quarta-feira, 8 de abril de 2026

Entrevista - Podcast "DEBATE NA MESA"

Podcast Debate na Mesa (Gravado em 08\04\2026)

Entrevista

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

(artigo publicado originalmente no www.theconversation.com em 02 de abril 2026, Dia Internacional da Checagem de Fatos)

 

Vivemos em uma era marcada pelo excesso de informações. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdo, notícias e dados, mas, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Esse fenômeno é conhecido como infodemia: um cenário em que informações corretas e incorretas circulam em grande volume e velocidade, gerando confusão e desinformação.

Mais do que um problema individual, a infodemia está profundamente ligada ao funcionamento das plataformas digitais. Segundo o artigo, essas plataformas operam com base na lógica do engajamento e da monetização da atenção, o que favorece a circulação de conteúdos (inclusive os falsos e distorcidos) que provocam as mais diversas reações.

Neste episódio, vamos discutir como a desinformação não é apenas um erro ou falha individual, mas parte de um sistema econômico e político que impacta diretamente a democracia, a vida social e a forma como construímos nossas verdades.

Nosso convidado é Gilbergues Santos Soares, professor do curso de História da UEPB e doutorando em Ciência da Informação pela UFPB.

 

1) Debate na Mesa: O que é infodemia e por que esse conceito se tornou tão importante nos últimos anos?

Gilbergues Santos Soares (GSS): Eu costumo dizer que infodemia é a informação adoecida que se alastra de forma viral. Infodemia é quando toda a linhagem de desinformação age em escala pandêmica para embotar, distorcer e manipular a realidade.

Dito de outra forma, Infodemia é o “excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulam com velocidade pelas plataformas digitais.

Esse conceito importa porque ele é o que melhor expressa esse estado de coisas que vivemos onde todos temos que estar “bem-informados” o tempo todo – é aquela situação em que você tem que saber de um fato antes mesmo dele acontecer – é a tal história de “saber antes” ou “você não pode ir dormir sem saber do que aconteceu”.

 

2) Debate na Mesa: Por que o excesso de informação não resolve, necessariamente, o problema da desinformação?

GSS: A primeira questão, aqui, é que Informação em excesso é um falso dilema! Antigamente já se dizia que tudo demais é veneno!

Se desinformação significasse tão somente não ter informação, ou ser mal-informado, então informação em excesso poderia ser solução. Inclusive, é comum se pensar que desinformação é não ter informação, como nos tempos da ditadura militar que havia censura e não tínhamos o aparato midiático dos dias de hoje.

Mas, a questão é não ter o que chamamos, na Ciência da Informação, de Competência Crítica em Informação (habilidades que permitem adquirirmos ferramentas para lidarmos de forma consciente com a informação). Sem isso, termina-se absorvendo todo tipo de informação, sem definir o que é ou não importante. A CCI educa para o pensamento crítico para que se esteja atento e desconfiado para a informação.

Aliás, sabe o que significa “desconfiar da informação”? É você poder se perguntar sempre que estiver recebendo uma nova informação:

1.       Qual a qualidade da fonte e que interesses ela carrega?

2.       Onde a informação foi construída e sob que condições?

3.       Quais são os propósitos de quem produziu a informação?

4.       Existe algum tipo de opressão ou benefício sobre quem produziu a informação?

O fato é que o que nos acostumamos com a ideia (falsa) de que quanto mais informações tivermos menos desinformados seremos. Tratamos a informação como panaceia, como uma solução em si mesma! Essa simplificação nos faz aceitar que se a desinformação se espalha, o único caminho é ampliar a circulação de informação qualificada para conter a desinformação. Esse é o nosso grande dilema em nossos dias!

 

3) Debate na Mesa: Como as plataformas digitais lucram com a circulação de conteúdos — inclusive os falsos?

GSS: Essa é a pergunta de 1 milhão! A primeira questão sobre isso é que as plataformas digitais são desenhadas para maximizar engajamento, velocidade, crenças e gerar lucros. Elas não se interessam muito em gerar conhecimento e compreensão. As plataformas lucram bem mais com conteúdo falsos, mentirosos, sensacionalistas, odiosos, do que com conteúdos verdadeiros. O problema é que em tempos de pós-verdade, a verdade não encanta mais!

Vejamos um exemplo. O que chamaria mais a nossa atenção no Domingo de Páscoa? Seria o Papa lendo uma mensagem (verdadeira e até enfadonha) sobre a ressureição de Jesus Cristo ou uma notícia (falsa) de que os EUA estavam invadindo a China?

As plataformas sabem que a notícia verdadeira gera poucos ou nenhum engajamento, pois ela é óbvia - é isso mesmo que se espera que o Papa faça no Domingo de Páscoa. Já a notícia falsa geraria uma comoção sensacional nas redes sociais e isso geram os tais likes, as curtidas, compartilhamentos\comentários, enfim os engajamentos, aumentando a circulação de conteúdos e os lucros das big techs.

Mas, a questão central é COMO PLATAFORMAS DIGITAIS USAM A DESINFORMAÇÃO E O EXCESSO DE INFORMAÇÃO PARA LUCRAR?

As práticas desinformacionais e a própria forma como a desinformação circula nas plataformas digitais compõem um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização. O fato é que a notícia falsa de uma invasão dos EUA à China monetiza bem mais do que a mensagem do Papa sobre Jesus Cristo. O fato é que a mentira vende mais do que a verdade!

 

4) Debate na Mesa: De que forma o engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários) está ligado à propagação da desinformação?

GSS: Partindo da premissa de que é a propagação de desinformação que gera mais engajamentos, então é preciso retroalimentar o ecossistema informacional digital com ... desinformação, pois isso alimenta o modelo de negócio plataformizado.

Eu volto a questão anterior. O que vai engajar mais? É a notícia verdadeira de que uma atriz famosa acaba de estrear um novo filme? Ou a notícia falsa de que essa mesma atriz foi traída pelo marido com outra atriz famosa? Se é a desinformação que engaja mais, e consequentemente gera mais lucros, então a ordem é produzir desinformação em escala infodêmica.

 

5) Debate na Mesa: O artigo aponta que a desinformação não é apenas um problema individual. Como ela se relaciona com estruturas econômicas e políticas maiores?

GSS: A desinformação não pode, não deve, ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação, pois ela faz parte de um fenômeno que estrutura estratégias de poder e interesses econômicos. A desinformação não circula de forma natural, espontaneamente, ela se articula com interesses políticos e econômicos e com formas de organização da comunicação nas plataformas.

Um exemplo interessante de como a propagação de desinformação não é um ato isolado, individual, são as mobilizações da extrema direita no espaço digital.

Quem não lembra do chamado “Gabinete de Ódio”, que funcionava no 3º andar do Palácio do Planalto, numa sala ao lado da sala do então presidente da República Jair Bolsonaro? O que fazia “Gabinete de Ódio”? Ele produzia desinformação para ser disseminada em escala industrial nas redes sociais. Não era uma coisa isolada, de uma única pessoa, que viralizava porque alguém não teve capacidade e condições para entender que aquilo era desinformação.

 

6) Debate na Mesa: Qual o papel das chamadas “bolhas informacionais” na intensificação da polarização e da desinformação?

GSS: Bolhas informacionais são os tais filtros criados pelos algoritmos que decidem que tipo de conteúdo será mostrado para um usuário a partir de seus interesses e de seu histórico de navegação. A bolha isola o usuário no ambiente virtual fazendo com que ele só receba informações que confirmem suas convicções, ideias e crenças. É o chamado “viés de confirmação”. O grande problema da bolha é que ela transforma mentiras em crenças.

A bolha pega o indivíduo e o aprisiona junto a milhares de outros indivíduos que pensam da mesma forma. Assim não acontece o dissenso, pois todo mundo concorda com as mesmas coisas. Além disso, o indivíduo aprisionado na bolha passa a achar que suas opiniões são majoritárias na sociedade, já que ele não é exposto ao contraditório.

 

7) Debate na Mesa: Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia ganhou força. O que esse contexto revelou sobre o funcionamento da informação nas redes?

GSS: Eu sempre digo que o período da Pandemia de Covid-19 foi um grande laboratório para que as plataformas e grupos políticos e sociais testassem suas capacidades de disseminação de desinformação nas redes sociais. Quem não lembra do então presidente Jair Bolsonaro afirmando que Covid era apenas uma “gripezinha” e que bastava tomar remédio para piolho (Ivermectina) e para malária (Cloroquina) para não se contaminar

Foi nesse momento que cresceu a falsa ideia de que a desinformação pode ser enfrentada com mais informação. O que nós vimos foi que mesmo com todas as evidências científicas, os conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação de informação. A grande questão hoje é porque mentiras, fake news, teorias conspiratórias, discursos de ódio, etc, atraem muito mais atenção do que a pura e simples verdade? E eu gostaria de dizer que a verdade existe! Ela não foi varrida da face da terra e substituída pelas tais narrativas!

 

8) Debate na Mesa: Por que responsabilizar apenas o indivíduo (como “falta de senso crítico”) pode ser uma visão limitada do problema?

GSS: Não ter senso crítico não é uma opção que cada um de nós faz em um determinado momento de nossas vidas. O que leva uma pessoa a não ter senso crítico é o meio em que ela está inserida. A pessoa não tem senso crítico, sobre a realidade política e social em que vive, apenas porque foi exposta a um processo de alienação e\ou de dominação. É por isso que responsabilizar o indivíduo, e sua falta de senso crítico, pela existência da desinformação é um equívoco.

 

9) Debate na Mesa: Como a lógica do capitalismo digital transforma informação em mercadoria e fonte de lucro?

GSS: Essa é uma questão bem complexa. Mas, podemos começar a tratar dela lembrando que Karl Marx, nos “Manuscritos Econômicos-Filosóficos” de 1844, demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas.

Ou seja, o sistema capitalista só se sustenta pelas relações de exploração que vão se renovando com o passar do tempo. Essa exploração se dava, na época da Revolução Industrial, pelos que detinham os meios de produção e o capital sobre o que detinham apenas a força de trabalho. É o que Marx chamava da relação (de exploração) do Capital sobre o Trabalho.

Essas relações de exploração se reconfiguraram em nossos dias no ambiente digital. Hoje a tecnologia digital das plataformas é a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais.

Eu vou pedir licença para reproduzir um trecho desse meu artigo que está no www.theconversation.com:

“Tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais e novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador (que hoje é chamado de usuário ou colaborador) que produz e consome ao mesmo tempo sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido”.

 

10) Debate na Mesa: Quais caminhos possíveis para enfrentar a infodemia: regulação das plataformas, educação midiática ou mudanças no modelo econômico?

GSS: Eu penso que tudo isso junto é uma estratégia para se enfrentar a infodemia e a desinformação. Começa com a regulamentação das plataformas, passa pela educação - não essa educação meritocrática que temos, mas uma educação que seja emancipadora, com consciência crítica e cidadã. Passa também por ações de “Letramento e Alfabetizações Midiáticas e Informacionais” e pelo desenvolvimento de Competências Críticas Informacionais – inclusive o Método Paulo Freire está aí para nos ensinar como fazer isso.

Agora, para fazer tudo isso é preciso mudar o modelo econômico. É preciso revolucionar o sistema econômico em que vivemos. As relações de produção precisam se transformar. Quando falamos de emancipação, estamos exatamente falando desse processo de transformação que precisa mudar o modelo de negócio que visa tão somente a acumulação de capital.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

 


Artigo publicado originalmente no www.theconversation.com em 02 de abril 2026.

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

DOI

https://doi.org/10.64628/ADE.hreyd6jtc

O Dia Internacional da Checagem de Fatos, neste 2 de abril, é mais uma oportunidade para qualificar a discussão sobre desinformação. Ela é uma marca do nosso tempo, assim como a premissa de que poderia ser combatida com mais informação. Essa ideia sustenta que ampliar o acesso a conteúdos neutralizaria as narrativas enganosas e seria suficiente para estimular práticas informacionais adequadas.

Mas informação e desinformação são produzidas e disseminadas no mesmo ecossistema informacional. Em uma era dominada pela circulação intensa de conteúdos, pelo negacionismo, pelo revisionismo e por plataformas que monetizam atenção e engajamento, somente ampliar o volume informacional não basta para reduzir o grau de desinformação.

É preciso investigar como a desinformação circula nas plataformas digitais e de que modo as práticas desinformacionais estão inscritas em um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização.

Mesmo sufocada pela desinformação, a sociedade trata a era digital e a informação como panaceias para os problemas produzidos nesse ambiente. A informação é entendida como solução em si mesma. Nesse enquadramento, a oposição entre informação e desinformação tende à simplificação: de um lado estaria a verdade; de outro, a mentira.

Dessa simplificação emerge uma leitura recorrente do problema: se a desinformação se espalha, o caminho seria ampliar a circulação de informação qualificada para contê-la. Foi nesse contexto que, durante a pandemia de Covid-19, ganhou força a noção de infodemia.

Hiperinformação e superdesinformação

Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia se difundiu como o excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulavam com velocidade pelas plataformas digitais. Cresceu a percepção de que a desinformação poderia ser enfrentada com mais informação. A experiência mostrou que, mesmo com a existência e disponibilização de muitas evidências científicas, conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação.


Ainda assim, a “sociedade da informação” oferece uma resposta centrada no indivíduo, privilegiando competências críticas e habilidades individuais para reconhecer narrativas falsas. Em vez de enfrentar as condições em que a desinformação circula, essa abordagem desloca para o sujeito a responsabilidade de distingui-la da informação. Como observa o pesquisador Rodrigo Moreno Marques (UFMG), o foco recai sobre as habilidades individuais, e não sobre o ambiente em que essas narrativas são produzidas, circulam e se fortalecem.

A desinformação não pode ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação. Trata-se de um fenômeno que estrutura estratégias de poder: em vez de circular espontaneamente, ela se articula com interesses econômicos e políticos, além de formas de organização da comunicação nas plataformas, como exemplificam as mobilizações da extrema direita no espaço digital.

Para compreender esse funcionamento, é preciso relacionar informação e desinformação à crítica da economia política. Conceitos como alienação e fetichismo, formulados pelo filósofo e economista alemão Karl Marx, ajudam a iluminar uma realidade em que narrativas operam como fatos e a circulação de conteúdos se articula a questões econômicas e sociais. Nesse quadro, o regime de informação/desinformação passa a tensionar a própria democracia.

Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Marx demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas. Essa discussão importa porque essas relações de exploração se reconfiguram no ambiente digital, em que essa tecnologia se tornou a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais.

Enquanto tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais, novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. Nesse contexto, o atual regime informacional precisa ser compreendido como parte do capitalismo para podermos falar de desinformação.

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

O novo regime de informação

O modo como a vida material e o trabalho são produzidos e organizados influencia a forma como pensamos e nos comunicamos. Em sociedades plataformizadas, em contínua expansão, as redes sociais e as big techs distribuem informação e influenciam a organização e produção da vida social, estruturada a partir de uma base econômica. As condições materiais de existência dão origem a uma superestrutura composta por dimensões sociais, políticas, culturais e intelectuais.

Assim, o conceito de alienação ajuda a entender efeitos da informação mediada pelas plataformas. Alienação ocorre quando deixamos de reconhecer ou controlar o produto de nosso trabalho. E isso se intensifica no ambiente das plataformas que retroalimenta a dinâmica de acumulação. Usuários produzem dados e conteúdos que alimentam sistemas econômicos sem que possam controlar o uso dessas informações.

Em A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e cineasta francês Guy Debord trata do indivíduo alienado pela sociedade moderna. Quanto mais o trabalhador (usuário) produz conteúdos e interações, menos vive essa experiência, se reconhecendo em imagens e narrativas dominantes, sem compreender sua posição no sistema. Quanto mais alienado do resultado de sua atividade, mais assume o papel de espectador.

Temos, portanto, a consolidação de um espetáculo alimentado por um estágio avançado de produção de mais-valor (o valor gerado pela atividade do trabalhador/usuário e apropriado economicamente pelas plataformas). Nessas condições, a participação é convertida em matéria-prima. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador/usuário, que ao mesmo tempo produz e consome, sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido.

Nesse ambiente, atividades antes ligadas ao convívio social e ao lazer passam a ser mediadas pelo consumo e pela visibilidade nas plataformas. O espetáculo descrito por Debord se atualiza: relações sociais são filtradas e organizadas por uma lógica mercantil que transforma experiências em produtos.

Informação e desinformação alienam e circulam nas redes como produtos do trabalho social. Essa produção favorece distorção, simplificação e manipulação de conteúdos. O resultado é um ambiente informacional que dificulta uma compreensão crítica da realidade.

Sob a lente da economia política

No novo regime de informação, mudam os meios e dispositivos e as plataformas se multiplicam, mas o capitalismo segue impondo as regras do jogo. Tecnologias ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos informacionais, enquanto as mesmas lógicas de acumulação continuam organizando a produção e circulação da informação.

O conceito marxiano de fetichismo da mercadoria ilumina a discussão. O fetiche ocorre quando objetos materiais passam a aparentar qualidades próprias que derivam de relações sociais - uma ilusão que nos faz aceitar a aparência de um fenômeno como se fosse sua essência. Esse mecanismo escamoteia relações sociais de dominação presentes na base do sistema, nos fazendo admitir como naturais as relações de exploração do capitalismo.

A “sociedade da informação” é tomada como dado inevitável da história, ainda que expresse interesses de classe e relações de poder. Sob as lentes da crítica da economia política, o debate não diz respeito apenas aos conteúdos gerados nas redes sociais, mas envolve também plataformas digitais, governança da internet e colonialismo digital.

Por isso menciono o conceito de fetiche da informação: é comum acreditar que o ato de se informar e/ou produzir conteúdos nas redes seja suficiente para influir na informação plataformizada. Essa percepção tende, no entanto, a ocultar as estruturas econômicas e tecnológicas que organizam, filtram e monetizam os fluxos de informação.

Nesse ambiente se multiplicam aparelhos ideológicos digitais que abusam de simplificações, omissões e uso seletivo de fontes. Esses aparelhos proliferam conteúdos falsos e oferecem produções que reinterpretam a história a partir da construção de um inimigo comum, que pode ser a “Esquerda”. Ao simplificar processos complexos e distorcer fatos históricos, esses aparelhos também alimentam desconfianças nas instituições e comprometem a formação da opinião.

A desinformação cria bolhas informacionais, reforça crenças, intensifica a polarização política e retroalimenta intolerâncias. Conteúdos polarizadores e mobilizadores geram engajamentos, ampliam a circulação de dados e alimentam a lógica de acumulação de capitais. Nesse momento, o capital aumenta exponencialmente, enquanto somos substituídos por softwares, reorganizando relações de trabalho e ampliando desigualdades.

No livro Post-Truth, o filósofo da ciência estadunidense Lee McIntyre trata da pós-verdade, em que fatos são substituídos por narrativas e evidências pouco importam. É quando a aparência se impõe sobre a essência. O compromisso com a verdade não mais importa e a sociedade da hiperinformação revela sua contradição: quanto maior o volume e a velocidade da informação e da desinformação em circulação, maior o risco de perdermos a percepção da realidade em que estamos inseridos.

quarta-feira, 25 de março de 2026

62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 ou quando ficamos sem democracia, reformas e transformações sociais

 


Laerte. Revista Caros Amigos. Ano IV - n° 15. Novembro/2002.

Edição Especial “Para onde vai a democracia?”


Passados 62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 duas questões merecem destaque, pois em prol de nosso presente é sempre imperioso olhar para o passado. Cabe ao historiador refletir sobre a realidade em que vive a partir de um processo de comparação com o que se viveu no passado. Como afirmou o historiador inglês  Peter Burke: “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”. 

 Assim, para falarmos do golpe militar de 1964, precisamos reavaliá-lo como fato histórico, pois à medida que nos distanciamos temporalmente dos acontecimentos a nossa visão sobre eles muda e, então, temos que redimensioná-los para atendermos as nossas questões políticas, sociais, culturais e existenciais ao nosso redor.

Também, temos que refletir sobre uma cultura política pretoriana herdada da ditadura militar, sem falar no que defino como nossa pobre tradição democrática da qual trato em meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um tempo perdido?”. Mesmo não desconsiderando a primeira questão, prefiro me deter na segunda, pois ela remete à nossa realidade.

Por que as memórias do golpe de 1964 e da ditadura militar ainda nos são tão vivas? Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas? Ou por termos uma Sociedade e um Estado recheados de entulhos autoritários, que o nosso débil processo de liberalização (que culminou com a implantação da chamada Nova República) não foi competente para extrair do nosso entorno político?

A principal causa para o golpe de Estado de 1964 foi a tensão (um falso dilema) existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro político-partidário nacional antagonizava estes dois fatores desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela democracia se chegaria às mudanças sociais - por isso mesmo deram o golpe. Os atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a democracia.

O confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às reformas de base destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se chegou bem conhecemos: nenhuma reforma social e democracia inexistente! Exploro essa questão no artigo 52 anos após o golpe, país não aceita o valor universal da democracia publicado em 2016 no www.uol.com.br

O processo de liberalização política (notem que não utilizo os termos redemocratização e transição política), efetivado com a eleição de Tancredo Neves, é torto, pois não afasta do cenário nacional os atores políticos relevantes da ditadura militar. O que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas - iniciado ainda em 1974 e capitaneado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.

O resultado foi um processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos do ritual democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e, principalmente, mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o poder militar.

Se democracia política são os mecanismos e práticas associados às formas de decidir em favor dos interesses sociais; além das normas que regem o bom funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre elas e a sociedade civil, veremos que não temos uma democracia minimamente consolidada. Não tivemos um processo em que Sociedade Civil e Estado firmassem um compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si durante 21 anos de autoritarismo.

Como na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina de Segurança Nacional, que dizia que o inimigo a se combater estava dentro do território nacional e não fora dele, as Forças Armadas seguem mais preocupadas com a segurança interna do que com a externa, mesmo após as tentativas de golpe de Estado entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 quando o conglomerado golpista de 2016, incluindo a extrema direita bolsonarista, quase nos leva de volta aos tempos da ditadura contra tudo e contra todos,

Vivemos um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos que avançar no sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm as armas irão obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores políticos não cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto ele estiver sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas democráticas dos resultados.

Falta-nos, ainda, aceitar que democracia deve ter um valor universal em nosso país e rejeitarmos aquele dito do humorista Millôr Fernandes:  “ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em você!”.

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).