quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O JUS SPERNIANDI DOS DERROTADOS

Em 1945, a 2ª Guerra Mundial terminava tendo o 1º ministro inglês, Winston Churchill, como um dos responsáveis pela vitória dos países aliados. Mas, isso não impediu que Churchill perdesse as eleições para o parlamento inglês naquele mesmo ano. Se diz na Inglaterra que “Churchill venceu a guerra e foi derrotado pela política”. Deve ter sido por isso que ele disse que: A política é quase tão excitante e perigosa quanto à guerra. Na guerra, só se morre uma vez, mas na política se morre várias vezes”. A derrota abateu Churchill ao ponto dele ter dito que: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

Ter perdido a eleição, depois de ter sido herói em duas guerras, enfureceu Churchill, mas ele era um lorde inglês e soube lidar com a situação com toda a fleuma e com toda aquela ironia corrosiva que os ingleses conservam tão bem. Aqui no Brasil é bem diferente. Os nossos políticos costumam se comportar muito mal quando perdem uma eleição. É comum vermos, os que ocupam cargos no parlamento há muitos mandatos, perderam a compostura e saírem atirando para todos os lados. Em geral, quando ganham a eleição, os políticos gostam de dizer que “foi à vontade do povo consagrada nas urnas” ou que foram eleitos porque “a voz do povo é a voz de Deus”. Os políticos gostam desse negócio de querer representar Deus na terra.

Os derrotados dizem coisas como: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”. Os políticos não costumam ter um comportamento republicano nem na vitória e muito menos na derrota. Quando perdem, nas urnas, eles vão, literalmente, a loucura. Vejam que usamos a expressão “jus sperniandi” para retratar a situação do candidato que, derrotado, não vê outra coisa a fazer a não ser espernear, reclamar, xingar. Eu até acho que o direito ao esperneio deve ser democraticamente garantido aos derrotados. Toinho do Sopão, deputado estadual, pelo PEN, não se conformou em ter ficado, apenas, em 67º lugar com 6.851 votos. No auge de sua revolta, o deputado Sopão criticou o atual quadro político dizendo que só candidato podre chega ao poder.
Ele ainda disse que: “política hoje é igual a feijão na panela, só sobe os podres”. Toinho do Sopão tinha sido o deputado mais bem votado na eleição de 2010 com 57 mil votos. Muitos disseram, eu inclusive, que ele estava sendo eleito para ser o Tiririca da Paraíba. Ao se descontrolar, o deputado Sopão esqueceu que, se nesta eleição, ele foi um feijão bom que não subiu para a panela da Assembleia Legislativa, na eleição passada ele foi o feijão mais podre da panela, pois foi o que subiu mais rápido. Outro que perdeu a compostura, diante da derrota, foi o deputado estadual Vituriano de Abreu, do PSC.  Ele ficou em 50º lugar com 14.187 votos. Vituriano disse que 50% a 70% dos eleitores são corruptos.

Como será que o deputado Vituriano descobriu que tantos paraibanos são corruptos? Mas, Vituriano precisava mesmo desabafar e foi adiante. Ele chamou os eleitores de traidores por trocarem de candidato mediante vantagens oferecidas. Vituriano sofreu forte concorrência em seus domínios eleitorais. A conclusão do deputado é desesperadora: “Vi que não vale a pena ser honesto. Vale a pena ser ladrão, ser corrupto e mentir”. Certo, coloquemos essa frase na conta da ira do deputado. Mas, eu torço para que ele não passe a roubar, mentir e corromper como forma de voltar a Assembleia Legislativa. Se é que essa é a única maneira de fazer os feijões, digo os deputados, subirem na panela parlamentar, como diria Toinho do Sopão.
 
Outro deputado (candidato a reeleição) que foi barrado nas urnas foi Guilherme Almeida. Ele ficou em 47º lugar e obteve 17.341 votos. Guilherme não perdeu a compostura verbal, mas foi incisivo ao explicar o motivo de sua derrota. Ele disse que perdeu a eleição porque não tinha dinheiro para comprar lideranças. Simples assim. Guilherme não citou nomes, infelizmente, mas disse que essa é uma prática comum entre prefeitos, vereadores e cabos eleitorais. Ele relatou que certo vereador lhe pediu uma quantia para lhe apoiar, como o deputado negou, alegando não dispor de poder aquisitivo, o tal vereador foi em busca de um candidato mais aquinhoado. Então, é assim que funciona a campanha eleitoral?

O caro ouvinte deve perguntar: temos que lamentar a derrota desses senhores? Não, não temos, até porque essas são as regras do jogo eleitoral. Mas, não deixa de ser interessante perceber que a derrota lhes dê tamanha sinceridade. De que outra maneira poderíamos saber que para se ganhar uma eleição é preciso subornar lideranças políticas? Enquanto os políticos estam sendo eleitos dizem que é pela vontade soberana do povo ou mesmo pela vontade de Deus. Mas, quando não são eleitos, resolvem dizer a verdade ou quase toda a verdade. Que seja assim, então. Que tal barramos, a cada nova eleição, um desses políticos para que só então possamos saber como, de verdade, funciona esse tal jogo eleitoral?

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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A ÚLTIMA VOLTA DO PONTEIRO

Quando eu era criança ouvia transmissões de jogos de futebol num enorme radio Philips AM. Lembro que os radialistas, que narravam jogos, costumavam usar a expressão “vamos para a última volta do ponteiro”, para mostrar que o jogo já ia acabar. Como na época o juiz não era obrigado a avisar por quanto tempo prorrogaria o jogo, essa tal última volta do ponteiro poderia durar vários minutos. Ficava a critério do juiz e, claro, da pressão que os jogadores e a torcida pudessem exercer sobre ele. Nelson Rodrigues costuma usar essa expressão, em suas crônicas, mas com um sentido figurado. A “última volta do ponteiro” significa o fim de alguma coisa. Podia ser o fim de um jogo, de uma festa, de uma situação judicial ou mesmo o fim de um casamento.

Hoje é terça-feira, 21/10, faltam seis dias para as eleições do 2º turno quando, finalmente, saberemos quem vai governar a Paraíba e o Brasil entre 2015 e 2018. Esta semana veremos o ponteiro dar a última volta no mostrador eleitoral. Como num jogo de futebol, onde tudo pode acontecer no último minuto, chegamos ao final de um processo eleitoral recheado de surpresas e indecisões. É que as pesquisas não conseguem nos dar pistas seguras e insistem em mostrar apenas empates técnicos. Não que isso seja ruim, pois nada pior do que uma eleição onde o eleito se anuncia ainda no começo da eleição. Para a dinâmica do processo e para a vitalidade de nosso sistema politico essa incerteza é necessária, mesmo que não seja suficiente.

Mas, com todas essas indecisões, que retratam bem o acirramento do processo eleitoral, o que devemos fazer nesta última volta do ponteiro? Sentar e esperar até o próximo domingo pode ser uma boa opção, mas nada impede que façamos algumas ilações. Os levantamentos IBOPE e DATAFOLHA se parecem tanto que cheguei a pensar que foram feitos pelos mesmos pesquisadores e tratados pelos mesmos estatísticos. Ambos aceitam a tese do empate técnico com margem de erro de dois pontos percentuais. Em ambos vemos Aécio com 51% e Dilma com 49%. Para os Institutos essas porcentagens se referem aos votos válidos, ou seja, é quando eles excluem os votos nulos e brancos. Mas, pesquisas aferem opiniões, elas não contam votos.

Assim, preciso atentar para os eleitores que disseram que vão votar nulo ou em branco. Preciso, claro, dos eleitores que se dizem indecisos, até porque, numa situação de empate técnico, são eles quem vão decidir quem nos governará. Quando os votos nulos e brancos são incluídos vemos Aécio com 45% e Dilma com 43%. 06% dos eleitores dizem que vão votar nulo ou branco e outros 06% se dizem indecisos. Dilma e Aécio vão dedicar cada segundo da última volta do ponteiro para esses eleitores. Mas, foi o Datafolha que lançou alguma luz neste mar escuro de incertezas. Em sua última aferição, o instituto detectou que Dilma tem mais chances de conquistar, estes 06% de indecisos, do que Aécio. Como o Datafolha viu isso?

Primeiro, se viu que Aécio e Dilma empatam entre os eleitores que se dizem convictos de em quem votarão no próximo domingo. 41% dizem que estam convencidos de votar em Aécio e 40% de votar em Dilma. Mas, entre os indecisos, é Dilma quem tem maior potencial de conversão. 13% dos indecisos declararam estarem mais propensos a votar em Dilma, enquanto 6% disseram que podem vir a votar em Aécio. A questão é como convencer essa fatia do eleitorado nessa última volta do ponteiro, sabendo que não teremos mais qualquer tipo de prorrogação. Existe uma opinião corrente de que são os debates que levam o indeciso a escolher um caminho.
 
Mas, na verdade, os debates servem bem mais para motivar a militância partidária e para dar confiança aos que já decidiram. Não me parece que a essa altura do campeonato ainda se tenha dúvidas sobre quem é quem nessa eleição. Depois de 20 anos sendo governados pelo PSDB e pelo PT já dá para saber, pelo menos em linhas gerais, onde eles se diferenciam e onde eles se equiparam. Já deu para perceber que Dilma e Aécio possuem perfis absolutamente diferentes. Sabemos das tendências privatizantes do PSDB e sabemos que o PT não abre mão do intervencionismo Estatal. Sabemos que Dilma tem uma visão de mudo mais a esquerda e que Aécio tem uma forma de ver o mundo mais a direita.

No 1º turno, Dilma foi mais bem votada entre as classes C e D, enquanto Aécio teve mais votos nas classes A e B. Dilma tem Lula como cabo eleitoral de peso. 37% são eleitores de Dilma graças ao apoio que Lula lhe empresta. Aécio tem FHC, Marina e a família Campos como cabos eleitorais. 20% dos eleitores de Aécio votaram em Marina no 1º turno. 16% dizem que votam em Aécio por causa de FHC. O Datafolha não deu um percentual em relação aos herdeiros de Eduardo Campos. Com tudo isso, temos que considerar mesmo é o capital eleitoral de cada candidato e os apoios e alianças que eles recolheram nos Estados das cinco regiões. Agora, vamos ver quem tem mais pernas para correr na última volta do ponteiro.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

REDES SOCIAIS MEDIEVAIS


Na quinta-feira eu tinha decidido não assistir o debate, promovido pelo UOL/SBT/Jovem PAN, entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. É que com tantos debates, com regras tão parecidas, as situações, temas e até as acusações se repetem a exaustão. Preferi me poupar para essa maratona de debates que estamos tendo. Contado com os eventos da Record e da Rede Globo temos quatro debates envolvendo candidatos a presidente e a governador. Resolvi, então, preservar meus já danificados neurônios. O debate entre Dilma e Aécio não me chamou a atenção. Mas, o comportamento de muitos eleitores, que ficaram pelas redes sociais fazendo todo tipo de comentários, me chamou atenção e aumentou minha descrença quanto ao futuro da raça humana.

Como diria aquele mensaleiro, que hoje cumpre pena em um presídio do Rio de Janeiro, os comentários que vi despertaram em mim os piores sentimentos e pensamentos. Eu nunca vi tanta asneira, estupidez e bobagens juntas. Um hábito disseminado nas sociedades é o de se ficar em frente à televisão, mas com o computador ao alcance da mão. É um fenômeno do nosso tempo. Eu costumo manter a TV ligada, mesmo que sem áudio, enquanto escrevo as colunas POLITICANDO. Chama atenção os comentários que as pessoas fazem sobre o que estão vendo na televisão. Tem gente que vê o jornal, a novela ou o programa de culinária e ao mesmo tempo tece comentários, numa rede social, sobre o que está assistindo.

Tem gente que gosta de assistir ao futebol ou a corrida de F1 (eu, por exemplo) e fazer seus comentários. Algum problema nisso? Não, claro que não. As redes sociais têm a capacidade de, para o bem e para o mal, nos fazer expor nossas opiniões. Mas, nos debates eleitorais temos visto situações controversas, polêmicas, absurdas e até irreparáveis. Enquanto Dilma e Aécio se batiam pelos nossos votos, pretensos analistas políticos expunham o que suas mentes medievais possuem de pior. Um amigo me mandou uma mensagem, perguntando o que eu estava achando do debate, após ver um comentário que fiz no Twitter. Eu disse que não estava assistindo ao debate, mas que estava atento ao comportamento de alguns “twitteiros” aloprados.
 
Como já vem ocorrendo, pelo menos desde as eleições de 2010, internautas xenófobos disputavam para ver quem conseguia ter mais repugnância dos eleitores nordestinos, que optaram votar em Lula e em Dilma, em eleições passadas e nesta que atravessamos. É risível, e é ridículo, que paulistas estúpidos hostilizem nordestinos eleitores de Dilma, quando Celso Russomano, Tiririca e Marco Feliciano foram os deputados mais bem votados em São Paulo no 1º turno. E vejam que eu não estou citando Paulo Maluf. Eu fico estarrecido ver eleitores, tanto de Aécio como de Dilma, xingando uns aos outros apenas por causa da opção eleitoral de cada um. Afinal, eleição é um procedimento democrático que requer a pluralidade de ideias para que possa acontecer.

Eu vi um néscio, aliás, um imbecil, que postou uma foto de um soldado, assassinado por um grupo de guerrilheiros durante a ditadura militar. Ao lado dessa foto, o pobre diabo postou a imagem em que Dilma aparece, bem jovem, depondo em audiência militar. O estúpido colocou a seguinte a legenda: “Essa foi à primeira obra pública de Dilma. Você acredita nessa assassina?”. Além de desconhecer nossa história recente, o parvo internauta fez uma grave acusação a presidente da República. No debate da quinta feira, Dilma tevê uma oscilação em sua pressão arterial. Vários internautas disseram que ela estava fingindo passar mal, por não conseguir responder as perguntas de Aécio. Alguns chegaram a vibrar com o mal estar da Presidente.
















Vi uma jornalista, que já foi candidata a cargos e que preside um partido político, dizendo: “Dilma inventou que a pressão caiu. Ela tá doidinha, passando mal, acode gente”.  Vejam o que a ausência de discernimento pode fazer com uma pessoa. Teve um, que se nomeia Recruta Zero, que disse: “O cacete que Aécio deu em Dilma foi tão grande que ela ficou sem fala e arriou das pernas”. E o ex-roqueiro Lobão, que hoje escreve para a Revista Veja, que disse que “Aécio foi homem prá dedéu”. Porque não expressar uma opinião séria do debate? Porque destacar a macheza do seu candidato? Estaria Lobão admirando as atitudes do Pastor Silas Malafaia? E o que dizer de Rachel Sheherazade, sempre ela, fazendo piadas sobre expressões usadas por Dilma?

São esses os formadores de opinião de nossa sociedade? E teve os “dilmistas” chamando Aécio de mauricinho, bêbado e drogado e fazendo alusões a uma suposta homossexualidade do senador. É assim que essa gente quer eleger seus candidatos? Neste mar de opiniões enlameadas, medievais, vi alguém com sanidade dizendo que é inútil decidir o voto por um debate, pois vence quem se expressa melhor. Essa pessoa pedia: “Lembrem-se de Collor, excelente nos debates, mas péssimo governante”. Eu dedico essa coluna a você, que vibra quando seu candidato se comporta como um troglodita no debate. Por isso mesmo, peço que reflita sobre isto, pois um desses dois lutadores, digo candidatos, será o nosso próximo presidente da República.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

AFINAL, MARINA, QUAL É O SEU PLANO?






Certa vez, Mike Tyson concedia uma entrevista coletiva após uma daquelas lutas em que nocauteou impiedosamente seu adversário. Um jornalista pediu para Tyson explicar o que tinha acontecido, já que seu oponente parecia ter um bom plano de luta. Com a sinceridade e a frieza que lhe fizeram famoso, Tyson foi curto e grosso: “todo mundo tem um bom plano, até levar o primeiro soco”. Pois, é isso mesmo. Todo mundo tem um bom plano, uma boa estratégia e boas intensões até que se prove o contrário. É assim na vida, na política, nas relações profissionais e pessoais. Vejam como é no futebol. Ao  entrar em campo para a tragédia do Mineirão, o Brasil tinha um ótimo plano contra a Alemanha,. O plano era bom até que começou a saraivada de gols.

Vejamos o caso de Marina Silva. Enquanto ela e Eduardo Campos formavam uma chapa tudo indicava que a ex-senadora seguiria desempenhando o papel da terceira via prometida para o futuro, em que pese suas conhecidas indecisões e fragilidades. Mas, veio o imponderável, a fatalidade, e Marina foi guindada a condição de candidata a presidente da República pelo PSB, já que a Rede Sustentabilidade não tinha, ainda não tem, o status de partido político. Marina aceitou se lançar candidata numa estrutura da qual sempre foi critica. Ao aceitar ser candidata passou a apoiar, de forma vacilante, como é do seu estilo, as alianças fisiológicas que Eduardo Campos havia montado para o PSB.

Quando Marina se tornou a candidata a presidente o seu plano era perfeito até começar a levar as primeiras bordoadas do PSDB e do PT. Se pudesse, Mike Tyson teria dito a Marina: “minha cara, seu plano não resistirá aos primeiros socos”. A mãe de todos os erros de Marina, e de seu marqueteiro, foi supor que os adversários nada fariam quando ela começasse a decolar nas pesquisas. Mesmo que eu conhecesse bem o perfil de Marina, me admirei com tamanha ingenuidade. Afinal, até as seringueiras do Acre conhecem o modus operandis do PSDB para dissecar um adversário que esteja ameaçando nas pesquisas. Quem não lembra as eleições presidenciais de 2002 quando Ciro Gomes foi fulminado por José Serra.

Ciro Gomes vinha se colocando bem nas pesquisas, ameaçando ultrapassar Serra e ocupar o 2º lugar. Serra e o PSDB lançaram ataques sistemáticos a Ciro Gomes que foi despencando nas pesquisas, terminando a eleição em 4º lugar. Também em 2002, Roseana Sarney vinha sendo bem citada nas pesquisas que antecediam as convenções. Ela ameaçava a pré-candidatura de Serra. O PSDB foi à luta e desmontou as pretensões da família Sarney com a valorosa ajuda da Polícia Federal. Assim, não foi difícil para Aécio, e seu PSDB, partir para o ataque a Marina. Dilma, Lula e o PT viram neste ataque a solução para eliminar a ameaça marineira. PT e PSDB agiram pela lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo.


Com os ataques sistemáticos, Marina viu seus bons planos ruírem e foi perdendo pontos percentuais, nas pesquisas, ao ponto de voltar aquele estágio inicial de 2010, quando teve 20 milhões de votos. Mas, ainda teve outro problema nessa história. Marina supôs, errado mais uma vez, que oferecer a outra face seria a melhor estratégia. Não foi, pois ela demonstrou fraqueza e fragilidade aos olhos de todos aqueles que a viam como uma alternativa viável ao eterno FLA X FLU entre o PT e o PSDB. O eleitor não aceita candidatos frágeis que passem a imagem de que não serão capazes de enfrentar as grandes questões de forma corajosa. Quando Marina se auto vitimizou, diante dos ataques, disse aos seus eleitores não ser capaz de enfrentar uma boa briga.

Terminado o 1º turno, as urnas confirmaram o que víamos nas pesquisas: Marina estacionada em seus 20 milhões, refém de suas indecisões, sendo pressionada a tomar um caminho que ela mesma não queria. Marina passou exatos sete dias para anunciar seu apoio a Aécio Neves. Quando muitos de seus eleitores já haviam decidido votar em Aécio, Marina ainda patinava entre o voto nulo, o voto em Aécio, a apatia política ou mesmo o refúgio no Acre. Marina afirmou que não apoiaria Dilma pelos ataques promovidos pelo PT. Mas, e o que dizer dos ataques que ela sofreu de Aécio e do PSDB? E o que dizer das acusações, falsas, diga-se de passagem, que o senador mineiro lhe fez no guia eleitoral?

Quando, finalmente, Marina decidiu desagradou as principais lideranças da “Rede Sustentabilidade”. Sete membros da executiva paulista da Rede renunciaram, pois, para eles, apoiar o PT ou o PSDB enfraqueceria o discurso da 3ª via. Parte do PSB também não gostou de ver Marina apoiando Aécio por preferir Dilma. O presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, renunciou lembrando que o PSB foi e é oposição a vários governos do PSDB. Marina fala em uma nova forma de fazer política, mas suas fragilidades, contradições e dilemas não nos convencem de que ela possa defender esse movo jeito. Marina sai dessa eleição tal qual um castelo de areia, imponente, mas que não resiste a primeira onda.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A ANATOMIA DE UM DEBATE.

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Na terça-feira tivemos o primeiro debate do 2º turno entre Dilma e Aécio. Foi um embate com todos os ingredientes que a ocasião eleitoral pede e como a muito não víamos. Dilma e Aécio se enfrentaram com todas as armas ao alcance das mãos. Antes que o caro ouvinte pergunte eu vou logo dizer que não houve um vencedor. Tivemos, na verdade, um empate. Empate? Eu explico. É que o debate foi tão rico que os candidatos terminaram sendo bem expostos no que eles têm de bom e de ruim. Eu tinha uma boa expectativa quanto a esse debate e devo dizer que não me decepcionei. É que a TV Bandeirantes tem uma boa tradição em promover esse tipo de debate desde aqueles memoráveis embates entre os presidenciáveis de 1989.

Além do mais, era o primeiro debate com apenas dois candidatos, sem aquela poluição visual e sonora produzida por candidatos nanicos que não tem nada a acrescentar a não ser a exposição de opiniões racistas, homofóbicas e autoritárias. Ainda sobre o formato do debate, merece todos os elogios a sóbria mediação do jornalista Ricardo Boechat. Ao contrário de William Bonner, da Rede Globo, ele não quis ser a cereja do bolo. Pelo contrário, ele se limitou a mediar o debate. E vejam que Boechat não precisou repreender um dos candidatos como fez Bonner, atrevidamente, diga-se de passagem, naquele último debate do 1º turno. Boechat não pretendeu brilhar ou aparecer mais do que os candidatos.

O formato do debate, inclusive, não permitiu que Dilma e Aécio usassem aqueles subterfúgios marqueteiros para se pouparem de ataques. Eles foram jogados, literalmente, na arena onde foram à caça e o caçador ao mesmo tempo, o tempo todo. Dilma começou o debate comedida. Parecia que ela estava no Guia Eleitoral, pois foi repetindo mecanicamente a fala que diz que o PT tirou 32 milhões de pessoas da pobreza e criou um mercado de consumo de massa. Aécio começou o debate confiante se dizendo o candidato da mudança e que foi o PSDB quem promoveu a estabilidade da moeda. Em sua primeira fala, partiu para o ataque dizendo que os indicadores sociais pioraram no governo Dilma.















Cada candidato teve um conceito que norteou sua participação no debate. A palavra chave do discurso de Dilma foi "inclusão social". Para Aécio, a palavra chave foi "mudança". Inclusão para Dilma, claro, é sinônimo de programas sociais. Aécio apresentou uma contradição em seu discurso mudancista que Dilma poderia até ter explorado. É que Aécio propõe a mudança numa volta ao passado, aos tempos do governo de FHC, que ele tem como uma espécie de bússola.  Com sua habitual gagueira, que às vezes passa por insegurança, Dilma foi à luta e passou a enfrentar Aécio, até porque não tinha outra alternativa. A estratégia deu certo, pois na 2ª metade do debate Aécio assumiu uma postura defensiva, quase vacilante.

Aécio acusou Dilma de não reconhecer os bons feitos dos governos do PSDB em nível federal e estadual. Isso de fato ocorre. É que o PT costuma agir como se o primeiro governo de Lula fosse o marco zero de tudo de bom que já tivemos. Aécio admitiu, mas nem tanto. Ele aceitou que o Brasil melhorou no governo Lula e reconheceu o valor dos programas sociais do PT. Mas, ele fez questão de dizer que a origem desses programas está nos governos de FHC. Assim, Dilma e Aécio ficaram matraqueando sobre o DNA do “Bolsa Família”. Dilma dizia que o programa foi criado e ampliado nos governos do PT e Aécio dizia que os verdadeiros pais do “Bolsa Família” são FHC e sua esposa Ruth Cardoso.

Querendo valorizar o governo que lhe inspira, Aécio disse que: “o maior programa de transferência de renda não foi o Bolsa Família e sim o Plano Real”. Mais uma vez, Dilma não contra-atacou, pois o Plano Real trata, claro, de estabilidade econômica. Onde Dilma foi melhor foi na exposição da administração dos governos do PSDB em Minas Gerais. Aécio tem um discurso bem construído em torno da eficiência da gestão tucana, Dilma mostrou dados do TCE mineira desmontando este discurso. Onde Aécio foi melhor foi na exposição dos problemas econômicos que enfrentamos em relação à queda do PIB e da alta da inflação. Ele citou a frase do assessor de Dilma que propôs aos brasileiros trocarem a carne pelo ovo para conter a alta de preços.

Dilma ficou na defensiva, mas ao citar Armínio Fraga, ministro de FHC que deixou a inflação escapar acima da meta por dois anos, ela pode se contrapor. Na verdade, quando o assunto é política econômica, PT e PSDB são bem parecidos. Como Aécio é parlamentar experiente é natural que se sinta mais a vontade no debate. Já Dilma tem experiência administrativa, ela é mais prática do que teórica. Aécio transmite certa sensação de firmeza, às vezes escapando para a agressão. Dilma ainda precisa se acostumar mais e melhor com os debates, mas ela detém os números de uma administração de quase 12 anos. O debate Dilma/Aécio foi um grande FLA X FLU de muitos gols, mas que terminou empatado. Sabe quem vai desempatar esse jogo? É você, caro ouvinte, que ainda está indeciso.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

AFINAL, PARA QUE QUEREMOS O EXÉRCITO?


Como bem sabemos, o TRE da Paraíba aprovou o envio de tropas federais para a cidade de Campina Grande com o intuito de garantir “o bom andamento” das eleições do 1º turno que tivemos no dia 05 de outubro passado. O TRE havia acatado a solicitação das quatro juízas eleitorais que atuam em Campina Grande. Elas justificaram o pedido pelas preocupações com o bom andamento do pleito para evitar abusos. Apesar de que aqueles mais de 100 soldados do Exército não foram suficientes para evitar a compra e venda de votos a céu aberto. O TSE só homologa esse tipo de pedido por turno de eleição. Um pedido para o 2º turno deve seguir os mesmos trâmites com as mesmas argumentações. De fato, já se estuda pedir as tropas federais para a eleição de 2º turno em Campina Grande e em Patos.

Eu não vou entrar no mérito da questão. Discutir se é ou não necessário à presença de militares federais em nossa cidade é ficar na superficialidade da questão. Pois existem argumentos plausíveis contra e a favor. Se olharmos pelo lado de que a eleição do 1º turno transcorreu tranquilamente não veremos necessidade das tropas federais em Campina Grande. Mas, se lembrarmos dos fatos de 2008, por exemplo, terminaremos concordando com o pedido das juízas. Na verdade, o que eu quero discutir é se vale a pena continuarmos a aceitar passivamente que o espaço público civil continue sendo militarizado. O fato é que o uso dos militares federais para a manutenção da lei e da ordem não é mais uma novidade.

Depois do golpe civil-militar de 1964, o Exército ocupava as ruas porque, afinal, vivíamos em uma ditadura. Mas, porque usar tropas federais depois que fizemos o processo de liberalização e chegamos a esse sistema de procedimentos democráticos? O Exército foi chamado para garantir a realização da Conferência ECO-92. Na época os governos estadual e federal reconheciam suas incapacidades para garantirem a segurança dos chefes Estados que nos visitavam, então chamaram os homens de verde. Assim se tornou comum a utilização de tropas federais na cidade do Rio de Janeiro. Conflagrada pelo tráfico e pelas milícias, toda e qualquer força passou a ser útil na tentativa de pacificar a “Cidade Maravilhosa”.

 
Em 2006, em São Paulo, o PCC lançou um ataque maciço e coordenado às instituições coercitivas estaduais e federais. O governador paulista titubeava sobre aceitar ou não o envio das tropas federais, enquanto agentes públicos eram mortos nas ruas. Quando o governo entendeu que deveria lançar mão das tropas federais já era tarde e o estrago já havia sido feito, muito mal feito. O PCC conseguiu dar uma demonstração de força que jamais esqueceremos. Devido às intervenções de toda sorte do crime organizado e das perversões de nosso sistema político eleitoral as tropas federais começaram a ser cada vez mais utilizadas em eleições. Aqui em Campina Grande não é diferente.

O Exército vem sendo utilizado para garantir a segurança de eleições em Campina e em outras cidades da Paraíba. Mas, a questão não é se temos ou não a necessidade disso. O fato é que nos habituamos a ter militares federais em nosso entorno. Acostumamo-nos a chamar o Exército para resolver os problemas que deveriam ser tratados por nós mesmos, os civis, já que eles surgem na sociedade em que vivemos, causados por nós mesmos. Ao fazermos isso não estamos sendo incoerentes, já que as Forças Armadas são a instituição com o maior índice de credibilidade no país. Juntamente com a Igreja e com o Corpo de Bombeiro, o Exército é um das instituições mais confiáveis que temos.

É sintomático que uma instituição coercitiva seja a mais confiável. E não deveria, pois se somos civis, teríamos que emprestar nossa credibilidade aos partidos políticos, aos governos, ao Congresso Nacional, ao judiciário, a imprensa. Mas, o fato é que a contradição de sermos civis e aceitarmos a militarização de nosso espaço público tem um custo. O Estado Moderno em que vivemos tem características próprias. Uma delas é a divisão de funções entre suas instituições. Às Forças Armadas são responsáveis pela guerra e pela segurança das fronteiras. Os órgãos de segurança pública cuidam da ordem interna. Às polícias caberia resolver os conflitos sociais. O Exército daria conta da defesa da soberania frente às outras nações.

Por isso que polícia e Exército devem receber doutrinas, armamentos, instruções e treinamentos distintos. Mas, no Brasil, essas competências estão embaralhadas. Vejamos que no artigo 142 da Constituição Federal o Exército ganha poder de polícia. Já no artigo 144, a polícia torna-se força auxiliar das Forças Armadas. Assim, cada vez mais o Exército adquire o poder de policiar a sociedade. A “policialização” das Forças Armadas ocorre ao mesmo tempo em que a sociedade vai sendo militarizada. É por isso o Exército vem sendo chamado para fazer o papel dos agentes de segurança pública. É, dessa maneira, que as armas vão garantindo o funcionamento das urnas, quando deveria ser o contrário.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

OS 3 PORQUINHOS DA POLITICA BRASILEIRA

O resultado da eleição no 1º turno nos mostra que a díade PT/PSDB segue firme e forte. Nos tempos dos embates entre FHC e Lula faziam parte do espetáculo coadjuvantes que eram, na verdade, meros participantes sem maiores poderes de intervenção. Hoje, o FLA X FLU que PT e PSDB encenam tem a participação de atores políticos relevantes como o PMDB e o PSB, além daqueles figurantes de sempre que ficam ali, nos bastidores, a espera de migalhas na forma de cargos em escalões menores. Tucanos e petistas comandam o espetáculo, mesmo que aqui e acolá alguns tentem se colocar como 3ª via, oferecendo uma espécie de alternativa que termina não passando de jogo de cena. Vejam se o caso do PSB marineiro não foi exatamente isso.


A peleja PT/PSDB vem desde as eleições de 1994 quando finalmente pudemos ter alguma estabilidade político-econômica depois dos 21 anos de ditadura militar e de governos desgovernados e inativos como Sarney, Collor e Itamar Franco. Em 1994 FHC se elegeu presidente com 54% dos votos validos, ganhando em 25 estados da federação, tendo o Plano Real como cabo eleitoral. Lula perdia sua 2ª eleição obtendo 27% dos votos, ganhando no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Em 1998 a emenda da reeleição foi leiloada no Congresso e FHC ganhou mais uma vez com 53% dos votos e em 24 Estados. Lula acumulava sua 3ª derrota ficando com 31%. Ciro Gomes foi a 3ª via fracassada dessa eleição ficando com 10% dos votos.


Em 2002 o PT abandonou o “Lula-lá” e lançou a Carta aos Brasileiros, aceitando a estabilidade econômica. Lula foi eleito com 46% dos votos, ganhando em 25 estados. José Serra, do PSDB, ganhou nas Alagoas e ficou com 23% dos votos. Em 2006, Lula se reelegeu mesmo com o surgimento do mensalão e da ação dos aloprados. A partir dessa eleição as disputas passaram a ser acirradíssimas, ninguém mais ganharia com folga. Lula teve 48% dos votos validos, vencendo em 16 estados. Geraldo Alckmin teve 41% e venceu em 10 estados. Heloísa Helena teve 6% mesmo que não aceitasse o rótulo de 3ª via. Nesta eleição Lula foi reeleito pela força dos programas sociais, mas ficou claro que a díade renascia revigorada.


Chegamos em 2010 com o FLA X FLU PT/PSDB empatado em 2 X 2. Era a hora de tirar a prova dos nove. Dilma foi eleita com 46% sendo a mais bem votada em 19 estados. José Serra ficou em 2º lugar com 32%, ganhando em 08 estados. Foi aí que Marina Silva despontou prometendo ser a verdadeira 3ª via. Ela teve 19%, alcançando seus famosos 20 milhões de votos. Agora, o PSDB tem chances reais de empatar novamente o jogo no que já está sendo a mãe de todas as pelejas. O resultado do 1º turno mostra bem isso. Dilma teve 41.58%, vencendo em 15 estados, Aécio teve 33.57%, vencendo em 10 estados, e Marina teve 21.31% vencendo no Acre e em Pernambuco. Mas, as variáveis partidárias pelos Estados só embaralharam o jogo.


No 1º turno, o PMDB ganhou em 04 estados, o PT em 03, o PSDB em 02 e PC do B, PDT, PSB e PSD ganharam em 01 estado cada um. Em 14 estados teremos 2º turno onde cada jogo tem dinâmica própria que influencia a eleição geral em graus variados. O PT está disputando o 2º turno em 4 estados, pode vir a ter, então, 07 governadores. O PSDB disputa em 07 estados, pode alcançar a marca de 09 governadores. Já o PMDB disputa em 08 estados, pode vir a ter 12 governadores a partir de janeiro de 2015. Com esses dados poderíamos inferir que Dilma tem ampla vantagem, já que PMDB e PT estam disputando em 12 estados? Não, pois em pelo menos 05 estados, os candidatos do PMDB apoiam Aécio pelas questões regionais e os interesses de sempre.


Isso mostra que o PMDB segue fiel a sua estratégia de cuidar mais das disputas regionais em detrimento da disputa presidencial, em que pese não abrir mão de seu papel de coadjuvante privilegiado no cenário nacional. Quando olhamos para o Congresso vemos que o PMDB interfere diretamente na bipolarização PT/PSDB. Em 2015, estes três partidos serão os 3 porquinhos da política partidária brasileira. Resta saber quem será o lobo mau dessa história? O PMDB será a maior bancada no Senado com 18 parlamentares, seguido do PT com 12 e do PSDB com 10. Na Câmara dos Deputados, o PT terá 70 parlamentares, o PMDB 66 e o PSDB 54. Em 2015, o PMDB será governo não importando quem venha a ganhar.


Com 18 senadores e 66 deputados, o PMDB ficará na confortável posição de ser o fiel da balança entre a díade PT/PSDB. Seja Dilma eleita, seja Aécio eleito só terá maioria no Congresso nacional, ou seja só governará, quem contar com o apoio do PMDB. A situação é indefinida, pois não sabemos bem como os eleitores, que Marina Silva deixou órfãos, vão votar. É que o grosso dos eleitores de Marina a viam como 3ª via, aquela que ofereceria uma alternativa ao cansativo FLA X FLU que vemos desde 1994. Marina optou por Aécio, mesmo que Aécio pareça não ter optado pelas ideias de Marina. Dilma conta com o PMDB e com a força dos programas sociais. Aécio tenta surfar na onda da mudança, mesmo que não saiba como. Assim, lá vamos nós mais uma vez para um FLA X FLU daqueles.


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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O ADVERSÁRIO DE ONTEM É O ALIADO DE HOJE

Eu questionei, aqui no POLITICANDO, com que roupa partidos e atores políticos paraibanos iriam para o 2º turno. Mas, esta seria uma pergunta desnecessária se vivêssemos em um sistema onde as regras do jogo eleitoral fossem sempre respeitadas. Meu questionamento seria uma tolice sem tamanho se nossos políticos não tivessem o hábito de mudar de lado e de opinião entre o 1º e o 2º turnos. Tem político que só se lança candidato a um cargo majoritário visando à transição entre os dois turnos. A estratégia é bem simples. O sujeito se lança candidato a governador ou a presidente, sabendo bem que não tem a menor possibilidade de ir ao 2º turno. Daí, ele vai à luta para garantir entre 5% e 10% dos votos válidos.

Quando acaba o 1º turno ele fica dando entrevistas, fazendo cara de paisagem, a espera das ofertas que os dois candidatos que vão disputar o 2º turno lhe farão. Geralmente, o apoio vem em troca de alguma secretaria ou ministério caso o apoiado seja eleito, claro. Na corrida presidencial estamos vendo alguma coerência. Candidaturas de centro direito e de direita, como o Pastor Everaldo e Eymael, resolveram apoiar Aécio Neves. Luciano Genro tem sugerido, discretamente, que deve votar em Dilma Rousseff. Eu falo em alguma coerência, mas é preciso olhar caso a caso, pois o apoio que Eduardo Jorge emprestou a Aécio é tão confuso quanto foi o candidato verde na campanha do 1º turno. E vejam que eu não estou falando de Marina Silva e seus dilemas políticos.

Dilma parece ter lançado mão de uma estratégia mais pragmática e buscou o apoio dos que se saíram vitoriosos nas urnas do 1º turno ou que vão disputar o 2º turno. Foi assim que Dilma e Michel Temer vieram no mesmo dia a Paraíba na semana que passou. Eles vieram dar e receber apoios. Aqui na Paraíba o quadro é confuso e, como sempre, nada republicano. Como se sabe, o PMDB de José Maranhão e Vital Filho declarou apoio a Ricardo Coutinho, se realinhado ao PT que já vinha apoiando o governador. Mas, em se tratando do PMDB nada é claro, nem tudo é transparente. O mesmo PMDB que foi a justiça, no 1º turno contra o PT, agora se alia aos petistas para apoiar Ricardo. Até quando durará esta aliança? No máximo até as eleições municipais de 2016.

No PMDB, que está mais para frente política do que para partido, não há entendimento estre suas lideranças. Tem um grupo, mais forte por deter o diretório estadual, que apoia Ricardo e tem os que apoiam Cássio, mesmo que sem muita convicção. Ainda tem um terceiro bloco, espremido entre os dois primeiros, que quer ficar neutro neste 2º turno, como se isso fosse possível. O deputado estadual reeleito, Raniery Paulino, é um dos que defende a neutralidade. Raniery disse que “Ricardo não fez e Cássio desfez”. Ele afirmou que ambos não foram bons para a sua cidade de Guarabira. Como o pai de Raniery é o ex-governador Roberto Paulino, que apoia Ricardo, essa tal neutralidade deve ruir em breve.


Já o PMDB cassista tem nos deputados Trócolli, Manoel Júnior e Olenka Maranhão suas principais expressões. Claro, eles estam no caminho contrário ao da direção estadual para maximizarem seus interesses mais do que particulares. O PMDB se dividiu ainda naquele processo nada republicano de definição das candidaturas e coligações para as eleições. O deputado federal eleito Veneziano Vital disse, em tom de ameaça, que após as eleições essas questões serão resolvidas. Será que vão rolar cabeças no PMDB? Mas, nada disso deve preocupar o eleitor, pois o comportamento antirrepublicano de todos esses atores se dá independente da posição politica que eles estejam adotando. É que, na Paraíba, o adversário de ontem é o aliado de hoje e vice-versa.

Mas, aonde a confusão reina mesmo é em torno do PSB e de suas opções. Ricardo Coutinho é candidato à reeleição pelo PSB. Inclusive ele apoiava, meio a contra gosto é bem verdade, a candidatura de Marina Silva no 1º turno.  Agora Ricardo apoia Dilma. Seria de se esperar que o PSB nacional apoiasse Ricardo, pois se ele for eleito o partido contará com mais um governador. Mas, o PSB nacional declarou apoio a Cássio Cunha Lima seguindo a orientação da aliança com o PSDB de Aécio Neves. Assim, o partido do governador da Paraíba não o apoia mesmo que ele esteja disputando a eleição do 2º turno. Este partido prefere apoiar a oposição ao governador que por sua vez apoia a presidente da República.

Dito de outra forma o PSB de Ricardo nunca quis apoiar Marina, mas não podia apoiar Dilma. O PSDB de Cássio apoia Aécio, claro, mas recebe o apoio de parte do PMDB, que compõem a chapa da Presidente Dilma, que sofre oposição do PSDB de Aécio. Pasmem, mas neste momento quem está sendo mais coerente é o PT paraibano que brigou para se aliar com Ricardo Coutinho, venceu a queda de braço com o PMDB, e segue forte, não sei se tão firme, ao lado do governador. Essa é a situação de momento na pequena e heroica Paraíba. O caro ouvinte conseguiu entender tudo? Não? Pois é, mas é mesmo para não entender. Os partidos e atores políticos preferem que seja assim, confuso, atabalhoado, feito de um jeito que só eles conseguem entender.
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