Este artigo
sugere nos preocuparmos com a desinformação, e com problemas por ela criados,
além de uma reflexão sobre a supervalorização da informação em um contexto de
práticas desinformacionais, pois a sociedade parece aceitar bem que informação
é panaceia contra desinformação. Propõem atentarmos para a frágil assertiva de
que quanto mais informações tivermos, menos desinformados seremos. Em uma era
desinformacional, vejamos a forma como se divulgam conteúdos negacionistas e
revisionistas a partir de um modelo de negócio que usa a desinformação para
monetização.
Vivemos sufocados pelo excesso de informação e
desinformação. Hesitamos entre se é melhor lidar com regimes políticos de
força, que prometem segurança ao custo da liberdade, ou se com regimes
democráticos que não trazem igualdade.
Nos ufanamos da era da informação e da tecnologia
digital, ainda que usemos fake news e discursos de ódio. Gostamos da
democracia, mas usamos
procedimentos democráticos para pedir o fim dela . Temos uma relação fetichizada
com a informação , valorizando-a, mesmo que narrativas eventualmente
verdadeiras existam.
Desinformação impacta nas escolhas políticas com os
valores da democracia existindo para acima e além da sociedade. Opomos o bem
(democracia e informação) contra o mal (autoritarismo e desinformação) como se
a realidade fosse uma simples oposição entre certo e errado, opaco e
translúcido, doce e amargo.
A hiperinformação como panaceia para a
superdesinformação
Supervalorizamos a informação, em um contexto de práticas informacionais e de práticas de desinformação
, aceitando com passividade que para se
combater a desinformação é preciso massificar a informação. Dito de outra
forma, quanto mais desinformação se produzir, mais informação terá que ser
disseminada, como se a justaposição desta sobre aquela fosse solução única.
Vivemos a era da Infodemia
, esse excesso de informações sobre tudo e sobre todos, não importando se
relevantes ou não. Este termo foi difundido em função da pandemia do Covid 19,
quando dados e informações (corretos e/ou incorretos) circulavam na velocidade
do big data .
O recurso que a tal “sociedade da informação” oferece
contra a desinformação é limitado por uma visão individualista onde a questão
seria resolvida, como mostra o Profº Drº Rodrigo Moreno, quando o indivíduo
detectasse conteúdos desinformativos , bastando apenas que desenvolvesse
uma competência crítica informacional para isso.
Mas, desinformação é um fenômeno social complexo que
lastreia, por exemplo, a atuação da extrema direita em seu percurso ao poder.
Importa relacionarmos informação e desinformação a partir da crítica da
economia política e das noções de fetichismo e alienação, pois lidamos com uma
realidade onde narrativas são fatos.
Foquemos em um novo regime da
informação\desinformação como fonte de tensionamentos em relação à
democracia, ainda que se fale que a problemática da desinformação se resolveria
a partir do desenvolvimento da competência
crítica em informação que
habilitaria pessoas a detectarem conteúdos desinformativos.
Economia política da desinformação,
alienação e fetiche da informação
Nos Manuscritos
Econômicos-Filosóficos (1844), Karl Marx demonstrou que o trabalho é uma
atividade material e que o sistema industrial capitalista explora o
trabalhador, desconsiderando que parte da riqueza, investida nas indústrias,
vinha da exploração da mão de obra escravizada nas Américas. Lembremos que o
capital só se constitui através da acumulação concentrada e controlada pela
propriedade privada.
Isso importa por tratarmos da economia política da
informação\desinformação que monetiza em prol da acumulação capitalista, cuja
“indústria-base” é a tecnologia digital. Em A
Ideologia Alemã (1845-46), Marx e Engels dizem que a libertação dos
trabalhadores não é algo idealizado, mas um
ato histórico real. Isso redundou na Tese
11 onde filósofos interpretavam o mundo sem transformá-lo.
O que Marx e Engels falavam aos filósofos
contemporâneos seus é o que temos que reafirmar hoje, já que a libertação (da
exploração capitalista) ainda não aconteceu, parecendo cada vez mais distante à
medida em que o modelo de negócio, implementado por uma economia política
plataformizada, aprofunda a acumulação de capitais.
As condições materiais e a produção social de nossa
existência advém de uma base
econômica que se eleva até uma superestrutura - onde o modo de produção da vida material
conduz o processo social, político, intelectual e cultural. Essa discussão nos
é relevante à medida em que nosso estágio de acumulação de capitais, em
sociedades plataformizadas, condiciona uma superestrutura das redes sociais.
O conceito de alienação nos serve para entendermos o
que nos acomete ao lidarmos com efeitos da informação
plataformizada. Alienação é a consequência de uma ação sobre uma pessoa ou
grupo distanciados que são dos resultados de suas atividades. Alienados ficamos
quando nos tornamos alheios ao produto de nosso trabalho. A alienação é
essencial para retroalimentar o sistema capitalista.
Em “A
Sociedade do Espetáculo” Guy Debord
trata do trabalhador\usuário alienado, pois quanto mais produz (conteúdos)
menos vive, aceitando se reconhecer nas imagens dominantes, sem compreender sua
existência e seus desejos. Quanto mais alienado do fruto do seu trabalho, mais
espectador se torna de um espetáculo promovido pelo capital em grau elevado de
acumulação e de mais-valor.
O modelo de negócio plataformizado move-se pela
acintosa expropriação do tempo real da pessoa que é produtora e consumidora. O
trabalhador\usuário deve sentir-se livre, mesmo que não o seja, pois o poder
econômico se materializa na mercadoria que ele consome. Não é à toa que o lazer
se tornou atividade de consumo e as sociabilidades foram enquadradas ao
espetáculo comando pela mercadoria.
A desinformação aliena em relação à informação e
ambas são produto do trabalho nas redes sociais. Informação é criação das
instituições e desinformação vem de nossa estrutura social. Entendendo essa
relação e seu poder de alienar o indivíduo de si mesmo, aceitemos que esse
processo é efetivado pelo próprio capitalismo.
Apontando contradições das formas de produção,
circulação e consumo da informação, o Profº Dr. Arthur Coelho afirma que
enfrentamos dilemas éticos que se escondem sob a “fina epiderme de vidro e
plástico que carregamos no bolso”, é a sociedade da
hiperinformação que inaugura a era da desinformação . O século XXI nos
oferece um novo regime de informação, com formas hodiernas de lidar com ela,
subjugadas às mesmas relações de sempre do capitalismo.
O fetiche da mercadoria faz objetos materiais
portarem características herdadas de relações sociais dominantes. Assim,
fetichismo é uma ilusão que nos faz aceitar a mera aparência de um fenômeno
como se fosse sua essência e se revela ao admitirmos que relações de dominação
e exploração são naturais do próprio sistema capitalista.
Fetichismos escamoteiam relações sociais de dominação
ocultas nas manifestações dos fenômenos informacionais. Por isso, enfrentemos,
sob as lentes da crítica da economia política, o debate sobre plataformas
digitais, governança da internet, colonialismo
digital e, claro, desinformação.
A “sociedade da informação” sofre um estranhamento,
levando-nos a tomá-la como um dado histórico regular e não como algo que
representa os interesses de uma classe social, pois o mercado de trabalho
capitalista escamoteia a exploração. O fetiche da informação se dá quando, por
exemplo, cremos que com o ato isolado de se informar e\ou gerar conteúdos
estamos influindo em todo o ecossistema informacional.
Os aparelhos ideológicos digitais da
Extrema Direita
Revisionismo e negacionismo, com suas omissões e
simplificações, induzem à desinformação e pululam pelas redes sociais e em
plataformas diversas. Não se trata apenas de visões alternativas, mas de
ausência de rigor metodológico, com uso seletivo de fontes e ausência de
contrapontos.
Esses aparelhos ideológicos digitais proliferam
conteúdos falsos e oferecem produções documentais que reinterpretam a história
com a formatação de um inimigo comum (comunismo). Eles simplificam a realidade
e optam por desinformação, impactando o debate social com conteúdos enviesados,
seletivos e distorcidos que comprometem a formação de opiniões e alimentam
desconfianças na democracia.
Ao disseminar desinformação criam bolhas
informacionais e reforçam opiniões sem respaldo em fatos verificáveis. A
desinformação se associa ao aumento da polarização política, pois a
disseminação de conteúdos falsos intensifica a divisão entre grupos, retroalimenta
intolerâncias, dificultando o diálogo.
Foi com desinformação que a extrema direita conduziu
a campanha que elegeu Jair Bolsonaro, manipulando a população para favorecer um
projeto antidemocrático. O fato é que processam e propagam informação e fatos
distorcidos em proporções inimagináveis, tudo ao mesmo tempo agora.
A desinformação compõe um novo modelo de regime
informacional, contribuindo para o processo de acumulação de capitais
plataformizados. Nesse momento o capital aumenta exponencialmente, enquanto
pessoas são substituídas por máquinas e softwares. As tecnologias da informação
e da comunicação contribuem para a expansão de mercados, acumulação de riquezas
e novas relações de exploração do trabalho.
Em “Post-Truth” ,
Lee MacIntyre (pesquisador da Universidade de Boston), tenta nos incomodar
perguntando como chegamos à era da pós-verdade, em que fatos alternativos
substituem fatos verídicos, sensações importam mais que evidências e crenças,
intuições e afetos passam a ser mais relevantes do que a realidade.
Como vivemos em um estado de profunda inconsciência,
sufocados pela desinformação, considero que perdemos as referências sobre o que
é verdade e o que é mentira, aceitando a “pós-verdade”, deixando a verdade para
trás. Precisamos nos atormentar com isso, pois sempre que esquecemos da
verdade, os campos de concentração abundam mundo afora.













