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Laerte. Revista Caros Amigos. Ano IV - n° 15. Novembro/2002. Edição Especial “Para onde vai a democracia?” |
Passados 62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 duas questões merecem destaque, pois em prol de nosso presente é sempre imperioso olhar para o passado. Cabe ao historiador refletir sobre a realidade em que vive a partir de um processo de comparação com o que se viveu no passado. Como afirmou o historiador inglês Peter Burke: “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”.
Assim, para falarmos do golpe militar de 1964,
precisamos reavaliá-lo como fato histórico, pois à medida que nos distanciamos
temporalmente dos acontecimentos a nossa visão sobre eles muda e, então, temos
que redimensioná-los para atendermos as nossas questões políticas, sociais,
culturais e existenciais ao nosso redor.
Também,
temos que refletir sobre uma cultura política pretoriana herdada da ditadura
militar, sem falar no que defino como nossa pobre tradição democrática da qual trato
em meu livro "Heróis de
uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um tempo perdido?”. Mesmo não
desconsiderando a primeira questão, prefiro me deter na segunda, pois ela
remete à nossa realidade.
Por
que as memórias do golpe de 1964 e da ditadura militar ainda nos são tão vivas?
Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas? Ou por termos uma Sociedade e um
Estado recheados de entulhos
autoritários, que o nosso débil processo de liberalização (que culminou com
a implantação da chamada Nova República) não foi competente para extrair do
nosso entorno político?
A
principal causa para o golpe de Estado de 1964 foi a tensão (um falso dilema)
existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro
político-partidário nacional antagonizava estes dois fatores
desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela
democracia se chegaria às mudanças sociais - por isso mesmo deram o golpe. Os
atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a
democracia.
O
confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às reformas de base
destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se chegou bem
conhecemos: nenhuma reforma social e democracia inexistente! Exploro essa
questão no artigo 52
anos após o golpe, país não aceita o valor universal da democracia publicado
em 2016 no www.uol.com.br
O
processo de liberalização política (notem que não utilizo os termos
redemocratização e transição política), efetivado com a eleição de Tancredo
Neves, é torto, pois não afasta do cenário nacional os atores políticos relevantes
da ditadura militar. O que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas -
iniciado ainda em 1974 e capitaneado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do
Couto e Silva.
O
resultado foi um processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos
do ritual democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e,
principalmente, mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o
poder militar.
Se
democracia política são os mecanismos e práticas associados às formas de
decidir em favor dos interesses sociais; além das normas que regem o bom
funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre elas e
a sociedade civil, veremos que não temos uma democracia minimamente consolidada.
Não tivemos um processo em que Sociedade Civil e Estado firmassem um
compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si
durante 21 anos de autoritarismo.
Como
na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina
de Segurança Nacional, que dizia que o inimigo a se combater estava dentro
do território nacional e não fora dele, as Forças Armadas seguem mais
preocupadas com a segurança interna do que com a externa, mesmo após as tentativas
de golpe de Estado entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 quando o conglomerado
golpista de 2016, incluindo a extrema direita bolsonarista, quase nos leva de
volta aos tempos da ditadura contra tudo e contra todos,
Vivemos
um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos que avançar no
sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm as armas irão
obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores políticos não
cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto ele estiver
sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas democráticas
dos resultados.
Falta-nos, ainda, aceitar que democracia deve ter um valor universal em nosso país e rejeitarmos aquele dito do humorista Millôr Fernandes: “ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em você!”.

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