Luciano Huck, a voz global do neoliberalismo, e os Aparelhos Ideológicos de Estado
Aconteceu mais uma
vez! Luciano Huck, apresentador de um pavoroso programa de televisão, utilizou a
amplitude e o alcance que dispõe para defender interesses e privilégios da
classe social a qual pertence e do grande capital representado pela Rede Globo.
Nada de muito novo no front - apenas mais um herdeiro do grande capital, que vive
às custas de nossa brutal desigualdade, criticando o programa Bolsa Família do
governo federal.
O professor e poeta
Georgino Neto afirmou que: “Luciano Huck criticando o Bolsa Família é mais ou
menos como um passageiro de iate reclamando que há gente demais usando boias no
mar”. Lembrando que o mesmo que critica programas sociais tentou privatizar um pedaço
de praia em Angra dos Reis (RJ) para impedir que se
tivesse acesso ao seu éden tropical. Georgino aponta a gritante diferença em
nosso país:
(...) é simbólico que a
crítica venha de alguém cuja trajetória nunca foi a epopeia meritocrática que
tentam vender. Huck não saiu do nada. Não venceu “apesar de tudo”. Não
atravessou a brutalidade estrutural reservada aos pobres brasileiros. Ele
nasceu dentro do sistema vencedor. Herdou capital econômico, cultural e social.
Fez o que muitos herdeiros competentes fazem: multiplicou vantagens que já
existiam. O problema não é só ter herdado riqueza. O problema é transformar
herança em discurso moral contra quem herdou apenas a fome.
Saudosista da
ditadura militar e neoliberal empedernido, Luciano Huck se opõe visceralmente às
políticas públicas para retirar da pobreza os descendentes de uma estrutura secularmente
desigual. Imagino que se Huck tivesse vivido na 2ª metade do século XIX teria
sido contra a abolição da escravidão para não “quebrar a economia”. Aliás, esse
é o argumento que neoliberais usam contra o fim da jornada 6X1.
Huck aproveitou sua participação no 5º Fórum Esfera para desfiar sua verborragia neoliberal contrária às políticas públicas reformistas de bem-estar social. Ele não só criticou como duvidou da eficácia dos incentivos gerados pelo programa Bolsa Família afirmando que: “O prefeito (de) Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para ficar no programa de distribuição de renda ad eternum. A gente precisa criar um estímulo”.
A jornalista e
participante do Big Brother (reality show da Rede Globo), Ana Paula Renault,
contestou o apresentador e falou dos pontos positivos da permanência de famílias em
programas de transferência de renda, afirmando que dados mostram a saída de
beneficiários do auxílio ao longo do tempo. Vale a pena citar
parte do que foi dito, pois a explicação sobre a função social do
Programa Bolsa Família é esclarecedora:
O Bolsa Família talvez seja
uma das políticas públicas mais mal interpretadas do Brasil. Durante anos,
repetiram a ideia cruel de que o brasileiro recebe o benefício e ‘se acomoda’. Um
estudo da FGV mostrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários
conseguiram deixar o Bolsa Família. (...) e se a maioria deixa de depender do
programa, isso não é fracasso. É exatamente o que uma política pública séria
deve fazer: impedir que a pobreza vire herança. O Bolsa Família não existe para
substituir o trabalho (mas) para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se
reorganizar.
Programas sociais servem
para que os que NÃO têm os mesmos privilégios\influências, oportunidades e
herança\capital de Luciano Huck possam ter alguma chance factível por uma vida
digna com alimentação, educação, saúde, moradia, etc. O Bolsa Família não prevê
manter pessoas reféns de uma módica quantia pelo resto da vida. A ideia é que o
Estado provenha, no presente, condições mínimas para que se possa, no futuro,
não mais precisar da “ajuda” estatal. Como disse Ana Paula Renault, é “impedir
que a pobreza vire herança”.
Luciano Huck promove
desinformação quando fala da dependência
"eterna" de famílias pobres do Bolsa Família,
pois em uma rápida busca no Google pode-se encontrar pesquisas e estudos feitos
pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Fundação Getúlio
Vargas (FGV) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrando que
mais da metade dos beneficiários deixaram o programa nos últimos dez anos, após
terem melhorado de vida; que os beneficiados, em sua maioria, não pararam de
procurar emprego; que aumentou a taxa de emprego, produtividade e oferta de
trabalho entre os beneficiários; e que o Bolsa Família ajuda a reduzir o
subemprego.
Dados do Ministério
do Desenvolvimento Social mostram que 2,06 milhões de
famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro de
2025. O global apresentador, que parece ainda sonhar com o Palácio do Planalto,
deveria ter buscado informações para embasar suas falas em dados e informações
críveis. Se não o fez é grave; se o fez e ainda assim ignorou os dados
dispostos é gravíssimo.
A quais interesses atende
Luciano Huck ao se colocar contra programas sociais do governo federal?
O “bom moço” da Rede
Globo manifesta os desejos, vantagens, benefícios e ganhos de sua classe social
quando utiliza seu programa dominical para projetar o ideário neoliberal que
defende que o Estado, a moral e a lei sejam plasmados à lógica do mercado.
O “Domingão do Huck” é uma peça ideológica
defendendo privatização do Estado e sua financeirização, desmonte da seguridade
social, empreendedorismo e meritocracia, valores das “famílias de bem”, sobreposição
da esfera pessoal sobre a questão social, além dos limites que a democracia
liberal impõe a um projeto revolucionário de desenvolvimento econômico e
social. O modelo aplicado no programa do Huck oferece soluções individualizadas
para problemas sociais
A especialidade de
Luciano Huck é dramatizar a pobreza e as carências do povo brasileiro para
apresentar uma solução que é sempre individualizada, nunca social, baseada no
merecimento que a pessoa faz a partir dos valores da classe dominante. Quem melhor
definiu Luciano Huck foi o jornalista Walter
Falceta: “Huck é um inimigo declarado de políticas públicas para os
vulneráveis e populações historicamente oprimidas e injustiçadas. Seu negócio é
lucrar com filantropia na telinha. Mistura a hipocrisia da esmola com o
farisaísmo descarado do falso ‘empreendedorismo’".
Mas, como diria o
rapper Emicida na Ordem natural das
coisas: “A merendeira desce, o ônibus sai \ Dona Maria já se foi, só
depois é que o sol nasce”. Já na ordem natural do mundo dominical do Huck, o
apresentador milionário sobe, a Ferrari sai e o homem branco da família
hétero-patriarcal-cristã só se vai muito tempo após o sol nascer.
Já
para Karl Marx, a classe social não é uma escolha livre do indivíduo. Huck é contra o Bolsa Família
devido a posição que ocupa na estrutura econômica e social. Huck acha que os
programas sociais viciam a população pobre por pertencer a classe que detém os
meios de produção, que é dona do capital e que controla as dadas circunstâncias
objetivas para a reprodução das condições materiais de produção.
Mas, atenção, não confundamos isso com a questão da consciência de Classe. A existência objetiva de um indivíduo, inserido em uma estrutura econômica, faz ele pertencer a uma classe social, seja consciente ou não disso. É o que Marx chamou de classe em si. É tão somente quando esse indivíduo toma consciência de que a classe social a que pertence é explorada, através do mais valor aplicado sobre o lucro gerado pela sua força de trabalho, que ele chama a classe para si para transformar a sociedade.
Quando
Luciano Huck se coloca contra o Bolsa Família está demonstrando que tem total
clareza da função de sua classe para si e para ela mesma. Não é à toa que ele presta
sua eficiência neoliberal numa superestrutura elevada sobre a estrutura (base) econômica,
para usar um conceito caro a Marx. Falo dos Aparelhos Ideológicos do Estado (da
informação e da comunicação).
Foi
por isso mesmo que Luciano Huck criticou o Bolsa Família no 5º Fórum Esfera,
um evento promovido pelo think tank Esfera Brasil, organização
dedicada ao fomento do pensamento neoliberal que reúne empresários,
empreendedores e a classe produtiva, que se diz “independente e apartidária”,
com a “missão de engajar líderes em prol do Brasil (para) a construção de um país
melhor (e) ser polo aglutinador do empreendedorismo brasileiro (...)”.
Quem
é minimamente familiarizado com ideias e objetivos dos think tanks neoliberais
sabe bem que engajar líderes, defender empreendedorismo e meritocracia, ser a
favor da transparência, da ética e da pluralidade, lutar contra a corrupção e
pelo Estado mínimo, são ideias que a classe dominante usa para a manutenção do
(seu) status quo, para assegurar (sua) hegemonia através da coerção e,
principalmente, do consenso.
Em “Aparelhos Ideológicos de Estado”, de Louis Althusser, temos a concepção marxista clássica para a ideologia, em que o filósofo francês afirma que o “homem é por natureza um animal ideológico”, parodiando Aristóteles para quem o homem é o animal político. Aqui, interessam as duas teses centrais de Althusser sobre a estrutura e o funcionamento da ideologia e de como estas se relacionam: 1) Só há prática através de e sob uma ideologia, que representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência; 2) Só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito, pois ela tem uma existência material.
A ideologia
não é uma coisa do mundo das ideias, como queria o filósofo alemão G. W. F. Hegel.
Pelo contrário, expressa as posições (e as opções) de classe seja na forma que
for – religiosa, política, moral, jurídica, cultural, etc. A ideologia se oferece
ao indivíduo da mesma forma que a consciência se origina do meio social, como
bem demonstrou Marx ao propor a inversão da teoria hegeliana em a “Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel” de 1843.
O próprio Althusser pontua, para relacionar
ideologia e formação social, que as ideologias estão depositadas nos modos de
produção combinados às formações sociais e as lutas de classe que nelas se
desenvolvem. Quando um Luciano Huck desses que temos aos montes, encastelado em
seu Aparelho Ideológico, desanca as políticas públicas governamentais está se
sustentando na ideologia forjada no modo de produção e nas relações de reprodução
desse modo.
Dito de outra forma, trata-se de aceitar
que as ideias de uma determinada crença são materiais. Para Althusser, “suas ideias
são seus atos materiais inseridos em práticas materiais”. Inclusive, essas
ideias, que podem até ser espirituais, são mediadas por rituais materiais que
são, eles mesmos, definidos pelos Aparelhos Ideológicos que dispomos em nosso entorno.
O que importa nesse momento é sabermos que a ideologia, que Luciano Huck veicula em seu programa, não é algo idealizado em um mundo à parte, mas sim que é constituída materialmente nos Aparelho Ideológico de Estado, ou seja, as instituições (escola, igreja, família, cultura, informação, política, etc) que agem na sociedade civil formatando, modelando, esculpindo, consciências para que valores, normas, leis, sejam disseminados e, assim, a classe dominante possa garantir seu poder não apenas pela força, mas, principalmente, pelo convencimento.




