terça-feira, 21 de julho de 2026

Pesquisas atualizam a percepção sobre nossa mentalidade obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias


Em abril de 1945, o Exército da URSS entrou na Berlim destruída pelos combates da 2ª Guerra Mundial. Enquanto caçavam nazistas, militares soviéticos estupraram centenas de milhares de mulheres de todas as idades. Stálin nada fez, pois os russos viam o estupro como uma “necessidade do homem” e como forma de subjugar o inimigo. Na Guerra do Vietnã, soldados estadunidenses se habituaram a estuprar as vietnamitas. O governo e a sociedade dos EUA fecharam os olhos para isso.

Sociedades contemporâneas aceitam o estupro. O Brasil tem seu jeito de lidar com a violência contra a mulher, buscando legitimá-la Em 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que 26% dos brasileiros acreditam que a “mulher que exibe seu corpo merece ser atacada”. O IPEA demonstrou que 58% dos entrevistados concordavam que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Mostrou também que 65% dos entrevistados afirmaram que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”.

Em 2016, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) atualizou nossa mentalidade, obscurecida por ideologias conservadoras e autoritárias, mostrando que 30% dos entrevistados concordavam que a “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada” e que 37% aceitavam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. O discurso  que assevera que a mulher só é vítima de agressão sexual porque provocou o homem é socialmente aceito. Isso se comprova com 30% das mulheres entrevistadas concordando com a ideia que as responsabiliza pela violência sexual praticada contra elas. Assim, a vítima em potencial aceitaria a culpa pelo estupro.


Em 2014, seguíamos achando que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, pois a pesquisa do IPEA revelou que 82% dos brasileiros(as) concordavam que “o que acontece entre o casal em casa não interessa aos outros” - supunham que não se deve intrometer no caso de um homem espancar sua esposa desde que isso aconteça no santo recesso do lar. Através da pesquisa, entendíamos que a brasileira ainda não havia se equiparado econômica, política e socialmente em relação ao brasileiro e que 65% dos entrevistados concordavam que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. O primado do homem sobre a mulher ainda é aceito por nós.

Em 2013, o Programa Bem-me-quer de São Paulo mostrou que metade das vítimas de estupro tinha até 11 anos de idade. Em 2014, o IPEA dava que crianças são alvos preferenciais dos estupradores, que a maioria dos casos contra elas aconteciam no ambiente familiar e que metade das vítimas da violência sexual eram menor de idade. Na segunda década desse século, a realidade na Paraíba confirmava os dados do IPEA e do FBSP. O Centro da Mulher 8 de Março, de João Pessoa, mostrava que entre o início de 2010 e novembro de 2015 foram registrados 556 estupros na Paraíba, sendo que 65,4% dos casos foram contra crianças e adolescentes.

Esses dados atestam que parte da população finge não saber que é crime tentar ter ou manter relações sexuais com uma mulher sem que ela consinta. É como se a mulher gostasse de ser violentada e provocasse o homem para que ele lhe atacasse. A ideia, anacrônica e estulta, de que um padrão de comportamento, determinado à mulher pela sociedade patriarcal, evita que ela seja estuprada é prova de nosso conservadorismo autoritário. De fato, parte considerável dos(das) brasileiros(as) seguem repetindo a ameaça: “dê-se ao respeito e não serás estuprada”.

O documentário “Half the sky” (O céu pela metade) se baseou no livro homônimo de Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn e foi produzido (em 2012) para a PBS, a televisão pública estadunidense. Ele foi filmado em países africanos com histórias de mulheres vítimas de tráfico, violência sexual, fome, guerra e escravidão. Em nome de uma tradição doentia vemos casos de mulheres estupradas e prostituídas por seus pais e maridos, sendo submetidas a depauperante tradição da infibulação.

Certo, o que se vê em “Half the Sky” não acontece no Brasil, pois aceitamos os valores da democracia liberal-burguesa (neoliberal), ainda que uma cultura pretoriana (autoritária) nos faça saudosistas da ditadura militar. Estamos longe de uma Somália ou Serra Leoa, mas não estamos próximos de uma sociedade evoluída em termos de direitos sociais, liberdade e igualdade. Estamos bem mais perto da Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher, pois aqui como lá ainda se pratica o estupro coletivo, tal qual faziam os soldados russos e estadunidenses.

 

Até aqui vimos dados de cerca de 15 anos atrás. Poderíamos afirmar que eles estão desatualizados? Infelizmente não! Recentemente, o Instituto de Pesquisa DataSenado trouxe mais uma rodada da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher dando conta que, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica. Mesmo que enfatize que houve redução dos índices de violência em relação a rodada de 2023, a pesquisa demonstra que a maioria das agressões ocorrem na presença de outras pessoas, principalmente filhos e filhas das mulheres vítimas das agressões.


A pesquisa traz, também, uma percepção geral pessimista, pois 79% das brasileiras acreditam que a violência contra a mulher aumentou e 71% consideram o Brasil um país muito machista. Além disso trouxe um dado bastante relevante sobre a percepção das agressões. Se até 2021 a maioria dos casos declarados falava de violência física, a partir de 2022 a violência psicológica passou a ser a mais relatada. Assim, vemos que 88% das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida.

O FBSP lançou este ano o “Retrato dos feminicídios no Brasil (2006-2026)”, um alentado relatório mostrando, dentre outras coisas, que houve (entre 2021 e 2025) um crescimento de 14,5% nos registros de feminicídios no país, sendo que em 2025 tivemos 1.568 mulheres vítimas de feminicídio – um crescimento de 4,7% em relação ao ano de 2024.

Concomitante a isso, temos duas pesquisas, realizadas pelo Datafolha em junho desse ano, que falam das nossas percepções políticas e ideológicas. Na primeira pesquisa, vemos que 40% das\dos brasileiras(os) associam pobreza à “preguiça dos que não querem trabalhar” e 58%  entendem que “a pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida”. Entre as pessoas com renda familiar superior a dez salários mínimos, 63% aderem a tese da preguiça. Aqui, como em várias outras pesquisas, vemos a bipolaridade de opiniões quando o assunto é o nosso comportamento que faz parte de nossa matriz ideológica.


Na segunda pesquisa, aferiu-se que os\as brasileiros(as) se identificam majoritariamente como de direita e que as posições político-ideológicas de direita superaram as de esquerda - 44% dos brasileiros se dizem de direita ou centro-direita enquanto 39% se posicionam à esquerda ou centro-esquerda. Aqui, interessa atentar para o fato de que houve uma inversão em relação ao ano de 2022, ainda sob o governo de Jair Bolsonaro, quando 49% se diziam de esquerda e 34% de direita.

Não é mesmo fácil entender a cabeça do povo brasileiro que se diz de direita quando sob um governo de esquerda, mas se assume de esquerda quando sob um governo de direita. Um exemplo disso, é que em 2014, durante o governo Dilma Rousseff (PT), a direita reunia 45% dos entrevistados, enquanto a esquerda registrava 35%.

 Seria preciso um estudo, com um método quantitativo aplicado às Ciências Sociais, que correlacionasse as variáveis da pesquisa do IPEA de 2014 (“se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”) com a variável “a pessoa é pobre porque tem preguiça de trabalhar”. Assim, talvez pudéssemos depreender que os mesmos setores da sociedade brasileira que aceitam que a mulher pode ser responsabilizada por ter sido estuprada, consentem, também, que a preguiça leva à pobreza.

No entanto, lendo nas entrelinhas, podemos inferir\deduzir que a pessoa que entende que se a mulher “souber se comportar poderá conter um estuprador” é a mesma que supõe ser verdadeira a hipótese da preguiça causando a pobreza. Se juntarmos a isso o fato de que 44% dos brasileiros se assumirem de direita ou centro de direita, poderemos ter um quadro preliminar de como pensa e se expressa política e ideologicamente nossa sociedade.



40 FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA E FIZERAM MINHA CABEÇA

40 FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA E FIZERAM MINHA CABEÇA

OS 40 FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA.

Esta é apenas mais uma seleção de filmes. Como toda seleção não deixa de ser, para o bem e para o mal, arbitrária. Coloquei aqui alguns dos filmes que considero fundamentais para minha formação pessoal, emocional, profissional, política, ideológica. (01) Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988). (02) Os Canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961). (03) Trilogia do “Homem sem Nome” de Sérgio Leone (Por um punhado de dólares - 1964; Por uns dólares a mais - 1965; Três homens em conflito - 1966). (04) Amarcord (Federico Fellini, 1973). (05) Era uma vez no Oeste (Sérgio Leone, 1968). (06) Trilogia de Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão I, 1972; O Poderoso Chefão II, 1974; O Poderoso Chefão III, 1990). (07) 2001, uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968). (08) Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979). (09) Psicose (Alfred Hitchcock, 1960). (10) Cidadão Kane (Orson Welles, 1941). (11) Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964). (12) Topázio (Alfred Hitchcock, 1969). (13) Lawrence da Arábia (David Lean, 1962). (14) Jango (Silvio Tendler, 1984). (15) Casablanca (Michael Curtiz, 1942). (16) Forrest Gump: o contador de história (Robert Zemeckis, 1994). (17) Butch Cassidy and the Sundance Kid (George Roy Hill, 1969). (18) O Grande Ditador (Charlie Chaplin, 1940). (19) Eles não usam Black-Tie (Leon Hirszman, 1981). (20) Os Sete Samurais (Akira Kurosaw, 1954). (21) O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998). (22) Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990). (23) O Desafio das Águias (Brian G. Hutton, 1968). (24) El Cid (Anthony Mann, 1961). (25) Estado de Sítio (Costa-Gavras, 1972). (26) O Franco atirador (Michael Cimino, 1978). (27) Prá Frente Brasil (Roberto Farias, 1982). (28) A Excêntrica Família de Antônia (Marleen Gorris, 1995). (29) Os Doze Condenados (Robert Aldrich, 1967). (30) Cantando na Chuva (Gene Kelly & Stanley Donen, 1952). (31) Doze Homens e uma Sentença (Sidney Lumet, 1957). (32) Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963). (33) A Ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957). (34) Fuga de Alcatraz (Don Siegel, 1979). (35) Sete Homens e um destino (John Sturges, 1960). (36) O Encouraçado Potemkin (Serguei Eisenstein, 1925). (37) Metrópolis (Fritz Lang, 1927). (38) O Homem Elefante (David Lynch, 1980). (39) Bem -Hur (William Wyler, 1959). (40) Doutor Jivago (David Lean, 1965).

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