terça-feira, 2 de dezembro de 2014

NO TEMPO DAS ESTRANHAS CATEDRAIS

O caro ouvinte que viveu, ou tem algum conhecimento do período da ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964, deve ter informações suficientes para saber dos males que ela nos causou. E é por isso mesmo que deverá se surpreender com o que vou dizer. Hoje, é comum vermos pessoas afirmando que a corrupção é um mal das democracias e que só um retorno à ditadura militar moralizaria o Brasil. Eu mesmo já me surpreendi ao ver alguns alunos e professores, da UEPB, concordando com isso. A visão, deturpada, de que foi o PT, a partir dos governos de Lula e Dilma, que inaugurou a corrupção no Brasil é de uma fragilidade a toda prova. Supor que chegamos ao nível da lama, a partir de 2002, só pode ser coisa da cabeça senil de Lobão.

Um ouvinte me questionou porque não “vejo a bagunça que está o Brasil com esse governo?”. Eu diviso bem os maus feitos e efeitos do PT e vejo acima e além desse discurso falso moralista e hipócrita que vem, por exemplo, das ruas de São Paulo. Ouvi o relato de um colega que disse que, numa turma com 20 alunos, apenas um discordou da ideia de que só uma intervenção militar acabaria com a corrupção no Brasil. Por isso, mais uma vez, vou recorrer a nossa história política recente. A corrupção (ou bagunça como queira) petista, tucana e de tantas outras colorações partidárias é filha direta da que se praticava no tempo dos generais. Eu não quero decepcionar ninguém, mas não foi o PT que inventou o mensalão.
José Dirceu e sua quadrilha aperfeiçoou o que se pratica no Brasil desde tempos imemoriais. A Operação Lava Jato é supra e intrapartidária. A Petrobrás é alvo predileto da rapinagem desde que foi criada e em especial no período militar. A tese de que no regime militar não havia escândalos, devido a uma suposta moralidade implantada pelo Exército, é, no mínimo, equivocada. Na década de 1970 se produziram muitos escândalos que não eram divulgados porque a imprensa sofria censura.

O historiador Pedro Henrique Campos acaba de lançar o livro “Estranhas catedrais – as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar”, pela Editora da Universidade Federal Fluminense. Se você pretende não mais se enganar, leia esse livro. Pedro Campos afirma que, durante a ditadura, não se tinha acesso à informação. Os escândalos não vinham à tona, o que não quer dizer que não existissem. Para ele, em relação ao aparelho de Estado, a apropriação era ainda maior do que hoje em dia. Segundo o historiador, a influência de empreiteiras junto ao governo federal teve origem na ditadura militar. Foi com o golpe de 64 que elas passaram a ter poder e a participar dos escândalos de corrupção.

Ele descreve como o setor privado de infraestrutura participou ativamente do processo de tomada de decisão, junto aos cinco generais/presidentes que tivemos, e como este setor se manteve bem próximo ao Estado brasileiro mesmo com a redemocratização. Quer mesmo saber quando foi que essa gente, que vive de fazer empreitadas com o Estado, conquistou seu lugar ao sol? Foi com as obras da construção de Brasília, ainda na segunda metade da década de 1950, no governo de Juscelino Kubitschek. Todas aquelas obras maravilhosas, projetas por Oscar Niemeyer, foram super, hiper, mega faturadas. Ali surgiram grandes fortunas com o detalhe que quase nada foi investigado para não atrapalhar o sonho dourado de termos uma nova capital.

Já na ditadura não havia eleição para presidente, portanto não havia o Caixa 2 das campanhas eleitorais. Tudo era feito diretamente com o governo. Os militares criaram o cenário ideal para a proliferação de todo tipo de negociação escusa. Logo que tomaram o poder, fizeram, com a valorosa contribuição de Delfim Netto e Otávio Bulhões, uma ampla reforma econômica que superdimensionou os recursos para investimentos em infraestrutura e cortou gastos com saúde e educação. É a mesma coisa que os governos, de Sarney a Dilma, fizeram e fazem. A ideia foi sempre carrear recursos para este mundo que só funciona na base do toma-la-da-cá. Os militares conduziam grandes quantias para as tais obras públicas.
As empreiteiras se apropriavam desses recursos, sob a justificativa de promover o desenvolvimento nacional. Foi assim que a Transamazônica, as usinas de Itaipu e Angra 1, a Ponte Rio-Niterói, por exemplo, foram erguidas. São as “estranhas catedrais” de que nos fala Chico Buarque em “Vai Passar”. Havia uma regra no regime militar. Os participantes dos esquemas de corrupção tinham que contribuir para com a “caixinha da repressão”. Quem se locupletava do erário tinha que dar sua cota para que o Estado torturasse e matasse cidadãos brasileiros. Se você quer viver em uma ditadura pode defender isso. Afinal, vivemos em uma democracia, com suas fragilidades, mas uma democracia, onde se pode ter e defender opiniões. Mas, esqueça essa história de um sistema imune à corrupção, ela é falsa.

Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com

AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

Nenhum comentário:

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).