quarta-feira, 25 de março de 2026

62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 ou quando ficamos sem democracia, reformas e transformações sociais

 


Laerte. Revista Caros Amigos. Ano IV - n° 15. Novembro/2002.

Edição Especial “Para onde vai a democracia?”


Passados 62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 duas questões merecem destaque, pois em prol de nosso presente é sempre imperioso olhar para o passado. Cabe ao historiador refletir sobre a realidade em que vive a partir de um processo de comparação com o que se viveu no passado. Como afirmou o historiador inglês  Peter Burke: “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”. 

 Assim, para falarmos do golpe militar de 1964, precisamos reavaliá-lo como fato histórico, pois à medida que nos distanciamos temporalmente dos acontecimentos a nossa visão sobre eles muda e, então, temos que redimensioná-los para atendermos as nossas questões políticas, sociais, culturais e existenciais ao nosso redor.

Também, temos que refletir sobre uma cultura política pretoriana herdada da ditadura militar, sem falar no que defino como nossa pobre tradição democrática da qual trato em meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um tempo perdido?”. Mesmo não desconsiderando a primeira questão, prefiro me deter na segunda, pois ela remete à nossa realidade.

Por que as memórias do golpe de 1964 e da ditadura militar ainda nos são tão vivas? Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas? Ou por termos uma Sociedade e um Estado recheados de entulhos autoritários, que o nosso débil processo de liberalização (que culminou com a implantação da chamada Nova República) não foi competente para extrair do nosso entorno político?

A principal causa para o golpe de Estado de 1964 foi a tensão (um falso dilema) existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro político-partidário nacional antagonizava estes dois fatores desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela democracia se chegaria às mudanças sociais - por isso mesmo deram o golpe. Os atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a democracia.

O confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às reformas de base destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se chegou bem conhecemos: nenhuma reforma social e democracia inexistente! Exploro essa questão no artigo 52 anos após o golpe, país não aceita o valor universal da democracia publicado em 2016 no www.uol.com.br

O processo de liberalização política (notem que não utilizo os termos redemocratização e transição política), efetivado com a eleição de Tancredo Neves, é torto, pois não afasta do cenário nacional os atores políticos relevantes da ditadura militar. O que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas - iniciado ainda em 1974 e capitaneado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.

O resultado foi um processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos do ritual democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e, principalmente, mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o poder militar.

Se democracia política são os mecanismos e práticas associados às formas de decidir em favor dos interesses sociais; além das normas que regem o bom funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre elas e a sociedade civil, veremos que não temos uma democracia minimamente consolidada. Não tivemos um processo em que Sociedade Civil e Estado firmassem um compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si durante 21 anos de autoritarismo.

Como na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina de Segurança Nacional, que dizia que o inimigo a se combater estava dentro do território nacional e não fora dele, as Forças Armadas seguem mais preocupadas com a segurança interna do que com a externa, mesmo após as tentativas de golpe de Estado entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 quando o conglomerado golpista de 2016, incluindo a extrema direita bolsonarista, quase nos leva de volta aos tempos da ditadura contra tudo e contra todos,

Vivemos um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos que avançar no sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm as armas irão obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores políticos não cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto ele estiver sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas democráticas dos resultados.

Falta-nos, ainda, aceitar que democracia deve ter um valor universal em nosso país e rejeitarmos aquele dito do humorista Millôr Fernandes:  “ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em você!”.

domingo, 22 de março de 2026

Diz-me ... Com Quem .... Te Direi Que

Estas imagens são da série "Diz-me com quem andas e eu te direi quem és!".

Dito de outra forma, deixa ver quem está atrás de você para eu poder saber o que pretendes fazer. 















Também pode-se dizer que são as eminências pardas que determinam o que vocês planejará, fará e dirá quando estiver com autoridade. 


terça-feira, 10 de março de 2026

O FETICHE DA INFORMAÇÃO EM UM MUNDO DESINFORMACIONAL

 Este artigo sugere nos preocuparmos com a desinformação, e com problemas por ela criados, além de uma reflexão sobre a supervalorização da informação em um contexto de práticas desinformacionais, pois a sociedade parece aceitar bem que informação é panaceia contra desinformação. Propõem atentarmos para a frágil assertiva de que quanto mais informações tivermos, menos desinformados seremos. Em uma era desinformacional, vejamos a forma como se divulgam conteúdos negacionistas e revisionistas a partir de um modelo de negócio que usa a desinformação para monetização.

 Vivemos sufocados pelo excesso de informação e desinformação. Hesitamos entre se é melhor lidar com regimes políticos de força, que prometem segurança ao custo da liberdade, ou se com regimes democráticos que não trazem igualdade.

Nos ufanamos da era da informação e da tecnologia digital, ainda que usemos fake news e discursos de ódio. Gostamos da democracia, mas usamos procedimentos democráticos para pedir o fim dela. Temos uma relação fetichizada com a informação, valorizando-a, mesmo que narrativas eventualmente verdadeiras existam.

Desinformação impacta nas escolhas políticas com os valores da democracia existindo para acima e além da sociedade. Opomos o bem (democracia e informação) contra o mal (autoritarismo e desinformação) como se a realidade fosse uma simples oposição entre certo e errado, opaco e translúcido, doce e amargo.

A hiperinformação como panaceia para a superdesinformação

Supervalorizamos a informação, em um contexto de práticas informacionais e de práticas de desinformação, aceitando com passividade que para se combater a desinformação é preciso massificar a informação. Dito de outra forma, quanto mais desinformação se produzir, mais informação terá que ser disseminada, como se a justaposição desta sobre aquela fosse solução única.

Vivemos a era da Infodemia, esse excesso de informações sobre tudo e sobre todos, não importando se relevantes ou não. Este termo foi difundido em função da pandemia do Covid 19, quando dados e informações (corretos e/ou incorretos) circulavam na velocidade do big data.

O recurso que a tal “sociedade da informação” oferece contra a desinformação é limitado por uma visão individualista onde a questão seria resolvida, como mostra o Profº Drº Rodrigo Moreno, quando o indivíduo detectasse conteúdos desinformativos, bastando apenas que desenvolvesse uma competência crítica informacional para isso.

Mas, desinformação é um fenômeno social complexo que lastreia, por exemplo, a atuação da extrema direita em seu percurso ao poder. Importa relacionarmos informação e desinformação a partir da crítica da economia política e das noções de fetichismo e alienação, pois lidamos com uma realidade onde narrativas são fatos.

Foquemos em um novo regime da informação\desinformação como fonte de tensionamentos em relação à democracia, ainda que se fale que a problemática da desinformação se resolveria a partir do desenvolvimento da competência crítica em informação que habilitaria pessoas a detectarem conteúdos desinformativos.

Economia política da desinformação, alienação e fetiche da informação

Nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos (1844), Karl Marx demonstrou que o trabalho é uma atividade material e que o sistema industrial capitalista explora o trabalhador, desconsiderando que parte da riqueza, investida nas indústrias, vinha da exploração da mão de obra escravizada nas Américas. Lembremos que o capital só se constitui através da acumulação concentrada e controlada pela propriedade privada.

Isso importa por tratarmos da economia política da informação\desinformação que monetiza em prol da acumulação capitalista, cuja “indústria-base” é a tecnologia digital. Em A Ideologia Alemã (1845-46), Marx e Engels dizem que a libertação dos trabalhadores não é algo idealizado, mas um  ato histórico real. Isso redundou na Tese 11 onde filósofos interpretavam o mundo sem transformá-lo.

O que Marx e Engels falavam aos filósofos contemporâneos seus é o que temos que reafirmar hoje, já que a libertação (da exploração capitalista) ainda não aconteceu, parecendo cada vez mais distante à medida em que o modelo de negócio, implementado por uma economia política plataformizada, aprofunda a acumulação de capitais.

As condições materiais e a produção social de nossa existência advém de uma base econômica que se eleva até uma superestrutura - onde o modo de produção da vida material conduz o processo social, político, intelectual e cultural. Essa discussão nos é relevante à medida em que nosso estágio de acumulação de capitais, em sociedades plataformizadas, condiciona uma superestrutura das redes sociais.

O conceito de alienação nos serve para entendermos o que nos acomete ao lidarmos com efeitos da informação plataformizada. Alienação é a consequência de uma ação sobre uma pessoa ou grupo distanciados que são dos resultados de suas atividades. Alienados ficamos quando nos tornamos alheios ao produto de nosso trabalho. A alienação é essencial para retroalimentar o sistema capitalista.

Em “A Sociedade do Espetáculo” Guy Debord trata do trabalhador\usuário alienado, pois quanto mais produz (conteúdos) menos vive, aceitando se reconhecer nas imagens dominantes, sem compreender sua existência e seus desejos. Quanto mais alienado do fruto do seu trabalho, mais espectador se torna de um espetáculo promovido pelo capital em grau elevado de acumulação e de mais-valor.

O modelo de negócio plataformizado move-se pela acintosa expropriação do tempo real da pessoa que é produtora e consumidora. O trabalhador\usuário deve sentir-se livre, mesmo que não o seja, pois o poder econômico se materializa na mercadoria que ele consome. Não é à toa que o lazer se tornou atividade de consumo e as sociabilidades foram enquadradas ao espetáculo comando pela mercadoria.

A desinformação aliena em relação à informação e ambas são produto do trabalho nas redes sociais. Informação é criação das instituições e desinformação vem de nossa estrutura social. Entendendo essa relação e seu poder de alienar o indivíduo de si mesmo, aceitemos que esse processo é efetivado pelo próprio capitalismo.

Apontando contradições das formas de produção, circulação e consumo da informação, o Profº Dr. Arthur Coelho afirma que enfrentamos dilemas éticos que se escondem sob a “fina epiderme de vidro e plástico que carregamos no bolso”, é a sociedade da hiperinformação que inaugura a era da desinformação. O século XXI nos oferece um novo regime de informação, com formas hodiernas de lidar com ela, subjugadas às mesmas relações de sempre do capitalismo.

O fetiche da mercadoria faz objetos materiais portarem características herdadas de relações sociais dominantes. Assim, fetichismo é uma ilusão que nos faz aceitar a mera aparência de um fenômeno como se fosse sua essência e se revela ao admitirmos que relações de dominação e exploração são naturais do próprio sistema capitalista.

Fetichismos escamoteiam relações sociais de dominação ocultas nas manifestações dos fenômenos informacionais. Por isso, enfrentemos, sob as lentes da crítica da economia política, o debate sobre plataformas digitais, governança da internet, colonialismo digital e, claro, desinformação.

A “sociedade da informação” sofre um estranhamento, levando-nos a tomá-la como um dado histórico regular e não como algo que representa os interesses de uma classe social, pois o mercado de trabalho capitalista escamoteia a exploração. O fetiche da informação se dá quando, por exemplo, cremos que com o ato isolado de se informar e\ou gerar conteúdos estamos influindo em todo o ecossistema informacional.

Os aparelhos ideológicos digitais da Extrema Direita

Revisionismo e negacionismo, com suas omissões e simplificações, induzem à desinformação e pululam pelas redes sociais e em plataformas diversas. Não se trata apenas de visões alternativas, mas de ausência de rigor metodológico, com uso seletivo de fontes e ausência de contrapontos.

Esses aparelhos ideológicos digitais proliferam conteúdos falsos e oferecem produções documentais que reinterpretam a história com a formatação de um inimigo comum (comunismo). Eles simplificam a realidade e optam por desinformação, impactando o debate social com conteúdos enviesados, seletivos e distorcidos que comprometem a formação de opiniões e alimentam desconfianças na democracia.

Ao disseminar desinformação criam bolhas informacionais e reforçam opiniões sem respaldo em fatos verificáveis. A desinformação se associa ao aumento da polarização política, pois a disseminação de conteúdos falsos intensifica a divisão entre grupos, retroalimenta intolerâncias, dificultando o diálogo.

Foi com desinformação que a extrema direita conduziu a campanha que elegeu Jair Bolsonaro, manipulando a população para favorecer um projeto antidemocrático. O fato é que processam e propagam informação e fatos distorcidos em proporções inimagináveis, tudo ao mesmo tempo agora.

A desinformação compõe um novo modelo de regime informacional, contribuindo para o processo de acumulação de capitais plataformizados. Nesse momento o capital aumenta exponencialmente, enquanto pessoas são substituídas por máquinas e softwares. As tecnologias da informação e da comunicação contribuem para a expansão de mercados, acumulação de riquezas e novas relações de exploração do trabalho.

Em “Post-Truth”, Lee MacIntyre (pesquisador da Universidade de Boston), tenta nos incomodar perguntando como chegamos à era da pós-verdade, em que fatos alternativos substituem fatos verídicos, sensações importam mais que evidências e crenças, intuições e afetos passam a ser mais relevantes do que a realidade.

Como vivemos em um estado de profunda inconsciência, sufocados pela desinformação, considero que perdemos as referências sobre o que é verdade e o que é mentira, aceitando a “pós-verdade”, deixando a verdade para trás. Precisamos nos atormentar com isso, pois sempre que esquecemos da verdade, os campos de concentração abundam mundo afora.

domingo, 1 de março de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE III

 A lealdade política e ideológica da extrema direita e o uso das cores da bandeira

Existem imagens que parecem prescindir de legendas e\ou explicações. A imagem da família, indo a uma manifestação vestida de verde-amarelo, que “viralizou” nas redes sociais parece bastar-se a si mesma. Podemos até compará-la à ilustração de Jean Baptiste Debret, pois vemos a mesma situação em ambas: uma família de brancos, em movimento pela rua, seguidos pelos seus serviçais.

Na figura 1, a família branca, informando pelas cores seu alinhamento à extrema direita, vai à uma manifestação pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e por uma intervenção militar, sendo seguida pela babá que guia o carrinho com os bebês. A mãe segura a coleira de um pequeno cachorro, também branco. Ela até se preocupa em olhar seus filhos, mesmo que não se dê ao trabalho de carregá-los. Nessa imagem, o verde-amarelo nos remete ao patriotismo e a simbologia de uma “família de bem”. A Figura 2  nos remete ao início do século XIX quando o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa. Aqui, pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros.

Figura 1 – Casal vestido de verde-amarelo indo à manifestação com os filhos e a babá.

A imagem da Figura 2 traz a mesma informação da Figura 1. O senhor e a senhora vão à rua com sua branca família, trazendo consigo um séquito de pessoas escravizadas ou quase isso. Notemos que pessoas pretas, em ambas as figuras, vestem branco e carregam bebês brancos. Isso prova os lugares sociais definidos a partir da cor da pele, ratificando o domínio de seus senhores.

Figura 2 -Jean Baptiste Debret – Funcionário público saindo de casa com a família e seus escravos.

Nas figuras 3 e 4, vemos pessoas comemorando o resultado da sessão do Congresso Nacional que decretou o impeachment de Dilma Rousseff. Duas senhoras brancas, loiras, de verde-amarelo, mostram taças com champanhe como símbolo de status social. Notemos que outras pessoas bebem, enquanto uma garrafa descansa em um balde de gelo. Elas emprestavam legitimidade ao ato discricionário do qual participavam e, a partir das cores que usavam, demonstravam lealdade à causa política da extrema direita. 
Figura 3 - Na Av. Paulista, manifestante favorável ao impeachment comemora o resultado da votação no Senado.  

Figura 4 - Na Av. Paulista, manifestantes favoráveis ao impeachment esperam resultado da votação no Senado. 
As figuras 5 e 6 provam o apoio maciço às pautas da extrema direita. A paleta de cores das manifestações é a mesma da bandeira nacional. Percebamos a inexistência do vermelho (a não ser em sobrinhas de carrinhos de bebidas) e o total alinhamento e lealdade aos militares para que atendam aos pedidos de intervenção na ordem social e política e (re)instaurem uma ditadura militar no país. Inclusive, nas manifestações, o verde (oliva) era sempre mais associado aos militares, enquanto o amarelo designava o bolsonarismo.
Figura 5 – Manifestantes fazem ato na Esplanada para pedir intervenção militar e prisão de Lula. 

Figura 6 – Manifestações em 2016 a favor ao impeachment e em defesa de uma intervenção militar.

Na figura 7 vemos imagens que, separadas por 51 anos, dão significado às mesmas questões e a dois atos: a tragédia do Golpe de Estado Civil-Militar de 1964 e a farsa do Golpe de Estado Jurídico, Parlamentar, Midiático e Religioso de 2016. Esses atos têm em comum a profunda descrença que parte da sociedade nutre em relação à democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas e/ou revolucionários. No entanto, existe uma diferença entre as imagens. É que a de 2015 informa as cores utilizadas como descrição abreviada – é a extrema direita informando que, sendo o verde-amarelo as cores de sua bandeira, o Brasil não seria um nova Cuba, que é vermelha. As figuras 8 e 9 representam a mesma coisa: setores da sociedade implorando aos militares para que intervenham na ordem social e política do país, usando o verde oliva para demonstrar respeito, obediência e temor às Forças Armadas.


Figura 7 – Ontem, como hoje, os mesmos medos de sempre! Fonte: Arquivo do Autor 




Figura 9 - Marcha da Família com Deus II: o Retorno - 2014. 




Figura 8 - Marcha da Família por Deus pela liberdade - 1964.

O objetivo, aqui, foi mostrar que a cor, como informação, participa de forma significante na atuação da extrema direita. Vimos que as cores influenciam questões políticas e ideológicas por possuírem a capacidade de informar sentimentos e afetos, além da centralidade de seu papel nos processos que vivenciamos. Vimos, ainda, como as cores da bandeira nacional informam a lealdade política de militantes a uma causa baseada em valores morais e políticos. De fato, o verde-amarelo da extrema direita tornou-se uma espécie de descrição abreviada, resumida, de sua conformação.

 

Figura 1 - https://m.folha.uol.com.br/esporte/2016/03/1749759-dirigente-do-flamengo-responde-a-criticas-por-foto-com-baba-em-protesto.shtml?cmpid=compfb

Figura 2 - https://tokdehistoria.com.br/2022/04/28/a-historia-do-brasil-pela-arte-de-debret/

Figura 3 - Fonte Agência O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419

Figura 4 - Fonte Agência O Globo https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419

Figura 5 - https://www.estadao.com.br/politica/manifestantes-fazem-ato-na-esplanada-para-pedir-intervencao-militar-e-ate-prisao-de-lula/

Figura 6 - https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/03/22/interna_politica,510777/marcha-da-familia-tem-confronto-no-rio.shtml

Figura 7 - Fonte Arquivo do autor 

Figura 8 - Fonte Arquivo do autor

Referências

FRASER, Tom; BANKS, Adam. O guia completo da cor (Livro essencial para a consciência das cores). 2ª ed. São Paulo: Ed. Senac, 2007.

GUEDES, Simoni Lahud; SILVA, Edilson M. Almeida da. O segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia, 3, 73-89. En Memoria Académica, 2019. Disponível em: http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.9691/pr.9691.pdf Acesso: 04 fev. 2025.

Guimarães, Luciano. As cores na mídia: A organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.

NOVELINO, Maria Salet Ferreira. A linguagem como meio de representação ou de comunicação da informação. Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 137 - 146, jul./dez.1998. Disponível em https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/22325/17926 . Acesso: 15 set. 2024.

OLIVO, Júlio César Cancellier. A cor na propaganda política: significados e produção de sentidos. Florianópolis-SC.  Anais do 6º Encontro do Celsul - Círculo de Estudos Linguísticos do Sul, novembro, 2004. Disponível em: https://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/CELSUL_VI/index.htm  Acesso: 30 jan. 2025.

PEREIRA, C.; FRANCA, H.; FREITAS, S. O significado das cores nas eleições presidenciais de 2022: uma análise de artefatos gráficos da campanha do PL. Anais do 11º CIDI e 11º CONGIC. Sociedade Brasileira de Design da Informação – SBDI. Caruaru, 2023. Disponível em: https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-significado-das-cores-nas-eleies-presidenciais-de-2022-uma-anlise-de-artefatos-grficos-da-campanha-do-pl-39096 Acesso: 27 jan. 2025.

SOARES, Gilbergues Santos. Do que ainda posso falar e outros ensaios (Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar). Campina Grande\ PB: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), 2023.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE II

 A cor como relato identitário da extrema direita

Para Novelino (1998) representar a informação significa substituir uma “entidade linguística longa e complexa” - o texto de um documento, por exemplo, por uma descrição abreviada que prove sua essência. A representação da informação realiza a transferência da informação útil para se obter a essência do documento, considerando, claro, sua recuperação. Guimarães (2003) nos diz que a cor é uma informação, desde que seja usada para organizar, hierarquizar e atribuir significado à informação.

Mas, para lidarmos com a cor como informação, temos que considerar a visualização da imagem e seu processo de significação. Aqui, interessa pouco descrever dados (ou metadados) de uma imagem por suas cores, mas sim fazer uma análise de seu conteúdo, mais especificamente do que ela pode representar por sua descrição abreviada. É por isso mesmo que Fraser & Banks (2007) afirmam que a cor informa “complexas interações de associação e simbolismo”, além de mensagem e palavras.

Vejamos como povos do Sul Global e do Hemisfério Norte dão significados diferentes ao preto e ao branco. Atentemos para o que essas cores representam para colonizadores e colonizados. Como uma sociedade estruturalmente racista dá significação ao preto e ao branco? Para os estadunidenses (do norte) ou para a maioria dos europeus, o branco é símbolo da paz e da luta pelos direitos humanos; mas para estadunidenses (do sul), latino-americanos e africanos, o branco é símbolo de opressão, violência, terror e escravidão. Em países ocidentais, ditos democráticos, o preto é a cor do luto, mas em muitos países orientais é o branco que representa o luto e que tem conotações negativas.

Para Pereira, Franca & Freitas (2023) a cor informa o que vemos a partir da conformação social em que vivemos - ela importa como fenômeno cultural e social a partir do uso que se faz do poder de comunicação política, caracterizado pelos confrontos entre grupos diferentes. Notemos os significados que o vermelho e o azul recebem historicamente, mesmo que o Partido Republicano, ao qual Donald Trump pertence, adote o vermelho. Certo, o vermelho é a cor do comunismo e de partidos e movimentos socialistas, mas também aparece nas bandeiras do Japão, Espanha, Bélgica, França, EUA, Itália, etc. É Olivo (2004) que diz que a comunicação na política tem sua própria linguagem, materializada no discurso e em símbolos.

A mensagem enviada ao eleitor se ancora em signos (cores) que conformam a imagem de uma candidatura, por exemplo. Pereira, Franca & Freitas (2023) fizeram uma análise qualitativa que gerou uma interpretação dos significados das cores que identificam princípios e norteiam comportamentos de grupos políticos. Eles tratam da intencionalidade no uso das cores que dá visibilidade às peças gráficas, informa dados de uma campanha e projetam uma imagem positiva de candidatos. 

Um movimento político de extrema direita pode considerar-se vitorioso ao tornar as cores nacionais de seu país em símbolo próprio, mesmo que perca eleições. Ao contrário do partido nazista alemão, que adotou cor inexistente na bandeira alemã para suas milícias, o bolsonarismo tornou seu o amarelo. Ele não criou um novo símbolo, pois se apoderou (ou sequestrou) a bandeira nacional. Guedes & Silva (2019) dizem que houve uma apropriação das cores e da bandeira nacionais para se atender a interesses políticos.

O processo foi tão bem idealizado que se criou uma espécie de permissão (ideológica) para quem poderia e quem não poderia usar a camisa amarela. Tornou-se algo proibitivo para os que se consideravam de esquerda usar as cores nacionais, sendo que os eleitores de Jair Bolsonaro se sentiam autorizados, para não dizer obrigados, a usarem o verde-amarelo. Também, havia (e segue havendo) o patrulhamento ideológico nas hostes da extrema direita para que não se usasse o vermelho. Pereira, Franca & Freitas (2023) confirmam isso ao demonstrarem que, ao sequestrar as cores nacionais, se afetou e deturpou o comportamento dos brasileiros em relação às cores. Podemos, por exemplo, lembrar que na Copa do Mundo de 2022 muitos se recusaram a usar verde-amarelo e até mesmo a torcer pela Seleção Brasileira pelas óbvias implicações que isso causava.

Os símbolos nacionais foram manipulados a partir do poder de suas cores em informar um conteúdo de instrumentos de legitimação políticos e ideológicos, que funcionavam como descrição abreviada, cumprindo o papel de representação da informação que substitui uma entidade linguística por um símbolo em cores vivas. Ao invés de longos discursos, ou mesmo de propaganda política exaustiva, lançavam efusivamente símbolos verde-amarelo que cumpriam a função de descrição abreviada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE I

As cores, aqui tratadas como informação, nos falam sobre lealdades políticas e ideológicas. Por isso interessa saber o papel delas no processo de empoderamento de um movimento político de massas. A cor influencia propagandas políticas e estratégias de partidos e candidatos, com as imagens servindo para compreendermos como a associação entre cores e contexto político importou no processo que levou a extrema direita ao poder.

Em 2012, ano de eleições municipais, eu compunha o corpo docente de um curso de pós-graduação lato sensu pela Universidade Estadual da Paraíba. As aulas aconteciam aos sábados e eu me deslocava a partir de Campina Grande(PB) para dar aulas. Em setembro, que antecedeu às eleições de outubro, fui lecionar a disciplina de Introdução à Política numa cidade da mesorregião do agreste paraibano. Como era de se esperar, a eleição monopolizava atenções, interesses e afetos da população local e a disputa se dava entre duas candidaturas - uma que adotava o amarelo e a outra que envergava o laranja.

A turma a qual dava aulas estava bastante contaminada pelo clima político eleitoral da cidade a ponto de parte dela vestir sempre camisas laranjas e a outra parte trajar camisas amarelas. Chamava-me atenção que não havia exceções, todas(os) as(os) alunas(os) assumiam um dos matizes políticos - ninguém usava  azul, vermelho, verde ou branco. As camisas eram iguais, tanto na cor como no modelo, e todas(os) usavam uma espécie de fardamento de campanha – calça jeans, tênis branco, camisas laranjas ou amarelas.

Mas, aconteceu que eu, inadvertida e descuidadamente, fui em um dos sábados dar aula com uma camisa laranja, idêntica as que as\os eleitoras(es) da candidatura laranja usavam. Adentrei na sala de aula e me deparei com duas reações distintas: uma parte da turma me saudou eufórica enquanto a outra demonstrou descontentamento com lamúrias de toda sorte. O fato é que não lhes passou à cabeça que eu não poderia, nem deveria, ter alguma relação com as colorações políticas daquela cidade. A única forma de contornar a situação foi trajar uma camisa amarela na aula do sábado seguinte.

Essa situação me fez refletir sobre a relação que as cores têm com a política, mesmo que já tivesse ouvido tanto sobre o uso das cores em eleições no Nordeste brasileiro. O fato é que as cores servem para que digamos ao mundo o que, como e porque somos. Se quero que todos saibam minha ideologia, uso vermelho ou azul; se desejo que entendam que me preocupo com o meio ambiente, uso verde; se estou preocupado com paz mundial, uso branco; se apoio a causa LGBTQIAPN+ uso as cores do arco-íris; se quero protestar contra a corrupção, uso preto. Da mesma forma, posso procurar me vestir com as cores do meu time de futebol, evitando usar as cores do seu principal rival.

A cor informa algo sobre nós, é uma forma de nos expressarmos. Como informação ela pode representar ideias, opiniões e crenças. A cor pode materializar ou que é imaterial. Vejamos que historicamente movimentos políticos totalitários associaram cores as suas ideias e práticas. Foi assim que o fascismo italiano adotou o preto, ficando conhecido como os “Camisas Pretas”; que o Nazismo alemão fez do marrom claro uma de suas cores oficiais; que o Integralismo brasileiro usava o verde escuro; que o Salazarismo português usava o azul; e que o fascismo mexicano era conhecido como os “Camisas Douradas”.

Para Olivo (2004) a cor é fenômeno e manifestação cultural na comunicação humana e fala de um tipo de comportamento que gera sentidos. Tudo o que se refere a cor não é devido ao acaso, pois o que ela apreende, transmite, armazena e informa é orientado por normas e preceitos sociais e culturais. A cor é própria da comunicação humana que se dá por interferência dos códigos da linguagem e dos códigos culturais.

Considerando que a cor informa desde sentimentos e afetos até interesses de toda sorte, qual seria o papel dela nos processos políticos e sociais que vivenciamos? No caso do empoderamento da extrema direita bolsonarista, entre 2013 e 2018, vimos como as cores da bandeira nacional passaram a informar a lealdade política de militantes a uma candidatura e a uma causa sustentada em valores morais (conservadores) e políticos (reacionários). Ficou manifesto que o verde-amarelo, usado pela extrema direita, seria a descrição resumida de sua conformação.

A camisa da Seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se tornou um tipo de crachá para informar que seu usuário foi ou é eleitor de Jair Bolsonaro e que aderiu a ideias e a um modus operandi comportamental. E isso ocorre pois a cor empresta significado a um movimento quando a relacionamos a uma ideologia. O amarelo representa algo na política, pois dificilmente deixaremos de relacionar ao bolsonarismo alguém que traja uma camisa da Seleção da CBF. Fraser & Banks (2007) afirmam que associamos um conceito a uma cor para levá-lo para onde bem quisermos. O conceito vai para toda parte levado pela cor, com os significados que queremos que tenha.

Mesmo com a derrota do bolsonarismo nas eleições de 2022 ainda vemos seus símbolos espalhados: são pessoas vestindo camisas da Seleção da CBF e\ou usando capacetes pintados com as cores da bandeira nacional; são carros ostentando adesivos ainda da campanha de 2022; são casas com muros pintados em verde-amarelo e edifícios ostentando a bandeira nacional em suas janelas; são lojas comerciais vendendo bandeiras, toalhas, bonés e toda quinquilharia verde-amarelo. Fato é que para parte da sociedade usar amarela é o mesmo de vestir uma camisa com a imagem de Jair Bolsonaro.

A cor, como informação, teve papel central na atuação da extrema direita entre os anos de 2013, quando ela acessou as ruas através das manifestações antidemocráticas, e 2018, quando logra êxito em levar seu principal representante à presidência da República. Aqui, analiso imagens do período citado para compreender como a associação entre cores e contexto político importa no processo que leva a extrema direita ao poder.

Também, expresso uma indignação sentida ao ver as ruas pintadas de verde-amarelo para se praticar a mãe de todos os paradoxos que é usar liberdade de expressão para pedir a volta da ditadura militar. Estou atento ao oxímoro democracia autoritária, pois parte dos brasileiros se utiliza de procedimentos democráticos (eleições, por exemplo) para pedir o fim da democracia e a implantação de uma ditadura (Soares, 2023).

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A América para os americanos do norte, supremacistas e ultraliberais! A atualização da Doutrina Monroe através do Corolário Trump e das Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o neoliberalismo.

O ex-presidente do Equador Rafael Correa me fez pensar: “Imagine por um momento que Vladimir Putin capturasse Volodymyr Zelensky”. Gostaria mesmo de saber como estaria o mundo, agora, se uma tropa de elite russa tivesse sequestrado Zelensky e sua esposa, levando-os para uma prisão em Moscou?! O que fariam o Império do Norte e seus asseclas europeus se Xi Jinping, presidente da China, tivesse montado uma operação militar para invadir e reanexar Taiwan ao território chinês? Provavelmente já estaríamos na 4ª Guerra mundial, aquela que Albert Einstein disse que lutaríamos com paus e pedras.

Enquanto a comunidade internacional hablaba pelos canais diplomáticos, Donald Trump enviava sua armada para a costa venezuelana em outubro de 2025. Assim foi em 1938 – enquanto Hitler invadia a Polônia, os Aliados tentavam estabelecer compromissos democráticos com os nazistas, como se isso fosse possível! Correa foi certeiro em dizer que a invasão praticada pelos EUA, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, é exemplo da hipocrisia global e de aplicação seletiva do direito internacional.

A operação militar na Venezuela é assustadora, porém não surpreendente. Ela lembra ações como quando os EUA invadiram o Panamá em 1989 e sequestraram seu presidente, Manuel Noriega, levando-o para os EUA onde foi condenado, sob acusação de narcotráfico, a mais de 20 anos de prisão. Na época, não importava se Noriega era traficante, pois a questão é que ele ameaçou fechar o Canal do Panama aos EUA e países europeus. Também não se trata de se Maduro é ou não chefe de uma organização narcoterrorista. Importa que os EUA querem TODO O PETRÓLEO DA VENEZUELA, pois a matriz energética do capitalismo não sobrevive a base de energia renovável que não degrada o meio ambiente.

Os EUA não costumam falar a verdade quando vão invadir um país ou entrar em uma guerra. Eles preferem mistificar a realidade. Em geral, dizem que estão defendendo a liberdade e a democracia ou que estão caçando um perigoso ditador que é também terrorista, narcotraficante, corrupto ou coisa que o valha. Quando o Departamento de Estados montou a Operação Brother Sam em 1964, o governo de Lyndon Johnson disse que estava enviando tropas ao Brasil para garantir liberdade e democracia e depor um presidente corrupto. Simples assim!

 Em 1917, o presidente Woodrow Wilson disse que os EUA iam à Guerra Mundial para levar democracia à Europa e o povo estadunidense apoiou o envio de tropas. Nos anos 1950 Edward Bernays, sobrinho de Freud, trabalhava na United Fruit Company, multinacional que produzia frutas tropicais na América Central e Caribe. Quando o presidente da Guatemala, Jacob Árbenz, quis nacionalizar as terras da United Fruit, Bernays produziu publicidade falsa, recheada de desinformação, acusando Árbenz de ser um comunista a serviço da URSS e os EUA promoveram um golpe de Estado na Guatemala, mandando a CIA depor Árbenz.

Inspirando-se no expansionismo bélico de Hitler, Donald Trump disse que tudo remonta à Doutrina Monroe. De fato, tudo se relaciona a Ideia Base da Dominação de que a América é para os americanos, mesmo que os estadunidenses estejam falando em um tal "Documento Donroe", uma espécie de acrônimo entre os nomes de Trump e James Monroe, presidente dos EUA entre 1817 e 1825 que lançou a doutrina que colocava os EUA como nação protetora dos países latino-americanos. Na verdade, ainda no início do século XIX, os EUA já postulavam seus interesses intervencionistas sobre o que sempre considerou ser o seu quintal.

As Ideias Base da Dominação serviram (e ainda servem) para orientar a política externa estadunidense em relação a América Latina tendo como pressuposto (falso) que o destino dos povos latino-americanos está atado aos interesses dos EUA sob laços de submissão. Aliás, o Estado e a sociedade estadunidenses cultivam desde sempre um dogma de superioridade que deu lastro, por exemplo, ao supremacismo e ao neocolonialismo.

Em 1855, eles lançaram a doutrina do Destino Manifesto para provarem ao mundo sua autoconfiança e ambição suprema. Em “EUA X América Latina: As Etapas da Dominação”[i], Voltaire Schilling demonstra como eles desenvolveram a ideia de que anexar, abarcar, para si os territórios que vão do México até a Patagônia seria o cumprimento de uma inevitável missão moral que teria sido determinada pela providência divina. As Ideias Base partem de doutrinas (leis que orientam a política externa por longos períodos) que vão sendo atualizadas pelos ideários (ideias que referenciam políticas intervencionistas) e pelo corolários (que adequam doutrina às conjunturas). Dessa forma, seria mais correta nos referirmos a um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Se Monroe queria a “América para os americanos” e Roosevelt a queria apenas para os americanos do norte, Trump quer a América para ele mesmo e para seus amigos brancos, supremacistas e ultraliberais.

Dessa forma, fazem mais de dois séculos que os EUA sustentam em doutrinas suas ações militares pelo mundo afora. Foi assim com a Política da Boa Vizinhança (que visava aproximação com Brasil, Argentina, México, etc, através de relação diplomáticas, culturais, políticas e econômicas) e com a Doutrina de Segurança Nacional (que intervinha na América Latina com golpes de Estado e ditaduras militarizadas durante a Guerra Fria).

Schilling  afirma que as Ideias Base eram utilizadas pelo imperialismo ianque para camuflar, por trás de princípios liberais e humanitários, os interesses que tinha sobre as Américas Central, Caribenha e do Sul. Apenas, temos uma diferença, na forma não no conteúdo, entre a Doutrina Monroe e o Corolário Donroe. É que se a primeira se preocupava em ter uma feição idealista, de que a América deveria ser dos americanos, o segundo não tem maiores veleidades de negar o que de fato é, pois Trump até faz questão de dizer que quer o petróleo da Venezuela e que está pouco se lixando para o que vai ser do povo venezuelano.

O fato é que os EUA atendem a seus propósitos e interesses ao invadirem a Venezuela. O primeiro deles é o de se apropriar do petróleo venezuelano porque sem este não se faz nada e o Império do Norte sabe que terá que ir à guerra contra o mundo multipolar se quiser continuar em sua zona de conforto bipolar. Claro, ocupar a Venezuela significa estabelecer uma base militarizada em plena América do Sul com fronteiras escancaradas para o Mar do Caribe e toda América Central, Colômbia, Guiana e Brasil e, consequentemente, Peru e Equador. Também, invadir um país e depor seu presidente mostra aos aliados e reais adversários e inimigos a verdadeira lógica perversa dos governos ultraliberais e de extrema direita.

Reeditar a Doutrina Monroe, com a invasão\usurpação da Venezuela, significa ao Império do Norte voltar a se sentir “dono do mundo” e a ter, novamente, a América Latina sob rédeas curtíssimas. Com seu Corolário, Trump faz o povo estadunidense lembrar de quando os EUA se comportavam como a “polícia do mundo”. Numa fantasmagórica coletiva de imprensa, logo após o sequestro de Maduro, Trump deixou claro que governará a Venezuela e levará Washington para Caracas e que só quando a situação estiver estabilizada, com a extração de petróleo a todo vapor, é que fará uma transição política, seja lá o que isso posso significar.

A invasão da Venezuela não é um ato isolado, apenas para cumprir objetivos localizados. Os EUA estão provando ao mundo que estão no jogo, dispostos a ir a uma grande e universal guerra. Com suas ações, Trump traz à tona as Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o ultraliberalismo. Como bem disse seu fiel amigo, Elon Musk: "Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso". Ao invadir um país latino-americano, os EUA estão dizendo ao mundo: “Vamos fazer a guerra com quem bem quisermos! Lidem com isso!”.

 

[i] SCHILLING, Voltaire. EUA X América Latina: As Etapas da Dominação. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991,

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O FASCISMO SUPREMACISTA NA AMÉRICA (IT'S NOT DEMOCRACY, STUPID!)

 "A situação está bem feia, mande as tropas!". Essa ordem não foi dada por Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky, Recep Erdoğan, Viktor Orbán ou por Idi Amin Dada, Rafael Trujillo, Jean-Claude Duvalier ou mesmo Augusto Pinochet - sanguinários ditadores que matavam por lazer em seus países nos tempos da Guerra Fria. Na verdade, ela foi expedida por Donald Trump, o 47º presidente eleito nos Estados Unidos da América. Viva a democracia no “império da liberdade”, que se porta como uma república bananeira sul-americana!

Estamos na metade da terceira década do século XXI nos comportando como se vivêssemos nos anos 1930, pois não há um dia em que não se questione se é melhor viver em uma sociedade e um Estado democráticos ou em uma estrutura ditatorial. O caso grotesco, burlesco, dos EUA que implodiram, com bombas do fascismo supremacista, o sistema que já foi tido como modelo para o mundo ocidental é algo lancinante.

Levitsky e Ziblatt (2018) mostram como as democracias mais sólidas e tradicionais vão legalmente se enfraquecendo, “por dentro”, até perecerem. Fazem-nos pensar sobre porque as democracias se deixam dominar pelo fascismo e de como a crise política e econômica dos EUA propiciaram a ascensão de Trump. A questão é recorrente, ainda que deva ser enfrentada: por que se renuncia à democracia para se viver sob o tacão de ditaduras? Porque brasileiros, argentinos, estadunidenses, turcos, húngaros, austríacos, poloneses, russos, ucranianos, etc, aceitam que o fascismo ascenda pela via eleitoral?

Em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Marx analisa como a burguesia francesa aceitou perder a liberdade política, pela via de um golpe de Estado, para não perder sua propriedade ante um processo revolucionário. Ler o “18 Brumário” é iminente e impreterível para entendermos as limitações e contradições da democracia liberal, sendo a principal delas o que chamo de a mãe de todos os paradoxos – quando se usa procedimentos democráticos para pedir o fim da democracia. Marx analisa as sociedade forjadas pelas revoluções burguesas do século XVIII:

(elas) precipitam-se rapidamente de sucesso em sucesso, um efeito dramático é suplantado pelo próximo, pessoas e coisas parecem refulgir como brilhantes, respira-se diariamente o êxtase; porém elas têm vida curta, logo atingem o seu ponto alto e uma longa ressaca toma conta da sociedade antes que, novamente sóbria, aprenda a apropriar-se dos resultados do seu período impetuoso e combativo (Marx, 2012, p. 62).

Aqui, Marx trata da democracia que não passa de uma efemeridade em países capitalistas baseados na exploração do capital sobre o trabalho. Ele quer mesmo nos fazer ver que liberdade e igualdade são nada em um sistema que só pode funcionar se esta não existir e aquela for tão somente um direito da classe que detém os meios de produção. James Davidson demonstra essa questão na prática, quando discute o dilema da escravidão e da liberdade ocuparem o mesmo espaço, algo que atormenta o povo estadunidense desde o início do século XIX.

Quando os Estados Unidos tomaram 1,2 milhão de quilômetros quadrados de terras do México, o território recém adquirido forçou os norte-americanos a lidar com a questão [de se] escravidão e a liberdade podiam existir lado a lado? Durante anos a maioria dos norte-americanos brancos disse que sim. Eles tocavam seus negócios, conviviam com a escravidão de um jeito ou de outro e toleravam opiniões divergentes (Davidson, 2016, p. 142)

Os estadunidenses são dilemáticos, paradoxais, pois dizem venerar a liberdade, mas a contrariam desde quando forjaram um sistema republicano (democrático e federalista) no final do século XVIII. Para isso, basta ver que em nome da liberdade promoveram guerras, invasões, golpes de estado, ditaduras e intervenções de toda sorte em todo e qualquer país que lutasse por .... liberdade. Outrora modelo a ser imitado, a democracia estadunidense agoniza, pois seus princípios foram trocados por interesses de classe e do Complexo Industrial Militar que James Cook chama de um Estado total, com estratégia de guerra total, dedicado ao poder do dólar e das armas. Ele cita Eisenhower que alertou para “um colosso que domina vastas áreas da vida americana (que) é a verdadeira ameaça à democracia” e relata como os EUA adotaram, nos anos 1950, o modelo prussiano militar industrial que produz ditadores como Hitler e faz da guerra sua própria razão de ser. Trump aí está para não deixar Cook mentir.

Os EUA provam que não existem democracias imunes ao fascismo. A ironia é ver o berço da democracia moderna, o império da liberdade, agindo como república bananeira com um ditador bufão que arregimentou seguidores para invadir o parlamento. O escárnio é que, colérico com a revolta do povo preto, pobre e imigrante dos EUA, Trump (e sua malta supremacista) tenha lançado mão da ideia Coringa: "quando tudo estiver perdido, estabeleça o caos". Aceitemos a verdade sine-qua-non: a democracia não é mais hegemônica no ocidente, se é que um dia foi!

É risível que o “Império do Norte” prefira usar o toque de recolher ao invés dos procedimentos democráticos. Agora mesmo estamos vendo o governo de Trump pondo soldados da Guarda Nacional nas ruas de Los Angeles para conter protestos e manifestações contra as operações anti-imigração. A terra da liberdade não suporta ver sua população lutando por liberdade e adota despudoradamente o modus operandi das ditaduras. Trump mandou as Forças Armadas atacarem imigrantes que protestam em várias cidades da California. Na verdade, ele está hostilizando as bases da democracia porque, tal qual Hitler, quer mais é por fim nela. Comparemos as situações, pois a pregação hitleriana baseava-se na disseminação do ódio contra todos os que vinham de fora da Alemanha. O fato, é que o fascismo odeia visceralmente todos os que não são de dentro, que vem de fora.

Jamil Chade assim relatou a situação nos EUA: “Neste final de semana, a decisão da Casa Branca de usar tropas para garantir que prisões e deportações possam ser conduzidas abriu caminho para uma militarização da ação contra estrangeiros. Em postagens nas redes sociais, Trump afirmou que os manifestantes estavam liderando uma "insurreição" e que, portanto, a resposta seria determinada pelo Pentágono”.

Desde a invasão ao Capitólio, os estadunidenses veem seu sistema político derretendo sob o fogo do autoritarismo. Os Vargas, Peróns, Arbenzs, Jangos, Allendes, Dilmas, experimentam o agridoce sabor da vingança vendo o “stupid white man” tocando fogo em suas instituições democráticas. O Estado profundo dos EUA (deep state) evita falar em golpe de estado, até porque não conhece um termo, em inglês, para designar o ato de se tomar, pela força das armas, o poder conquistado pelo voto – é que nunca tinha havido um golpe de estado nos EUA. É por isso que usam a expressão francesa “coup d’état”. Poderiam usar até o “putsch” alemão – combinaria mais...

Como no Brasil a democracia é apenas uma fina camada sobre um espesso extrato de autoritarismo, dizemos com todas as letras que tivemos e temos golpe de Estado, intervenção militar, quartelada, ditadura. Os acadêmicos estadunidenses precisam criar uma expressão para o que pode virar regra, pois o fascismo supremacistas não se converterá à democracia liberal. O que Trump e seus bisões amestrados fizeram não difere tanto do putsch nazista de 1923. Na verdade, o fascismo precisa dessas ações teatralizadas para vir a público atestar suas reais intenções e arrecadar a simpatia popular.

Hoje, 5ª feira (12\06), parte da cidade de Los Angeles está sob toque de recolher, sitiada por Forças Militares, numa tentativa do governo de impedir que ocorram novos atos e protestos contra as operações federais de imigração de Trump que nem cogita pacificar a situação, pelo contrário, está escalando o morro autoritário em busco do cimo onde impera a violência. A ação de Trump, contra o seu próprio povo, serve para que estadunidenses parem de uma vez por todas de falar em liberdade e passem a falar de segurança, força, repressão, perseguição aos imigrantes, combate a corrupção, enfim, a pauta da direita fascista mundo afora.

Benjamin Franklin dizia que “os que abrem mão da liberdade essencial, por um pouco de segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança”. Um dos “Pais Fundadores” dos EUA, Franklin fez parte do “iluminismo estadunidense” que defendia princípios liberais, republicanos e federalistas, se contrapunha à autoridade centralizadora, absoluta, e aos privilégios da aristocracia. Se vivo fosse, seria chamado de comunista e mandado à Cuba, pois o país que exportou um modelo de democracia não suporta ouvir falar em liberdade.

 

COOK, Fred James. O Estado militarista. São Paulo: Civilização Brasileira, 1965.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2016.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

JINKINGS, Ivana; SADER, Emir. [Orgs]. As armas da crítica – antologia do pensamento de esquerda. São Paulo: Boitempo, 2012.