Você já ouviu falar no
“Caso Jayson Blair”? O jornalista do New York Times, conhecido como o plagiador serial
mais infame do mundo, que inventava as matérias que publicava. Blair
não era apenas editor de notícias falsas, ele era a própria Fake News. Ele trabalhou
no New York Times, entre 1999 e 2003, quando teve que pedir demissão após um jornal do Texas denunciar um plágio. Além de falsificar
notícias, Blair contava histórias de supostas viagens a vários estados dos
Estados Unidos, ainda que não fosse a lugar algum, pois escrevia tudo de sua
casa em Nova York.
O repórter, Jayson Blair, 27, enganou leitores e colegas do Times
com despachos que ele fingia ser de Maryland, Texas e de outros estados, quando
geralmente estava distante dali, em Nova York. Ele inventou comentários. Ele
forjou situações. Ele usou material de outros jornais e serviços de notícias.
Ele manipulou detalhes de fotografias para criar a impressão de que havia
estado em certo lugar ou visto certa pessoa, quando na verdade não tinha (The
New York Times, 11\5\2003). Observatório da Imprensa
- Para lembrar e não repetir Jayson Blair
Blair era um serial disinformer (desinformador em série) que inventava entrevistas com pessoas com quem
nunca tinha falado, que usava imagens manipuladas, que copiava trechos de
outros jornais, que dava notícias de fatos que nunca tinham ocorrido, etc. Uma auditoria do New
York Times apontou graves problemas em quase 40 artigos que ele
publicou em alguns meses.
Jayson Blair demoliu
a reputação do New York Times, que demitiu seus dois principais diretores
editoriais por falta de controle e supervisão, e se tornou um case tratando dos
limites da imprensa, da ética no jornalismo e da checagem de fatos. Para se ter
ideia de quão grave foi o caso, um relatório do
Índice Nacional de Liderança, produzido
pela JFK Scholl de Harvard, que analisa o grau de confiança dos estadunidenses
em instituições e lideranças, o comparou ao escândalo “Watergate” – momento em
que a confiança dos cidadãos em suas instituições foi ao chão.
Certo, esse caso é inaceitável,
execrável. Mas, podemos pensar um pouco sobre o que e como aconteceu. A primeira
questão é que Jayson Blair praticava o que chamamos de desinformação – o
ato pelo qual se cria, deliberadamente, notícias falsas, teorias da conspiração,
discursos de ódio, mentiras, falseamento da realidade, para disseminar em meios
(digitais ou não) de informação e comunicação como as redes sociais. O objetivo
da desinformação é enganar, causar danos e dolos.
Desinformação tem centralidade
no funcionamento da tal sociedade da informação e\ou do conhecimento e no (re)surgimento
e na afirmação dos movimentos políticos de massa da extrema direita (que
ascende ao poder para solapar a democracia). Inclusive, interessa notar que Jayson
Blair se tornou um especialista em desinformação, posto que a praticava em todos
os seus quadrantes e categorias, como podemos ver no quadro abaixo:
|
Categorias
da desinformação |
Descrição |
|
Manchetes, recursos
visuais ou legendas que não sustentam e\ou confirmam o conteúdo. |
|
Conteúdo genuíno que é
compartilhado fora de contexto. |
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Imagens e informações
genuínas que são manipuladas para enganar. |
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Uso enganoso de
informações para enquadrar um problema ou indivíduo. |
|
Uso
de fontes genuínas que podem ser imitadas. |
|
Conteúdo
que é totalmente falso, projetado para enganar e prejudicar. |
|
Tem potencial para
enganar, mas sem intenção de causar danos. |
COSTA, Luciana M.; NÓBREGA, Lizete B. da; MAIA, Carolina T. Combate à
desinformação na pandemia da Covid-19: a reação das plataformas digitais. In: REVISTA EPTIC. Revista Eletrônica Internacional de
Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura. (Dossiê Temático:
Economia Política da Desinformação). Vol. 23, nº 01, jan-abr, 2021. Disponível em:
https://periodicos.ufs.br/eptic/issue/view/1099. Acesso em: 20 set.
2023.
Outra coisa,
necessária para entendermos o caso Jayson Blair, porém não suficiente e que não
pode servir de justificativa, é que durante todo o século XX o jornal impresso,
o rádio e a televisão precediam à notícia e à informação – eles existiam para
cima e além dos acontecimentos e fatos. O Jornal circulava diariamente mesmo
que a terra tivesse
parado, como diria Raul Seixas.
Imagine a seguinte
situação: o editor-chefe, de um determinado jornal, cobrando os seus jornalistas,
insistentemente, por notícias para poder fechar a edição do dia seguinte, e os
jornalistas, descabelados, dizendo que não tinham notícias para dar, pois não
tinha acontecido nada na cidade já que o dia anterior tinha sido feriado. Talvez,
o editor dissesse: “virem-se, preciso de notícias para fechar a edição!". E
os Jornalistas, pressionados, se sentariam às suas máquinas de datilografar e “criariam”,
tal qual Jayson Blair, notícias falsas para atender às demandas do editor. Assim,
se poderia criar o hábito, numa determinada redação, de se inventar notícias
quando não houvesse fatos e acontecimentos verdadeiros para se reportar no
jornal ...
Em Campina Grande,
nos anos 1970 e 1980, Diário da Borborema
não circulava nas segundas-feiras, pois partia-se do princípio de que não haveria
nada para noticiar após um final de semana, sempre modorrento, de uma cidade do
interior do Nordeste brasileiro. Inclusive, muitos jornais, pelo Brasil afora,
não iam às bancas nas segundas-feiras por uma questão prática - é que do
contrário se teria que trabalhar aos domingo para entregar a edição da segunda.
No Diário da Borborema, a redação funcionava entre a segunda-feira e o sábado, pois
o domingo era dedicado ao descanso sagrado dos jornalistas. Se por acaso
acontecesse algo relevante no domingo, podia-se esperar até a terça-feira para
informar a população, pois vivíamos sem esse senso de urgência que só mesmo o
advento da internet e das redes sociais nos dá.
Nos anos 1980, a edição
do dia seguinte do Diário da Borborema tinha que ser fechada até as 15 horas do
dia anterior, pois era mandada para João Pessoa, impressa e retornava para ser
distribuída nas bancas de Campina Grande. E se acontecesse um fato importante
às 17 ou 18 horas? Azar do fato e da população que só saberia do acontecido umas
36 horas depois. Como disse, vivíamos em um tempo sem essa ansiedade de saber
do fato antes mesmo dele acontecer.
Agora, imagina se
baixasse um Jayson Blair na redação do Diário da Borborema, lá por volta de
1982, e dissesse: "tenho um jeito de ter ‘notícias' para pôr no jornal da
segunda feira ou de qualquer outro dia da semana". Ele bem que poderia perguntar
ao editor-chefe: "Já ouviu falar em desinformação e Fake news?"
Em 1977, a IBM
lançou uma campanha publicitária afirmando:
“Information: there's growing agreement that is the name of age we live in” (Informação:
há um consenso crescente de que esse é o nome da era em que vivemos). Em 2000,
a AOL, primeiro fornecedor mundial de acesso à internet, afirmava em sua
publicidade: “everywhere, for everyone” (em todos os lugares, para todos). Atentemos para o fato de
que se tenha tido a ideia de anunciar uma nova era, baseada na informação, pois
ela estava em todos os lugares, o tempo todo e em vários formatos para ser
acessada por todas as pessoas. Foi quando o Diário da Borborema deixou de ser relevante,
pois não mais dependeríamos dele para saber o que tinha acontecido na cidade, e
não apenas no dia anterior, mas em qualquer outro momento.
Sempre que estou vendo
as notícias, “sabendo de tudo que aconteceu antes mesmo de ter acontecido” ou “ficando
bem-informado”, como os midiáticos publicitários da mídia coorporativa gostam
de dizer, fico pensando se elas não foram editadas por algum Jayson Blair
redivido que, movido pelos dilemas de ter que informar a qualquer custo, bem
que poderia ter cedido à tentação de “inventar” uma notícia. E, aqui, contém
doses maciças de pura ironia!
Campina Grande segue
com seus finais de semana modorrentos, onde nada de realmente importante
acontece, ainda que tenhamos jornais na TV aberta na segunda-feira. Vejo, ou
tento, as edições dos jornais locais e costumo questionar o que nelas ficaria se
os editores retirassem as coisas pouco ou nada relevantes. Tenho nítida
impressão de que as matérias, que “vão deixar você sempre muito bem-informado”,
são o conteúdo usado para encher as linguiças, digo as notícias.
Os jornais das TVs abertas de Campina Grande não
chegam a ser um Jayson Blair, ainda que desinformem se considerarmos que existem
vários tipos de desinformação. Quando o jornal está falando sobre a atitude de
uma pessoa que fez uma boa ação, dando um bom exemplo, ou quando está mostrando
pessoas felizes, correndo em volta do Açude Velho, ou mesmo quando traz uma
matéria, sobre um show da banda Chiclete com Banana que aconteceu a 30 anos atrás,
me pergunto se não teria nada mais relevante para mostrar.
Importa sabermos que
um dos objetivos da desinformação é encobrir a realidade. É quando se deixa de
dar uma notícia relevante para a sociedade, algo que precisamos saber, pois se
refere, por exemplo, aos atos do prefeitura municipal e\ou da Câmara de
Vereadores. A notícia que desinforma serve, em geral, para ocupar o espaço da notícia
que realmente importa. Quando vejo a 2ª edição do jornal local, aqui em Campina
Grande, recheada de inutilidades, trivialidades e banalidades fico a me
perguntar o que teria feito o prefeito de Campina Grande, nesse mesmo dia, que
tivesse impactado a minha vida e de minha família.
O sociólogo Pedro Demo
(2000) já afirmou, no artigo Ambivalências da
sociedade da informação, que o projeto principal pode ser mesmo o de
desinformar. Para ele, “não se se trata apenas de nos entupir com informação de
tal forma que já não saibamos manejar, mas de usá-la para seu oposto, no
sentido mais preciso de cultivo da ignorância”. Em nosso tempo, o estado da notícia
importa pouco ou nada - se ela é ou não verdadeira, se é crível ou não, se informa
ou desinforma –, pois apenas versões e narrativas interessam. Se em 2003 o caso
Jayson Blair incomodou tanto, hoje ele seria risível pois vivemos nos tempos da
pós-verdade, em que verdades e mentiras parecem ser a mesma coisa.
