quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O país da "boquinha"...

Neste artigo, "Tiradentes e as boquinhas", publicado na Folha de São Paulo de hoje (26/01/2011) Hélio Schwartsman acerta no diagnóstico. Somo mesmo o "país da boquinha", onde a Lei de Gérson continua vigente e sendo alargamente utilizada. É assim que seguimos: acusando os políticos de todos os males, como se fóssemos diferentes.


Agora são duas tetranetas de Tiradentes que estão pleiteando uma pensãozinha, pelos serviços prestados por seu antepassado. Faz sentido. Se a filha do Hercílio Luz, que foi eleito governador de Santa Catarina no século 19, faz jus a R$ 15 mil, por que as descendentes do herói do século 18 não teriam direito a modestos R$ R$ 727? Nesse ritmo, logo chegaremos ao Pero Vaz de Caminha. Chegaremos? Talvez seja mais exato dizer que foi dali que partimos. É sempre bom lembrar que o escrivão real termina sua Carta do Achamento do Brasil intercedendo diante de Sua Majestade por um genro.

Com tantos antecedentes, não é difícil explicar coisas como superpassaportes, superaposentadorias etc. Na verdade, é fácil e gostoso atacar políticos e seus apaniguados, mas será que nosso comportamento privado é muito melhor? Tramitam no Congresso dezenas de projetos de "regulamentação profissional", ou seja, para tornar uma determinada atividade exclusiva para os que já a praticam e de preferência obrigatória para a população. Todo sindicato, no fundo, almeja tornar-se uma OAB.

Na indústria, a situação não é diferente. A troca das tomadas, por exemplo, foi um golpe de mestre. Numa única canetada os fabricantes de plugues e adaptadores criaram "ex nihilo" um novo mercado de quase 200 milhões de usuários. No mesmo nível de genialidade só me lembro da regra que, alguns anos atrás, obrigou todos os motoristas a adquirir e a carregar um pedaço de gaze, um rolo de esparadrapo e um par de luvas de látex. Era para garantir atendimento médico em emergências viárias.

O Brasil se tornou uma espécie de país da boquinha. Indivíduos, categorias profissionais e empresas, em vez de firmar-se pela excelência de seu trabalho, serviços ou produtos, tentam sequestrar a autoridade do Estado para impor-se a todos e garantir "o seu". É um jogo no qual os bem relacionados ganham e a maioria perde.

domingo, 26 de dezembro de 2010

AFINAL, O QUE VOCÊ FEZ?

Em uma mensagem de natal, que virou música, John Lennon
lembra que o natal chegou e pergunta: “O QUE VOCÊ FEZ?”


Este ano completou-se 30 anos do dia em que, como falou Milton Nascimento, “... um simples canalha matou um rei”. Nada, ninguém, poderia ter feito a bala parar.


E assim é a nossa vida: as balas que atiramos não voltaram e nem voltarão.
Por isso é que John Lennon perguntava o que se tinha feito!


Como não dá para parar as balas atiradas, por que não lembrar delas
e refletir se foi realmente necessário atirá-las?


Mas, não façamos estardalhaços. Nada de promessas mirabolantes, planos revolucionários ou mesmo ações grandiosas que muito provavelmente não conseguiremos por em prática.


Sugerimos apenas que no próximo ano não mais atiremos as mesmas balas desnecessárias, pois claro está que uma vez atiradas elas não retornam para a arma de quem as atirou.


O natal é sim um grande símbolo. Sempre penso em simbologias por estes dias, pois cada um de nós relaciona o natal a alguma coisa bem particular e não só ao fato de que este dia é o do aniversário de Jesus Cristo.


Confesso que no passado não gostava do Natal por relacioná-lo a coisas ruins que aconteceram em minha vida – tinha lá meus motivos. Mas, hoje é bem diferente. Relaciono o Natal a coisas boas.
O Natal, hoje, é tudo aquilo que posso fazer de bom para as pessoas que amo e tudo aquilo que elas fazem de bom para mim.


É isso, então, que desejo para vocês todos – que seu natal possa ser relacionado a coisas maravilhosas.


Gostaria de deixar para todos nós uma frase de uma das músicas
que meus verdadeiros heróis (The Beatles) fizeram: “E no final, o amor que você receb e e do mesmo tamanho do amor que você deu”.


Feliz Natal (oh, oh, oh) e muitas coisas boas em 2011.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um país de Tiriricas.

Eis nossa 21ª eleição direta para presidente. Em 121 anos de história republicana tivemos, em média, uma eleição a cada seis anos. Mesmo com desrespeitos sofridos por nossas instituições, há 22 anos elegemos governantes e parlamentares para os três entes da federação. Assim, com tantas eleições, achamos que “nossa democracia está amadurecida, pois o sistema eleitoral brasileiro é modelar para o mundo inteiro”.


Seria, para nossa história republicana, alvissareiro ter tantas eleições não fossem os quinze militares presidentes; os quatro presidentes empossados e depostos, os três que renunciaram e dois que, eleitos, não foram empossados, além de sete que governaram sem ter voto algum. Foram nove eleições indiretas (com votações no Congresso Nacional) e quatro golpes de Estado bem sucedidos, para não falar das tentativas. Nosso processo eleitoral evoluiu manquitolando. Em 1960, última eleição antes do golpe de 1964, 6 milhões de eleitores votaram. Na seguinte, 29 anos depois, foram 120 milhões de eleitores. Crescíamos quantitativamente enquanto desaprendíamos a votar.


Lidamos com a democracia em termos quantitativos e não cuidamos de sua qualidade. Ainda não atentamos para o fato de que eleição é condição necessária, porém insuficiente das democracias. Há tanto exercendo o sufrágio universal o que sabemos sobre a representatividade? Ao ver o palhaço Tiririca eleito com mais de 1 milhão de votos, a resposta é pouco, quase nada! Seguimos sem saber o real significado de contratar a representação política pelo sufrágio.


Useiros e vezeiros na “arte” da representação nos blasonamos dos números exacerbados, mas não da qualidade. Ufanamo-nos da eficiência do sistema eleitoral com suas urnas eletrônicas e a rapidez com que saem os resultados, i.e., valorizamos a forma, não o conteúdo. Tivéssemos uma essência democrática, Tiririca não seria siquer candidato, quanto mais eleito. Mas, porque ele não poderia ser candidato? Por que é semi-analfabeto ou coisa que o valha? Em hipótese nenhuma, não!


Em tempo, no Dicionário Aurélio o verbete Tiririca possui três significados: (1) erva daninha que invade velozmente terrenos cultivados ou caule tuberculoso que dificilmente se erradica, a não ser com poderoso herbicida; (2) pessoa furiosa; (3) punguista, batedor de carteiras.


Tiririca não existe, é criação de Francisco Oliveira Silva – um imigrante nordestino que, ido tentar a sorte em São Paulo, resolveu fazer graça de sua miserabilidade econômica, social e intelectual e fez-se famoso por (des)graça da indústria do entretenimento que transforma o nada em tudo. Votou-se neste tal Francisco Silva ou em um palhaço que não tem a menor graça? Quantos votaram conscientes? Quantos votaram para protestar ou desvalorizar o sistema eleitoral brasileiro?


Tiririca não tem méritos para reivindicar uma cadeira no parlamento. A forma risível como se apresentou diz muito do que pretende. O escárnio o qual trata a instituição que fará parte justificaria não obter votos. Seus bordões de campanha retratam o descompromisso para com res pública. Ao dizer “vote em Tiririca, pior não fica”, avisa que o tipo de representação que temos é ruim, que vai piorar e que se esforçará neste sentido. Ao zombetear: “Você sabe o que faz um deputado federal? Eu não sei, mas vote em mim que eu te conto”, sinaliza que pretende se locupletar do erário. Os que elegeram Tiririca não pensaram na qualidade da democracia, nem no que ele pode fazer em nome da representação. Claro, o que quer que ele faça é responsabilidade, também, de todos os “tiriricas” que nele votaram.


A revista Época trouxe matéria mostrando que pouco se sabe das funções de um deputado. Em uma pesquisa, 60% dos entrevistados afirmaram que um parlamentar serve para arrumar empregos, ajudar aliados em negócios com o governo e promover eventos de lazer. A lógica é tacanha mesmo - o deputado não serve para aprovar leis ou fiscalizar os atos do governo, ele seria a mão invisível que retira do Estado benesses (e outras coisas mais) para si e para seus aliados. Tiririca dizia que queria ser deputado para ajudar os miseráveis, a começar pelos seus parentes.


Agora, a dúvida é em qual das três categorias, dispostas no Aurélio, ele se encaixará. Será uma erva daninha dificilmente erradicável? Um deputado furioso? Será um contumaz punguista das finanças públicas? Ou as três coisas juntas? Aguardemos, o tempo nos dirá. Mas, por favor, não façamos apostas, pois as três opções são péssimas.


Assim, resta-me o Jus esperniandis – o direito de protestar ex-post facto. Tiririca, os ex-jogadores de futebol, as “mulheres-frutas”, os cantores escatológicos e os néscios de toda sorte diziam a mesma coisa: “Quero me eleger para me dar bem”. Foram eleitos por um sistema que quase tudo aceita e que se recusa a fazer uma reforma política que impeça que a palhaçada se instale no Congresso Nacional como erva daninha. Esses tiriricas expuseram a face mais ridícula, antidemocrática e cruel de uma sociedade que costuma fazer pouco caso de suas instituições.


Em 1953 Robert Dahl cunhou o termo poliarquia para denominar um tipo de democracia representativa moderna. Um sistema político dotado de instituições democráticas, com funcionários eleitos, eleições livres, justas e freqüentes, onde a liberdade de expressão, as fontes de informação diversificadas, a autonomia para a associação e a cidadania inclusiva sejam de fato e de direito. Esta poliarquia não poderia preceder desses elementos e a falta de apenas um deles deixaria o conceito capenga. Como se vê, estamos bem longe de sermos uma poliarquia.


Com tantas tiriricas a solta, empestando nossas instituições como ervas daninha ou coisa pior, como podemos denominar nosso sistema político? Palhaçocracia?

Outubro/2010.

Apenas, escute e se emocione....

Nada para comentar, nada para analisar,

Apenas, escutemos e nos emocionemos!!!!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Torturando dados e analisando fatos – Parte III


A onda da continuidade chegou à Paraíba?

A lógica que norteia a eleição em nível nacional parece ser a mesma que orienta o pleito na Paraíba. Aqui a onda da continuidade favorece a candidatura do governador José Maranhão (PMDB). E a postulação de Ricardo Coutinho (PSB) vai sofrendo solução de continuidade por ter se alocado na onda errada, a da mudança. No entanto, é preciso atentar para o fato de que Coutinho é hoje vítima de suas próprias contradições.


Com uma carreira política pautada por boas atuações (já foi vereador e prefeito de João Pessoa, além de deputado estadual), que lhe valeram boas avaliações, Ricardo tem (ou tinha) como marca o fato de se colocar como alternativa aos dois grupos políticos hegemônicos na Paraíba – o liderado pelo governador José Maranhão e o capitaneado pelo ex-governador Cássio Cunha Lima. A médio e longo prazos, acumulando experiência, além de cargos em nível federal, ele se tornaria popular pelo estado e poderia vir a ser candidato a governador em situação amplamente favorável, até porque estes dois grupos políticos já demonstram esgarçamento de seus materiais políticos.


Mas, Coutinho apressou-se e ao invés de ser a alternativa “a tudo isso que aí está” (como ele mesmo dizia), pavimentando sua carreira em bases sólidas, aliou-se ao que ele dizia ser diferente. Aliás, não esqueçamos que Ricardo contou com o apoio de José Maranhão, quando foi candidato a prefeito de João Pessoa, e agora se coligou com Cássio Cunha Lima e Efraim Moraes, de quem já foi um critico feroz. Ricardo deixou de ter coloração própria, diluiu-se no cenário político e, pior, perdeu apoio junto a uma fatia importante do seu fiel eleitorado da capital – a classe média, que o respeitava exatamente por ser diferente e alternativo.


Em março deste ano isso era depreendido pelas pesquisas. Numa delas, Ricardo aparecia com apenas 3 pontos percentuais (dentro da margem de erro, portanto) a frente de Maranhão na cidade de João Pessoa, i.e., onde se esperava que ele largasse com algo em torno de pelo menos 20 pontos de vantagem ele dava sinais de estagnação. Já em Campina Grande, segundo maior colégio eleitoral do estado, a situação era parecida – Ricardo só ficava 2 pontos a frente de Maranhão. E em várias outras regiões do Estado, Maranhão abria um frente de 15 a 20 pontos.


Em julho, o Instituto Consult aferiu que Maranhão tinha 47,5% das intenções de voto e que Ricardo contava com 30,5%. Já em agosto, Maranhão tinha 48% e Ricardo 32%, segundo o IBOPE. Mas, nem sempre foi assim. Em setembro de 2009, pesquisa IBOPE dava a preferência de Ricardo no patamar de 38% e a de Maranhão em 37%. Na medida em que o eleitorado foi percebendo a descoloração político-partidária de Ricardo ele foi caindo nas pesquisas. Prova disso é que sua rejeição, que até março desse ano ficava em torno de 18% pontos, foi a 27% no final de julho – aquele limite perigoso para os candidatos como já vimos.


Assim, caminhamos para o desfecho eleitoral, considerando que o processo estadual está atrelado as (in)definições da questão judicial que cerca a candidatura de Cássio Cunha Lima. Aliás, um dos problemas que Ricardo enfrenta é esse, pois o PSDB local, e sua liderança maior, não estão nesta campanha com força total. A coligação PSB/PSDB/DEM era para Coutinho a possibilidade de contar com uma robusta estrutura de campanha mediante a popularidade e o capital eleitoral de seus novos aliados. Mas, isso não aconteceu, pois resignadamente esperam pela decisão judicial.


Cássio vai mantendo sua candidatura enquanto espera o julgamento dos recursos impetrados no âmbito da justiça federal. Sabe-se que quanto mais tempo levar-se para julgar a sua impugnação, nos quadros da Lei Ficha Limpa, mais tempo ganhará para ver se chega no dia da eleição podendo ser votado. Essa situação traz um estado de insegurança para todos, pois se ele for eleito e for considerado “ficha suja” não poderá ser diplomado, portanto não tomará posse. E, neste caso, as urnas não vão absolvê-lo, pois elas não têm esse poder - não lhes demos tais prerrogativas em nossos arranjos institucionais.


Cabe, aqui, um esclarecimento. O que acontece se Cássio for eleito e não puder tomar posse? Pela legislação vigente, se ele tiver obtido mais de 50%, a justiça terá de convocar novas eleições para senador, mas só para uma das vagas em disputa. Se ele não conseguir alcançar tal patamar, a justiça terá que dar posse ao primeiro da lista dos votados que não foi eleito. Seria de bom alvitre que a justiça logo se definisse para que o jogo político-eleitoral na paraibana pudesse se resolvido nas urnas e não nos tribunais.

Setembro/2010.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Torturando dados e analisando fatos – Parte II

Serra iniciou a campanha prometendo mais do mesmo, só que numa roupagem conservadora em relação ao governo Lula. Ele tentou se apresentar como o “pós-Lula” e não como o “anti-lula” – estratégia correta, diga-se, mas ínfima diante o tal “feel good factor”, aquele sentimento, bem explorado pelos marqueteiros de Dilma, que busca no senso de bem estar da massa a justificativa racional (e emocional) para votar.


Em um dado momento a tese do “pós-Lula” até funcionou a contento. Vinha dando certo a ideia de tratar FHC, Lula e Serra como o produto mais bem acabado dos 25 anos de redemocratização. Serra tentava ser a síntese dos 16 anos de governos de FHC e Lula, uma consequência natural de um processo de aprendizado coletivo. Retirava o que os dois tinham de ruim, focava nos bons atributos, e ainda ficava acima das diferenças e preferências partidárias. Um mundo perfeito, onde Serra seria a opção (melhor) a Dilma. Além disso, diluía o que há de específico do governo Lula, que na verdade é o que lhe dá a popularidade nas nuvens, para “desplebiscitar” a eleição. Mais um erro de Serra é não compreender (ou não aceitar) que a popularidade de Lula deve-se, dentre outras coisas, as qualidades de seu governo.


Mas, a tese da díade, da comparação entre dois projetos, dois partidos e, fundamentalmente, entre dois homens, era imbatível. Nós, brasileiros, não resistimos a um bom e velho embate onde a luta do “bem” contra o “mal” novelístico seja o centro da discussão. Continuamos a preferir eleições em preto-e-branco, não em cores vivas. Assim, o atual processo eleitoral se dá em dois patamares. Em um, a candidata da situação resume tudo a figura do seu guia e, portanto, na sua despersonalização. E no outro, o candidato da oposição encerra sua campanha em explorar o tema da saúde e da quebra de sigilo fiscal. A eleição vem sendo amornada, beirando a frieza.


Não temos um debate profícuo. Não temos uma saudável exploração dos projetos de governo. Também, não conseguimos detectar a importância de outras candidaturas, como a de Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), pela variedade de temas que vão tentando apresentar naquele exíguo espaço de tempo do guia eleitoral, mediante as espartanas regras impostas aos candidatos nos debates televisivos. A democracia brasileira não é, ainda, suficientemente madura para comportar em seus embates eleitorais uma candidata com um perfil complexo como o de Marina Silva. Nosso sistema político gosta de rotular os candidatos e ela é “inrotulável”. Comprometida até a medula com a defesa do meio ambiente e de um tipo de desenvolvimento sustentável não deixa de tratar dos temas da economia, ciência e tecnologia. Evangélica, defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Vindo da floresta amazônica, sobreviveu à miséria e ao analfabetismo, mas não endureceu e comporta-se com leveza, parece não pedir nada, apenas que a escutem. Marina é a candidata que marqueteiros não conseguem plastificar, ela tem uma couraça própria e isso nossa frágil democracia ainda não aceita, se é que um dia aceitará.



Serra, o Cristiano redivivo


Desse estado de coisas depreende-se que Serra está sendo acometido do velho fenômeno da política nacional – a "cristianização", surgida na eleição presidencial de 1950. O PSD e o PTB queriam Vargas como candidato por sua popularidade e chances de vitória, mas ele demorou a decidir por qual dos dois sairia candidato. O PSB cansou de esperar e lançou a candidatura de Cristiano Machado. Tendo a vitória de Vargas (que se lançou pelo PTB) como certa, os líderes do PSD abandonaram Machado à própria sorte, usando o sortilégio de, reconhecendo sua postulação, apoiarem Vargas. Desde então, sempre que um partido (e aliados) abandona sua candidatura oficial e migra para outra com chances de vitória, afirma-se que ele "cristianizou".



Se Serra não está sendo cristianizado, porque o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, liberou prefeitos da base aliada de quase uma centena de cidades de Pernambuco para votarem em Dilma? E porque, em Minas Gerais, Aécio Neves trabalha em favor do voto “dilmasia”, onde o eleitor consagra apoio a Antônio Anastásia (candidato a reeleição pelo PSDB) e a Dilma?


No Ceará, Tasso Jerreisatti não usa a imagem de Serra em seu material de campanha. Yeda Crusius não citou José Serra no lançamento de sua campanha à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul. O senador Agripino Maia, do Rio Grande do Norte, além de não citar Serra, não para de elogiar Lula. Em Alagoas, o tucano Teotônio Vilela tenta reeleger-se governador se mostrando íntimo de Lula. No Espírito Santo, o tucano Luiz Paulo trata apenas sua candidatura e seu jingle abusa do nome Luiz, ao ponto de não se saber de qual Luiz se fala. No Paraná, Beto Richa (PSDB) faz poucas referências a Serra em seu material de campanha. Com aliados desse naipe, o sonho de Serra ser presidente parece ter virado um grande pesadelo.


Em São Paulo, Serra só aparece ao lado de Geraldo Alckmin na fachada do comitê de campanha. Coincidência ou não, Alckmin lidera a disputa para o governo - segundo o Datafolha (num levantamento recente) ele tem 49% das intenções de voto, contra 23% de Aloizio Mercadante (PT); mas Dilma tem uma vantagem de mais de 26% sobre Serra no estado. Ao que tudo indica, Alckmin cobra com juros e correção o desgaste que sofreu na eleição de 2006.
Aqui mesmo na Paraíba, não é diferente. Vêem-se pouquíssimas referências dos candidatos do PSDB e do DEM a candidatura de José Serra. O ex-governador Cássio Cunha Lima (candidato a senador) trabalha em faixa própria sem referir-se a candidatura de seu partido em nível nacional. O candidato a governador Ricardo Coutinho (PSB) utiliza a imagem de Lula e Dilma em seu guia eleitoral, num gritante conflito de interesses, pois seu vice é Rômulo Gouveia do PSDB. Por sinal, vejamos em quantas anda a eleição no estado da Paraíba.


Continua em breve ....

sábado, 18 de setembro de 2010













Duas imagens interessantes desta semana que está acabando. Por elas vemos a pura expressão daquilo que é anacrônico, avesso aos costumes hodiernos, retrógrado.Através dessas imagens vemos bem que a democracia ainda não tem um valor universal, se é que terá.

Numa, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, e a Rainha da Inglaterra, Isabel II, se encontram na visita que o Papa fez a Londres. As “múmias” se encontram para conversarem sabe-se lá o quê. O que será que estas duas figuras anacrônicas e ancestrais devem ter para conversar? O que será que vão acordar entre si? Será que concluíram que a humanidade deve abdicar de seus avanços científicos e tecnológicos em prol da união em torno da religião?

Já na outra imagem, uma mesária aguarda a chegada de eleitores em uma seção eleitoral no Afeganistão. Note-se que ela segura a cédula eleitoral vestida em uma reluzente burca azul."Democraticamente", os afegãos vão escolher seus representantes, mas a mesária cumpre seu dever cívico dentro de uma burca, essa espécie de armadura que a remete para o início da idade média, nada mais anacrônico, pois democracia deve rimar com liberdade, coisa que não dá para ter e expressar por baixo desse “manto”.


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Torturando dados e analisando fatos – Parte I

Pesquisas: preferir é diferente de escolher.

Já se disse que na estatística se tortura os dados até que falem. “Supliciarei” dados sobre as eleições considerando que pesquisas são pouco preditivas e que (apenas) ponderam resultados num dado momento. Elas não falam por si só e, para que referenciem resultados (nada mais do que isto), deve-se estudar suas metodologias dispostas nos sites do Supremo Tribunal Eleitoral (STE) e dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) – eles têm os registros das pesquisas e informações sobre os métodos de coleta de dados utilizados pelos institutos.

De minha parte, observo primeiramente os dados sobre a rejeição dos candidatos, aferida a partir da questão: “em qual candidato você não vota em hipótese nenhuma?” Regra básica da análise eleitoral é considerar que só tem chances factíveis de se eleger aquele que, nos cinco meses antecedentes à eleição, não ultrapassar em momento algum os 27 pontos percentuais de rejeição. E porque não atentar, de início, para os índices de intenções de votos? Elementar, pois quando o entrevistado aponta uma preferência considera-se a real possibilidade dele mudar de opinião.

Em se tratando de opções eleitorais, preferir é diferente de escolher em definitivo. Significa que o eleitor acha melhor ou gosta mais de um determinado candidato e que dentre duas, três ou quatro opções ele faz uma escala considerando sua primeira melhor opção e assim sucessivamente. Neste caso preferir tem algo de incerteza. Já rejeitar é impositivo. É quando o eleitor não admite, recusa e até repele um determinado candidato


O cenário plebiscitário: o poste virou candidato e a oposição perdeu o discurso.

Vejamos a série histórica da sucessão presidencial, valorizando duas variáveis: a inconteste capacidade de Lula transferir votos para Dilma Rousseff e a forma como o PSDB, e seu candidato José Serra, atuam no jogo eleitoral. Atentemos para a evolução dos números, percebendo que a série é favorável a Dilma. Enquanto ela, partindo do nada, foi crescendo, Serra iniciou em um patamar alto, foi patinando e depois iniciou vertiginosa queda.

Em agosto de 2009 José Serra tinha uma rejeição de 21% e Dilma de 19%. Serra aparecia em primeiro lugar nas pesquisas tendo entre 19 e 25 pontos percentuais à frente de Dilma que apresentava uma preferência entre 16 e 24 pontos. Esta variação se dava entre as pesquisas feitas pelos institutos de pesquisa Datafolha, Ibope, CNT/Sensus e Vox Populi. Já a aprovação do governo Lula e a aferição de sua popularidade seguiam acima dos 70%. Por isso mesmo, ele conseguia “plebiscitar” a eleição, i.e., a comparação entre os anos FHC e os anos Lula tornava-se o centro da discussão. Por essa lógica, Dilma e Serra seriam tão somente os representantes dessa suposta díade que a muito vem sendo alimentada por PT e PSDB. Sabemos, no entanto, que estes são, para o bem e para o mal, mais símeis do que divergentes.

A questão é que Dilma aceitou de bom grado ser o poste de Lula, mas Serra não só rejeitava este papel em relação a FHC, como ainda tenta (em vão) se diferenciar do ex-presidente. Deve ser por isso que FHC ainda não apareceu no guia eleitoral serrista. O problema não reside no fato de Serra querer ser diferente de FHC - este é um direito seu. O drama é Serra ter tentado se comparar a Lula. Quando a oposição quer se igualar a situação é por reconhecer suas fragilidades. O pior dos mundos para a oposição é ficar sem discurso, é elogiar políticas desenvolvidas pela situação para poder ficar bem com o eleitorado.

A eleição é plebiscitária devido ao estratagema de Lula que, egocentricamente, decidiu que ela deve girar em torno dele mesmo. O que faz Lula, no guia eleitoral, senão insistir no plebiscito? Ora implícita, ora explicitamente, ele exerce sua melopéia: “se você, eleitor, gostou dos meus dois governos, vote em Dilma, se não gostou vote em Serra e aprove os oito anos de FHC”. Em março de 2008 a candidatura Dilma era quase inexequível com índices de rejeição acima dos 40%. Com tamanha recusa nem Madre Teresa de Calcutá se elegeria. Neste momento, Dilma tinha o pior cenário possível por combinar baixo índice de intenção de voto com alto índice de rejeição. Inversamente proporcional Serra tinha alto índice de intenção de voto com baixo índice de rejeição.

Mas, a rejeição a Dilma foi diminuindo na medida em que Lula esclarecia que a havia escolhido para ocupar a presidência em seu lugar. Ele não dizia (nem diz) que será por um único mandato, enquanto tira “férias”, até que retorne (em 2015) para mais dois mandatos. Esse foi o cenário que Lula concebeu para soverter de uma vez por todas a tese da re-reeleição. A idéia do 3° mandato agredia em demasia sua biografia que pretende ser maior e melhor do que a de Getúlio Vargas. Eis o desespero do PSDB: ver Lula (e o PT) se perpetuarem no poder, abençoados pelas urnas, até pelo menos 2022. Não é a toa que vez por outro Serra afirma que o PT tenta fazer no Brasil o que o PRI fez no México, permanecendo por mais de 70 anos no poder

Ainda sobre o cenário de 2009, vale lembrar que, em junho, 81,5% avaliavam positivamente o governo Lula e em setembro este índice era de 76,8%. Essa queda se deu pela insistência de Lula em defender e proteger José Sarney e seus atos escusos na presidência do Senado. Lula havia enlouquecido? Não, fazia cálculos. Ao defender Sarney e et caterva atraia o PMDB para sua composição. Michel Temer veio a se tornar o vice de Dilma e o PSDB viu suas esperanças de compor uma robusta coligação se esvaírem. Sem conseguir a questionável (já que, teoricamente, pouco somaria) chapa “puro-sangue”, com Aécio Neves na vice-presidência, restou a Serra a “oferta” do DEM e o obscuro Índio da Costa caiu de pára-quedas na chapa tucana. Aliás, que motivos levaram os caciques do DEM declinarem da postulação de vice na chapa tucana?

A estratégia de Lula começou a funcionar a partir de dezembro de 2009. A diferença pró-Serra foi sendo pulverizada e Dilma foi subindo nos patamares de aceitação das pesquisas. Veja-se que a curva dos que sabiam que Dilma era a candidata de Lula foi sempre ascendente Em dezembro de 2009, 52% relacionavam Dilma a Lula. Em março de 2010 o Instituto CNT/Sensus divulgou que 53% dos brasileiros votariam no candidato apoiado por Lula, mesmo sem saber qual. Em maio o indicador foi a 61%. Com o guia eleitoral o percentual bateu à casa dos 80%. Isso demonstra o poder de transferência de votos de Lula para seu poste, digo, candidata.


O dilema do poste parece finalmente resolvido.

A campanha eleitoral começou com Dilma e Serra enfrentando seus demônios.

Dilma tendo que demonstrar que não é um mero instrumento nas mãos de Lula e que, em que pese o apoio e a indicação, pode fazer um governo autônomo. Ao mesmo tempo não pode dar a entender que tentará se descolar de seu mentor, pois muitos aceitam nela votar, mesmo sem conhecê-la bem, desde que preserve uma fidelidade inquebrantável a Lula. Ela precisava (ainda precisa) convencer bem o eleitorado de que merece os votos lulistas. Esta pode ser a primeira vez, no Brasil, que uma pessoa sem capital eleitoral algum se tornará presidente da República!

Provavelmente teremos, pela primeira vez, uma mulher presidente. Mas, é preciso ter claro que a questão de gênero é algo que pouco influencia. Inclusive pesquisas demonstram que mulheres (de nível social, idade, instrução e profissão variados) preferem votar em homens. Dilma poderá ser eleita quase que exclusivamente pelo instrumento da transferência de votos. Finalmente, o dilema do poste parece resolvido!

Existe, ainda, um espectro rondando a candidatura de Dilma Rousseff. Trata-se do câncer linfático por ela contraído - assunto delicado, que deve ser conduzir privadamente. Mas, em política não existem altruísmos e, como diria ACM, “em se tratando da luta pelo poder, abaixo do pescoço tudo é canela”. Foi assim que o colunista Cláudio Humberto revelou (no Jornal da Paraíba em 03 de agosto desse ano) que o PSDB via a melhor (se é que existe uma) forma de inquirir Dilma sobre seu estado de saúde. Ele relata que um alto tucano afirmou que (SIC) “o eleitor tem o direito de saber se o voto é para Dilma ou Michel Temer”. Serra quer provocar este debate, mas teme parecer cruel aos olhos dos eleitores e perder mais ainda. Sabemos que a doença de Dilma é um tema tabu no PT – seria a única ameaça à vitória dela. Em tempo, o eleitor deve saber que ao se votar no candidato a presidente vota-se automaticamente no vice. Ele existe para substituir o titular.

Já Serra tem a difícil tarefa de convencer o eleitor que é melhor do que Dilma e de tudo o que ela representa. Também, não poder negar os pontos positivos do governo e a estratosférica popularidade de Lula. Precisa minimizar a máxima de que “em time que está ganhando, não se mexe”. Perdeu e perde bastante tempo em sua campanha tendo de combater o discurso governista de que “se estamos bem, porque mudar”. Serra trava titânica luta contra o fato de que se Dilma é a continuidade do bem avaliado governo Lula, porque eleger alguém que é contra a tudo isso.

O grande problema de Serra é estar pela segunda vez na situação errada, mesmo que esteja legitimamente reivindicando o poder. Em 2002 ele caracterizava a proposta de continuidade do projeto liberal de FHC, mas a onda era a da mudança social. Agora ele trouxe a proposta de mudança, mas a onda é de continuidade. Ele até tentou surfar nesta onda. Chegou mesmo ao ponto do desespero usando a imagem de Lula em seu guia, mas na prancha lulista só cabe Dilma.

O que faltou a Serra foi discernimento para entender que seu momento havia passado e que as feridas da eleição de 2006, quando tentando se preservar impôs a Geraldo Alckmin o fardo da derrota, não haviam cicatrizado. Também faltou tato e argumentos para lidar com Aécio Neves – pedir a ele que sacrificasse uma eleição certa para o Senado, além de seu promissor futuro num momento pós-lulismo, em troca de um projeto fadado ao fracasso foi algo próximo da insensatez.
Enquanto meditava hamletianamente se seria ou não candidato, alimentando dúvidas sobre a exequibilidade de seu projeto.

Serra parecia não se dar conta que havia ficado sem opção – tinha mesmo que ser candidato, pois os canais alternativos haviam sido fechados pelo tucanato paulista. Ao se decidir, Serra cometeu um erro de estratégia que para muitos foi seu suicido político. Abandonou a tese de 2002, quando propunha ser a oposição dentro da continuidade, e acoitou a tática de ser a continuidade dentro da oposição. Perdeu a identidade, ficou com um discurso difuso. Teve momentos em que criticava seus companheiros de partido e de sua aliança (veja-se as duras criticas feitas ao DEM, no caso do “mensalão de Brasília”) e elogiava Lula. Por vezes parecia ser mais lulista do que a própria Dilma. Agia tal qual o cidadão que, tendo mudado de país, esqueceu seu idioma e não conseguiu apreender o do novo país.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fantasia e miséria na Copa

Mais um artigo, da série "eu não aguento mais tanta baboseira, tanta alienação, preciso escrever se não vou ficar louco...", em que nossa realidade é exposta para poucos, claro. Este artigo, de Fernando Barros e Silva, na Folha de São Paulo de hoje (16/06) demonstra tão bem porque a campanha "Cala boca, Galvão" faz tanto sucesso na internet.


O momento mais emocionante do jogo entre Brasil e Coreia do Norte, ontem, aconteceu antes que a bola rolasse. Foi durante a execução do hino do país adversário, quando as câmeras flagraram o atacante Jong Tae-se se debulhando em lágrimas. A expressão de choro permaneceu em seu rosto durante a partida. Se ele jogasse como chora, estaríamos fritos.

Medíocre, sem brilho, apático, previsível. O Brasil fez uma estreia sofrível na Copa do Mundo. Tostão e Paulo Vinícius Coelho saberão explicar mais e melhor as deficiências dessa seleção de gladiadores. Mas mesmo aí, nessa identidade de "guerreiros da pátria" que foi forjada, com a mão de Dunga, para fins de mercado, há um abismo entre o que a propaganda vende e a mercadoria que foi entregue em campo.

A culpa, claro, não é dos atletas que lá estão. Vários deles, meninos assustados, visivelmente no limite das suas capacidades. A seleção de Dunga é inimiga da fantasia. Isso torna mais flagrante, como ficou claro mais uma vez, o divórcio entre o que acontece dentro de campo e a parafernália de expectativas e entretenimento que se cria em torno dele. O business da Copa pede algo que o jogo não dá. Mas que é preciso arrancar dele ainda assim, nem que seja no gogó. E ninguém exprime melhor essa necessidade do que Galvão Bueno, dublê de locutor esportivo e animador do país. Mal termina o jogo e a Globo nos oferece uma sequência de imagens tediosamente iguais da massa espremida em praça pública e se acabando ao som de alguma música ruim país afora.

Os clichês da brasilidade então inundam a tela: é o bundalelê do cantor Latino em São Paulo, é "essa coisa gostosa nas areias de Copacabana que contagia o país inteiro", é "a chuva que não esfria o coração pernambucano". Tudo somado, é muita fantasia na TV para um espetáculo tão miserável. Ou muita miséria na TV para tão pouca fantasia em campo. Confundir tudo é a alma do negócio.

domingo, 13 de junho de 2010

Abaixo o patriotismo estulto

Neste artigo, publicado hoje (13/06/2010) na Folha de São Paulo, Clóvis Rossi expressa claramente o sentimento de quem dá-se ao direito de torcer pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo sem abrir mão da capacidade de refletir e que rejeita esse tal patriotismo estulto a la Galvão Bueno.


Começou a Copa, começaram as nefandas cenas explícitas de "patrioteirismo". Nada contra quem gosta de exibir seu fervor a cada quatro anos. Tudo contra a obrigatoriedade de fazê-lo, induzido por um tipo de jornalismo que troca a caneta e, principalmente, o microfone pela vuvuzela. E pela propaganda que diz que só sou brasileiro se for "brahmeiro" e guerreiro.

Que faço eu aqui, que não bebo e ainda por cima sou da paz? Tão da paz que não concebo o futebol como uma guerra de afirmação de uma tribo. É muito mais que isso. É um espetáculo. E, no espetáculo (qualquer um), o fundamental é a beleza, não a cor da camisa que vestem os participantes.

Não faz sentido, para mim pelo menos, torcer para que um filme brasileiro ruim leve a Palma de Ouro em Cannes, se na competição estiver também um filme argentino dos bons (ou iraquiano, ou palestino, ou afegão, para citar apenas tribos que, estas sim, estão necessitando da dose de autoestima positiça que ganhar uma taça traz).

O Brasil, no futebol, não tem mais nada a provar a quem quer que seja. É o único território em que somos, inequivocamente, os melhores do mundo. Tão melhores que nossos jogadores melhoraram os campeonatos espanhol, inglês, francês, italiano, até turco, meu Deus, ao passo que a ausência deles vampirizou o Campeonato Brasileiro, transformado em cemitério dos elefantes e em território dos que ainda não seduziram os "gringos".

Não, não sou contra o "patrioteirismo" por achar que só vale quando e se o Brasil algum dia ganhar o mundial de saúde, educação ou equidade. Ou um Nobel. Não é uma comparação válida. O que realmente me incomoda é que, se o patriotismo é o último refúgio dos canalhas (Samuel Johnson, 1709/1784), ser obrigado a tornar-se canalha a cada quatro anos é uma canalhice.