Pouco importa, inclusive, se Caetano Veloso, Lobão e até o Ministro (de quê mesmo?! – é difícil lembrar!) Gilberto Gil consideram a sedeca do funk como um “movimento musical”, afinal e ainda bem, eles não são perfeitos. Em uma entrevista Lobão, desandou a dizer asneiras. Disse que o funk é maravilhoso e que é uma revolução, que adora Tati Quebra Barraco, que a sua cultura é a maconha e, não satisfeito, atacou quem ele não tem envergadura nenhuma para criticar - Chico Buarque - dizendo que ele é “sinônimo da ditadura militar, que nasceu velho, que suas músicas são depressivas”.
Lobão só acertou quando disse que Chico Buarque é o contrário do funk. Pelo menos nisso, meu caro Lobão, nós vamos concordar. Não tenha a menor dúvida, Chico é o símbolo que se contrapõem, pela qualidade, a tudo que virou moda. Ele está para a música brasileira, assim como seu pai (o historiador Sérgio Buarque de Holanda) está para a historiografia brasileira: fundamental, inovador, revolucionário, enfim, clássico. E se o leitor duvidar, basta ler “Raízes do Brasil” do pai e ouvir “Bye, Bye Brasil”, “Construção” e “A Banda” do filho.
Sempre tive uma especial atenção pelo trabalho musical realizado por Lobão. Inclusive, admirei bastante o fato de ele ter criado seu próprio selo e ter passado a vender seus discos nas bancas de jornal a preços compatíveis com a realidade sócio-econômica de centenas de milhares de brasileiros. Ele conseguiu provar que é possível fugir do pesado esquema das grandes gravadoras e fazer uma música de boa qualidade. Sempre admirei o jeito franco de Lobão, mas dessa vez ele foi longe demais. Como se não bastasse fazer apologia às drogas, ainda desatinou totalmente quando disse que prefere a tal Lacraia a Edu Lobo e que Elis Regina, Tom Jobim e Chico Buarque são o que há de pior na nossa música. Pobre Lobão, esse desatino todo só pode ter sido causado pelo uso excessivo de cocaína e maconha, que deve ter corroído o seu cérebro e a sua sensibilidade.
Alguém me disse: “Essas músicas tocam direto porque o povo não sabe escolher e escuta o que for colocado”. Se for assim, então além do Pagode, do Axé-Music, do Forró Eletrônico, do Funk e de outras “comercialiadades” do ramo, porque não tocar nas rádios MPB, Jazz, Blues, Música Clássica? E que se deixe as pessoas escolherem livremente o que querem escutar! Porque não “impor” ao povo Tom Jobim, Elis Regina, Djavan, Leila Pinheiro, Beatles, Ray Charles, Miles Davis, etc? Se o povão não sabe escolher, então que eles sejam "obrigados" a ouvirem nas rádios Mozart, Beethoven e Tchaikovsky.
Afinal, por que o povo só é obrigado a ouvir o lixo da música? Por que não fazê-lo escutar o luxo que se produz em nossa música?
Boa parte do povo brasileiro não sabe escolher porque não teve oportunidade de estudar, de recolher subsídios e elementos que permitam o indivíduo OPTAR e não simplesmente ACEITAR.
Muitos não têm condição de escolher o que vão ouvir porque não tem poder político, econômico e cultural para decidir. Quem faz isso são os órgãos midiáticos, controlados por grupos que vêem no escatol musical uma excelente forma de lucrar. O mercado cultural se fia na equivocada visão de que não importa o estilo, mas sim se ele está “tocando direto” e se está “na moda”. Fia-se, também, no fato de vivermos em sociedades consumistas, que privilegiam a simplificação em detrimento da elaboração.
Recuso-me a aceitar que valores culturais, como a nossa MPB (que é um dos melhores exemplos de nossa identidade), reduzam-se à dimensão de meros valores comerciais. É por isso que, com um enorme prazer, sempre revejo a obra de Chico Buarque. É pela sua obra que ele merece ser freqüentemente revisitado e é assim que eu recorro a ele: como um clássico, para me valer das “modas” do momento. É por isso tudo que eu “prescrevo” o clássico Chico Buarque como um remédio para a crise em que vivemos. Parodiando o próprio é que eu indico: beba Chico, cheire Chico, fume Chico, use Chico, injete Chico na veia; não tem contra indicação – pode se viciar nele, só vai fazer bem.
PS: Este artigo foi escrito e publicado a cerca de dois anos. Resolvi colocá-lo aqui como uma forma desabafo. É lamentável ser obrigado a ouvir cotidianamente essa debilidade chamada forró eletrônico, considerando que vivemos na terra do Maior São João do Mundo, berço da que há de melhor em termos de música regional. É realmente lamentável!!!!!
Professor do Curso de História da Univ. Estadual da Paraíba desde 1993. Mestre em Ciência Política-UFPE e Doutorando em Ciência da Informação-UFPB. Especialista em História do Brasil, com ênfase na Era Vargas e na Ditadura Militar, na democracia e no autoritarismo. Autor dos livros "Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido" (2015) e “Do que ainda posso falar e outros ensaios - Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar” (2024), ambos lançados pela Editora da UEPB.
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Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)
A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS
Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim...
1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973).
2) “Abbey Road” - The Beatles (1969).
3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979).
4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965).
5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963).
6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979).
7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980).
8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984).
9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982).
10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966).
11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970)
12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968).
13) “Rattle and Hum” - U2 (1988).
14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985).
15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986).
16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964).
17) “Then and Now” - The Who (1964-2004).
18) “90125” - Yes - (1990).
19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005).
20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978).
21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972).
22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005).
23) “Revolver” - The Beatles (1966).
24) “Alucinação” - Belchior (1976).
25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979).
26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976).
27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989).
28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994).
29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959).
30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006).
31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973).
32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970).
33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933).
34) “Luz” - Djavan (1982).
35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971).
36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968).
37) “A Night at the Opera” - Queen (1975).
38) “The Doors” - The Doors (1967).
39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974).
40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982).
1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) .
2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002).
3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982).
4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982).
5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943).
6) “Achtung Baby” - U2 (1990).
7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980).
8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972).
9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971).
10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973).
11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957).
12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985).
13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967).
14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967).
15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988).
16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002).
17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985).
18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980).
19) “Mais” - Marisa Monte (1991).
20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).
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