A cor como relato identitário da extrema direita
Para Novelino (1998) representar a
informação significa substituir uma “entidade linguística longa e complexa” - o
texto de um documento, por exemplo, por uma descrição abreviada que prove sua
essência. A representação da informação realiza a transferência da informação
útil para se obter a essência do documento, considerando, claro, sua
recuperação. Guimarães (2003) nos diz que a cor é uma informação, desde que
seja usada para organizar, hierarquizar e atribuir significado à informação.
Mas, para lidarmos com a cor como
informação, temos que considerar a visualização da imagem e seu processo de
significação. Aqui, interessa pouco descrever dados (ou metadados) de uma
imagem por suas cores, mas sim fazer uma análise de seu conteúdo, mais
especificamente do que ela pode representar por sua descrição abreviada. É por
isso mesmo que Fraser & Banks (2007) afirmam que a cor informa “complexas
interações de associação e simbolismo”, além de mensagem e palavras.
Vejamos como povos do Sul Global e do
Hemisfério Norte dão significados diferentes ao preto e ao branco. Atentemos
para o que essas cores representam para colonizadores e colonizados. Como uma
sociedade estruturalmente racista dá significação ao preto e ao branco? Para os
estadunidenses (do norte) ou para a maioria dos europeus, o branco é símbolo da
paz e da luta pelos direitos humanos; mas para estadunidenses (do sul),
latino-americanos e africanos, o branco é símbolo de opressão, violência,
terror e escravidão. Em países ocidentais, ditos democráticos, o preto é a cor
do luto, mas em muitos países orientais é o branco que representa o luto e que
tem conotações negativas.
Para Pereira, Franca & Freitas
(2023) a cor informa o que vemos a partir da conformação social em que vivemos
- ela importa como fenômeno cultural e social a partir do uso que se faz do
poder de comunicação política, caracterizado pelos confrontos entre grupos
diferentes. Notemos os significados que o vermelho e o azul recebem
historicamente, mesmo que o Partido Republicano, ao qual Donald Trump pertence,
adote o vermelho. Certo, o vermelho é a cor do comunismo e de partidos e
movimentos socialistas, mas também aparece nas bandeiras do Japão, Espanha,
Bélgica, França, EUA, Itália, etc. É Olivo (2004) que diz que a comunicação na
política tem sua própria linguagem, materializada no discurso e em símbolos.
A mensagem enviada ao eleitor se ancora
em signos (cores) que conformam a imagem de uma candidatura, por exemplo.
Pereira, Franca & Freitas (2023) fizeram uma análise qualitativa que gerou
uma interpretação dos significados das cores que identificam princípios e
norteiam comportamentos de grupos políticos. Eles tratam da intencionalidade no
uso das cores que dá visibilidade às peças gráficas, informa dados de uma
campanha e projetam uma imagem positiva de candidatos.
Um movimento político de extrema
direita pode considerar-se vitorioso ao tornar as cores nacionais de seu país
em símbolo próprio, mesmo que perca eleições. Ao contrário do partido nazista
alemão, que adotou cor inexistente na bandeira alemã para suas milícias, o
bolsonarismo tornou seu o amarelo. Ele não criou um novo símbolo, pois se
apoderou (ou sequestrou) a bandeira nacional. Guedes & Silva (2019) dizem
que houve uma apropriação das cores e da bandeira nacionais para se atender a
interesses políticos.
O processo foi tão bem idealizado que se criou uma espécie de permissão (ideológica) para quem poderia e quem não poderia usar a camisa amarela. Tornou-se algo proibitivo para os que se consideravam de esquerda usar as cores nacionais, sendo que os eleitores de Jair Bolsonaro se sentiam autorizados, para não dizer obrigados, a usarem o verde-amarelo. Também, havia (e segue havendo) o patrulhamento ideológico nas hostes da extrema direita para que não se usasse o vermelho. Pereira, Franca & Freitas (2023) confirmam isso ao demonstrarem que, ao sequestrar as cores nacionais, se afetou e deturpou o comportamento dos brasileiros em relação às cores. Podemos, por exemplo, lembrar que na Copa do Mundo de 2022 muitos se recusaram a usar verde-amarelo e até mesmo a torcer pela Seleção Brasileira pelas óbvias implicações que isso causava.
Os símbolos nacionais foram manipulados a partir do poder de suas cores em informar um conteúdo de instrumentos de legitimação políticos e ideológicos, que funcionavam como descrição abreviada, cumprindo o papel de representação da informação que substitui uma entidade linguística por um símbolo em cores vivas. Ao invés de longos discursos, ou mesmo de propaganda política exaustiva, lançavam efusivamente símbolos verde-amarelo que cumpriam a função de descrição abreviada.










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