quinta-feira, 11 de setembro de 2014

QUANDO AS FARDAS SILENCIAM.

O escritor e dramaturgo italiano Luigi Pirandello, prêmio Nobel de Literatura de 1936, ficou mundialmente conhecido por causa de sua obra para o teatro “Assim é (Se lhe parece ser)” de 1917.  O próprio Pirandello dizia que sua obra era uma “farsa filosófica”. A peça é uma comédia que trata do que é verdade, do que é falso e do contraste entre realidade e aparência. Nela, Pirandello questiona se existe uma realidade única e objetiva e se ela pode ser interpretada racionalmente. A história gira em torno dessa mania incorrigível que nós, seres humanos, temos de querer saber o que se passa na vida alheia, i.e., trata de fofoca e bisbilhotice. A trama central gira em torno da chegada de uma família a uma província do interior da Itália.

Os moradores têm especial curiosidade pelos hábitos da família e pelo fato de seus membros morarem em casas diferentes. O genro e sogra, dessa família, têm versões opostas para isso, o que deixa os cidadãos ainda mais curiosos para saber a verdade. Pirandello afirma que não existe uma só verdade, mas diferentes pontos de vista. Não existiria uma só pessoa, mas diversas máscaras que vestimos no dia-a-dia. Não haveria uma verdade absoluta. Por isso que as coisas são aquilo que nos parecem ser. Mas, afinal, porque eu estou falando da verdade dessa maneira tão filosófica? É que a Comissão Nacional da Verdade continua as voltas com toda sorte de dificuldades para trazer à tona as verdades que insistem em se manter muito bem guardadas.

Esta Comissão foi criada pela Lei 12.528/2011 com a finalidade de apurar graves violações aos Direitos Humanos ocorridas entre 1946 e 1988. O objetivo central da Comissão é investigar os crimes de tortura cometidos durante a ditadura militar. A questão, enfrentada pela Comissão, é tratar da violência praticada pelo Estado militarizado considerando que a Lei da Anistia de 1979 é vigente. O problema é que anistiamos um sem número de pessoas sem saber o que de fato elas fizeram. Sabemos que não existe uma verdade absoluta, como diria Pirandello. Temos a verdade do torturador e a verdade do torturado. Mas, por favor, não sejamos tão subjetivos, pois o fato é que o Estado militarizado torturava e matava seus adversários.

Prender, torturar, matar e fazer corpos desaparecer foi uma política de Estado, não uma coisa ocasional feita por um militar menos civilizado. Nós temos uma verdade. Mas, ela só será útil se for publicada, se for para escondê-la, melhor que se torne uma mentira. A Comissão Nacional vinha, aos trancos e barrancos, conseguindo o depoimento de militares que participaram ativamente da repressão praticada pelo regime inaugurado em 1964. Todos devem lembrar o depoimento do Cel. Paulo Malhães. Foi aquele caso em que o militar foi até a Comissão e confirmou suspeitas, citou nomes, datas, locais e fatos. Depois ele foi assassinado em sua casa por um suposto ladrão. Houve uma investigação, nada conclusiva, e a história segue em aberto.

Como se não bastasse o fato de não existir instrumento legal que obrigue, através de intimação judicial, quem quer que seja a depor e de a Comissão não ter poderes para processar militares torturadores, agora eles decidiram que não mais falarão. Militares acusados de cometer crimes, na ditadura, fizeram um pacto para se manter calados nos depoimentos. Eles comparecerão às audiências públicas da Comissão da Verdade, mas evocarão o direito constitucional de permanecerem em silêncio. O primeiro a praticar este silêncio, mais do que comprometedor, foi o Gal. José Antônio Nogueira Belham, que chefiava o DOI-Codi do Rio de Janeiro quando o ex-deputado Rubens Paiva foi morto sob tortura.

Provou-se que Belham estava nas dependências do DOI-CODI, comandando operações, quando Rubem Paiva foi preso e torturado até a morte. Rodrigo Roca, advogado de militares, disse que a fase de colaborar acabou e que a “orientação é o silêncio total”. Convocado a depor numa audiência da Comissão, o tenente do Exército José Conegundes do Nascimento, não só se recusou a comparecer, como ainda afirmou que não vai não colaborar com o inimigo. Disse ele: “Não vou comparecer. Se virem”. O coordenador da Comissão, Pedro Dallari disse que esse comportamento é "uma afronta à Comissão que foi constituída por lei e que deve colher depoimentos”. Mas, o tenente bem sabe que a Lei da Anistia lhe acoberta e protege.

Dallari disse ainda que o exemplo para o silêncio vem de cima, pois as Forças Armadas seguem se negando a reconhecer as práticas de tortura e morte. Esse comportamento institucional só estimula os oficiais a não cooperar. Pior, consente o silencio deles. O general do Exército José Brandt Teixeira se recusou a comparecer a audiência alegando que o alto Comando das Forças Armadas orientou seus oficiais a só acatar convocações vindas da própria autoridade fardada. Assim, está estabelecido o confronto, pois a Comissão tem poder para convocar militares sem a autorização das Forças Armadas que segue, oficialmente, afirmando que não houve tortura no Brasil. Pois é, assim é, se assim lhe parece ser.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

IDEOLOGIA, VOCÊ TEM UMA PARA VOTAR? PARTE II.

Ontem, eu mostrei que a maioria dos eleitores, tidos como de direita, dizem preferir votar em Marina Silva e que a maioria, dos que são de esquerda, se mostram interessados em votar em Dilma Rousseff. Eu mostrei, também, que isso não torna Marina uma empedernida direitista e nem faz de Dilma uma fiel seguidora dos ideais de esquerda. É quem num país como o nosso ser de esquerda ou de direita é, em muitas situações, tão somente uma postura de ocasião. Já dizia Lula que ideologia é uma coisa da juventude inconsequente e que na medida em que a pessoa vai ficando mais velha, e mais sábia, vai aprendendo a deixar de lado essas coisas que não levam a nada. O caro ouvinte duvida que Lula tenha dito isso?

Eu confesso que duvidei que ele tivesse sido capaz de dizer tamanha estultice. Mas, ele disse. E não foi numa reunião fechada com meia-dúzia de companheiros. Essa pérola do pensamento “lulista” foi dita num comício, em São Paulo, nas eleições de 2005. Mas, o próprio Lula se desmentiu. Já reeleito presidente, Lula saiu-se com outra grande frase de seu repertório de improvisos. Ele disse que quando se é jovem, é normal ser de esquerda. Mas, quando se vai ficando mais velho, aí é normal ir se tornando de direita. Norberto Bobbio, um respeitado pensador italiano da política contemporânea, já dizia que direita e esquerda se tornaram categorias universais da política e que fazem parte das noções que informam o funcionamento de nossas sociedades.

No mundo bicolor dos tempos da Guerra Fria tudo era mais fácil. O cidadão seria de direita se fosse a favor dos EUA, do capitalismo e da liberdade. E ele seria de esquerda se fosse a favor da União Soviética, do socialismo e da igualdade. Com o fim da Guerra Fria, e dessa bipolarização maniqueísta, as coisas ficaram bem mais complexas. Igualdade e liberdade puderam ser aceitas como coisas que possuem valor universal, para acima e além de alguns interesses políticos. Norberto Bobbio se considerava emotivamente de esquerda e se identificava com a defesa dos direitos do cidadão. Ele dizia que uma esquerda digna desse nome tem, por obrigação, que resistir a tentativa liberal de desmantelar os aparatos do Estado social.


Eu sei que o caro ouvinte deve estar se perguntando se essa discussão reflete bem nossa realidade e cultura políticas. Não, não reflete bem. Mas, não deixa de ser interessante perceber que em vários setores da sociedade essas questões estejam sendo tratadas. Vejam que quando Marina Silva disse, e depois desdisse, ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a liberalização da maconha, suscitou um interessante debate pelas redes sociais, na imprensa e no próprio mundo da política institucional.  Hoje as coisas são bem mais complexas. Não basta mais se fazer um vago discurso, a favor da liberdade ou da igualdade, para definir uma ideologia. Hoje, é preciso se posicionar sobre um sem número de questões das mais polêmicas.

Em geral, é de esquerda quem é a favor da liberalização da maconha e contra o porte de armas. E é de direita quem justamente é contra a liberalização e a favor do porte de armas. Eu disse, em geral, mas existem as subdivisões. Na economia, a esquerda defende que o governo deve ser o maior investidor, para promover desenvolvimento, e que quanto mais ele beneficiar a população mais bem estar se gera. A esquerda ainda acredita que o intervencionismo estatal pode ser bom. Para a direita é a livre iniciativa que leva ao desenvolvimento, através de seus investimentos particulares. A direita acredita que é melhor pagar menos impostos e contratar, junto a empresas particulares, os serviços de educação e saúde, por exemplo.

A direita acredita que os adolescentes que cometem crimes devem ser punidos como se fossem adultos. Já a esquerda defende que os adolescentes infratores devem passar por um processo de reeducação dirigido pelo próprio Estado. Em relação ao sindicalismo, a esquerda segue defendendo sua importância como um instrumento de defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores. Já para a direita, o sindicalismo é tão somente uma forma de projetar pessoas para a política partidária. A esquerda brasileira é bastante apegada as suas tradições, pois vejam que ela continua defendendo que as principais causas da pobreza e da criminalidade são as desigualdades sociais e a falta de oportunidades para todos os brasileiros.

A direita, claro, faz tábula rasa disso e defende que a pobreza e a riqueza são coisas naturais, inerentes aos homens e suas sociedades. Já a criminalidade recebe, de uma direita cada vez mais conservadora, um tratamento moral, ético e até religioso. De acordo com a pesquisa do Datafolha, da qual falava ontem, o eleitorado de direita e de centro-direita aumentou significativamente nos últimos quatro anos. Já o eleitorado de esquerda vem encolhendo timidamente, mas sem deixar de cair. O que será que está acontecendo? Será que Lula tinha razão? Será que na medida em que vamos envelhecendo vamos nos “endireitando”? Ou será que nossos valores são bem mais resistentes as mudanças do nosso tempo? Em todo caso não custa lembrar que, sim, somos dotados de ideias, que temos ideologias.

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

IDEOLOGIA, VOCÊ TEM UMA PARA VOTAR? PARTE I.

No final de semana o Datafolha trouxe mais uma pesquisa com intensões de voto para presidente da República. A pesquisa trouxe dados qualitativos que podem ajudar para que entendamos mais e melhor como está funcionando a cabeça do eleitor brasileiro. O Datafolha trouxe um empate técnico entre Dilma e Marina, mas isso nós já sabíamos. A presidente aparece com 35% e a ex-senadora com 34%.  Aécio Neves vem em 3º com seus minguados 14%. A “nanicada”, animada como sempre, soma 04%. Mas, o Datafolha percebeu que houve uma espécie de acomodação nas intenções de voto para Marina Silva. Aquele crescimento vertiginoso parece não mais acontecer. É que os efeitos da catarse pós-morte de Eduardo Campos começam a esmorecer.

Sem contar que com o crescimento nas pesquisas, Marina virou alvo de seus adversários e algumas contradições e equívocos começam a aparecer, a exemplo da dubiedade da ex-senadora em relação à criminalização da homofobia e da questão da camada pré-sal. Vejamos, por exemplo, a simulação da eleição no 2º turno. Na última semana de agosto, Marina tinha 50% das intenções de voto contra 40% de Dilma. Agora, a diferença caiu para 07 pontos percentuais. Marina tem 48% contra 41% de Dilma.  Ou seja, não temos uma eleição definida, mesmo que os “marineiros” mais empedernidos queiram assim acreditar. Mas, aqui, interessa ver que o Datafolha teve a preocupação de saber o perfil ideológico dos eleitores de Dilma e de Marina.

A principal descoberta foi que Dilma é mais bem votada entre os eleitores de esquerda e centro-esquerda e que Marina ganha entre os eleitores de direita e centro-direita. Aqui, temos dados qualitativos para que não esqueçamos que as ideologias ainda existem. Apesar de que é sempre bom lembrar que, quando o assunto é ideologia política, o eleitor brasileiro não sabe muito bem o que é e nem o que quer. Nunca fomos dados a cultivar as ideologias do jeito que nos chegaram, tampouco fomos capazes de criar uma. O federalismo iluminista e liberal da independência dos EUA foi sendo transformado, quando aqui chegou, nesse republicanismo escravocrata nada republicano. Os ideais socialistas foram expropriados por vários setores de nossa sociedade.

 
Eu já tinha tratado, aqui no POLITICANDO, das colorações ideológicas nas eleições desse ano. Em nosso cardápio eleitoral temos Levi Fidelix, José Maria Eymael e o Pastor Everaldo representando as ideias de uma direita conservadora e autoritária. Representando concepções de uma esquerda com viés mais liberal, mesclado com o ambientalismo, temos o Eduardo Jorge. E temos, também, a esquerda revolucionária, dita bolivariana, representada por Zé Maria, Luciana Genro, Mauro Iasi e Rui Costa.  Certo, até aqui tudo bem. Mas, e Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves? Onde poderemos aloca-los? Para facilitar, colocarei Aécio Neves numa centro-direita, com tendências liberalizantes, em que pese os pendores fisiológicos do PSDB.

O fato é que o Datafolha detectou que quanto mais a direita estiver o eleitor, melhor é o desempenho de Aécio Neves. Detectou, também, que uma crescente direita e centro-direita é que está colocando Marina nessa situação tão vantajosa. Ao mesmo tempo, se viu que quanto mais a esquerda estiver o eleitor, mais cresce o potencial de votos de Dilma. No grupo de eleitores tidos como de esquerda, Marina fica nove pontos percentuais atrás de Dilma. Na simulação para o 2º turno, no universo de eleitores de esquerda, Dilma aparece com 50% das intenções de voto e Marina com 43%.  Quando se inverte a situação e passa a ser lidar com os eleitores de direita, Marina tem boa margem sobre Dilma.


Entre os eleitores de centro-direita, Marina aparece com 49% contra 37% de Dilma. Já entre os eleitores de direita a diferença vai a 14 pontos percentuais pró Marina Silva. Com esses números, podemos dizer que Dilma é de esquerda e Marina é de direita? Não, claro que não. Aqui, a ideia é buscar elementos para entender a preferencia dos eleitores considerando a variável ideologia política. E como bem sabemos, a maioria dos políticos brasileiros são pragmática e propositadamente desideologizados. Para poder cruzar os dados entre preferencia eleitoral e questões ideológicas, o Datafolha aplicou dois questionários. Num perguntou as questões de sempre como em quem se vai votar, quem se rejeita e como se avalia o governo.

Noutro se fez as perguntas que levam o eleitor a se posicionar e a se colocar num determinado campo de ideias políticas. São questões sobre religião, drogas, criminalidade, pena de morte, homossexualidade, pobreza, aborto, etc. A lógica é um tanto quando formal, mas funciona. A maioria dos que são, por exemplo, a favor da descriminalização das drogas e contra a pena de morte disserem que votam em Dilma. Assim se conclui que ela tem mais votos no eleitorado de esquerda. A maioria dos eleitores de direita vota em Marina, porque são contra a descriminalização das drogas e a favor da pena de morte. Amanhã, vou continuar essa análise sempre perguntando se você, caro ouvinte, tem uma ideologia para votar?

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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

QUANTO DE RACISMO AINDA CABE DENTRO DE VOCÊ?

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva excluiu o Grêmio da Copa do Brasil por causas das ofensas racistas que sua torcida desferiu contra o goleiro Aranha do Santos. E já não era sem tempo, pois não é de hoje que se fazem campanhas contra o racismo. Em vários jogos da Copa do Mundo, inclusive naquele em que o Brasil foi achincalhado mundialmente pelo 7 X 1 contra a Alemanha, havia o protocolo FIFA em que jogadores liam uma mensagem contra o racismo. Mas o protocolo FIFA, as campanhas educativas, as punições e até a própria lei não têm sido tão eficientes, do contrário não seguiríamos vendo essas cenas lamentáveis de torcedores desrespeitando jogadores com atitudes racistas.

Por causa desse último episódio, lembrei-me de dois vídeos, feitos em Portugal, para uma campanha publicitária contra o racismo. Os vídeos foram feitos a cerca de dois anos e vão direto ao ponto, sem rodeios.  Em um deles temos uma situação racista em um avião. Uma senhora branca, muito bem vestida, senta-se lado de um rapaz negro. Ela está visivelmente incomodada por ter que se sentar ali. Daí ela chama a aeromoça e pede para mudar de lugar. A aeromoça argumenta que não vai ser possível, já que não há mais lugares vazios na classe econômica. A senhora, bastante irritada, se recusa viajar ao lado do rapaz e exige que alguma providencia seja tomada. A aeromoça vai conversar com o comandante.

Na volta, ela olha para a senhora e para o rapaz e diz em tom solene: “O comandante manda dizer que temos um lugar vazio na 1ª classe e que pedimos desculpas, pois é inconcebível um passageiro viajar ao lado de uma pessoa tão desprezível”. A senhora branca abre um sorriso e faz menção de se levantar. A aeromoça diz para ela continuar sentada e pede ao rapaz que lhe acompanhe até a 1ª classe, onde será acomodado de forma a ficar longe daquela senhora desprezivelmente racista. No outro vídeo, um rapaz negro esbarra, na rua, em um rapaz branco e logo pede desculpas. O rapaz branco diz: “Ei, preto, aqui no meu país tem que andar como gente, aqui não é a África. Porque você não volta para sua terra?”.
 
E ele diz mais: “Quando você for embora, aproveite e leve os indianos, os brasileiros e os chineses com você”. Ocupado em xingar o suposto africano, o rapaz racista não percebe que está no meio da rua e um carro o atropela violentamente. A cena seguinte mostra o português bastante machucado, em um leito de hospital, sendo atendido por uma equipe de um médico e duas enfermeiras. Detalhe, o médico é negro. O vídeo termina com a seguinte pergunta: “Até onde vai seu preconceito?”. O titulo dessa campanha publicitaria é: “Coloque o racismo em seu devido lugar”. Será que a moça, que foi flagrado pelas câmeras de televisão chamando o goleiro Aranha de macaco, tem alguma ideia de onde deve colocar o preconceito dela?

Não foi a primeira vez que gremistas se comportaram como trogloditas. Em 2011, o meia Zé Roberto denunciou que torcedores imitavam macacos a cada vez que ele tocava na bola. Ele disse que essa situação chega a ser normal no Rio Grande do Sul. Em 2013, num jogo entre Caxias do Sul e Novo Hamburgo o atacante Vanderlei foi chamado de macaco. Em seu depoimento, ele disse que viu torcedores do Caxias imitando macacos, e apontando para ele, enquanto fazia o aquecimento. Já neste ano, num jogo entre Esportivo e Veranópolis, pelo Campeonato Gaúcho na cidade de Bento Gonçalves, o árbitro Márcio Chagas da Silva foi chamado de macaco, safado e imundo. O seu carro foi depredado e coberto por bananas.

A moça que xingou o goleiro Aranha disse, em seu depoimento à polícia, que não teve uma atitude racista e que apenas foi no embalo da torcida que costuma entoar uma canção que repete, não por acaso, várias vezes a palavra macaco. Os jornais mostraram que a moça é de uma família de classe média, que estuda e trabalha, que tem vizinhos negros e que se dá bem com todos eles. Mas, se é assim, porque, afinal, essa moça estava com aquele olhar de fúria xingando o goleiro Aranha? Eu não duvido que essa moça tenha boa índole. Na verdade, ela nem acha que fez algo errado, pois para ela, para boa parte da torcida do Grêmio e muitos e muitos outros brasileiros é mesmo normal chamar alguém de macaco por causa da cor de sua pele.

O grito de guerra dos gremistas tem a palavra macaco porque, de fato, para eles é comum, normal, xingar pessoas pertencentes à raça negra. Como é comum para aquele torcedor do Villarreal atirar bananas em jogadores brasileiros negros. Este é o problema. Muitos brasileiros pensam que ainda vivemos no tempo da escravidão. Nossa cultura politica é, ainda, aferrada a esse passado de escravidão e vergonha. Na verdade, não completamos o ciclo que poria fim a escravidão. Nós não fizemos nossa “Revolução Francesa”. Tampouco passamos um processo educativo que mostrasse as pessoas qual a diferença entre um macaco e um ser humano. Eu não sou otimista. Penso que esses episódios vão continuar a acontecer até que um dia entendamos, de uma vez por todas, que somos todos frutos do mesmo processo de miscigenação.

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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

QUEM VENCEU O DEBATE? PARTE II



Ontem, eu comecei a analisar o debate entre os seis candidatos ao governo do Estado, que tivemos aqui mesmo na Campina FM. Hoje, eu vou continuar analisando o debate sempre atento ao que dizem os candidatos, ou melhor, ao que eles deixam de dizer. É que nós já bem sabemos o que eles vão dizer. Nunca ouviremos, por exemplo, de qualquer candidato que seja, que não se pretende priorizar a questão da segurança pública ou que não se fará obras para promover a mobilidade urbana. Somos nós, os eleitores, que temos que atentar para as omissões. Vejam que quando os candidatos começam com as propostas mirabolantes, como a adoção do passe livre no transporte público para população carente, não dizem de onde virá o dinheiro para isso.


Cássio Cunha Lima começou o debate perguntando a Antônio Radical o que ele faria para resolver o problema da segurança pública. Embutida na pergunta veio à acusação de que a violência nossa de cada dia é culpa do governo do Estado. Cássio começou dando a tônica do debate. Radical pareceu comprar a ideia e atacou o governo, falando da desmilitarização da Polícia. Aliás, porque será que os outros candidatos não tocam nessa questão? Nem o Major Fábio fala do assunto. Por que será? Mas, Radical não veio ao debate para fazer o jogo de quem quer que seja. Ele afirmou que a responsabilidade pela atual onda de violência é do governo de Ricardo Coutinho e dos que o antecederam, a exemplo de Cássio e do PMDB de Vital Filho.


Radical disse que, se eleito, permitirá que a população decida quem vai comandar a Polícia Militar. Mas, não disse como. Seria através de uma eleição? Para deixar claro a que veio, ele estocou Cássio com perguntas sobre a cassação e a nomeação de parentes. Cássio disse que, se eleito, vai não só tornar público dados de sua gestão, para promover a transparência, como vai trabalhar com a questão dos dados abertos dos atos da administração. Ele só não disse como é que os dados vão ficar ou ser abertos. Ricardo disse que a Prefeitura Municipal de Campina Grande esta promovendo uma mesquinharia ao não liberar informações sobre o impacto ambiental nas obras no Açude de Bodocongó. Em seguida, ele perguntou se Vital concorda com essa afirmação.


Vital foi logo criticando administração do Prefeito Romero Rodrigues para pegar o gancho e falar das realizações do seu irmão Veneziano, que foi prefeito, e que hoje é candidato a deputado. Mas, Vital tem seu próprio jogo. Mesmo que faça criticas pontuais a Cássio e ataques diretos a Ricardo, seu objetivo é outro, pois ele bem sabe que não passará de turno. A candidatura não é bem de Vital, ela serve para atender aos propósitos do PMDB e de seus lideres, como José Maranhão. Mas, nem por isso, Vital se furtou a lembrar de que há pouco tempo atrás o prefeito de Campina e o Governador do Estado estavam juntos como aliados. Ricardo deixou Vital de lado e mirou seus ataques em Cássio e no PSDB.


Ele disse que o jeito de governar do PSDB é o de não fazer nada e não deixar que alguém faça. Daí, Ricardo lembrou que o governo não iniciou uma obra na Rua João Suassuna, aqui em Campina, porque a prefeitura disse que ia fazer a obra. Algum tempo depois, Cássio convidou Ricardo para irem a tal rua ver que a prefeitura tinha começado a tal obra. Esse filme nós já assistimos. Um disse que fez o outro disse que não e eles ficam nesse bate-boca sem fim, improdutivo, cansativo, sem nexo. Tarsio Teixeira entrou e saiu do debate com a mesma estratégia, muito bem realizada, diga-se de passagem. Ele afirmou todo tempo, de formas diferentes, que “estes três senhores já governaram este Estado e estiveram em algum momento juntos”.



Major Fabio tentou ter uma participação impactante. Num momento ele disse que estava acontecendo um jogo de empurra-empurra entre os candidatos, que eles discutiam para ver quem nasceu primeiro, se o ovo ou se a galinha. Major Fábio disse que quando o assunto é segurança hídrica ou pública, educação ou saúde, todos tem a mesma culpa. Mas, ele estava mais interessado em atacar o governo. Ao ponto que num certo momento ele chegou a dizer algo bastante deselegante. Se referindo a Ricardo, Major Fábio disse: “Esse sujeito que está ao meu lado deveria estar preso”. Major Fábio também teve seu momento “eu digo que vou fazer, mas não digo como vou fazer”. Ele sempre se refere ao seu programa “fronteiras fechadas”.


É a ideia de fechar as fronteiras da Paraíba para o crime. A questão é: como ele pretende fazer isso? De onde virão os recursos para isso? E a questão legal, de um projeto como esse, como será feita? Houve um momento pitoresco no debate. Foi quando Ricardo e Major Fabio ficaram discutindo que tipo de comida era servido para oficiais e soldados na Polícia Militar. Ricardo disse que os oficiais comiam peito de peru e os soldados comiam pé de galinha. Major Fabio disse que nunca comeu peito de peru na Polícia. Certo, esse tipo de coisa faz parte do show. Apesar de que, eles até podiam nos poupar desse besteirol. Mas, os debates são assim: tem o momento do filé mignon e tem o momento da carne com osso.


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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

QUEM VENCEU O DEBATE? PARTE I.

Sempre que temos um debate, no rádio ou na TV, algumas pessoas me perguntam sobre quem teria vencido o debate. Nos EUA, os institutos de pesquisa fazem aferições, no minuto seguinte ao fim do debate, entre candidatos a presidente. Na verdade, os americanos entendem que “venceu o debate” aquele candidato que se saiu melhor na hora de responder as perguntas mais complexas, mais cavilosas. Nos EUA, vence o debate o candidato mais calmo, mais seguro, mais ponderado. Para os norte-americanos tem desempenho, digno de elogio, aquele candidato que não gagueja, que não vacila, quando tem que responder sobre questões polêmicas como pena de morte, aborto, racismo, uso das células tronco, etc.

Aqui no Brasil, nem existe muito essa ideia de um candidato vencendo o debate. Na verdade, o eleitor gosta de assistir ao debate, entre candidatos a governador ou a presidente, para torcer e vibrar como se estivesse assistindo a um jogo de futebol. Ao contrário do que muitos podem pensar, os debates no Brasil quase não servem para que o eleitor indeciso tire suas conclusões e, finalmente, decida em quem votar. A maior parte das audiências é composta pelos que já estam bem decididos. A assistência de um debate é formada pelos eleitores, apoiadores e militantes dos candidatos envolvidos. Basta ver que as pessoas ficam assistindo ao debate e postando mensagens nas redes sociais, onde vibram com as boas respostas de seus candidatos.

Elas aproveitam, claro, para falar das gafes, absurdos e de qualquer erro que possa cometer aquele adversário por quem se nutre a mãe de todas as iras. No Brasil, o debate serve bem mais para motivar a militância do que para dirimir dúvidas. Ontem, tivemos, aqui na CAMPINA FM, o debate entre os candidatos ao governo do Estado da Paraíba. Os seis candidatos estiveram presentes e garantiram um debate acirrado, como tinha que ser, apesar de que eles não surpreenderam em nada. O debate foi realizado em três blocos. Nos dois primeiros, os candidatos fizeram perguntas entre si. Já no último bloco tivemos dois direitos de resposta, concedidos a Tárcio Teixeira e Ricardo Coutinho, e aquelas famosas considerações finais.


Aliás, os candidatos estam com uma mania muito chata de usarem aqueles minutinhos finais como se fosse uma colagem de trechos do guia eleitoral. É um tal de falar o nome e o número do candidato, do seu vice e do seu senador. Ao invés de utilizarem aquele tempinho final para explicarem mais e melhor pontos que não puderam ser aprofundados ou para fazerem os últimos ataques aos adversários, eles ficam, ali, repetindo nomes e números. É uma chatice só. O debate foi bom, mas, ao final, ficou aquele gostinho de quero mais. É que quando os candidatos começaram a ficar mais impacientes e, portanto, mais dispostos a partirem para ao enfrentamento de palavras e ideias, acabou o tempo.

Os candidatos não me surpreenderam. Na verdade, só havia duas estratégias bem definidas no debate. Uma era a de Cássio Cunha Lima e Ricardo Coutinho que se enfrentam, abusando das acusações mútuas, por estarem à frente das pesquisas. A outra foi adotada por Vital Fº, Major Fabio, Tarcio Teixeira e Antônio Radical. Cada um, a seu modo, usou bastante tempo para atacar e criticar as duas candidaturas mais forte. A ideia era mostra-las mais como semelhantes do que como diferentes. Os candidatos sem maiores pretensões eleitorais se esmeraram em mostrar que Cássio e Ricardo se atacam por conveniência política, já que eram aliados até pouco tempo atrás. Aliás, este tem sido o calcanhar de Aquiles de Cássio e Ricardo, pois precisam ficar dando explicações sobre essa questão todo o tempo nas entrevistas e debates.

Vital Filho até tentou se colocar no grupo dos que não foram convidados para a “festa da democracia”, mas Major Fábio, Tárcio e Radical preferiram que o senador do PMDB ficasse no grupo dos que “sempre estiveram no poder e nunca fizeram nada para mudar a realidade política, social e econômica do Estado da Paraíba”. Como o debate se deu no esquema de candidato fazendo pergunta a candidato até deu para fugir da bipolarização entre Cássio e Ricardo, pois os outros quatro fizeram perguntas entre si. Parecia até que tinham combinado. Ricardo e Cássio optaram pela estratégia de baterem um no outro pela via indireta. Um exemplo? Ricardo perguntava a um dos quatro e pedia para que comentassem aspectos do governo de Cássio e vice versa.

A ideia de Ricardo e Cássio era amolar a faca e entrega-la para que um dos quatro candidatos usassem a seu bel prazer. Mas, eles foram inteligentes e não se deixaram levar por essa tática, pois atacavam os dois indistintamente. Neste aspecto, Tárcio Teixeira se saiu melhor, pois criticava tanto Cássio como Ricardo, mostrando como eles podem ser parecidos, mas sem aquele ar revoltado de Radical ou o histrionismo do Major Fábio. Hoje, eu comecei a analisar o debate, entre os seis candidatos ao governo do Estado, que tivemos aqui mesmo na Campina FM. Amanhã, eu vou continuar analisando sempre atento ao que dizem os candidatos, ou melhor, ao que eles deixam de dizer.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A PESQUISA QUE PAUTA O DEBATE

Saiu, finalmente, uma pesquisa com intensões de voto ao governo do Estado da Paraíba. O IBOPE divulgou uma pesquisa encomendada pela TV PARAÍBA. E já não era sem tempo, pois estávamos mesmo precisando de uma pesquisa minimamente confiável. É que eu estou considerando que as últimas pesquisas foram duramente questionadas por, digamos, alguns erros de percurso. Essa é a primeira grande pesquisa que temos após o início do Guia Eleitoral no Rádio e na TV. Antes de analisar os números dessa pesquisa IBOPE, eu quero lembrar ao caro ouvinte que nós teremos, hoje a partir das 17 horas, aqui mesmo neste estúdio da CAMPINA FM que vos falo, o debate com os seis candidatos ao governo do Estado da Paraíba.

É sempre importante que os candidatos participem de um debate, com uma grande audiência, motivados pelos números de uma pesquisa eleitoral que podem trazer aquele tempero a mais que vai impedir que o debate seja sem graça, sem gosto, sem sal. Quando os seis candidatos estiverem chegando ao estúdio da Campina FM estarão, para o bem e para o mal, sugestionados pelos números da última pesquisa. A ideia é mesmo tirar os candidatos da zona de conforto. É, no bom sentido, deixa-los pilhados, atentos. Dizem que o técnico Telê Santana afixava, na entrada do vestuário dos times que treinava, reportagens onde se criticava, ou mesmo falava mal, de seus jogadores. Dizem que ele colocava essas matérias embaixo do prato ou do travesseiro de seus craques.

Segundo o mestre Telê, isso criava um efeito contrário no jogador. Ao se ver criticado, esculhambado, o sujeito entrava em campo com a faca nos dentes, corria, participava do jogo, fazia gols, i.e., buscava provar que quem o criticou estava errado. Esse era o jeito ortodoxo de Telê motivar seus jogadores. Os marqueteiros dizem que nada pode motivar mais um candidato, num debate no radio ou na TV, do que aquela pesquisa que mostra que a luta politico-eleitoral não está fácil para ninguém. A pesquisa do IBOPE tem essa conotação. Se bem lida ela pode ensinar alguma coisa e motivar os candidatos, para que busquem fazer um bom debate. O fato é que cada um dos candidatos tem lá suas dificuldades a enfrentar, independente do lugar que ocupem.


Eu não vou estabelecer uma ordem para mostrar quem tem o maior problema, pois cada candidato tem uma cruz para carregar e são eles que definem quanto de força precisam dispor para carregar essa cruz. Mas, já não é sem tempo dos políticos entenderem, de uma vez por todas, que os números não estam acima do bem e do mal. O ex-presidente Itamar Franco já dizia que: “Os números não mentem, mas os mentirosos fabricam números". A pesquisa IBOPE trouxe Cássio Cunha Lima em 1º lugar com 47% das intenções de voto, Ricardo Coutinho em 2º com 33%, Vital Filho em 3º com 4% e o Major Fábio em 5º lugar com 1% da preferência do eleitorado.


Tárcio Teixeira e Antônio Radical não chegaram a ter um ponto percentual na pesquisa. Os que disseram que pretendem anular, ou votar em branco, somam 8% e os que ainda não sabem em quem votar, i.e., os indeciso, somam 6%. A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Margem de erro permite que, num reduzido espaço, a pesquisa possa cometer alguns equívocos. É por isso que se deve desconfiar de margens de erros acima de 3 pontos. É que quanto maior a margem, maiores e mais graves serão os erros da pesquisa. Vejam que se aplicarmos a margem de erro sobre os percentuais de Cássio e Ricardo teremos uma situação curiosa.


Cássio tem 47%, mas com a margem pode cair para 44% ou ir até 50%, a apenas um ponto de onde a eleição termina no 1º turno. Ricardo tem 33%, mas com a margem pode ir a 36% ou cair para 30%. Chegando a 36%, Ricardo fica a 8 pontos percentuais de Cássio, caso ele fique com os 44% da parte de baixo de sua margem de erro.  Outra coisa é que os indecisos somam 6%. Sabendo que eles tendem a terminar votando no 1º ou no 2º lugar, vemos que a eleição não está definida, pois os indecisos podem terminar, literalmente, decidindo a eleição. O fato é que deveremos ter um 2º turno, pois Ricardo, Vital e Major Fábio somam 38% contra os 47% de Cássio. O senador precisaria ganhar pelo menos 4 ponto, e seus adversários não ganhar mais, para que a eleição se resolva já no dia 07 de outubro.


O calo da rejeição persegue a todos, mas nada que se compare aos 33% de Ricardo. Cássio aparece com 23%, Vital com 22% e Major Fábio com 21%. De fato, o humor do paraibano para com seus candidatos não anda nada bom. Deve ser por isso que a eleição estadual anda tão morna, quase fria. Cássio está há 4 pontos daquele número mágico da rejeição que é de 27%. Já Ricardo a muito ultrapassou este número. Se Ricardo for reeleito, vai se tornar um case da história eleitoral brasileira como aquele que mesmo tão rejeitado conseguiu se eleger. Assim se apresenta o quadro desse momento. Vamos aguardar novas pesquisas e vamos aguardar o debate de logo mais. Tomara que possamos ter um debate movimentado e acirrado como se espera que seja.

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

DEPOIS, NÃO DIGA QUE NÃO AVISEI.

Brasília é uma cidade de muitas histórias. Numa delas se conta que aliados do PT, com pendores mais democráticos, teriam tentado convencer Lula a não lançar a ofensiva que terminou impedindo que Marina Silva tornasse o “Rede Sustentabilidade” um partido. Lula teria dito que essa seria a forma de impedir que Marina fosse candidata e que terminasse sendo eleita. Reza a lenda que Lula repetia, para quem quisesse ouvir, que se Marina tivesse um partido para chamar de seu Dilma não se reelegeria. Conta-se, também, que Lula afirmava que essa história de deixar para resolver tudo nas urnas era um risco que o PT não poderia correr. Aliás, a desavença de Lula com Eduardo Campos foi exatamente pelo fato do PSB ter dado abrigo a Marina.

Parecia que Lula queria dizer para pararem com a ideia de dar espaços para Marina, pois ela poderia terminar passando todo mundo. Do alto de sua experiência, Lula parecia prever: “depois, não digam que eu não avisei”. O plano era perfeito, mas faltou combinar com o “Sobrenatural de Almeida”, personagem de Nelson Rodrigues dono das improbabilidades da vida. Tudo caminhava na santa paz, entre PT e PSDB, que reeditariam mais um “FLA X FLU” eleitoral. Lula e FHC já estavam com as garras afiadas para se engalfinharem em prol de seus pupilos candidatos a presidente da República. Eduardo Campos, e sua vice oculta por ações nada republicanas, comporiam o espetáculo como meros coadjuvantes.

Mas, o inesperado, o acidental ou as contingências da vida mudaram tudo. Os adeptos das teorias conspiratórias andam dizendo que “forças ocultas”, das quais nos falava o ex-presidente Jânio Quadros, entraram em ação para mexer no tabuleiro eleitoral. Marina Silva passou de expectadora de luxo para atriz principal de um espetáculo que, tal qual a Paixão de Cristo, muitos insistem em já saber como será o final. De minha parte, acredito que o jogo só acaba quando termina. Em eleições, cantar vitória antes de se apurar as urnas é arriscado e muitos dizem que dá um azar terrível. Que o diga FHC que, em 1985, sentou-se na cadeira do prefeito de São Paulo, um dia antes da eleição, se achando eleito e terminou perdendo o pleito.


Mas, o IBOPE e o Datafolha da semana passada encheram de esperança os “marineiros” e os que não querem mais governos do PT ou do PSDB. Aliás, e ao que tudo indica, nunca na história eleitoral desse país, o discurso da 3ª via foi tão forte. Na terça-feira, o IBOPE trouxe Dilma em 1º lugar com 34%, Marina em 2º com 29% e Aécio em 3º com 19%. Na sexta-feira, o Datafolha já trouxe Dilma e Marina empatadas tecnicamente em 1º lugar com 34 pontos percentuais cada uma. Aécio veio em um desesperador 3º lugar com apenas 15%. Este Datafolha de sexta aponta Marina eleita num 2º turno contra Dilma. A ex-senadora teria 50% dos votos válidos e a presidente teria 40% neste cada vez mais possível 2º turno.

Se os dois Institutos não estiverem enganados, ou maquiando os dados deliberadamente, Dilma e Aécio vão terminar tendo que fazer o mesmo discurso, pois Marina tornou-se o alvo a se acertar com todas as armas que se tiver ao alcance da mão. Dilma vem assistindo Marina alcança-la sem ter como reagir, até porque sua popularidade e a aprovação do seu governo não andam lá muito bem das pernas. A essa altura do campeonato, Lula, sempre ele, deve estar dizendo: “eu não disse, eu avisei!”. Aécio vê a situação como se tivesse caído do trem e não pudesse mais alcança-lo. No IBOPE, do começo da semana passada, Marina tinha 29% contra 19% de Aécio. Mas, no Datafolha do final da semana Aécio tinha perdido quatro pontos percentuais.

Não por acaso, Marina ganhou algo em torno de 4 pontos percentuais em apenas uma semana. Ao que tudo indica a ex-senadora tem sido mais eficiente em dissecar o capital eleitoral do senador mineiro, mesmo que possa atacar em outras paragens. Enquanto Marina era tão somente a vice, numa chapa composta para enfeitar o cenário, o eleitor brasileiro demonstrava que queria mudanças mesmo que não confiasse no PSDB, de Aécio Neves, para ser o motor dessa mudança. O eleitor sinalizava a vontade de mudar, mas dentro de uma situação em que seria a própria Dilma a implementar tais mudanças. Claro, aqui teria que se considerar a contradição do PT não querer e não poder fazer qualquer mudança que seja.

Mas, Mister Sobrenatural de Almeida resolveu intervir. Marina se tornou candidata a presidente catalisando para si este sentimento de mudança, dando clara alternativa para quem não aguenta mais o falso dilema que PT e PSDB encenam há tanto tempo. O tucanato e os “lulo-dilmistas” estam tentando encontrar aquele local que, ao baterem, farão Marina sentir fortes dores, se é que este local existe de verdade. A tirar pelo debate da TV Bandeirantes este local ou não existe ou está muito bem escondido. Marina é tão politicamente correta que irrita seus adversários. Um amigo disse que “Marina é tão boa, que chega a ser ruim”. Inclusive, ela tirou o PT e o PSDB da confortável zona do confronto bipolar. Agora é salve-se quem puder, pois de frágil Marina Silva só parece ter mesmo é a aparência.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

AFINAL, PARA QUE SERVE UM SENADOR – PARTE 2.

Na sexta-feira, iniciei as análises da série de entrevistas que os candidatos ao Senado Federal concederam a equipe de Jornalismo da Campina FM. Eu comecei tratando da entrevista, no mínimo confusa, que a candidata do PSTU, Rama Dantas, nos deu. Eu ainda estou incrédulo com a declaração da candidata de que pretende se eleger senadora para defender o fechamento do Senado Federal. A ideia de que o Senado deve ser desmontado por não representar os trabalhadores é estapafúrdia. Na sequência tivemos a entrevista com o candidato ao senado pelo PTC, Walter Brito. Esta é uma daquelas entrevistas em que o analista tem facilidades em comentar, pois o discurso do candidato é claro, objetivo, direto, mesmo que sem ideias claras.

Walter Brito começou a entrevista prestando uma homenagem a Eduardo Campos, morto naquele acidente de avião. O candidato afirmou que tinha uma amizade profunda com o ex-governador e com a sua viúva Renata. Eu não duvido que essa amizade existisse. Mas, por isso mesmo, talvez o candidato pudesse não misturar uma questão pessoal com o processo eleitoral. É que é difícil resistir à tentação de contar com um cabo eleitoral de tamanha envergadura celestial. Walter Brito disse que é candidato ao senado por entender que o Brasil precisa de mudanças é que ele é capacitado e competente para promover essas mudanças. Simples assim, sem nenhuma falsa modéstia.

Walter Brito disse que é candidato pelo PTC, que é um partido cristão e ele é evangélico, além de ter um “conhecimento com o presidente Manoel Tourinho há muito tempo, que me facilitou para que tivesse oportunidade de ser candidato por um partido pequeno”. O candidato disse que não optou pelo PTC já que “por uma legenda de uma contingência maior seria muito difícil”. Disso não há o que se reclamar, o candidato deixou muito claro a relação que ele tem com o partido que lhe hospedou. Quando se questionou em que exatamente o candidato seria um instrumento de mudanças, ele disse não se conformar com o Brasil que vivemos hoje e passou citar aqueles dados sobre a questão da violência que tanto vemos nos jornais nacionais.

O candidato relatou um caso em que foi vitima de nossa falta diária de segurança. Ele conta que foi assaltado, que lhe levaram objetos e quase lhe tiraram a vida. Terá sido daí, então, que o candidato passou a se preocupar com a violência em nossas cidades? O candidato é um adepto do discurso do caos. Para ele nada está bom. A educação e a saúde, os transportes e a economia, com seus juros altos, estariam todos de cabeça para baixo. Daí ele passou a repetir o discurso que faz no guia eleitoral. Mecanicamente, ele repetiu seu lema de campanha, seu número e que candidato ao governo está apoiando. Pareceu-me que o candidato esqueceu por alguns momentos que estava dando uma entrevista com tempo considerável para expor suas ideias.

Quando inquirido a justificar porque já mudou tantas vezes de partido, mais uma vez Walter Brito foi objetivo e de uma sinceridade acachapante. Disse ele que: “partido no Brasil não é tão importante, mais importante são as ideias dos candidatos”. Ora candidato, se suas ideias são mais importantes do que o seu partido, devo concluir que o senhor aceitaria a extinção dos partidos políticos? Rama Dantas quer acabar com o Senado e Walter Brito não dá muito valor aos partidos. Assim vamos mal, muito mal. O 3º candidato da série a ser entrevistado foi José Maranhão do PMDB. O ex-governador começou demonstrando que bem entende a função e a importância, histórica, inclusive, da chamada Câmara Alta.

Mas, Maranhão foi logo recorrendo ao que seria o carro chefe de sua campanha. Ele disse que o Senado sempre foi a “casa onde as pessoas mais experientes, mais vividas na vida pública tem assento”. Ele lembrou que no Senado da Roma antiga era assim. Os homens mais experientes, mais sábios é que ocupavam este espaço. Claro, Maranhão está, aqui, legislando em causa própria, pois ele é o candidato mais experiente de todos. Do alto dos seus quase 50 anos de vida pública, já tendo sido governador da Paraíba por 3 vezes, Maranhão se sente do direito de chamar um de seus adversários, o petista Lucélio Cartaxo, de infantil e leviano por causa de declarações suas.

Mesmo querendo muito ser senador da República, Maranhão tem demonstrado uma impaciência singular para com as coisas de uma campanha eleitoral. Ele quase não tolera as criticas feitas pelos adversários o que, claro, não é nada bom. O fato é que Maranhão perde muito tempo explicando porque ainda permanece na seara política, tendo mais de 80 anos de idade, e com o currículo que tem. Maranhão não parece nem um pouco disposto a dar espaço e vez a quem quer que seja. Amanhã, continuarei analisando as entrevistas com os candidatos ao senado, sempre lembrando que a maioria deles parecem não dar a real importância e/ou a merecida dimensão que o Senado Federal possui em nosso sistema político.

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