sábado, 29 de maio de 2010

Mas, que voz maravilhosa!

É absolutamente fantástico o que este homem conseguia fazer com seu poderoso instrumento musical - a voz. Louis Armstrong é considerado a personificação do jazz. Se você não sabe definir o jazz, não precisa se preocupar, basta dizer que ele significa Louis Armstrong e vice-versa. Aqui, ele interpreta What a Wonderful World. Isso é que é uma voz maravilhosa!


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Faça como Cidinha Campos, indigne-se!!!!

A justa indignação da Deputada Estadual, do Rio de Janeiro, Cidinha Campos (PDT) é dígna de nota. Mas, se só ela gritar de nada adiantará. Também não adianta fazer discursos inflamados. Que tal sinalizar essa indgnação contra a corrupção, que segundo a deputada "esta no DNA das pessoas", nas próximas eleições.

Se "só tem ladrão se candidatando", não vote ou anule seu voto.

Se cerca de 30% dos eleitores fizerem isso, o sinal amarelo (de alerta) se acenderá e será preciso fazer um novo desenho institucional (ou reforma política como queiram) que possa fazer, aqui, o que foi feito na Itália com a operação "Mãos Limpas".



É a democracia, estúpidos

Neste magistral artigo, publicado hoje (13/05/2010) na Folha de São Paulo, Clóvis Rossi reafirma a necessidade de que a democracia seja um sistema político capaz de controlar o mercado e não o contrário como querem os tais "neoliberais". Mas, alto lá bolivarianos e que tais, isso não pode (não deve) significar que o Estado baixará seus tentáculos sobre tudo e todos. Tão grave quanto o Banco Central ter plena autonomia (em relação ao governo) para assentir os quereres do mercado, é ter um Estado que usa sua pesada mão (para o bem e para mal) sem considerar nada mais. Daí, a democracia ser o melhor sistema, pois é o único que tem mecanismos para contrabalancear os interesses do Estado, da sociedade e do mercado - uma democracia consolidada, plena, pujante, não esse frágil arremendo que temos no Brasil.


MADRI - A discussão em torno da autonomia absoluta do Banco Central, levantada por José Serra, é na verdade a propósito da democracia. Democracia pressupõe que o eleitor escolha alguém (no Brasil chamado presidente da República), que tomará as decisões que julgar convenientes, entre elas o nível dos juros, o câmbio, o deficit ou superavit fiscal adequado.

Democracia não pressupõe que um funcionário subalterno tome tais decisões à revelia do presidente. É simples assim. O raciocínio subjacente à tese de que o Banco Central pode fazer o que quiser e o presidente da República não tem que se meter é radicalmente antidemocrático.
Pressupõe que o tal de povo pode, de repente, eleger um maluco para a Presidência (maluco do ponto de vista dos mercados, aos quais o Banco Central presta a maior reverência). Para contrabalançar esse risco, é preciso ter alguém sensato (sensato do ponto de vista dos mercados) para evitar maluquices.


Levado ao limite, tal raciocínio acabará por dispensar o voto popular, transferindo a escolha de uma boa vez para os sábios do mercado -os mesmos que estão na raiz da brutal crise ainda em curso. A primazia da política sobre os mercados apareceu ontem em artigo para "El País" de Felipe González, que pode ser acusado de muita coisa, menos de antimercado. Foi ele quem, como líder do Partido Socialista Operário Espanhol, limou o marxismo ainda existente no programa partidário.

Como presidente do governo, levou a Espanha à Comunidade Europeia, o segundo maior centro capitalista do mundo, após os EUA.González cobrou a regulação do sistema financeiro com este argumento: "Se não os regularmos [os mercados], eles acabam por regular-nos [aos governos e à sociedade], a seu capricho especulativo e com custos insuportáveis". Serra já tem com quem falar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Suicídio institucional

Marcos Nobre, neste artigo publicado na Folha de SÃo Paulo de hoje (04/05/2010), demonstra bem os riscos que corremos ao termos a suprema corte deste país interpretando de forma tão equivoca a revisão (ou não) da Lei da Anistia de 1979. A sua constatação final, de que se "... fez uma lei aprovada sob a ditadura militar a fonte originária da ordem democrática vigente", demonstra bem as fragilidades e suscetibilidades de nossa democracia..


Suicídio institucional

O Supremo Tribunal Federal conseguiu mais uma vez embrulhar as contradições brasileiras para presente. Decidiu que não lhe cabe interpretar a Lei da Anistia, de 1979. Decidiu que anistia é assunto do Poder Legislativo, não do Judiciário. Ou seja, tomou uma decisão política dizendo que não lhe cabe tomar decisões políticas. Na história recente do tribunal, não há nisso nenhuma novidade. Só que o caso da Lei da Anistia é particularmente grave. Não apenas pelo resultado, lamentável por si mesmo, mas, principalmente, porque o STF decidiu abdicar de seu papel de interpretar a legislação passada e presente à luz da Constituição de 1988.

O STF manteve em vigência uma lei sem examinar de fato se ela é compatível com a Constituição. É verdade que seria um exercício de ginástica intelectual digno de medalha conciliar Estado democrático de Direito e tortura. Mas esse é o ônus que caberia ao tribunal que, recusando o pedido de interpretação da lei apresentado pela OAB, pretendesse também preservar sua integridade institucional. Da maneira como agiu, o tribunal disse de público que, a depender da conveniência política do momento, pode perfeitamente deixar de exercer as suas funções. Nada pode ser mais perigoso para a democracia de um país. O STF resolveu embrulhar a contradição de sua decisão com o papel movediço da história. Decidiu basear sua decisão em uma "exceção histórica". A Lei da Anistia teria resultado de uma negociação política que teria produzido a "conciliação" do país. Nos termos do voto do presidente do STF, Cezar Peluso, "o Brasil fez uma opção pelo caminho da concórdia".

Mas o presidente do Supremo foi além de projetar no passado uma conciliação imaginária. Afirmou ainda que a "lei nasceu de um acordo de quem tinha legitimidade para celebrar esse pacto".A ministra Ellen Gracie não apenas aceitou a tese da legitimidade das partes em um acordo realizado em condições ditatoriais como criou algo que poderia ser chamado de o "paradoxo de Gracie". Para a ministra, a não recepção da Lei da Anistia pela Constituição de 1988 "conduziria ao paradoxo de retirar o benefício de todos quantos foram por ela alcançados". Em outras palavras, sem a Lei da Anistia não haveria a Constituição de 1988. Para sustentar o insustentável, o STF acabou por fazer da lei de 1979 o sustentáculo histórico da Constituição dita cidadã. Fez de uma lei aprovada sob a ditadura militar a fonte originária da ordem democrática vigente.É uma atitude bem mais do que paradoxal. É um autêntico suicídio institucional.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Disfunção Institucional.

Habilitado, tardiamente, ao Sistema Nacional de Trânsito, estou a me agastar na política de terra arrasada que é o trânsito em nossas cidades.


Dirigir é difícil, não impossível. Apreender a legislação de trânsito é fácil. Intricado é enlear-se na teia do Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN) para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Lá, enfrentando a burocracia e o caos administrativo, sente-se na pele a “Lei de Gerson” - essa instituição informal em nós engastada. Buscar vantagens, ao largo da ética, é, no DETRAN, um vício. Em tempo, a tal lei surgiu em 1976 quando o jogador Gérson protagonizava comercial para os Cigarros Vila Rica. A marca seria vantajosa por ser a melhor e ter um módico preço e ele dizia: “Gosto de levar vantagem em tudo. Leve vantagem você também!”


Instituição informal é o procedimento criado, e sancionado, fora dos aparelhos de Estado que cumpre o papel dele mediante a promessa de resultados eficazes. O informalismo é uma maneira, deliberada, de suplantar as instituições formais. Dá-se quando o agente público assenta que descumprirá, parcial ou totalmente, suas funções. No DETRAN, vêem-se funcionários negligenciando funções para promovê-las informalmente, tal qual o policial que se abstém de cumprir seu papel para prestá-lo em uma empresa de segurança privada.


Em um Centro de Formação de Condutores vi a dissimetria entre o que se ensina e o que se faz no trânsito. Não que seus instrutores estejam errados – é a realidade que está fora do prumo com quase 1 milhão de acidentes, cerca de 60.000 mortos e 8 bilhões de perdas materiais ao ano.


No CFC trata-se de cidadania e meio ambiente, conceitos aplicáveis em sociedades com capital social em patamares aceitáveis e este não é o nosso caso. Nele se ensina que dirigir defensivamente é prevenir-se contra o mau motorista e condições adversas. Trata-se até de como proceder altruisticamente. Mas, a realidade é outra. Temos que parar em certos cruzamentos e correr o risco de ter o carro tomado. O que fazer? Desobedecer a sinalização, claro. Parece mesmo que estamos sendo preparado para dirigir na Dinamarca, onde as instituições funcionam, não no Brasil onde a instituição informal “molhar a mão do guarda” é vigente.


Vejamos um quadro surrealista que Gabriel Garcia Marques não imaginária em sua Macondo. O total descompasso entre teoria e prática se descortina no DETRAN. Primeiro, enfrenta-se uma mal ajambrada fila por quase cinco horas para fazer um cadastro em 10 minutos. Depois, nova fila, mais uns 30 minutos, para a foto que comporá a CNH. Nestas filas detecta-se o que faz a vida burocrática do DETRAN pulsar. Naquela fúnebre marcha, por duas vezes, apareceram “prestativos” despachantes se oferecendo para me tirar da fila e levar-me ao atendente mediante a quantia de 70,00 reais. Imaginei que se dez, quinze ou vinte pessoas aceitassem tal proposta criar-se-ia uma segunda fila composta pelos que “furaram” a primeira.


No DETRAN, até para se obter uma informação tem-se dificuldade. A lógica é: se você quer bom atendimento, pague por ele! Esqueçamos as taxas auferidas ao Estado. Refiro-me as quantias informais que vão sendo solicitadas a cada facilidade oferecida. Existe, ainda, um mórbido prazer, dos que “habitam” o DETRAN, em ver infelizes, como eu, quarando naquela fila insana.


Lá, parece não se gerenciar as atividades. Porque dois procedimentos contínuos não podem ser feitos no mesmo quiche? Porque obrigar o cidadão a ficar numa fila, por quase cinco horas, apenas para que ele informe dados pessoais? Para irritá-lo até o ponto em que ele ceda as “vantagens” oferecidas pelas tais despachantes. Convenhamos, é tentadora a oferta de livrar-se de uma fila humilhante mediante um pagamento informal.


Mais um exemplo, hilário, da premeditada desorganização do DETRAN. Cedo, pessoas se aglomeram ante o portão central. Seguranças tentam organizá-las, mas o que importa é ser ágil. A cena é patética: o portão se abre e pessoas, carros e motos disputam uma frenética corrida pelos melhores lugares. Mas, os que chegam cedo são ultrapassados pelos que compram os primeiros lugares das filas – os mesmos que, tal qual Gerson, levam vantagem em tudo por acreditarem que “o mundo é dos mais espertos”, como me disse um petulante futuro motorista na lúgubre fila.


Feito o cadastro, vamos ao psicotécnico que, de tão antiquado, não afere se estamos de posse de nossas faculdades mentais. Depois, nos é dado um questionário sobre o uso de medicamentos e tratamentos de saúde e quer-se saber sobre o uso drogas ilícitas e consumo de álcool. O que acontece se a resposta for positiva? Susta-se a expedição da CNH? Depois de duas horas em mais uma fila fui para o exame oftalmológico. Usava meus óculos de grau e mesmo assim a doutora perguntou-me: “tem algum problema de vista?” Eu, pasmo, assenti. O exame durou cerca de 20 segundos. Disse à doutora que não enxergava uma letra siquer das que apareciam no visor. Ela, impassível, ordenou que eu saísse. Fica a dúvida: o que seria necessário para ser reprovado neste exame? Usar bengala, óculos escuros e ter um cão-guia à mão?


Os conflitos de interesses pululam pelo DETRAN. Agentes de trânsito, policiais militares, funcionários, comerciantes, etc, são “facilitadores” que, de posse dos mecanismos da instituição, detém os informalismo. Utilizam-se de seus cargos e postos de trabalho para, mediante pagamento, encaminhar demandas à margem da estrutura institucional. Provocam, deliberadamente, a disfunção institucional para forçar o pagamento, “por fora”, dos serviços que teriam que oferecer publicamente e de boa qualidade.


A grande perversão a ser notada é que, no interior do DETRAN, funcionam informalismos que solapam a instituição formal, tornando-a não crível. Isso só contribui para que nossa democracia siga frágil, pois as instituições que lhe dão forma (e conteúdo) são continua e cotidianamente transpassadas por instrumentos anti-republicanos.



postscriptum: Prova inequívoca da disfuncionalidade institucional do DETRAN é que passei exatos vinte e cinco dias para receber minha CNH, quando deveria recebê-la em um prazo máximo de cinco dias. Quando busquei saber sobre o andamento do processo recebi a lacônica informação: “sua carteira encontra-se na sala de impressão”. Mas, me foi dito, também, que eu poderia apressar a expedição do documento mediante “um pagamento por fora”. Minha CNH não estava no tal Departamento de Impressão, mas sim no “departamento da informalidade”.


Abril/2010.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O silêncio de certa intelligentsia

É sintomático que os intelectuais e partidos de esquerda façam esse silêncio ensurdecedor diante das declarações, que demonstram tolerância e simpatia, do Presidente Lula diante das graves agressões aos direitos humanos que o governo cubano continua a cometer. Tivesse Lula defendido um de seus aliados envolvidos em escândalos de corrupção a grita seria geral, mas mexer no “farol do socialismo latino-americano” é algo que não se aceite. Fernando de Barros e Silva, em seu artigo de hoje (12/03/2010) na Folha de São Paulo, vocaliza o que deveria ser uma regra não exceção.

SÃO PAULO - Os intelectuais de esquerda adoram um abaixo-assinado. Na luta pela redemocratização, ele foi um instrumento importante de mobilização da sociedade civil. Hoje, não se sabe ao certo o que seja (nem se existe) "a sociedade civil". E os intelectuais, sobretudo de esquerda, perderam em boa medida o protagonismo público.

Ainda assim, vira e mexe há abaixo-assinados por aí. Alguns em torno de causas abrangentes e justas, outros que parecem só um cacoete de antigamente. Diante de tudo isso, devemos nos perguntar agora: onde está o abaixo-assinado?

Sim. Ou os intelectuais de esquerda não estão incomodados com a fala bestial de Lula sobre Cuba? O assunto não comove a ponto de solicitar um repúdio coletivo? Seria demais exigir a retratação pública do presidente por igualar as vítimas de uma ditadura que liquidou seus opositores aos presos comuns de um país democrático?

Seria demais pressionar o governo brasileiro para que interceda em favor de dissidentes presos arbitrariamente e/ou a caminho da morte? Seria demais reafirmar (ou assumir, no caso de alguns) a defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais? O silêncio de certa intelligentsia, que insiste em tratar Cuba como um caso à parte, uma ilha da fantasia rodeada de piratas, é tão cúmplice das atrocidades de Fidel e seu asseclas quanto a fala boçal de Lula.Até quando a esquerda nativa (com exceções honrosas) vai encarar a crítica à tirania cubana como uma pauta da direita? Até quando irá confundir o justo apelo dos dissidentes com a "máfia de Miami"?

Até quando irão invocar avanços sociais hoje mais do que duvidosos como pretexto -aí, sim- para justificar os horrores do regime? O dissidente Guillermo Fariñas precisará morrer -ou nem isso bastará para romper a omissão criminosa? A Paquetá vermelha que incendiou bons corações nos anos 60 não existe, não passa de uma quimera mumificada. Então, apesar do atraso: cadê, cadê o abaixo-assinado?


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Afinal, para onde devemos olhar?

Na Folha de São Paulo de hoje, 03 de fevereiro/2010, artigo do Presidente da OAB/RJ elenca critérios e argumentos para que a Campanha pela Memória e pela Verdade se materialize na sociedade brasileira com a abertura dos arquivos militares. Wadih Damous lembra que é preciso olhar para a frente e eu lembro que é preciso olhar para trás, pois é olhando para trás que agente aprende andar para frente. Na verdade, se queremos ter uma democracia consolidada, devemos olhar para todos os lados.

É preciso olhar para a frente
WADIH DAMOUS

A OAB do Rio vai lançar a Campanha pela Memória
e pela Verdade, o que inclui a defesa da abertura
dos arquivos da ditadura militar
A SECCIONAL da OAB no Estado do Rio vai lançar nos próximos dias a Campanha pela Memória e pela Verdade, o que inclui a defesa da abertura dos arquivos da repressão política na ditadura militar.

As razões que justificam a campanha são muitas. Há, em primeiro lugar, razões humanitárias. A mais evidente delas diz respeito ao elementar direito das famílias de desaparecidos políticos de dar-lhes uma sepultura. Aliás, esse direito é recorrente na história da humanidade. Provavelmente, a primeira menção a ele se dá na "Ilíada", de Homero (século 8 a.C.), que nos fala de interrupções nos combates na Guerra de Troia para que os exércitos homenageassem seus mortos e enterrassem seus corpos. Séculos depois, Sófocles tratou do tema em sua peça "Antígona", encenada na Grécia em 422 a.C., como bem lembrou Marcello Cerqueira em recente artigo na edição de dezembro de 2009 da "Folha do IAB" (Instituto dos Advogados Brasileiros).


Assim, desde que a humanidade se reconhece como tal, é respeitado o direito das famílias de enterrar seus mortos. É o que faz, aliás, Antígona, na citada peça de Sófocles. Ela cavou com as próprias mãos a sepultura do irmão Polinices e pagou com a vida o desafio às ordens de Creonte, rei de Tebas. Polinices fora condenado à morte e a não ter direito a uma sepultura, para que seu corpo ficasse à disposição de cães e aves de rapina. Ele -a exemplo do que se repetiria com outros personagens até nossos tempos- desafiara o déspota de então.


No Brasil, conhecem-se casos de mães que, durante décadas, recusaram-se a mudar de endereço ou a trocar a fechadura da porta de casa, na esperança de que um filho preso um dia reaparecesse. Sabe-se de muitos natais em que famílias prepararam a ceia deixando uma cadeira vaga na mesa, enquanto esperavam, em vão, o retorno de um ente querido para festejar a data com os seus.


Conhecer o destino dos desaparecidos políticos, saber em que circunstâncias morreram, quem os assassinou e a mando de quem é um direito das famílias. Tanto quanto dar-lhes uma sepultura digna. Tal como quis Antígona para seu irmão Polinices.


Mas não só razões humanitárias exigem a abertura dos arquivos da repressão política. Os que se opõem a ela e propugnam que se ponha uma pedra sobre o assunto lembram a necessidade de olhar para o futuro, e não para o passado. É argumento de peso. Afinal, o ressentimento é, sempre, mau conselheiro. Na vida pessoal e na política.


Mas justamente a necessidade de construir um futuro democrático é que torna necessário o conhecimento dos horrores acontecidos durante a ditadura. Mesmo que isso signifique submeter a sociedade a um verdadeiro choque e desagradar aos militares. Arrastar o lixo para baixo do tapete só fará com que ele possa ressurgir mais tarde. Já a luz do Sol sobre o acontecido fará com que se criem anticorpos, impedindo a repetição da barbárie.


O golpe de 1964 é, até hoje, cultuado nos quartéis. Chegou-se ao ponto de, no primeiro governo Lula, um ministro da Defesa demitir-se por não obter apoio do presidente ao questionar uma ordem do dia, lida nos quartéis, de exaltação à ditadura. Ora, não é assunto exclusivo das Forças Armadas o tipo de formação ministrada aos nossos jovens que se dedicam à carreira militar. Ao contrário, essa questão é de interesse da sociedade. Não é aceitável que novas gerações de militares sejam formadas com mentalidade antidemocrática.


As Forças Armadas devem ser doutrinadas e preparadas para defender a Constituição e o Estado de Direito. Também para isso é importante a abertura dos arquivos. Ela trará para o centro da reflexão o papel desempenhado pelas Forças Armadas na ditadura e sua herança até hoje. É mais fácil defender o direito à memória e a abertura dos arquivos da repressão esquivando-se do conflito com as Forças Armadas e afirmando que elas não participaram, como instituição, de torturas e assassinatos.


Mas isso é falso. Ainda que torturadores e assassinos tenham sido ínfima minoria dentre os militares, eles não agiram à revelia do comando. Suas ações tiveram o aval dos chefes das Forças Armadas e da ditadura. É por isso que, hoje, o espírito de corpo se faz presente quando se fala em trazer luz sobre o que aconteceu ou em punir executores diretos dos crimes. Vivemos, então, uma situação "sui generis". Quase 25 anos depois de passarmos a um regime civil, os militares ainda se arvoram no direito de determinar os limites até onde podem ir a democracia e o conhecimento de nossa história recente. Por isso também, abrir os arquivos é essencial para quem quer construir um Brasil melhor. Isso é o que se recomenda para quem olha para a frente. Daí a Campanha pela Memória e pela Verdade.

Como Combater a Arrogância

Pessoalmente, penso que todos nós que fazemos a academia brasileira deveríamos parar um momento de nossas atividades para lermos coletivamente esse artigo de Stephen Kanitz, publicado já algum tempo na Revista Veja (edição 2036, ano 40, nº 47, 28 de novembro de 2007, página 22). Lendo-o me dei conta que a maioria de meus colegas se recusam a adicionar seus endereços de e-mails em suas publicações e lembrei que já fui criticado por fazê-lo.


"Muitos leitores perguntaram ao longo deste mês qual era a minha agenda oculta. Meus textos são normalmente transparentes, sou pró-família, pró-futura geração, pró-eficiência, pró-solidariedade humana e responsabilidade social. Mas, como todo escritor, tenho também uma agenda mais ou menos oculta. Sempre que posso dou uma alfinetada nas pessoas e nos profissionais arrogantes e prepotentes. É a reclamação mais freqüente de quem já discutiu com esses tecnocratas. Uma vez no governo, parece que ninguém mais ouve. Eles confundem ser donos do poder com ser donos da verdade. Fora do governo, continuam não ouvindo e, quando escrevem em revistas e jornais, é sempre o mesmo artigo: "Juro que eu nunca errei". Toda nossa educação "superior" é voltada para falar coisas "certas". Você só entra na faculdade se tiver as respostas "certas". Você só passa de ano se estiver "certo".


Aqueles com mestrado e Ph.D. acham equivocadamente que foram ungidos pela certeza infalível. Nosso sistema de ensino valoriza mais a certeza do que a dúvida. Valoriza mais os arrogantes do que os cientificamente humildes. É fácil identificar essas pessoas, elas jamais colocam seus e-mails ou endereços nos artigos e livros que escrevem. Para quê, se vocês, leitores, nada têm a contribuir? Elas nunca leram Karl Popper a mostrar que não existem verdades absolutas, somente hipóteses ainda não refutadas por alguém. Pessoalmente, não leio artigos de quem omite seu endereço ou e-mail. É perda de tempo. Se elas não ouvem ninguém, por que eu deveria ouvi-las ou lê-las? Todos nós deveríamos solenemente ignorá-las, até elas se tornarem mais humildes e menos arrogantes. Como não divulgam seus e-mails, ninguém contesta a prepotência de certas coisas que escrevem, o que aumenta ainda mais a arrogância dessas pessoas.


O ensino inglês e o americano privilegiam o feedback, termo que ainda não criamos em nossa língua – a obrigação de reagir à arrogância e à prepotência dos outros. Alguém precisa traduzir bullshit, que é dito na lata, sempre que alguém fala uma grande asneira. Recentemente, cinco famosos economistas brasileiros escreveram artigos diferentes, repetindo uma insolente frase de Keynes, afirmando que todos os empresários são "imbuídos de espírito animal". Se esse insulto fosse usado para caracterizar mulheres, todos estariam hoje execrados ou banidos. "A proverbial arrogância de Larry Summers", escreveu na semana passada Claudio de Moura e Castro, "lhe custou a presidência de Harvard." Lá, os arrogantes são banidos, mas aqui ninguém nem sequer os contesta. Especialmente quando atacam o inimigo público número 1 deste país, o empreendedor e o pequeno empresário.


Minha mãe era inglesa, e dela aprendi a sempre dizer o que penso das pessoas com quem convivo, o que me causa enormes problemas sociais. Quantas vezes já fui repreendido por falar o que penso delas? "Não se faz isso no Brasil, você magoa as pessoas." Existe uma cordialidade brasileira que supõe que preferimos nunca ser corrigidos de nossa ignorância por amigos e parentes, e continuar ignorantes para sempre. Constantemente recebo e-mails elogiando minha "coragem", quando, para mim, dizer a verdade era uma obrigação de cidadania, um ato de amor, e não de discórdia.


O que me convenceu a mudar e até a mentir polidamente foi uma frase que espelha bem nossa cultura: "Você prefere ter sempre a razão ou prefere ter sempre amigos?". Nem passa pela nossa cabeça que é possível criar uma sociedade em que se possa ter ambos. Meu único consolo é que os arrogantes e prepotentes deste país, pelo jeito, não têm amigos. Amigos que tenham a coragem de dizer a verdade, em vez dos puxa-sacos e acólitos que os rodeiam. Para melhorar este país, precisamos de pessoas que usem sua privilegiada inteligência para ouvir aqueles que as cercam, e não para enunciar as teorias que aprenderam na Sorbonne, Harvard ou Yale. Se você conhece um arrogante e prepotente, volte a ser seu amigo. Diga simplesmente o que você pensa, sem medo da inevitável retaliação. Um dia ele vai lhe agradecer."

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

NOSSA IMPRENSA É RENTÁVEL?

Por favor, sintam-se devidamente provocados.
Se estou legislando em causa própria? Não tenham menor dúvida! Sou absoluta e assumidamente tendencioso. Mas, reflitamos se Controle Social da Imprensa (seja la o que isso venha a significar) não deve ser algo diferente de controle da liberdade de expressão e/ou de censura?


Stephen Kanitz - Artigos e Comentários
http://blog.kanitz.com.br/

NOSSA IMPRENSA É RENTÁVEL?

Muitos donos de jornais estão preocupados com o tema Controle Social da Imprensa, defendido por vários membros do PT, mas como já discutimos aqui, a questão que os donos de jornais e revistas deveriam estar preocupados é com sua rentabilidade a longo prazo.

Se não se tornarem REALMENTE rentáveis nos próximos anos e pagarem bons salários, seus próprios jornalistas irão defender a estatitazação da imprensa, para garantir a sua sobrevivência, e não a dos patrões. Muitos jornais e revistas passaram por processos de reestruturação nos últimos anos, quase quebraram, mas agora acham que estão bem. Digo acham, porque resolveram o problema financeiro de curto prazo, não o problema de rentabilidade a longo prazo.

A rentabilidade da imprensa atualmente, é calcada em 5 pontos críticos:
Boa parte das informações são fornecidas graciosamente por inúmeros voluntários, pessoas competentes que têm algo a dizer, que se dispõe a passar horas passando informações preciosíssimas a jornalistas, sem nada receber em troca.

Se colocarmos o valor do tempo destes cientistas políticos, economistas e advogados que dão entrevistas ou informações de graça, a imprensa estaria provavelmente no vermelho. A imprensa deveria pagar pela informação? Sim, pelo menos para compensar o tempo do entrevistado, para que ele não deixe de estar disponível quando o jornal quer. A Revista Exame, 30 anos atrás, inovou criando um departamento de análise de empresas, Melhores e Maiores, e a Folha criando o Data Folha. Mas isto são raridades.

Antigamente era um prazer dar uma entrevista de graça, porque o jornalista, bem pago, colocava nossas ideias de uma forma fantástica, colocavam ênfase quando era necessário, colocavam as ideias na ordem certa, enfim, acrescentavam valor ao nosso tempo. Dava prazer ler o texto final, "nem parece que fui eu quem disse isto". Hoje, nem todos aqueles que têm informações valiosas querem dar entrevistas à imprensa para jornalistas jovens e sem experiência. A chance de sua ideia sair errada, equivocada, deturpada é grande, e o prejuízo enorme. Pedir para corrigir o texto é pecado fatal, jamais o faça. Controle de qualidade não é um conceito usado na imprensa.

O Presidente da Phillips perdeu seu emprego porque depois da entrevista, tomando café, disse que se o Piauí não existisse, o Brasil não perderia muito mercado, ou algo nesse sentido, como exemplo de alguma outra ideia que estava comentando. Antigamente, o jornalista perceberia o deslize e que não era uma informação valiosa, comparada com as outras mais importantes ditas na entrevista. Mas foi o que saiu publicado, acabando com sua carreira.

Ninguém que tem algo a dizer quer dar entrevistas hoje em dia, devido a eventos como este que eu relatei. Existem até cursos de Midia Training, onde se ensina a "dizer o mínimo possível", "somente o essencial". Se você é dono de um jornal, um bom exercício seria calcular o valor de todo este tempo grátis, ao valor de mercado, e verificar se de fato o jornal acrescenta valor, ou não. Jornal baseado em voluntariado, deveria ser uma ONG sem fim lucrativos, e se não tomarem cuidado, é neste sentido que o Controle Social da Imprensa irá caminhar, com excelentes argumentos para convencer o Legislativo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Comparação entre Lula e FHC segundo The Economist.


A ascensão econômica do Brasil é o tema da capa, de um editorial e de um especial de 14 páginas da edição desta semana da revista britânica The Economist, divulgada nesta quinta-feira.

Intitulado Brazil Takes Off ("O Brasil Decola", em tradução literal), o editorial afirma que o país parece ter feito sua entrada no cenário mundial, marcada simbolicamente pela escolha do Rio como sede olímpica em 2016.

A revista diz que, se em 2003 a inclusão do Brasil no grupo de emergentes Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) surpreendeu muitos, hoje ela se mostrou acertada, já que o país vem apresentando um desempenho econômico invejável.

A The Economist afirma também que o Brasil chega a superar outros Bric. "Ao contrário da China, é uma democracia, ao contrário da Índia, não possui insurgentes, conflitos étnicos, religiosos ou vizinhos hostis. Ao contrário da Rússia, exporta mais que petróleo e armas e trata invetidores estrangeiros com respeito."