segunda-feira, 13 de julho de 2026

SOMOS UM BANDO DE MACUNAÍMAS DE PERNAS TORTAS

 

Em momentos diferentes de minha vida, graças às atividades acadêmicas e profissionais que desenvolvia, conheci e convivi com alguns europeus e estadunidenses. Alguns me confessaram não conseguir entender o nosso jeito tão brasileiro de ser e agir. Diziam não compreender o incomum hábito que temos de zombar de nossas próprias desgraças e dos problemas que ou não queremos ou não sabemos resolver.

Confesso que nunca entendi o porquê dessa esquisitice de achar normal conviver com um problema e ainda achar graça dele. E eu não tenho a ilusão de que um dia conseguirei. Será que eu sou um brasileiro que não deu certo? Não dá para entender por que aceitamos tão passivamente conviver com as tragédias causadas pelas enchentes. Porque, afinal, não fazemos nada para evitar as calamidades que vemos na televisão?

Conheci um irlandês, em Recife, que falava um português brasileiríssimo. Ele adorava morar no Brasil pelo fato de não termos frio com neve e termos sol o ano inteiro. No entanto, ele não entendia nosso estranho jeito de agir. Ele não entendia, por exemplo, o tal jeitinho brasileiro. Eu dizia para ele que só sabe o que é, e para que serve, o jeitinho brasileiro quem aqui nasceu e é fruto desse complexo processo de miscigenação que enfrentamos, fruto da mistura de indígenas, pretos e brancos.

Atire a primeira pedra quem nunca usou o jeitinho brasileiro. Não importa se o utilizamos em benefício próprio ou para ajudar outras pessoas. Importa pouco se o jeitinho é para o bem ou para o mal. O fato é que ele sempre está ali ao alcance da mão. Basta estarmos diante de alguma dificuldade, por menor que seja, que logo nos vem à mente como fazer não para resolvê-la, mas para dela desviar.

Foi por isso mesmo que inventamos a arte de driblar no futebol. Conscientes de que jamais poderíamos passar, literalmente, por cima de nossos adversários estrangeiros, criamos uma maneira de deles desviar com graça, zombando e até mesmo humilhando. Garrincha, o anjo das pernas tortas, como diz o escritor Ruy Castro, era consciente da superioridade física da maioria dos pobres zagueiros que tentavam marcá-lo. O que ele fazia? Os driblava daquele jeito humilhante para mostrar que eles não eram superiores.

Estamos sempre dispostos a criar um meio para driblar a fila. Raramente procuramos saber por que ela tanto demora. Dificilmente olhamos para os que estão enfrentando a fila, à nossa frente, como alguém que, igual a nós, tem muitas outras coisas para fazer. Somos um bando de Garrinchas conscientes de nossas inferioridades.

Sabendo que não poderíamos correr mais do que nossos concorrentes, criamos meios criativos de passar por eles cortando o caminho. Somos especialistas em cortar caminho. Herdamos essa capacidade dos pretos africanos que foram aqui escravizados. Como não podiam bater de frente com o senhor da casa grande, foram criando mecanismos de enfrentamento. A capoeira e o sincretismo religioso são exemplos disso.

 

Em "CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS - PARA UMA SOCIOLOGIA DO DILEMA BRASILEIRO” (Editora Rocco, 1997), o antropólogo Roberto DaMatta logrou produzir uma obra no nível de “Raízes do Brasil” (Sérgio Buarque de Holanda), “Formação Econômica do Brasil” (Celso Furtado), “Os Donos do Poder” (Raymundo Faoro) e “Casa Grande & Senzala” (Gilberto Freyre). A obra de DaMatta vem da tradição dos “explicadores do Brasil”, ou seja, este livro consegue tornar o Brasil mais inteligível aos brasileiros.

DaMatta tenta, por exemplo, explicar para nós mesmos porque damos tanta importância ao Carnaval, ainda que tenhamos desenvolvido um conceito bem próprio para a tal malandragem que Chico Buarque dizia, em a “Opera do Malandro”, não mais existir na Lapa do Rio de Janeiro.

A discussão “Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil” é imperdível. No Capítulo IV, DaMatta trata desse rito de autoridade e separação que coloca cada brasileiro em seu “devido lugar” a partir da estratificação social. DaMatta traz ainda o “macunaísmo”, esse jeito de sermos malandros para sobrevivermos numa sociedade desigual, e o “jeitinho brasileiro”, essa instituição informal tão nossa, só nossa.

O “Sabe com quem está falando?” está para DaMatta, como o “homem cordial” está para Sérgio Buarque de Holanda. Na verdade, eles são os dois lados de uma mesma moeda, pois quando a cordialidade e o “jeitinho” não funcionam, lançamos mão, sem nenhum pudor, do “sabe com quem está falando?”.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma escolha sempre muito fácil!

Para mim, foi sempre uma escolha muito fácil de fazer. Nunca tive dúvidas - votei sempre na esquerda desde a primeira vez que votei em 1989 quando tinha 18 anos. Votei com bastante convicção em Leonel Brizola no 1º Turno e em Lula no 2º Turno. Não havia, e continua não tendo, maiores dilemas.

A questão política e eleitoral foi sempre bem resolvida para mim. Meu critério para escolher candidatos foi sempre o ideológico, por isso mesmo sempre votei nos candidatos da coluna da esquerda.

Inclusive, considero isso uma questão de coerência, de fidelidade às minhas convicções políticas, éticas\morais e ideológicas.



quarta-feira, 17 de junho de 2026

O partido clandestino da extrema direita


O partido clandestino da extrema direita -


Por EUGÊNIO BUCCI*

O bolsonarismo opera como um partido político genuíno, organizado, disciplinado e financeiramente bilionário, mas que se mantém na clandestinidade

1.

Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.

Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a Covid? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.

No princípio, há uns dez anos, a eclosão de casos tinha contornos de epidemia aguda, que logo evoluiu para uma pandemia fora de controle. As pessoas infectadas são distintas umas das outras, mas, de repente, todas assumem trejeitos idênticos, num mimetismo crônico, num automatismo intrigante. O bolsonarismo é pura repetição robotizada.

Até na hora de disfarçar o indisfarçável, os tipos seguem condutas iguais. Todos eles organizam o whatsapp da turma da escola, aquela que se formou há vinte, quarenta ou sessenta anos. Todos eles disparam mensagens de autoajuda intercaladas com uns videozinhos de amor à cerveja. Depois vem lá, sub-reptícia, uma ode a Donald Trump. Nenhuma surpresa. O protocolo é invariavelmente o mesmo, copiado, previsível e sufocante.

Então você se questiona: mas de onde vem todo esse acervo de tolices meticulosamente editadas para o celular, em escala industrial? De onde vem tanto mau gosto? Quem abastece as torrentes de sandices? Quem são os fornecedores? Onde ficam os estoques de patacoadas? E mais: como os difusores do contágio conseguem atuar de forma tão coesa? O que explica tanta uniformidade no bojo de alucinação que acomete milhões? Como sujeitos tão diferentes assumiram um padrão de comportamento tão unificado (e tão desagradável)? O que transformou o fanatismo fascista nessa poderosa tropa digital?

 

2.

As respostas podem não estar apenas na psicologia social ou nas enfermarias psiquiátricas. Talvez a medicina tenha pouco a dizer, por mais que a proliferação dos desvarios carregue tantos indícios de demência clínica. Agora, pistas valiosas nos chegam da ciência política. É ela quem tem as lentes que nos deixam ver o lado de dentro do monstrengo que, antes, só conseguíamos observar pelo lado de fora.

No furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo de extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha de ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado.

O bolsonarismo não é só um amontoado de milícias digitais em transe, assim como não é apenas um movimento de redes sociais animadas influencers ensandecidos. Esse negócio não é só um sucesso de comunicação. Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea. Pior ainda, é um partido na clandestinidade: sua atuação é pública, mas sua máquina é secreta. O partido do bolsonarismo nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas, diferentemente das siglas partidárias normais, não tem existência oficial nem personalidade jurídica.

O conceito – inédito e desconcertante – está muito bem exposto e defendido no livro organizado pelos cientistas políticos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Título: Partido digital bolsonarista. Trata-se de “um partido autêntico e não de um conjunto de episódios de atuação mais ou menos coordenada nas redes”, ainda que não caiba “nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido”. A análise se apoia em uma pesquisa sólida, que se estendeu por três anos, e em bases teóricas depuradas.

Os organizadores avisam que o estudo ainda é “exploratório, incipiente e preliminar”. O que eles descortinam, contudo, joga uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas. O partido digital bolsonarista aprendeu a se valer de todas as plataformas disponíveis na internet para desenvolver uma “dinâmica partidária” própria, com “mecanismos de coordenação” típicos do mundo digital, “não dos partidos convencionais”.

Em linguagem simples, quase jornalística, a obra explica muita coisa, inclusive as abduções teleguiadas daquele seu parente distante, ou mesmo próximo. O livro pode ser acessado e baixado, gratuitamente, no site do Cebrap (https://pdb.cci-cebrap.org.br). Vale a leitura.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Quando os herdeiros da Casa Grande saem em defesa dos privilégios de sempre

 Luciano Huck, a voz global do neoliberalismo, e os Aparelhos Ideológicos de Estado

 

Aconteceu mais uma vez! Luciano Huck, apresentador de um pavoroso programa de televisão, utilizou a amplitude e o alcance que dispõe para defender interesses e privilégios da classe social a qual pertence e do grande capital representado pela Rede Globo. Nada de muito novo no front - apenas mais um herdeiro do grande capital, que vive às custas de nossa brutal desigualdade, criticando o programa Bolsa Família do governo federal.

O professor e poeta Georgino Neto afirmou que: “Luciano Huck criticando o Bolsa Família é mais ou menos como um passageiro de iate reclamando que há gente demais usando boias no mar”. Lembrando que o mesmo que critica programas sociais tentou privatizar um pedaço de praia em Angra dos Reis (RJ) para impedir que se tivesse acesso ao seu éden tropical. Georgino aponta a gritante diferença em nosso país:

(...) é simbólico que a crítica venha de alguém cuja trajetória nunca foi a epopeia meritocrática que tentam vender. Huck não saiu do nada. Não venceu “apesar de tudo”. Não atravessou a brutalidade estrutural reservada aos pobres brasileiros. Ele nasceu dentro do sistema vencedor. Herdou capital econômico, cultural e social. Fez o que muitos herdeiros competentes fazem: multiplicou vantagens que já existiam. O problema não é só ter herdado riqueza. O problema é transformar herança em discurso moral contra quem herdou apenas a fome.

Saudosista da ditadura militar e neoliberal empedernido, Luciano Huck se opõe visceralmente às políticas públicas para retirar da pobreza os descendentes de uma estrutura secularmente desigual. Imagino que se Huck tivesse vivido na 2ª metade do século XIX teria sido contra a abolição da escravidão para não “quebrar a economia”. Aliás, esse é o argumento que neoliberais usam contra o fim da jornada 6X1.


Huck aproveitou sua participação no
5º Fórum Esfera para desfiar sua verborragia neoliberal contrária às políticas públicas reformistas de bem-estar social. Ele  não só criticou como duvidou da eficácia dos incentivos gerados pelo programa Bolsa Família afirmando que: “O prefeito (de) Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para ficar no programa de distribuição de renda ad eternum. A gente precisa criar um estímulo”.

A jornalista e participante do Big Brother (reality show da Rede Globo), Ana Paula Renault, contestou o apresentador e falou dos pontos positivos da permanência de famílias em programas de transferência de renda, afirmando que dados mostram a saída de beneficiários do auxílio ao longo do tempo. Vale a pena citar parte do que foi dito, pois a explicação sobre a função social do Programa Bolsa Família é esclarecedora:

O Bolsa Família talvez seja uma das políticas públicas mais mal interpretadas do Brasil. Durante anos, repetiram a ideia cruel de que o brasileiro recebe o benefício e ‘se acomoda’. Um estudo da FGV mostrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família. (...) e se a maioria deixa de depender do programa, isso não é fracasso. É exatamente o que uma política pública séria deve fazer: impedir que a pobreza vire herança. O Bolsa Família não existe para substituir o trabalho (mas) para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se reorganizar.

Programas sociais servem para que os que NÃO têm os mesmos privilégios\influências, oportunidades e herança\capital de Luciano Huck possam ter alguma chance factível por uma vida digna com alimentação, educação, saúde, moradia, etc. O Bolsa Família não prevê manter pessoas reféns de uma módica quantia pelo resto da vida. A ideia é que o Estado provenha, no presente, condições mínimas para que se possa, no futuro, não mais precisar da “ajuda” estatal. Como disse Ana Paula Renault, é “impedir que a pobreza vire herança”.

Luciano Huck promove desinformação quando fala da dependência "eterna" de famílias pobres do Bolsa Família, pois em uma rápida busca no Google pode-se encontrar pesquisas e estudos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrando que mais da metade dos beneficiários deixaram o programa nos últimos dez anos, após terem melhorado de vida; que os beneficiados, em sua maioria, não pararam de procurar emprego; que aumentou a taxa de emprego, produtividade e oferta de trabalho entre os beneficiários; e que o Bolsa Família ajuda a reduzir o subemprego.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que 2,06 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro de 2025. O global apresentador, que parece ainda sonhar com o Palácio do Planalto, deveria ter buscado informações para embasar suas falas em dados e informações críveis. Se não o fez é grave; se o fez e ainda assim ignorou os dados dispostos é gravíssimo.

 

A quais interesses atende Luciano Huck ao se colocar contra programas sociais do governo federal?

O “bom moço” da Rede Globo manifesta os desejos, vantagens, benefícios e ganhos de sua classe social quando utiliza seu programa dominical para projetar o ideário neoliberal que defende que o Estado, a moral e a lei sejam plasmados  à lógica do mercado.

O  “Domingão do Huck” é uma peça ideológica defendendo privatização do Estado e sua financeirização, desmonte da seguridade social, empreendedorismo e meritocracia, valores das “famílias de bem”, sobreposição da esfera pessoal sobre a questão social, além dos limites que a democracia liberal impõe a um projeto revolucionário de desenvolvimento econômico e social. O modelo aplicado no programa do Huck oferece soluções individualizadas para problemas sociais

A especialidade de Luciano Huck é dramatizar a pobreza e as carências do povo brasileiro para apresentar uma solução que é sempre individualizada, nunca social, baseada no merecimento que a pessoa faz a partir dos valores da classe dominante. Quem melhor definiu Luciano Huck foi o jornalista Walter Falceta: “Huck é um inimigo declarado de políticas públicas para os vulneráveis e populações historicamente oprimidas e injustiçadas. Seu negócio é lucrar com filantropia na telinha. Mistura a hipocrisia da esmola com o farisaísmo descarado do falso ‘empreendedorismo’".

Mas, como diria o rapper Emicida na Ordem natural das coisas: “A merendeira desce, o ônibus sai \ Dona Maria já se foi, só depois é que o sol nasce”. Já na ordem natural do mundo dominical do Huck, o apresentador milionário sobe, a Ferrari sai e o homem branco da família hétero-patriarcal-cristã só se vai muito tempo após o sol nascer.

Já para Karl Marx, a classe social não é uma escolha livre do  indivíduo. Huck é contra o Bolsa Família devido a posição que ocupa na estrutura econômica e social. Huck acha que os programas sociais viciam a população pobre por pertencer a classe que detém os meios de produção, que é dona do capital e que controla as dadas circunstâncias objetivas para a reprodução das condições materiais de produção.


Mas, atenção, não confundamos isso com a questão da consciência de Classe. A existência objetiva de um indivíduo, inserido em uma estrutura econômica, faz ele pertencer a uma classe social, seja consciente ou não disso. É o que Marx chamou de classe em si. É tão somente quando esse indivíduo toma consciência de que a classe social a que pertence é explorada, através do mais valor aplicado sobre o lucro gerado pela sua força de trabalho, que ele chama a classe para si para transformar a sociedade.

Quando Luciano Huck se coloca contra o Bolsa Família está demonstrando que tem total clareza da função de sua classe para si e para ela mesma. Não é à toa que ele presta sua eficiência neoliberal numa superestrutura elevada sobre a estrutura (base) econômica, para usar um conceito caro a Marx. Falo dos Aparelhos Ideológicos do Estado (da informação e da comunicação).

Foi por isso mesmo que Luciano Huck criticou o Bolsa Família no 5º Fórum Esfera, um evento promovido pelo think tank Esfera Brasil, organização dedicada ao fomento do pensamento neoliberal que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva, que se diz “independente e apartidária”, com a “missão de engajar líderes em prol do Brasil (para) a construção de um país melhor (e) ser polo aglutinador do empreendedorismo brasileiro (...)”.

Quem é minimamente familiarizado com ideias e objetivos dos think tanks neoliberais sabe bem que engajar líderes, defender empreendedorismo e meritocracia, ser a favor da transparência, da ética e da pluralidade, lutar contra a corrupção e pelo Estado mínimo, são ideias que a classe dominante usa para a manutenção do (seu) status quo, para assegurar (sua) hegemonia através da coerção e, principalmente, do consenso.


Em “Aparelhos Ideológicos de Estado”, de Louis Althusser, temos a concepção marxista clássica para a ideologia, em que o filósofo francês afirma que o
 “homem é por natureza um animal ideológico”, parodiando Aristóteles para quem o homem é o animal político. Aqui, interessam as duas teses centrais de Althusser sobre a estrutura e o funcionamento da ideologia e de como estas se relacionam: 1) Só há prática através de e sob uma ideologia, que representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência; 2) Só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito, pois ela tem uma existência material.

A ideologia não é uma coisa do mundo das ideias, como queria o filósofo alemão G. W. F. Hegel. Pelo contrário, expressa as posições (e as opções) de classe seja na forma que for – religiosa, política, moral, jurídica, cultural, etc. A ideologia se oferece ao indivíduo da mesma forma que a consciência se origina do meio social, como bem demonstrou Marx ao propor a inversão da teoria hegeliana em a “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” de 1843.

 O próprio Althusser pontua, para relacionar ideologia e formação social, que as ideologias estão depositadas nos modos de produção combinados às formações sociais e as lutas de classe que nelas se desenvolvem. Quando um Luciano Huck desses que temos aos montes, encastelado em seu Aparelho Ideológico, desanca as políticas públicas governamentais está se sustentando na ideologia forjada no modo de produção e nas relações de reprodução desse modo.

               Dito de outra forma, trata-se de aceitar que as ideias de uma determinada crença são materiais. Para Althusser, “suas ideias são seus atos materiais inseridos em práticas materiais”. Inclusive, essas ideias, que podem até ser espirituais, são mediadas por rituais materiais que são, eles mesmos, definidos pelos Aparelhos Ideológicos que  dispomos em nosso entorno.


O que importa nesse momento é sabermos que a ideologia, que Luciano Huck veicula em seu programa, não é algo idealizado em um mundo à parte, mas sim que é constituída materialmente nos Aparelho Ideológico de Estado, ou seja, as instituições (escola, igreja, família, cultura, informação, política, etc) que agem na sociedade civil formatando, modelando, esculpindo, consciências para que valores, normas, leis, sejam disseminados e, assim, a classe dominante possa garantir seu poder não apenas pela força, mas, principalmente, pelo convencimento.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Quer entender Donald Trump? Olhe para Adolfo Hitler!

Ainda é possível explicar como e porque Donald Trump age de uma forma que mistura estupidez, ignorância, psicopatia (ou sociopatia), violência, posicionamento político e ideológico, além de fortes doses de histrionismo? Um tipo de comportamento que bem caracteriza a atuação da extrema direita no mundo ocidental, principalmente.

Histrionismo é um tipo de comportamento definido pela busca excessiva por atenção que personalidades como Neymar Jr, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Javier Milei (presidente da Argentina), etc, também reproduzem. Essa forma de agir e reagir é marcada pela teatralidade e dramatização maximizadas de emoções, opiniões e relações pessoais e sociais.

Donald Trump tenta ser o centro das atenções mundiais sendo sedutor ao mesmo tempo em que é superficial e exibicionista. Bem dito, ele é sedutor apenas com os que se dispõem a incitar seu comportamento ditatorial, pois os que o questionam são duramente reprimidos - o ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que o diga!

O histriônico cultua sua própria personalidade e se os que estão à sua volta não fizerem o mesmo, se não o tratarem como um mito, como um ser especial, sofrerão as consequências de uma personalidade doentia. Na psicologia esse tipo de comportamento é definido como Transtorno de Personalidade Histriônica.

Comparei Trump a outras personalidades, mas se quisermos entender bem seu modus operandi o melhor mesmo é estudarmos sobre Adolfo Hitler, que parece ser a principal referência do presidente estadunidense.

Entre os anos 1920 e 1940, Hitler tinha a sua disposição as três grandes mídias da época (rádio, jornal e cinema) para que sua personalidade, histrionicamente preparada pelo Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels, fosse vendida para a sociedade alemã e o mundo. Hoje, Donald Trump tem o mundo digital plataformizado - as redes sociais e a Inteligência Artificial (IA) - para cumprir o papel que as imagens abaixo demonstram.

Fonte das imagens: https://www.uol.com.br/flash/?c=7a50b5eecb237a165a2aa4858c2a9b220260416 - 17\04\2026.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Entrevista - Podcast "DEBATE NA MESA"

Podcast Debate na Mesa (Gravado em 08\04\2026)

Entrevista

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

(artigo publicado originalmente no www.theconversation.com em 02 de abril 2026, Dia Internacional da Checagem de Fatos)

 

Vivemos em uma era marcada pelo excesso de informações. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdo, notícias e dados, mas, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Esse fenômeno é conhecido como infodemia: um cenário em que informações corretas e incorretas circulam em grande volume e velocidade, gerando confusão e desinformação.

Mais do que um problema individual, a infodemia está profundamente ligada ao funcionamento das plataformas digitais. Segundo o artigo, essas plataformas operam com base na lógica do engajamento e da monetização da atenção, o que favorece a circulação de conteúdos (inclusive os falsos e distorcidos) que provocam as mais diversas reações.

Neste episódio, vamos discutir como a desinformação não é apenas um erro ou falha individual, mas parte de um sistema econômico e político que impacta diretamente a democracia, a vida social e a forma como construímos nossas verdades.

Nosso convidado é Gilbergues Santos Soares, professor do curso de História da UEPB e doutorando em Ciência da Informação pela UFPB.

 

1) Debate na Mesa: O que é infodemia e por que esse conceito se tornou tão importante nos últimos anos?

Gilbergues Santos Soares (GSS): Eu costumo dizer que infodemia é a informação adoecida que se alastra de forma viral. Infodemia é quando toda a linhagem de desinformação age em escala pandêmica para embotar, distorcer e manipular a realidade.

Dito de outra forma, Infodemia é o “excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulam com velocidade pelas plataformas digitais.

Esse conceito importa porque ele é o que melhor expressa esse estado de coisas que vivemos onde todos temos que estar “bem-informados” o tempo todo – é aquela situação em que você tem que saber de um fato antes mesmo dele acontecer – é a tal história de “saber antes” ou “você não pode ir dormir sem saber do que aconteceu”.

 

2) Debate na Mesa: Por que o excesso de informação não resolve, necessariamente, o problema da desinformação?

GSS: A primeira questão, aqui, é que Informação em excesso é um falso dilema! Antigamente já se dizia que tudo demais é veneno!

Se desinformação significasse tão somente não ter informação, ou ser mal-informado, então informação em excesso poderia ser solução. Inclusive, é comum se pensar que desinformação é não ter informação, como nos tempos da ditadura militar que havia censura e não tínhamos o aparato midiático dos dias de hoje.

Mas, a questão é não ter o que chamamos, na Ciência da Informação, de Competência Crítica em Informação (habilidades que permitem adquirirmos ferramentas para lidarmos de forma consciente com a informação). Sem isso, termina-se absorvendo todo tipo de informação, sem definir o que é ou não importante. A CCI educa para o pensamento crítico para que se esteja atento e desconfiado para a informação.

Aliás, sabe o que significa “desconfiar da informação”? É você poder se perguntar sempre que estiver recebendo uma nova informação:

1.       Qual a qualidade da fonte e que interesses ela carrega?

2.       Onde a informação foi construída e sob que condições?

3.       Quais são os propósitos de quem produziu a informação?

4.       Existe algum tipo de opressão ou benefício sobre quem produziu a informação?

O fato é que o que nos acostumamos com a ideia (falsa) de que quanto mais informações tivermos menos desinformados seremos. Tratamos a informação como panaceia, como uma solução em si mesma! Essa simplificação nos faz aceitar que se a desinformação se espalha, o único caminho é ampliar a circulação de informação qualificada para conter a desinformação. Esse é o nosso grande dilema em nossos dias!

 

3) Debate na Mesa: Como as plataformas digitais lucram com a circulação de conteúdos — inclusive os falsos?

GSS: Essa é a pergunta de 1 milhão! A primeira questão sobre isso é que as plataformas digitais são desenhadas para maximizar engajamento, velocidade, crenças e gerar lucros. Elas não se interessam muito em gerar conhecimento e compreensão. As plataformas lucram bem mais com conteúdo falsos, mentirosos, sensacionalistas, odiosos, do que com conteúdos verdadeiros. O problema é que em tempos de pós-verdade, a verdade não encanta mais!

Vejamos um exemplo. O que chamaria mais a nossa atenção no Domingo de Páscoa? Seria o Papa lendo uma mensagem (verdadeira e até enfadonha) sobre a ressureição de Jesus Cristo ou uma notícia (falsa) de que os EUA estavam invadindo a China?

As plataformas sabem que a notícia verdadeira gera poucos ou nenhum engajamento, pois ela é óbvia - é isso mesmo que se espera que o Papa faça no Domingo de Páscoa. Já a notícia falsa geraria uma comoção sensacional nas redes sociais e isso geram os tais likes, as curtidas, compartilhamentos\comentários, enfim os engajamentos, aumentando a circulação de conteúdos e os lucros das big techs.

Mas, a questão central é COMO PLATAFORMAS DIGITAIS USAM A DESINFORMAÇÃO E O EXCESSO DE INFORMAÇÃO PARA LUCRAR?

As práticas desinformacionais e a própria forma como a desinformação circula nas plataformas digitais compõem um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização. O fato é que a notícia falsa de uma invasão dos EUA à China monetiza bem mais do que a mensagem do Papa sobre Jesus Cristo. O fato é que a mentira vende mais do que a verdade!

 

4) Debate na Mesa: De que forma o engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários) está ligado à propagação da desinformação?

GSS: Partindo da premissa de que é a propagação de desinformação que gera mais engajamentos, então é preciso retroalimentar o ecossistema informacional digital com ... desinformação, pois isso alimenta o modelo de negócio plataformizado.

Eu volto a questão anterior. O que vai engajar mais? É a notícia verdadeira de que uma atriz famosa acaba de estrear um novo filme? Ou a notícia falsa de que essa mesma atriz foi traída pelo marido com outra atriz famosa? Se é a desinformação que engaja mais, e consequentemente gera mais lucros, então a ordem é produzir desinformação em escala infodêmica.

 

5) Debate na Mesa: O artigo aponta que a desinformação não é apenas um problema individual. Como ela se relaciona com estruturas econômicas e políticas maiores?

GSS: A desinformação não pode, não deve, ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação, pois ela faz parte de um fenômeno que estrutura estratégias de poder e interesses econômicos. A desinformação não circula de forma natural, espontaneamente, ela se articula com interesses políticos e econômicos e com formas de organização da comunicação nas plataformas.

Um exemplo interessante de como a propagação de desinformação não é um ato isolado, individual, são as mobilizações da extrema direita no espaço digital.

Quem não lembra do chamado “Gabinete de Ódio”, que funcionava no 3º andar do Palácio do Planalto, numa sala ao lado da sala do então presidente da República Jair Bolsonaro? O que fazia “Gabinete de Ódio”? Ele produzia desinformação para ser disseminada em escala industrial nas redes sociais. Não era uma coisa isolada, de uma única pessoa, que viralizava porque alguém não teve capacidade e condições para entender que aquilo era desinformação.

 

6) Debate na Mesa: Qual o papel das chamadas “bolhas informacionais” na intensificação da polarização e da desinformação?

GSS: Bolhas informacionais são os tais filtros criados pelos algoritmos que decidem que tipo de conteúdo será mostrado para um usuário a partir de seus interesses e de seu histórico de navegação. A bolha isola o usuário no ambiente virtual fazendo com que ele só receba informações que confirmem suas convicções, ideias e crenças. É o chamado “viés de confirmação”. O grande problema da bolha é que ela transforma mentiras em crenças.

A bolha pega o indivíduo e o aprisiona junto a milhares de outros indivíduos que pensam da mesma forma. Assim não acontece o dissenso, pois todo mundo concorda com as mesmas coisas. Além disso, o indivíduo aprisionado na bolha passa a achar que suas opiniões são majoritárias na sociedade, já que ele não é exposto ao contraditório.

 

7) Debate na Mesa: Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia ganhou força. O que esse contexto revelou sobre o funcionamento da informação nas redes?

GSS: Eu sempre digo que o período da Pandemia de Covid-19 foi um grande laboratório para que as plataformas e grupos políticos e sociais testassem suas capacidades de disseminação de desinformação nas redes sociais. Quem não lembra do então presidente Jair Bolsonaro afirmando que Covid era apenas uma “gripezinha” e que bastava tomar remédio para piolho (Ivermectina) e para malária (Cloroquina) para não se contaminar

Foi nesse momento que cresceu a falsa ideia de que a desinformação pode ser enfrentada com mais informação. O que nós vimos foi que mesmo com todas as evidências científicas, os conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação de informação. A grande questão hoje é porque mentiras, fake news, teorias conspiratórias, discursos de ódio, etc, atraem muito mais atenção do que a pura e simples verdade? E eu gostaria de dizer que a verdade existe! Ela não foi varrida da face da terra e substituída pelas tais narrativas!

 

8) Debate na Mesa: Por que responsabilizar apenas o indivíduo (como “falta de senso crítico”) pode ser uma visão limitada do problema?

GSS: Não ter senso crítico não é uma opção que cada um de nós faz em um determinado momento de nossas vidas. O que leva uma pessoa a não ter senso crítico é o meio em que ela está inserida. A pessoa não tem senso crítico, sobre a realidade política e social em que vive, apenas porque foi exposta a um processo de alienação e\ou de dominação. É por isso que responsabilizar o indivíduo, e sua falta de senso crítico, pela existência da desinformação é um equívoco.

 

9) Debate na Mesa: Como a lógica do capitalismo digital transforma informação em mercadoria e fonte de lucro?

GSS: Essa é uma questão bem complexa. Mas, podemos começar a tratar dela lembrando que Karl Marx, nos “Manuscritos Econômicos-Filosóficos” de 1844, demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas.

Ou seja, o sistema capitalista só se sustenta pelas relações de exploração que vão se renovando com o passar do tempo. Essa exploração se dava, na época da Revolução Industrial, pelos que detinham os meios de produção e o capital sobre o que detinham apenas a força de trabalho. É o que Marx chamava da relação (de exploração) do Capital sobre o Trabalho.

Essas relações de exploração se reconfiguraram em nossos dias no ambiente digital. Hoje a tecnologia digital das plataformas é a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais.

Eu vou pedir licença para reproduzir um trecho desse meu artigo que está no www.theconversation.com:

“Tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais e novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador (que hoje é chamado de usuário ou colaborador) que produz e consome ao mesmo tempo sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido”.

 

10) Debate na Mesa: Quais caminhos possíveis para enfrentar a infodemia: regulação das plataformas, educação midiática ou mudanças no modelo econômico?

GSS: Eu penso que tudo isso junto é uma estratégia para se enfrentar a infodemia e a desinformação. Começa com a regulamentação das plataformas, passa pela educação - não essa educação meritocrática que temos, mas uma educação que seja emancipadora, com consciência crítica e cidadã. Passa também por ações de “Letramento e Alfabetizações Midiáticas e Informacionais” e pelo desenvolvimento de Competências Críticas Informacionais – inclusive o Método Paulo Freire está aí para nos ensinar como fazer isso.

Agora, para fazer tudo isso é preciso mudar o modelo econômico. É preciso revolucionar o sistema econômico em que vivemos. As relações de produção precisam se transformar. Quando falamos de emancipação, estamos exatamente falando desse processo de transformação que precisa mudar o modelo de negócio que visa tão somente a acumulação de capital.

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