Em momentos diferentes de minha vida, graças às atividades acadêmicas e
profissionais que desenvolvia, conheci e convivi com alguns europeus e estadunidenses.
Alguns me confessaram não conseguir entender o nosso jeito tão brasileiro de
ser e agir. Diziam não compreender o incomum hábito que temos de zombar de
nossas próprias desgraças e dos problemas que ou não queremos ou não sabemos
resolver.
Confesso que nunca entendi o porquê dessa esquisitice de achar normal
conviver com um problema e ainda achar graça dele. E eu não tenho a ilusão de
que um dia conseguirei. Será que eu sou um brasileiro que não deu certo? Não dá
para entender por que aceitamos tão passivamente conviver com as tragédias
causadas pelas enchentes. Porque, afinal, não fazemos nada para evitar as
calamidades que vemos na televisão?
Conheci um irlandês, em Recife, que falava um português brasileiríssimo.
Ele adorava morar no Brasil pelo fato de não termos frio com neve e termos sol
o ano inteiro. No entanto, ele não entendia nosso estranho jeito de agir. Ele
não entendia, por exemplo, o tal jeitinho brasileiro. Eu dizia para ele que só
sabe o que é, e para que serve, o jeitinho brasileiro quem aqui nasceu e é
fruto desse complexo processo de miscigenação que enfrentamos, fruto da mistura
de indígenas, pretos e brancos.
Atire a primeira pedra quem nunca usou o jeitinho brasileiro. Não
importa se o utilizamos em benefício próprio ou para ajudar outras pessoas.
Importa pouco se o jeitinho é para o bem ou para o mal. O fato é que ele sempre
está ali ao alcance da mão. Basta estarmos diante de alguma dificuldade, por
menor que seja, que logo nos vem à mente como fazer não para resolvê-la, mas
para dela desviar.
Foi por isso mesmo que inventamos a arte de driblar no futebol. Conscientes
de que jamais poderíamos passar, literalmente, por cima de nossos adversários
estrangeiros, criamos uma maneira de deles desviar com graça, zombando e até
mesmo humilhando. Garrincha, o anjo das pernas tortas, como diz o escritor Ruy
Castro, era consciente da superioridade física da maioria dos pobres zagueiros
que tentavam marcá-lo. O que ele fazia? Os driblava daquele jeito humilhante
para mostrar que eles não eram superiores.
Estamos sempre dispostos a criar um meio para driblar a fila. Raramente
procuramos saber por que ela tanto demora. Dificilmente olhamos para os que estão
enfrentando a fila, à nossa frente, como alguém que, igual a nós, tem muitas
outras coisas para fazer. Somos um bando de Garrinchas conscientes de nossas
inferioridades.
Sabendo que não poderíamos correr mais do que nossos concorrentes,
criamos meios criativos de passar por eles cortando o caminho. Somos
especialistas em cortar caminho. Herdamos essa capacidade dos pretos africanos
que foram aqui escravizados. Como não podiam bater de frente com o senhor da
casa grande, foram criando mecanismos de enfrentamento. A capoeira e o
sincretismo religioso são exemplos disso.
Em "CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS - PARA UMA SOCIOLOGIA DO DILEMA
BRASILEIRO” (Editora Rocco, 1997), o antropólogo Roberto DaMatta logrou
produzir uma obra no nível de “Raízes do Brasil” (Sérgio Buarque de Holanda), “Formação
Econômica do Brasil” (Celso Furtado), “Os Donos do Poder” (Raymundo Faoro) e “Casa
Grande & Senzala” (Gilberto Freyre). A obra de DaMatta vem da tradição dos
“explicadores do Brasil”, ou seja, este livro consegue tornar o Brasil mais
inteligível aos brasileiros.
DaMatta tenta, por exemplo, explicar para nós mesmos porque damos tanta importância
ao Carnaval, ainda que tenhamos desenvolvido um conceito bem próprio para a tal
malandragem que Chico Buarque dizia, em a “Opera do Malandro”, não mais existir
na Lapa do Rio de Janeiro.
A discussão “Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção
entre indivíduo e pessoa no Brasil” é imperdível. No Capítulo IV, DaMatta trata
desse rito de autoridade e separação que coloca cada brasileiro em seu “devido
lugar” a partir da estratificação social. DaMatta traz ainda o “macunaísmo”,
esse jeito de sermos malandros para sobrevivermos numa sociedade desigual, e o
“jeitinho brasileiro”, essa instituição informal tão nossa, só nossa.
O “Sabe com quem está falando?” está para DaMatta, como o “homem
cordial” está para Sérgio Buarque de Holanda. Na verdade, eles são os dois
lados de uma mesma moeda, pois quando a cordialidade e o “jeitinho” não
funcionam, lançamos mão, sem nenhum pudor, do “sabe com quem está falando?”.