terça-feira, 10 de março de 2026

O FETICHE DA INFORMAÇÃO EM UM MUNDO DESINFORMACIONAL

 

Este artigo sugere nos preocuparmos com a desinformação, e com problemas por ela criados, além de uma reflexão sobre a supervalorização da informação em um contexto de práticas desinformacionais, pois a sociedade parece aceitar bem que informação é panaceia contra desinformação. Propõem atentarmos para a frágil assertiva de que quanto mais informações tivermos, menos desinformados seremos. Em uma era desinformacional, vejamos a forma como se divulgam conteúdos negacionistas e revisionistas a partir de um modelo de negócio que usa a desinformação para monetização.

 

Vivemos sufocados pelo excesso de informação e desinformação. Hesitamos entre se é melhor lidar com regimes políticos de força, que prometem segurança ao custo da liberdade, ou se com regimes democráticos que não trazem igualdade.

Nos ufanamos da era da informação e da tecnologia digital, ainda que usemos fake news e discursos de ódio. Gostamos da democracia, mas usamos procedimentos democráticos para pedir o fim dela . Temos uma relação fetichizada com a informação , valorizando-a, mesmo que narrativas eventualmente verdadeiras existam.

Desinformação impacta nas escolhas políticas com os valores da democracia existindo para acima e além da sociedade. Opomos o bem (democracia e informação) contra o mal (autoritarismo e desinformação) como se a realidade fosse uma simples oposição entre certo e errado, opaco e translúcido, doce e amargo.

A hiperinformação como panaceia para a superdesinformação

Supervalorizamos a informação, em um contexto de práticas informacionais  e de práticas de desinformação  , aceitando com passividade que para se combater a desinformação é preciso massificar a informação. Dito de outra forma, quanto mais desinformação se produzir, mais informação terá que ser disseminada, como se a justaposição desta sobre aquela fosse solução única.

Vivemos a era da Infodemia , esse excesso de informações sobre tudo e sobre todos, não importando se relevantes ou não. Este termo foi difundido em função da pandemia do Covid 19, quando dados e informações (corretos e/ou incorretos) circulavam na velocidade do big data  .

O recurso que a tal “sociedade da informação” oferece contra a desinformação é limitado por uma visão individualista onde a questão seria resolvida, como mostra o Profº Drº Rodrigo Moreno, quando o indivíduo detectasse conteúdos desinformativos , bastando apenas que desenvolvesse uma competência crítica informacional para isso.

Mas, desinformação é um fenômeno social complexo que lastreia, por exemplo, a atuação da extrema direita em seu percurso ao poder. Importa relacionarmos informação e desinformação a partir da crítica da economia política e das noções de fetichismo e alienação, pois lidamos com uma realidade onde narrativas são fatos.

Foquemos em um novo regime da informação\desinformação como fonte de tensionamentos em relação à democracia, ainda que se fale que a problemática da desinformação se resolveria a partir do desenvolvimento da competência crítica em informação  que habilitaria pessoas a detectarem conteúdos desinformativos.

Economia política da desinformação, alienação e fetiche da informação

Nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos (1844), Karl Marx demonstrou que o trabalho é uma atividade material e que o sistema industrial capitalista explora o trabalhador, desconsiderando que parte da riqueza, investida nas indústrias, vinha da exploração da mão de obra escravizada nas Américas. Lembremos que o capital só se constitui através da acumulação concentrada e controlada pela propriedade privada.

Isso importa por tratarmos da economia política da informação\desinformação que monetiza em prol da acumulação capitalista, cuja “indústria-base” é a tecnologia digital. Em A Ideologia Alemã (1845-46), Marx e Engels dizem que a libertação dos trabalhadores não é algo idealizado, mas um  ato histórico real. Isso redundou na Tese 11 onde filósofos interpretavam o mundo sem transformá-lo.

O que Marx e Engels falavam aos filósofos contemporâneos seus é o que temos que reafirmar hoje, já que a libertação (da exploração capitalista) ainda não aconteceu, parecendo cada vez mais distante à medida em que o modelo de negócio, implementado por uma economia política plataformizada, aprofunda a acumulação de capitais.

As condições materiais e a produção social de nossa existência advém de uma base econômica que se eleva até uma superestrutura  - onde o modo de produção da vida material conduz o processo social, político, intelectual e cultural. Essa discussão nos é relevante à medida em que nosso estágio de acumulação de capitais, em sociedades plataformizadas, condiciona uma superestrutura das redes sociais.

O conceito de alienação nos serve para entendermos o que nos acomete ao lidarmos com efeitos da informação plataformizada. Alienação é a consequência de uma ação sobre uma pessoa ou grupo distanciados que são dos resultados de suas atividades. Alienados ficamos quando nos tornamos alheios ao produto de nosso trabalho. A alienação é essencial para retroalimentar o sistema capitalista.

Em “A Sociedade do Espetáculo”  Guy Debord trata do trabalhador\usuário alienado, pois quanto mais produz (conteúdos) menos vive, aceitando se reconhecer nas imagens dominantes, sem compreender sua existência e seus desejos. Quanto mais alienado do fruto do seu trabalho, mais espectador se torna de um espetáculo promovido pelo capital em grau elevado de acumulação e de mais-valor.

O modelo de negócio plataformizado move-se pela acintosa expropriação do tempo real da pessoa que é produtora e consumidora. O trabalhador\usuário deve sentir-se livre, mesmo que não o seja, pois o poder econômico se materializa na mercadoria que ele consome. Não é à toa que o lazer se tornou atividade de consumo e as sociabilidades foram enquadradas ao espetáculo comando pela mercadoria.

A desinformação aliena em relação à informação e ambas são produto do trabalho nas redes sociais. Informação é criação das instituições e desinformação vem de nossa estrutura social. Entendendo essa relação e seu poder de alienar o indivíduo de si mesmo, aceitemos que esse processo é efetivado pelo próprio capitalismo.

Apontando contradições das formas de produção, circulação e consumo da informação, o Profº Dr. Arthur Coelho afirma que enfrentamos dilemas éticos que se escondem sob a “fina epiderme de vidro e plástico que carregamos no bolso”, é a sociedade da hiperinformação que inaugura a era da desinformação . O século XXI nos oferece um novo regime de informação, com formas hodiernas de lidar com ela, subjugadas às mesmas relações de sempre do capitalismo.

O fetiche da mercadoria faz objetos materiais portarem características herdadas de relações sociais dominantes. Assim, fetichismo é uma ilusão que nos faz aceitar a mera aparência de um fenômeno como se fosse sua essência e se revela ao admitirmos que relações de dominação e exploração são naturais do próprio sistema capitalista.

Fetichismos escamoteiam relações sociais de dominação ocultas nas manifestações dos fenômenos informacionais. Por isso, enfrentemos, sob as lentes da crítica da economia política, o debate sobre plataformas digitais, governança da internet, colonialismo digital   e, claro, desinformação.

A “sociedade da informação” sofre um estranhamento, levando-nos a tomá-la como um dado histórico regular e não como algo que representa os interesses de uma classe social, pois o mercado de trabalho capitalista escamoteia a exploração. O fetiche da informação se dá quando, por exemplo, cremos que com o ato isolado de se informar e\ou gerar conteúdos estamos influindo em todo o ecossistema informacional.

Os aparelhos ideológicos digitais da Extrema Direita

Revisionismo e negacionismo, com suas omissões e simplificações, induzem à desinformação e pululam pelas redes sociais e em plataformas diversas. Não se trata apenas de visões alternativas, mas de ausência de rigor metodológico, com uso seletivo de fontes e ausência de contrapontos.

Esses aparelhos ideológicos digitais proliferam conteúdos falsos e oferecem produções documentais que reinterpretam a história com a formatação de um inimigo comum (comunismo). Eles simplificam a realidade e optam por desinformação, impactando o debate social com conteúdos enviesados, seletivos e distorcidos que comprometem a formação de opiniões e alimentam desconfianças na democracia.

Ao disseminar desinformação criam bolhas informacionais e reforçam opiniões sem respaldo em fatos verificáveis. A desinformação se associa ao aumento da polarização política, pois a disseminação de conteúdos falsos intensifica a divisão entre grupos, retroalimenta intolerâncias, dificultando o diálogo.

Foi com desinformação que a extrema direita conduziu a campanha que elegeu Jair Bolsonaro, manipulando a população para favorecer um projeto antidemocrático. O fato é que processam e propagam informação e fatos distorcidos em proporções inimagináveis, tudo ao mesmo tempo agora.

A desinformação compõe um novo modelo de regime informacional, contribuindo para o processo de acumulação de capitais plataformizados. Nesse momento o capital aumenta exponencialmente, enquanto pessoas são substituídas por máquinas e softwares. As tecnologias da informação e da comunicação contribuem para a expansão de mercados, acumulação de riquezas e novas relações de exploração do trabalho.

Em “Post-Truth” , Lee MacIntyre (pesquisador da Universidade de Boston), tenta nos incomodar perguntando como chegamos à era da pós-verdade, em que fatos alternativos substituem fatos verídicos, sensações importam mais que evidências e crenças, intuições e afetos passam a ser mais relevantes do que a realidade.

Como vivemos em um estado de profunda inconsciência, sufocados pela desinformação, considero que perdemos as referências sobre o que é verdade e o que é mentira, aceitando a “pós-verdade”, deixando a verdade para trás. Precisamos nos atormentar com isso, pois sempre que esquecemos da verdade, os campos de concentração abundam mundo afora.

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