quinta-feira, 30 de julho de 2026

Jayson Blair e o dilema do serial disinformer

 

Você já ouviu falar no “Caso Jayson Blair”?, o jornalista do New York Times, conhecido como o plagiador serial mais infame do mundo, que inventava as matérias que publicava? Blair não era apenas editor de notícias falsas, ele era a própria Fake News. Ele trabalhou no New York Times, entre 1999 e 2003, quando teve que pedir demissão após um jornal do Texas denunciar um plágio. Além de falsificar notícias, Blair contava histórias de supostas viagens a vários estados dos Estados Unidos, ainda que não fosse a lugar algum, pois escrevia tudo de sua casa em Nova York.

O repórter, Jayson Blair, 27, enganou leitores e colegas do Times com despachos que ele fingia ser de Maryland, Texas e de outros estados, quando geralmente estava distante dali, em Nova York. Ele inventou comentários. Ele forjou situações. Ele usou material de outros jornais e serviços de notícias. Ele manipulou detalhes de fotografias para criar a impressão de que havia estado em certo lugar ou visto certa pessoa, quando na verdade não tinha (The New York Times, 11\5\2003). Observatório da Imprensa - Para lembrar e não repetir Jayson Blair

Blair era um serial disinformer (desinformador em série) que inventava entrevistas com pessoas com quem nunca tinha falado, que usava imagens manipuladas, que copiava trechos de outros jornais, que dava notícias de fatos que nunca tinham ocorrido, etc. Uma auditoria do New York Times apontou graves problemas em quase 40 artigos que ele publicou em alguns meses.

Jayson Blair demoliu a reputação do New York Times, que demitiu seus dois principais diretores editoriais por falta de controle e supervisão, e se tornou um case tratando dos limites da imprensa, da ética no jornalismo e da checagem de fatos. Para se ter ideia de quão grave foi o caso, um relatório do Índice Nacional de Liderança, produzido pela JFK Scholl de Harvard, que analisa o grau de confiança dos estadunidenses em instituições e lideranças, o comparou ao escândalo “Watergate” – momento em que a confiança dos cidadãos em suas instituições foi ao chão.

Certo, esse caso é inaceitável, execrável. Mas, podemos pensar um pouco sobre o que e como aconteceu. A primeira questão é que Jayson Blair praticava o que chamamos de desinformação – o ato pelo qual se cria, deliberadamente, notícias falsas, teorias da conspiração, discursos de ódio, mentiras, falseamento da realidade, para disseminar em meios (digitais ou não) de informação e comunicação como as redes sociais. O objetivo da desinformação é enganar, causar danos e dolos.


Desinformação tem centralidade no funcionamento da tal sociedade da informação e\ou do conhecimento e no (re)surgimento e na afirmação dos movimentos políticos de massa da extrema direita (que ascende ao poder para solapar a democracia). Inclusive, interessa notar que Jayson Blair se tornou um especialista em desinformação, posto que a praticava em todos os seus quadrantes e categorias, como podemos ver no quadro abaixo:

Categorias da desinformação

Descrição

  1. Conexão falsa

Manchetes, recursos visuais ou legendas que não sustentam e\ou confirmam o conteúdo.

  1. Contexto falso

Conteúdo genuíno que é compartilhado fora de contexto.

  1. Conteúdo manipulado

 

Imagens e informações genuínas que são manipuladas para enganar.

  1. Conteúdo enganoso

Uso enganoso de informações para enquadrar um problema ou indivíduo.

  1. Conteúdo impostor

Uso de fontes genuínas que podem ser imitadas.

  1. Conteúdo fabricado

Conteúdo que é totalmente falso, projetado para enganar e prejudicar.

  1. Sátira/paródia

 

Tem potencial para enganar, mas sem intenção de causar danos.

COSTA, Luciana M.; NÓBREGA, Lizete B. da; MAIA, Carolina T. Combate à desinformação na pandemia da Covid-19: a reação das plataformas digitais. In: REVISTA EPTIC. Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura. (Dossiê Temático: Economia Política da Desinformação). Vol. 23, nº 01, jan-abr, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/eptic/issue/view/1099Acesso em: 20 set. 2023.

Outra coisa, necessária para entendermos o caso Jayson Blair, porém não suficiente e que não pode servir de justificativa, é que durante todo o século XX o jornal impresso, o rádio e a televisão precediam à notícia e à informação – eles existiam para cima e além dos acontecimentos e fatos. O jornal circulava diariamente mesmo que a terra tivesse parado, como diria Raul Seixas.

Imagine a seguinte situação: o editor-chefe, de um determinado jornal, cobrando os seus jornalistas, insistentemente, por notícias para poder fechar a edição do dia seguinte, e os jornalistas, descabelados, dizendo que não tinham notícias para dar, pois não tinha acontecido nada na cidade já que o dia anterior tinha sido feriado. Talvez, o editor dissesse: “virem-se, preciso de notícias para fechar a edição!". E os Jornalistas, pressionados, se sentariam às suas máquinas de datilografar e “criariam”, tal qual Jayson Blair, notícias falsas para atender às demandas do editor. Assim, se poderia criar o hábito, numa determinada redação, de se inventar notícias quando não houvesse fatos e acontecimentos verdadeiros para se reportar no jornal ...


Em Campina Grande, nos anos 1970 e 1980, Diário da Borborema não circulava nas segundas-feiras, pois partia-se do princípio de que não haveria nada para noticiar após um final de semana, sempre modorrento, de uma cidade do interior do Nordeste brasileiro. Inclusive, muitos jornais, pelo Brasil afora, não iam às bancas nas segundas-feiras por uma questão prática - é que, do contrário, se teria que trabalhar aos domingo para entregar a edição da segunda. No Diário da Borborema, a redação funcionava entre a segunda-feira e o sábado, pois o domingo era dedicado ao descanso sagrado dos jornalistas. Se por acaso acontecesse algo relevante no domingo, podia-se esperar até a terça-feira para informar a população, pois vivíamos sem esse senso de urgência que só mesmo o advento da internet e das redes sociais nos dá.

Nos anos 1980, a edição do dia seguinte do Diário da Borborema tinha que ser fechada até as 15 horas do dia anterior, pois era mandada para João Pessoa, impressa e retornava para ser distribuída nas bancas de Campina Grande. E se acontecesse um fato importante às 17 ou 18 horas? Azar do fato e da população que só saberia do acontecido umas 36 horas depois. Como disse, vivíamos em um tempo sem essa ansiedade de saber do fato antes mesmo dele acontecer.

Agora, imagina se baixasse um Jayson Blair na redação do Diário da Borborema, lá por volta de 1982, e dissesse: "tenho um jeito de ter ‘notícias' para pôr no jornal da segunda feira ou de qualquer outro dia da semana". Ele bem que poderia perguntar ao editor-chefe: "Já ouviu falar em desinformação e Fake news?"

Em 1977, a IBM lançou uma campanha publicitária afirmando: “Information: there's growing agreement that is the name of age we live in” (Informação: há um consenso crescente de que esse é o nome da era em que vivemos). Em 2000, a AOL, primeiro fornecedor mundial de acesso à internet, afirmava em sua publicidade: “everywhere, for everyone” (em todos os lugares, para todos). Atentemos para o fato de que se tenha tido a ideia de anunciar uma nova era, baseada na informação, pois ela estava em todos os lugares, o tempo todo e em vários formatos para ser acessada por todas as pessoas. Foi quando o Diário da Borborema deixou de ser relevante, pois não mais dependeríamos dele para saber o que tinha acontecido na cidade, e não apenas no dia anterior, mas em qualquer outro momento.

Sempre que estou vendo as notícias, “sabendo de tudo que aconteceu antes mesmo de ter acontecido” ou “ficando bem-informado”, como os midiáticos publicitários da mídia coorporativa gostam de dizer, fico pensando se elas não foram editadas por algum Jayson Blair redivivo que bem que poderia ter cedido à tentação de “inventar” uma notícia movido pelos dilemas de ter que informar a qualquer custo. ATENÇÃO! TEMOS, AQUI, MACIÇAS DOSES DE PURA IRONIA!

Campina Grande segue com seus finais de semana modorrentos, onde nada de realmente importante acontece, ainda que tenhamos jornais na TV aberta na segunda-feira. Vejo, ou tento ver, as edições dos jornais locais e costumo questionar o que nelas ficaria se os editores retirassem as coisas pouco ou nada relevantes. Tenho nítida impressão de que as matérias, que “vão deixar você sempre muito bem-informado”, são o conteúdo usado para encher as linguiças, digo as notícias.

Os  jornais das TVs abertas de Campina Grande não chegam a ser um Jayson Blair, ainda que desinformem se considerarmos que existem vários tipos de desinformação. Quando o jornal está falando sobre a atitude de uma pessoa que fez uma boa ação, dando um bom exemplo, ou quando está mostrando pessoas felizes, correndo em volta do Açude Velho, ou mesmo quando traz uma matéria, sobre um show da banda Chiclete com Banana que aconteceu a 30 anos atrás, me pergunto se não teria nada mais relevante para mostrar.

Importa sabermos que um dos objetivos da desinformação é encobrir a realidade. É quando se deixa de dar uma notícia relevante para a sociedade, algo que precisamos saber, pois se refere, por exemplo, aos atos da Prefeitura Municipal e\ou da Câmara de Vereadores. A notícia que desinforma serve, em geral, para ocupar o espaço da notícia que realmente importa. Quando vejo a 2ª edição do jornal local, aqui em Campina Grande, recheada de inutilidades, trivialidades e banalidades fico a me perguntar o que teria feito o prefeito de Campina Grande, nesse mesmo dia, que tivesse impactado a minha vida e de minha família.

O sociólogo Pedro Demo (2000) já afirmou, no artigo Ambivalências da sociedade da informação, que o projeto principal pode ser mesmo o de desinformar. Para ele, “não se se trata apenas de nos entupir com informação de tal forma que já não saibamos manejar, mas de usá-la para seu oposto, no sentido mais preciso de cultivo da ignorância”. Em nosso tempo, o estado da notícia importa pouco ou nada - se ela é ou não verdadeira, se é crível ou não, se informa ou desinforma –, pois apenas versões e narrativas interessam. Se em 2003, o caso Jayson Blair incomodou tanto, hoje ele seria risível, pois vivemos nos tempos da pós-verdade, em que verdades e mentiras parecem ser a mesma coisa.


Ultrapassamos a barreira do que é verdadeiro e do que é mentiroso, autêntico e falsificado, manifesto e oculto; numa palavra, do que é certo e errado. Como bem afirmou o escritor Aldous Huxley, não por acaso especializado em ficção científica: “Uma verdade sem interesse pode ser eclipsada por uma mentira emocionante”. A verdade deixou de ser interessante, sendo substituída pela emoção, que se dá ao luxo de dispensar a credibilidade. Precisamos, então, debater os motivos pelos quais a verdade deixou de ser prioritária, ou mesmo como se tornou apenas um detalhe.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Pesquisas atualizam a percepção sobre nossa mentalidade obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias


Em abril de 1945, o Exército da URSS entrou na Berlim destruída pelos combates da 2ª Guerra Mundial. Enquanto caçavam nazistas, militares soviéticos estupraram centenas de milhares de mulheres de todas as idades. Stálin nada fez, pois os russos viam o estupro como uma “necessidade do homem” e como forma de subjugar o inimigo. Na Guerra do Vietnã, soldados estadunidenses se habituaram a estuprar as vietnamitas. O governo e a sociedade dos EUA fecharam os olhos para isso.

Sociedades contemporâneas aceitam o estupro. O Brasil tem seu jeito de lidar com a violência contra a mulher, buscando legitimá-la Em 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que 26% dos brasileiros acreditam que a “mulher que exibe seu corpo merece ser atacada”. O IPEA demonstrou que 58% dos entrevistados concordavam que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Mostrou também que 65% dos entrevistados afirmaram que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”.

Em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) atualizou nossa mentalidade, obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias, mostrando que 30% dos entrevistados concordavam que a “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada” e que 37% aceitavam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. O discurso  que assevera que a mulher só é vítima de agressão sexual porque provocou o homem é socialmente aceito. Isso se comprova com 30% das mulheres entrevistadas concordando com a ideia que as responsabiliza pela violência sexual praticada contra elas. Assim, a vítima em potencial aceitaria a culpa pelo estupro.


Em 2014, seguíamos achando que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, pois a pesquisa do IPEA revelou que 82% dos brasileiros(as) concordavam que “o que acontece entre o casal em casa não interessa aos outros” - supunham que não se deve intrometer no caso de um homem espancar sua esposa desde que isso aconteça no santo recesso do lar. Através da pesquisa, entendíamos que a brasileira ainda não havia se equiparado econômica, política e socialmente em relação ao brasileiro e que 65% dos entrevistados concordavam que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. O primado do homem sobre a mulher ainda é aceito por nós.

Em 2013, o Programa Bem-me-quer de São Paulo mostrou que metade das vítimas de estupro tinha até 11 anos de idade. Em 2014, o IPEA dava que crianças são alvos preferenciais dos estupradores, que a maioria dos casos contra elas aconteciam no ambiente familiar e que metade das vítimas da violência sexual eram menor de idade. Na segunda década desse século, a realidade na Paraíba confirmava os dados do IPEA e do FBSP. O Centro da Mulher 8 de Março, de João Pessoa, mostrava que entre o início de 2010 e novembro de 2015 foram registrados 556 estupros na Paraíba, sendo que 65,4% dos casos foram contra crianças e adolescentes.

Esses dados atestam que parte da população finge não saber que é crime tentar ter ou manter relações sexuais com uma mulher sem que ela consinta. É como se a mulher gostasse de ser violentada e provocasse o homem para que ele lhe atacasse. A ideia, anacrônica e estulta, de que um padrão de comportamento, determinado à mulher pela sociedade patriarcal, evita que ela seja estuprada é prova de nosso conservadorismo autoritário. De fato, parte considerável dos(das) brasileiros(as) seguem repetindo a ameaça: “dê-se ao respeito e não serás estuprada”.

O documentário “Half the sky” (O céu pela metade) se baseou no livro homônimo de Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn e foi produzido (em 2012) para a PBS, a televisão pública estadunidense. Ele foi filmado em países africanos com histórias de mulheres vítimas de tráfico, violência sexual, fome, guerra e escravidão. Em nome de uma tradição doentia vemos casos de mulheres estupradas e prostituídas por seus pais e maridos, sendo submetidas a depauperante tradição da infibulação.

Certo, o que se vê em “Half the Sky” não acontece no Brasil, pois aceitamos os valores da democracia liberal-burguesa (neoliberal), ainda que uma cultura pretoriana (autoritária) nos faça saudosistas da ditadura militar. Estamos longe de uma Somália ou Serra Leoa, mas não estamos próximos de uma sociedade evoluída em termos de direitos sociais, liberdade e igualdade. Estamos bem mais perto da Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher, pois aqui como lá ainda se pratica o estupro coletivo, tal qual faziam os soldados russos e estadunidenses.

 

Até aqui vimos dados de cerca de 15 anos atrás. Poderíamos afirmar que eles estão desatualizados? Infelizmente não! Recentemente, o Instituto de Pesquisa DataSenado trouxe mais uma rodada da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher dando conta que, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica. Mesmo que enfatize que houve redução dos índices de violência em relação a rodada de 2023, a pesquisa demonstra que a maioria das agressões ocorrem na presença de outras pessoas, principalmente filhos e filhas das mulheres vítimas das agressões.


A pesquisa traz, também, uma percepção geral pessimista, pois 79% das brasileiras acreditam que a violência contra a mulher aumentou e 71% consideram o Brasil um país muito machista. Além disso trouxe um dado bastante relevante sobre a percepção das agressões. Se até 2021 a maioria dos casos declarados falava de violência física, a partir de 2022 a violência psicológica passou a ser a mais relatada. Assim, vemos que 88% das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida.

O FBSP lançou este ano o “Retrato dos feminicídios no Brasil (2006-2026)”, um alentado relatório mostrando, dentre outras coisas, que houve (entre 2021 e 2025) um crescimento de 14,5% nos registros de feminicídios no país, sendo que em 2025 tivemos 1.568 mulheres vítimas de feminicídio – um crescimento de 4,7% em relação ao ano de 2024.

Concomitante a isso, temos duas pesquisas, realizadas pelo Datafolha em junho desse ano, que falam das nossas percepções políticas e ideológicas. Na primeira pesquisa, vemos que 40% das\dos brasileiras(os) associam pobreza à “preguiça dos que não querem trabalhar” e 58%  entendem que “a pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida”. Entre as pessoas com renda familiar superior a dez salários mínimos, 63% aderem a tese da preguiça. Aqui, como em várias outras pesquisas, vemos a bipolaridade de opiniões quando o assunto é o nosso comportamento que faz parte de nossa matriz ideológica.


Na segunda pesquisa, aferiu-se que os\as brasileiros(as) se identificam majoritariamente como de direita e que as posições político-ideológicas de direita superaram as de esquerda - 44% dos brasileiros se dizem de direita ou centro-direita enquanto 39% se posicionam à esquerda ou centro-esquerda. Aqui, interessa atentar para o fato de que houve uma inversão em relação ao ano de 2022, ainda sob o governo de Jair Bolsonaro, quando 49% se diziam de esquerda e 34% de direita.

Não é mesmo fácil entender a cabeça do povo brasileiro que se diz de direita quando sob um governo de esquerda, mas se assume de esquerda quando sob um governo de direita. Um exemplo disso, é que em 2014, durante o governo Dilma Rousseff (PT), a direita reunia 45% dos entrevistados, enquanto a esquerda registrava 35%.

 Seria preciso um estudo, com um método quantitativo aplicado às Ciências Sociais, que correlacionasse as variáveis da pesquisa do IPEA de 2014 (“se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”) com a variável “a pessoa é pobre porque tem preguiça de trabalhar”. Assim, talvez pudéssemos depreender que os mesmos setores da sociedade brasileira que aceitam que a mulher pode ser responsabilizada por ter sido estuprada, consentem, também, que a preguiça leva à pobreza.

No entanto, lendo nas entrelinhas, podemos inferir\deduzir que a pessoa que entende que se a mulher “souber se comportar poderá conter um estuprador” é a mesma que supõe ser verdadeira a hipótese da preguiça causando a pobreza. Se juntarmos a isso o fato de que 44% dos brasileiros se assumirem de direita ou centro de direita, poderemos ter um quadro preliminar de como pensa e se expressa política e ideologicamente nossa sociedade.



quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hoje, um tango argentino não vai melhor do que um rock in roll inglês

Em 2022 torci pela Argentina contra a França naquela final emocionante da Copa do Mundo do Qatar. Torci porque nunca me deixo contaminar por esse ódio irracional (desculpe a redundância, pois ódio não é racional) que brasileiras(os) sentem pelos argentinos e porque sempre entendi que os grandes craques do futebol merecem, ao menos uma vez, serem campeões do mundo. 

Em 2022 o grande craque, merecedor de um título mundial, era Lionel Messi. Não que eu goste dele, com aquela posse de esfinge que vive fazendo cara de paisagem para os problemas do mundo em sua volta. É imperdoável Messi não se pronunciar contra o racismo crônico da torcida argentina nos estádios de futebol. Das duas uma: ou ele é contra, mas prefere calar, ou é a favor e por isso mesmo cala-se ostensivamente.

Costumo fazer clara separação entre os grandes craques do futebol e os homens que emprestam seus corpos a esses craques: Pelé, Zico, Maradona, Romário, Ferenc Puskás, Johan Cruyff, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Garrincha, Franz Beckenbauer, Didi, Leônidas da Silva, Franz Beckenbauer, Zinedine Zidane, Sócrates, Bobby Charlton, etc, etc, etc.

Estes, e tantos outros, foram grandes craques, mas a grande maioria não foi (ou não é) um grande homem. Mesmo assim, lamento que craques como Zico, Puskás e Cruyff não tenham sido campeões do mundo – azar das Copas do Mundo! Mas, imagina o que seria da história das Copas do Mundo se Pelé não tivesse sido campeão de uma delas?!

Pelé é o deus do futebol, mesmo que os argentinos achem que não. Mas, Edson Arantes do Nascimento foi um homem com opiniões políticas questionáveis para dizer o mínimo. Ronaldo, o fenômeno do futebol, afirmou, na Copa de 2014 aqui no Brasil, que (SIC) “Copa do Mundo não se faz com hospitais”. Do homem e senador da República Romário, melhor nem falar. 


Enfim, não vai dar para torcer pela Argentina hoje! Os argentinos em campo e nas arquibancadas estão tendo um comportamento imperdoável! O racismo explícito e as músicas insuportáveis, sem contar o orgulho deles pelas vitória (passadas e atuais) com a “roubalheira explícita” ... Não, não dá mesmo! Por isso, Belchior que me perdoe, mas, hoje, um tango argentino não vai melhor do que um blues, digo, do que um bom rock in roll inglês!

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