Podcast Debate na Mesa (Gravado em 08\04\2026)
Entrevista
Infodemia:
como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para
lucrar
(artigo publicado originalmente no www.theconversation.com em 02 de
abril 2026, Dia Internacional da Checagem de Fatos)
Vivemos em uma era
marcada pelo excesso de informações. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdo,
notícias e dados, mas, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir o que é
verdadeiro do que é falso. Esse fenômeno é conhecido como infodemia: um cenário
em que informações corretas e incorretas circulam em grande volume e
velocidade, gerando confusão e desinformação.
Mais do que um
problema individual, a infodemia está profundamente ligada ao funcionamento das
plataformas digitais. Segundo o artigo, essas plataformas operam com base na
lógica do engajamento e da monetização da atenção, o que favorece a circulação
de conteúdos (inclusive os falsos e distorcidos) que provocam as mais diversas reações.
Neste episódio, vamos
discutir como a desinformação não é apenas um erro ou falha individual, mas
parte de um sistema econômico e político que impacta diretamente a democracia,
a vida social e a forma como construímos nossas verdades.
Nosso convidado é
Gilbergues Santos Soares, professor do curso de História da UEPB e doutorando
em Ciência da Informação pela UFPB.
1) Debate na Mesa: O que é infodemia e por que
esse conceito se tornou tão importante nos últimos anos?
Gilbergues Santos
Soares (GSS): Eu costumo dizer que infodemia é a informação adoecida
que se alastra de forma viral. Infodemia é quando toda a linhagem de
desinformação age em escala pandêmica para embotar, distorcer e manipular a
realidade.
Dito de outra forma, Infodemia é o
“excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulam com
velocidade pelas plataformas digitais.
Esse conceito importa porque ele é o
que melhor expressa esse estado de coisas que vivemos onde todos temos que
estar “bem-informados” o tempo todo – é aquela situação em que você tem que saber
de um fato antes mesmo dele acontecer – é a tal história de “saber antes” ou “você
não pode ir dormir sem saber do que aconteceu”.
2) Debate na Mesa: Por que o excesso de
informação não resolve, necessariamente, o problema da desinformação?
GSS: A primeira questão,
aqui, é que Informação em excesso é um falso dilema! Antigamente já se
dizia que tudo demais é veneno!
Se desinformação significasse tão
somente não ter informação, ou ser mal-informado, então informação em excesso
poderia ser solução. Inclusive, é comum se pensar que desinformação é não ter
informação, como nos tempos da ditadura militar que havia censura e não
tínhamos o aparato midiático dos dias de hoje.
Mas, a questão é não ter o que
chamamos, na Ciência da Informação, de Competência Crítica em Informação
(habilidades que permitem adquirirmos ferramentas para lidarmos de forma
consciente com a informação). Sem isso, termina-se absorvendo todo tipo de
informação, sem definir o que é ou não importante. A CCI educa para o
pensamento crítico para que se esteja atento e desconfiado para a informação.
Aliás, sabe o que significa
“desconfiar da informação”? É você poder se perguntar sempre que estiver
recebendo uma nova informação:
1. Qual a qualidade da
fonte e que interesses ela carrega?
2. Onde a informação
foi construída e sob que condições?
3. Quais são os
propósitos de quem produziu a informação?
4. Existe algum tipo
de opressão ou benefício sobre quem produziu a informação?
O fato é que o que nos acostumamos
com a ideia (falsa) de que quanto mais informações tivermos menos desinformados
seremos. Tratamos a informação como panaceia, como uma solução em si mesma! Essa
simplificação nos faz aceitar que se a desinformação se espalha, o único caminho
é ampliar a circulação de informação qualificada para conter a desinformação. Esse
é o nosso grande dilema em nossos dias!
3) Debate na Mesa: Como as plataformas digitais
lucram com a circulação de conteúdos — inclusive os falsos?
GSS: Essa é a pergunta de
1 milhão! A primeira questão sobre isso é que as plataformas digitais são
desenhadas para maximizar engajamento, velocidade, crenças e gerar lucros. Elas
não se interessam muito em gerar conhecimento e compreensão. As plataformas
lucram bem mais com conteúdo falsos, mentirosos, sensacionalistas, odiosos, do
que com conteúdos verdadeiros. O problema é que em tempos de pós-verdade, a
verdade não encanta mais!
Vejamos um exemplo. O que chamaria
mais a nossa atenção no Domingo de Páscoa? Seria o Papa lendo uma mensagem (verdadeira
e até enfadonha) sobre a ressureição de Jesus Cristo ou uma notícia (falsa) de
que os EUA estavam invadindo a China?
As plataformas sabem que a notícia
verdadeira gera poucos ou nenhum engajamento, pois ela é óbvia - é isso mesmo que
se espera que o Papa faça no Domingo de Páscoa. Já a notícia falsa geraria uma
comoção sensacional nas redes sociais e isso geram os tais likes, as curtidas,
compartilhamentos\comentários, enfim os engajamentos, aumentando a circulação
de conteúdos e os lucros das big techs.
Mas, a questão central é COMO
PLATAFORMAS DIGITAIS USAM A DESINFORMAÇÃO E O EXCESSO DE INFORMAÇÃO PARA LUCRAR?
As práticas desinformacionais e a
própria forma como a desinformação circula nas plataformas digitais compõem um
modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização.
O fato é que a notícia falsa de uma invasão dos EUA à China monetiza bem mais
do que a mensagem do Papa sobre Jesus Cristo. O fato é que a mentira vende mais
do que a verdade!
4) Debate na Mesa: De que forma o engajamento
(curtidas, compartilhamentos, comentários) está ligado à propagação da
desinformação?
GSS: Partindo da
premissa de que é a propagação de desinformação que gera mais engajamentos,
então é preciso retroalimentar o ecossistema informacional digital com ...
desinformação, pois isso alimenta o modelo de negócio plataformizado.
Eu volto a questão anterior. O que
vai engajar mais? É a notícia verdadeira de que uma atriz famosa acaba de
estrear um novo filme? Ou a notícia falsa de que essa mesma atriz foi traída
pelo marido com outra atriz famosa? Se é a desinformação que engaja mais, e consequentemente
gera mais lucros, então a ordem é produzir desinformação em escala infodêmica.
5) Debate na Mesa: O artigo aponta que a
desinformação não é apenas um problema individual. Como ela se relaciona com
estruturas econômicas e políticas maiores?
GSS: A desinformação não
pode, não deve, ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação,
pois ela faz parte de um fenômeno que estrutura estratégias de poder e interesses
econômicos. A desinformação não circula de forma natural, espontaneamente, ela
se articula com interesses políticos e econômicos e com formas de organização
da comunicação nas plataformas.
Um exemplo interessante de como a
propagação de desinformação não é um ato isolado, individual, são as
mobilizações da extrema direita no espaço digital.
Quem não lembra do chamado “Gabinete
de Ódio”, que funcionava no 3º andar do Palácio do Planalto, numa sala ao lado
da sala do então presidente da República Jair Bolsonaro? O que fazia “Gabinete
de Ódio”? Ele produzia desinformação para ser disseminada em escala industrial nas
redes sociais. Não era uma coisa isolada, de uma única pessoa, que viralizava
porque alguém não teve capacidade e condições para entender que aquilo era desinformação.
6) Debate na Mesa: Qual o papel das chamadas
“bolhas informacionais” na intensificação da polarização e da desinformação?
GSS: Bolhas
informacionais são os tais filtros criados pelos algoritmos que decidem que
tipo de conteúdo será mostrado para um usuário a partir de seus interesses e de
seu histórico de navegação. A bolha isola o usuário no ambiente virtual fazendo
com que ele só receba informações que confirmem suas convicções, ideias e
crenças. É o chamado “viés de confirmação”. O grande problema da bolha é que ela
transforma mentiras em crenças.
A bolha pega o indivíduo e o
aprisiona junto a milhares de outros indivíduos que pensam da mesma forma. Assim
não acontece o dissenso, pois todo mundo concorda com as mesmas coisas. Além
disso, o indivíduo aprisionado na bolha passa a achar que suas opiniões são
majoritárias na sociedade, já que ele não é exposto ao contraditório.
7) Debate na Mesa: Durante a pandemia de
Covid-19, o termo infodemia ganhou força. O que esse contexto revelou sobre o
funcionamento da informação nas redes?
GSS: Eu sempre digo que
o período da Pandemia de Covid-19 foi um grande laboratório para que as
plataformas e grupos políticos e sociais testassem suas capacidades de
disseminação de desinformação nas redes sociais. Quem não lembra do então
presidente Jair Bolsonaro afirmando que Covid era apenas uma “gripezinha” e que
bastava tomar remédio para piolho (Ivermectina) e para malária (Cloroquina)
para não se contaminar
Foi nesse momento que cresceu a falsa
ideia de que a desinformação pode ser enfrentada com mais informação. O que nós
vimos foi que mesmo com todas as evidências científicas, os conteúdos falsos ou
distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação de informação. A
grande questão hoje é porque mentiras, fake news, teorias conspiratórias,
discursos de ódio, etc, atraem muito mais atenção do que a pura e simples
verdade? E eu gostaria de dizer que a verdade existe! Ela não foi varrida
da face da terra e substituída pelas tais narrativas!
8) Debate na Mesa: Por que responsabilizar
apenas o indivíduo (como “falta de senso crítico”) pode ser uma visão limitada
do problema?
GSS: Não ter senso
crítico não é uma opção que cada um de nós faz em um determinado momento de
nossas vidas. O que leva uma pessoa a não ter senso crítico é o meio em que ela
está inserida. A pessoa não tem senso crítico, sobre a realidade política e
social em que vive, apenas porque foi exposta a um processo de alienação e\ou
de dominação. É por isso que responsabilizar o indivíduo, e sua falta de senso
crítico, pela existência da desinformação é um equívoco.
9) Debate na Mesa: Como a lógica do capitalismo
digital transforma informação em mercadoria e fonte de lucro?
GSS: Essa é uma questão bem
complexa. Mas, podemos começar a tratar dela lembrando que Karl Marx, nos “Manuscritos
Econômicos-Filosóficos” de 1844, demonstrou que o capital provém da exploração
dos trabalhadores e da acumulação de riquezas.
Ou seja, o sistema capitalista só se
sustenta pelas relações de exploração que vão se renovando com o passar do
tempo. Essa exploração se dava, na época da Revolução Industrial, pelos que detinham
os meios de produção e o capital sobre o que detinham apenas a força de
trabalho. É o que Marx chamava da relação (de exploração) do Capital sobre o
Trabalho.
Essas relações de exploração se
reconfiguraram em nossos dias no ambiente digital. Hoje a tecnologia digital
das plataformas é a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a
informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas
aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais.
Eu vou pedir licença para reproduzir
um trecho desse meu artigo que está no www.theconversation.com:
“Tecnologias digitais expandem
mercados e multiplicam fluxos informacionais e novas formas de exploração se
consolidam e o capital se concentra cada vez mais. O modelo de negócio
plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador (que hoje
é chamado de usuário ou colaborador) que produz e consome ao mesmo tempo sob
uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está
inserido”.
10) Debate na Mesa: Quais caminhos possíveis
para enfrentar a infodemia: regulação das plataformas, educação midiática ou
mudanças no modelo econômico?
GSS: Eu penso que tudo
isso junto é uma estratégia para se enfrentar a infodemia e a desinformação. Começa
com a regulamentação das plataformas, passa pela educação - não essa educação
meritocrática que temos, mas uma educação que seja emancipadora, com
consciência crítica e cidadã. Passa também por ações de “Letramento e
Alfabetizações Midiáticas e Informacionais” e pelo desenvolvimento de
Competências Críticas Informacionais – inclusive o Método Paulo Freire está aí
para nos ensinar como fazer isso.
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