sábado, 9 de abril de 2016

PONTO A PONTO COM GILBERGUES SANTOS





Entrevista no Programa Ponto a Ponto, com o Jornalista Paulo Roberto da TV Itararé, sobre o 52º ano do golpe civil-militar de 1964 e a atual conjuntura politica brasileira. 



Não por acaso, a entrevista foi ao ar exatamente no dia 31 de março de 2016, em um dia que só se falava em golpes, impeachment presidencial e do descontrole político institucional que enfrentamos,



A entrevista serviu, ainda, para divulgação do livro "HERÓIS DE UMA REVOLUÇÃO ANUNCIADA OU AVENTUREIROS DE UM TEMPO PERDIDO", lançado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba, onde analiso o comportamento politica da esquerda brasileira durante o regime militar.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O abismo em que nos lançamos


Já dizia Tom Jobim que o Brasil não é para principiantes. E não é mesmo, pois o governo dos EUA financiava os “brasilianistas” para nos tornar palatáveis aos seus quereres interesseiros. Já para Millôr Fernandes o fundo do poço, no Brasil, é só uma etapa. Porém, ao que tudo indica, passamos do nível fundo do poço, mesmo que não se possa precisar quando chegaremos às infinitas profundezas onde não há piso nem teto. Vivemos em uma zona nebulosa. A “gray zone”, como gostam de dizer os cientistas políticos, seria aquela situação em que nem nos tornamos uma democracia consistente e nem retroagimos para um regime de força militarizado ou não.

Nossa convulsionada conjuntura nos faz crer que estamos numa dimensão onde os corpos (políticos) se batem descontroladamente, onde as leis da gravidade democrática não agem. Vivemos num buraco negro onde impera um sistema de força econômica e juridicamente assimétrico, demandado pelos interesses de um mundo coorporativo (leia-se empreiteiras) corrompido e corruptor e por uma elite político-partidária despida de seus, poucos é bem verdade, pruridos republicanos. Senão, vejamos.

O vice-presidente missivista e conspirador-mor da República, Michel Temer, quer, junto com seus asseclas, o impeachment da presidente Dilma mesmo que isso reforce nossa fama de república bananeira pelo mundo afora. Temer sabe que só será presidente pela via golpista, já que não dispõe da matéria prima que alimenta nossa frágil democracia eleitoral, o voto. Afinal que país é esse em que seu maior partido politico, PMDB, mantém um pé na situação e outro na oposição? Que partido é este que diz não fazer mais parte do governo, mas segue ocupando cargos em todos os escalões?

Derrotados nas últimas quatro eleições não aceitam às incertezas do jogo democrático e não suportam mais ser oposição. Querem o conforto que a situação oferece, pois só são democratas estando no governo. Uma vez na oposição usurpam o poder ante a possibilidade de terem pela via golpista o que não conseguem pela via eleitoral. Os que querem Dilma longe do Palácio do Planalto prospectam propinas na Petrobrás, em Furnas, no Banestado, no Rodoanel e na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Os arautos do impeachment, afanadores de verbas da merenda escolar, querem depor Dilma pelas tais pedaladas fiscais na falta de um argumento crível. Impedir um governo de exercer seu mandato eletivo através de uma farsa rocambolesca, como a que vemos no Congresso Nacional, é, como diriam os alemães, um putsch!

A presidente é chamada de ladra por uma gente que veste verde-e-amarelo para esconder o preto fascista que trás por dentro de suas camisas. Dilma não foi indiciada, sequer declarada suspeita, nem denunciada pelo Ministério Público. Ela não foi condenada por crime algum, mas é atormentada por um conjunto de forças politicas, econômicas e das comunicações que querem impô-la aquilo que tão bem merecem. Ver o grã-tucanato quatrocentão de São Paulo e alhures, dedo em riste, acusando a presidente é um acinte a nossa inteligência. O “maestro soberano” tinha mesmo razão.

O presidente da Câmara dos Deputados e delinquente-mor da República, Eduardo Cunha, comanda o processo de impeachment da Presidente através de uma comissão onde mais da metade de seus parlamentares são indiciados. O que mais esperar de um país onde os executores de um impeachment presidencial são réus em processos de corrupção e até de homicídio? A regra básica do direito que diz que o juiz não pode ter participado dos atos que julga é no Brasil, tal qual o fundo do poço, apenas uma etapa rumo ao buraco negro da mais ampla inconstitucionalidade.

Um juiz opera no limite da irresponsabilidade se vendo acima e além das instituições e da sociedade. Sérgio Moro, togado pelos interesses de um partido politico, inspirado no modus operandis do fascismo italiano, pulveriza direitos dos que tem como inimigos ao abusar de escutas invasivas, vazamentos seletivos e do incitamento ao linchamento midiático. O ativismo judicial de Moro atenta contra a mínima ideia de Estado democrático. Só mesmo num Estado fascista um juiz de 1ª instância divulga conversas telefônicas da presidente da República passando por cima da Suprema Corte.

A assimetria da justiça brasileira salta aos olhos quando impõe um procedimento de condução coercitiva a um ex-presidente e engaveta investigações contra um senador da República, ex-candidato a presidente, sobre quem pairam suspeitas e acusações de toda sorte. Um exemplo de assimetria deslavada? As contas da campanha eleitoral de Dilma estam sendo escarafunchadas. Mas, porque não se investiga as contas de Aécio Neves quando se sabe que ele foi, também, agraciado pelos cobres da Odebrecht? A justiça deve emparedar os corruptos, mas sem essa seletividade mórbida ecoada pelos meios de comunicação. Supor que só um sistema de força é capaz de abater a corrupção é uma visão pueril dos manifestantes dominicais e um oportunismo dos que são sistematicamente barrados pelas urnas. Se ditaduras fossem solução para a corrupção, seríamos o povo mais honesto do mundo!

Os corruptos devem ser punidos, mas que se faça isso dentro do Estado de Direito, respeitando a Constituição, pois não basta um Estado ter leis (rule of law), onde se espera que todos a respeitem. Isso não permite saber se as instituições conseguem cumprir seus papéis adequadamente. É preciso que Estado e governo sejam pela lei (rule by law) que deve ser justa e propiciar a distribuição do bem-estar. A injustiça é praticada na sua forma mais perversa quando é instituída por uma determinação legal. Se uma injustiça é formalizada pela lei dificilmente pode-se dela defender. É isso que estamos vendo agora. O Congresso Nacional assumiu o papel, que em 1964 coube as Forças Armadas, de encontrar as justificativas legais para depor a presidente da República. Daqui a vinte anos vamos estudar isso como o “golpe parlamentar de 2016”.

Completamos 31 anos do pacto que pôs fim ao regime militar e que chamamos imprecisa e erroneamente de “Nova República”. Foi em 1985 que a liberalização “lenta, segura e gradual” (iniciada pelo general-presidente Ernesto Geisel) se determinou. Naquele ano um general (João Figueiredo) deixava o governo e um civil (José Sarney) assumia. Uma simples troca de nomes nos legou o atual sistema democrático. Saímos de uma ditadura de 21 anos e entramos num sistema representativo sem fazer uma transição politica relevante. Sequer pudemos investigar, julgar e condenar os que praticaram crimes, como a tortura, durante a ditadura. Este pacto exauriu-se.

A “Nova República” vive seus estertores. Os adversários na ditadura contrataram que não resolveriam suas diferenças para conviverem pacificamente na democracia. Como não resolvemos as contradições que trouxemos do regime militar, seus fantasmas e esqueletos assombram esse sistema que vive de formalismos democráticos sob uma couraça de autoritarismo. Como não sabemos resolver nossos dilemas institucionais respeitando preceitos democráticos, parte da sociedade resolveu que é hora de mais um reverso autoritário, mesmo que o golpe tenha essa feição parlamentarista. A outra parte da sociedade não embarcou em aventuras golpistas e se mobiliza em defesa da democracia. Menos mal, alivia, mas não resolve. E já é hora, então, de questionar porque insistimos em viver rumo ao abismo, onde as incertezas prosperam?

Abril/2016.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O golpe civil militar de 1964 e a atual conjuntura política do Brasil



Dentro das ações alusivas aos 10 anos do Centro de Ciências Humanas e Exatas (CCHE), em Monteiro/PB, e dos 50 anos da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o Campus VI da Instituição realiza neste mês de abril uma série de palestras sobre temas que envolvam o papel da universidade na produção do conhecimento e na formação de sujeitos críticos.

A primeira atividade foi realizada na quinta-feira (7), às 19 horas, no Auditório do Campus de Monteiro, com a palestra do professor Gilbergues Santos, do Departamento de História do Campus I, com o tema “O golpe civil militar de 1964 e a atual conjuntura política do Brasil”. Segundo o palestrante a atividade se deu “a propósito do 52º ano do golpe civil militar de 1964, que instalou uma ditadura que durou de 21 anos, e da atual conjuntura politica onde tanto se fala de golpes e de nossas fragilidades democráticas (...) trataremos dos motivos que fazem as memórias do regime militar ainda nos serem tão vivas”.

Após a palestra, o professor Gilbergues Santos lançou seu livro “Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido?”, editado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB).

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Publiquei hoje este artigo no Site do UOL (http://noticias.uol.com.br/opiniao) a propósito dos 52 anos do Golpe Civil-Militar de 1964 e de nossa atual conjuntura politica.


ARTIGO DO DIA
Política
GILBERGUES SANTOS

Atores políticos não podem ceder às tentações de mudar as regras do jogo e devem concordar com as incertezas democráticas dos resultados

 

Gilbergues Santos

Especial para o UOL  01/04/2016  06h00


Passados 52 anos do golpe civil-militar de 1964 temos que reavaliar o fato histórico, pois à medida que nos distanciamos temporalmente do acontecimento nossa visão sobre ele muda. Assim, temos que redimensionar o 31 de março para nossos dias. É preciso refletir sobre a cultura política pretoriana herdada da ditadura militar, já que em nossa atual conjuntura só falamos de golpes de toda sorte e das ameaças que nossa frágil democracia segue sofrendo.
Por que as memórias do golpe e da ditadura militar ainda nos são tão vivas? Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas e por termos uma sociedade e um Estado recheados de "entulhos autoritários", que um débil processo de liberalização não foi competente para extrair do nosso entorno político?
A principal causa para o golpe de 1964 foi a tensão (um falso dilema) existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro político-partidário nacional antagonizava esses dois fatores, desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela democracia poderia se chegar às mudanças sociais, e por isso deram o golpe. Os atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a democracia. O confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às reformas de base destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se chegou bem conhecemos: democracia inexistente e nenhuma reforma social! 
O processo de liberalização política (notem que não falo em redemocratização ou transição), efetivado com a eleição de Tancredo Neves, é torto, pois não afastou do cenário nacional os atores políticos da ditadura. O que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas, iniciado ainda em 1974 e capitaneado por Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. O resultado foi um processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos do ritual democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e, principalmente, mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o poder militar.
Se democracia política são os mecanismos e práticas associados às formas de decidir em favor dos interesses sociais –além das normas que regem o bom funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre elas e a sociedade civil–, veremos que não temos uma democracia consolidada. Não tivemos um processo em que sociedade civil e Estado pudessem firmar um compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si durante 21 anos. Como na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina de Segurança Nacional que dizia que o inimigo a se combater estava dentro do território nacional e não fora dele, as Forças Armadas continuaram mais preocupadas com a segurança interna do que com a externa.
Vivemos um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos que avançar no sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm as armas irão obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores políticos não cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto ele estiver sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas democráticas dos resultados. Falta-nos, ainda, aceitar que democracia tem um valor universal. Infelizmente tinha mesmo razão Millôr Fernandes quando dizia que "ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em você!".

 GILBERGUES SANTOS

é cientista político e professor da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba)


terça-feira, 29 de março de 2016

O GOLPE CIVIL MILITAR DE 1964 E A ATUAL CONJUNTURA POLITICA BRASILEIRA






A propósito do 52º ano do golpe civil-militar de 1964, que instalou uma ditadura militar de 21 anos, e da atual conjuntura politica onde tanto se fala de golpes e de nossas fragilidades democráticas debateremos sobre estas questões na próxima SEXTA-FEIRA, 01 DE ABRIL DE 2016, às 08 horas, no AUDITÓRIO II da Central de Integração Acadêmica (CIA) da UEPB (Campus II).

O evento é uma promoção do Centro Acadêmico 08 de Março do Curso de Serviço Social da UEPB e sua ideia inicial se deu na disciplina de Formação Histórica e Social do Brasil, por mim ministrada, no referido curso.


Programação:

·       Exibição do documentário “O DIA QUE DUROU 21 ANOS” de Camilo Galli Tavares.

·       Debate: “O GOLPE CIVIL MILITAR DE 1964 E A ATUAL CONJUNTURA POLITICA BRASILEIRA”
Debatedores:
Gilbergues Santos – Cientista Politico/ Profº UEPB.
Ranieri Torres – Sociólogo / Profº UEPB.


·       Lançamento do livro: “HERÓIS DE UMA REVOLUÇÃO ANUNCIADA OU AVENTUREIROS DE UM TEMPO PERDIDO?”, de Gilbergues Santos, pela Editora da UEPB.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Lançamento do livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido?"


Foi lançado no último sábado (19), na Livraria Nobel, em Campina Grande, o livro “Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? – A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande 1968/1972”, do cientista politico e professor do Departamento de História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Gilbergues Santos.

Esta é sua primeira obra que trata da cultura política que orientou a atuação das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura civil-militar instalada em 1964. Assim, o livro explora como a esquerda comunista brasileira reuniu, desde seu surgimento, elementos que lhe conferiram um viés autoritário e antidemocrático, que influenciaram a esquerda revolucionária das décadas de 1960 e 1970.


Mas, o autor não descuida dos grupos revolucionários que existiram na cidade de Campina Grande, estudando suas formas de atuação e organização, considerando que esses grupos eram parte de organizações que atuavam em todo o país. Mesmo cuidando de aspectos da história local, ele observa como a democracia política perpassava os grupos locais.

O lançamento oficial do livro contou com a presença do reitor Rangel Junior e de vários outros professores da Instituição. A obra foi publicada pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB) e já se encontra disponível para aquisição na Livraria da EDUEPB, no campus de Campina Grande, e na Livraria Nobel. “Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento político das organizações de esquerda que lutaram contra a Ditadura Militar e a relação delas com a democracia politica”, disse Gilbergues.

Confira um trecho da obra:

“Uma das “verdades” que o PCB introjetou, incorporou inconscientemente, da 3ª IC foi a tese da “unidade ideológica”, que determina que as minorias não poderiam se constituir em frações organizadas. Por essa ótica, não haveria divergências no seio de uma organização comunista, tudo deveria ser resolvido através da aplicação do controverso sistema de centralismo democrático, um eufemismo encontrado pelos comunistas para aliar, em um mesmo local, discussão democrática e imposição de ideias, ou seja, se não fosse possível encontrar o consenso através da discussão, ele instalar-se-ia através da imposição. O que interessava era ter o consenso. Caso a divergência persistisse, os discordantes deveriam ser sumariamente expulsos da organização. Essa concepção foi determinante para a falta de democracia interna que sempre acompanhou o PCB. Tornou-se prática comum no partido, em praticamente toda sua existência, e mais fortemente entre as décadas de 1940 e 1960, a expulsão de membros que divergiam das posições teóricas e políticas do Comitê Central.

Ainda no plano das influências internacionais, outros dois aspectos, que contribuíram para que os comunistas locais fizessem pouco caso da democracia política, foram os modelos revolucionários que colocavam os partidos comunistas como as “vanguardas das transformações revolucionárias”. As revoluções socialistas vitoriosas são exemplos de como conquistas sociais são instauradas sem a participação popular organizada. A URSS e a China implementaram transformações como reforma agrária, melhorias no sistema educacional e de saúde e a política do pleno emprego através dos chamados decretos revolucionários. Essas revoluções convenceram os comunistas brasileiros de que é possível fazer transformações passando ao largo da democracia e que se pode “oferecer” ao povo melhorias de vida, sem que se tenha que trilhar o caminho da organização popular e da discussão política”.


quinta-feira, 17 de março de 2016


Convido a todos para o lançamento de meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande – 1968/1972”, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB)



O lançamento será no dia 19 de março de 2016 (sábado), as 19 horas, naLivraria Nobel - Via Cultural Campina Grande, à Rua Irineu Joffily, nº 162, Centro, em frente ao antigo Cinema Babilônia.

Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento politico das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura militar e a relação delas com a democracia politica. 

Abaixo mais um pequeno trecho do livro, a título de aperitivo:


"Temos, então, a contextualização necessária que dá lastro

para o que vem a ser o objeto central desse trabalho. A
intenção era apresentar a ambiência política que permite a
análise da atuação e organização dos grupos de esquerda em
Campina Grande. Também, precisava recolher elementos,
teóricos e práticos, para entender o que faz a esquerda partir
para a ação revolucionária, abandonando a perspectiva
política no campo democrático. Saber da existência, numa
cidade como Campina Grande, de uma entidade que congregava
os estudantes, de um movimento nacionalista e de
organizações em defesa das reformas de base, além de Ligas
Camponesas, facilitará, por certo, o entendimento das motivações
de um grupo de campinenses que partiu em defesa
da luta armada. Depois de termos entendido que a estrutura
organizacional do PCB era autoritária, além de fortemente
ligada a um passado leninista, teremos o caminho facilitado
para observar o tipo de organização utilizada pelos comunistas
entre as décadas de 1960 e 1970".


“A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá, quem viver verá”.


Acordei hoje com uma música antiga na cabeça, chama-se "NÃO LEVE FLORES" de um de meus heróis, Belchior. Isso significa que ainda não fui consumido por essa burrice autoritária e conservadora que graça por aí, pois poderia ter acordado com uma “música” de Wesley Safadão na cabeça. Aí, sim, tudo estaria perdido.

É natural ter lembrado a “filosofia belchiana”, pois fiquei até muito tarde lendo notícias e vendo imagens de uma “revolta” estulta, autoritária, golpista, estreitamente (in)consciente de nossa realidade. Em tempos de convulsão política a solução pode ser buscar os clássicos, talvez eles nos digam o que fazer. Os antigos podem nos ensinar muito, de como reagir ao mal sem se igualar a ele. Belchior e o velho Brizola (lembrei dele também) diriam que ... É TEMPO DE RESISTIR!!!!


“A imprensa e o judiciário não podem atuar como partido político. O que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará a Presidência da República. O que está em jogo é a própria democracia, a estabilidade do país e todas as instituições do Estado.
O protesto desta sexta-feira será contra os abusos da imprensa e do Judiciário. Não se pode esquecer que na história do Brasil o combate à corrupção já foi usado como justificativa para golpes. Em 1964, a ditadura derrubou o governo eleito falando contra a corrupção. Depois de muito sofrimento e dor, descobrimos que na ditadura havia corrupção. O que não havia era liberdade para investigar e denunciar a corrupção”.


Dia 18 vamos para rua pela democracia.

Confirme sua presença no evento: http://on.fb.me/1RdmScE

João Pessoa
18/03/16 - 14h
Ato na Lyceu Paraibano

Campina Grande
18/03/16 - 15h
Praça Clementino Procópio



Não Leve Flores - Belchior
  “Não cante vitória muito cedo, não.
Nem leve flores para a cova do inimigo,
que as lágrimas do jovem
são fortes como um segredo:
podem fazer renascer um mal antigo.

Tudo poderia ter mudado, sim,
pelo trabalho que fizemos - tu e eu.
Mas o dinheiro é cruel
e um vento forte levou os amigos
para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não.

 
Palavra e som são meus caminhos pra ser livre, e eu sigo, sim.
Faço o destino com o suor de minha mão.
Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza.
- Sempre é dia de ironia no meu coração.


Tenho falado à minha garota:
- Meu bem, é difícil saber o que acontecerá.
Mas eu agradeço ao tempo.
o inimigo eu já conheço.
Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço.
A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá.
A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá.



https://www.youtube.com/watch?v=ZZrfupr3S-Y

terça-feira, 15 de março de 2016

Quando a “Casa-Grande” vai à rua


Existem imagens que de tão ululantemente óbvias, como diria Nelson Rodrigues, não pedem legendas. A imagem (ao lado) que “viralizou” nas redes sociais se basta a si mesma e me fez lembrar a ilustração (abaixo) de Jean-Baptiste Debret. Em ambas vemos a mesma coisa: uma família de brancos na rua seguida pelos seus serviçais negros.

Na foto a família branca (vestida com a cor oficial de uma crescente onda de despolitização conservadora e autoritária) se dirige, no Rio de Janeiro, para a manifestação anti governo e pró-impeachment, contra corrupção, por intervenção militar, ou seja lá pelo que essa gente se bate, seguida pela babá (negra) que guia o carrinho com os bebês. Notem que a mãe segura a coleira de um cachorrinho também branco. Os donos da “Casa-Grande” foram à rua portando a moradora da “Senzala”. E é essa gente que diz lutar por um Brasil mais justo. Eles lembram líderes da Conjura Mineira que diziam que uma vez vitoriosos não poderiam acabar com a escravidão, pois do contrário quem iria trabalhar na extração do ouro, no plantio da cana-de-açúcar ou nos serviços domésticos?

O caro leitor interpretará a imagem da maneira que bem quiser, mas lembre que quem bate na panela não é a moça de branco e quem protesta é a “sinhá” que até se preocupa em olhar para seus filhos, mas que não se dá ao trabalho de carrega-los. Os donos da “Casa-Grande” não suportam a ideia de ter que pagar direitos trabalhistas para a moça, de branco, que veio da “Senzala”. Deve ser por isso que lhes negam o direito do descanso dominical.

No século XIX, o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil com a Missão Artística Francesa que fundou, no Rio de Janeiro, a Academia Imperial de Belas Artes. Aqui, Debret pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros. O quadro ao lado é o “Passeio com a família”, publicado em “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. E o que nele se vê? Mesma coisa da imagem do domingo 13 de março. O senhor vai passear com sua branca família trazendo consigo um séquito de negros. Note que uma das escravas carrega um bebê tal qual a babá negra do século XXI.

Vi numa rede social alguém dizer que não dá para discutir direitos sociais com quem ainda não aceita a “Lei Áurea”. Pois é, não dá para discutir sobre a transformação de nossa realidade politica, social e econômica com uma gente que vai participar de manifestações levando consigo os excluídos de sempre. Não posso tratar das coisas da politica, sequer do fato que é preciso reformar nossas instituições para tentar controlar a descontrolada corrupção, com pessoas que reproduzem em casa e fora dela uma ancestral desigualdade social, racial, econômica.

Em outra imagem, uma senhora, de verde-e-amarelo lógico, branca e loira, toma champanhe em uma taça. Madame fez questão de mostrar o símbolo de seu status e de seu poder. Estaria madame disposta a ir às últimas consequências para ver na Presidência da República alguém acostumado aos bons vinhos e jantares? Parece que sim, do contraria não estaria sacrificando seu regabofe dominical para xingar a presidente, constitucionalmente eleita, da República. Madame cansou de ter um caboclo presidente como diria Herbert Viana. Notem que outros abnegados pelas causas da politica brasileira também bebem de um champanhe que descansa em um balde de gelo que bem poderia ser de prata. Tinha razão Cazuza quando dizia que a burguesia fede, apesar de ter muito dinheiro para comprar perfumes.

E o que dizer da singela imagem do barquinho que ia mesmo que a tardinha ainda não tivesse caído? A Globo News exibiu demoradamente a imagem de um iate singrando os mares cariocas ostentando a faixa “fora Dilma”. É um verdadeiro negócio de ocasião. Enquanto se divertem, cariocas endinheirados pedem para alguém por a presidente eleita para fora. São nesses dias de estultice politica que um Millôr Fernandes faz tanta falta, pois só mesmo ele poderia se sair com uma frase curta e franca sobre a mãe de todos os paradoxos que essas imagens encerram. Lembrei-me de Karl Marx que afirmava que a burguesia é capaz de tudo para defender seus interesses até mesmo lutar contra o sistema politico que lhe garante ser dona dos meios de produção.

Enquanto sinhôs e sinhás desfilam suas belezas pelas manifestações, indignados por que um governo se atreveu a promover alguma justiça social na ordem tupiniquim, a elite politica, gerada entre a Casa-Grande e a Senzala, se despe de qualquer recato republicano e/ou democrático e se lança ensandecida, numa luta de vida e morte, para impedir que nas próximas eleições o caboclo presidente volte a frequentar os corredores dos palácios e a compartilhar dos bons vinhos.

É que o Sinhô não quer mais ver o filho da escrava sentado naquela cadeira, daí pediu aos seus filhos, formados em quatrocentonas entidades de ensino, para aprisionarem o presidente Macunaíma. Um dos filhos togado perguntou que motivos alegariam para enquadrá-lo. O senhor disse que qualquer motivo é bem vindo. Pode ser a suspeição da vontade (não realizada) de compra de um imóvel, pode ser uma quantia recebida pelo caboclo presidente para dar uma palestra, pode ser o fato de a esposa cabocla ter ido olhar as obras de um imóvel. O Senhor disse a seus filhos togados que fossem perguntar ao dono do império das comunicações que argumentos utilizar.

Um dos filhos lembrou que não saberia instrumentalizar o processo contra o presidente jararaca por não ter lido os livros dos filósofos que seus professores recomendavam. Ele disse que não sabia diferenciar Friedrich Engels, um dos teóricos que formatou o socialismo científico no século XIX, de Friedrich Hegel, um dos expoentes do chamado idealismo alemão. O senhor disse que eles poderiam tirar as duvidas todas que tivessem com aquele ex-presidente que foi professor de sociologia.

As sinhás e senhorios que vão as ruas aos domingos não se conformam em ter perdido mais uma eleição. É que essa gente não suporta a ideia de saber que parte dos impostos que pagam vai para os programas sociais do governo federal. Essa gente não está preocupada com a corrupção, nem com o suprapartidário assalto aos cofres da Petrobras. Tal qual os militares e civis, que deram o golpe de 1964, usam o discurso piegas, pretensamente nacionalista, de salvar a pátria da corrupção para maximizarem seus interesses mais comezinhos.

A “Casa-Grande” se comporta como se estivesse na segunda metade do século XIX participando de organizações contrárias à abolição da escravidão. Elas querem impeachment de Dilma, golpe e intervenção porque tiveram seus privilégios atacados e porque as classes que ficam ao final do alfabeto passaram a ter acesso a coisas como educação superior, moradia e consumo. E isso é inadmissível para quem sempre se alimentou das desigualdades sociais que historicamente tivemos.

Março/2016.