Em abril de 1945, o Exército da URSS entrou na Berlim destruída pelos
combates da 2ª Guerra Mundial. Enquanto caçavam nazistas, militares soviéticos
estupraram centenas de milhares de mulheres de todas as idades. Stálin nada fez,
pois os russos viam o estupro como uma “necessidade do homem” e como forma de
subjugar o inimigo. Na Guerra do Vietnã, soldados estadunidenses se habituaram a
estuprar as vietnamitas. O governo e a sociedade dos
EUA fecharam os olhos para isso.
Sociedades contemporâneas
aceitam o estupro. O Brasil tem seu jeito de lidar com a violência contra a
mulher, buscando legitimá-la Em 2014, o Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que 26% dos brasileiros acreditam que a “mulher que exibe seu corpo
merece ser atacada”. O IPEA demonstrou que 58% dos entrevistados concordavam que “se
as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Mostrou também que 65%
dos entrevistados afirmaram que “mulher que é agredida e continua com o
parceiro gosta de apanhar”.
Em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) atualizou nossa mentalidade, obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias, mostrando que 30% dos entrevistados concordavam que a “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada” e que 37% aceitavam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. O discurso que assevera que a mulher só é vítima de agressão sexual porque provocou o homem é socialmente aceito. Isso se comprova com 30% das mulheres entrevistadas concordando com a ideia que as responsabiliza pela violência sexual praticada contra elas. Assim, a vítima em potencial aceitaria a culpa pelo estupro.
Em 2014, seguíamos achando
que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, pois a pesquisa do IPEA
revelou que 82% dos brasileiros(as) concordavam que “o que acontece entre o
casal em casa não interessa aos outros” - supunham que não se deve intrometer
no caso de um homem espancar sua esposa desde que isso aconteça no santo
recesso do lar. Através da pesquisa, entendíamos que a brasileira ainda não havia
se equiparado econômica, política e socialmente em relação ao brasileiro e que
65% dos entrevistados concordavam que “mulher que é agredida e continua com o
parceiro gosta de apanhar”. O primado do homem sobre a mulher ainda é aceito
por nós.
Em 2013, o Programa Bem-me-quer de São Paulo mostrou que metade das vítimas de estupro tinha até 11 anos de idade. Em 2014, o IPEA dava
que crianças são alvos preferenciais dos estupradores, que a maioria dos casos
contra elas aconteciam no ambiente familiar e que metade das vítimas da
violência sexual eram menor de idade. Na segunda década desse século, a
realidade na Paraíba confirmava os dados do IPEA e do FBSP. O Centro da Mulher
8 de Março, de João Pessoa, mostrava que entre o início de 2010 e novembro de 2015 foram registrados 556
estupros na Paraíba, sendo que 65,4% dos casos foram contra crianças e adolescentes.
Esses dados atestam que parte da população finge não saber que é crime tentar ter ou manter relações sexuais com uma mulher sem que ela consinta. É como se a mulher gostasse de ser violentada e provocasse o homem para que ele lhe atacasse. A ideia, anacrônica e estulta, de que um padrão de comportamento, determinado à mulher pela sociedade patriarcal, evita que ela seja estuprada é prova de nosso conservadorismo autoritário. De fato, parte considerável dos(das) brasileiros(as) seguem repetindo a ameaça: “dê-se ao respeito e não serás estuprada”.
O documentário “Half the sky” (O céu pela metade) se
baseou no livro homônimo de Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn e foi produzido (em
2012) para a PBS, a televisão pública estadunidense. Ele foi filmado em países
africanos com histórias de mulheres vítimas de tráfico, violência sexual, fome,
guerra e escravidão. Em nome de uma tradição doentia vemos casos de mulheres
estupradas e prostituídas por seus pais e maridos, sendo submetidas a
depauperante tradição da infibulação.
Certo, o que se vê em
“Half the Sky” não acontece no Brasil, pois aceitamos os valores da democracia
liberal-burguesa (neoliberal), ainda que uma cultura pretoriana (autoritária) nos faça saudosistas
da ditadura militar. Estamos longe de uma Somália ou Serra Leoa, mas não estamos
próximos de uma sociedade evoluída em termos de direitos sociais, liberdade e igualdade.
Estamos bem mais perto da Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher, pois
aqui como lá ainda se pratica o estupro coletivo, tal qual faziam os soldados
russos e estadunidenses.
Até aqui vimos dados de cerca de 15 anos atrás. Poderíamos afirmar que eles estão desatualizados? Infelizmente não! Recentemente, o Instituto de Pesquisa DataSenado trouxe mais uma rodada da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher dando conta que, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica. Mesmo que enfatize que houve redução dos índices de violência em relação a rodada de 2023, a pesquisa demonstra que a maioria das agressões ocorrem na presença de outras pessoas, principalmente filhos e filhas das mulheres vítimas das agressões.
A pesquisa traz,
também, uma percepção geral pessimista, pois 79% das brasileiras acreditam que
a violência contra a mulher aumentou e 71% consideram o Brasil um país muito
machista. Além disso trouxe um dado bastante relevante sobre a percepção das
agressões. Se até 2021 a maioria dos casos declarados falava de violência
física, a partir de 2022 a violência psicológica passou a ser a mais relatada. Assim, vemos que 88%
das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da
vida.
O FBSP lançou este
ano o “Retrato dos feminicídios no Brasil (2006-2026)”, um alentado
relatório mostrando, dentre outras coisas, que houve (entre 2021 e 2025) um
crescimento de 14,5% nos registros de feminicídios no país, sendo que em 2025
tivemos 1.568 mulheres vítimas de feminicídio – um crescimento de 4,7% em
relação ao ano de 2024.
Concomitante a isso,
temos duas pesquisas, realizadas pelo Datafolha em junho desse ano, que falam das
nossas percepções políticas e ideológicas. Na primeira pesquisa, vemos que 40% das\dos brasileiras(os) associam pobreza à “preguiça dos que
não querem trabalhar” e 58% entendem que “a pobreza está ligada à falta
de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida”. Entre as pessoas
com renda familiar superior a dez salários mínimos, 63% aderem a tese da
preguiça. Aqui, como em várias outras pesquisas, vemos a bipolaridade de
opiniões quando o assunto é o nosso comportamento que faz parte de nossa matriz
ideológica.
Na segunda pesquisa, aferiu-se que os\as brasileiros(as) se identificam majoritariamente como de direita e que as posições político-ideológicas de direita superaram as de esquerda - 44% dos brasileiros se dizem de direita ou centro-direita enquanto 39% se posicionam à esquerda ou centro-esquerda. Aqui, interessa atentar para o fato de que houve uma inversão em relação ao ano de 2022, ainda sob o governo de Jair Bolsonaro, quando 49% se diziam de esquerda e 34% de direita.
Não é mesmo fácil entender
a cabeça do povo brasileiro que se diz de direita quando sob um governo de
esquerda, mas se assume de esquerda quando sob um governo de direita. Um
exemplo disso, é que em 2014, durante o governo Dilma Rousseff (PT), a
direita reunia 45% dos entrevistados, enquanto a esquerda registrava 35%.
Seria preciso um estudo, com um método quantitativo aplicado às Ciências Sociais, que correlacionasse as variáveis da pesquisa do IPEA de 2014 (“se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”) com a variável “a pessoa é pobre porque tem preguiça de trabalhar”. Assim, talvez pudéssemos depreender que os mesmos setores da sociedade brasileira que aceitam que a mulher pode ser responsabilizada por ter sido estuprada, consentem, também, que a preguiça leva à pobreza.
No entanto, lendo nas entrelinhas, podemos inferir\deduzir que a pessoa que entende que se a mulher “souber se comportar poderá conter um estuprador” é a mesma que supõe ser verdadeira a hipótese da preguiça causando a pobreza. Se juntarmos a isso o fato de que 44% dos brasileiros se assumirem de direita ou centro de direita, poderemos ter um quadro preliminar de como pensa e se expressa política e ideologicamente nossa sociedade.









