Na sessão Tendências/Debates da Folha de São Paulo de 19/06 o cientista político Jorge Zaverucha publicou uma lúcida avaliação sobre as fragilidades de nossa democracia, especificando a problemática presença das Forças Armadas no morro da Providência no Rio de Janeiro. Vale a pena ler.
DESDE DEZEMBRO de 2007, o Exército vem sendo usado partidariamente no morro da Providência (Rio) pelo governo federal com a conivência do governo estadual. A justificativa oficial é estar em vigor uma ação subsidiária do Exército. Ressalte-se que construir estradas e pontes em benefício de todos é diferente de o Exército ser usado para fim particular. Internamente, todavia, o assunto é considerado uma operação de garantia da lei e da ordem, o que demandaria um decreto presidencial para a movimentação de tropas.
Essa medida enfraquece a já frágil democracia brasileira. Espanta que tamanho desatino político tenha demorado tanto tempo a ser percebido pela sociedade civil, pelo Congresso Nacional e pela Alerj. Foram necessárias três vítimas para que a questão viesse à baila. As advertências teóricas contra o uso de militares federais foram desconsideradas. Infelizmente, há os que acham que somente o observável deve ser considerado conhecimento válido.
A novidade não é a presença do Exército nas favelas fazendo atividade de segurança pública. O crescente processo de militarização da segurança pública é "per se" nova amostra da incapacidade de criarmos um Estado moderno sob o ponto de vista das instituições coercitivas. Inexiste no Brasil uma clara separação entre a competência e a identidade da força que é responsável pela guerra (Forças Armadas) e aquela que mantém a ordem interna (Polícia).
A inovação no morro da Providência reside no uso do Exército para ajudar na execução de um projeto político partidário capitaneado pelo senador Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. E que ele pertença ao mesmo partido do vice-presidente da República (PRB). A aparência de democracia é uma grande ameaça à democracia brasileira. O projeto Cimento Social é parceria entre o Ministério das Cidades e o da Defesa no valor de R$ 12 milhões.
Trata-se de um retrocesso institucional típico de sociedade pretoriana. Fica-se a esquadrinhar quais interesses são esses que levaram nossas autoridades a bancar o custo político dessa ação militar. Em um contexto de baixa credibilidade dos nossos políticos, tisnar a imagem da instituição laica mais acreditada pelos brasileiros, as Forças Armadas, é uma atitude, no mínimo, temerária.
As Polícias estaduais são mal-equipadas e maltreinadas e já estão significativamente contaminadas internamente. Não são mais capazes de dar conta de sua atribuição de manter a ordem pública.
Esse sistema de duas polícias em um mesmo espaço geográfico fazendo ciclos parciais de policiamento só existe no Brasil. Em vez de extinguir esse falido modelo, os últimos governos federais, e o atual não é exceção, optaram pela alternativa mais fácil: manter o status quo. E, para remedar o problema, acionam cada vez mais o Exército em funções de policiamento.
Só que, dessa vez, o governo Lula deu um passo ainda mais atrás: pôs em prática a promiscuidade político-partidária.
É constrangedor ouvir as repetidas declarações do ministro da Defesa comparando a utilização das tropas brasileiras na missão de paz da ONU no Haiti com o emprego delas em solo brasileiro. As regras de engajamento são distintas.
E, mais, o ministro Nelson Jobim persiste na imprevidência. Tenta transformar em desvio de conduta individual um problema que é de natureza institucional. Em vez de trabalhar para a imediata retirada das tropas militares do morro da Providência, defende o indefensável. Além do risco do poder transversal (e não paralelo!) dos traficantes embrenharem-se nas fileiras castrenses de modo crescente.
JORGE ZAVERUCHA , doutor em ciência política pela Universidade de Chicago (EUA), é coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). É autor de "FHC, Forças Armadas e Polícia: Entre o Autoritarismo e a Democracia", entre outras obras.
Professor do Curso de História da Univ. Estadual da Paraíba desde 1993. Mestre em Ciência Política-UFPE e Doutorando em Ciência da Informação-UFPB. Especialista em História do Brasil, com ênfase na Era Vargas e na Ditadura Militar, na democracia e no autoritarismo. Autor dos livros "Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido" (2015) e “Do que ainda posso falar e outros ensaios - Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar” (2024), ambos lançados pela Editora da UEPB.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)
A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS
Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim...
1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973).
2) “Abbey Road” - The Beatles (1969).
3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979).
4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965).
5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963).
6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979).
7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980).
8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984).
9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982).
10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966).
11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970)
12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968).
13) “Rattle and Hum” - U2 (1988).
14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985).
15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986).
16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964).
17) “Then and Now” - The Who (1964-2004).
18) “90125” - Yes - (1990).
19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005).
20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978).
21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972).
22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005).
23) “Revolver” - The Beatles (1966).
24) “Alucinação” - Belchior (1976).
25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979).
26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976).
27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989).
28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994).
29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959).
30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006).
31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973).
32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970).
33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933).
34) “Luz” - Djavan (1982).
35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971).
36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968).
37) “A Night at the Opera” - Queen (1975).
38) “The Doors” - The Doors (1967).
39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974).
40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982).
1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) .
2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002).
3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982).
4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982).
5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943).
6) “Achtung Baby” - U2 (1990).
7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980).
8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972).
9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971).
10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973).
11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957).
12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985).
13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967).
14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967).
15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988).
16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002).
17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985).
18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980).
19) “Mais” - Marisa Monte (1991).
20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).
Nenhum comentário:
Postar um comentário