Se o animador de auditórios da Globo, que acha que o Bolsa Família não
gera estímulos para tirar as pessoas da pobreza, é de centro esquerda, sou um
dromedário com 5 corcovas do lado esquerdo. Não existe no espectro
político-ideológico a figura do centro disso ou daquilo.
Pode-se ser de esquerda com viés liberal ou revolucionário. A
esquerda atua no cenário político capitalista, jogando o jogo da democracia
burguesa que é neoliberal. Aliás, supor que operando nas instituições políticas
burguesas é possível dotar o capitalismo de uma face humanizada é como acreditar
que o escorpião não vai picar o sapo na primeira oportunidade que tiver.
E temos a direita, que pode ser conservadora, neoliberal e\ou
filosoficamente liberal. É a direita “limpinha” que se vê acima do bem e do mal
por defender a democracia, ainda que vez por outra apoie golpes de Estados e
ditaduras. Ainda tem a extrema-direita que, claro, é fascista\nazista.
Nos EUA, a direita é republicana ou democrata, apesar de Bernie
Sanders ser de esquerda. A social-democracia defende o Estado intervindo na
economia para promover desenvolvimento e justiça social. Aqui foi representada
por Leonel Brizola, após a ditadura militar, e por setores do PT e pelo próprio
Lula. Aliás, o líder comunista Luís Carlos Prestes costumava dizer que o grande
problema de Lula e
Brizola era defender um capitalismo bonzinho – para Prestes, tentar
humanizar o capitalismo era um erro conceitual grave!
O PT tem suas tendências, que divergem, mas todas são de esquerda. O
PSOL é de esquerda e não se desloca para outro lugar. Existem partidos que renunciaram
a princípios ideológicos e se deslocaram da esquerda para a direita, ainda que mantenham
questões originais, é o caso do PDT.
Temos os de direita (PSDB, MDB, DEM) que por “oportunidades”
eleitorais adotam discurso diferente. Como não podem dizer que não são mais
aquilo que sempre foram ou que agora são uma coisa que nunca aceitaram ser,
começam a se autodenominar de centro alguma coisa como se isso repaginasse
uma imagem conhecida.
Devemos lembrar que o tal “centrão” não tem nada a ver com
ideologias. Pelo contrário, o sujeito é do “centrão” porque despreza as
ideologias políticas e apenas contempla seus interesses fisiológicos. É bom
desconfiar dos que se dizem centro alguma coisa, em geral o fazem para esconder
algo.
Sempre existiram dois lados. Escolha o seu! Não busque saídas
fáceis, não seja neutro(a), isento(a).
Não diga que não sabia, que foi enganado. Assuma e reconheça de que
lado esteve, refaça seu pensamento, se for o caso, e siga em frente. Não se
vitimize para justificar escolhas. Não se esconda atrás do biombo da
ingenuidade ou da falta de conhecimento. Se foi capaz de votar em quem defende
estupro, eugenia, escravidão\racismo, homofobia, torturadores, nazistas, seja
capaz de enfrentar consequências e se reposicione
A luta é contra o fascismo genocida e os que são contra isso são
bem-vindos. Mas, se autocritique para não repetir erros. Quem votou em Collor e
não reviu sua posição, votou em Bolsonaro. Não se trata de engano, mas de
posicionamento político e ideológico.
Sempre se poderá dizer: “me enganei com Moro, Dallagnol, Bolsonaro”
para não ter que assumir responsabilidades, mas os criminosos de guerra
nazistas ou os torturadores da ditadura militar diziam ter "apenas seguido
ordens" para justificar seus crimes. Manter-se apoiando um Bolsonaro
qualquer, significa desumanização, nazificação, manter-se aferrado ao fascismo
genocida.
“A mentalidade fascista é a mentalidade do zé-ninguém, que é
subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso
que todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do
zé-ninguém. O magnata industrial e o militarista feudal não fazem mais do que
aproveitar-se deste fato social para os seus próprios fins, depois de ele se
ter desenvolvido no domínio da repressão generalizada dos impulsos vitais. Sob
a forma de fascismo, a civilização autoritária e mecanicista colhe no
zé-ninguém reprimido nada mais do que aquilo que ele semeou nas massas de seres
humanos subjugados, por meio do misticismo, militarismo e automatismo durante
séculos. O zé-ninguém observou bem demais o comportamento do grande homem, e o
reproduz de modo distorcido e grotesco. O fascista é o segundo sargento do
exército gigantesco de nossa civilização industrial gravemente doente. Não é
impunemente que o círculo da alta política se apresenta perante o zé-ninguém;
pois o pequeno sargento excedeu em tudo o general imperialista: na música, no
passo de ganso, no comandar e no obedecer, no medo das ideias, na diplomacia,
na estratégia e na tática, nos uniformes e nas paradas, nos enfeites e nas
condecorações. Um imperador Guilherme foi em tudo isto simples “amador”, se
comparado com um Hitler, filho de um pobre funcionário público”.
"Psicologia de massas do fascismo” – Willelm Reich (1897-1957)




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