A lealdade política e ideológica da extrema direita e o uso das cores da bandeira
Existem imagens que parecem prescindir
de legendas e\ou explicações. A imagem da família, indo a uma manifestação
vestida de verde-amarelo, que “viralizou” nas redes sociais parece bastar-se a
si mesma. Podemos até compará-la à ilustração de Jean Baptiste Debret, pois
vemos a mesma situação em ambas: uma família de brancos, em movimento pela rua,
seguidos pelos seus serviçais.
Na figura 1, a família branca, informando pelas cores seu alinhamento à extrema direita, vai à uma manifestação pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e por uma intervenção militar, sendo seguida pela babá que guia o carrinho com os bebês. A mãe segura a coleira de um pequeno cachorro, também branco. Ela até se preocupa em olhar seus filhos, mesmo que não se dê ao trabalho de carregá-los. Nessa imagem, o verde-amarelo nos remete ao patriotismo e a simbologia de uma “família de bem”. A Figura 2 nos remete ao início do século XIX quando o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa. Aqui, pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros.
![]() |
| Figura 1 – Casal vestido de verde-amarelo indo à manifestação com os filhos e a babá. |
A imagem da Figura 2 traz a mesma informação da Figura 1. O senhor e a senhora vão à rua com sua branca família, trazendo consigo um séquito de pessoas escravizadas ou quase isso. Notemos que pessoas pretas, em ambas as figuras, vestem branco e carregam bebês brancos. Isso prova os lugares sociais definidos a partir da cor da pele, ratificando o domínio de seus senhores.
![]() |
| Figura 2 -Jean Baptiste Debret –
Funcionário público saindo de casa com a família e seus escravos. |
![]() |
| Figura 3 - Na Av. Paulista, manifestante favorável ao impeachment comemora o resultado da votação no Senado. |
![]() |
| Figura 4 - Na Av. Paulista, manifestantes favoráveis ao impeachment esperam resultado da votação no Senado. |
. |
| Figura 5 – Manifestantes fazem ato na Esplanada para pedir intervenção militar e prisão de Lula. |
![]() |
| Figura 6 – Manifestações em 2016 a favor ao impeachment e em defesa de uma intervenção militar. |
Na figura 7 vemos imagens que, separadas por 51 anos, dão significado às mesmas questões e a dois atos: a tragédia do Golpe de Estado Civil-Militar de 1964 e a farsa do Golpe de Estado Jurídico, Parlamentar, Midiático e Religioso de 2016. Esses atos têm em comum a profunda descrença que parte da sociedade nutre em relação à democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas e/ou revolucionários. No entanto, existe uma diferença entre as imagens. É que a de 2015 informa as cores utilizadas como descrição abreviada – é a extrema direita informando que, sendo o verde-amarelo as cores de sua bandeira, o Brasil não seria um nova Cuba, que é vermelha. As figuras 8 e 9 representam a mesma coisa: setores da sociedade implorando aos militares para que intervenham na ordem social e política do país, usando o verde oliva para demonstrar respeito, obediência e temor às Forças Armadas.
![]() |
Figura 2 - https://tokdehistoria.com.br/2022/04/28/a-historia-do-brasil-pela-arte-de-debret/
Figura 3 - Fonte Agência O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419
Figura 4 - Fonte Agência O Globo https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419
Referências
FRASER, Tom;
BANKS, Adam. O guia completo da cor (Livro essencial para a consciência das
cores). 2ª ed. São Paulo: Ed. Senac, 2007.
GUEDES, Simoni
Lahud; SILVA, Edilson M. Almeida da. O segundo sequestro do verde e amarelo:
futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia, 3, 73-89. En
Memoria Académica, 2019. Disponível em:
http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.9691/pr.9691.pdf Acesso:
04 fev. 2025.
Guimarães,
Luciano. As cores na mídia: A organização da cor-informação no jornalismo. São
Paulo: Annablume, 2003.
NOVELINO,
Maria Salet Ferreira. A linguagem como meio de representação ou de comunicação
da informação. Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 137 - 146,
jul./dez.1998. Disponível em
https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/22325/17926 . Acesso: 15
set. 2024.
OLIVO, Júlio
César Cancellier. A cor na propaganda política: significados e produção de
sentidos. Florianópolis-SC. Anais do 6º
Encontro do Celsul - Círculo de Estudos Linguísticos do Sul, novembro, 2004.
Disponível em:
https://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/CELSUL_VI/index.htm Acesso: 30 jan. 2025.
PEREIRA, C.;
FRANCA, H.; FREITAS, S. O significado das cores nas eleições presidenciais de
2022: uma análise de artefatos gráficos da campanha do PL. Anais do 11º CIDI e
11º CONGIC. Sociedade Brasileira de Design da Informação – SBDI. Caruaru, 2023.
Disponível em:
https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-significado-das-cores-nas-eleies-presidenciais-de-2022-uma-anlise-de-artefatos-grficos-da-campanha-do-pl-39096
Acesso: 27 jan. 2025.
SOARES, Gilbergues Santos. Do que ainda posso falar e outros ensaios (Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar). Campina Grande\ PB: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), 2023.







Nenhum comentário:
Postar um comentário