quarta-feira, 20 de julho de 2011

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo.



Publicado, no Site Terra Magazine de 20 de julho de 2011, o artigo abaixo descreve um novo (velho) fenômeno insuportavelmente na moda. Ele demonstra como a sociedade brasileira segue renitente e avessa ao progresso e a verdadeira modernização de seus hábitos, crenças, costumes e idéias.


O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo.



Marcelo Semer - De São Paulo

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se. O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia. De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto. É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento. Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor. Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum. Nós já sabemos onde isto vai dar. O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana. O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.




Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo
Blog Sem Juízo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011



Não que me surpreenda, mas não é que o tal do “Forró de Plástico” virou, literalmente, um caso de polícia? Ao ler a matéria abaixo fiquei imaginando se o tal Vicente Nery não seria um daqueles que pergunta se tem rapariga na platéia, antes de começar a cantar. Será que apela para o palavrão explícito e grita desesperadamente enquanto canta (canta?) suas músicas medonhas; aquelas mesmas onde as mulheres são tratadas como prostitutas vulgares, os homossexuais são fruto de todo tipo de chacota, as pessoas da raça negra são desrespeitadas torpemente, a relação sexual entre duas pessoas é mostrada de uma forma virulenta, etc, etc, etc...
Ora, o que este vocalista fez foi extamente aquilo que ele e seus colegas estão absolutamente acostumados a fazer – xingar aqueles que consciente ou inconscientemente se prestam a ouvi-los. Claro, não concordo que alguém suba no palco para agredir quem quer que seja, mas... quem com forró de plástico fere, com xingamentos será ferido.







Policial
Vocalista de banda de forró é detido após trocar ofensas com público, desacatar autoridades e resistir a prisão. Karoline Zilah




O vocalista da banda Cheiro de Menina, Vicente Nery, foi detido e levado para uma delegacia na madrugada do sábado (18), depois de se desentender com pessoas que assistiam ao show no município de Nova Olinda, no Sertão paraibano. De acordo com o delegado Cristiano Santana, a Polícia Militar acusa o artista de desacato, resistência à prisão e ato obsceno.
A confusão aconteceu em meio ao show da banda cearense. De acordo com a Polícia Militar, um homem apresentando sinais de embriaguez estaria próximo ao palco fazendo gestos obscenos e provocando o vocalista. Vicente Nery teria parado o show diversas vezes para responder às provocações.
Conforme o delegado, os policias militares disseram que retiraram o espectador da praça, mas ainda assim o artista teria continuado descontrolado. Ele recebeu ordem de prisão, mas resistiu à força policial.
O show foi interrompido e Vicente Nery foi levado para a delegacia de Polícia Civil de Itaporanga, onde assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) se comprometendo a se apresentar à Justiça para esclarecer os fatos. Mesmo residindo em Fortaleza, ele deverá comparecer a uma audiência no fórum de Santana dos Garrotes.
O delegado Cristiano Santana explicou que a Polícia Civil ainda está em fase de diligências, à procura do homem que iniciou a confusão no público. "Ele gerou um tumulto, uma confusão generalizada. Portanto, estamos trabalhando no sentido de identificar as outras pessoas que estavam na plateia para intimá-las", comentou.

sábado, 18 de junho de 2011

SOBRE O 5º BEATLE.




Se não fosse cientista político e professor, gostaria de ser jornalista. Não é a toa que trabalho junto à imprensa fazendo minhas análises sobre a conjuntura político-eleitoral brasileira. Sendo assim, acompanho o trabalho de alguns jornalistas buscando informação, claro, e um pouco de inspiração. Um deles é Geneton Moraes Neto que com suas entrevistas e livros sempre me fornece material para meu trabalho e/ou diversão.
Esta matéria eu retirei do site dele: www.geneton.com.br



O DIA EM QUE O QUINTO BEATLE ME CONTOU UM "SEGREDO"



Como se dizia antigamente, "direto ao assunto": tive a chance de ouvir do "Quinto Beatle", o super-produtor George Martin, qual é o segredo que explica a imbatível performance da dupla de compositores Lennon-McCartney.




George Martin e a dupla - Aos fatos:


1) assim que começou a trabalhar com os Beatles, Martin descobriu que a melhor tática para garantir a qualidade das músicas seria incentivar ao máximo a competição - que já existia - entre Lennon e McCartney. O esquema "maquiavélico" deu certo. Certíssimo. Como George Martin aplicou esta tática? (Já,já, daqui a dois parágrafos, ele dirá).




2) meses antes de morrer, ao receber a visita de Martin em casa, no edifício Dakota, em Nova York, John Lennon fez a Martin uma confissão que resume a obsessão do ex-beatle com a qualidade musical - uma bela virtude num compositor pop.




A gravação completa do depoimento de Martin - colhido na igreja que ele transformou em estúdio, em Hampstead, no norte de Londres, em 1998, para o programa "Milênio"(Globonews) - repousa numa prateleira do Centro de Documentação da Rede Globo, o Cedoc. O repórter sai de cena. Passa a palavra para o Quinto Beatle, num depoimento agora publicado pela primeira vez:




"Os Beatles, no começo, não eram grandes artistas. Eram jovens muito inteligentes que, no entanto, não demonstravam sinal algum de que poderiam compor boa música. Não vi evidência alguma de que seriam bons compositores. A primeira vez que soube dos Beatles foi quando Brian Epstein, empresário do grupo, trouxe uma gravação para o meu escritório. Era horrível. Pude entender por que todos tinham dito "não" a eles. O melhor que poderiam me dar era "P.S.I Love You". Não era uma música muito boa. Copiaram o que ouviam dos Estados Unidos, mas também aprenderam o ofício bem depressa. A combinação entre John e Paul era bastante interessante, pelo seguinte: tínhamos, ali, dois jovens muito talentosos. Cada um de um jeito, os dois eram músicos e compositores muito bons - que trabalhavam juntos, numa espécie de competição: cada um tentava superar o outro. Um subia nas costas do outro o tempo todo. Quando comecei a trabalhar com os Beatles, logo no primeiro ano,depois que eles gravaram "Please, Please Me", eu disse: Senhores, este é o primeiro sucesso.. Propus um desafio: Agora, tragam-me algo melhor!. Os dois voltaram com "From Me To You" - que era boa. Depois, me trouxeram "She Loves You", melhor ainda. Em seguida, "I Wanna Hold Your Hand",fantástica! A cada vez, compunham algo diferente da anterior. Não era como "Guerra nas Estrelas I", "Guerra nas Estrelas II", "Guerra nas Estrelas III". Davam um tratamento original. Digo que esta curiosidade e este esforço para transpor o horizonte é que caracterizaram o pensamento de John e Paul. Isso é que os fez tão bons! Sempre tentavam melhorar, sempre tentavam ser mais originais. Perguntavam-me: "Que som podemos ter? O que é que você pode nos dar? O que é que não sabemos ainda? Ensine!".
Isso é que os tornou excelentes".


"O meu último encontro com John Lennon foi no Edifício Dakota, em Nova York, onde ele morava. Jantamos, meses antes de ele morrer. Yoko não interferiu. Ficou quieta a noite toda. John e eu ficamos, então, conversando sobre o nosso passado. Não tínhamos planos de trabalhar juntos. Eu tinha meus projetos, John tinha os seus. Eu não tinha intenção de voltar a trabalhar com ele. Mas falamos de nossas gravações. John se virou e me disse: "Quer saber? Se eu pudesse, gravaria de novo tudo o que fizemos!". Eu respondi: "Você não pode estar falando sério! Eu detestaria gravar tudo de novo, porque seria maçante". Mas John me disse que poderíamos fazer tudo ainda melhor. Isso foi extraordinário!"

Posted by geneton at julho 7, 2007 05:23 PM

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Esta foto foi feita nas proximidades do show do Paul McCartney, no Rio de Janeiro, no domingo passado.

Alguém viu e não se conteve diante da "criatividade" do Flanelinha. O show foi praticamente um ensaio para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, pois, sem ilusões, esses dois grandes eventos vão (vão?) acontecer com toda a nossa "inventividade".

A foto esta na coluna do Macaco Simão da Folha de São Paulo. Ele diz que "O Brasil é lúdico! Só no Brasil se escreve Paul assim. No Brasil todo mundo escreve errado, mas todo mundo se entende".


domingo, 22 de maio de 2011

Porno-Forró ou primitivismo estético....



Já utilizei este espaço para criticar o forró estilizado, e a música comercializável de nossos dias. Também, já utilizei minha coluna no http://www.paraibaonline.com.br/ para, pedagogicamente, mostrar os motivos pelos quais o tal "forró de plástico" é tão nocivo para a nosso cultura. Em um artigo em que falo de Chico Buarque (http://www.paraibaonline.com.br/coluna.php?id=62&nome=Que%20me%20valha%20Chico%20Buarque) aproveito para desabafar. Na verdade, não poupei palavras, pois achava (ainda acho) que se as tais bandas de forró podem usar toda sorte termos chulos em suas "músicas" eu posso utilizar termos, encontrados nos dicionários, para me referir a elas e ao lixo que elas depositam em meus ouvidos. Agora, me valho do jornalista de José Telles e de Ariano Suassuna para mais uma vez desabafar.




A música dos valores perdidos - Ariano Suassuna e o "Forró" atual.
JOSÉ TELES (crítico musical do Jornal do Commercio, de Recife-PE)

“Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!” e a maioria das moças levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas as bandas do gênero).

As outras são “gaia”, “cabaré”, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da Banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de “forró”, e Ariano exclamou: “Eita que é pior do que eu pensava”. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.

Pra uma matéria que escrevi no São João passado, baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá:
Calcinha no chão (Caviar com Rapadura)
Zé Priquito (Duquinha)
Fiel à putaria (Felipão Forró Moral)
Chefe do puteiro (Aviões do forró)
Mulher roleira (Saia Rodada)
Mulher roleira a resposta (Forró Real)
Chico Rola (Bonde do Forró)
Banho de língua (Solteirões do Forró)
Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal)
Dinheiro na mão, Calcinha no chão (Saia Rodada)
Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca)
Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró)
Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró)


Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta “desculhambação” não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo.

Faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de “forró”, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina “forró estilizado” continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção.

Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem “rapariga na platéia”, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é “É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!”, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

domingo, 15 de maio de 2011

REIS E DITADORES NÃO GOSTAM DE DEMOCRACIA.




A questão política no Oriente Médio é complexa o bastante para ser explicada brevemente. São as tentativas vãs de interpretá-la que dificulta e mistifica o entendimento. Interessa o essencial e das aparências só se pode mesmo esperar o que se mostra à primeira vista.

Verifiquemos se o que está acontecendo pode ser chamado de “onda de democracia” (usando o conceito do cientista político Samuel Huntington) ou o “esgarçamento de ditaduras renitentes”. Vejamos onde acontecem lutas em prol da democracia e onde se intenta mudanças pontuais para depor pervicazes ditadores.

Importa roborar o comportamento dos países desenvolvidos. Existe o propósito de defender a democracia e seus valores ou interessa apenas as tais “Razões de Estado” maquiavelianas? A mesma França que ajuda a bombardear a Líbia foi a que recebeu de braços abertos Muammar Kadafi dois anos atrás. Os EUA têm contumaz hábito de transformar aliados em inimigos, sendo a recíproca verdadeira. Fiquemos com dois exemplos: Osama Bin Laden e Saddam Hussein!

Tenho uma hipótese. Os protestos objetivam deter anacrônicos ditadores e não está claro se reivindicam um sistema democrático. Luta-se para que procedimentos democráticos (eleições, sim; liberdade de culto e expressão, não) se unam a regimes que mesclam, quando não sobrepõem, poder religioso e poder político. Conjecturo premido pelas asserções abaixo, que lastreiam o raciocínio.

(1) A democracia, como sistema e cultura política, é cara ao ocidente, e assim mesmo onde as revoluções burguesas vingaram e ditaduras totalitárias serviram como contraste. (2) A democracia tem valor universal, do contrário a luta pelos direitos humanos não se daria no Irã, por exemplo. (3) Cultura não é variável independente, com papel central no mapeamento de dois conjuntos, i.e., ela não explica (muito menos justifica) tudo – se assim fosse a democracia seria inviável, inclusive na Europa. (4) O arcabouço jurídico de um Estado pode afiançar ou cercear a lei que serve as democracias e as ditaduras. (5) Se no ocidente, liberdade é um conceito político-filosófico, no léxico árabe-islâmico ela é “a condição (econômica) de quem não é escravo”.

Ainda, precisamos de aporte teórico, pois se fala em democracia, mas não de seus significados, por isso se diz que ela está chegando ao Oriente Médio. Sem conceituar, apegamo-nos as aparências. Mas, democracia tem várias definições – façamos escolhas.

Ontologicamente, temos a elaboração de Tocqueville (“A democracia na América”) – que diz que democracia é o somatório (em doses iguais e sem hierarquias) de liberdade e igualdade.

Realisticamente, serve a descrição “minimalista procedural” do cientista político Scott Mainwaring que (“Classificando Regimes Políticos na América Latina”) diz que a democracia é o regime que (1) promove eleições competitivas, livres e limpas; (2) que pressupõe uma cidadania adulta e abrangente; (3) que protege liberdades civis e direitos políticos; (4) onde governos eleitos de fato governam e militares são controlados pelos civis.

Já para o cientista político Ian Shapiro (“Os fundamentos morais da política”) a democracia é um sistema onde a “... legitimidade dos Estados relaciona-se ao grau de preservação, ou enfraquecimento, das liberdades que eles podem (ou querem) promover.” Se um desses modelos (ou parte deles) for replicável às realidades que descreverei, então, sim, a democracia bate às portas do Oriente Médio. Do contrário, e isso não me enfatua, a hipótese se comprova.

A renúncia de Mubarak (Egito) e a queda de Ben Ali (Tunísia) fez a imprensa ocidental elucubrar se a democracia não estaria por lá aportando. A que se notar a mistura de governos autoritários e revoltas populares (gerando conflitos), a presença indelével do componente religioso, além do petróleo - que faz as potências intervirem nos conflitos. Mas, a natureza dos protestos me faz cético sobre uma onda democrática. Se não, vejamos.

* No Marrocos fala-se em “reformas democráticas”, mas, na prática, se reivindica menos poderes para o Rei Mohammed VI (12 anos no poder). A questão é que a democracia só convive com reis se eles tiverem reduzido ou nenhum poder.
* Na Argélia se quer a deposição do Presidente Abdelaziz Bouteflika (12 anos no poder) e reformas econômicas e sociais. Aqui temos um histórico de golpes e ditadura e uma dolorosa luta pela independência da França. Contentar-se-ão os manifestantes com a queda do presidente ou quererão ir adiante? Não se sabe e só o tempo dirá.
* Na Tunísia o presidente Zine Ben Ali (no poder por 24 anos) foi deposto. Um caso de esgarçamento de uma recalcitrante ditadura. Se isto redundará num sistema político democrático não se sabe, pois se pedia apenas a saída do ditador.
* Na Líbia protestos levaram a guerra civil para a deposição de Kadafi (no poder desde 1969). Mesmo com demandas por reformas democráticas, a Líbia está destruída institucionalmente. O judiciário é manietado por Kadafi, não existe parlamento ativo e imprensa livre. A única instituição forte é a guarda pessoal do ditador – por aí se vê o quão longe a Líbia está da democracia.
* No Egito lutava-se pela deposição de Hosni Mubarak (30 anos no poder) e por reformas democráticas. Mubarak deixou o poder, mas ficaram instituições fragilizadas. Hoje a grande (simples) questão é: quem governa o Egito?
* Na Jordânia fala-se em reformas e diminuição dos poderes do Rei Abdullah II (12 anos no poder). Interessa ver que houve uma onda (na década de 80) que levou parte destes ditadores ao poder, agora temos outra onda demandando que eles saiam ou que tenham seus poderes diminuídos. A democracia não aceita tergiversações ou meio-termos – um ditador não se torna bom governo com poderes reduzidos – e não convive com os entulhos do sistema autoritário que a precedeu.
* No Iêmen fala-se em reformas e na deposição do presidente Ali Abdullah Saleh (33 anos no poder). Mas existe uma demanda por secessionismo, algo que pode levar a uma guerra civil.
* No Bahrein luta-se pela deposição do rei Hamad al-Khalifa (oito anos no poder) e por reformas políticas. O Bahrein não chega a ser um Estado-nação, mais parece um sultanato, diria mesmo a propriedade do Rei Hamad e sua família.
* No Irã temos protestos contra o regime dos Aiatolás e de Mahmoud Ahmadinejad, mas o Estado é infenso a democracia e seus procedimentos. Houve uma recente eleição, mas, fraudada, tornou-se alvo de protestos. Muitos foram presos e sentenciados. A imagem do jovem, algemado e cabisbaixo, indo à forca, depois de condenado por participar de manifestações diz muito. Eis um sintoma da precária situação: tanto o seqüestro seguido de morte como crimes políticos são punidos com pena capital. A forma como a mulher é tratada lá é um traço de uma cultura política autoritária que mantém o chefe supremo religioso como chefe político.
* Em Omã se pede aumentos salariais e reformas democráticas. O presidente Qaboos bin Said (41 anos no poder) diz aceitar as reivindicações desde que permaneça no poder, i.e., ele aceita a democracia, desde que possa tutelá-la.

A democracia não é alternativa crível para os dilemas do mundo árabe-islâmico. Uma das possibilidades é a entronização da Irmandade Muçulmana no poder e assim teríamos mais alguns Estados teocráticos. Dá para conciliar um Estado religioso com a democracia? Um regime de liberdades só é possível se houver uma forte laicização da sociedade, como de fato ocorreu em muitos países do mundo ocidental e como, fato também, ainda não ocorre no Oriente Médio. Como em muitas revoluções, o povo foi às ruas sem bem saber o que quer (no Egito foi assim), mas sabendo o que não mais queria. A dúvida é: onde se encontra a democracia para estes povos, na lista de coisas que querem ou na das que não querem?

O historiador e islamólogo Bernard Lewis afirma que a importação de modelos eleitorais ocidentais pode levar ao poder movimentos islâmicos fundamentalistas, bem organizados e com forte inserção nas sociedades árabes. O que pode acontecer com países que, não tendo familiaridade com uma cultura política democrática, utilizem sazonalmente procedimentos democráticos como eleições? Um cenário não desprezível são os chefes religiosos sendo guindados ao poder político pela força do voto. No limite, podemos ver as urnas legitimando o terrorismo de Estado.

Vejamos o caso da Líbia. O que virá após a derrota de Kadafi? Ele é a personificação do Estado e sua queda diluirá o regime. Existe uma força política capaz de ocupar o vácuo de poder? E se existe, estará comprometida com a construção de um sistema político democrático?

Luiza Nagib Eluf, procuradora do Ministério Público de São Paulo, apontou a contradição de sociedades que falam em democracia e negam os direitos humanos. Diz ela que “... acharão normal que passada a revolução e atingido o objetivo de derrubar ditadores, as mulheres voltem para casa e se recolham ao cárcere domiciliar (...) com burcas não pode haver democracia”.

Postscriptum

Para além e acima das “comemorações” pelo aniquilamento de Osama Bin Laden, devemos ser realistas, pois importa mais o mundo como ele é e menos como gostaríamos que fosse. Num mundo maquiaveliano, os EUA passaram por cima do Direito Internacional para “chutar o cachorro morto”. Se até os bárbaros criminosos nazistas tiveram direito a um julgamento porque Bin Laden não haveria de também ter? Sem contar que as informações, para que se pudesse achá-lo, foram obtidas mediante tortura de presos, método execrável por qualquer sociedade e sob qualquer prisma. Deve-se mesmo questionar a legalidade da ação. O Comando Seal entrou no Paquistão, sem autorização, matou um terrorista e jogou o corpo no mar. Mas, leis internacionais definem prisão, processo, direito a defesa e pena ser aplicada. Agora mesmo, vejo notícias de um atentado terrorista, no Paquistão, que matou 80 pessoas. A milícia Talibã assumiu a responsabilidade e disse ser uma vingança pela morte de Bin Laden. O que é melhor? Oferecer ao fundamentalismo terrorista justificativas para que continue sua sanha assassina ou levar seus símbolos (Osama) para as barras da justiça e mostrar ao mundo o que ele realmente é? Fico com a segunda opção.




Maio/2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Licença para matar!

Para além e acima das “comemorações” idílicas pelo aniquilamento de Osama Bin Laden, é preciso encarar as coisas de forma realista. Maquiavel já nos ensinava que importa mais o mundo como ele é, e menos o mundo como gostaríamos que fosse. Num mundo maquiaveliano, os EUA passaram por cima do Direito Internacional para chutar o cachorro morto. Se até os bárbaros criminosos nazistas tiveram direito a um julgamento (em Nuremberg, no final da 2ª Guerra Mundial) porque o controverso Bin Laden não deveria ter também?
Ele encontrava-se desarmado, não usou nada como escudo, muito menos uma mulher, e as informações, para que se pudesse achá-lo, foram obtidas mediante a tortura de presos políticos, método que deve ser execrado por qualquer sociedade e sob qualquer prisma.O mundo democrático questiona a legalidade da ação. O tal comando Seal entrou no Paquistão, sem autorização do seu governo, matou um terrorista e jogou seu corpo no mar. Mas, leis internacionais definem prisão, processo, direito a defesa e, claro, a pena ser aplicada. É isso que Ricardo Melo discute neste preciso artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje, 05 de maio de 2011.


Licença para matar - Ricardo Melo

Não será do dia para a noite que se terá acesso ao que realmente ocorreu no esconderijo do terrorista Osama bin Laden. Mas até a imprensa americana, que desde a Guerra do Golfo trocou o jornalismo pela "embedagem" ao governo, desconfiou do anúncio hollywoodiano da Casa Branca, versão democrata das "armas de destruição em massa" da era Bush.

Os lances épicos da violenta troca de tiros, da mulher usada como escudo, da resistência feroz deram lugar a um enredo bem mais prosaico. Provavelmente houve uma execução, e ponto. Tal descrição não comporta nenhum juízo de valor. Bin Laden e quem se engaja no terrorismo e no fanatismo religioso têm consciência que o risco de morrer faz parte do (mau) negócio. O prontuário de crimes do chefe da Al Qaeda apontava para este final.Mas incomoda, para dizer o menos, aceitar como natural a baboseira de Obama e dos europeus, para os quais a "justiça foi feita".

Como assim? Os EUA invadem um país, fuzilam um inimigo sem julgamento, jogam o corpo do sujeito no mar e estamos conversados. Tudo isso depois de se valerem de "técnicas coercitivas de interrogatório", eufemismo para tortura com afogamentos. E ainda vem a ONU, candidamente, dizer que "é preciso investigar" se o direito internacional foi desrespeitado. A lógica política da operação Geronimo é a mesma que preside a intervenção seletiva nos conflitos na África e no Oriente Médio. Gaddafi, o ex-amigo, agora é inimigo, então chumbo nele e na família. Já na Síria não é bem assim, tampouco no Iêmen e na Arábia Saudita -azar de quem nasceu rebelde por ali. Mais uma vez, os EUA tratam o planeta como quintal, e usam a ONU de plateia para as "rambolices".

Que Obama, um político comum, comemore o ganho de popularidade às vésperas da batalha pela reeleição, é compreensível. Já o resto do mundo dito civilizado assistir a tudo com tamanha complacência apenas sinaliza o que está por vir.

terça-feira, 26 de abril de 2011


Eis aqui a obra prima da música de todos os tempos. Não é apenas a obra mais importante do Rock in Roll. Este disco é um clássico. Daqui a 200 anos, The Beatles e sua obra serão tão presentes quanto foram na década de 60, é isso que faz deles um clássico.
Percebam a profundidade dos últimos versos de The End, que está no disco Abbey Road.
Abbey Road foi o 12° álbum lançado pelos Beatles. Foi lançado em 26 de setembro de 1969, e leva o mesmo nome da rua de Londres onde situa-se o estúdio Abbey Road. Foi produzido e orquestrado por George Martin para a Apple Records. Este álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame

The End

Oh yeah. Alright.
Are you gonna be in my dreams tonight.

Love you. Love you. Love you. Love you.

And in the end, the love you take
Is equal to the love you make.



O Fim

Ohh, sim. Tudo bem.
Você vai estar nos meus sonhos hoje à noite.

Amo você. Amo você. Amo você. Amo você.

E no final, o amor que você recebe,
É igual ao amor que você doa.

domingo, 10 de abril de 2011

O Oriente Médio e o Norte da África em questão

A Coordenação do Curso de Geografia, da Universidade Estadual da Paraíba, promoverá o Fórum de Debates sobre o Oriente Médio e o Norte da África, objetivando compreender diversas questões políticas e culturais sobre a região.

Ester evento será oportuno para discutirmos a questão atual do Oriente Médio e da África passando ao largo do sensacionalismo midiático, considerando que efetivamente a democracia ainda não é um interesse político naquela parte do mundo.



FORUM DE DEBATES: “O Oriente Médio e o Norte da África em Questão"



A Geografia e a Geopolítica: encruzilhada estratégica


(12/04 – 14:00 hs)


Profº Ms. FAUSTINO MOURA NETO (Geógrafo - UEPB)


Profº Ms. EDILSON NÓBREGA DE SOUZA (Geógrafo - UEPB)



História, cultura e religião


(13/04 - 14:00 hs)


Profº Ms. UELBA ALEXANDRE DO NASCIMENTO (Historiadora – UEPB)


Profª Drª CRISTIANE NEPOMUCENO (Antropóloga - UEPB)



O despertar dos povos árabes: a onda pró-democracia e a reação do Ocidente


(19/04 – 14:00 hs)


Profº Ms. GILBERGUES SANTOS SOARES (Cientista Político - UEPB)


Profº Ms. FÁBIO FERNANDO B. DE FREITAS (Cientista Político – UFCG)



O conflito árabe-israelense: Judeus x Palestinos, a paz difícil


(20/04 - 14:00 hs)


Prof. YNAKAN LUIS DE V. LEAL (Geógrafo - ensino médio)


Prof. JOÃO CLlMÁCO X. NETO (Prof. Geógrafo - ensino médio)



Local dos debates: AUDITÓRIO DO CEDUC I - UEPB (Catolé)


Inscrições: COORDENAÇÃO DO CURSO DE GEOGRAFIA - Fone: 3310-7117


Coord. do evento: Profº FAUSTINO MOURA NETO

sábado, 19 de março de 2011

Projeto obriga os eleitos a matricularem seus filhos em escolas públicas.

O Senador Cristovam Buarque teve uma idéia relevante, diria mesmo fantástica. Ele apresentou um Projeto de Lei que propõem que todos os políticos eleitos (vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, governadores, senador, etc.) sejam obrigados a matricularem seus filhos em escolas públicas.

As conseqüências, além de um tanto quanto óbvias, seriam as melhores possíveis. Ao se virem obrigados a colocar seus filhos em escolas públicas, eles, os políticos, iriam cuidar de melhorar a qualidade do ensino público brasileiro. Todos sabemos as implicações decorrentes do ensino público que temos no Brasil e bem sabemos que podemos tirar proveito do “modus operandis” de nossos políticos que, em geral , privilegiam seus interesses mais comezinhos.

SE VOCÊ CONCORDA COM A IDEIA DO SENADOR, DIVULGUE ESTE TEXTO, POIS ESTE PROJETO PODE CONTRIBUIR PARA MUDAR A REALIDADE DA EDUCAÇÃO EM
NOSSO PAÍS. CLARO, O PROJETO SÓ PASSARÁ SE HOUVER A PRESSÃO DA OPINIÃO PÚBLICA!!!

Seria bom tomar como exemplo o Projeto do "Ficha Limpa" que só se tornou realidade por uma iniciativa da sociedade civil organizada. O projeto chegou ao Congresso Nacional através de uma Emenda Popular. Portanto, não é impossível. É difícil, mas não é impossível.
Link para acessa a página do senado onde se encontra o Projeto:


http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166
PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 480, DE 2007 - Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014.