terça-feira, 10 de junho de 2014

E NÃO É QUE VAI TER COPA?


Faltam apenas 02 dias para o início da Copa da FIFA. Na próxima quinta-feira, na metade da tarde, teremos a solenidade de abertura do grande evento e em seguida o jogo de abertura envolvendo a Seleção Brasileira e a Seleção da Croácia. Serão 64 jogos ao longo de 30 dias. A propaganda oficial do governo federal tem dito que esta será a Copa das Copas. Os patrocinadores e a própria FIFA tem feito um esforço fenomenal para despertar o interesse dos brasileiros pelo evento. Mas, não está sendo fácil, pois 61% dos brasileiros, segundo pesquisa do Instituto norte-americano Pew Research Center, estam convencidos de que a Copa prejudica o País, pois retira recursos que poderiam ser usados em serviços públicos.

Eu confesso que tenho me esforçado para me interessar pelo espetáculo em si. Sou bastante sincero em dizer que está muito difícil torcer pela Seleção Brasileira. Não é que eu vá torcer contra, mas dai vestir uma camisa verde-amarela vai uma grande distância. Eu não sou daqueles que é contra pelo prazer de ser. Eu não sou daqueles que torce para que tudo dê errado, pois quanto pior melhor. Mas, eu não posso fechar os olhos para tudo que aconteceu, e ainda acontece, em torno da organização da Copa da FIFA. Não penso ser possível torcermos alegremente pela nossa seleção, conscientes que estamos do altíssimo custo econômico, social e político que ainda teremos que pagar por causa da realização dessa Copa em nosso país.
Sempre esperamos muito para termos outra copa no Brasil, mas não a esse preço. É uma pena ter que admitir, mas a Seleção Brasileira vai entrar em campo, em busca do hexa campeonato, e eu só tenho olhos para o que acontece fora de campo.

O site UOL trouxe uma reportagem especial chamada “Em nome da Copa”, onde mostra que, para que o evento fosse organizado, operários morreram, leis foram desrespeitadas e bilhões foram gastos, desperdiçados ou desviados. Eu não quero convencer o caro ouvinte a não torcer pela Seleção Brasileira. O que quero é que não nos alienemos. Se a seleção começar a copa tendo um bom desempenho, sugiro não esquecermos o show de horrores que assistimos no entorno da Copa. São sentimentos contraditórios, eu bem sei disso. Mas, e na medida do possível, acho que podemos torcer pela seleção, mesmo que não seja a dos nossos sonhos, mantendo um senso razoavelmente critico em torno de tudo que vem acontecendo.

Não acho que podemos atender ao chamado do governo federal, para vibrarmos com a tal Copa das Copas, se este mesmo governo está disposto a nos reprimir, caso decidamos questionar nas ruas os desmandos de toda sorte na organização da Copa. É bom não esquecer que o Governo Federal e o Congresso Nacional se uniram, o que é raro, e aprovaram rapidamente um lei, outra coisa rara, que modificou o Código Penal para punir com mais rigor a ação de manifestantes e de "black blocs " estúpidos. Durante a Copa das Confederações, autoridades fizeram uso da Lei de Segurança Nacional, que é da época da ditadura militar, para enquadrar e reprimir a conduta de manifestantes detidos. Isso deve se repetir a partir de quinta-feira.

Passaremos um mês com uma legislação de exceção em vigor. É como se o governo, a pedido da FIFA, tivesse implantado uma espécie de Estado de Sítio para prever manifestações de toda sorte nos dias em que a Copa estiver acontecendo. Além do mais, os governos federal e estaduais ultrapassaram todos os limites da irresponsabilidade fiscal, política e jurídica ao assumirem todos os riscos para garantir a realização da Copa. Sem contar que se sujeitaram aos ditames da FIFA sem pestanejar. O Ministério Público Federal processou a FIFA e o Comitê Organizador Local por gastos que a União assumiu para com a Copa do Mundo. O Ministério Público questiona porque se investiu R$ 1,2 bilhão em estruturas temporárias e na transmissão do torneio.


O ministério quer saber por que se deixou de investir nos legados sociais para se colocar dinheiro em coisas que não são de interesse público. Aliás, nós também temos que procurar saber as razões para tamanho absurdo. É nosso direito. É nossa obrigação. O “Mané Garrincha” é a arena mais cara da Copa. Seu custo inicial foi de R$ 631 milhões, mas ela saiu por R$ 1,9 bilhão. O Tribunal de Contas do Distrito Federal atestou que houve superfaturamento. Aliás, isso ocorreu em todas as arenas. Nove operários já morreram nas obras das Arenas e em obras de infraestrutura. A Articulação Nacional dos Comitês Populares para a Copa afirmou que cerca de 250 mil pessoas foram despejadas de suas casas para que obras pudessem ser realizadas.

Eu ainda poderia citar muitos outros exemplos. Mas, não quero ser repetitivo. Insisto que a cada jogo, e que a cada vitória ou derrota da Seleção Brasileira, saibamos separar o joio do trigo. Dentro de campo teremos tão somente jogos de um esporte fenomenal. Fora de campo tem muita coisa importante em jogo. E não estou falando dos interesses da FIFA, dos seus patrocinadores e do governo. Falo dos interesses de uma sociedade que pode tirar algum proveito de tudo isso se tornando mais consciente, mais politizada, mais responsável para com seu próprio destino.

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segunda-feira, 9 de junho de 2014

SOMOS UM BANDO DE TROGLODITAS


Eu li certa vez que nós, seres humanos, nascemos pequenos trogloditas e que é o processo educacional, que enfrentamos nos primeiros 20 anos de nossas vidas, além do exercício da autoridade, disciplina e força que pode nos tornar civilizados. Sim, isso mesmo, não nos tornamos civilizados por que achamos bonito e sim porque somos levados a isso por algo que a maioria de nós prefere ignorar. Eu falo do exercício da autoridade, do uso da lei e, no limite, do uso da força. É preciso lembrar que só respeitamos a lei pela ameaça da punição. Se a lei não trouxer, em seu texto, o que acontece com quem não a cumpre não serve de nada. A verdade é que sem a ameaça, ou sem a promessa de um castigo, somos praticamente selvagens.

A lei é uma imposição que aceitamos para viver melhor. A lei é o instrumento que nos insere na civilidade. É por isso que precisamos da força, da polícia, enfim dos instrumentos que nos fazem lembrar que precisamos respeitar a lei. Há cerca de 10 mil anos vivemos em cidades convivendo com pessoas diferentes e com as quais não temos parentesco. Viver na cidade significou estar na civilização. Significou que um estranho não era necessariamente um inimigo que deveríamos combater. E vejam que, hoje em dia, isso ainda tem suas exceções. Na Papua–Nova Guiné, um conjunto de ilhas em forma de país que fica na Oceania, se dois estranhos não encontrarem um parentesco após uma breve conversa partem para um embate mortal.

O caro ouvinte quer saber o que foi que permitiu que pudéssemos conviver pacificamente com estranhos em um mesmo lugar? Foi à instituição do Estado. Foi o fato de termo consagrado ao Estado o monopólio da força que nos pacificou – que nos fez deixar de sermos lobos de nós mesmos. Foi apenas quando pudemos abrir mão de nossa força, e repassá-la ao Estado, que tivemos como viver mais e melhor. Foi só quando definimos o que é transgredir e que o transgressor deve ser punido que deixamos de ser trogloditas. Claro, os códigos e as punições eram, no início, tão bárbaros quanto aqueles que os elaboravam. Vejam que o Código de Hammurabi impunha punições das mais duras com a ideia de “Olho por olho, dente por dente”.

Este código foi elaborado pelo rei Hammurabi, por volta de 1700 a.C., na região da antiga Mesopotâmia, onde hoje está o Irã. Não é a toa que lá, no Irá, as pessoas ainda são apedrejadas em praça pública por coisas como o adultério. As leis e as punições foram se tornando mais civilizadas. Aos poucos os castigos foram deixando de serem físicos e o princípio do monopólio da violência pelo Estado foi sendo implantado nas sociedades na medida em que elas iam se tornando democráticas. A lógica do monopólio estatal da violência é simples. O caro ouvinte está tendo uma contenda, controvérsia, uma briga que seja com seu vizinho? Leve-a para o Estado (para a justiça de pequenas causas) para que ele faça a mediação.

Nunca, jamais, tente resolvê-la na base do “olho por olho, dente por dente”. Deixe de lado sua própria força e busque a força do Estado para resolver seu problema. Se você quiser, literalmente, fazer justiça com as próprias mãos pode tornar-se um criminoso. Aliás, eis de onde surgiu a expressão “fazer justiça com as próprias mãos”. Lá trás, as sociedades definiram que não se faria mais justiça usando a própria força e que se utilizariam os mecanismos do Estado para isso. Ou seja, aceitamos usar as mãos do Estado, e sua força, para que o mais forte não se saísse sempre vitorioso nos embates. Abrir mão da própria força e consagrá-la ao Estado é a maneira que encontramos de não sermos um bando de trogloditas.

Se preferimos impor autoridade usando a própria força ao invés de recorremos a força do Estado, através da justiça, somos iguais ao gorila que para se impor perante ao seu bando bate no peito, urra e avança contra seu oponente, mas sem agredi-lo fisicamente. Uma família não deixa de ser um Estado em miniatura, com um, ou uma, chefe responsável pelas leis e punições a um grupo. Nós nascemos, sim, pequenos trogloditas e é a educação que pode nos levar ao processo civilizatório. Mas, afinal, porque eu estou falando tudo isso? É que, por vezes, tenho a impressão que estamos voltando à barbárie. É como se achássemos que devemos pedir de volta ao Estado a força que consagramos a ele e somente a ele.

É como se a lei (e a punição) não tivessem mais que ser aplicadas pelo Estado por não serem suficientemente duras e cruéis como gostaríamos. Vi, certa vez, dois motoristas numa luta (física) de vida e morte por causa de uma contenda de trânsito. Não seria mais fácil chamar os agentes de trânsito para intermediarem a contenda? Sim, seria. Mas, é que os dois motoristas não deixaram o estado de barbárie em que nasceram. Nasceram trogloditas, agem como gorilas, talvez um dia possam agir como civilizados.
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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O SÃO JOÃO DO B DE RICARDO COUTINHO


Têm coisas que só uma campanha eleitoral é capaz de fazer. Pois, não é que os interesses político-eleitorais fizeram o prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, e o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, se meterem numa peleja junina? De antemão, eu quero dizer que a peleja vai ser muito boa para nós, campinenses, que nessa época do ano só pensamos em dançar forró e comer comida de milho. É que eles vão disputar para ver quem faz o melhor São João. Assim, nós teremos mais opções para nos divertirmos. Claro, essa diversão não vai sair de graça para nós, pois em outubro não vai faltar quem queira nos cobrar a fatura da diversão. A forma de pagamento será, claro, o nosso voto.

Mas, como foi que a peleja iniciou? Tudo começou quando o governador Ricardo Coutinho anunciou que o Circuito do Forró chegaria a Campina Grande. Circuito do Forró é uma programação itinerante que leva os festejos juninos a vários locais. Mas, o governador não descobriu a roda, ou melhor, a fogueira. Promover festa junina nos bairros mais afastados do centro da cidade, onde fica o Parque do Povo e onde ocorre a festa do “Maior São João do Mundo”, é tão antigo quanto à própria festa. Outros governos já fizeram isso como forma de revitalizar uma festa que precisa ser reinventada, de vez em quando, para que não caia na mesmice de barracas, shows e quadrilhas. A ação do governo é bem vinda. Mas, porque só agora?

É bom lembrar que o governo Ricardo Coutinho não via com bons olhos investir em nossa festa maior. Argumentava, com razão, diga-se de passagem, que o poder público não deveria investir naqueles shows pavorosos das bandas de forró de plástico. Este ano, com as demandas eleitorais batendo à porta, o governador achou que era hora de promover uma espécie de “São João do B” em Campina Grande. A questão é que o São João do Parque do Povo tem as cores do partido de Cássio Cunha Lima. Era preciso, então, fazer um São João socialista em Campina Grande. O governo tem urgência em marcar sua presença na principal festa da cidade que costuma decidir os embates eleitorais da Paraíba.


Se o São João do Parque do Povo carrega o amarelo e azul do PSDB de Romero e Cássio, o São João descentralizado, que circulará por vários bairros de Campina Grande, terá que ter as cores alaranjadas do girassol do PSB. Ruim para nós, Campineses? Não, claro que não, pois nesta época seguimos o lema do Quinteto Violado que diz que “Onde tiver forró, eu tô, com xodó, ou sem xodó, eu tô, e se me derem um goró, ainda tô”. É isso que os governantes não entendem. O que queremos é o forró, independente de quem os promova. Quando o governador anunciou que faria seu São João em Campina Grande, o prefeito Romero Rodrigues não gostou nem um pouco, pois a prerrogativa de promover a feste é, sim, da administração municipal.

O prefeito deu a entender que considera a ação do governo estadual uma estratégia de campanha eleitoral. Romero disse não entender porque o gestor estadual decidiu realizar essa programação paralela. Romero chegou mesmo a questionar que: “Se não houve nos três primeiros anos de governo, porque está sendo realizado agora?”. O fato é que o prefeito receia ter que dividir, com Ricardo Coutinho, os dividendos eleitorais que o São João sempre rende. Tanto é que vereador do PSDB, Tovar Correia Lima, chegou a afirmar que “Campina Grande não está precisando de um São João Paralelo”. Ele lembrou que a população não vê com bons olhos esse negócio de um São João do governo e outro da prefeitura.

A prefeitura quer o governador do Estado bem longe do São João de Campina Grande, mas quer que o poder público estadual invista na festa. O próprio Romero afirmou que a prefeitura havia solicitado apoio financeiro do governo na ordem de R$ 3 milhões. Apesar de que Romero afirmou que contrapartida da prefeitura, para essa ajuda de custo, seria o governo ter espaços, na festa, com camarotes, propaganda televisiva e autdoors no próprio Parque do Povo, principalmente no palco central. O fato é que Romero solicitou apoio ao governo do Estado, e ele respondeu com uma programação, em faixa própria, com festa junina pelos bairros da cidade.

O secretário estadual de Comunicação, Luis Torres, tentou colocar panos quentes na peleja. Ele disse que o intuito não era conflitar com a prefeitura de Campina Grande. Disse ainda, que a ideia era “complementar o que já se festeja e que não se queria fazer frente ao Maior São João do Mundo, tanto que o circuito só acontece durante o dia”. Certo. O governo não queria esvaziar o São João do Parque do Povo. A prefeitura não queria negar a participação do governo em seu São João. Mas, ninguém se entendeu, pois a preocupação de todos não é a festa, e sim a eleição. Os governantes não entendem o que nós tão bem sabemos e que, no final das contas, é o que importa de fato. É como diz o Quinteto Violado: “Mais se tiver uma sanfoninha tocando / Candeeiro queimando, poeira voando / Negrada suando, subindo o calor /Pode contar que estou cantando e é assim que eu sou”.

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

EU NÃO SEI O QUE QUERO, SÓ SEI DO QUE NÃO GOSTO.


O Instituto de Pesquisas norte-americano Pew Research Center descobriu que os brasileiros estam tão insatisfeitos com a vida que levam quanto os povos de países que enfrentam as consequências da chamada “primavera árabe”. O instituto americano aferiu que o humor do brasileiro anda péssimo por causa dos problemas na economia, com inflação em alta e PIB em baixa, das frustrações com os políticos e governantes, além de uma série de problemas sociais. A brasileira Juliana Horowitz, uma das responsáveis pela pesquisa, afirmou que a percepção do brasileiro em relação à situação do País, à conjuntura econômica e ao governo Dilma se deteriorou de maneira acentuada em apenas um ano.

Horowitz diz que desde que as pessoas tomaram as ruas, para protestar contra a corrupção e a má-qualidade dos serviços públicos, que a insatisfação só aumentou. Diz ela que “é muito raro uma mudança de humor em um espaço de tempo tão curto”. A pesquisa do Instituto Pew Research é inédita. É que ele fez um levantamento em 82 países, entre 2010 e 2014, para aferir exatamente os humores das populações em relação a coisas como economia e política. A pesquisa viu oscilações acentuadas em lugares, como o Egito, que enfrentam crises ou rupturas institucionais. O levantamento mostra que os brasileiros estam com um elevado nível de frustração em relação ao seu governo e a sua economia.

Na apresentação da pesquisa pode-se ler que o descrédito dos brasileiros para com seus líderes é algo que não tem paralelo em nossa história republicana. O aumento da inflação é o que mais influenciou o descrédito do brasileiro. Pudera. Inflação corrói salários e, como se sabe, mais da metade da população brasileira é assalariada. Nada mais tem o poder de acabar com o humor do brasileiro do que aquela sensação de que o salário encolheu e os preços dispararam. Claro, toda sorte de insatisfações com a realização da Copa da FIFA, no Brasil, também contribuem para esse estado de coisas. 61% dos entrevistados disseram que a Copa prejudica o País, pois retira recursos que poderiam ser usados em serviços públicos.

A situação é grave. Em 2010 esse percentual era de 49%. Em 2013, 55% dos brasileiros concordavam que é ruim ser país sede da Copa. O fato é que nosso cidadão despertou de uma vez para o quanto estamos sendo prejudicado com essa Copa dos Horrores. Sobre a situação econômica, 67% dos entrevistados a classificaram como ruim. A inflação foi apontada como o principal problema brasileiro por 85% dos entrevistados. Ao se cruzar os dados se vê que os que criticam a Copa são os mesmos que se preocupam com a inflação. 72% dos brasileiros disseram que a falta de oportunidades de trabalho é o maior problema do Brasil, mesmo que estejamos apresentando índices historicamente baixos neste quesito. O fato é que não temos oportunidades por que não nos desenvolvemos.


A frustração com a situação econômica e com os baixos índices de desenvolvimento que apresentamos fez a avaliação da gestão Dilma cair. A maioria dos entrevistados afirmou que o governo não enfrenta os problemas-chave da nação.  Para 86%, o governo é inepto no combate à corrupção. Já para 85% o governo tem péssima performance no tocante à assistência médica. A administração da economia, i.e., o trabalho do Ministro Guido Mantega, é reprovada por 63% dos entrevistados. Sobre o tipo de influência que Dilma tem sobre o país, os brasileiros estam divididos. 52% afirmaram que essa influência é negativa e 48% que ela é positiva. Em 2010, essa avaliação sobre Lula era bem diferente. 84% diziam que Lula tinha influência positiva sobre o Brasil.

Mas, é bom lembrar que Lula não administrava sob o signo das manifestações, dos desmandos da Copa e do agravamento da crise econômica. Pelo contrário, Lula era tido como o presidente dos programas sociais, em que pese o mensalão, claro. O Pew Research não se negou a buscar informações eleitorais. Foi aqui que Dilma conseguiu os resultados mais positivos, mesmo que apenas em comparação aos seus adversários. 51% disseram ter uma opinião favorável da presidente e 49% optaram pelo desfavorável.  No caso de Aécio Neves, a visão desfavorável alcançou 53% e a favorável 27%. Sobre Eduardo Campos 47% foi desfavorável e 24% favorável.  Em que pese os problemas elencados e a relação deles com o governo, Dilma segue na frente nas pesquisas eleitorais.

Essa é a contradição que o Pew Research não quis ou não pode explorar. O brasileiro avaliou o governo de forma negativa e disse que ele é inepto. Em alguns setores da vida brasileira, os entrevistados disseram que o governo tem péssima performance. No entanto, todas as pesquisas eleitorais trazem Dilma sempre em primeiro lugar. A última rodada feita pelo Datafolha mostrou, inclusive, um crescimento de Dilma numa perspectiva até de apontar para não haver o 2º turno. Reparem o gritante paradoxo. O governo não é bem avaliado, mas Dilma segue em primeiro lugar. O brasileiro quer mudanças, mas não está convencido que a oposição é capaz de implementá-las. Esse é o dilema a ser enfrentados nas eleições. O fato é que o brasileiro até identifica o que lhe desagrada, o problema é que ele não sabe bem o quer.

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OS MISTÉRIOS DE UMA ELEIÇÃO.


Em se tratando de eleições majoritárias e proporcionais, onde se luta pela hegemonia nos poderes executivo e legislativo, nada pode ser simples. Tudo é muito delicado, ainda mais quando temos uma eleição com tantos dilemas e variáveis a se resolverem. Se eu não estivesse acostumado com as coisas da política partidária eleitoral, da pequena e heroica Paraíba, diria que nossos políticos desaprenderam a fazer politica. Às vezes, eles agem como se estivessem perdidos, como se não soubessem o que fazer. Mas, isso é só impressão. Na política de nossos dias tudo, ou quase tudo, pode e deve ser explicado. Afinal, é em função disso que se orienta a atividade do analista político. A ele cabe clarear aquilo que está nebuloso ou explicar o que não se consegue entender.

Agora mesmo vemos um fenômeno que parece contrariar uma das regras informais dos processos eleitorais, que os políticos dizem seguir a risca. Eu falo do fato de que José Maranhão e Cícero Lucena lideram as pesquisas para a eleição ao Senado Federal. Lideram, mas não devem ser candidatos. Como assim? Eu explico, pois todo fenômeno pode ser observado, portanto, explicado. Antes, é bom lembrar que os políticos gostam de justificar suas candidaturas a partir daquelas pesquisas onde aparecem liderando. Quantas vezes já não vimos àquela história de que “eu não estou impondo minha candidatura, é que o partido encomendou uma pesquisa e eu apareci liderando, então minha postulação é uma vontade do povo e das minhas bases”.

Tem político que é capaz até de dar um “jeitinho” nas pesquisas para que elas lhe favoreçam ao ponto do seu partido se convencer de sua viabilidade eleitoral. A questão é que numa eleição como essa, para o Senado Federal, sobram nomes e faltam vagas. Na pesquisa do Instituto Souza Lopes o ex-governador José Maranhão aparece em primeiro lugar com 23.6% das intenções de voto. O senador Cícero Lucena vem em 2º lugar com 12.5%, o vice-governador Rômulo Gouveia está em 3º com 10.6%. Depois aparecem Wilson Santiago (7.5%), Ruy Carneiro (5.8%) e Aguinaldo Ribeiro (2.9%). Estes seis políticos possuem capital eleitoral e uma estrutura partidária que lhes permite reivindicar uma cadeira na Câmara Alta do Congresso Nacional.


Ainda aparecem os que, sob certas condições de temperatura e pressão, podem até chegar no dia da eleição com alguma chance. São eles Lucélio Cartaxo, Ney Suassuna e Walter Brito. Apesar de que sem apoios certos estes nomes não passam de nomes. Chama atenção o fato de José Maranhão estar bem nas pesquisas, sempre liderando, e não ser candidato ao senado. É ele quem diz o tempo todo que será candidato a Câmara dos Deputados para ajudar seu partido, PMDB, a eleger uma bancada de peso. Ora, se Maranhão lidera as pesquisas para o Senado, porque o PMDB, do alto do seu pragmatismo fisiológico, não o coloca de uma vez para ser candidato? Se as pesquisa não estiverem todas erradas, este páreo seria uma barbada.

A mesma coisa é o caso do Senador Cícero Lucena, que aparece em segundo lugar nas pesquisas, ou seja, com chances reais de continuar por mais oito anos no Senado. Porque seu partido, o PSDB, não o quer como candidato a sua reeleição? O que aconteceu com PMDB e PSDB? Desaprenderam a fazer política ou não sabem mais como ler uma pesquisa eleitoral? Não, não é nada disso. Os partidos continuam montando suas estratégias a partir da leitura dos números. Um partido não contrariaria a regra informal, de que quem lidera as pesquisas deve ser o candidato, apenas por um capricho. O fato é que descartar um campeão de votos, de um processo eleitoral acirrado, se explica exatamente pelo exacerbado pragmatismo.

É claro que José Maranhão e Cícero Lucena querem ser candidatos ao senado. Aliás, nove entre dez políticos sonham com esse cargo pelos seus atrativos. O Senador trabalho muitos menos do que o deputado e, em compensação, ganha mais. Para os partidos a vaga de candidato ao senado, numa coligação, se torna moeda de troca. O caso do PMDB exemplifica a questão. É que como ele indica o candidato ao governo tem que ceder a vaga de senador para seu principal aliado, o PT. Por essa lógica, pouco importa que seja Maranhão o primeiro colocado e pouco importa as manifestações em defesa de seu nome. O que determinar quem se candidata, e a quê, são os cálculos eleitorais em torno do tempo no Guia Eleitoral.

Apesar de que, isso pode terminar se tornando um jogo de soma zero. Pois, ao dar a vaga de candidato a senador para um aliado inexpressivo, o partido corre o risco de ficar, literalmente, sem o mel e sem a cabaça. Sabemos que uma chapa puro-sangue pouco amplia e não atrai apoios. Mas, o que é melhor? Uma coligação com vários partidos de capital eleitoral baixo ou uma chapa com 2 nomes, de um mesmo partido, com encorpados capitais eleitorais? O fato é que todo mundo procura se orientar pelas pesquisas, mas a bússola dos atores e partidos políticos é o pragmatismo que orienta negociações no sentido de se maximizar interesses e minimizar perdas. É essa lógica que nos faz pensar que a política partidária não tem lógica.

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terça-feira, 3 de junho de 2014

SOBRE REJEIÇÕES E APROVAÇÕES.


O governador Ricardo Coutinho e o Senador Cássio Cunha Lima estam reduzindo o processo eleitoral a uma sucessão infindável de troca de acusações e em uma disputa para ver quem produz a frase mais provocativa em relação ao adversário. Na verdade, ambos precisam mesmo fazer isso. Numa eleição tão acirrada como esta, a estratégia central das candidaturas, que ocupam os primeiro e segundo lugares, é buscarem a bipolarização visando o inevitável 2º turno. As duas principais candidaturas tentam se isolar, numa disputada “teti-a-teti”, até para que a outras candidaturas não possam produzir efeitos negativos e positivos sobre uma ou outra. Ricardo e Cássio vão se ofendendo pela imprensa apontando para o 2º turno.

A ideia é convencer o eleitor de que este é o inevitável embate do 2º turno. Mas, essa é uma estratégia de momento. O jogo não é estático. Ele é mutável a partir da capacidade que os jogadores têm de produzir efeitos sobre a disputa. O guia eleitoral no rádio e na TV, que só começará na metade de agosto, servirá para isso. Aliás, existem políticos que apostam suas fichas na capacidade que têm de influir no jogo eleitoral a partir do domínio que possuem dos meios midiáticos. Por enquanto, vejamos como anda a disputa através das pesquisas eleitorais. O Instituto Souza Lopes trouxe uma consulta reveladora bem mais pelas contradições que expôs do que pela possibilidade de mostrar um cenário revelador da situação.

A pesquisa trouxe a evolução dos números num espaço de 30 dias. Na rodada feita entre 21 e 24 de abril, Cássio pontuava 42.9%, Ricardo 27.4%, Veneziano 10.7%, Nadja 1.5%, Major Fábio 0.8% e Leonardo Gadelha 0.7%. Os brancos e nulos somavam 16 pontos. Essa rodada foi prejudicada pelas impurezas que trouxe. É que em abril já sabíamos que Nadja Palitot não seria candidata ao governo. É que o PT nacional já havia decidido que o PT estadual iria mesmo apoiar Veneziano Vital do PMDB. As candidaturas do Major Fábio, do PROS, e de Leonardo Gadelha, do PSC, estam dispostas nas mesas de negociação. O PROS já fechou apoio à candidatura Cássio e o PSC deve alocar Leonardo como vice de uma das grandes candidaturas.

Na rodada feita entre 20 e 23 de maio as coisas mudaram. Cássio subiu para 45.9%, Ricardo caiu um ponto percentual e aparece com 26.6%. Já Veneziano se mantém na faixa dos 10 pontos, com 10.3% de intenção de votos. Os números apontam cenário positivo para Cássio, que aumentou 3 pontos percentuais em apenas um mês, e ainda viu Ricardo cair um ponto e Veneziano estacionar num patamar nada animador para quem pretende chegar ao 2º turno. Esse cenário se torna mais animador para Cássio quando se olha os números da rejeição. Quando se perguntou em qual desses candidatos você não votaria de jeito nenhum, Ricardo apareceu com 27.9%, Veneziano com 19.5% e Cássio com 16.7%.


Os três apontam índices altos de rejeição se considerarmos que um candidato não poderia ultrapassar os 10 pontos de rejeição, já que ela elimina pretensões eleitorais. O problema é que quem rejeita não pretende mudar de opinião. Nas campanhas eleitorais não se trabalha para reverter rejeições, mas sim para isolá-la. Os marqueteiros atuam para congelar a rejeição e para que ela não cresça. Nessa eleição quem tiver a menor rejeição já larga com meio corpo à frente. Em se tratando de rejeição, a situação de Ricardo é drástica, pois ele já ultrapassou os 27 pontos percentuais de rejeição. Ele tem um ponto a mais do que é tido como o pico da rejeição. Apesar de que as rejeições sobre Cássio e Veneziano também subiram.

Considera-se que o candidato que, em algum momento da campanha eleitoral, ultrapassar os 27 pontos percentuais de rejeição está praticamente fora da disputa. Mas, numa eleição nada pode ser simples. Ainda temos variáveis a serem resolvidas. Uma delas é que a aprovação em torno do governo de Ricardo Coutinho só aumenta. O governador está sendo aprovado por 56% dos paraibanos. Quando se soma os que consideram a administração ótima, boa e regular Ricardo atinge 73.7% de aprovação. A contradição que favorece Ricardo é que o eleitor pode votar no governo que aprova, mesmo que rejeite o candidato. É que muitos eleitores deixam de lado seus maus humores, em relação ao politico, se acharem que ele pode ser um bom governante.

Ricardo é rejeitado principalmente pela forma como lida com o mundo da política e com setores da sociedade, mas é bem avaliado pela maneira como administra. I.e., Ricardo pode vir a contrariar a regra da rejeição se conseguir lidar com seus próprios demônios. É bom não esquecer que Ricardo tem a máquina governamental em suas mãos. Ainda temos que ver como Cássio resolverá seus dilemas em torno da inelegibilidade e do fato de ter perdido ancestrais aliados como Rômulo Gouveia. O dilema de Veneziano é sair dessa situação de imobilismo, pois do contrário o PMDB terá que lançar mão de um plano B. Na verdade, o problema dos candidatos neste momento é definirem suas coligações. A nós resta aguardar o momento das convenções partidárias.

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segunda-feira, 2 de junho de 2014

¿POR QUÉ NO TE CALLAS?


Em 2007 aconteceu, no Chile, a 17ª Conferência Ibero-Americana com a presença de vários chefes de Estado. O então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, roubou a cena com discursos sem fim e isso corroeu a paciência dos presentes à conferência. Chávez tanto interferiu o presidente José Luiz Zapatero que o Rei da Espanha, Juan Carlos, perdeu a paciência e lhe disse em tom exasperado: “¿Mas por qué no te callas?”. Essa história rodou o mundo e se tornou um bordão muito utilizado até hoje. Com a derrota nas eleições de 2010, José Serra foi à França proferir palestra sobre as “Relações econômicas América Latina/Europa”. Num dado momento, ele desandou a falar mal de Lula e Dilma. Alguém, então, gritou da plateia: “Mas, porque não te calas?”.

Certa vez, Felipe Massa deu entrevista ao Jornal espanhol Mundo Desportivo e abusou das reclamações sobre seus adversários, em especial Fernando Alonso, que é espanhol. No diz seguinte, o jornal estampava em sua manchete: “Massa, por qué no te callas?”. A frase virou mania na Internet e fez sucesso como toque para celulares na Europa. A banda de rock Jota Quest a utilizou na música La Plata. Eu lembrei dela por causa de Ronaldo Luís Nazário, aquele que um dia foi chamado de “o fenômeno do futebol”. Ronaldo, que é membro do Comitê Organizador Local da Copa da FIFA, é uma espécie de embaixador do Brasil nas questões da Copa. Na verdade, Ronaldo funciona mesmo é como um dos representantes da FIFA no tal Comitê Organizador Local.


Não se sabe bem as responsabilidades de Ronaldo na organização da Copa. O que se vê é ele priorizando os negócios de sua empresa, a “9ine Sports and Entertainment”, que cuida da carreira de pessoas como Anderson Silva, Rafael Nadal e Gustavo Lima. Ronaldo aparece sempre com Joseph Blatter e Jérôme Valcke, presidente e secretário-geral da FIFA, respectivamente. É que ele não está nesse grande negócio, que é a Copa do Mundo, como brasileiro e sim porque tem contratos e investimentos com a FIFA. Ronaldo, como Pelé, Romário, Paulo Coelho e o governo federal têm seus interesses nesse negócio. Inclusive, para Ronaldo, a Copa da FIFA já está ganha, pois só o que ele fatura com os patrocinadores independe da Seleção brasileira ser campeão do mundo.

Mas, Ronaldo andou se preocupando com sua imagem perante os brasileiros por causa dos desmandos e da desorganização dessa Copa dos Horrores. De alguma forma ele entendeu que ainda precisa desse país do qual disse sentir vergonha. Ronaldo resolveu se manifestar. É como se ele quisesse mostrar que nada tem haver com o triste espetáculo que ajudou a montar e que terá início daqui a dez dias. Assim como Romário e Paulo Coelho, Ronaldo cuspiu no prato da Copa do qual se refastelou. A cada nova declaração, de quem já foi o “fenômeno do futebol”, minha vontade é dizer: “mas, porque não te calas?”. Ronaldo não para de falar sobre a Copa do Mundo e as eleições, sobre o governo e a oposição, sobre o racismo e as manifestações.

Quando faltavam 100 dias para o início da Copa, Ronaldo pediu, se referindo ao acidente que vitimou dois operários nas obras da Arena Itaquerão, que não se usasse a tragédia para se duvidar da abertura da Copa. Ronaldo falava em nome da FIFA. Mas, ele não deixou de fazer média com a torcida do Corinthians e disse que: “Os operários deram a vida para a construção do sonho corintiano”. Ainda deve vir à tona a escabrosa negociação, para erguer o tal sonho corinthiano, da qual Ronaldo fez parte. Naquele momento, ao ser questionado sobre o fato de que o governo deixava de investir em educação e saúde para construir as faraônicas Arenas, Ronaldo saiu-se com a seguinte pérola: “não se faz Copa com hospitais, e sim com Arenas”.

Como ninguém disse “mas, porque não te calas?”, Ronaldo seguiu criando suas polêmicas estultas. Recentemente, se referiu a um sentimento de vergonha em relação à Copa do Mundo e lamentou o fato do Brasil não ter um legado no Mundial. Mas, não deveria, pois foi ele mesmo que disse que hospitais não são importantes. A questão é que o discurso de Ronaldo é político. É que ele já está fazendo campanha eleitoral para seu candidato a presidente Aécio Neves, do qual se diz amigo. Ronaldo tem dito que sua vergonha é pela população que esperava investimentos e que tudo que foi prometido não foi entregue. Ronaldo tem direito a fazer campanha para quem quiser, mas porque inverter o discurso sobre a Copa nesse momento?
 
Porque antes era preciso blindar a Copa e agora é preciso ataca-la? Como bem disse o jornalista Juca Kfouri, Ronaldo não dá ponto sem nó. O ex-jogador Rivelino disse que “Ronaldo demorou muito para ficar com vergonha da Copa e do Brasil”. Há uns dias atrás, Ronaldo disse que: “Sobre os vândalos, tem que baixar o cacete neles, tirar da rua". Para um problema político, social e de segurança pública Ronaldo oferece a saída da força. Notem que ele não defendeu o uso da lei, mas sim o uso da força. Agora é tarde, não tem mais jeito. Como não temos uma Ruan Carlos para perguntar a Ronaldo porque ele não se cala, vamos ter que aturá-lo até o final da Copa. Pior, vamos ter que vê-lo falar em nosso nome sempre que ele achar que pode e deve.

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