terça-feira, 21 de julho de 2026

Pesquisas atualizam a percepção sobre nossa mentalidade obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias


Em abril de 1945, o Exército da URSS entrou na Berlim destruída pelos combates da 2ª Guerra Mundial. Enquanto caçavam nazistas, militares soviéticos estupraram centenas de milhares de mulheres de todas as idades. Stálin nada fez, pois os russos viam o estupro como uma “necessidade do homem” e como forma de subjugar o inimigo. Na Guerra do Vietnã, soldados estadunidenses se habituaram a estuprar as vietnamitas. O governo e a sociedade dos EUA fecharam os olhos para isso.

Sociedades contemporâneas aceitam o estupro. O Brasil tem seu jeito de lidar com a violência contra a mulher, buscando legitimá-la Em 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que 26% dos brasileiros acreditam que a “mulher que exibe seu corpo merece ser atacada”. O IPEA demonstrou que 58% dos entrevistados concordavam que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Mostrou também que 65% dos entrevistados afirmaram que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”.

Em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) atualizou nossa mentalidade, obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias, mostrando que 30% dos entrevistados concordavam que a “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada” e que 37% aceitavam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. O discurso  que assevera que a mulher só é vítima de agressão sexual porque provocou o homem é socialmente aceito. Isso se comprova com 30% das mulheres entrevistadas concordando com a ideia que as responsabiliza pela violência sexual praticada contra elas. Assim, a vítima em potencial aceitaria a culpa pelo estupro.


Em 2014, seguíamos achando que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, pois a pesquisa do IPEA revelou que 82% dos brasileiros(as) concordavam que “o que acontece entre o casal em casa não interessa aos outros” - supunham que não se deve intrometer no caso de um homem espancar sua esposa desde que isso aconteça no santo recesso do lar. Através da pesquisa, entendíamos que a brasileira ainda não havia se equiparado econômica, política e socialmente em relação ao brasileiro e que 65% dos entrevistados concordavam que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. O primado do homem sobre a mulher ainda é aceito por nós.

Em 2013, o Programa Bem-me-quer de São Paulo mostrou que metade das vítimas de estupro tinha até 11 anos de idade. Em 2014, o IPEA dava que crianças são alvos preferenciais dos estupradores, que a maioria dos casos contra elas aconteciam no ambiente familiar e que metade das vítimas da violência sexual eram menor de idade. Na segunda década desse século, a realidade na Paraíba confirmava os dados do IPEA e do FBSP. O Centro da Mulher 8 de Março, de João Pessoa, mostrava que entre o início de 2010 e novembro de 2015 foram registrados 556 estupros na Paraíba, sendo que 65,4% dos casos foram contra crianças e adolescentes.

Esses dados atestam que parte da população finge não saber que é crime tentar ter ou manter relações sexuais com uma mulher sem que ela consinta. É como se a mulher gostasse de ser violentada e provocasse o homem para que ele lhe atacasse. A ideia, anacrônica e estulta, de que um padrão de comportamento, determinado à mulher pela sociedade patriarcal, evita que ela seja estuprada é prova de nosso conservadorismo autoritário. De fato, parte considerável dos(das) brasileiros(as) seguem repetindo a ameaça: “dê-se ao respeito e não serás estuprada”.

O documentário “Half the sky” (O céu pela metade) se baseou no livro homônimo de Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn e foi produzido (em 2012) para a PBS, a televisão pública estadunidense. Ele foi filmado em países africanos com histórias de mulheres vítimas de tráfico, violência sexual, fome, guerra e escravidão. Em nome de uma tradição doentia vemos casos de mulheres estupradas e prostituídas por seus pais e maridos, sendo submetidas a depauperante tradição da infibulação.

Certo, o que se vê em “Half the Sky” não acontece no Brasil, pois aceitamos os valores da democracia liberal-burguesa (neoliberal), ainda que uma cultura pretoriana (autoritária) nos faça saudosistas da ditadura militar. Estamos longe de uma Somália ou Serra Leoa, mas não estamos próximos de uma sociedade evoluída em termos de direitos sociais, liberdade e igualdade. Estamos bem mais perto da Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher, pois aqui como lá ainda se pratica o estupro coletivo, tal qual faziam os soldados russos e estadunidenses.

 

Até aqui vimos dados de cerca de 15 anos atrás. Poderíamos afirmar que eles estão desatualizados? Infelizmente não! Recentemente, o Instituto de Pesquisa DataSenado trouxe mais uma rodada da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher dando conta que, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica. Mesmo que enfatize que houve redução dos índices de violência em relação a rodada de 2023, a pesquisa demonstra que a maioria das agressões ocorrem na presença de outras pessoas, principalmente filhos e filhas das mulheres vítimas das agressões.


A pesquisa traz, também, uma percepção geral pessimista, pois 79% das brasileiras acreditam que a violência contra a mulher aumentou e 71% consideram o Brasil um país muito machista. Além disso trouxe um dado bastante relevante sobre a percepção das agressões. Se até 2021 a maioria dos casos declarados falava de violência física, a partir de 2022 a violência psicológica passou a ser a mais relatada. Assim, vemos que 88% das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida.

O FBSP lançou este ano o “Retrato dos feminicídios no Brasil (2006-2026)”, um alentado relatório mostrando, dentre outras coisas, que houve (entre 2021 e 2025) um crescimento de 14,5% nos registros de feminicídios no país, sendo que em 2025 tivemos 1.568 mulheres vítimas de feminicídio – um crescimento de 4,7% em relação ao ano de 2024.

Concomitante a isso, temos duas pesquisas, realizadas pelo Datafolha em junho desse ano, que falam das nossas percepções políticas e ideológicas. Na primeira pesquisa, vemos que 40% das\dos brasileiras(os) associam pobreza à “preguiça dos que não querem trabalhar” e 58%  entendem que “a pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida”. Entre as pessoas com renda familiar superior a dez salários mínimos, 63% aderem a tese da preguiça. Aqui, como em várias outras pesquisas, vemos a bipolaridade de opiniões quando o assunto é o nosso comportamento que faz parte de nossa matriz ideológica.


Na segunda pesquisa, aferiu-se que os\as brasileiros(as) se identificam majoritariamente como de direita e que as posições político-ideológicas de direita superaram as de esquerda - 44% dos brasileiros se dizem de direita ou centro-direita enquanto 39% se posicionam à esquerda ou centro-esquerda. Aqui, interessa atentar para o fato de que houve uma inversão em relação ao ano de 2022, ainda sob o governo de Jair Bolsonaro, quando 49% se diziam de esquerda e 34% de direita.

Não é mesmo fácil entender a cabeça do povo brasileiro que se diz de direita quando sob um governo de esquerda, mas se assume de esquerda quando sob um governo de direita. Um exemplo disso, é que em 2014, durante o governo Dilma Rousseff (PT), a direita reunia 45% dos entrevistados, enquanto a esquerda registrava 35%.

 Seria preciso um estudo, com um método quantitativo aplicado às Ciências Sociais, que correlacionasse as variáveis da pesquisa do IPEA de 2014 (“se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”) com a variável “a pessoa é pobre porque tem preguiça de trabalhar”. Assim, talvez pudéssemos depreender que os mesmos setores da sociedade brasileira que aceitam que a mulher pode ser responsabilizada por ter sido estuprada, consentem, também, que a preguiça leva à pobreza.

No entanto, lendo nas entrelinhas, podemos inferir\deduzir que a pessoa que entende que se a mulher “souber se comportar poderá conter um estuprador” é a mesma que supõe ser verdadeira a hipótese da preguiça causando a pobreza. Se juntarmos a isso o fato de que 44% dos brasileiros se assumirem de direita ou centro de direita, poderemos ter um quadro preliminar de como pensa e se expressa política e ideologicamente nossa sociedade.



quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hoje, um tango argentino não vai melhor do que um rock in roll inglês

Em 2022 torci pela Argentina contra a França naquela final emocionante da Copa do Mundo do Qatar. Torci porque nunca me deixo contaminar por esse ódio irracional (desculpe a redundância, pois ódio não é racional) que brasileiras(os) sentem pelos argentinos e porque sempre entendi que os grandes craques do futebol merecem, ao menos uma vez, serem campeões do mundo. 

Em 2022 o grande craque, merecedor de um título mundial, era Lionel Messi. Não que eu goste dele, com aquela posse de esfinge que vive fazendo cara de paisagem para os problemas do mundo em sua volta. É imperdoável Messi não se pronunciar contra o racismo crônico da torcida argentina nos estádios de futebol. Das duas uma: ou ele é contra, mas prefere calar, ou é a favor e por isso mesmo cala-se ostensivamente.

Costumo fazer clara separação entre os grandes craques do futebol e os homens que emprestam seus corpos a esses craques: Pelé, Zico, Maradona, Romário, Ferenc Puskás, Johan Cruyff, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Garrincha, Franz Beckenbauer, Didi, Leônidas da Silva, Franz Beckenbauer, Zinedine Zidane, Sócrates, Bobby Charlton, etc, etc, etc.

Estes, e tantos outros, foram grandes craques, mas a grande maioria não foi (ou não é) um grande homem. Mesmo assim, lamento que craques como Zico, Puskás e Cruyff não tenham sido campeões do mundo – azar das Copas do Mundo! Mas, imagina o que seria da história das Copas do Mundo se Pelé não tivesse sido campeão de uma delas?!

Pelé é o deus do futebol, mesmo que os argentinos achem que não. Mas, Edson Arantes do Nascimento foi um homem com opiniões políticas questionáveis para dizer o mínimo. Ronaldo, o fenômeno do futebol, afirmou, na Copa de 2014 aqui no Brasil, que (SIC) “Copa do Mundo não se faz com hospitais”. Do homem e senador da República Romário, melhor nem falar. 


Enfim, não vai dar para torcer pela Argentina hoje! Os argentinos em campo e nas arquibancadas estão tendo um comportamento imperdoável! O racismo explícito e as músicas insuportáveis, sem contar o orgulho deles pelas vitória (passadas e atuais) com a “roubalheira explícita” ... Não, não dá mesmo! Por isso, Belchior que me perdoe, mas, hoje, um tango argentino não vai melhor do que um blues, digo, do que um bom rock in roll inglês!

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SOMOS UM BANDO DE MACUNAÍMAS DE PERNAS TORTAS

             Em momentos diferentes de minha vida, graças às atividades acadêmicas e profissionais que desenvolvia, conheci e convivi com alguns europeus e estadunidenses. Alguns me confessaram não conseguir entender o nosso jeito tão brasileiro de ser e agir. Diziam não compreender o incomum hábito que temos de zombar de nossas próprias desgraças e dos problemas que ou não queremos ou não sabemos resolver.

Confesso que nunca entendi o porquê dessa esquisitice de achar normal conviver com um problema e ainda achar graça dele. E eu não tenho a ilusão de que um dia conseguirei. Será que eu sou um brasileiro que não deu certo? Não dá para entender por que aceitamos tão passivamente conviver com as tragédias causadas pelas enchentes. Porque, afinal, não fazemos nada para evitar as calamidades que vemos na televisão?

Conheci um irlandês, em Recife, que falava um português brasileiríssimo. Ele adorava morar no Brasil pelo fato de não termos frio com neve e termos sol o ano inteiro. No entanto, ele não entendia nosso estranho jeito de agir. Ele não entendia, por exemplo, o tal jeitinho brasileiro. Eu dizia para ele que só sabe o que é, e para que serve, o jeitinho brasileiro quem aqui nasceu e é fruto desse complexo processo de miscigenação que enfrentamos, fruto da mistura de indígenas, pretos e brancos.

Atire a primeira pedra quem nunca usou o jeitinho brasileiro. Não importa se o utilizamos em benefício próprio ou para ajudar outras pessoas. Importa pouco se o jeitinho é para o bem ou para o mal. O fato é que ele sempre está ali ao alcance da mão. Basta estarmos diante de alguma dificuldade, por menor que seja, que logo nos vem à mente como fazer não para resolvê-la, mas para dela desviar.

Foi por isso mesmo que inventamos a arte de driblar no futebol. Conscientes de que jamais poderíamos passar, literalmente, por cima de nossos adversários estrangeiros, criamos uma maneira de deles desviar com graça, zombando e até mesmo humilhando. Garrincha, o anjo das pernas tortas, como diz o escritor Ruy Castro, era consciente da superioridade física da maioria dos pobres zagueiros que tentavam marcá-lo. O que ele fazia? Os driblava daquele jeito humilhante para mostrar que eles não eram superiores.

Estamos sempre dispostos a criar um meio para driblar a fila. Raramente procuramos saber por que ela tanto demora. Dificilmente olhamos para os que estão enfrentando a fila, à nossa frente, como alguém que, igual a nós, tem muitas outras coisas para fazer. Somos um bando de Garrinchas conscientes de nossas inferioridades.

Sabendo que não poderíamos correr mais do que nossos concorrentes, criamos meios criativos de passar por eles cortando o caminho. Somos especialistas em cortar caminho. Herdamos essa capacidade dos pretos africanos que foram aqui escravizados. Como não podiam bater de frente com o senhor da casa grande, foram criando mecanismos de enfrentamento. A capoeira e o sincretismo religioso são exemplos disso.

 

Em "CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS - PARA UMA SOCIOLOGIA DO DILEMA BRASILEIRO” (Editora Rocco, 1997), o antropólogo Roberto DaMatta logrou produzir uma obra no nível de “Raízes do Brasil” (Sérgio Buarque de Holanda), “Formação Econômica do Brasil” (Celso Furtado), “Os Donos do Poder” (Raymundo Faoro) e “Casa Grande & Senzala” (Gilberto Freyre). A obra de DaMatta vem da tradição dos “explicadores do Brasil”, ou seja, este livro consegue tornar o Brasil mais inteligível aos brasileiros.

DaMatta tenta, por exemplo, explicar para nós mesmos porque damos tanta importância ao Carnaval, ainda que tenhamos desenvolvido um conceito bem próprio para a tal malandragem que Chico Buarque dizia, em a “Opera do Malandro”, não mais existir na Lapa do Rio de Janeiro.

A discussão “Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil” é imperdível. No Capítulo IV, DaMatta trata desse rito de autoridade e separação que coloca cada brasileiro em seu “devido lugar” a partir da estratificação social. DaMatta traz ainda o “macunaísmo”, esse jeito de sermos malandros para sobrevivermos numa sociedade desigual, e o “jeitinho brasileiro”, essa instituição informal tão nossa, só nossa.

O “Sabe com quem está falando?” está para DaMatta, como o “homem cordial” está para Sérgio Buarque de Holanda. Na verdade, eles são os dois lados de uma mesma moeda, pois quando a cordialidade e o “jeitinho” não funcionam, lançamos mão, sem nenhum pudor, do “sabe com quem está falando?”.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma escolha sempre muito fácil!

Para mim, foi sempre uma escolha muito fácil de fazer. Nunca tive dúvidas - votei sempre na esquerda desde a primeira vez que votei em 1989 quando tinha 18 anos. Votei com bastante convicção em Leonel Brizola no 1º Turno e em Lula no 2º Turno. Não havia, e continua não tendo, maiores dilemas.

A questão política e eleitoral foi sempre bem resolvida para mim. Meu critério para escolher candidatos foi sempre o ideológico, por isso mesmo sempre votei nos candidatos da coluna da esquerda.

Inclusive, considero isso uma questão de coerência, de fidelidade às minhas convicções políticas, éticas\morais e ideológicas.



quarta-feira, 17 de junho de 2026

O partido clandestino da extrema direita


O partido clandestino da extrema direita -


Por EUGÊNIO BUCCI*

O bolsonarismo opera como um partido político genuíno, organizado, disciplinado e financeiramente bilionário, mas que se mantém na clandestinidade

1.

Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.

Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a Covid? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.

No princípio, há uns dez anos, a eclosão de casos tinha contornos de epidemia aguda, que logo evoluiu para uma pandemia fora de controle. As pessoas infectadas são distintas umas das outras, mas, de repente, todas assumem trejeitos idênticos, num mimetismo crônico, num automatismo intrigante. O bolsonarismo é pura repetição robotizada.

Até na hora de disfarçar o indisfarçável, os tipos seguem condutas iguais. Todos eles organizam o whatsapp da turma da escola, aquela que se formou há vinte, quarenta ou sessenta anos. Todos eles disparam mensagens de autoajuda intercaladas com uns videozinhos de amor à cerveja. Depois vem lá, sub-reptícia, uma ode a Donald Trump. Nenhuma surpresa. O protocolo é invariavelmente o mesmo, copiado, previsível e sufocante.

Então você se questiona: mas de onde vem todo esse acervo de tolices meticulosamente editadas para o celular, em escala industrial? De onde vem tanto mau gosto? Quem abastece as torrentes de sandices? Quem são os fornecedores? Onde ficam os estoques de patacoadas? E mais: como os difusores do contágio conseguem atuar de forma tão coesa? O que explica tanta uniformidade no bojo de alucinação que acomete milhões? Como sujeitos tão diferentes assumiram um padrão de comportamento tão unificado (e tão desagradável)? O que transformou o fanatismo fascista nessa poderosa tropa digital?

 

2.

As respostas podem não estar apenas na psicologia social ou nas enfermarias psiquiátricas. Talvez a medicina tenha pouco a dizer, por mais que a proliferação dos desvarios carregue tantos indícios de demência clínica. Agora, pistas valiosas nos chegam da ciência política. É ela quem tem as lentes que nos deixam ver o lado de dentro do monstrengo que, antes, só conseguíamos observar pelo lado de fora.

No furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo de extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha de ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado.

O bolsonarismo não é só um amontoado de milícias digitais em transe, assim como não é apenas um movimento de redes sociais animadas influencers ensandecidos. Esse negócio não é só um sucesso de comunicação. Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea. Pior ainda, é um partido na clandestinidade: sua atuação é pública, mas sua máquina é secreta. O partido do bolsonarismo nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas, diferentemente das siglas partidárias normais, não tem existência oficial nem personalidade jurídica.

O conceito – inédito e desconcertante – está muito bem exposto e defendido no livro organizado pelos cientistas políticos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Título: Partido digital bolsonarista. Trata-se de “um partido autêntico e não de um conjunto de episódios de atuação mais ou menos coordenada nas redes”, ainda que não caiba “nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido”. A análise se apoia em uma pesquisa sólida, que se estendeu por três anos, e em bases teóricas depuradas.

Os organizadores avisam que o estudo ainda é “exploratório, incipiente e preliminar”. O que eles descortinam, contudo, joga uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas. O partido digital bolsonarista aprendeu a se valer de todas as plataformas disponíveis na internet para desenvolver uma “dinâmica partidária” própria, com “mecanismos de coordenação” típicos do mundo digital, “não dos partidos convencionais”.

Em linguagem simples, quase jornalística, a obra explica muita coisa, inclusive as abduções teleguiadas daquele seu parente distante, ou mesmo próximo. O livro pode ser acessado e baixado, gratuitamente, no site do Cebrap (https://pdb.cci-cebrap.org.br). Vale a leitura.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Quando os herdeiros da Casa Grande saem em defesa dos privilégios de sempre

 Luciano Huck, a voz global do neoliberalismo, e os Aparelhos Ideológicos de Estado

 

Aconteceu mais uma vez! Luciano Huck, apresentador de um pavoroso programa de televisão, utilizou a amplitude e o alcance que dispõe para defender interesses e privilégios da classe social a qual pertence e do grande capital representado pela Rede Globo. Nada de muito novo no front - apenas mais um herdeiro do grande capital, que vive às custas de nossa brutal desigualdade, criticando o programa Bolsa Família do governo federal.

O professor e poeta Georgino Neto afirmou que: “Luciano Huck criticando o Bolsa Família é mais ou menos como um passageiro de iate reclamando que há gente demais usando boias no mar”. Lembrando que o mesmo que critica programas sociais tentou privatizar um pedaço de praia em Angra dos Reis (RJ) para impedir que se tivesse acesso ao seu éden tropical. Georgino aponta a gritante diferença em nosso país:

(...) é simbólico que a crítica venha de alguém cuja trajetória nunca foi a epopeia meritocrática que tentam vender. Huck não saiu do nada. Não venceu “apesar de tudo”. Não atravessou a brutalidade estrutural reservada aos pobres brasileiros. Ele nasceu dentro do sistema vencedor. Herdou capital econômico, cultural e social. Fez o que muitos herdeiros competentes fazem: multiplicou vantagens que já existiam. O problema não é só ter herdado riqueza. O problema é transformar herança em discurso moral contra quem herdou apenas a fome.

Saudosista da ditadura militar e neoliberal empedernido, Luciano Huck se opõe visceralmente às políticas públicas para retirar da pobreza os descendentes de uma estrutura secularmente desigual. Imagino que se Huck tivesse vivido na 2ª metade do século XIX teria sido contra a abolição da escravidão para não “quebrar a economia”. Aliás, esse é o argumento que neoliberais usam contra o fim da jornada 6X1.


Huck aproveitou sua participação no
5º Fórum Esfera para desfiar sua verborragia neoliberal contrária às políticas públicas reformistas de bem-estar social. Ele  não só criticou como duvidou da eficácia dos incentivos gerados pelo programa Bolsa Família afirmando que: “O prefeito (de) Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para ficar no programa de distribuição de renda ad eternum. A gente precisa criar um estímulo”.

A jornalista e participante do Big Brother (reality show da Rede Globo), Ana Paula Renault, contestou o apresentador e falou dos pontos positivos da permanência de famílias em programas de transferência de renda, afirmando que dados mostram a saída de beneficiários do auxílio ao longo do tempo. Vale a pena citar parte do que foi dito, pois a explicação sobre a função social do Programa Bolsa Família é esclarecedora:

O Bolsa Família talvez seja uma das políticas públicas mais mal interpretadas do Brasil. Durante anos, repetiram a ideia cruel de que o brasileiro recebe o benefício e ‘se acomoda’. Um estudo da FGV mostrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família. (...) e se a maioria deixa de depender do programa, isso não é fracasso. É exatamente o que uma política pública séria deve fazer: impedir que a pobreza vire herança. O Bolsa Família não existe para substituir o trabalho (mas) para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se reorganizar.

Programas sociais servem para que os que NÃO têm os mesmos privilégios\influências, oportunidades e herança\capital de Luciano Huck possam ter alguma chance factível por uma vida digna com alimentação, educação, saúde, moradia, etc. O Bolsa Família não prevê manter pessoas reféns de uma módica quantia pelo resto da vida. A ideia é que o Estado provenha, no presente, condições mínimas para que se possa, no futuro, não mais precisar da “ajuda” estatal. Como disse Ana Paula Renault, é “impedir que a pobreza vire herança”.

Luciano Huck promove desinformação quando fala da dependência "eterna" de famílias pobres do Bolsa Família, pois em uma rápida busca no Google pode-se encontrar pesquisas e estudos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrando que mais da metade dos beneficiários deixaram o programa nos últimos dez anos, após terem melhorado de vida; que os beneficiados, em sua maioria, não pararam de procurar emprego; que aumentou a taxa de emprego, produtividade e oferta de trabalho entre os beneficiários; e que o Bolsa Família ajuda a reduzir o subemprego.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que 2,06 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro de 2025. O global apresentador, que parece ainda sonhar com o Palácio do Planalto, deveria ter buscado informações para embasar suas falas em dados e informações críveis. Se não o fez é grave; se o fez e ainda assim ignorou os dados dispostos é gravíssimo.

 

A quais interesses atende Luciano Huck ao se colocar contra programas sociais do governo federal?

O “bom moço” da Rede Globo manifesta os desejos, vantagens, benefícios e ganhos de sua classe social quando utiliza seu programa dominical para projetar o ideário neoliberal que defende que o Estado, a moral e a lei sejam plasmados  à lógica do mercado.

O  “Domingão do Huck” é uma peça ideológica defendendo privatização do Estado e sua financeirização, desmonte da seguridade social, empreendedorismo e meritocracia, valores das “famílias de bem”, sobreposição da esfera pessoal sobre a questão social, além dos limites que a democracia liberal impõe a um projeto revolucionário de desenvolvimento econômico e social. O modelo aplicado no programa do Huck oferece soluções individualizadas para problemas sociais

A especialidade de Luciano Huck é dramatizar a pobreza e as carências do povo brasileiro para apresentar uma solução que é sempre individualizada, nunca social, baseada no merecimento que a pessoa faz a partir dos valores da classe dominante. Quem melhor definiu Luciano Huck foi o jornalista Walter Falceta: “Huck é um inimigo declarado de políticas públicas para os vulneráveis e populações historicamente oprimidas e injustiçadas. Seu negócio é lucrar com filantropia na telinha. Mistura a hipocrisia da esmola com o farisaísmo descarado do falso ‘empreendedorismo’".

Mas, como diria o rapper Emicida na Ordem natural das coisas: “A merendeira desce, o ônibus sai \ Dona Maria já se foi, só depois é que o sol nasce”. Já na ordem natural do mundo dominical do Huck, o apresentador milionário sobe, a Ferrari sai e o homem branco da família hétero-patriarcal-cristã só se vai muito tempo após o sol nascer.

Já para Karl Marx, a classe social não é uma escolha livre do  indivíduo. Huck é contra o Bolsa Família devido a posição que ocupa na estrutura econômica e social. Huck acha que os programas sociais viciam a população pobre por pertencer a classe que detém os meios de produção, que é dona do capital e que controla as dadas circunstâncias objetivas para a reprodução das condições materiais de produção.


Mas, atenção, não confundamos isso com a questão da consciência de Classe. A existência objetiva de um indivíduo, inserido em uma estrutura econômica, faz ele pertencer a uma classe social, seja consciente ou não disso. É o que Marx chamou de classe em si. É tão somente quando esse indivíduo toma consciência de que a classe social a que pertence é explorada, através do mais valor aplicado sobre o lucro gerado pela sua força de trabalho, que ele chama a classe para si para transformar a sociedade.

Quando Luciano Huck se coloca contra o Bolsa Família está demonstrando que tem total clareza da função de sua classe para si e para ela mesma. Não é à toa que ele presta sua eficiência neoliberal numa superestrutura elevada sobre a estrutura (base) econômica, para usar um conceito caro a Marx. Falo dos Aparelhos Ideológicos do Estado (da informação e da comunicação).

Foi por isso mesmo que Luciano Huck criticou o Bolsa Família no 5º Fórum Esfera, um evento promovido pelo think tank Esfera Brasil, organização dedicada ao fomento do pensamento neoliberal que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva, que se diz “independente e apartidária”, com a “missão de engajar líderes em prol do Brasil (para) a construção de um país melhor (e) ser polo aglutinador do empreendedorismo brasileiro (...)”.

Quem é minimamente familiarizado com ideias e objetivos dos think tanks neoliberais sabe bem que engajar líderes, defender empreendedorismo e meritocracia, ser a favor da transparência, da ética e da pluralidade, lutar contra a corrupção e pelo Estado mínimo, são ideias que a classe dominante usa para a manutenção do (seu) status quo, para assegurar (sua) hegemonia através da coerção e, principalmente, do consenso.


Em “Aparelhos Ideológicos de Estado”, de Louis Althusser, temos a concepção marxista clássica para a ideologia, em que o filósofo francês afirma que o
 “homem é por natureza um animal ideológico”, parodiando Aristóteles para quem o homem é o animal político. Aqui, interessam as duas teses centrais de Althusser sobre a estrutura e o funcionamento da ideologia e de como estas se relacionam: 1) Só há prática através de e sob uma ideologia, que representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência; 2) Só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito, pois ela tem uma existência material.

A ideologia não é uma coisa do mundo das ideias, como queria o filósofo alemão G. W. F. Hegel. Pelo contrário, expressa as posições (e as opções) de classe seja na forma que for – religiosa, política, moral, jurídica, cultural, etc. A ideologia se oferece ao indivíduo da mesma forma que a consciência se origina do meio social, como bem demonstrou Marx ao propor a inversão da teoria hegeliana em a “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” de 1843.

 O próprio Althusser pontua, para relacionar ideologia e formação social, que as ideologias estão depositadas nos modos de produção combinados às formações sociais e as lutas de classe que nelas se desenvolvem. Quando um Luciano Huck desses que temos aos montes, encastelado em seu Aparelho Ideológico, desanca as políticas públicas governamentais está se sustentando na ideologia forjada no modo de produção e nas relações de reprodução desse modo.

               Dito de outra forma, trata-se de aceitar que as ideias de uma determinada crença são materiais. Para Althusser, “suas ideias são seus atos materiais inseridos em práticas materiais”. Inclusive, essas ideias, que podem até ser espirituais, são mediadas por rituais materiais que são, eles mesmos, definidos pelos Aparelhos Ideológicos que  dispomos em nosso entorno.


O que importa nesse momento é sabermos que a ideologia, que Luciano Huck veicula em seu programa, não é algo idealizado em um mundo à parte, mas sim que é constituída materialmente nos Aparelho Ideológico de Estado, ou seja, as instituições (escola, igreja, família, cultura, informação, política, etc) que agem na sociedade civil formatando, modelando, esculpindo, consciências para que valores, normas, leis, sejam disseminados e, assim, a classe dominante possa garantir seu poder não apenas pela força, mas, principalmente, pelo convencimento.

40 FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA E FIZERAM MINHA CABEÇA

40 FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA E FIZERAM MINHA CABEÇA

OS 40 FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA.

Esta é apenas mais uma seleção de filmes. Como toda seleção não deixa de ser, para o bem e para o mal, arbitrária. Coloquei aqui alguns dos filmes que considero fundamentais para minha formação pessoal, emocional, profissional, política, ideológica. (01) Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988). (02) Os Canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961). (03) Trilogia do “Homem sem Nome” de Sérgio Leone (Por um punhado de dólares - 1964; Por uns dólares a mais - 1965; Três homens em conflito - 1966). (04) Amarcord (Federico Fellini, 1973). (05) Era uma vez no Oeste (Sérgio Leone, 1968). (06) Trilogia de Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão I, 1972; O Poderoso Chefão II, 1974; O Poderoso Chefão III, 1990). (07) 2001, uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968). (08) Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979). (09) Psicose (Alfred Hitchcock, 1960). (10) Cidadão Kane (Orson Welles, 1941). (11) Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964). (12) Topázio (Alfred Hitchcock, 1969). (13) Lawrence da Arábia (David Lean, 1962). (14) Jango (Silvio Tendler, 1984). (15) Casablanca (Michael Curtiz, 1942). (16) Forrest Gump: o contador de história (Robert Zemeckis, 1994). (17) Butch Cassidy and the Sundance Kid (George Roy Hill, 1969). (18) O Grande Ditador (Charlie Chaplin, 1940). (19) Eles não usam Black-Tie (Leon Hirszman, 1981). (20) Os Sete Samurais (Akira Kurosaw, 1954). (21) O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998). (22) Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990). (23) O Desafio das Águias (Brian G. Hutton, 1968). (24) El Cid (Anthony Mann, 1961). (25) Estado de Sítio (Costa-Gavras, 1972). (26) O Franco atirador (Michael Cimino, 1978). (27) Prá Frente Brasil (Roberto Farias, 1982). (28) A Excêntrica Família de Antônia (Marleen Gorris, 1995). (29) Os Doze Condenados (Robert Aldrich, 1967). (30) Cantando na Chuva (Gene Kelly & Stanley Donen, 1952). (31) Doze Homens e uma Sentença (Sidney Lumet, 1957). (32) Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963). (33) A Ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957). (34) Fuga de Alcatraz (Don Siegel, 1979). (35) Sete Homens e um destino (John Sturges, 1960). (36) O Encouraçado Potemkin (Serguei Eisenstein, 1925). (37) Metrópolis (Fritz Lang, 1927). (38) O Homem Elefante (David Lynch, 1980). (39) Bem -Hur (William Wyler, 1959). (40) Doutor Jivago (David Lean, 1965).

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