sociedade estadunidenses cultivam desde sempre um dogma de superioridade que deu lastro, por exemplo, ao supremacismo e ao neocolonialismo.

Em 1855, eles lançaram a doutrina do Destino Manifesto para provarem ao mundo sua autoconfiança e ambição suprema. Em “EUA X América Latina: As Etapas da Dominação”[i], Voltaire Schilling demonstra como eles desenvolveram a ideia de que anexar, abarcar, para si os territórios que vão do México até a Patagônia seria o cumprimento de uma inevitável missão moral que teria sido determinada pela providência divina. 

 

O Destino Manifesto é a doutrina citada por Trump que faz EUA se enxergarem como a nação escolhida


As Ideias Base partem de doutrinas (leis que orientam a política externa por longos períodos) que vão sendo atualizadas pelos ideários (ideias que referenciam políticas intervencionistas) e pelo corolários (que adequam doutrina às conjunturas). Dessa forma, seria mais correta nos referirmos a um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Se Monroe queria a “América para os americanos” e Roosevelt a queria apenas para os americanos do norte, Trump quer a América para ele mesmo e para seus amigos brancos, supremacistas e ultraliberais.

Dessa forma, fazem mais de dois séculos que os EUA sustentam em doutrinas suas ações militares pelo mundo afora. Foi assim com a Política da Boa Vizinhança (que visava aproximação com Brasil, Argentina, México, etc, através de relação diplomáticas, culturais, políticas e econômicas) e com a Doutrina de Segurança Nacional (que intervinha na América Latina com golpes de Estado e ditaduras militarizadas durante a Guerra Fria).

Schilling  afirma que as Ideias Base eram utilizadas pelo imperialismo ianque para camuflar, por trás de princípios liberais e humanitários, os interesses que tinha sobre as Américas Central, Caribenha e do Sul. Apenas, temos uma diferença, na forma não no conteúdo, entre a Doutrina Monroe e o Corolário Donroe. É que se a primeira se preocupava em ter uma feição idealista, de que a América deveria ser dos americanos, o segundo não tem maiores veleidades de negar o que de fato é, pois Trump até faz questão de dizer que quer o petróleo da Venezuela e que está pouco se lixando para o que vai ser do povo venezuelano.


O fato é que os EUA atendem a seus propósitos e interesses ao invadirem a Venezuela. O primeiro deles é o de se apropriar do petróleo venezuelano porque sem este não se faz nada e o Império do Norte sabe que terá que ir à guerra contra o mundo multipolar se quiser continuar em sua zona de conforto bipolar. Claro, ocupar a Venezuela significa estabelecer uma base militarizada em plena América do Sul com fronteiras escancaradas para o Mar do Caribe e toda América Central, Colômbia, Guiana e Brasil e, consequentemente, Peru e Equador. Também, invadir um país e depor seu presidente mostra aos aliados e reais adversários e inimigos a verdadeira lógica perversa dos governos ultraliberais e de extrema direita.

Reeditar a Doutrina Monroe, com a invasão\usurpação da Venezuela, significa ao Império do Norte voltar a se sentir “dono do mundo” e a ter, novamente, a América Latina sob rédeas curtíssimas. Com seu Corolário, Trump faz o povo estadunidense lembrar de quando os EUA se comportavam como a “polícia do mundo”. Numa fantasmagórica coletiva de imprensa, logo após o sequestro de Maduro, Trump deixou claro que governará a Venezuela e levará Washington para Caracas e que só quando a situação estiver estabilizada, com a extração de petróleo a todo vapor, é que fará uma transição política, seja lá o que isso posso significar.

A invasão da Venezuela não é um ato isolado, apenas para cumprir objetivos localizados. Os EUA estão provando ao mundo que estão no jogo, dispostos a ir a uma grande e universal guerra. Com suas ações, Trump traz à tona as Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o ultraliberalismo. Como bem disse seu fiel amigo, Elon Musk: "Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso". Ao invadir um país latino-americano, os EUA estão dizendo ao mundo: “Vamos fazer a guerra com quem bem quisermos! Lidem com isso!”.

 



[i] SCHILLING, Voltaire. EUA X América Latina: As Etapas da Dominação. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991,

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O FASCISMO SUPREMACISTA NA AMÉRICA (IT'S NOT DEMOCRACY, STUPID!)

         "A situação está bem feia, mande as tropas!". Essa ordem não foi dada por Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky, Recep Erdoğan, Viktor Orbán ou por Idi Amin Dada, Rafael Trujillo, Jean-Claude Duvalier ou mesmo Augusto Pinochet - sanguinários ditadores que matavam por lazer em seus países nos tempos da Guerra Fria. Na verdade, ela foi expedida por Donald Trump, o 47º presidente eleito nos Estados Unidos da América. Viva a democracia no “império da liberdade”, que se porta como uma república bananeira sul-americana!

Estamos na metade da terceira década do século XXI nos comportando como se vivêssemos nos anos 1930, pois não há um dia em que não se questione se é melhor viver em uma sociedade e um Estado democráticos ou em uma estrutura ditatorial. O caso grotesco, burlesco, dos EUA que implodiram, com bombas do fascismo supremacista, o sistema que já foi tido como modelo para o mundo ocidental é algo lancinante.

Levitsky e Ziblatt (2018) mostram como as democracias mais sólidas e tradicionais vão legalmente se enfraquecendo, “por dentro”, até perecerem. Fazem-nos pensar sobre porque as democracias se deixam dominar pelo fascismo e de como a crise política e econômica dos EUA propiciaram a ascensão de Trump. A questão é recorrente, ainda que deva ser enfrentada: por que se renuncia à democracia para se viver sob o tacão de ditaduras? Porque brasileiros, argentinos, estadunidenses, turcos, húngaros, austríacos, poloneses, russos, ucranianos, etc, aceitam que o fascismo ascenda pela via eleitoral?

Em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Marx analisa como a burguesia francesa aceitou perder a liberdade política, pela via de um golpe de Estado, para não perder sua propriedade ante um processo revolucionário. Ler o “18 Brumário” é iminente e impreterível para entendermos as limitações e contradições da democracia liberal, sendo a principal delas o que chamo de a mãe de todos os paradoxos – quando se usa procedimentos democráticos para pedir o fim da democracia. Marx analisa as sociedade forjadas pelas revoluções burguesas do século XVIII:

(elas) precipitam-se rapidamente de sucesso em sucesso, um efeito dramático é suplantado pelo próximo, pessoas e coisas parecem refulgir como brilhantes, respira-se diariamente o êxtase; porém elas têm vida curta, logo atingem o seu ponto alto e uma longa ressaca toma conta da sociedade antes que, novamente sóbria, aprenda a apropriar-se dos resultados do seu período impetuoso e combativo (Marx, 2012, p. 62).

Aqui, Marx trata da democracia que não passa de uma efemeridade em países capitalistas baseados na exploração do capital sobre o trabalho. Ele quer mesmo nos fazer ver que liberdade e igualdade são nada em um sistema que só pode funcionar se esta não existir e aquela for tão somente um direito da classe que detém os meios de produção. James Davidson demonstra essa questão na prática, quando discute o dilema da escravidão e da liberdade ocuparem o mesmo espaço, algo que atormenta o povo estadunidense desde o início do século XIX.

Quando os Estados Unidos tomaram 1,2 milhão de quilômetros quadrados de terras do México, o território recém adquirido forçou os norte-americanos a lidar com a questão [de se] escravidão e a liberdade podiam existir lado a lado? Durante anos a maioria dos norte-americanos brancos disse que sim. Eles tocavam seus negócios, conviviam com a escravidão de um jeito ou de outro e toleravam opiniões divergentes (Davidson, 2016, p. 142)

Os estadunidenses são dilemáticos, paradoxais, pois dizem venerar a liberdade, mas a contrariam desde quando forjaram um sistema republicano (democrático e federalista) no final do século XVIII. Para isso, basta ver que em nome da liberdade promoveram guerras, invasões, golpes de estado, ditaduras e intervenções de toda sorte em todo e qualquer país que lutasse por .... liberdade. Outrora modelo a ser imitado, a democracia estadunidense agoniza, pois seus princípios foram trocados por interesses de classe e do Complexo Industrial Militar que James Cook chama de um Estado total, com estratégia de guerra total, dedicado ao poder do dólar e das armas. Ele cita Eisenhower que alertou para “um colosso que domina vastas áreas da vida americana (que) é a verdadeira ameaça à democracia” e relata como os EUA adotaram, nos anos 1950, o modelo prussiano militar industrial que produz ditadores como Hitler e faz da guerra sua própria razão de ser. Trump aí está para não deixar Cook mentir.

Os EUA provam que não existem democracias imunes ao fascismo. A ironia é ver o berço da democracia moderna, o império da liberdade, agindo como república bananeira com um ditador bufão que arregimentou seguidores para invadir o parlamento. O escárnio é que, colérico com a revolta do povo preto, pobre e imigrante dos EUA, Trump (e sua malta supremacista) tenha lançado mão da ideia Coringa: "quando tudo estiver perdido, estabeleça o caos". Aceitemos a verdade sine-qua-non: a democracia não é mais hegemônica no ocidente, se é que um dia foi!

É risível que o “Império do Norte” prefira usar o toque de recolher ao invés dos procedimentos democráticos. Agora mesmo estamos vendo o governo de Trump pondo soldados da Guarda Nacional nas ruas de Los Angeles para conter protestos e manifestações contra as operações anti-imigração. A terra da liberdade não suporta ver sua população lutando por liberdade e adota despudoradamente o modus operandi das ditaduras. Trump mandou as Forças Armadas atacarem imigrantes que protestam em várias cidades da California. Na verdade, ele está hostilizando as bases da democracia porque, tal qual Hitler, quer mais é por fim nela. Comparemos as situações, pois a pregação hitleriana baseava-se na disseminação do ódio contra todos os que vinham de fora da Alemanha. O fato, é que o fascismo odeia visceralmente todos os que não são de dentro, que vem de fora.

Jamil Chade assim relatou a situação nos EUA: “Neste final de semana, a decisão da Casa Branca de usar tropas para garantir que prisões e deportações possam ser conduzidas abriu caminho para uma militarização da ação contra estrangeiros. Em postagens nas redes sociais, Trump afirmou que os manifestantes estavam liderando uma "insurreição" e que, portanto, a resposta seria determinada pelo Pentágono”.

Desde a invasão ao Capitólio, os estadunidenses veem seu sistema político derretendo sob o fogo do autoritarismo. Os Vargas, Peróns, Arbenzs, Jangos, Allendes, Dilmas, experimentam o agridoce sabor da vingança vendo o “stupid white man” tocando fogo em suas instituições democráticas. O Estado profundo dos EUA (deep state) evita falar em golpe de estado, até porque não conhece um termo, em inglês, para designar o ato de se tomar, pela força das armas, o poder conquistado pelo voto – é que nunca tinha havido um golpe de estado nos EUA. É por isso que usam a expressão francesa “coup d’état”. Poderiam até o “putsch” alemão – combinaria mais...

Como no Brasil a democracia é apenas uma fina camada sobre um espesso extrato de autoritarismo, dizemos com todas as letras que tivemos e temos golpe de Estado, intervenção militar, quartelada, ditadura. Os acadêmicos estadunidenses precisam criar uma expressão para o que pode virar regra, pois o fascismo supremacistas não se converterá à democracia liberal. O que Trump e seus bisões amestrados fizeram não difere tanto do putsch nazista de 1923. Na verdade, o fascismo precisa dessas ações teatralizadas para vir a público atestar suas reais intenções e arrecadar a simpatia popular.

Hoje, 5ª feira (12\06), parte da cidade de Los Angeles está sob toque de recolher, sitiada por Forças Militares, numa tentativa do governo de impedir que ocorram novos atos e protestos contra as operações federais de imigração de Trump que nem cogita pacificar a situação, pelo contrário, está escalando o morro autoritário em busco do cimo onde impera a violência. A ação de Trump, contra o seu próprio povo, serve para que estadunidenses parem de uma vez por todas de falar em liberdade e passem a falar de segurança, força, repressão, perseguição aos imigrantes, combate a corrupção, enfim, a pauta da direita fascista mundo afora.

 Benjamin Franklin dizia que “os que abrem mão da liberdade essencial, por um pouco de segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança”. Um dos “Pais Fundadores” dos EUA, Franklin fez parte do “iluminismo estadunidense” que defendia princípios liberais, republicanos e federalistas, se contrapunha à autoridade centralizadora, absoluta, e aos privilégios da aristocracia. Se vivo fosse, seria chamado de comunista e mandado à Cuba, pois o país que exportou um modelo de democracia não suporta ouvir falar em liberdade.

 

COOK, Fred James. O Estado militarista. São Paulo: Civilização Brasileira, 1965.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2016.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

JINKINGS, Ivana; SADER, Emir. [Orgs]. As armas da crítica – antologia do pensamento de esquerda. São Paulo: Boitempo, 2012.

domingo, 4 de maio de 2025

Minha bandeira não será o que ela nunca foi


        Polêmicas são como músicas, existem as boas e as ruins. Mas, isso é subjetivo e eu não vou cansar ninguém com minhas idiossincrasias, mesmo que não resista a uma polêmica. Essa contenda de se a camisa da seleção da CBF deve ser vermelha é considerável.

Devo dizer que não torço mais pela seleção desde o final dos anos 1990. É que ela deixou de ser brasileira ao ser “adquirida” pela CBF que chafurda num charco infestado por “Bichos Escrotos”, como diriam os Titãs. O uso da seleção para a exploração de um nacionalismo (estúpido) me tornou um apátrida futebolístico. “Ainda bem que eu sou Flamengo”, diria Djavan.

Não me importa se a cor da camisa da seleção vai ser verde, amarela, azul, vermelha, terracota, âmbar, fúcsia ou a do burro quando foge. Mas, pondero que o rubro tem relevância singular para ser banalizado numa camisa símbolo da extremosa destra nazifascista.

Gostemos ou não disso, e eu não gosto, o amarelo foi sequestrado pela extremosa bolsonarista. Como a sociedade resolveu não pagar o resgate, para ter o amarelo de volta, pois sofre de síndrome de Estocolmo, i.e., têm sentimentos positivos em relação ao sequestrador, que fique com o amarelo e faça dele péssimo proveito.

O que importa não é a camisa da seleção, que de tão desmoralizada não consegue contratar um técnico de respeito na Europa. Convém falarmos da bandeira nacional, pois ela segue emprestando o tal amarelo à seleção. O que deve ser discutido é a simbologia de nossa bandeira com tantas cores, estrelas e com aquele frase pavorosa. 

Esqueçam a baboseira de que o “verde são as matas e o amarelo é o sol”, pois essas eram as cores da monarquia portuguesa que dominou o Brasil por 4 séculos. O verde era a cor dos Bragança e o amarelo dos Habsburgo da Imperatriz Leopoldina. Já o azul não representava céus e rios e sim a esfera armilar, símbolo da navegação portuguesa.

A questão é: porque, quando do golpe de Estado que depôs Pedro II e proclamou a República, se manteve símbolos da monarquia na bandeira, mesmo que o brasão dos Bragança tenha sido substituído pelo desafamado “Ordem e Progresso”. Na verdade, o mote era: "O Amor por princípio. A Ordem por base. O Progresso por fim". Não colocaram o amor na bandeira, pois estavam implantando uma “ditadura positivista” como dizia Benjamin Constant. Além do mais, o que elite queria mesmo, ainda quer, era manter a ordem e promover o progresso. Para ela, claro!

O fato é que cultuamos uma farsa! Nossa bandeira referencia uma monarquia e um ideal tosco, que lastreou ditaduras em nossa época republicana, além de ser o símbolo maior de um movimento reacionário, conservador, autoritário, golpista e simpático ao nazifascismo. O que temos que fazer é retirar esse amarelo monárquico\positivista\bolsonarista de nossa bandeira.

Precisamos adotar cores que nos representem. E, por favor, não proponham a cor da pele da classe dominante que nos colonizou, pois o branco eurocentrista é a cor da paz que a elite escravocrata desse país sempre buscou. Que tal adotarmos o preto em nossa bandeira e na camisa da seleção, a cor da pele dos povos que foram aqui escravizados e que representa a dor e a beleza do que fomos e somos?


quarta-feira, 16 de abril de 2025

Entre Lutas e Resistências: Histórias, Memórias e Perspectivas da Esquerda em Campina Grande.

Acabou de sair o nosso e-book dedicado às memórias da esquerda em Campina Grande, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB). "Entre Lutas e Resistências: Histórias, memórias e perspectivas da esquerda em Campina Grande", foi organizada Bruno Rafael Gaudêncio e Roberto Jeferson nos últimos dois anos e meio, e conta com 36 colaborações (artigos científicos e jornalísticos, memórias e crônicas), de diversos autores, entre pesquisadores, historiadores, sociólogos, militantes, artistas e jornalistas.

Contribuo com essa coletânea com um artigo sobre quando Campina Grande era uma cidade progressista, com forte tendência à esquerda, e que valorizava a cultura popular. O artigo fala de um tempo em que não se imaginava que essa cidade ainda se tornaria o “pasto da cunhalimagem bolsonarista”. Meu artigo intitulado "CAMPINA GRANDE: UMA CIDADE QUE JÁ FOI SINISTRA" está na página 215.



APRESENTAÇÃO “A ESQUERDA EM CAMPINA GRANDE: O ANTES, O AGORA E O DEPOIS

 Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio e Roberto Jeferson Normando

 


É com grande satisfação que entregamos ao público campinense esta coletânea de ensaios, artigos, perfis, relatos e crônicas intitulada “Entre lutas e resistências: histórias, memórias e perspectivas da esquerda em Campina Grande”, constituída por vinte e seis diferentes textos, fruto de extensa pesquisa e dedicação de diversos estudiosos, entre pesquisadores acadêmicos, jornalistas, memorialistas, militantes sociais, todos comprometidos com a história progressista e política da cidade de Campina Grande.

Iniciada em 2022 e concluída só agora em 2024, desde seu início nosso compromisso foi organizar um livro dedicado a registrar uma tradição política de esquerdas na cidade de Campina Grande, em uma perspectiva de longa-duração, do início do século XX a contemporaneidade. Composta por diferentes gêneros, a obra pretendeu sistematizar os principais momentos da história campinense e o papel do pensamento progressista na formação de uma identidade política local.

Evidentemente que não foi possível dar conta de tudo. Muitos personagens, fatos, eventos, eleições e partidos ficaram de fora. Diversos colaboradores nestes mais de dois anos, envolvidos em campanhas e na militância direta, não conseguiram concluir os seus textos ou organizar suas memórias. Desta forma, as páginas deste livro procuraram trazer a necessária reflexão sobre as esquerdas de Campina Grande, elaborando diversos olhares sobre o seu passado, com uma visão crítica dos acertos, erros e adiamentos… 


Por isso, o fazer memória é um dos objetivos principais desta obra, revisitando o passado, seja na leitura de quem viveu os fatos pretéritos, seja por quem tem estudado e refletindo este passado. Partindo da premissa de que entender o presente exige compreender o passado, esta coletânea mergulha, portanto, nas raízes da tradição progressista que moldou e colaborou para parte da identidade social desta cidade ao longo do século XX e continua a influenciar seu panorama contemporâneo, procurando desconstruir certa historiografia tradicional e anacrônica que afirma que a história de Campina Grande não possui raízes esquerdistas em sua trajetória.


Basta clicar no link abaixo para baixar a versão e-book do livro e terminar de ler esta apresentação.

https://eduepb.uepb.edu.br/teste-2025/

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Porque o ódio nazi-fascista é tão disseminado em Campina Grande

Não é ao acaso, muito menos coincidência, que em Campina Grande, e na região por ela monopolizada, tenha acontecido tantas manifestações em torno do nazismo e do fascismo, com a descoberta de células em que pessoas se preparavam para atos terroristas, onde o ódio é a tônica, e com as suásticas nazistas sendo desenhadas pelas paredes da Universidade Estadual da Paraíba.

De fato, Campina Grande se tornou uma espécie de "laboratório" da extrema direita bolsonarista para a execução de seus interesses ideológicos e políticos. É bom lembrar que a cidade vem sendo governada pelo bolsonarismo desde 2013. Também, não esqueçamos que Campina Grande foi um dos primeiros municípios a aprovar a tal "Lei da Mordaça", ainda na gestão do prefeito bolsonarista Romero Rodrigues.

Ainda, temos que lembrar que um dos principais membros do "Gabinete de Ódio" de Jair Bolsonaro, Tércio Arnaud, que foi alvo de operação da Polícia Federal, é de Campina Grande. 

A chamada "Lei da mordaça" se refere a projetos de lei que propunham a limitação de procedimentos democráticos como a liberdade de expressão. A cidade de Campina Grande foi uma das primeiras, em todo o Brasil, onde a Câmara Municipal de Vereadores aprovou uma lei (em 2018) que proibia se falar sobre a "ideologia de gênero" nas escolas municipais.

A tal “Lei da Mordaça” se baseava nas ideias da “Escola sem Partido”, um dos principais pontos de atuação da extrema direita de tipo bolsonarista no Brasil inteiro, que propunha uma reação a uma suposta "doutrinação ideológica" que a esquerda faria nas escolas.

 Novas Leis em CG acendem debates sobre a censura e Estado Laico

https://portalcorreio.com.br/novas-leis-em-cg-acendem-discussao-sobre-censura-e-estado-laico/

10/09/2019 15:41

Duas recentes leis voltadas à religião e sancionadas pelo prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues (PSD), têm gerado discussões sobre censura e Estado Laico. De um lado, uma lei proíbe o “teor pornográfico em exposições artísticas nos espaços públicos do mesmo município e ainda desautoriza as que atentem contra simbolismos religiosos”, publicada no último domingo (8). Do outro, uma lei que sugere a leitura da Bíblia nas escolas de Campina Grande, sancionada no último dia 2 de setembro. De acordo com a Lei nº 7.290 (página 11), aprovada pela Câmara de Vereadores, o teor pornográfico de que trata a publicação são as “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a performance com atrizes ou atores desnudos”.

Também são barradas exposições que atentam contra elementos e objetos cultuados pelas diversas matrizes religiosas que representam o sagrado e a fé de seus seguidores. O descumprimento da lei implicará multa no valor de 500 UFR-PB, que equivalem a R$ 25.290. A multa será em dobro (R$ 50.580) para os casos de reincidências. Já a Lei nº 7.280 (página 13), sugere a leitura da Bíblia nas escolas públicas e particulares de Campina Grande. A publicação diz que essa prática tem o objetivo de trazer o conhecimento cultural, geográfico e científico, além de fatos históricos bíblicos.