domingo, 1 de março de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE III

 A lealdade política e ideológica da extrema direita e o uso das cores da bandeira

Existem imagens que parecem prescindir de legendas e\ou explicações. A imagem da família, indo a uma manifestação vestida de verde-amarelo, que “viralizou” nas redes sociais parece bastar-se a si mesma. Podemos até compará-la à ilustração de Jean Baptiste Debret, pois vemos a mesma situação em ambas: uma família de brancos, em movimento pela rua, seguidos pelos seus serviçais.

Na figura 1, a família branca, informando pelas cores seu alinhamento à extrema direita, vai à uma manifestação pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e por uma intervenção militar, sendo seguida pela babá que guia o carrinho com os bebês. A mãe segura a coleira de um pequeno cachorro, também branco. Ela até se preocupa em olhar seus filhos, mesmo que não se dê ao trabalho de carregá-los. Nessa imagem, o verde-amarelo nos remete ao patriotismo e a simbologia de uma “família de bem”. A Figura 2  nos remete ao início do século XIX quando o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa. Aqui, pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros.

Figura 1 – Casal vestido de verde-amarelo indo à manifestação com os filhos e a babá.

A imagem da Figura 2 traz a mesma informação da Figura 1. O senhor e a senhora vão à rua com sua branca família, trazendo consigo um séquito de pessoas escravizadas ou quase isso. Notemos que pessoas pretas, em ambas as figuras, vestem branco e carregam bebês brancos. Isso prova os lugares sociais definidos a partir da cor da pele, ratificando o domínio de seus senhores. 

Figura 2 -Jean Baptiste Debret – Funcionário público saindo de casa com a família e seus escravos.

Nas figuras 3 e 4, vemos pessoas comemorando o resultado da sessão do Congresso Nacional que decretou o impeachment de Dilma Rousseff. Duas senhoras brancas, loiras, de verde-amarelo, mostram taças com champanhe como símbolo de status social. Notemos que outras pessoas bebem, enquanto uma garrafa descansa em um balde de gelo. Elas emprestavam legitimidade ao ato discricionário do qual participavam e, a partir das cores que usavam, demonstravam lealdade à causa política da extrema direita. 
Figura 3 - Na Av. Paulista, manifestante favorável ao impeachment comemora o resultado da votação no Senado.  

Figura 4 - Na Av. Paulista, manifestantes favoráveis ao impeachment esperam resultado da votação no Senado. 
As figuras 5 e 6 provam o apoio maciço às pautas da extrema direita. A paleta de cores das manifestações é a mesma da bandeira nacional. Percebamos a inexistência do vermelho (a não ser em sobrinhas de carrinhos de bebidas) e o total alinhamento e lealdade aos militares para que atendam aos pedidos de intervenção na ordem social e política e (re)instaurem uma ditadura militar no país. Inclusive, nas manifestações, o verde (oliva) era sempre mais associado aos militares, enquanto o amarelo designava o bolsonarismo.
Figura 5 – Manifestantes fazem ato na Esplanada para pedir intervenção militar e prisão de Lula. 

Figura 6 – Manifestações em 2016 a favor ao impeachment e em defesa de uma intervenção militar.

Na figura 7 vemos imagens que, separadas por 51 anos, dão significado às mesmas questões e a dois atos: a tragédia do Golpe de Estado Civil-Militar de 1964 e a farsa do Golpe de Estado Jurídico, Parlamentar, Midiático e Religioso de 2016. Esses atos têm em comum a profunda descrença que parte da sociedade nutre em relação à democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas e/ou revolucionários. No entanto, existe uma diferença entre as imagens. É que a de 2015 informa as cores utilizadas como descrição abreviada – é a extrema direita informando que, sendo o verde-amarelo as cores de sua bandeira, o Brasil não seria um nova Cuba, que é vermelha. As figuras 8 e 9 representam a mesma coisa: setores da sociedade implorando aos militares para que intervenham na ordem social e política do país, usando o verde oliva para demonstrar respeito, obediência e temor às Forças Armadas.

Figura 7 – Ontem, como hoje, os mesmos medos de sempre! Fonte: Arquivo do Autor 



O objetivo, aqui, foi mostrar que a cor, como informação, participa de forma significante na atuação da extrema direita. Vimos que as cores influenciam questões políticas e ideológicas por possuírem a capacidade de informar sentimentos e afetos, além da centralidade de seu papel nos processos que vivenciamos. Vimos, ainda, como as cores da bandeira nacional informam a lealdade política de militantes a uma causa baseada em valores morais e políticos. De fato, o verde-amarelo da extrema direita tornou-se uma espécie de descrição abreviada, resumida, de sua conformação.

 Figura 1 - https://m.folha.uol.com.br/esporte/2016/03/1749759-dirigente-do-flamengo-responde-a-criticas-por-foto-com-baba-em-protesto.shtml?cmpid=compfb

Figura 2 - https://tokdehistoria.com.br/2022/04/28/a-historia-do-brasil-pela-arte-de-debret/

Figura 3 - Fonte Agência O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419

Figura 4 - Fonte Agência O Globo https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419

Figura 5 - https://www.estadao.com.br/politica/manifestantes-fazem-ato-na-esplanada-para-pedir-intervencao-militar-e-ate-prisao-de-lula/

Figura 6 - https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/03/22/interna_politica,510777/marcha-da-familia-tem-confronto-no-rio.shtml

Referências

FRASER, Tom; BANKS, Adam. O guia completo da cor (Livro essencial para a consciência das cores). 2ª ed. São Paulo: Ed. Senac, 2007.

GUEDES, Simoni Lahud; SILVA, Edilson M. Almeida da. O segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia, 3, 73-89. En Memoria Académica, 2019. Disponível em: http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.9691/pr.9691.pdf Acesso: 04 fev. 2025.

Guimarães, Luciano. As cores na mídia: A organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.

NOVELINO, Maria Salet Ferreira. A linguagem como meio de representação ou de comunicação da informação. Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 137 - 146, jul./dez.1998. Disponível em https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/22325/17926 . Acesso: 15 set. 2024.

OLIVO, Júlio César Cancellier. A cor na propaganda política: significados e produção de sentidos. Florianópolis-SC.  Anais do 6º Encontro do Celsul - Círculo de Estudos Linguísticos do Sul, novembro, 2004. Disponível em: https://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/CELSUL_VI/index.htm  Acesso: 30 jan. 2025.

PEREIRA, C.; FRANCA, H.; FREITAS, S. O significado das cores nas eleições presidenciais de 2022: uma análise de artefatos gráficos da campanha do PL. Anais do 11º CIDI e 11º CONGIC. Sociedade Brasileira de Design da Informação – SBDI. Caruaru, 2023. Disponível em: https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-significado-das-cores-nas-eleies-presidenciais-de-2022-uma-anlise-de-artefatos-grficos-da-campanha-do-pl-39096 Acesso: 27 jan. 2025.

SOARES, Gilbergues Santos. Do que ainda posso falar e outros ensaios (Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar). Campina Grande\ PB: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), 2023.

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Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).