terça-feira, 26 de maio de 2026

Quando os herdeiros da Casa Grande saem em defesa dos privilégios de sempre

 Luciano Huck, a voz global do neoliberalismo, e os Aparelhos Ideológicos de Estado

 

Aconteceu mais uma vez! Luciano Huck, apresentador de um pavoroso programa de televisão, utilizou a amplitude e o alcance que dispõe para defender interesses e privilégios da classe social a qual pertence e do grande capital representado pela Rede Globo. Nada de muito novo no front - apenas mais um herdeiro do grande capital, que vive às custas de nossa brutal desigualdade, criticando o programa Bolsa Família do governo federal.

O professor e poeta Georgino Neto afirmou que: “Luciano Huck criticando o Bolsa Família é mais ou menos como um passageiro de iate reclamando que há gente demais usando boias no mar”. Lembrando que o mesmo que critica programas sociais tentou privatizar um pedaço de praia em Angra dos Reis (RJ) para impedir que se tivesse acesso ao seu éden tropical. Georgino aponta a gritante diferença em nosso país:

(...) é simbólico que a crítica venha de alguém cuja trajetória nunca foi a epopeia meritocrática que tentam vender. Huck não saiu do nada. Não venceu “apesar de tudo”. Não atravessou a brutalidade estrutural reservada aos pobres brasileiros. Ele nasceu dentro do sistema vencedor. Herdou capital econômico, cultural e social. Fez o que muitos herdeiros competentes fazem: multiplicou vantagens que já existiam. O problema não é só ter herdado riqueza. O problema é transformar herança em discurso moral contra quem herdou apenas a fome.

Saudosista da ditadura militar e neoliberal empedernido, Luciano Huck se opõe visceralmente às políticas públicas para retirar da pobreza os descendentes de uma estrutura secularmente desigual. Imagino que se Huck tivesse vivido na 2ª metade do século XIX teria sido contra a abolição da escravidão para não “quebrar a economia”. Aliás, esse é o argumento que neoliberais usam contra o fim da jornada 6X1.


Huck aproveitou sua participação no
5º Fórum Esfera para desfiar sua verborragia neoliberal contrária às políticas públicas reformistas de bem-estar social. Ele  não só criticou como duvidou da eficácia dos incentivos gerados pelo programa Bolsa Família afirmando que: “O prefeito (de) Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para ficar no programa de distribuição de renda ad eternum. A gente precisa criar um estímulo”.

A jornalista e participante do Big Brother (reality show da Rede Globo), Ana Paula Renault, contestou o apresentador e falou dos pontos positivos da permanência de famílias em programas de transferência de renda, afirmando que dados mostram a saída de beneficiários do auxílio ao longo do tempo. Vale a pena citar parte do que foi dito, pois a explicação sobre a função social do Programa Bolsa Família é esclarecedora:

O Bolsa Família talvez seja uma das políticas públicas mais mal interpretadas do Brasil. Durante anos, repetiram a ideia cruel de que o brasileiro recebe o benefício e ‘se acomoda’. Um estudo da FGV mostrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família. (...) e se a maioria deixa de depender do programa, isso não é fracasso. É exatamente o que uma política pública séria deve fazer: impedir que a pobreza vire herança. O Bolsa Família não existe para substituir o trabalho (mas) para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se reorganizar.

Programas sociais servem para que os que NÃO têm os mesmos privilégios\influências, oportunidades e herança\capital de Luciano Huck possam ter alguma chance factível por uma vida digna com alimentação, educação, saúde, moradia, etc. O Bolsa Família não prevê manter pessoas reféns de uma módica quantia pelo resto da vida. A ideia é que o Estado provenha, no presente, condições mínimas para que se possa, no futuro, não mais precisar da “ajuda” estatal. Como disse Ana Paula Renault, é “impedir que a pobreza vire herança”.

Luciano Huck promove desinformação quando fala da dependência "eterna" de famílias pobres do Bolsa Família, pois em uma rápida busca no Google pode-se encontrar pesquisas e estudos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrando que mais da metade dos beneficiários deixaram o programa nos últimos dez anos, após terem melhorado de vida; que os beneficiados, em sua maioria, não pararam de procurar emprego; que aumentou a taxa de emprego, produtividade e oferta de trabalho entre os beneficiários; e que o Bolsa Família ajuda a reduzir o subemprego.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que 2,06 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro de 2025. O global apresentador, que parece ainda sonhar com o Palácio do Planalto, deveria ter buscado informações para embasar suas falas em dados e informações críveis. Se não o fez é grave; se o fez e ainda assim ignorou os dados dispostos é gravíssimo.

 

A quais interesses atende Luciano Huck ao se colocar contra programas sociais do governo federal?

O “bom moço” da Rede Globo manifesta os desejos, vantagens, benefícios e ganhos de sua classe social quando utiliza seu programa dominical para projetar o ideário neoliberal que defende que o Estado, a moral e a lei sejam plasmados  à lógica do mercado.

O  “Domingão do Huck” é uma peça ideológica defendendo privatização do Estado e sua financeirização, desmonte da seguridade social, empreendedorismo e meritocracia, valores das “famílias de bem”, sobreposição da esfera pessoal sobre a questão social, além dos limites que a democracia liberal impõe a um projeto revolucionário de desenvolvimento econômico e social. O modelo aplicado no programa do Huck oferece soluções individualizadas para problemas sociais

A especialidade de Luciano Huck é dramatizar a pobreza e as carências do povo brasileiro para apresentar uma solução que é sempre individualizada, nunca social, baseada no merecimento que a pessoa faz a partir dos valores da classe dominante. Quem melhor definiu Luciano Huck foi o jornalista Walter Falceta: “Huck é um inimigo declarado de políticas públicas para os vulneráveis e populações historicamente oprimidas e injustiçadas. Seu negócio é lucrar com filantropia na telinha. Mistura a hipocrisia da esmola com o farisaísmo descarado do falso ‘empreendedorismo’".

Mas, como diria o rapper Emicida na Ordem natural das coisas: “A merendeira desce, o ônibus sai \ Dona Maria já se foi, só depois é que o sol nasce”. Já na ordem natural do mundo dominical do Huck, o apresentador milionário sobe, a Ferrari sai e o homem branco da família hétero-patriarcal-cristã só se vai muito tempo após o sol nascer.

Já para Karl Marx, a classe social não é uma escolha livre do  indivíduo. Huck é contra o Bolsa Família devido a posição que ocupa na estrutura econômica e social. Huck acha que os programas sociais viciam a população pobre por pertencer a classe que detém os meios de produção, que é dona do capital e que controla as dadas circunstâncias objetivas para a reprodução das condições materiais de produção.


Mas, atenção, não confundamos isso com a questão da consciência de Classe. A existência objetiva de um indivíduo, inserido em uma estrutura econômica, faz ele pertencer a uma classe social, seja consciente ou não disso. É o que Marx chamou de classe em si. É tão somente quando esse indivíduo toma consciência de que a classe social a que pertence é explorada, através do mais valor aplicado sobre o lucro gerado pela sua força de trabalho, que ele chama a classe para si para transformar a sociedade.

Quando Luciano Huck se coloca contra o Bolsa Família está demonstrando que tem total clareza da função de sua classe para si e para ela mesma. Não é à toa que ele presta sua eficiência neoliberal numa superestrutura elevada sobre a estrutura (base) econômica, para usar um conceito caro a Marx. Falo dos Aparelhos Ideológicos do Estado (da informação e da comunicação).

Foi por isso mesmo que Luciano Huck criticou o Bolsa Família no 5º Fórum Esfera, um evento promovido pelo think tank Esfera Brasil, organização dedicada ao fomento do pensamento neoliberal que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva, que se diz “independente e apartidária”, com a “missão de engajar líderes em prol do Brasil (para) a construção de um país melhor (e) ser polo aglutinador do empreendedorismo brasileiro (...)”.

Quem é minimamente familiarizado com ideias e objetivos dos think tanks neoliberais sabe bem que engajar líderes, defender empreendedorismo e meritocracia, ser a favor da transparência, da ética e da pluralidade, lutar contra a corrupção e pelo Estado mínimo, são ideias que a classe dominante usa para a manutenção do (seu) status quo, para assegurar (sua) hegemonia através da coerção e, principalmente, do consenso.


Em “Aparelhos Ideológicos de Estado”, de Louis Althusser, temos a concepção marxista clássica para a ideologia, em que o filósofo francês afirma que o
 “homem é por natureza um animal ideológico”, parodiando Aristóteles para quem o homem é o animal político. Aqui, interessam as duas teses centrais de Althusser sobre a estrutura e o funcionamento da ideologia e de como estas se relacionam: 1) Só há prática através de e sob uma ideologia, que representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência; 2) Só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito, pois ela tem uma existência material.

A ideologia não é uma coisa do mundo das ideias, como queria o filósofo alemão G. W. F. Hegel. Pelo contrário, expressa as posições (e as opções) de classe seja na forma que for – religiosa, política, moral, jurídica, cultural, etc. A ideologia se oferece ao indivíduo da mesma forma que a consciência se origina do meio social, como bem demonstrou Marx ao propor a inversão da teoria hegeliana em a “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” de 1843.

 O próprio Althusser pontua, para relacionar ideologia e formação social, que as ideologias estão depositadas nos modos de produção combinados às formações sociais e as lutas de classe que nelas se desenvolvem. Quando um Luciano Huck desses que temos aos montes, encastelado em seu Aparelho Ideológico, desanca as políticas públicas governamentais está se sustentando na ideologia forjada no modo de produção e nas relações de reprodução desse modo.

               Dito de outra forma, trata-se de aceitar que as ideias de uma determinada crença são materiais. Para Althusser, “suas ideias são seus atos materiais inseridos em práticas materiais”. Inclusive, essas ideias, que podem até ser espirituais, são mediadas por rituais materiais que são, eles mesmos, definidos pelos Aparelhos Ideológicos que  dispomos em nosso entorno.


O que importa nesse momento é sabermos que a ideologia, que Luciano Huck veicula em seu programa, não é algo idealizado em um mundo à parte, mas sim que é constituída materialmente nos Aparelho Ideológico de Estado, ou seja, as instituições (escola, igreja, família, cultura, informação, política, etc) que agem na sociedade civil formatando, modelando, esculpindo, consciências para que valores, normas, leis, sejam disseminados e, assim, a classe dominante possa garantir seu poder não apenas pela força, mas, principalmente, pelo convencimento.

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Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).