segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O EFEITO SHEHERAZADE E A DEFESA DA POLÍTICA


A jornalista paraibana Raquel Sheherazade, apresentadora âncora do Jornal do SBT, conseguiu, mais uma vez, gerar polêmica com um de seus editoriais. Dessa vez ela se posicionou sobre o porto construído em Cuba com financiamento do BNDES brasileiro. Ela disse que não tem limites a generosidade do nosso governo para com os estrangeiros. Sheherazade estava furiosa por ter descoberto que governo federal liberou mais de R$ 800 milhões para o porto cubano. Ela reclamou, também, dos mais de R$ 500 milhões de dólares que saíram do Brasil, a título de crédito para Cuba, e do fato do governo de Dilma ter perdoado a dívida que 12 países africanos tinham já há muito tempo com o Brasil.
  
A jornalista disse que não tem nada contra o espírito de solidariedade entre os povos, mas que é um absurdo perdoar a dívida de países governados por ditadores. Subjacente ao discurso de Raquel vejo uma atitude moralista, apolítica, conservadora e reacionária. Eu não concordo que o governo do PT trate países, controlados por ditaduras, como se fosse irmãos mais novos precisando de cuidados.  Mas, entendo que as relações entre nações se dão por interesses que estam bem longe de serem humanitários. Foi numa dessas declarações que tudo se revelou. Sheherazade disse que era de esquerda, que gostava de política e que tinha votado em Lula. Mas, se decepcionou tanto com o governo petista que terminou mudando radicalmente.
  
Vejam a fragilidade ideológica dessa moça e do que ela representa. Justificar um discurso apolítico baseado nos desmandos de um governo, não importa qual, é não compreender que a política é algo bem mais complexo do que uma questão de governo. Por trás de uma pretensa atitude politizada, se percebe um trabalho contumaz de negação da dimensão política, que é fundamental para o funcionamento de uma sociedade e de suas instituições. Mas, Sheherazade não está só. Na verdade, ela é a porta-voz, o produto mais bem acabado, de um movimento que alcança vários setores da sociedade e que tem como principal objetivo rejeitar e/ou negar a política em todas as suas dimensões. 

 
Fazem parte desse movimento o deputado federal Jair Bolsonaro, que não perde a oportunidade de defender uma volta ao passado ditatorial que já tivemos, e que afirma sempre que o mal maior de nossa sociedade é a política. Outro expoente desse movimento é a Deputado Estadual Myrian Rios. Ela aprovou um projeto de lei para a implantação do “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais” na rede de ensino público do Rio de Janeiro. O detalhe é que a deputada afirmou que esse projeto não tinha relação alguma com a política, pois o objetivo maior era formar cidadãos que não pudessem ser corrompidos. A deputada só não diz como é que ela mesma faz para ficar longe da política.

 Mas, não encontraremos os despolitizados de toda sorte apenas na política institucional. Entre os profissionais liberais, entre os jornalistas e, pasmem, no meio acadêmico é fácil encontrar pessoas que acham que política só atrapalha ou que não serve para nada. Para muitos, se são os políticos que praticam os atos ilícitos, então a política não presta, é algo nefasto. Não tem sido incomum, pessoas me questionarem como eu posso ficar falando de política, quando existem tantas outras coisas mais importantes para tratar. É bem verdade que, toda essa bandalheira só contribui para a proliferação de tais atitudes não só no meio popular, como nos setores intelectualizados. Mas, um erro não justifica o outro. O fato é que o desprezo pela política virou moda.
  
Tive que me acostumar com os pronunciamentos enfurecidos contra a política. Convivo com um bando de “Sheherazades” que se dedicam a campanha de negar a dimensão política, por não entenderem que ela rege o funcionamento de nossa sociedade. Hoje em dia, prova que tem uma atitude moderna, descolada, os que se consideram apolíticos. Certa vez, ouvi um colega dizer que “eu sou um pesquisador, não me envolvo com a política universitária, pois ela só serve para reproduzir os vícios do parlamento”. 

Os adeptos de Raquel Sheherazade são os “puros de alma”, defensores da pureza da ciência e dos valores morais. São os que defendem tudo o que é politicamente correto. São os que acham que acima de tudo está a questão social, como se ela pudesse ser descolada da dimensão política. Eles esquecem que a dimensão política existe independentemente de suas vontades, humores e interesses. Eles não percebem que seus discursos (aparentemente conscientes) só contribuem para a manutenção desse estado de coisas. Agindo assim, oferecem seu quinhão para que muitos pensem que o mal da humanidade está na política. Eles não educam, apenas desconscientizam, e participam de um poderoso processo de alienação. Sheherazade, e seus seguidores, deveriam parar com seus discursos revoltados e irem estudar os clássicos da política.


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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

2 comentários:

Unknown disse...

Concordo em parte com sua opinião, política vai além de discursos impregnados de revolta, mas torna-se humanamente impossível não perder as estribeiras e acabar por expressar de maneira exacerbada sua opinião quando o assunto é a democracia brasileira. Portanto, não acho que Sheherazade esteja certa, mas é cobrar demais do senso comum tenuidade quando o assunto é "bandalheira" em vez de política.

Renato Carvalho disse...

Bonitas palavras.
Belas críticas a Sherazade e parabéns, você sabe ser político e defender seus ideais.
Mas e sobre tudo isso gasto? Achei que você iria explicar sobre e não apenas criticar.
Se possível, escreva mais sobre tudo isso gasto.

Obrigado

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).