quarta-feira, 8 de abril de 2020

LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA

Estamos na 3ª semana de isolamento social e já é hora de lermos sobre o que nos faz ficar em casa, pois uma de nossa tarefas é fugir da ignorância que nos assola. "CORONAVIRUS E A LUTA DE CLASSES" (2020), Editora "Terra sem Amos", é uma tradução de Alain Badiou para a obra “Sobre la situacion epidêmica” e traz artigos úteis para fugirmos de uma visão falso moralista da crise do Coronavirus.

Artigos de David Harvey e Slavoj Žižizek, por exemplo, são úteis para nos libertarmos de coisas como: “só está acontecendo por que Deus quer” ou “isso é uma vingança da natureza sobre os seres humanos”, apesar de que em certo sentido parece mesmo ser isso, também.

Os autores não tratam de casualidades e explicam, dentre outras coisas, qual classe social sofre mais com o vírus e qual chega até a se beneficiar com e dele. Em “Coronavírus: a militarização das crises”, Raúl Zibechi fala da onda de autoritarismo mundo afora, com governos inimigos da democracia, porém eleitos, dizendo que precisam endurecer seus regimes para combaterem o vírus.

Em “A crise do Coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo”, Mike Davis nos dá a dica do livro “The Hot Zone” (1995) de Richard Preston, publicado no Brasil com o título “A ZONA QUENTE” pela Editora Rocco. Preston fala de como de uma caverna na África Central, empestada de morcegos, surgiu o “demônio exterminador”, ou seja, o Ebola. 

O livro de Preston deu origem a série “Zona Quente”, produzida por Ridley Scott, diretor do clássico da ficção científica “Blade Runner - O caçador de androides” de 1982. Essa minissérie foi exibida no canal National Geographic em 2019. 

E já que o assunto é este, segue dicas de filmes que tratam de pandemias como o Coronavírus.

“PANDEMIA” (Netflix, 2020) - O papel de médicos e cientistas que buscam a solução dos grandes surtos.

“CONTÁGIO” (de Steven Soderbergh, 2011) - Trata da proliferação de um vírus transmissível pelo ar. A epidemia se espalha e médicos buscam encontrar a cura enquanto o pânico avança mais rápido que o vírus, desmontando a sociedade.

“FLU” (Netflix, 2013) - Explora as consequências para uma cidade, na Coréia do Sul, obrigada a entrar em quarentena por causa de uma doença letal.

sábado, 4 de abril de 2020

O Golpe de Bonaparte XVII

À pergunta se vamos ou não ter golpe, responderia sim e não, pois podemos ter mais um golpe de Estado a qualquer hora e podemos nem mais precisar de um, posto que há muito abrimos mão da democracia que para nós foi “sempre um lamentável mal entendido”, como diria Sérgio Buarque de Holanda. Discordo dos que dizem ser  improvável, mas não impossível que tenhamos um golpe em 2020, pois numa república bananeira, empestada de vírus e vermes, golpes são prováveis e possíveis como o sol parido a cada novo dia.

Em 1992, quando se soube que Collor sofreria o impeachment, a pergunta que se fazia era se teríamos um golpe. Só depois é que se pensava se Itamar Franco, o vice, assumiria. Às vésperas da posse de Lula para seu 1º mandato era corrente a dúvida de se os militares o deixariam subir a rampa do Planalto. Nos governos de Dilma Rousseff a pergunta não era se os militares a deporiam, mas quando. E vejam que nem falo do ritual golpista, no século XX, regiamente cumprido com ou sem eleições. Fôssemos uma república assentada nos princípios do federalismo e da democracia e não faríamos essas perguntas.

Quando um inimigo da democracia, adulador de torturadores, ocupa o Palácio do Planalto e, ensandecido, tenta instituir sua própria ditadura, cabe mesmo perguntar se teremos um golpe. Há uns dias um bajulante José Luiz Datena perguntou a um cáustico Bolsonaro se 
ele pretendia dar um golpe e fechar o país. A resposta foi quase um sim: “Quem quer dar golpe jamais vai falar que quer dar”. Se vivemos em uma democracia porque se pergunta tanto sobre golpes? O presidente falastrão só não deu um golpe de Estado ainda porque os militares parecem só aceitar subir nos tanques se for para depô-lo.

Postei no Twitter, em tom de pilhéria, que temos que declarar Bolsonaro incapacitado e tirá-lo do governo antes que babe, rasgue dinheiro e se auto nomeie Napoleão Bonaparte XVII. Pelo andar do tanque de guerra, digo da carruagem, o deboche pode ser real, pois segundo a jornalista Thaís Oyama, autora do livro Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, o antipresidente está à beira de um ataque de nervos. Oyama diz que ele chega a chorar no expediente, afirmando que mundo está contra ele.

A Folha de São Paulo pediu a psicanalistas uma análise do atormentado presidente e o resultado é apavorante. Os especialistas apontam, numa personalidade teatral e histérica, questões como insegurança, lógica paranoica, messiânica e delirante, narcisismo desmedido, agressividade, além do sentimento de onipotência e da ideia do “eu sozinho” contra o mundo. Assim temos um governante “psicopatologicamente acometido” e eu acrescentaria a esse “diagnóstico” uma perversidade de chefe de campo de concentração. Isso tudo agrava a situação política e soma mais um argumento ao fato de que Bolsonaro não reúne mais as condições objetivas para seguir na presidência.

Com os feitos e defeitos do presidentizinho (para quem coronavirus é uma “gripezinha”), quem neste país réprobo já não perguntou aonde andam os militares que não dão um golpe e botam essa delinquente da lei, da ordem e do bom senso na rua? O caro leitor se assustou em desejar um golpe de Estado para que, finalmente, nos livremos do fascista celerado e seus filhos ardilosos? Desculpe-me ser o portador da má notícia, mas é que, para nós, querer golpe é como o desejo de comer chocolate, todo mundo tem ou vai ter.

Sim, este facínora, que não poderia ser eleito, já deveria ter sido chutado da presidência. O conglomerado golpista de sempre não pestanejou em depor João Goulart e Dilma Rousseff do poder, por que, agora, se revestiria de tantos pruridos aparentemente democráticos? O que ainda parece sustentar o caviloso na presidência é o fato de Mourão não inspirar credibilidades na caserna mesmo com essa moderação que até os pombos candangos sabem ser falsa. Mourão é mesmo da tradição da linha dura do Exército. Quem não lembra dele em 2015 pedindo intervenção militar para depor Dilma? Sem contar que o alto comando das Forças Armadas, que gosta do poder mas detesta governar, não quer assumir o país - é que o Exército ainda lida com o ônus de ter governado nos 21 anos da ditadura.

Na Ordem do Dia Alusiva ao 31 de Março de 1964, os chefes das Forças Armadas dizem que cumprem “sua missão constitucional e estão submetidos ao regramento democrático”. Paradoxalmente, ao tempo em que fazem lembrar de um golpe de Estado, falam em defender a democracia. Os militares dão uma no cravo, ao se colocarem como guardiões da democracia que nunca tivemos, e outra na ferradura, quando se põem a postos para qualquer eventualidade que passe ao largo dos procedimentos democráticos.

Na verdade, os militares preferem mesmo é malhar a ferradura, pois quando o inominável presidente convocou seus apoiadores para irem às ruas, no 15 de março, pedirem o fechamento do Congresso Nacional, o Clube Militar do Exército publicou um comunicado anunciando o apoio da instituição ao ato, numa clara demonstração que quando os militares se mobilizam politicamente não é para defender a democracia. A Mafalda do Quino já diria que não se salva a democracia com golpes.

Concordo com Priscila Perazzo, doutora em História Social pela USP, que diz que os “ideais autoritários refloresceram (...) a população legitima um governo forte, armado, opressor, de ideias únicas impostas. A ditadura já está na população. Agora só falta ser implantada no governo”. A prova disso é que desde 2013 não há uma única manifestação, dessas onde se usa a liberdade de expressão para pedir o fim da democracia, onde não se queira intervenções militares e a instituição de uma ditadura. No surto antidemocrático do 15 de março ficou evidente que parte da sociedade até aceita ficar sem o seu Hitler de meia tigela, mas não abre mão de um retorno a uma ditadura militar.

O conglomerado golpista receia que numa possível renúncia/deposição do aviltador mor da república, a esquerda possa assumir após uma futura eleição. Entre o Bozo surtado e Lula fazendo reformas, para diminuir a desigualdade social, com quem você acha que a elite fica? A direita se pergunta com que roupa irá na próxima eleição, se é que teremos uma, pois seus quadros foram todos detonados, Aécio Neves que o diga. Assim o conglomerado irá mesmo é de golpe e ditadura, afinal é para isso mesmo que ele existe.

Finalizo esta coluna lendo matéria da Revista FORUM dando conta que o La Reppublica fala em golpe branco no Brasil e confirma Braga Netto como “presidente operacional” no lugar de Bolsonaro. O jornal italiano fala de um “suposto golpe de estado” e que o chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, seria o “presidente operacional” após acordo entre ministros, comandantes militares e o próprio Bolsonaro para que o mesmo se afaste das decisões sobre tudo que se relacione a pandemia do Coronavírus. Braga Netto seria uma espécie de primeiro ministro militarizado. Duvido que Bolsonaro tenha aceitado de bom grado passar adiante suas funções, se o fez foi premido por algum tipo de força exercida sobre ele, ou seja, ele foi golpeado! Presidente Operacional seria o eufemismo de quem vai de fato, não de direito, desempenhar as funções de governante.


Segundo o La Reppublica, ele “terá a direção e centralização de toda a administração do governo enquanto durar a crise do coronavírus com o título de Chefe do Estado Maior do Planalto”. Dito de outra forma, Braga Netto seria uma espécie de presidente de uma junta militarizada que governaria a partir de uma intervenção silenciosa. Neste caso, Bolsonaro figuraria num misto de rainha da Inglaterra com bobo da corte.
A se confirmar a informação, minha resposta para a pergunta se teríamos ou não um golpe está dada. Os militares parecem ter encontrado a solução para o mega impasse gerado (1) pela recusa de Bolsonaro em renunciar, diante do fato de que ele não tem mais condições legais nem legitimidade para governar; (2) pelo fato de Mourão não ser bem visto e nem aceito; (3) pelas impossibilidades de se mover um processo de impeachment neste momento, por causa da crise do coronavirus; (4) por causa de o alto comando das Forças Armadas não querer mais um Golpe de Estado em seu currículo intervencionista. Um “golpe branco” solucionaria todo esse impasse, mas só por enquanto. A médio e longo prazo ele só serve para que fiquemos cada vez mais longe da democracia.



PS: A cientista política Anna Lührmann é vice-diretora do Instituto de Variações da Democracia da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. O V-DEM afere a qualidade da democracia no mundo. À Folha de São Paulo, Lührmann diz que a crise do coronavírus vai acelerar onda autoritária no mundo. Suas conclusões são pavorosas para quem gosta da liberdade. O último levantamento do V-DEM mostra que em 179 países, 87 são democráticos e 92 são. A cientista política fala que num quadro de crise econômica, com recessão, “pode aumentar o apoio a líderes autoritários e populistas”. Ela cita Hungria e Polônia, onde governos inimigos da democracia, porém eleitos, aceleram a onda de autoritarismo se valendo do argumento de que é preciso combater o coronavírus. As democracias consolidadas têm instrumentos, como o “Estado de Emergência”, para lidar com crises, catástrofes naturais ou não e pademias. Já as ditaduras e arremedos de democracia se valem desses momentos para acelerar a centralização do poder, a neutralização da oposição e da imprensa, além de lançar mão de coisas como censura.

terça-feira, 31 de março de 2020

Da Série: "LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA"


Em "O PAPA DE HITLER - A HISTÓRIA SECRETA DE PIO XII" de John Cornwell, Editora Imago (2000), temos um relato sobre Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, que reinou de 1939 a 1958, contribuindo para que o 3º Reich se alastrasse pela Europa e praticasse a "Solução Final".

A obra surgiu do desafio dos alunos de Cornwell que queriam que ele provasse ser injusto o epiteto de “Papa de Hitler” dado a Pio XII. O autor lançou-se em uma pesquisa, pois não acreditava que alguém, em nome de Deus, pudesse fazer coisas tão terríveis. O resultado da salutar provocação é um livro embasado em documentos que faz o leitor acreditar que Pacelli era, sim, o “Papa de Hitler”.


Pio XII fez acordos com Hitler que ajudou a alastrar o poderio da Alemanha nazista pela Europa e ofereceu facilidades para que judeus fossem levados ao extermínio. Ele tinha especial predileção pelas ditaduras fascistas e via Hitler como um enviado de Deus para acabar com o comunismo. Ele mesmo sabia que alimentava um monstro, mesmo assim foi em frente em sua cruzada moralista, tal qual fizeram os cristãos fundamentalistas brasileiros ao elegerem o anticristo que coloca o “Brasil e Deus acima de todos de tudo”.


Este livro mostra o triste papel da Santa Sé nos terríveis anos da 2ª guerra mundial. Relata, por exemplo, a criação das “linhas de ratos” que facilitavam a fuga de criminosos de guerra nazistas da Europa para a América do Sul. Enquanto lia o “Papa de Hitler”, descobria os crimes de Pacelli e dava graças a Deus ter deixado o catolicismo quando ainda era adolescente.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Mas, afinal o que é um golpe de Estado?



O golpe civil-militar de 1964 faz 56 anos, mesmo que sua ditadura tenha acabado a 35 anos. Acabou? Dilma Rousseff foi deposta por um golpe de Estado que fez erigir das urnas um governo inimigo da democracia. Isso não me autoriza afirmar que vivemos numa ditadura, mas daí dizer que este sistema de procedimentos democráticos leves, ancorados em entulhos autoritários, é algo bom vai longa distância. Mas, afinal, o que é um golpe de Estado?

Um bom conceito de golpe de Estado tem que apontar os protagonistas da articulação e da ação golpista, os meios excepcionais utilizados e os fins que o justificariam. É que golpes são a manifestação da estrutura que não aceita o resultado das urnas. Isso ocorreu em 2016: os perdedores de 2014 recorreram a um golpe para desfazer o resultado das urnas.

O cientista político Edward Luttwak diz que: “Golpes podem operar na área externa do governo, mas dentro do Estado”. Os golpes não são dados por alienígenas inimigos da democracia, mas por agentes do Estado para depor um governo legal e/ou legitimo. Foi assim que se deu o golpe no Chile em 1973. Hoje, eles são promovidos pelos poderes legislativo e judiciário. Em 2016, um conglomerado golpista apeou do poder uma presidenta eleita. Assim como em 1964 que militares, respaldados no Congresso e no STF, com apoio de parte da população e dos EUA, derrubaram um presidente eleito.

Não tivemos golpes “puro sangue”, pois eles contam sempre com o apoio e articulação de setores da sociedade civil e com a força das armas militares. Em geral, civis começam as articulações para só então baterem às portas dos quarteis. Gostamos de supor que golpes são dados por enfurecidos militares insubordinados. Não, eles são lançados pela elite política e empresarial do país. São os “controladores do poder” que decidem quem e como governa. 


O golpe de 1964 se deu pela tensão entre democracia e mudanças sociais. A direita acreditava que pela democracia se chegaria às mudanças, por isso o golpe. A esquerda defendia que só se faz mudanças pondo fim a democracia. O confronto destruiu as instituições e ficamos com democracia inexistente e nenhuma reforma social. O que a tragédia de 1964 e a farsa de 2016 têm em comum é a descrença que nutrimos da democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas.


terça-feira, 24 de março de 2020

Da Série: "LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA"


Em tempos de isolamento social, por causa da PANDEMIA, uma dica de leitura que vem bem a calhar é "A PESTE" de Albert Camus, numa tradução de Graciliano Ramos. Este livro foi publicado no Brasil pela histórica LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA em 1973.

A cidade de Oran, uma possessão francesa na costa da Argélia, norte da África, é atingida pela peste bubônica. De repente, ratos começam a morrer aos montes. Rapidamente, a população da cidade é atingida. Camus fala como é viver numa cidade sitiada pela peste. 
São vários personagens, cada um com suas Idiossincrasias, vivendo as angústias de um tempo difícil. É o editor quem diz: “Na cidade sitiada pela peste, pequeno mundo fechado em si mesmo com um sem número de problemas pessoais associados ou paralelos aos problemas de toda a coletividade...”. 
É impossível, não associar Oran, conflagrada pela peste, com o mundo em que vivemos sitiado pelos dois vírus mais perigosos dos dias de hoje: o coronavirus e a ignorância.


Na mesma direção de “A PESTE”(de como reagimos às tragédias sociais e pessoais) temos Franz Kafka, um dos escritores mais relevantes do século XX, nascido na Tchecoslováquia em 1883, mas que escrevia em alemã, talvez porque pudesse via a concordar com Caetano Veloso que diz na música “Língua”: “Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção, está provado que só é possível filosofar em alemão”. 
Sugiro, então, a coletânea, lançada pelo editora Civilização Brasileira, em 1969, com as três mais importantes histórias de Kafka, onde realismo e absurdo são os dois lados de uma mesma moeda para que se explore a atormentada alma humana.

“METAMORFOSE” - A história apavorante de Gregor Samsa, que acorda transformado em um inseto, onde Kafka usa a metáfora do homem sendo “insetizado” para tratar dos nossos maiores medos e dilemas.

“O ARTISTA DA FOME” - Fala de um homem que vive de jejuar e que pretende bater seu próprio recorde de fome. Mas, porque num mundo onde tanta gente passa fome, devido as desigualdades sociais, alguém seria um faminto por opção?

“NA COLÔNIA PENAL” - Num lugar terrível, onde os condenados são submetidos a um aparelho de tortura que não poupa ninguém, inclusive o homem que o inventou, Kafka fala da opressão a que todos nós podemos ser submetidos.


Outra dica interessante é “BANDIDOS” de Eric Hobsbawm lançado no Brasil pela Editora Paz e Terra. Num tempo em que é comum se achar que “bandido bom, é bandido morto”, Hobsbawm nos mostra como tratar o banditismo numa perspectiva social. 
Aqui, ele é um campo de pesquisa para nós, historiadores, com uma perspectiva que “o coloca no contexto do poder, da política, e do controle por parte dos governos e do Estado”. 
Neste livro, Lampião e os cangaceiros, Pancho Villa e os revolucionários, Robin Hood e os que “tiravam dos ricos para dar aos pobres”, além dos despossuídos de sempre, não são bandidos comuns, são rebeldes em potencial. Eles são o “elemento social que, estando fora do alcance do poder e sendo ele mesmo detentor de poder, resiste a obedecer.


A dica “bônus track” é o disco “FRANCISCO” de Chico Buarque de 1987, lançado
pela RCA. Hoje, é o aniversário de minhas filhas, que nasceram no mesmo dia, mas em anos diferentes, e eu acordei cantando a música “As minhas meninas” que é desse disco, pensando que as minhas meninas, não são minhas. 
Chico teve três filhas e eu tive duas. Sempre convivemos com muitas mulheres e as coincidências param por aqui, pois ele dedicou atenção especial em sua obra ao
universo feminino, escrevendo músicas em que as mulheres falam o que sentem. “AS MINHAS MENINAS” é a constatação que “As meninas são minhas / Só minhas na minha ilusão”.
Neste disco tem uma das mais belas canções de Chico Buarque que é “LUDO REAL”, feita em parceria com Vinicius Cantuária, pois Chico não é “apenas” o melhor compositor da MPB, é também grande músico.

Vale prestar atenção na letra da música “O VELHO FRANCISCO” que fala desse nosso passado inglório de escravidão e monarquia: “Fui eu mesmo alforriado/ Pela mão do Imperador / Tive terra, arado / Cavalo e brida / Vida veio e me levou”.
Muita interessante, é “BANCARROTA BLUES” sobre como tudo pode ser ou não uma mercadoria, num sistema onde tem pessoas mais preocupadas com a lei da oferta e da procura do que com a vida.

quinta-feira, 19 de março de 2020

E assim se passaram 56 anos


O golpe civil-militar de 1964 completa 56 anos. Sei que é difícil relacionar um passado, que já vai distante, com um presente que nem sempre entendemos. Deixe-me tentar, então, demonstrar que muito do que somos e fazemos se relaciona com esse passado onde quase ninguém acreditava no que muitos dizem não querer mais. Falo de DEMOCRACIA.

O golpe de 1964 se deu porque não se apoiava a democracia. No Brasil, era (ainda é) usual a ideia de que crises se resolvem com saídas de força. O ato golpista se consumou quando generais colocaram tanques e soldados na rua e o presidente eleito João Goulart foi deposto e mandado para fora do país. 


A ditadura foi se instituindo aos poucos. Numa primeira etapa de instalação tivemos o Ato Institucional nº 02 com o bipartidarismo da ARENA governista e do MDB oposicionista. Mas, que ditadura aceitaria um partido lhe fazendo oposição? Essa era uma das estratégias para que se tivesse a impressão de que o óbvio não era ululante. Inclusive, dizia-se que o MDB era o partido do sim e a ARENA do sim, senhor!

O multipartidarismo desideologizado e oligarquizado que temos é fruto desse bipartidarismo autoritário, pois aquele sucedeu este sem um processo de reorganização. Em 1965 se impôs eleição indireta e passamos 24 anos sem votar para presidente. Votar é como andar de bicicleta, não pare senão cai. Em 1967 aprovou-se uma nova Constituição que era o somatório dos atos e decretos editados desde o golpe e dos interesses dos grupos no poder.

A Constituição de 1988 herdou itens do ordenamento jurídico da ditadura. O Artigo 142 dá aos militares prerrogativas que eles só possuíam para reprimirem seus inimigos. Como não confiamos na democracia, convivemos com procedimentos democráticos e entulhos autoritários. Aprendemos bem as lições da ditadura!

Em 1967 o Gal. Costa e Silva assumiu o poder e a esquerda revolucionária iniciou as ações armadas contra o regime, expropriando bancos em São Paulo. Em 1968 explodiram os protestos estudantis nas grandes cidades. Foi o tempo de fazer a hora e não esperar acontecer. Muitos pegaram em armas para fazer a revolução. Outros para impedir que ela acontecesse.

Em dezembro de 1968 os militares impuseram a ditadura total com o AI-5 que vetava até conversa em público. Nossos avós e pais eram proibidos de votar e não puderam nos ensinar como se faz. É por isso que hoje elegemos de tudo, até um boçal fascista.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Da Série “LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM A MINHA CABEÇA”

Você tem todos os discos, em vinil e em CD, filmes e a Antologia dos Beatles? Têm livros, inclusive a biografia “The Beatles”, de Bob Spitz, que tem quase 1.000 páginas e começa falando do bisavô de John Lennon e, claro, já a leu e pretende lê-la novamente? Você tem posters emoldurados dos Beatles e acha mesmo que Yoko Ono poderia nunca ter saído do Japão? Mesmo achando aqueles terninhos ridículos, você não quer nem saber e adora a primeira fase romântica dos Beatles? Você não admite que digam que Ringo Star era a morsa que Lennon falava em Am The Walrus?

Você diz que George Harrisson era o melhor dos Beatles, o mais espiritualizado? Você discute horas a fio quem era o melhor letrista e o melhor guitarrista dos Beatles? Sabe dizer quem de fato compôs Yesterday, Strawberry Fields Forever ou Hey Jude, se Lennon ou McCartney? Já assistiu um show de Paul McCartney, aqui no Brasil, e chorou feito um bebê quando ele cantou “Close your eyes and I'll kiss you / Tomorrow I'll miss you....”?

Se você respondeu SIM para essas perguntas, bem-vindo ao clube, você é um beatlemâniaco! Por isso mesmo precisa ler "THE BEATLES - A HISTÓRIA POR TRÁS DE TODAS AS CANÇÕES" de Steve Turner, da editora Cosacnaify, lançado no Brasil em 2005 com tradução de Alyne Azuma. Pronto! Não precisa dizer mais nada, só um fanático pelos Beatles quer saber detalhes pormenorizados de como todas as letras foram compostas, quem de fato as escreveu, como as músicas foram feitas e produzidas. 

A ideia do autor é saber o que inspirava os Beatles a compor sua obra. É Steve Turner quem diz que o livro trata do “onde, como e porquê das composições e tenta rastrear o caminho da inspiração até a fonte”. O livro não tem a intensão de revelar o que os Beatles queriam “realmente dizer” em suas canções. Turner não revela, finalmente, se John Lennon escreveu Lucy In The Sky With Diamonds inspirado num desenho de seu filho, e numa viagem de LSD, ou as duas coisas. 

O autor quis, “apenas”, contar como surgiram as canções. Esta é a beleza do livro, ele não quer quebrar a magia das músicas com revelações que causariam algum tipo de decepção. Something, Golden Slumbers, Penny Lane, Here Comes The Sun, e todas as 208 músicas dos Beatles, têm um sentido bem maior do que possa prejulgar nossa vã filosofia.

sexta-feira, 13 de março de 2020

A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA


Como assim?! Existe uma esquerda que a direita gosta?! Logo essa direita brucutu que odeia com suas extremadas forças a esquerda verde-amarela, digo vermelha? Se ela não gosta dos liberais, a la FHC, o que dirá dos “esquerdopatas”? Se a destra local não gosta dos “indecifráveis” por que aceitaria a sinistra?[1] Dizia Darcy Ribeiro, exagerando, que o “PT é a esquerda que a direita gosta”. Luiz Carlos Prestes dizia que a esquerda “não lutava pelo fim da desigualdade por crer num capitalismo bonzinho, sem contradições”. Fosse eu destro não desgostaria dessa esquerda simpática ao capitalismo. Hoje, parte da esquerda tupiniquim desistiu de lutar pelo socialismo, se é que tentou, por achar ser possível humanizar o capitalismo. Poderia seguir sendo gostada pela direita? Sim, se a direita não fosse tão bronca a ponto de não aceitar políticas públicas que geram crescimento e desenvolvimento. 
Alguns fazem o jogo da direita rústica, mesmo sem ser seus queridinhos. Por interesses, estratégicas, táticas, ou seja lá pelo que for, são os que nas eleições maximizam lucros e minimizam perdas ao evitar alianças com os que lhes são próximos. São os “puros de alma”, cheios de boas intenções, sempre abertos ao diálogo com Deus e o diabo.  Desde as eleições de 2018, com a vitória da direita extremosa, que se fala do comportamento egoísta de uns propiciando a derrota de Fernando Haddad e da esquerda. Poderíamos ter melhor sorte se Marina Silva, sempre esquiva, tivesse deixado de lado seus paradoxos e se aliado a Haddad. Tivesse Ciro Gomes, curado de seu orgulho de “cabra macho”, ido ao ato no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que antecedeu a prisão de Lula, e tudo poderia ser diferente.

É fato que Lula queria uma chapa com Ciro candidato a presidente e Haddad vice. Mas, Ciro rejeitou, lançou chapa com a senhora do agronegócio, Katia Abreu, e, não satisfeito, abriu fogo contra o candidato fascista e contra Haddad como se ambos fossem iguais e ele diferente e melhor que todos. Ciro não tirou votos do candidato miliciano, pois seu eleitorado era consciente para não votar no fascismo, mas um tanto quanto ingênuo em acreditar que o PT era o “mal maior” a se combater. Não sei por quais motivos, mas Ciro e Marina foram, sim, a “esquerda” que a direita gosta.

Mangabeira Unger, mentor adjunto de Ciro Gomes já que este se basta a si mesmo, afirmou que “ele perdeu por arrogância ao recusar aliança com o PT. Abrir mão do cacife eleitoral de Lula foi gesto de arrogância mortal”. Unger, coordenador da campanha do PDT em 2018, confirmou que foi oferecido a Ciro ser o vice na chapa do PT, para que assumisse a candidatura quando Lula fosse impedido. Ciro, consciente de que a direita gosta de seu papel, recusou. Lula entendeu que precisava mudar a estratégia. Que com sua prisão, a partir das convicções do Torquemada de Curitiba, precisava-se minimizar o protagonismo do PT. Ciro entendeu a estratégia e errou na tática ao rejeitar o cacife eleitoral de Lula. Ciro, tão dono de si, teve medo de ser teleguiado pelo lulismo. Perdeu ele, perdemos todos!

Mas, o que fazer para não ser a “esquerda que a direita gosta”? Como reverter a realidade que nos arrasta para mais uma ditadura? Deve-se entender que eleição é condição necessária, porém insuficiente para se ter democracia. Ela não é o fim único que orienta todos os meios. Ela é tão somente uma forma de se chegar ao poder político. Se até o presidente/miliciano conseguiu entender isso, o que falta a esquerda para mudar suas táticas e estratégias? 
Manifestações de rua não são um fim em si mesmas. Elas servem para mostrar a insatisfação social e importam para que se possa, por exemplo, impedir golpes de Estado. As manifestações são uma via de mão dupla, pois a mãe de todos os paradoxos no Brasil, hoje, é se utilizar a liberdade de expressão para justamente pedir o fim da democracia.

Se vamos às ruas gritar FORA PRESIDENTE!, mas ele continua dentro, algo não está funcionando bem. Lutar é preciso, sempre, mas a luta tem que ser feita de uma forma que incomode aquele que nos oprime, pois se ele segue sobrevivendo às manifestações alguma coisa que está sendo feita pela esquerda anda agradando a direita.

[1] Destra e sinistra é como se pronuncia direita e esquerda, respectivamente, em italiano.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Apresentação


Após um ano sem escrever e/ou publicar, retorno ao metiê do analista político com a coluna semanal "Do que ainda posso falar" que será divulgada em minhas redes sociais e aqui mesmo no GILBLOG. 
Analisarei nossa realidade política a partir da observação do que a "laranja mecânica anuncia". Trata-se de seguir nosso dia-a-dia distópico, já que parecemos decididos a viver como se "a democracia fosse um lamentável mal entendido", como já nos dizia Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil". A inspiração vem da ideia do historiador inglês Peter Burke que dizia que “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”. Se não conseguir fazê-la lembrar, espero ao menos sugerir algumas reflexões num tempo em que a ignorância virou grife. Torço para que me sigam, mas, por favor, não sejam silenciosos, não abaixem a cabeça! Questionem, discordem, discutam, gritem. Mas, se quiserem elogiar, não me farei de rogado, aceitarei de bom grado.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O putsch do Bozo


Bolsonaro, e sua trupe putschista, dobrou a aposta para dar um Golpe de Estado já. O conglomerado golpista quer uma intervenção militar clássica, com os tanques na rua, assim como em março de 1964. Os militares não parecem mais interessados em intervenções “on line”, via redes sociais, pois se cansaram de brincar com os computadores, preferem os sabres. Vejamos que o timing da coisa foi reajustado, pois os enfrentamentos entre o governo fascista e o Congresso aconteciam desde a posse do presidente. Porque, então, a decisão de chamar a patuleia verde-amarela para as ruas agora? Teria o presidente se irritado com os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e por isso mesmo mandado colocar a "tropa na rua", via whatsapp, com os apoios e silêncios de sempre?

O presidente parece querer comandar um golpe no final de março junto com seus filhos, com o General Augusto Heleno e seu grupo, além das tropas milicianas, como forma de "comemorar" o 56º aniversário do golpe Civil-Militar de 1964. Comemorar um golpe com outro seria a glória e faria Bolsonaro entrar para o panteão do autoritarismo, passaria a ser respeitado pela extrema direita mundo afora, não seria mais a vergonha do clube dos governantes fascistas. Quem terá tido ideia tão brilhante? Weintraub? Regina Duarte? Damares? Olavo de Carvalho?

Mas, estulto como ele só, Bolsonaro acha que assim entrará para a história de forma positiva. Certo, golpistas/ditadores costumam entrar para a história, mas lambuzados de sangue, tal qual Carlos Alberto Brilhante Ustra, herói do presidente. Bolsonaro tem a certeza dos ditadores tupiniquins que se lançavam nas empreitadas autoritárias por contarem com o atemporal conglomerados golpista e os vários setores de uma sociedade que nunca soube o que é viver numa democracia.

Surpreende o estranhamento nas redes sociais com a articulação bolsonariana para uma quartelada que viria junto com as aguas de março. Surpreso mesmo ficaria se o presidente estivesse lutando para salvar os poucos procedimentos democráticos que ainda nos resta, afinal de contas Bolsonaro, assim como Hitler, subiu ao poder para acabar com a democracia, não para tornar sólidos os seus pilares.


Desde a sua posse, Bolsonaro atenta diariamente contra a democracia das mais variadas formas. E o que já foi feito? Nada. Democraticamente, nada! Chama atenção que o presidente convoque a população para ir às ruas pedir o fechamento do Congresso Nacional. É o poder executivo querendo se livrar do poder que deve, constitucionalmente, fiscalizar seus atos. Interessa ver que alguns deputados e senadores, a maioria do PSL, manifestem apoio a mobilização golpista. Ou seja, pedem para que seus mandatos, conquistados nas urnas, sejam cassados. O Brasil não é para experts, muito menos para principiantes.

Revolta o comportamento da elite empresarial, de setores da mídia, do judiciário e da maioria dos partidos políticos que nada fazem diante das articulações golpistas já que, para eles, importa mesmo é a “agenda do Guedes”. Eliane Brum afirma em seu último artigo, O golpe de Bolsonaro está em curso, no El Pais que: “... parte do empresariado nacional não se importa com a democracia e a proteção dos direitos básicos desde que seus negócios, que chamam de ‘economia’, sigam dando lucro”. Marx já dizia no “18 Brumário” que a burguesia aceita perder alguns dedos de uma de suas mãos (liberdade) desde que não perca a bolsa (poder econômico).

Uma das imagens utilizadas pelos golpistas é a do General Heleno, fardado, com a mensagem “foda-se” em primeiro plano. Ele havia dito na semana que antecedeu o carnaval que “nós não podemos aceitar esses caras chantageando a gente o tempo todo. Foda-se!”. Heleno faz, hoje, o papel do General Mourão em 1964, que botou a tropa na rua para depor João Goulart. Desconheço se Mourão deu, em algum momento, um “foda-se” para o Brasil, mas foi exatamente isso que nos aconteceu nos 21 anos de ditadura militar que agora Bolsonaro que reinstituir.