segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O dia em que o golpe virou carnaval





Em “Brasil: os frutos da Guerra” (Ed. Intrínseca, 2015), o brasilianista Neill Lochery mostra o espanto da embaixada norte-americana, no Rio de Janeiro de 1938, com os brasileiros que “paravam com suas obrigações para a festa de carnaval”. Lochery diz que na 2ª Guerra Mundial o Rio de Janeiro se tornou, como várias cidades mundo afora, alvo da Alemanha nazista. O governo americano pediu as autoridades locais que, à noite, o então Distrito Federal ficasse no escuro para que submarinos alemães perdessem a referência em possíveis ataques. Não deu certo! Os cariocas não aceitaram brincar o carnaval de 1943 no breu e deram de ombros para os americanos que não compreenderam como vidas podiam ser menos importante do que uma festa.


Arnaldo Jabor disse não entender um povo que com tantos problemas se dá ao luxo de passar vários dias curtindo carnaval. O intelectual-mor da República do Tucanobanaquistão não está autorizado a entender um povo que deixa de comer, mas não deixa de “brincar carnaval”. Quando lidamos com coisas tão sérias, como o carnaval, só mesmo um Gilberto Freyre para explicar.


Disse “coisa série como carnaval”? É que o carnaval é uma espécie de licença poética de um povo oprimido, escravizado, por uma elite autoritária distante desse povo que se formou, também, pelas influências dos que aqui foram escravizados. Historicamente o carnaval nos serve para protestar, criticar, reivindicar, além de desdenhar, desfrutar, burlar, satirizar, de tudo e de todos. Paradoxalmente, levamos o carnaval a sério, pois ele nos permite tudo que no dia a dia seria impensável fazer, como assumir outra identidade usando uma fantasia. Dedicamo-nos tanto a essa festa porque estamos tratando de nossa cultura, sociedade, economia e politica. Quer coisa mais séria?


Foi isso que vi no desfile da Escola de Samba “Paraíso do Tuiuti” que fez de sua apresentação uma aula de história e de politica ao relacionar o cancro da escravidão com coisas que acontecem hoje. Ao tempo em que mostrava a escravidão defendeu que ela não acabou, apenas mudou de forma. Com o titulo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” a Tuiuti disse que ela não acabou no Brasil após 130 anos da Lei Aurea. Aqui, não trato de critérios técnicos ou estéticos – esse não é meu metiê. Mas, como historiador, afirmo que relacionar a chegada dos navios negreiros ao Brasil com o "cativeiro social" de nossos dias foi sensacional, diria emocionante. Partindo da escravidão, a Tuiuti tratou da desigualdade social, precarização do trabalho, desemprego, falta de direitos e excesso de deveres a que nosso povo foi, e é, submetido.


A comissão de frente da Escola, com escravos acorrentados sendo açoitados por um feitor, fez lembrar carnavais em que Joãozinho Trinta nos golpeava com maciças doses de realidade. A luta de classes e as disparidades sociais foram magistralmente representadas num carro alegórico onde, no andar de cima, banqueiros e aristocratas se divertiam enquanto eram sustentados, do andar de baixo, pelo povo trabalhador. A Escola mostrou o que queria mostrar sem fantasiar a realidade. Como eu disse, carnaval é coisa séria!


Se é verdade que no Brasil tudo acaba em samba, a Paraíso do Tuiuti transformou o golpe de 2016 em um carnaval inesquecível. As imagens explicam o que minhas palavras pouco ou nada dizem. Esqueçamos tudo o que já foi dito, escrito e desenhado sobre Michel Temer, pois a partir do domingo do carnaval de 2018 o texto e a imagem do usurpador-mor é a de um vampiro envolto numa faixa presidencial. Afinal, o que mais tem feito o ilegítimo senão nos vampirizar com a monstruosa organização criminosa que o cerca?


E o que dizer da ala "Guerreiros da CLT" com seus membros fantasiados de carteiras de trabalho, depauperadas pela reforma trabalhista que o conglomerado golpista tanto preza? Nada, basta olhar. Confesso que a ala dos "manifestoches”, debochando dos que iam às ruas de verde-e-amarelo defender os interesses da elite, me deu uma alegria misturada a um otimismo que a muito não sentia. Aqueles patos amarelos sendo manipulados, como fantoches, por gigantescas mãos cujos donos não apareciam me fizeram delirar e dizer em voz alta: “estou vingado”! O desfile da “Paraíso do Tuiuti” me deu algum alento de que este carnavalesco país ainda tem alguma chance.


A alegoria dos fantoches, que defenderam o impeachment de Dilma Rousseff, foi um tapa na cara da Rede Globo obrigada que foi a mostrar para todo o mundo a ridicularizarão do que tanto promoveu. O desfile da Tuiuti foi um direito de resposta dos que se sentem injustiçados pelos atos do conglomerado golpista e me fez lembrar o direito de resposta de Leonel Brizola em pleno Jornal Nacional em 1994. https://www.youtube.com/watch?v=bTYkusiBnT8



Por fim, mas não menos importante, destaco o desfile da Estação 1ª de Mangueira. Como carnaval combativo foi um dos melhores protestos que já vi. A Mangueira olhou para si, para as outras escolas, para os blocos de rua do Rio de Janeiro e bateu aberta e pesadamente no pastor/prefeito carioca Marcelo Crivella que quis (coitado!) acabar com os desfiles das escolas de samba.


O enredo da Mangueira dizia "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". É a mãe de todas as respostas de que, sim, vai haver carnaval no Rio e no Brasil independente do governante de plantão e de suas crenças. A Escola trouxe um boneco enforcado, como um Judas, com os seguintes dizeres: "Prefeito, pecado é não brincar o carnaval", numa alusão aos cortes nas verbas, para os desfiles, promovidos por Crivella. Sendo um fundamentalista de sua religião, Crivella considera o carnaval um pecado, daí o recado da Escola para o prefeito.

Num carro alegórico, um ator fantasiado de "Cristo proibido" lembrava a escultura de Joãozinho Trinta na Beija-Flor em 1989, com a legenda: "Orai por nós, porque o prefeito não sabe o que faz". Sabe sim, sabe muito bem o que e porque faz, pois existe a mão invisível do "manifestoche” da Tuiuti a lhe guiar os passos. O problema é que ele não entende o povo que o elegeu e muito menos entende a seriedade que este povo dá a sua maior expressão cultural.


PS: Abaixo a letra dos sambas enredo da Beija-Flor, Mangueira e Paraíso do Tuiuti. Eles falam de tudo o que não temos (direitos) e de tudo o que nos falta (igualdades de toda sorte).


Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)
Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um monstro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!
Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu
Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na beija-flor

Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro, Eu Brinco
Chegou a hora de mudar
Erguer a bandeira do samba
Vem a luz à consciência
Que ilumina a resistência dessa gente bamba
Pergunte aos seus ancestrais
Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira
Outrora marginalizado já usei cetim barato
Pra desfilar na Mangueira
A minha escola de vida é um botequim
Com garfo e prato eu faço meu tamborim
Firmo na palma da mão, cantando laiálaiá
Sou mestre-sala na arte de improvisar
Ôôô somos a voz do povo
Embarque nesse cordão
Pra ser feliz de novo
Vem como pode no meio da multidão
Não, não liga não!
Que a minha festa é sem pudor e sem pena
Volta a emoção
Pouco me importam o brilho e a renda
Vem pode chegar
Que a rua é nossa mas é por direito
Vem vadiar por opção, derrubar esse portão, resgatar nosso respeito
O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a estação primeira
Se faltar fantasia alegria há de sobrar
Bate na lata pro povo sambar
Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o carnaval!

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?
Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz
Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente
Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor
Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor
E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel
Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social
Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Somos um bando de irreformistas

Resultado de imagem para reforma politica

Nos dias de hoje, principalmente nos períodos eleitorais, sempre falamos em reformas. Às vezes penso que somos reformistas por definição! Mas, na verdade, apenas gostamos de falar em reformas, daí a praticarmos já vai uma grande distância. Estamos sempre falando em reformas! Tem sempre alguém defendendo a reforma tributária e do modelo econômico. A reforma agrária continua sendo bandeira de luta de movimentos organizados. Muita se fala, também, de reformas na educação.

E ainda existe a mãe de todas as reformas – falo da reforma política, que é aquele negócio que ninguém sabe bem o que é, e nem como fazer, mas que todo mundo defende como se fosse à panaceia para todos os nossos problemas. Há 54 anos, em 1963, também era assim. Só se falava em reformas. No início da década de 1960 a sociedade brasileira se mobilizou em torno das Reformas de Base. Naquela época havia um amplo sentimento de que, sem reformas, nunca sairíamos do terceiro mundo. De fato, foi isso mesmo. Não fizemos as reformas (alguns, como eu, preferem chamar de revolução), pois preferimos o autoritarismo, e ficamos assim: grandes e subdesenvolvidos.

Em 1963, o presidente da República era João Goulart. Menos por vontade própria e mais pela pressão de vários setores da sociedade, Jango aderiu às reformas de base não sem algumas vacilações pouco normais para a época. No passado, as reforma tinham alta capacidade de mobilizar a sociedade, ao contrário dos nossos dias, aonde as pessoas só vão às ruas para lutar por coisas sem sentido, e atrapalhar o trânsito, ou para pedir a volta da ditadura militar ou o fim da corrupção, atendendo aos interesses dos que jamais vão às ruas até porque são protegidos pelo tal foro privilegiado.
Resultado de imagem para reformas de base

Se no passado se lutava por reforma agrária, política e educacional, hoje o máximo que fazemos é participar ocasionalmente de manifestações contra a corrupção. Apesar de que não adianta ser contra a corrupção e eleger “Malufs” e “Severinos Cavalcantis” a cada dois anos. O fato é que no passado éramos reformistas praticantes, hoje não passamos de uns reformistas de botequim.

Um movimento de massa organizado lutava pelas reformas de base e reivindicava do Congresso Nacional medidas constitucionais necessárias para uma consequente reforma das instituições. Mas, pelo que lutavam os reformistas da década de 1960? Eles se mobilizaram por uma reforma agrária que democratizasse o acesso a terra e que desse às pessoas condições de viver, comer e se desenvolver junto com suas famílias. Pasmem! Mas, em 1963 já se falava em transposição do Rio São Francisco. A mesma que se arrasta pelos anos, torrando somas fantásticas de dinheiro, enquanto a seca devora o povo nordestino impiedosamente. Em 1963, 90% das terras no Brasil estavam nas mãos de apenas 10% da população. Passados 54 anos, apenas 10% das terras brasileiras estam nas mãos de 90% dos brasileiros. Ou seja, não mudamos nossa estrutura fundiária porque seguimos sem fazer uma ampla reforma agrária. 

Lá em 1963 falava-se muito em reforma urbana para que grande parcela da população pudesse ter boas condições de moradia e para que o fosso social, que separa as pessoas de acordo com seus locais de moradia, fosse encurtado. Claro, não fizemos reforma urbana – as favelas estam aí para não me deixarem mentir. Lutava-se por reforma educacional que ampliasse a rede pública de ensino. Os jovens entravam na luta política pela porta das mobilizações por mais vagas nas universidades.

Como nos dias de hoje, se lutava em 1963 por reforma tributária que corrigisse a desigual distribuição de encargos entre o capital e o trabalho, entre ricos e pobres. Essa é outra reforma que adoramos defender, mas não parecemos saber o que fazer para efetivá-la. Além da questão tributária, falava-se da reforma bancária que pudesse levar crédito e financiamento a todas as forças produtivas do país a juros normais, sem usura e sem corrupção. O financiamento até foi democratizado, já a usura e a corrupção...

Resultado de imagem para porque não fazemos a reforma politica

Naquela época se falava muito em reforma administrativa que pudesse dotar o Estado brasileiro de uma estrutura mais sólida, menos dependente da burocracia e com eficientes mecanismos de controle contra a corrupção. Claro, essa reforma jamais foi feita, do contrário não estaríamos às voltas com essa grande quadrilha de criminosos que pilham o Estado brasileiro, enquanto fingem que governam, impedindo que se possa desenvolver. Em 1963 falava-se em reformar o sistema político-partidário e a forma da representação. Falava-se em reformar os poderes e as eleições. Hoje, continuamos a falar dessas coisas, apenas encontramos um termo que resume tudo isso: é a tal reforma política.
Sempre se dirá que não se fez reformas por causa do golpe civil-militar de 1964. É que, com ditadura, ficou mesmo difícil fazer reformas sociais e políticas. É preciso não esquecer que o golpe foi dado exatamente para se impedir que as reformas de base acontecessem. Mas, a ditadura não teria acabado a 32 anos, tempo considerável para se reformar tudo, inclusive o Estado brasileiro? O fato é que somos um bando de reformistas de gabinete. Até achamos que devemos nos reformar, mas como não sabemos como, seguimos assim irreformáveis.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Progama FALANDO SÉRIO na CREATIVE TV de Picuí-PB





No Programa FALANDO SÉRIO da CREATIVE TV, apresentado por Fabiana Agra - jornalista e advogada - e pela Profª do IFPB/Picuí Virna Cunha, falamos sobre nossos livros, sobre a conjuntura politica brasileira atual e a relação dela com o golpe civil-militar de 1964 e o Estado autoritário que perdurou por longos 21 anos, dentre outras coisas.

Exploramos nossas produções acadêmicas ou não, expressamos nossas preocupações com a atual conjuntura, onde o Brasil parece estar sendo propositadamente desmontado, mas não deixamos, também, de analisar as questões com nossos olhares de estudiosos das ciências humanas e sociais, pesquisadores que somos de nossa realidade.


O Programa, gravado em 08 de novembro de 2017, foi ao ar pela CREATIVE TV (www.canalctv.net ), a primeira TV via internet da cidade de Picuí (PB) que cobre toda a região do Curimataú e Seridó Paraibano. A CREATIVE TV contribui para o desenvolvimento midiático da região registrando fatos do dia-a-dia e levando informação, cultura, entretenimento, esportes, educação para a população da cidade e da região.


No mesmo dia em que gravamos este programa na CREATIVE TV, tivemos o evento Roda de Conversa com discentes e docentes das Redes Estadual e Federal de ensino, promovido pela Diretoria de Desenvolvimento de Ensino do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) - Campus de Picuí. Tivemos o lançamento do livro "O DEZESSEIS - OS RETIRANTES DA DEMOCRACIA" de Fabiana de Fátima Medeiros Agra e do meu livro, além de um excelente debate sobre o Golpe Civil-Militar de 1964 e a atual conjuntura golpista que enfrentamos. Na ocasião fui brindado com uma resenha muito interessante feita pela professora Virna Cunha que pode ser lida abaixo.


A esquerda pela esquerda: Consciência e ciência do papel dos grupos de esquerda na Paraíba por Virna Cunha Farias


 Gilbergues Santos é graduado em História pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, especialista em História política do Brasil República e é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Gilbergues é professor da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB desde 1993. O pesquisador também se dedica a blogs sobre política e a programas em rádio em que refletia a conjuntura política do momento.
Em "Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido?" o autor faz uma análise do papel dos movimentos de esquerda em Campina Grande com recorte temporal para os anos de 1968 a 1972, anos considerados difíceis devido ao endurecimento da Ditadura Militar instalado aqui após o golpe de 1964. Sua pesquisa volta-se para as ações do Partido Comunista Brasileiro – PCB – e da tendência que este partido de linha marxista – leninista apresentava para um viés de autoritarismo e a antidemocrático. 

Temos uma obra que traz uma contribuição muito grande não apenas por mostrar os movimentos de esquerda aqui na cidade, mas pelo lado autoritário desses movimentos serem pensados e mostrados por alguém que também militou na esquerda, temos então a esquerda vista pela própria esquerda e não o antagonismo esquerda X direita que sempre se apresenta quando o assunto é autoritarismo.
O livro está dividido em 3 capítulos, além da apresentação feita pelo professor Rangel Júnior , reitor da UEPB e das partes introdutórias e das considerações finais do autor. No primeiro capítulo, "PCB e a Matriz autoritária da Esquerda Brasileira", o autor discute os principais elementos autoritários do PCB e as críticas de Marx à democracia, entendida por ele como coisa de burguês. O autor ainda reflete no mesmo capítulo sobre a pobre tradição democrática de nossa sociedade e a relação entre comunistas e militares.
No segundo capítulo, "O dilema dos comunistas: revolução ou reformas?", o autor discute as ambiguidades em torno da luta dos comunistas sempre colocando em pontos contrastantes questões como as reformas sociais tão desejadas pelas classes trabalhadoras, embora que elas custem à democracia. Os opostos estão sempre presentes neste momento conturbado que a esquerda se finca entre as reformas ou a violência revolucionária até retornarem ao caminho da ação armada. Neste momento, o pesquisador reflete também como essas inquietudes da política nacional eram absorvidas em Campina Grande, objeto principal de sua investigação.
No terceiro e último capítulo, "Atuação das organizações revolucionárias em Campina Grande", o autor volta-se para o seu objeto de estudo e relata como essas organizações de esquerda agiram na Rainha da Borborema. Nas considerações, o pesquisador retoma partes já comprovadas e conclui como a atuação das organizações revolucionárias de esquerda se mostraram antidemocráticas e autoritárias, apesar de não haver usado de luta armada em Campina Grande. Acredita o historiador em que o fato de Campina ser uma cidade interiorana tenha contribuído para que o papel desenvolvido aqui tenha sido de apoio e infraestrutura, mesmo estando a esquerda daqui antenada com o que acontecia no resto do país.
O livro traz uma contribuição muito grande não só na área de História, mas também na de Sociologia já que estuda questões inerentes aos movimentos sociais como também a forma que a nossa sociedade entende o processo democrático.  A reflexão que deixa de como o homem é afeito a meios autoritários para se chegar a determinados fins faz com que percebamos que dominar através da força bruta não é coisa nem de direita, nem de esquerda, mas coisa do ser humano, da fera que há no homem de todos os tempos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A “camarotização” do São João


Há alguns dias postei a coluna Devolvam meu São João onde externava minha tristeza ao constatar que o São João de Campina Grande, que já foi o melhor do mundo, não existe mais. Afirmei que o Parque não mais pertence ao povo e critiquei a administração municipal por ter permitido “que uma empresa montasse uma casa de shows fechada no lugar do arraial que tínhamos”. Falei, indignado, que o São João é nosso patrimônio imaterial e “que ninguém pode adulterá-lo dessa forma arrogante visando atender interesses particulares”.

Como no Brasil nada é tão ruim que não possa piorar, o prefeito Romero Rodrigues anunciou que vai “buscar solução para o São João de 2018”. Mas, qual seria o problema que estaria enfrentando o São João? Segundo o prefeito, o “Parque do Povo não comporta mais o evento”. Mas, o Parque do Povo não vem comportando o São João a 34 anos? Porque de um ano para o outro deixou de comportar? O que ocorreu em 2017 que não mais permitiria que nossa festa maior coubesse em seu palco tradicional? Segundo o prefeito, o “Parque do Povo se tornou pequeno, congestionou as ruas. Se a gente conseguisse uma área central maior que o Parque, seria ideal, porque a festa tem que crescer ainda mais”.

O prefeito não disse a quem interessam as soluções. Se a prefeitura, sua administração e seu partido, se ao povo, se aos comerciantes e empresários da cidade ou se a empresa que gerenciou a festa através de uma parceria público-privada, eufemismo para o termo privatização. O modelo de evento promovido pela tal empresa, que “comprou” nossa tradição e direitos culturais, não cabe no Parque do Povo porque ali ela não terá o lucro exorbitante que almeja. Simples assim!

Existe uma questão legal que é o fato do Parque do Povo ser um BEM PÚBLICO e não poder ser temporária ou definitivamente privatizado. Infelizmente, muitos campinenses ainda não se deram conta disso! A prefeitura parece querer se antecipar às questões jurídicas, que por certo enfrentará, caso leve a frente essa sandice de privatizar totalmente o São João. É por isso que busca “soluções” para os supostos problemas aventados. Além disso, que destino se dará ao Parque do Povo no caso do São João ser levado para outra área da cidade? Fosse eu do ramo da especulação imobiliária responderia essa pergunta? Claro, que não!

O prefeito falou em congestionamento das ruas, citando que ele mesmo demorou mais de uma hora para chegar ao Parque do Povo, e que portões (da casa de shows erguida no lugar do “Forródromo”) tiveram que ser fechados. Ora, congestionamentos temos todos os dias – é uma realidade nossa. Os portões foram fechados porque houve uma limitação da livre circulação da população no Parque do Povo, já que o espaço público foi delimitado para o uso de camarotes, cercas e o equipamento, utilizado por patrocinadores, estranho a festa popular.

Temos que fazer mudanças em nosso São João. Por isso me juntei ao movimento “#Devolvam meu São João”, pois o que temos no Parque do Povo não é mais uma festa junina. Assim, transcrevo abaixo o texto do arquiteto e urbanista campinense Marcus Vinícius Dantas que sempre nos traz bons argumentos para nossas polêmicas municipais, a exemplo de quando a Prefeitura ergueu o monstrengo dos “150 anos de Campina Grande”. A propósito, Marcus Vinícius lançou o livro “Quem te vê não te conhece mais – Arquitetura e transformação na cidade de Campina Grande, 1930-1950” pela Editora da Universidade Federal de Campina Grande. A obra trata das mudanças sofridas pela cidade e como “investidas do poder público e da iniciativa privada romperam com formas anteriores de produção e uso da cidade instaurando novas estéticas...”.


"Tudo tão previsível! Faz anos que estão criando dificuldades para vender facilidades. E é óbvio que já têm a solução. Só precisam melhorar os argumentos para a remoção. Esse do congestionamento, usado para tudo, não se sustenta. Perguntas:
1) Será que o São João de Campina Grande precisa “crescer ainda mais”?

2) Caso sim, esse crescimento precisa ocorrer em que aspectos? Incentivo a quadrilhas, trios de forró, artistas da região, culinária, artesanato, arraiais de bairro e demais manifestações culturais locais? Ou incentivos a mega shows, CAMAROTIZAÇÃO do espaço público e atrações vinculadas às grandes empresas do show business nacional? Não foi exatamente a adesão a essa segunda opção que gerou o dito “estrangulamento” do parque? Porque, para isso, só o infinito resolve a “falta” de espaço.

3) Qual a dimensão pública que a prefeitura imagina para a festa, como manifestação cultural que se tornou um dos traços da identidade local?

4) Vale a pena abrir mão de um lugar que, por anos, recebeu investimentos públicos justamente para a realização desse evento? Com a privatização da festa ocorrida este ano, quem faria os investimentos para a construção de um novo espaço? E o que fariam do Parque do Povo caso deixe de receber o São João? Quais outros interesses existem para aquela região da cidade?

5) Campina Grande não teria outras prioridades para receber a atenção e os recursos públicos?

6) Vale a pena abrir mão da história e das memórias construídas ao longo do tempo no Parque do Povo? O Parque do Povo não é um dos elementos constituintes da identidade do Maior São João do Mundo? Talvez, esteja errado. E o tempo pode me mostrar o contrário. Mas, a partir de hoje, acho que tirar o São João do Parque do Povo é um tiro no pé. Senhor Prefeito, não é só uma questão de “congestionamentos” e quantidade$. Muitas outras questões estão vinculadas”.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Devolvam o meu São João


Em “Homenagem ao Malandro” Chico Buarque diz: “Eu fui fazer um samba em homenagem/ À nata da malandragem/ Que conheço de outros carnavais/ Eu fui à Lapa e perdi a viagem/ Que aquela tal malandragem/ Não existe mais”. Chico fala de como o capitalismo mudou o Rio de Janeiro.

Fui ao Parque do Povo, que conheço de outros São Joões, e perdi a viagem, pois aquele tal forró não existe mais. Eu fui ao Parque do Povo e sai de lá triste, pois não temos mais o “São João” e nem o “Forródromo”! O parque não mais pertence ao povo. A Prefeitura Municipal de Campina Grande vendeu, alugou, terceirizou ou seja lá qual foi a transação que permitiu que uma empresa montasse uma casa de shows fechada no lugar do arraial que tínhamos. Isso é muito grave! O São João é patrimônio imaterial do povo brasileiro. Ninguém pode adulterá-lo dessa forma arrogante visando unicamente atender interesses particulares.

Um amigo me enviou este cartaz com os eventos juninos da antiga casa de shows “Forrock” que havia em Campina Grande. No “Forrock” assisti shows memoráveis de Elba Ramalha, Zé Ramalho, Paralamas do Sucesso, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Fagner, Gal Costa. Teve um show inesquecível de Ray Conniff e The Platters e teve dois shows de Chico Buarque – um deles foi em 1989 quando votamos para presidente pela primeira vez depois da Ditadura Militar.

Quando vejo este cartaz com shows que já tivemos o que é tristeza se torna raiva, indignação. Revolto-me em saber que já tivemos Alceu Valença, Genival Lacerda, Assisão, Sivuca, Alcimar Monteiro, Flavio José, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Nando Cordel, Zé Calixto, Abdias e que hoje nos resta o lixo expelido pelo mercado da música. Sempre se poderá dizer que muitos desses já morreram. Mas, aqui falo bem mais da tradição e da cultura do que de nomes específicos.

Alcymar Monteiro, um herói da resistência forrozeira, disse que a música da sertaneja Marília Mendonça é “breganejo e porcaria”. É que Elba Ramalho, Chambinho do Acordeon e Joquinha Gonzaga lançaram a campanha “Devolva meu São João” criticando as festas juninas terem muito mais música sertaneja do que forró pé-de-serra. Marília Mendonça provocou a campanha num show em Caruaru dizendo que “vai ter sertanejo porque o povo quer”.

Alcymar lembrou que nordestinos sentem uma dor imensa pelos crimes que fazem com nossa cultura, como uma pornográfica versão de Asa Branca feita por um funkeiro. Se nossos forrozeiros não são chamados para cantar na “Festa do Peão de Barretos” porque deveríamos trazer a tal da “sofrência” para cá? Mas, o alvo das criticas não deve ser apenas os cantores sertanejos, mas sim quem os contrata. As prefeituras de tantas cidades nordestinas abusam do expediente de contratar atrações “da moda” sob a fajuta tese de que o “povo gosta”. E aqui entramos na seara da relação promiscua entre prefeituras e as tais “bandas de forró”.

Eu vivi a época do “Forrock” e ela foi muito boa! Bem vivi o tempo em que o “Forródromo” era um grande arraial. Íamos para o Parque do Povo, que era de fato do povo não de uma empresa que determina até o que se bebe e se come, para dançar forró, para nos divertirmos, para “brincar o São João” como diziam os mais velhos.


Tinha festa junina em vários locais da cidade, não havia essa centralização autoritária em torno de um evento fechado. Não tinha essa fuleiragem de “palco 360°” que não gira ou de cerca em volta do “Forródromo” como se fôssemos gado num curral. Nessa época padre não era celebridade e não fazia shows midiáticos disfarçados de romaria. Não havia inúmeras duplas sertanejas poluindo o ar com suas vozes insuportavelmente estridentes. Também não tinha funkeiros, cantores safados e safadões falando putaria a noite inteira.


Enfim, eu sou do tempo que tinha São João. Eu sou do tempo que nossa cultura e tradições eram respeitadas pelo poder público e que os prefeitos de Campina Grande não ousavam passar por cima da "autoridade" de Santo Antônio, São João e São Pedro. Por isso é que grito a plenos pulmões: “DEVOLVAM MEU SÃO JOÃO!”.



quinta-feira, 18 de maio de 2017

"Decime que se siente" - O Brasil e a teoria do fundo do poço




A celeridade e a agonia dos fatos dificultam o cumprimento do metiê do cientista político que é analisar o estado de coisas que nos cercam. Assim, vou elencando análises, opiniões, dados e informações relevantes para lidarmos com este momento. A teoria de que o fundo do poço, no Brasil, seria apenas uma etapa a se cumprir rumo ao infinito, as profundezas, parece mesmo crível.


A impressão que tenho é que chegamos a fase "fundo do poço" com o presidente da República, flagrado, incentivando alguém a seguir "comprando o silêncio" de um ex-deputado preso e com um senador, ex-candidato a presidente, pedindo para um empresário lhe dar dinheiro para ele se defender de acusações feitas nos vários inquéritos que tem que responder.


A medida em que a delação premiada de um dos proprietários da empresa JBS, Joesley Batista (JB), foi invadindo o noticiário, a partir de material vazado para o jornal O Globo (e já é tempo de perguntar quem, como e porque vazou?), fui analisando a questão a partir das consequências que podem se gerar. Em tempo, não precisa muito para deduzir que essa delação do JB é uma vingança por causa da "Operação carne fraca", um braço da Lava Jato, que atingiu em cheio os frigoríficos Friboi.


O tal JB disse que Aécio Neves lhe pediu R$ 2 milhões para pagar suas despesas com os inquéritos da Operação Lava Jato. Mas, se listarmos as acusações que pesam sobre o senador, essa do JB parecerá brincadeira de criança. Certo, Aécio Neves foi afastado do cargo e não é mais presidente do PSDB, está proibido de deixar o país, pessoas próximas a ele já estam presas, ele teve imóveis devassados pela Polícia Federal, o STF ainda não teve coragem de mandá-lo para cadeia, etc, etc, etc. Isso tudo pode, sabemos, dar em nada. Mas, e isso não é pouco, o senador viu seu capital eleitoral esvair-se em menos de 24 horas.


Falando em consequências, estive pensando nos sentimentos dos 50 milhões, 993 mil e 533 brasileiros que votaram em Aécio Neves para presidente da República em 2014. 
Como será que estes 48.35% dos eleitores estam se sentido agora que não podem mais se enganar, que não podem mais supor que votaram num homem íntegro, honesto, sincero? Como diriam os argentinos, "decime que se siente" agora que não mais poderás dizer, tal qual o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário, que não tens nada haver com isso pois votastes em Aécio Neves? Longe de querer tripudiar, falo como um dos quase 54,5 milhões de brasileiros que votaram em Dilma Rousseff e que bem sabem que ela não cometeu os crimes, que lhe foram imputados, e que serviram de justificativa para o processo de impeachment de 2016. 


Assista o vídeo acima! Nele vemos atores da Rede Globo como Ney Latorraca, Rosamaria Murtinho, Márcio Garcia, Marcelo Madureira emprestando suas famas para Aécio. Faltou Regina Duarte dizendo que estava com medo do PT e de Lula. Vemos cantores como Fagner, Sandra de Sá, Zezé di Camargo, Chitãozinho & Xororó, Bruno & Marrone, afirmando que Aécio é a melhor solução. Esportistas como Bernardinho, Zico, Anderson Silva, Oscar Schmidt destacam que Aécio representa o novo. Cada um tem o direito de ter opiniões e opções. As pessoas devem ter liberdade até mesmo para se enganarem! Mas, por favor, "decime que se siente!"



Esta charge explica a situação de uma forma que tivesse eu espaço para dez mil palavras e mesmo assim não o faria tão claramente. Após o jornal O Globo e o Jornal Nacional decretarem o fim do governo usurpado de Michel Temer, ao divulgar a delação premiada do JB, fiquei imaginando quanto tempo o presidente mais ilegitimo, desses anos de frágil democracia, permaneceria no cargo que legalmente pertence a Dilma Rousseff.

Imaginei que Temer resistiria mais uma semana se tanto. Seria o tempo hábil para a Rede Globo, e suas afiliadas oficiais e oficiosas, ruminar as denuncias forçando a renuncia. Passaram-se 24 horas e Temer segue dizendo que não renunciará. Mas, a essa altura ele já deve ter dito a D. Marcela para fazer as malas de volta a São Paulo.


É que o Supremo Tribunal Federal (STF) já autorizou abertura de inquérito contra Temer acatando a solicitação da Procuradoria-Geral da República (PGR). O que mais fazer depois que JB delatou que encontrou Temer (em 07 de março) para lhe dizer que seguia pagando o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha e do lobista Lúcio Funaro?


Inclusive, JB gravou a conversa e nela o ainda presidente diz: "tem que manter isso, viu?" se referindo a necessidade de dar prosseguimento ao mutismo de Cunha e do lobista. Temer resiste porque é preciso manter os fundamentos do golpe de 2016, do qual é simbolo maior. Temer sairá, sim, da presidência, mas só quando terminar de fazer o papel sujo ao qual se prestou de tão bom grado. Tal qual Eduardo Cunha, será cuspido fora assim que não mais for útil. 




O fato é que o conglomerado golpista desmoronou. Agora é cada um por si e o diabo por ninguém. Os setores poderosos da comunicação, como a Rede Globo, não parecem mais querer gastar preciosos minutos com matérias para inocentar os Aécios Neves que pululam por aí. 


O Judiciário faz o seu próprio jogo vislumbrando poder ter um dos seus no lugar de Temer. Falo da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia. É que com a renúncia (ou impeachment) de Temer e a impossibilidade dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, respectivamente o "Botafogo" e o "Índio" no esquema da Lava Jato, assumirem a presidência (devido aos inquéritos onde são réus), Cármen Lúcia seria a próxima na linha sucessória presidencial. Tudo com as bençãos do setor de comunicação do conglomerado golpista.


Lembra a história que diz que quando o barco começa a afundar os ratos são os primeiros a sair? No caso brasileiro, o barco, digo governo, é formado por ratos, ratazanas e demais corroedores das instituições politicas. O barco do governo golpista se encontra nas profundezas de um mar de lama sem fim e suas ratazanas mais pesadas anunciam que vão abandoná-lo.



O ministro da cultura, Roberto Freire (PPS), anunciou que vai deixar o governo Temer por causa da "revelação de que o presidente foi gravado dando aval para compra do silêncio de Eduardo Cunha". O ex-comunista descobriu, finalmente, que o governo que tanto contribuiu para montar é um grande barco cheio de ratazanas? Quanta ingenuidade!




O PSDB, com seu extinto de sobrevivência a flor da pele, está em permanente reunião desde o final da edição do Jornal Nacional da quarta-feira (17/05). A direção nacional já decidiu que Aécio Neves está por conta e risco, como se dizia antigamente, e que tem que deixar a presidência do partido. Não me parece que o grã-tucanato paulista esteja preocupado com as dores e o futuro político do senador mineiro.


Fernando Henrique Cardoso já emitiu o canto da sereia pela imprensa defendendo um mini-programa com viés golpista. A ideia é (1) PSDB entrega todos os cargos que tem no governo; (2) Temer renuncia; (3) Aécio Neves deixa presidência do partido e some das vistas tucanas; (4) num processo dos mais rápidos, teríamos uma eleição indireta no Congresso Nacional que escolheria um novo presidente. Imagine, as ratazanas da Câmara e do Senado escolhendo um presidente sem ter que se preocupar com seus próprios eleitores! Faltou apenas FHC propor a recriação do senador biônico dos tempos da ditadura militar.


Por que o PSDB defenderia uma eleição indireta? Elementar, porque se for disputar uma eleição direta contra Lula perderá, mesmo que seu candidato seja o Anjo Gabriel tendo o Papa Francisco como companheiro de chapa.


Por ora, resta-me pensar como cidadão, eleitor. Preciso perguntar o que é melhor para nossa sociedade e a resposta é só uma: PRECISAMOS DE UMA ELEIÇÃO DIRETA JÁ, AGORA!, pois o que as ratazanas querem é diametralmente oposto e diferente do que nós, ratinho sem eira nem beira, queremos.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Como terminou o FLA X FLU de Curitiba?



Se o embate proposto pela Revista Veja, entre o Juiz Sérgio Moro e o ex-presidente Lula, é crível (não é, pois Veja deixou de ser uma publicação séria e confiável); se resumiremos a política nacional ao enfrentamento entre dois homens ideologicamente opostos; se vamos tratar o depoimento que Lula prestou, na semana passada em Curitiba, como um FLA X FLU; se vamos ver a situação pelo monocromatismo que a Rede Globo impõem então, sim, a relação abaixo pode ser tratada como (SIC) “os melhores momentos do depoimento de Lula ao Juiz Moro”.

Na verdade, tivemos uma espécie de programa piloto, um balão de ensaio, montado pelo próprio Moro e seus procuradores amestrados. É que, na hipótese de nada mais dar certo, está aberta a temporada de buscas ao anti-Lula para as eleições 2018 já que Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, et caterva ficaram inviabilizados por envolvimentos nos mais sórdidos casos criminais.

Claro, Marina Silva poderá ressurgir do fundo da floresta onde se esconde quando não está sentada em cima do muro. Em que pese suas contradições, como ser “representante do povo carente” e defender reformas da previdência e trabalhista, ela pode ser uma via para o conglomerado que usurpou o cargo de Dilma Rousseff. Pode, mas não será, pois a elite quatrocentona não quer ter alguém de origem humilde como sua candidata. Como diria o velho Marx, é uma questão de classe social!

Sim, Jair Bolsonaro pode chegar num 2º turno contra Lula. Não seria interessante ver o conglomerado golpista apoiando o filhote da ditadura, como nos diria Leonel Brizola? Já pensou os liberais modernosos de São Paulo defendendo nosso Hitler redivivo para impedir a volta de Lula ao Palácio do Planalto? Com Bolsonaro viabilizado para as urnas as máscaras vão cair. O que vai fazer a Rede Globo, por exemplo, apoiar Lula, adotar o verde oliva como cor oficial ou ignorar as eleições?

Se o poder (discricionário) da República de Curitiba não conseguir enquadrar Lula, se não o condenar em segunda instância para torná-lo inelegível, e se os planos de adiar as eleições 2018 para 2020 (ou mesmo 2022) não vingarem, restará ao conglomerado golpista (demolidor das instituições políticas e dos direitos sociais e trabalhistas) procurar alguém que posso enfrentar Lula nas urnas. Foi por isso que Moro promoveu o enfrentamento contra Lula. Foi um teste que o emplumado juiz se propôs a participar tentando demonstrar para o conglomerado que pode ser o anti-Lula em 2018. A tirar pelas respostas de Lula, pelo comportamento titubeante, fugindo das réplicas e tréplicas, e pela atitude pusilânime Moro foi reprovado no vestibular pré-eleitoral que o PSDB vem promovendo.

Aliás, outros ainda serão reprovados. Falo do prefeito João Dória Jr. e do animador de auditórios Luciano Huck. Numa entrevista à Folha de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso os apresentou como o que há de mais “novo no cenário político”. Dória e Huck são, isto sim, o velho com roupagem modernosa. Representam a absoluta falta de opção eleitoral de um PSDB enclausurado num sistema carcomido por práticas corruptivas das quais é useiro e vezeiro.

De Luciano Huck basta dizer que a tática de se mostrar novo, por não ser político, é velha, pois fascistas italianos e nazistas alemães chegaram ao poder como avessos a política. O garoto propaganda da Rede Globo quer ser aprovado no vestibular pré-eleitoral do PSDB promovendo “políticas sociais de auditório”, como nos tem dito Dilma Rousseff, e se mostrando boa pessoa com um bom-mocismo forjado nos bastidores globais? Como alguém que tenta na justiça ser dono de uma praia pode querer ser o presidente da República, mesmo que seja a brasileira?

Dória não é o novo em nada! Com aquele visual yuppie dos anos 1980 mais parece um iogurte, numa arrojada embalagem, com data de validade vencida. Dória foi a Nova Iorque oferecer São Paulo como “oportunidade de negócios para investidores”. Na terça-feira (16/05) recebeu o prêmio “Person of the Year” da Câmara de Comércio Brasil-EUA e nos provou que é tão velho quanto políticos da antiga ARENA ao reproduzir ideias do proto-fascista “Escola sem Partido”. Dória disse que o ensino brasileiro tem “conceito de ideologia e sentimento partidário”. Empolgado pelo nacionalismo estúpido que grassa o Brasil, bradou: "Minha bandeira não é vermelha. É verde e amarela".

Em 1989, o então candidato a presidente Fernando Collor tinha um discurso parecido. Certa vez pediu um "não definitivo à bandeira vermelha (...) vamos dar sim à bandeira do Brasil que é verde, amarela, azul e branca". Por aí se vê que não existe nada de novo em Dória e Huck, como não havia em Collor, pois são todos formados na mesma escola político-ideológica dos tempos da ditadura.
Apresento a lista dos dez melhores momentos da “luta do século” e lembro que ela é uma seleção feita a partir do que saiu na imprensa e nas redes sociais, pois o depoimento de Lula durou cerca de cinco horas. No entanto, ela me parece representativa das fragilidades intelectuais do Juiz Moro e da capacidade do ex-presidente Lula de lidar com situações adversas.

Lula: O Dallagnol não está aqui. Eu queria o Dallagnol aqui para me explicar aquele PowerPoint.
Sérgio Moro: Senhor ex-presidente, preciso lhe advertir que talvez sejam feitas perguntas difíceis para você.
Lula: Não existe pergunta difícil para quem fala a verdade.
Moro: Esse documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura, o senhor sabe quem o rasurou?
Lula: A Polícia Federal não descobriu quem foi? Não? Então, quando descobrir, o senhor me fala, eu também quero saber.
Moro: O senhor não sabia dos desvios da Petrobras?
Lula: Ninguém sabia dos desvios da Petrobras. Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o Ministério Público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef.
Moro: Mas eu não tinha que saber. Não tenho nada com isso.
Lula: Tem sim. Foi o senhor quem soltou o Youssef. O senhor deve saber mais que eu [referindo-se ao escândalo do Banestado].


Moro: Saíram denúncias na Folha no jornal O Globo de que…
Lula: Doutor, não me julgue por notícias, mas por provas.
Lula: Esse julgamento é feito pela e para a imprensa.
Moro: O julgamento será feito sobre as provas. A questão da imprensa está relacionada a liberdade de imprensa e não tem ligação com o julgamento.
Lula: Talvez o senhor tenha entrado nessa sem perceber, mas seu julgamento está sim ligado a imprensa e aos vazamentos. Entrou nessa quando grampeou a conversa da presidente e vazou, conversas na minha casa e vazou, quando mandou um batalhão me buscar em casa, sem me convidar antes, e a imprensa sabia. Tem coisas nesse processo que a imprensa fica sabendo primeiro que os meus advogados. Como pode isso? E, prepare-se, porque estes que me atacam, se perceberem que não há mesmo provas contra mim e que eu não serei preso, irão atacar o senhor com muito mais força.
Moro: Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque roubava a Petrobras?
Lula: Doutor, o filho quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: “Pai, tirei nota vermelha”
Moro: Os meus filhos falam.
Lula: Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho.
Lula: Doutor Moro, o senhor já deve ter ido com sua esposa numa loja de sapatos e ela fez o vendedor baixar 30 ou 40 caixas de sapatos, experimentou vários e no final, vocês foram embora e não compraram nenhum. Sua esposa é dona de algum sapato, só porque olhou e provou os sapatos? Cadê uma única prova de que eu sou dono de algum tríplex? Apresente provas doutor Moro?
Moro: O senhor solicitou à OAS que fosse instalado um elevador no tríplex?
Lula: O senhor está vendo essa escada caracol nessa foto? Essa escada tem 16 degraus e é do apartamento em que eu moro há 18 anos em São Bernardo. 18 anos a Dona Marisa, que tinha problema nas cartilagens, passou subindo e descendo essa escada. O senhor acha que eu iria pedir um elevador no apartamento que eu não comprei, ao invés de pedir no apartamento em que eu moro, para que a Dona Marisa não precisasse mais subir essa escada?
Lula: O vazamento das conversas da minha mulher e dela com meus filhos foi o senhor quem autorizou.
Moro: Tem um documento aqui que fala do tríplex…
Lula: Está assinado por quem?
Moro: Hmm… A assinatura está em branco…
Lula: Então, o senhor pode guardar por gentileza!

Minha lista de blogs

Pesquisar este blog

Arquivo do blog


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Translate

Um dia qualquer numa sala de aula qualquer

Um dia qualquer numa sala de aula qualquer

PROFESSOR ANTI FASCISTA, PELA LIBERDADE E PELA IGUALDADE.

PROFESSOR ANTI FASCISTA, PELA LIBERDADE E PELA IGUALDADE.

FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA

FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA
OS CANHÕES DE NAVARONE. (Inglaterra, 1961). Diretor: J. Lee Thompson

Seguidores

Powered By Blogger