Professor do Curso de História da Universidade Estadual da Paraíba. Mestre em Ciência Política (UFPE) e Doutorando em Ciência da Informação (UFPB). Especialista em História do Brasil, com ênfase na Era Vargas e na Ditadura Militar, na democracia e no autoritarismo. Autor dos livros "Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido" (2015) e “Do que ainda posso falar e outros ensaios - Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar” (2024) lançados pela Editora da UEPB.
sábado, 9 de abril de 2016
PONTO A PONTO COM GILBERGUES SANTOS
Entrevista no Programa Ponto a Ponto, com o Jornalista Paulo Roberto da TV Itararé, sobre o 52º ano do golpe civil-militar de 1964 e a atual conjuntura politica brasileira.
Não por acaso, a entrevista foi ao ar exatamente no dia 31 de março de 2016, em um dia que só se falava em golpes, impeachment presidencial e do descontrole político institucional que enfrentamos,
A entrevista serviu, ainda, para divulgação do livro "HERÓIS DE UMA REVOLUÇÃO ANUNCIADA OU AVENTUREIROS DE UM TEMPO PERDIDO", lançado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba, onde analiso o comportamento politica da esquerda brasileira durante o regime militar.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
O abismo em que nos lançamos
Nossa convulsionada
conjuntura nos faz crer que estamos numa dimensão onde os corpos (políticos) se
batem descontroladamente, onde as leis da gravidade democrática não agem. Vivemos
num buraco negro onde impera um sistema de força econômica e juridicamente assimétrico,
demandado pelos interesses de um mundo coorporativo (leia-se empreiteiras)
corrompido e corruptor e por uma elite político-partidária despida de seus,
poucos é bem verdade, pruridos republicanos. Senão, vejamos.
Derrotados nas últimas
quatro eleições não aceitam às incertezas do jogo democrático e não suportam mais
ser oposição. Querem o conforto que a situação oferece, pois só são democratas
estando no governo. Uma vez na oposição usurpam o poder ante a possibilidade de
terem pela via golpista o que não conseguem pela via eleitoral. Os que querem
Dilma longe do Palácio do Planalto prospectam propinas na Petrobrás, em Furnas,
no Banestado, no Rodoanel e na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Os
arautos do impeachment, afanadores de verbas da merenda escolar, querem depor Dilma
pelas tais pedaladas fiscais na falta de um argumento crível. Impedir um governo
de exercer seu mandato eletivo através de uma farsa rocambolesca, como a que vemos
no Congresso Nacional, é, como diriam os alemães, um putsch!
A presidente é chamada
de ladra por uma gente que veste verde-e-amarelo para esconder o preto fascista
que trás por dentro de suas camisas. Dilma não foi indiciada, sequer declarada
suspeita, nem denunciada pelo Ministério Público. Ela não foi condenada por
crime algum, mas é atormentada por um conjunto de forças politicas, econômicas
e das comunicações que querem impô-la aquilo que tão bem merecem. Ver o grã-tucanato
quatrocentão de São Paulo e alhures, dedo em riste, acusando a presidente é um
acinte a nossa inteligência. O “maestro soberano” tinha mesmo razão.
O presidente da Câmara
dos Deputados e delinquente-mor da República, Eduardo Cunha, comanda o processo
de impeachment da Presidente através de uma comissão onde mais da metade de
seus parlamentares são indiciados. O que mais esperar de um país onde os
executores de um impeachment presidencial são réus em processos de corrupção e
até de homicídio? A regra básica do direito que diz que o juiz não pode ter
participado dos atos que julga é no Brasil, tal qual o fundo do poço, apenas
uma etapa rumo ao buraco negro da mais ampla inconstitucionalidade.
Um juiz opera no limite da
irresponsabilidade se vendo acima e além das instituições e da sociedade.
Sérgio Moro, togado pelos interesses de um partido politico, inspirado no modus operandis do fascismo italiano, pulveriza
direitos dos que tem como inimigos ao abusar de escutas invasivas, vazamentos
seletivos e do incitamento ao linchamento midiático. O ativismo judicial de
Moro atenta contra a mínima ideia de Estado democrático. Só mesmo num Estado
fascista um juiz de 1ª instância divulga conversas telefônicas da presidente da
República passando por cima da Suprema Corte.
A assimetria da justiça
brasileira salta aos olhos quando impõe um procedimento de condução coercitiva
a um ex-presidente e engaveta investigações contra um senador da República,
ex-candidato a presidente, sobre quem pairam suspeitas e acusações de toda
sorte. Um exemplo de assimetria deslavada? As contas da campanha eleitoral de
Dilma estam sendo escarafunchadas. Mas, porque não se investiga as contas de
Aécio Neves quando se sabe que ele foi, também, agraciado pelos cobres da
Odebrecht? A justiça deve emparedar os corruptos, mas sem essa seletividade
mórbida ecoada pelos meios de comunicação. Supor que só um sistema de força é
capaz de abater a corrupção é uma visão pueril dos manifestantes dominicais e
um oportunismo dos que são sistematicamente barrados pelas urnas. Se ditaduras
fossem solução para a corrupção, seríamos o povo mais honesto do mundo!
Completamos 31 anos do
pacto que pôs fim ao regime militar e que chamamos imprecisa e erroneamente de
“Nova República”. Foi em 1985 que a liberalização “lenta, segura e gradual” (iniciada
pelo general-presidente Ernesto Geisel) se determinou. Naquele ano um general (João
Figueiredo) deixava o governo e um civil (José Sarney) assumia. Uma simples
troca de nomes nos legou o atual sistema democrático. Saímos de uma ditadura de
21 anos e entramos num sistema representativo sem fazer uma transição politica
relevante. Sequer pudemos investigar, julgar e condenar os que praticaram
crimes, como a tortura, durante a ditadura. Este pacto exauriu-se.
A “Nova República” vive
seus estertores. Os adversários na ditadura contrataram que não resolveriam
suas diferenças para conviverem pacificamente na democracia. Como não
resolvemos as contradições que trouxemos do regime militar, seus fantasmas e
esqueletos assombram esse sistema que vive de formalismos democráticos sob uma
couraça de autoritarismo. Como não sabemos resolver nossos dilemas
institucionais respeitando preceitos democráticos, parte da sociedade resolveu
que é hora de mais um reverso autoritário, mesmo que o golpe tenha essa feição
parlamentarista. A outra parte da sociedade não embarcou em aventuras golpistas
e se mobiliza em defesa da democracia. Menos mal, alivia, mas não resolve. E já
é hora, então, de questionar porque insistimos em viver rumo ao abismo, onde as
incertezas prosperam?
Abril/2016.
terça-feira, 5 de abril de 2016
O golpe civil militar de 1964 e a atual conjuntura política do Brasil
Dentro das ações alusivas aos 10 anos do Centro de Ciências Humanas
e Exatas (CCHE), em Monteiro/PB, e dos 50 anos da Universidade Estadual da
Paraíba (UEPB), o Campus VI da Instituição realiza neste mês de
abril uma série de palestras sobre temas que envolvam o papel da universidade
na produção do conhecimento e na formação de sujeitos críticos.
A primeira atividade foi realizada na quinta-feira (7), às
19 horas, no Auditório do Campus de Monteiro, com a palestra do professor
Gilbergues Santos, do Departamento de História do Campus I, com o tema “O golpe civil militar de 1964 e a atual
conjuntura política do Brasil”. Segundo o palestrante a atividade se deu “a
propósito do 52º ano do golpe civil militar de 1964, que instalou uma ditadura
que durou de 21 anos, e da atual conjuntura politica onde tanto se fala de
golpes e de nossas fragilidades democráticas (...) trataremos dos motivos que
fazem as memórias do regime militar ainda nos serem tão vivas”.
Após a palestra, o professor Gilbergues Santos lançou seu livro “Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido?”,
editado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB).
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Publiquei hoje este artigo no Site do
UOL (http://noticias.uol.com.br/opiniao)
a propósito dos 52 anos do Golpe Civil-Militar de 1964 e de nossa atual
conjuntura politica.
Política
GILBERGUES
SANTOS
Atores políticos não podem ceder às tentações de
mudar as regras do jogo e devem concordar com as incertezas democráticas dos
resultados
Gilbergues Santos
Especial
para o UOL 01/04/2016 06h00
Passados 52 anos do golpe civil-militar de 1964 temos que
reavaliar o fato histórico, pois à medida que nos distanciamos temporalmente do
acontecimento nossa visão sobre ele muda. Assim, temos que redimensionar o 31
de março para nossos dias. É preciso refletir sobre a cultura política
pretoriana herdada da ditadura militar, já que em nossa atual conjuntura só
falamos de golpes de toda sorte e das ameaças que nossa frágil democracia segue
sofrendo.
Por que as memórias do golpe e da ditadura militar ainda nos são
tão vivas? Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas e por termos uma
sociedade e um Estado recheados de "entulhos autoritários", que um
débil processo de liberalização não foi competente para extrair do nosso
entorno político?
A principal causa para o golpe de 1964 foi a tensão (um falso
dilema) existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro
político-partidário nacional antagonizava esses dois fatores,
desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela
democracia poderia se chegar às mudanças sociais, e por isso deram o golpe. Os
atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a
democracia. O confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às
reformas de base destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se
chegou bem conhecemos: democracia inexistente e nenhuma reforma social!
O processo de liberalização política (notem que não falo em
redemocratização ou transição), efetivado com a eleição de Tancredo Neves, é
torto, pois não afastou do cenário nacional os atores políticos da ditadura. O
que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas, iniciado ainda em 1974
e capitaneado por Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. O resultado foi um
processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos do ritual
democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e, principalmente,
mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o poder militar.
Se democracia política são os mecanismos e práticas associados às
formas de decidir em favor dos interesses sociais –além das normas que regem o
bom funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre
elas e a sociedade civil–, veremos que não temos uma democracia consolidada.
Não tivemos um processo em que sociedade civil e Estado pudessem firmar um
compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si
durante 21 anos. Como na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina de Segurança
Nacional que dizia que o inimigo a se combater estava dentro do território
nacional e não fora dele, as Forças Armadas continuaram mais preocupadas com a
segurança interna do que com a externa.
Vivemos um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos
que avançar no sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm
as armas irão obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores
políticos não cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto
ele estiver sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas
democráticas dos resultados. Falta-nos, ainda, aceitar que democracia tem um
valor universal. Infelizmente tinha mesmo razão Millôr Fernandes quando dizia
que "ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em
você!".
GILBERGUES
SANTOS
é cientista político e professor da UEPB (Universidade Estadual da
Paraíba)
quinta-feira, 31 de março de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
O GOLPE CIVIL MILITAR DE 1964 E A ATUAL CONJUNTURA POLITICA BRASILEIRA
A propósito do 52º ano do golpe civil-militar de 1964, que instalou
uma ditadura militar de 21 anos, e da atual conjuntura politica onde tanto se
fala de golpes e de nossas fragilidades democráticas debateremos sobre estas
questões na próxima SEXTA-FEIRA, 01 DE ABRIL DE 2016, às 08 horas, no AUDITÓRIO II da
Central de Integração Acadêmica (CIA) da UEPB (Campus II).
O evento é uma promoção do Centro Acadêmico 08 de Março do Curso de Serviço Social da UEPB e sua ideia inicial se deu na disciplina de Formação Histórica e Social do Brasil, por mim ministrada, no referido curso.
Programação:
·
Exibição do documentário “O DIA QUE DUROU 21 ANOS” de Camilo Galli
Tavares.
·
Debate: “O GOLPE CIVIL MILITAR DE 1964 E A ATUAL CONJUNTURA
POLITICA BRASILEIRA”
Debatedores:
Gilbergues Santos –
Cientista Politico/ Profº UEPB.
Ranieri Torres –
Sociólogo / Profº UEPB.
·
Lançamento do livro: “HERÓIS DE UMA REVOLUÇÃO ANUNCIADA OU
AVENTUREIROS DE UM TEMPO PERDIDO?”, de Gilbergues Santos, pela Editora da UEPB.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Lançamento do livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido?"
Foi lançado no
último sábado (19), na Livraria Nobel, em Campina Grande, o livro “Heróis
de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? – A atuação das
organizações de esquerda em Campina Grande 1968/1972”, do cientista politico e professor
do Departamento de História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB),
Gilbergues Santos.
O lançamento oficial
do livro contou com a presença do reitor Rangel Junior e de vários outros
professores da Instituição. A obra foi publicada pela Editora da Universidade
Estadual da Paraíba (EDUEPB) e já se encontra disponível para aquisição na
Livraria da EDUEPB, no campus de Campina Grande, e na Livraria Nobel. “Este é
meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o
comportamento político das organizações de esquerda que lutaram contra a
Ditadura Militar e a relação delas com a democracia politica”, disse
Gilbergues.
Confira um trecho da obra:
Ainda no plano das
influências internacionais, outros dois aspectos, que contribuíram para que os
comunistas locais fizessem pouco caso da democracia política, foram os modelos
revolucionários que colocavam os partidos comunistas como as “vanguardas das
transformações revolucionárias”. As revoluções socialistas vitoriosas são
exemplos de como conquistas sociais são instauradas sem a participação popular
organizada. A URSS e a China implementaram transformações como reforma agrária,
melhorias no sistema educacional e de saúde e a política do pleno emprego
através dos chamados decretos revolucionários. Essas revoluções convenceram os
comunistas brasileiros de que é possível fazer transformações passando ao largo
da democracia e que se pode “oferecer” ao povo melhorias de vida, sem que se tenha
que trilhar o caminho da organização popular e da discussão política”.
quinta-feira, 17 de março de 2016
Convido a todos para o lançamento de meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande – 1968/1972”, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB)
O lançamento será no dia 19 de março de 2016 (sábado), as 19 horas, naLivraria Nobel - Via Cultural Campina Grande, à Rua Irineu Joffily, nº 162, Centro, em frente ao antigo Cinema Babilônia.
Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento politico das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura militar e a relação delas com a democracia politica.
Abaixo mais um pequeno trecho do livro, a título de aperitivo:
"Temos, então, a contextualização
necessária que dá lastro
para o que vem a ser o objeto central
desse trabalho. A
intenção era apresentar a ambiência
política que permite a
análise da atuação e organização dos
grupos de esquerda em
Campina Grande. Também, precisava
recolher elementos,
teóricos e práticos, para entender o que
faz a esquerda partir
para a ação revolucionária, abandonando
a perspectiva
política no campo democrático. Saber da
existência, numa
cidade como Campina Grande, de uma
entidade que congregava
os estudantes, de um movimento
nacionalista e de
Camponesas, facilitará, por certo, o
entendimento das motivações
de um grupo de campinenses que partiu em
defesa
da luta armada. Depois de termos
entendido que a estrutura
organizacional do PCB era autoritária,
além de fortemente
ligada a um passado leninista, teremos o
caminho facilitado
para observar o tipo de organização
utilizada pelos comunistas
entre as décadas de 1960 e 1970".
“A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá, quem viver verá”.
Acordei hoje com uma música antiga na cabeça, chama-se "NÃO
LEVE FLORES" de um de meus heróis, Belchior. Isso significa que ainda não
fui consumido por essa burrice autoritária e conservadora que graça por aí, pois
poderia ter acordado com uma “música” de Wesley Safadão na cabeça. Aí, sim,
tudo estaria perdido.
É natural ter lembrado a “filosofia belchiana”, pois fiquei até
muito tarde lendo notícias e vendo imagens de uma “revolta” estulta, autoritária,
golpista, estreitamente (in)consciente de nossa realidade. Em tempos de convulsão
política a solução pode ser buscar os clássicos, talvez eles nos digam o que
fazer. Os antigos podem nos ensinar muito, de como reagir ao mal sem se igualar
a ele. Belchior e o velho Brizola (lembrei dele também) diriam que ... É TEMPO
DE RESISTIR!!!!
“A imprensa e o judiciário
não podem atuar como partido político. O que está em jogo é algo muito mais
importante do que quem ocupará a Presidência da República. O que está em jogo é
a própria democracia, a estabilidade do país e todas as instituições do Estado.
O protesto desta
sexta-feira será contra os abusos da imprensa e do Judiciário. Não se pode
esquecer que na história do Brasil o combate à corrupção já foi usado como
justificativa para golpes. Em 1964, a ditadura derrubou o governo eleito
falando contra a corrupção. Depois de muito sofrimento e dor, descobrimos que
na ditadura havia corrupção. O que não havia era liberdade para investigar e
denunciar a corrupção”.
Dia 18 vamos para rua pela
democracia.
Confirme sua presença no evento: http://on.fb.me/1RdmScE
Ato na Lyceu Paraibano
Campina Grande
18/03/16 - 15h
Praça Clementino Procópio
Não Leve Flores - Belchior
“Não cante vitória muito cedo, não.
Nem leve flores para
a cova do inimigo,
que as lágrimas do
jovem
são fortes como um
segredo:
podem fazer renascer
um mal antigo.
Tudo poderia ter
mudado, sim,
pelo trabalho que
fizemos - tu e eu.
Mas o dinheiro é
cruel
e um vento forte
levou os amigos
para longe das
conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de
jovens não aconteceu, não, não.
Palavra e som são
meus caminhos pra ser livre, e eu sigo, sim.
Faço o destino com o
suor de minha mão.
Bebi, conversei com
os amigos ao redor de minha mesa
e não deixei meu
cigarro se apagar pela tristeza.
- Sempre é dia de
ironia no meu coração.
Tenho falado à minha
garota:
- Meu bem, é difícil
saber o que acontecerá.
Mas eu agradeço ao
tempo.
o inimigo eu já
conheço.
Sei seu nome, sei
seu rosto, residência e endereço.
A voz resiste. A
fala insiste: você me ouvirá.
A voz resiste. A
fala insiste: quem viver verá.
https://www.youtube.com/watch?v=ZZrfupr3S-Y
terça-feira, 15 de março de 2016
Quando a “Casa-Grande” vai à rua
Existem imagens que de
tão ululantemente óbvias, como diria Nelson Rodrigues, não pedem legendas. A
imagem (ao lado) que “viralizou” nas redes sociais se basta a si mesma e me fez
lembrar a ilustração (abaixo) de Jean-Baptiste Debret. Em ambas vemos a mesma
coisa: uma família de brancos na rua seguida pelos seus serviçais negros.
Na foto a família branca
(vestida com a cor oficial de uma crescente onda de despolitização conservadora
e autoritária) se dirige, no Rio de Janeiro, para a manifestação anti governo e
pró-impeachment, contra corrupção, por intervenção militar, ou seja lá pelo que
essa gente se bate, seguida pela babá (negra) que guia o carrinho com os bebês.
Notem que a mãe segura a coleira de um cachorrinho também branco. Os donos da “Casa-Grande”
foram à rua portando a moradora da “Senzala”. E é essa gente que diz lutar por
um Brasil mais justo. Eles lembram líderes da Conjura Mineira que diziam que uma
vez vitoriosos não poderiam acabar com a escravidão, pois do contrário quem
iria trabalhar na extração do ouro, no plantio da cana-de-açúcar ou nos
serviços domésticos?
O caro leitor interpretará
a imagem da maneira que bem quiser, mas lembre que quem bate na panela não é a
moça de branco e quem protesta é a “sinhá” que até se preocupa em olhar para
seus filhos, mas que não se dá ao trabalho de carrega-los. Os donos da “Casa-Grande”
não suportam a ideia de ter que pagar direitos trabalhistas para a moça, de
branco, que veio da “Senzala”. Deve ser por isso que lhes negam o direito do
descanso dominical.
No século XIX, o
pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil com a Missão Artística
Francesa que fundou, no Rio de Janeiro, a Academia Imperial de Belas Artes. Aqui,
Debret pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros. O
quadro ao lado é o “Passeio com a família”, publicado em “Viagem Pitoresca e
Histórica ao Brasil”. E o que nele se vê? Mesma coisa da imagem do domingo 13
de março. O senhor vai passear com sua branca família trazendo consigo um
séquito de negros. Note que uma das escravas carrega um bebê tal qual a babá
negra do século XXI.
Vi numa rede social alguém
dizer que não dá para discutir direitos sociais com quem ainda não aceita a
“Lei Áurea”. Pois é, não dá para discutir sobre a transformação de nossa
realidade politica, social e econômica com uma gente que vai participar de
manifestações levando consigo os excluídos de sempre. Não posso tratar das
coisas da politica, sequer do fato que é preciso reformar nossas instituições para
tentar controlar a descontrolada corrupção, com pessoas que reproduzem em casa
e fora dela uma ancestral desigualdade social, racial, econômica.
Em outra imagem, uma
senhora, de verde-e-amarelo lógico, branca e loira, toma champanhe em uma taça.
Madame fez questão de mostrar o símbolo de seu status e de seu poder. Estaria madame
disposta a ir às últimas consequências para ver na Presidência da República
alguém acostumado aos bons vinhos e jantares? Parece que sim, do contraria não
estaria sacrificando seu regabofe dominical para xingar a presidente,
constitucionalmente eleita, da República. Madame cansou de ter um caboclo
presidente como diria Herbert Viana. Notem que outros abnegados pelas causas da
politica brasileira também bebem de um champanhe que descansa em um balde de
gelo que bem poderia ser de prata. Tinha razão Cazuza quando dizia que a
burguesia fede, apesar de ter muito dinheiro para comprar perfumes.
E o que dizer da
singela imagem do barquinho que ia mesmo que a tardinha ainda não tivesse caído?
A Globo News exibiu demoradamente a imagem de um iate singrando os mares
cariocas ostentando a faixa “fora Dilma”. É um verdadeiro negócio de ocasião.
Enquanto se divertem, cariocas endinheirados pedem para alguém por a presidente
eleita para fora. São nesses dias de estultice politica que um Millôr Fernandes
faz tanta falta, pois só mesmo ele poderia se sair com uma frase curta e franca
sobre a mãe de todos os paradoxos que essas imagens encerram. Lembrei-me de
Karl Marx que afirmava que a burguesia é capaz de tudo para defender seus
interesses até mesmo lutar contra o sistema politico que lhe garante ser dona
dos meios de produção.
Enquanto sinhôs e sinhás
desfilam suas belezas pelas manifestações, indignados por que um governo se
atreveu a promover alguma justiça social na ordem tupiniquim, a elite politica,
gerada entre a Casa-Grande e a Senzala, se despe de qualquer recato republicano
e/ou democrático e se lança ensandecida, numa luta de vida e morte, para
impedir que nas próximas eleições o caboclo presidente volte a frequentar os
corredores dos palácios e a compartilhar dos bons vinhos.
É que o Sinhô não quer
mais ver o filho da escrava sentado naquela cadeira, daí pediu aos seus filhos,
formados em quatrocentonas entidades de ensino, para aprisionarem o presidente Macunaíma.
Um dos filhos togado perguntou que motivos alegariam para enquadrá-lo. O senhor
disse que qualquer motivo é bem vindo. Pode ser a suspeição da vontade (não
realizada) de compra de um imóvel, pode ser uma quantia recebida pelo caboclo
presidente para dar uma palestra, pode ser o fato de a esposa cabocla ter ido
olhar as obras de um imóvel. O Senhor disse a seus filhos togados que fossem
perguntar ao dono do império das comunicações que argumentos utilizar.
Um dos filhos lembrou
que não saberia instrumentalizar o processo contra o presidente jararaca por
não ter lido os livros dos filósofos que seus professores recomendavam. Ele disse
que não sabia diferenciar Friedrich Engels, um dos teóricos que formatou o socialismo
científico no século XIX, de Friedrich Hegel, um dos expoentes do chamado
idealismo alemão. O senhor disse que eles poderiam tirar as duvidas todas que
tivessem com aquele ex-presidente que foi professor de sociologia.
As sinhás e senhorios
que vão as ruas aos domingos não se conformam em ter perdido mais uma eleição.
É que essa gente não suporta a ideia de saber que parte dos impostos que pagam
vai para os programas sociais do governo federal. Essa gente não está
preocupada com a corrupção, nem com o suprapartidário assalto aos cofres da
Petrobras. Tal qual os militares e civis, que deram o golpe de 1964, usam o
discurso piegas, pretensamente nacionalista, de salvar a pátria da corrupção
para maximizarem seus interesses mais comezinhos.
A “Casa-Grande” se
comporta como se estivesse na segunda metade do século XIX participando de
organizações contrárias à abolição da escravidão. Elas querem impeachment de
Dilma, golpe e intervenção porque tiveram seus privilégios atacados e porque as
classes que ficam ao final do alfabeto passaram a ter acesso a coisas como
educação superior, moradia e consumo. E isso é inadmissível para quem sempre se
alimentou das desigualdades sociais que historicamente tivemos.
Março/2016.
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