segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O ano é 2027! Veja como vivem os que operaram a Lava jato e o golpe de estado de 2016, levaram Bolsonaro ao poder e destruíram o país numa aventura fascista.

Os filhos Zero-Um e Zero-Três cumprem longas penas em Bangu 8. Queirós e esposa, Flordelis, Bob Jeff e Jairinho, também. Zero-Dois fugiu para Nova Zelândia com seu primo. Usando tornozeleira eletrônica, Zero-Quatro cumpre prisão domiciliar no Condomínio Vivendas da Barra.

Para não ser preso, Bolsonaro foi “diagnosticado” com quadro de demência degenerativa. Vive nas redes sociais xingando a tudo e a todos. Dizem que está escrevendo um livro cujo título provisório é “Os fantasmas da Casa de Vidro”. Hélio Negão lhe visita para levar remédios e dar notícias dos filhos. Jail acredita que tudo teria sido diferente se a “fakada” não fosse fake e costuma dizer que a pandemia foi um “negócio de ocasião que nós não soubemos aproveitar”.

Ex-esposas de Bolsonaro abriram o “Escritório das Ex-Mulheres do Bem”, no Rio de Janeiro, onde dão consultoria para milicianos que vão migrar para política e adotar esquema de “rachadinhas” em Câmara de Vereadores e Assembleias Legislativas. Rogéria Nantes e Cristina Valle criaram uma dupla “femineja” chamada “As ex-patroas”, uma “sofrência” sem fim!

Silas Malafaia arrumou um marido mais novo, mais rico e mais inteligente para D. Michelle que tem uma boutique frequentada apenas por evangélicas muito ricas. Ela tem uma equipe de advogados para processar quem lhe perguntar se Queiróz depositou mesmo aquele cheque de R$ 89 mil em sua conta.

Olavo de Carvalho está internado num hospital psiquiátrico, nos EUA, na ala onde ficam os que pensam que são Jesus Cristo, Napoleão Bonaparte, Cleópatra, Gandhi, etc. Olavo diz ser Dietrich Eckart, o mentor de Hitler. Janaína Paschoal está na mesma ala, ela acredita ser Margareth Thatcher.

Luciano Huck, que ainda sonha com a presidência, apresenta o Domingão da Lata Velha tendo Angélica, Suzana Vieira, Regina Duarte, Bia Kicis e Carla Zambelli como assistentes de palco. William Bonner deixou o Jornal Nacional e vez por outra vai ao programa de Fátima Bernardes lembrar de quando emparedava presidenciáveis. Em estado falimentar, a Globo bajula o governo para ter acesso a verbas publicitárias.

Merval Pereira, Eliane Cantanhêde, Vera Magalhães, Diogo Mainardi e Alexandre Garcia fazem o programa “Uma escolha muito difícil” na Jovem Pan, onde debatem temas da política nacional sempre lembrando dos tempos em que o PSDB governava. FHC aparece vez por outra no programa, como convidado mais do que especial, insistindo sempre que foi melhor presidente do que Lula.

Abranham Weintraub trabalha numa lanchonete, preparando hamburguers, próxima a sede do Banco Mundial em Washington, D.C. Ele foi demitido do banco quando exigiu ser chamado de Joseph Goebbels. Fräulein Damares abjurou o Jesus da goiabeira e diz ser a própria Madre Teresa de Calcutá.

Ernesto Araújo criou o Instituto “Só o trabalho liberta” que promove palestras com ex-ministros do governo Bolsonaro. O Instituto será fechado por fazer apologia ao supremacismo, negar o holocausto e defender o nazismo. O gabinete do ódio se tornou um partido, clandestino, e se dedica a criação de células fascistas, racistas, homofóbicas, xenófobas, antissionistas, pelo Brasil afora.

Militares, que governaram o país em 2019-2022, voltaram aos quartéis em janeiro de 2023 ou foram para reserva. Costumam lançar notas sobre a “Revolução de 1964” onde aproveitam para dizer que se não fosse Bolsonaro teriam feito ótimo governo. Participam sempre de animadas reuniões regadas a  whisky 12 anos, cervejas e vinhos importados, além de muita picanha e leite condensado.

Kim Kataguiri, Daniel Silveira, Roger Rocha e Caio Coppolla formaram a banda “Roqueiros à Direita” para tocar no programa de Danilo Gentili. O apresentador acha que uma chapa sua com Huck, Moro, Dória, Amoedo, Daciolo, Alexandre Frota ou o ET de Varginha ganha facilmente uma eleição presidencial.

Dória governa São Paulo com seus moletons em tons pastéis. Ele expulsou FHC do PSDB e trabalha para ser o nome principal da oposição. A direita limpinha segue jurando de pés juntos que não participou do Golpe de 2016, não articulou a operação Lava Jato e não votou em Bolsonaro.

Aécio Neves foi eleito vereador no município de Cláudio-MG e cuida da pista de pouso, construída em seu governo, para aviões que carregam até 1\2 tonelada de um certo pó branco. Aécio gosta de se vangloriar de ter detonado o golpe de 2016 ao não aceitar a derrota para Dilma em 2014.

Michel Temer não é mais bem-vindo aos jantares da Casa Grande após uma entrevista em que contou detalhes do golpe de 2016 e insistiu que a ideia de um golpe “com Supremo com tudo” foi dele. Dizem que Temer mudou-se para a Romênia e mora no castelo de seu irmão mais velho, o Conde Vlad Temer.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol respondem a vários processos sobre crimes cometidos na Operação Lava Jato. Só não foram presos por ainda contarem com simpatias no STF. Os Lava Jato Boys foram demitidos do Ministério Público. Abriram um escritório de advocacia cujos clientes são eles próprios.

Ciro Gomes criou o canal “Cirão da Massa”, no Youtube, onde mostra como estaria o Brasil se Lula e o PT tivessem sido destruídos antes das eleições de 2022. O “Cirão da Massa” tem 4% dos seguidores do canal “Lula, um estadista”. Marina Silva sumiu de vez nas profundezas da floresta amazônica. Dizem que fundou uma comunidade alternativa chamada “As viúvas do Jararaca”.

O gado não pede mais intervenção militar e AI-5, morre de vergonha de quando vestia amarelo, fazia “arminha” e chamava um estúpido ditador de “mito”. Mesmo que sinta falta das manifestações, em que pedia o fim da democracia, acha que fez grande burrada elegendo Bolsonaro, mas como o pastor costuma dizer que Jesus perdoa quem paga o dízimo em dia, ele não se preocupa com tudo de ruim que aconteceu ao país. Na verdade, o gado até se orgulha de ter “tirado o PT”. O problema é que Lula voltou, babaca!

Errata: Houve um equívoco temporal em relação a Olavo de Carvalho. Ele esteve internado nos EUA em 2021 e teve seu CPF cancelado em 2022. 

PS: Isso aqui é uma brincadeira, mesmo que eu leve alguns itens a sério por desejar bastante que aconteçam, mas é uma brincadeira, uma tentativa de conviver com nossa dura realidade!

Janeiro - 2022.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Estado brasileiro condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos

Estado brasileiro foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos devido a forma ineficiente como conduziu as investigação, além da forma como o processo judicial se deu, sobre o assassinato da paraibana Márcia Barbosa de Souza, em 1998.

A condenação representa um marco jurídico no país, pois é a primeira, no âmbito do feminicídio, da história brasileira. A decisão, publicada em 7 de setembro deste ano, foi divulgada no dia 25 de novembro passado. O fato é que através dela se reconhece que o Estado Brasileiro violou o princípio de igualdade perante a lei e do acesso à Justiça. 

Gilberta Soares, psicóloga que atuou como perita responsável por produzir o laudo psicossocial da vítima, e que também acompanhou o julgamento do caso Márcia Barbosa na Corte Interamericana, avalia que a "sentença internacional expõe de forma inédita, em se tratando do Brasil, a estrutura de violência de gênero e do racismo existentes no país, além dos problemas de classe, presentes na origem de Márcia e do condenado por sua morte, o ex-deputado Aécio Pereira".



terça-feira, 12 de outubro de 2021

O FUTEBOL E SUAS RAZÕES

Depois de um torcedor do Flamengo ter sido agredido violentamente por torcedores do Fortaleza, logo após o jogo de 09\10\21 pela 25ª rodada do Brasileirão, afloraram sentimentos de toda sorte em relação a caquética discussão de se nordestinos podem ou não torcer por times do eixo Rio-São Paulo. Logo que vi as manifestações, no Twiteer e no Instagram, lembrei que essa discussão é recorrente e que no já distante 01\05\2013 tinha feito uma coluna sobre isso, motivado pelo fato de Campinense Clube e Flamengo se enfrentarem na Copa do Brasil.

A coluna segue abaixo, mas lembro que tem um vídeo rodando pelas redes sociais de um torcedor do Flamengo, vestindo uma camisa do Fortaleza, afirmando que só pode entrar na Arena Castelão após retirar a camisa de seu clube. É bom não esquecer que a xenofobia é um dos componentes da cesta que compõe o modus operandi da extremosa destra que tomou de assalto a sociedade brasileira. Consideremos, ainda, a revolta dos torcedores do Fortaleza depois de verem seu time levando um sacode de 3X0 do time que, com carradas de razão, se autointitula a “nação rubro-negra”.

A seleção paraibana de futebol não vai jogar hoje!

Coluna publicada no GILBLOG (gilberguessantos.blogspot.com) em 01 de maio de 2013

Assim que se soube que o Campinense Clube enfrentaria o Flamengo em Campina Grande, pela 2ª fase da Copa do Brasil, um frisson tomou conta dos torcedores da raposa e de todos que gostam de futebol. Fiquei entusiasmado, pois finalmente poderia assistir de perto os times que torço se enfrentando numa competição nacional. O caro leitor quer saber se tenho algum problema em ver meus dois únicos times do coração disputar uma partida? Não, não tenho nenhum problema com isso. Pelo contrário, acho que vai ser uma experiência única e tenho certeza de que será, também, emocionante. Mas, não vou usar o espaço dessa Coluna para falar de minhas paixões futebolísticas.

Quero, na verdade, defender o direito do cidadão de torcer pelo time que ele bem quiser, não importando se este time é ou não da cidade, estado ou mesmo região onde ele nasceu. É que, no Brasil, a naturalidade de um cidadão não se define pelo time que ele torce. Se fosse assim, times de futebol como Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco da Gama e Cruzeiro não teriam torcedores espalhados por todos os estados e regiões desse país que tem, como sabemos, dimensões territoriais de um continente.

Eu sugiro uma reflexão. Antes de chamarmos de “paraibacas” os torcedores paraibanos que vão torcer pelo Flamengo, e não pelo Campinense, que tal pensarmos no processo que levou o futebol a se tornar nosso esporte nacional e nossa maior paixão.“Paraibaca” é uma forma agressiva e preconceituosa de se referir aos que, mesmo paraibanos, torcem por um time do Sudeste. Os que usam esse termo desconhecem fatores históricos que nos levaram a esse estado de coisas.

A partir de 1937 as rádios passaram a transmitir, em cadeia nacional, jogos dos times de futebol que mandavam jogadores para a Seleção Brasileira. É que o presidente Getúlio Vargas via nisso uma forma de integrar o país em torno do seu governo. Depois, quando já vivíamos à sombra das chuteiras imortais, como dizia Nelson Rodrigues, e quando já tínhamos a seleção tricampeã do mundo ficou quase impossível impedir que se torcesse, pelo Brasil afora, pelos grandes times de futebol.

Como impedir que se torcesse pelo Santos de Pelé, pelo Botafogo de Garrincha, pelo Flamengo de Zico, pelo Fluminense de Rivelino? Como querer que o torcedor paraibano não se encantasse, ao ponto de se tornar um torcedor, com esses artistas da bola? Por causa disso, torcedores pelo Brasil afora começaram a criar o que eu chamaria de “filiais de suas paixões”. Vejam que no Piauí existe um Flamengo, na Bahia temos um Fluminense, sem contar os “atléticos”, “esportes” e “américas” espalhados pelo país.

A televisão teve papel importante nisso. Mais não foi o futebol quem se valeu da TV para se nacionalizar. Foi o contrário. Foi Walter Clark quem sugeriu que a Rede Globo transmitisse jogos de times do Rio de Janeiro e São Paulo para todo o Brasil. A ideia era boa, pois quem não iria querer assistir ao vivo aquilo que se tornou nossa própria identidade cultural? A TV foi sendo levada pelo futebol para onde quer que houvesse um torcedor ávido por assistir um bom jogo e, quem sabe, uma boa novela.

O cinema teve sua importância nisso. Entre os anos 1970 e 1980 eu tinha duas grandes diversões aos domingos. Uma era ir ao Estádio Amigão ver o Campinense Clube jogar. A outra era ir para as matinês do Cine Capitólio ou do Cine Babilônia. Além dos filmes, assistíamos ao Canal 100, um cinejornal que trazia notícias da semana e variedades, além de fazer propaganda da ditadura militar. A parte mais esperada era a do esporte. Em geral, um clássico do campeonato carioca ou paulista era apresentado. O Canal 100 era o casamento entre o futebol e o cinema. Nelson Rodrigues disse que o Canal 100 “inventou nova distância entre o torcedor e o craque em plena cólera do gol. Tudo o que o futebol possa ter de lírico, dramático, patético e delirante era ali apresentado”.

Não foi difícil para mim, que já torcia pelo Campinense, torcer, também, pelo Flamengo. Assim como não foi difícil para amigos meus, que torciam pelo Treze Futebol Clube, torcerem pelo Vasco da Gama ou pelo Corinthians. Era uma questão de identificação. Assim, vejo com naturalidade que um paraibano torça por um time local e por outro do Sudeste. Se o jogo de logo mais fosse entre a Seleção de Futebol da Paraíba e a Seleção do Rio de Janeiro, aí sim deveríamos torcer pelo nosso Estado. Mas, não é o caso.

Os times materializam paixões. Quem conseguir explicar racionalmente essa questão que peça a um trezeno para torcer pelo Campinense. Eu não peço, pelo contrário, defendo o amplo direito de cada um torcer por quem bem quiser. Deixemos de lado esse bairrismo tolo de que se não é de nossa terra deve ser rechaçado. Esqueçamos esse complexo de vira-latas “nelsonrodriguiano” de que somos pequenos Davis unidos para enfrentar o grande Golias. Se por acaso você vai torcer contra o Campinense, não se preocupe se vão te chamar de “paraibaca”. Afinal de contas seu compromisso, hoje à noite, não é com o estado ou cidade onde nasceu e sim com seu time do seu coração e suas “razões” futebolísticas.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Brasil e o mais perigoso de sua jovem democracia

 

Ao PB Agora, cientista político faz análise de manifestações do 07 e 12 de setembro

POR REDAÇÃO 14.09.21 11H00 · ATUALIZADO HÁ 2 HORAS

 

Cientista político faz análise sobre o retrato atual que o país atravessa com ameaças de ‘insurreição’ antidemocrática, crise entre os poderes, medo do país “entrar” em estado de sítio e temor por um novo golpe de Estado.

O Brasil vive um momento conturbado, o mais perigoso de sua “jovem democracia”, com ameaças às instituições democráticas e com os protestos do 07 setembro que dividiram o país e enfraqueceram as relações institucionais entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

O cientista político, historiador e professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Gilbergues Santos Soares analisa o momento turbulento que o país atravessa. Ao discorrer sobre os atos do 07 de setembro, com o discurso inflamado do presidente da República, em Brasília e em São Paulo, e com os episódios que se sucederam, Gilbergues garantiu que mesmo tentando fazer uma pacificação com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Morais, Bolsonaro “colocou o impeachment sobre a mesa”.

Como forma de fundamentar o seu argumento, o cientista enfatizou que, depois do 07 de setembro, partidos como PSDB e PSD, e até mesmo alguns do Centrão, passaram a discutir a questão do impeachment. Inclusive tucanos e PSD anunciaram a saída da base do governo. Sem contar as inúmeras manifestações realizadas desde o último domingo (12) pedindo o impeachment do presidente.

“A insanidade do 07 de setembro serviu para colocar o impeachment na mesa. Existe uma pressão dentro da própria Câmara dos Deputados para que Arthur Lira tome uma atitude que seria desengavetar um ou mais processo de Impeachment”, destacou Gilbergues.

Para ele, mesmo firmes, os discursos do presidente do STF, ministro Luiz Fux, e do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, repudiando os ataques à democracia, precisam vir acompanhados do início do processo de impeachment. “Toda e qualquer outra questão, passa pelo afastamento de Bolsonaro”, enfatizou.

A questão militar, com o risco da volta dos tanques às ruas, também preocupa o cientista político. Ele ressaltou que o presidente Bolsonaro conta com apoio de parte da hierarquia militar, embora perca apoios a cada ato que realiza. Gilbergues observou que o cenário se torna mais complexo devido a mentalidade autoritária do brasileiro. “A sociedade brasileira, com sua formação pouco ou quase nada democrática, não nos autoriza a pensar saídas democráticas para uma crise institucional e social como essa”, observou.

 


Expectativa de golpe

Particularmente, Gilbergues Santos não acredita em mais um golpe de Estado no Brasil a curto prazo, pelo menos. Ele enfatizou que o golpe aconteceu a partir de 2016 com três atos em sequência a partir do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e da ascensão do atual inquilino do Palácio do Planalto. “O golpe de 2016 aconteceu em três atos. Primeiro foi a deposição de Dilma Rousseff; segundo foi a prisão de Lula, através da Lava Jato, que o retirou do jogo político eleitoral; e, terceiro, a eleição do próprio Bolsonaro”, observou.

O cientista político alertou para o que ainda está por vir no país e que novas manifestações podem acontecer em datas pontuais como o 15 de novembro. Gilbergues classificou os atos realizados na Esplanadas dos Ministérios como “catastróficos, terríveis e horrorosos”.

Para Gilbergues Santos, o que está acontecendo é que o presidente Bolsonaro não tem mais saída e chegou a uma situação em que ele não tem mais para onde retornar. Na visão do cientista político paraibano, o pânico de Bolsonaro é que “ele e os filhos sejam presos”. Por isso, o presidente não estaria disposto a uma solução negociada para resolver a crise institucional que se instalou no país.

 

Sobre as manifestações do último domingo (12)

Gilbergues explicou ao PB Agora que o que aconteceu foi uma tentativa frustrada de alguns, como o Movimentos Brasil Livre (MBL) e partidos como o PSDB, de tentarem demarcar uma posição. “Eles não conseguem porque não podem ficar mais a favor de Bolsonaro. Eles que votaram e fizeram campanha para Bolsonaro e estão comprometidos com todo esse estado de coisas que infelizmente nós estamos passando. Mas, eles também não podem se unir à esquerda, com Lula“, observou. Na análise do cientista político, o grande problema é fortalecer o movimento e atrair pessoas, visto que as manifestações de domingo estiveram praticamente vazias.

“Não deu ninguém nestas manifestações nem poderia dar. Porque quando eles dizem ‘nem Lula nem Bolsonaro’, na verdade estão deixando de responder a uma pergunta que é a grande questão do nosso momento – queremos democracia ou fascismo?”.

Para ele, o Brasil está em uma encruzilhada já que os organizadores da manifestação do último domingo não conseguem se apresentar como terceira via, pois não sabem responder a uma questão primordial sobre o regime que queremos: “Eles têm que responder se querem democracia ou fascismo?”, indagou.

  

Severino Lopes   -   PB Agora

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O “Putsch da Cervejaria” de Donald Trump ... ou quem com golpe fere com golpe será ferido!

Publicado no www.brasil247.com.br em 14 de Janeiro - 2021.

https://www.brasil247.com/authors/gilbergues-santos-soares

É difícil dizer o que “entra” para a história e o que dela fica “fora”, mas é provável que o 06 de janeiro de 2021 venha a ser tratado como o dia em que a extrema direita supremacista dos EUA, liderada por Donald Trump, tentou dar um golpe de Estado. Meus alunos de História do Brasil e da América poderão, em suas aulas, dizer que um presidente dos EUA tentou permanecer no poder, após perder uma eleição, incitando seus eleitores a invadirem o Congresso. Tenho uma certeza: o 06\01 será visto como o dia em que o modelo de democracia, tido como sólido, rachou. Os chineses gostam de dizer que isso é o começo do fim do império.


Tido e havido como modelo a ser imitado a democracia estadunidense agoniza, pois os princípios do federalismo foram trocados pelos interesses do Complexo Industrial Militar que Fred James Cook tão bem analisa em “O Estado militarista”. Nessa obra seminal (aqui publicada em 1965 pela Editora Civilização Brasileira) vemos como se desenvolveu o “Estado total e a estratégia da guerra total”, após a 2ª Guerra Mundial, quando os EUA se “dedicaram ao verdadeiro poder - do dólar e das armas”. Cook cita o Presidente Eisenhower que, em 1961, alertou para a existência nefasta de “um colosso que domina vastas áreas da vida americana (que) é a verdadeira ameaça à democracia”. O autor relata como os EUA adotaram, nos anos 1950, o modelo prussiano militar industrial que produz ditadores como Hitler e faz da guerra sua própria razão de ser.

Os EUA provam que não existem democracias imunes às ofensivas da cadela do fascismo, sempre no cio, como diria Bertolt Brecht. A mãe das ironias é o berço da democracia moderna, o império da liberdade, “pagando” de república bananeira com um ditador bufão que arregimenta seguidores para invadir o parlamento. Quem cravaria que a eleição dos EUA terminaria sob toque de recolher?!  Desesperados com a derrota e com a revolta do povo negro, Trump e sua malta supremacista lançaram mão da ideia Coringa: "quando tudo estiver perdido, estabeleça o caos".

A democracia não é mais hegemônica no ocidente, se é que um dia foi. Nós, que vivemos bem ao sul da América, vimos congressistas confirmarem a eleição de Joe Biden ancorados nas armas. Os EUA adotaram o modus operandis aplicado nas republiquetas caribenhas e latino-americanas onde as armas garantiriam a “democracia”. Foi trágico, cômico, patético! Confesso que sorri ao ver os congressistas, lívidos, reafirmando a vitória de Biden sob a ameaça das bombas de uma extrema direita chucra que se fantasia de bisão para defender seus interesses.

Estadunidenses sentiram na pele o que é ver seu sistema político derretendo pelo fogo do autoritarismo. Os Vargas, Peróns, Arbenzs, Jangos, Allendes, Dilmas, experimentam o agridoce sabor da vingança vendo o “stupid white man” tocando fogo em suas instituições democráticas. Enquanto via a escumalha supremacista arruinar seu capital democrático disse ao meu sofá: “bem feito, pois eles invadem nossas instituições para fazer valer seus interesses”.

Vi jornalistas e analistas dos EUA evitando falar em golpe de estado. Não existe, no inglês, uma palavra para designar o ato de se tomar, pela força das armas, o poder conquistado pelo voto – é que os EUA nunca tiveram um golpe de estado. Por isso, tomam emprestado do francês o “coup d’état” (sem acento, claro). Países que já viveram a experiência da usurpação autoritária do poder possuem expressões para isso. Na Alemanha e em países do leste europeu, por exemplo, golpe de estado é “putsch”. Como no Brasil a democracia é apenas uma fina camada sobre um espesso extrato de autoritarismo, não precisamos pedir emprestado aos franceses o “coup d’état”.

Devia-se criar um termo, nos EUA, para o que pode vir a ser regra, já que os supremacistas não parecem dispostos a uma conversão democrática. Talvez possam usar o termo alemão numa referência ao “Putsch da Cervejaria” – a tentativa farsesca de golpe de estado do Partido Nazista em 1923. A ideia de assaltar o poder fracassou, mas foi a partir disso que o nazismo se fez conhecer até Hitler subir ao poder em 1933. O que Trump e seus bisões amestrados fizeram não difere tanto do putsch nazista. Na verdade, o fascismo precisa dessas ações teatralizadas para vir a público atestar suas reais intenções e arrecadar a simpatia popular. A invasão do Capitólio pode ser o primeiro de uma série de atos nos quatros anos do governo Biden.

Temos o efeito bumerangue das democracias burguesas, onde a liberdade pouco importa, a igualdade é um estorvo e a fraternidade uma farsa. Em eleições, os donos do capital se valem dos Trumps e Bolsonaros onde os votos dão a impressão de legitimidade política e social, porém o retorno é a fascistização das sociedades. Assim como Hitler, desmerecem o procedimento que os levou ao poder, pois não creem na democracia. Desde que se convenceram de que perderiam as eleições, Trump e sua trupe lançaram dúvidas sobre a legalidade das eleições, pois precisavam de uma muleta que ancorasse a derradeira tentativa de ficar no poder.

A ideia é que se as eleições foram fraudadas, o povo tem o direito de reagir. Para Bolsonaro isso tudo é um laboratório – ele já sabe o que fazer caso perca as eleições em 2022. Pouco importa que Trump seja cancelado nas redes sociais pelas big techs.  Importa que o fascismo viceja, pois ele teve mais de 70 milhões de votos, na eleição de novembro, e Bolsonaro teve quase 50 milhões em 2018. Hitler revive nesses homens apoiados por milhões. Isso é o que importa!

... ou quem com golpe fere com golpe será ferido

Em 2016 o conglomerado golpista depôs Dilma Rousseff contando com a colaboração do Departamento de Estado, do FBI e da CIA estadunidenses. Os golpes civil-militar de 1964 e parlamentar\jurídico\midiático\militar\religioso de 2016 foram apoiados pelos EUA, mas os brasileiros golpistas agora defendem a democracia. Os EUA racionalizam os golpes que deram na América Latina como a “defesa da liberdade e da democracia”, mas a invasão do Congresso foi um ato de “terroristas domésticos”, como disse Joe Biden. Não vi ninguém dizer que os EUA estão tendo o que merecem depois de tantos golpes de estados que já promoveram mundo afora. Pelo contrário, tomou-se para si as dores da democracia estadunidense.

Vi jornalistas e analistas políticos brasileiros admirados com a marcha lúgubre dos supremacistas em direção ao Capitólio. Qual a surpresa? O fascismo só se utiliza dos procedimentos democráticos para ocupar o poder. Feito isso, age para desmontar o Estado de direito acabando com as garantias da lei e da ordem política e social. Bolsonaro só esteve próximo do procedimento democrático eleitoral para se tornar presidente. Feito isso, atuou e atua para desmontar os vestígios de democracia que ainda temos. Se amanhã ele marchar, junto com seus seguidores bovinos, para fechar o STF e/ou Congresso Nacional, quem há de se surpreender?

Em “Como as democracias morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como as democracias tradicionais vão se enfraquecendo, de modo legal ou não, até perecerem. Eles nos fazem pensar porquê as democracias sólidas se fragilizam ao ponto de deixarem-se dominar pelo fascismo e tratam da “crise do sistema político norte-americano – sobretudo a partir das ameaças trazidas pela ascensão de Donald Trump”. Outra questão é por que países renunciam a seus sistemas democráticos para viverem sobre o tacão das ditaduras. Por que brasileiros e estadunidenses aceitam ser (des)governados por homens como Bolsonaro e Trump? Essa é a questão para pensarmos, pois o “retrocesso democrático, hoje, começa nas urnas”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Os votos não movem moinhos

É preciso entender, de uma vez por todas, que conciliar com partidos de centro direita e com setores das elites não constrói um projeto social e político que promova profundas transformações no país.

Já diziam os Secos & Molhados que ”os ventos do norte não movem moinhos". E não movem mesmo! Os ventos, digo os votos, saídos das urnas não farão os moinhos da esquerda girarem na velocidade desejada. Mas, como o que “importa é não estar vencido”, nos apeguemos às nossas conquistas mesmo que nos pareçam frágeis. Aquele “antigo compositor baiano” segue tendo razão, pois “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

Confesso minha contradição. Nem deveria falar tanto de eleições, pois as considero tão somente o procedimento democrático que escolhe governantes e legisladores. Mas, nossa cultura política nada democrática costuma vir à tona nas eleições. Então, farei breve avaliação delas e tratarei de perspectivas futuras. Peço-lhe apenas, caro leitor, que não desconsidere que a análise é de momento, pois a política eleitoral, como as nuvens, dança ao sabor do vento.

Jair Bolsonaro é o derrotado das eleições 2020. Onde pôs a mão, seus escolhidos malograram. No 1º turno, dizia não querer se envolver, mas quando o fazia seus candidatos “embicavam” para baixo. Celso Russomano e Wal do Açaí que o digam. Nas pavorosas “lives” do 2º turno, detonou o capital eleitoral de seus seguidores. Ele pediu votos para 13 candidatos a prefeito, mas apenas Gustavo Nunes em Ipatinga (MG) e Mão Santa em Parnaíba (PI) se elegeram. Crivella no Rio e Capitão Wagner em Fortaleza provam como o bolsonarismo pode erodir um projeto eleitoral.

A direita não bolsonarista, mas que se valeu do próprio quando lhe foi conveniente, se saiu bem. Trabalhará para se ver livre de Bolsonaro e ter condições de disputar as eleições de 2022 com alguém palatável ao eleitorado que se encanta com “antipetismo”, Lava Jato, combate a corrupção, etc. Essa tal direita deve dispensar os serviços de seus "bons moços" (Moro\Huck\Dória\Covas\Amoedo) e ter um nome que lhe seja confiável, de “dentro da política”. Como as organizações criminosas, que só confiam em bandidos, os políticos tradicionais preferem os que não rejeitam a política, que não se travestem de novos, apolíticos.

Eduardo Paes, eleito no Rio de Janeiro, disse que o DEM deve “lançar um quadro da política para a eleição de 2022 e que há resistências a Sergio Moro e a Luciano Huck, mesmo que este converse com o DEM”. Dizendo de onde virá o canto da sereia, Paes mostra que seu partido descarta as “novidades”, que quer lançar um nome e que este nome pode ser o seu. ACM Neto, prefeito de Salvador e presidente nacional do DEM, disse que “não vamos apoiar um Bolsonaro dos extremos em 2022”. Desdenhando do bolsonarismo, a direita quatrocentona aponta para uma correção de rumos no sentido de uma volta aos tempos em que PSDB\PFL\PMDB governavam.


A direita venceu em Recife e Porto Alegre, pelo menos, se baseando em “fake News” (inseridas de vez nas campanhas), no discurso racista\machista\misógino, com um conservadorismo reacionário flertando com o fascismo e na mais descarada compra de votos. Despida de qualquer pudor, a direita de São Paulo foi para o 2° turno e venceu. FHC não larga Covas para impedir que bolsonaristas se aproximem. Neoliberais golpistas de 2016 (PSDB, DEM, MDB), extrema direita abrigada em siglas como Republicanos e o “centrão” de sempre governarão 85% dos eleitores dos 5.570 municípios brasileiros. É preciso entender que quem melhor sabe jogar o jogo eleitoral é a direita. Sua maior vitória é quando impõe à esquerda que escolha entre dois dos seus atores políticos como aconteceu em João Pessoa e no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a direita venceu jogando nos erros da esquerda que não soube, não quis ou não pode se unir.

Do ponto de vista das vitórias, a esquerda saiu-se mal nessas eleições, mesmo com boas votações em Recife, São Paulo, Vitória e Porto Alegre. Vejamos que ela elegeu prefeitos em 12 cidades de 9 estados diferentes. É muito pouco. O PT precisa entender que não é mais o protagonista da esquerda. Precisa aceitar que o PSOL deixou de ser mero coadjuvante, do contrário Boulos não teria chegado ao 2º turno em São Paulo. É certo que a esquerda mantém alto capital eleitoral, mesmo considerando o comportamento volúvel do eleitor brasileiro. Considero pontual a vitória de Edmilson Rodrigues (PSOL), em Belém, pois ela não prova uma onda de votos à esquerda como nas eleições de 2008 e 2012. A esquerda não saiu em bloco para enfrentar as eleições municipais. Ao contrário da direita, não pensou nos cenários para 2022. Como sempre, o erro foi PT, PSOL e PCdoB se dedicarem às suas questões paroquiais, esquecendo que a luta contra o fascismo\neoliberalismo é diária independente de estarmos ou não em eleições. Resultado? Mais uma vez, a esquerda terminou fazendo o jogo da direita.


Tomemos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro onde a esquerda enfrentou o jogo eleitoral esfacelada. A direita se uniu e foi para 2° turno podendo se livrar do bolsonarista de plantão e ainda vencer com um político “mais do mesmo”. A esquerda se viu tendo que escolher entre Paes e Crivella. Muito me incomoda essa situação de ter que escolher entre o “menos ruim”. É preciso entender, de uma vez por todas, que conciliar com partidos de centro direita e com setores das elites não constrói um projeto social e político que promova profundas transformações no país. A esquerda deve, ainda, compreender que a tal frente ampla só beneficia projetos de poder do grande capital. De que adianta compor uma ampla frente política, contra o bolsonarismo, com partidos que participaram do golpe de 2016 e apoiaram Jair Bolsonaro em 2018? A esquerda precisa saber que não é a árvore que tem que amolar o machado.

Ainda tenho que tratar do fator Ciro Gomes e seu comportamento destrutivo em relação a esquerda. Ele sabe que seus 10% não o levarão ao 2º turno em 2022, como não o levaram em 2018. Isso o deixa irado, ressentido, agressivo, invejoso. Ciro segue agredindo o PT e Lula, com os despautérios de sempre, atingindo Boulos com a pecha de radical e dizendo que Flavio Dino está fora da realidade por ter ido votar com uma camisa vermelha escrito “Lula Livre”. Ciro não assimila o golpe de ver Boulos e Dino ocupando o lugar que pensa ser seu.


O que fazer? Sugiro que uma liderança da esquerda dê uma declaração definitiva, dizendo o que Ciro Gomes é e com todas as letras, sem tergiversar. É preciso dizer que ele não é de esquerda, nem de centro esquerda e que o PDT gravita na centro direita. Ideologicamente Ciro nunca se identifica com os valores da esquerda. Politicamente seus interesses estão do centro para a direita. Importa que tudo fique claro. Quando Ciro chama Boulos de radical faz o papel, que a direita lhe atribuí, e que ele quer fazer para se tornar palatável à direita. Deixar as coisas claras é o melhor para se seguir em frente sempre pensando em como fazer para que os ventos possam mover nossos moinhos.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Brasil e sua festiva democracia rachada

Pirro, general grego, disse ao ganhar a Batalha do Ásculo (279 a.C.) que outra vitória daquela e ele estaria perdido. Referia-se ao alto número de soldados mortos e de não ter mais onde recrutá-los. Assim é a democracia brasileira que venceu, mas não levou, a disputa contra a ditadura. Não é que tenha havido renhida disputa entre os dois sistemas. Houve, isto sim, uma pactuação para que civis, da direita, governassem no lugar dos militares. O “pacto da transição” permitiu que José Sarney, fiel aliado dos militares, se tornasse presidente com a morte de Tancredo Neves, ativo político da “oposição consentida”. O que tivemos, na verdade, foi um processo lento de liberalização que nos levou da ditadura militar para este sistema que mescla entulhos autoritários com procedimentos democráticos.

O tropo entulho autoritário serve para demonstrar os obstáculos deixados em nosso ordenamento jurídico que tanto impediram e impedem o assentamento da democracia como a Lei da Anistia, os Artigos 142 e 144 da Constituição Federal, a Lei de Imprensa de 1967 (só declarada inconstitucional em 2009), a Lei de Segurança Nacional (editada na ditadura e usada até hoje), o desmonte parcial do aparato repressivo, etc, etc, etc.

Notem que me refiro ao entorno legalista, mas temos os arranjos institucionais que mantiveram privilégios e prerrogativas de militares, juízes e agentes da administração pública, além de nossa evidente cultura política pretoriana. O fato é que o sentido do autoritarismo, o conteúdo ditatorial, ficou entre nós. Mudaram os formalismos, a substância não. O sociólogo guatemalteco, Bernardo Arévalo, especialista nas relações civil-militar e em segurança, diz que: "temos o hardware da democracia e o software do autoritarismo".

Certo, a pior das democracias é sempre melhor do que a mais eficiente das ditaduras, mas atentemos para as fraquesas de nosso sistema democrático, principalmente por ele não ter forças mínimas para impedir que os que o detestam se elejam e governem. Nossa democracia tem seríssimas deficiências afloradas com as muitas manifestações a partir de 2013, com o golpe de Estado de 2016 e as eleições de 2014, 2018 e 2020. Costuma-se dizer que a democracia brasileira está estabilizada. Lêdo engano! De forma desconectada da realidade, afirma-se que eleição é a “festa da democracia”. A propaganda que a justiça eleitoral faz desinforma, não educa, pois quer nos fazer crer que vivemos numa democracia modelar. O Tribunal Superior Eleitoral e a mídia grande insistem na tese que somos uma democracia consolidada por termos muitas eleições. Essa publicidade despolitizada ignora que nosso povo adora uma eleição, mas não presta atenção ao processo posterior quando os que foram escolhidos nas urnas governam e legislam.

Tratar eleições como um grande show mascara o fato de que elas são tão somente o ato pelo qual escolhemos nossos representantes. Por que depois de tantas eleições, com alternância no poder (condição necessária, mesmo que insuficiente das democracias), seguimos tratando esse momento como algo inusitado? Temos eleições a cada dois anos, mas elas são aguardadas como um cometa que nos visita a cada cem anos. A realidade desmente os incautos que proclamam o que estamos bem distantes de sermos.


Devemos nos inquietar com fatos ocorridos já neste século XXI. Reflitamos sobre os casos de violência (física ou não) contra políticos e sobre o comportamento racista, machista/misógino, homofóbico de candidatos e eleitores nessas eleições de 2020. Apesar de que, apenas num próximo artigo relacionarei as questões identitárias, com o conservadorismo da sociedade brasileira e os resultados das eleições 2020. Por enquanto, quero tratar da presença das Forças Armadas nas ruas nos dias das eleições. Se estamos em uma democracia, os votos é que deveriam assegurar as armas, não o contrário.

Nas eleições municipais de 2008 vimos que, no Rio de Janeiro, traficantes e milicianos tabelaram valores a serem pagos por candidatos que desejassem cabalar votos em seus domínios. A mão-de-obra utilizada pelos candidatos teria que ser contratada na própria comunidade para a colocação de faixas, placas e adesivos. Candidatos a vereador, com parcos recursos, pagavam para que moradores (os “gatos placa”), responsáveis pelas placas de candidatos mais ricos, vigiassem também o seu painel. "Gato placa" vem de "gato-net", furto de sinal de TV a cabo, uma variação do "gato", furto de energia elétrica.

Esses “serviços” são “fornecidos” pelos que controlam as comunidades. Na falta de instituições formais eficientes que provenham segurança e assegurem direitos e deveres do cidadão surgem as instituições informais, procedimentos fora do aparelho de Estado que, mediante resultados eficazes, cumprem o papel que deveria ser do próprio Estado.

Como a polícia (militarizada pela ditadura e pela própria Constituição de 1988) não garante segurança nos processos eleitorais, até porque seu envolvimento neles tem sido de outra ordem, convoca-se o Exército pelo entendimento, equivocado, dele ser a única instituição capaz de manter a ordem e a paz social e política. Na época, a declaração do ministro Carlos Ayres Brito, então presidente do TSE, foi de uma sinceridade acachapante. Admitindo a quebra do Estado de Direito, assim justificou a convocação do Exército: "esses grupos querem o poder, se apoderam da coletividade periférica e tentam impor o curral fechado. Se a justiça permitir que atuem livremente, será o mesmo que rendição”.

Como numa guerra, para evitar que a sociedade se renda a um inimigo bem mais poderoso, clama-se pelas Forças Armadas que, sabemos, não tem treinamento adequado para atividades de segurança pública. Alegando a necessidade de se garantir a circulação de candidatos, tropas federais ocuparam várias comunidades da cidade do Rio de Janeiro em várias eleições nas duas primeiras décadas deste século. Para que um procedimento democrático (eleição) pudesse ocorrer foi preciso o uso do poder armado. Um preço nada barato para uma democracia claudicante que sobrevive sob os efeitos de uma Constituição que, se avançou no quesito direito social, se mantém aferrada aos tempos da ditadura com a presença de entulhos autoritários como os artigos 142 e 144. O Estado de direito no Brasil é tão frágil que precisa das Forças Armadas para garantir direitos básicos do cidadão, como o de ir e vir e o de expressar opiniões.

Citei o caso do Rio de Janeiro, em 2008, mas bem que poderia trazer vários outros exemplos de eleições da primeira década deste século nas grandes capitais e em cidades de médio porte. Recordo de sair para votar, em Campina Grande (PB), nas eleições de 2004 e 2008 e ver soldados do Exército, perfilados próximos as sessões eleitorais, com roupas de combate, pintura camuflada nos rostos, armados de fuzil. Lembro, ainda, de o meu filho, pequeno na época, me perguntar se o Brasil estava indo para uma guerra.


Em 2020 a “festa da democracia” teve pesado custo. Aqui no Brasil 247 vimos uma matéria, com dados do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (RJ), dando conta que nas campanhas para as eleições municipais teve um político assassinado a cada três dias. As organizações não-governamentais Terra de Direitos e Justiça Global mostraram que houve um ataque a vida de políticos a cada treze dias. As ONGs consolidaram dados diversos entre janeiro de 2016 e setembro de 2020 e mapearam exatos 327 casos de violência contra políticos. As eleições municipais no Brasil mais parecem uma disputa por territórios do que propriamente um processo de escolha democrático.

Vejamos, por exemplo, que em 09\11 o candidato a vereador por Guarulhos (SP), Ricardo de Moura (PL), foi baleado no ombro e nas pernas. O crime ocorreu quando ele fazia uma transmissão, pela internet, de um lugar público. A impressão é que se queria “avisar” a Ricardo para ele não fazer campanha naquele local. Já no 2º turno, o dirigente do PSOL, Anselmo Pires, foi alvo de atentado a tiros enquanto participava de uma atividade da campanha de Elói Pietá (PT), candidato a prefeito, não por acaso de Guarulhos. Em 24\09 o candidato a vereador em Patrocínio (MG), Cássio Remis (PSDB), foi assassinado a tiros quando fazia uma “live” denunciando os desmandos da prefeitura. O assassino foi o irmão do prefeito e secretário de obras da cidade, Jorge Marra. Em 10\11, Klaus Lima (PSB), candidato a prefeito de Escada (PE) foi também baleado. No mesmo dia, a candidata a vice-prefeita de Belém (PA), Patrícia Queiroz (PSC), teve sua casa atingida por tiros. Temos, então, candidatos defendendo a violência como solução para a violência. Esta é a prática da extrema direita que governa o país e quer estender seus tentáculos Brasil afora.

O Grupo de Investigação Eleitoral (GIEL), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, levantou que neste período eleitoral 25 candidatos foram assassinados. O GIEL mostra um padrão de regularidade, pois tivemos 23 candidatos mortos nas eleições de 2016, 16 nas de 2012 e 25 nas campanhas de 2008. É por esse estado de coisas que o coordenador do GIEL, Felipe Borba, diz que a “violência eleitoral afeta da livre escolha dos eleitores à oferta de candidatos e à atuação parlamentar”. Assim, os processos não são fiadores únicos de uma pretensa democracia consolidada. Nossa “festa da democracia” mais se parece com uma carnificina. Consideremos, ainda, que nas eleições locais explode a violência perpetrada pelas famílias que fazem do poder público seu negócio particular, hereditário.

Recuperei o "Economist Intelligence Unit’s Index of Democracy - 2008" - um índice, compilado pelo Economist britânico, que avalia a qualidade da democracia em 165 países. O índice de 2008 confirmou tendência global no processo estacionário de desenvolvimento das democracias após a década de 1990 quando haviam se expandido. A edição 2008 comparou seus resultados com a de 2006 e viu um padrão dominante de estagnação, mesmo que a tendência de regressão só tenha se dado com a extrema direita subindo ao poder nos anos 2010. São os casos de Viktor Orbán (Hungria, 2010); do Partido Popular Dinamarquês e do Partido Popular Suíço em 2015; de Mateusz Morawiecki (Polônia), Rodrigo Duterte (Filipinas), Recep Erdogan (Turquia), Donald Trump (EUA) - eleitos em 2016; e Sebastian Kurz (Áustria, 2017) e Jair Bolsonaro (Brasil, 2018).

O Índex considera cinco variáveis: 1) processo eleitoral e pluralismo; 2) liberdades civis; 3) funcionamento do governo; 4) participação política; 5) cultura política. Os países são classificados em quatro tipos de regimes: democracia consolidada; democracia falha ou rachada (pela tradução literal); regime híbrido; regime autoritário. Não por acaso, o Brasil aparece como democracia rachada, algo que contraria a ideia de consolidação democrática, na edição 2008. Colocaria o Brasil entre as colunas dos regimes híbridos, pois mesclamos procedimentos democráticos com entulhos autoritários, e dos regimes ditatoriais.


O cientista político norte-americano Scott Mainwaring, em um antigo artigo intitulado “Classificando Regimes Políticos na América Latina”, define que democracia é o regime político que (1) promove eleições competitivas, livres e limpas para legislativo e executivo; (2) pressupõe cidadania adulta e abrangente; (3) protege liberdades civis e direitos políticos; (4) governos eleitos de fato governam e militares estão sob controle civil. Sugiro, ao caro leitor, que verifique (empiricamente) se uma dessas quatro condições existem de fato em nosso sistema político. Se com muita boa vontade encontrar uma delas, mesmo que de forma procedural, como formalismo, não como substância, significa que não podemos afirmar que somos uma democracia, mesmo que ainda se possa questionar se já vivemos numa ditadura. Como Pirro, que logrou ganhar batalhas contra as legiões romanas, mas a um preço tal que o fez questionar a validade das vitórias, temos que repensar a “festa da democracia” eleitoral brasileira, se ela vale o quanto pesa.


sábado, 14 de novembro de 2020

 Uma esquerda que a direita gosta

Mais um artigo publicado no www.brasil247.com.br onde trato, dentre outras coisas, onde peço para que reflitamos de como reverter a realidade que nos arrasta para mais uma ditadura, além disso reafirmo que deve-se entender que eleição é condição necessária, porém insuficiente para se ter democracia.

Como assim?! Existe uma esquerda que a direita gosta?! Logo essa direita brucutu que odeia com suas extremadas forças a esquerda verde-amarela, digo vermelha? Se ela não gosta dos liberais, a la FHC, o que dirá dos “esquerdopatas”? Mas, que sinistra seria essa que a destra gosta?

Dizia Darcy Ribeiro, exagerando é bem verdade, que o “PT é a esquerda que a direita gosta”. Luiz Carlos Prestes dizia que a esquerda “não luta pelo fim da desigualdade por crer num capitalismo bonzinho, sem contradições”. Fosse eu destro não desgostaria dessa esquerda simpática a burguesia. Hoje, parte da esquerda tupiniquim desistiu de lutar pelo socialismo, se é que tentou, por achar ser possível humanizar o capitalismo. Poderia seguir sendo gostada pela direita? Sim, se esta não fosse tão bronca a ponto de não aceitar nem ao menos políticas públicas, que geram crescimento e desenvolvimento, sempre nos marcos do capitalismo, nunca do socialismo. 

Alguns fazem o jogo da direita rústica. Por interesses, estratégicas, táticas, ou seja lá pelo que for, são os que nas eleições (municipais, por exemplo) maximizam lucros e minimizam perdas ao evitar alianças com os que lhes são próximos. São os “puros de alma”, cheios de boas intenções, sempre abertos ao diálogo com Deus e o diabo, não importando se na terra do sol, da lua ou de Marte. Desde as eleições de 2018, com a vitória da direita extremosa, que se fala do comportamento egoísta de uns propiciando a derrota de Fernando Haddad e da esquerda. Poderíamos ter melhor sorte se Marina Silva, sempre esquiva, tivesse deixado de lado seus paradoxos e se aliado a Haddad. Tivesse Ciro Gomes, curado de seu orgulho de “cabra macho”, ido ao ato no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que antecedeu a prisão de Lula, e tudo poderia ser diferente.

É fato Lula queria uma chapa com Ciro candidato a presidente e Haddad vice. Mas, Ciro rejeitou, lançou chapa com a senhora do agronegócio, Katia Abreu, e, não satisfeito, abriu fogo contra o candidato fascista e contra Haddad como se ambos fossem iguais e ele diferente e melhor que todos. Ciro não tirou votos do candidato miliciano, pois seu eleitorado era consciente para não votar no fascismo, mas um tanto quanto ingênuo em acreditar que o PT era o “mal maior” a se combater. Não sei por que motivos, mas Ciro e Marina foram, sim, a “esquerda” que a direita gosta.

Mangabeira Unger, que nunca foi mentor de Ciro Gomes que se basta a si mesmo, afirmou que “ele perdeu por arrogância ao recusar aliança com o PT (...) abrir mão do cacife eleitoral de Lula foi gesto de arrogância mortal”. Unger, coordenador da campanha do PDT em 2018, confirmou que foi oferecido a Ciro ser o vice na chapa do PT, para que assumisse a candidatura quando Lula fosse impedido. Ciro, consciente de que a direita gosta de seu papel, recusou. Com sua prisão, Lula entendeu que precisava mudar a estratégia e que urgia minimizar o protagonismo do PT. Ciro entendeu a estratégia, mas errou na tática ao rejeitar o cacife eleitoral de Lula. Ciro, tão dono de si, teve medo de ser teleguiado pelo lulismo. Perdeu ele, perdemos todos!

Mas, o que fazer para não ser essa “esquerda que a direita gosta”? Como reverter a realidade que nos arrasta para mais uma ditadura? Deve-se entender que eleição é condição necessária, porém insuficiente para se ter democracia. Ela não é o fim único que orienta todos os meios. Ela é tão somente uma forma de se chegar ao poder político. Se até o presidente/miliciano conseguiu entender isso, o que falta a esquerda para mudar suas táticas e estratégias?

Notas de repúdio não nos servem, nunca serviram! Manifestações de rua não são um fim em si mesmas. Elas servem para mostrar a insatisfação social e importam para que se possa, por exemplo, impedir golpes de Estado. As manifestações são uma via de mão dupla, pois a mãe de todos os paradoxos no Brasil, hoje, é se utilizar a liberdade de expressão para justamente pedir o fim da democracia. Se vamos às ruas gritar FORA PRESIDENTE!, mas ele continua dentro, algo não está funcionando bem. Lutar é preciso, sempre, mas a luta tem que ser feita de uma forma que incomode aquele que nos oprime, pois se ele segue sobrevivendo às manifestações alguma coisa que está sendo feita pela esquerda anda agradando a direita.

 A frente ampla que não amplia

O recente encontro entre Luciano Huck e Sérgio Moro, movimento da direita golpista que se pretende civilizada e que aponta para as eleições de 2022, fez a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, descartar de antemão qualquer possibilidade de uma frente ampla de várias forças (de direita, centro e esquerda) para enfrentar Bolsonaro em 2022. Gleisi desancou a aliança Huck\Moro: “É a junção da Lata Velha com a Lava Jato". A mídia, que integra o conglomerado golpista de sempre, deu destaque para o tal encontro supondo ser esta a solução para o imbróglio, que ela mesma se meteu desde que apoiou o golpe de Estado de 2016 e a candidatura de Bolsonaro em 2018.

Vendo os porta-vozes da mídia grande, falando em frente ampla, lembrei do imprescindível Leonel Brizola que dizia para sempre desconfiarmos das intenções da Rede Globo, mesmo “quando ela está sendo boazinha”. Lembrei disso naquele dia que baixou um “santo democrático” na “vênus platinada”. Foi quando a Globo, que reconhecidamente defendeu o golpe civil-militar de 1964 e a ditadura militar, a mesma Globo que apoiou o golpe de 2016 e que promoveu a Lava Jato, teve a pachorra de lançar uma "frente ampla" contra Bolsonaro.

Os irmãos Marinho puseram Miriam Leitão lá na Globo News, num debate com três arautos da democracia liberal: Marina Silva, Ciro Gomes e FHC. A ideia era promover uma “frente ampla” contra Bolsonaro e a favor da democracia, que essa gente tanto despreza. Gleisi Hoffmann, sempre ela, disse que foi “a nata do antipetismo entrevistada pela campeã do mercado”. E foi desse jeito mesmo! Além da desfaçatez de ver a árvore defender o machado, "esqueceram” de chamar Fernando Haddad, do PT, e\ou Guilherme Boulos, do PSOL - legítimos representantes da esquerda que lutou e luta contra a ascensão do fascismo. E é preciso lembrar que Haddad não foi para Paris, após a derrota no 2º turno da eleição em 2018, ele ficou aqui e enfrentou os inimigos da democracia.

Considerando o resultado do 1º turno de 2018, essa gente não tem legitimidade para liderar uma frente ampla articulada por uma emissora habituada a apoiar golpes. Ciro, Marina e Alckmin tiveram, juntos, 18,23% dos votos válidos, enquanto só Haddad teve 29,28%. Qual a representatividade de uma frente ampla que junta alhos e bagulhos? Por que as frentes amplas da Rede Globo não dão espaço para a esquerda? Se a proposta é ser contra Bolsonaro porque os que o enfrentam de verdade não são chamados? Tinha mesmo razão o velho Brizola, é para se desconfiar!

Notas de repúdio que dão em nada, e lembrei dos manifestos escritos entre a FIESP e o Instituto FHC que dizem para “deixar de lado velhas disputas”  . Lutar por vida, democracia, igualdade e liberdade é disputa velha? Falam que esquerda e direita devem ser unir pelo bem comum. Mas, qual? O do povo ou o da elite, pois o que existe mesmo são as classes sociais e seus interesses. Porque divulgar manifestos assinados por Luciano Huck, FHC, Lobão, Alice Setubal (do Banco Itaú) e toda a gente que se "solidarizou" com Aécio Neves, quando ele se recusou aceitar o resultado das urnas de 2014, que apoiou o golpe de 2016, que votou em Bolsonaro em 2018 “para tirar o PT”?

Estranho ver essa gente “preocupada com a democracia brasileira”, quando em 2019 silenciou ante a escalada fascista. “Deixar de lado as diferenças e lutar pelo bem comum” termina sempre do mesmo jeito, com a esquerda sendo reprimida, presa, torturada e morta. Para tirar a esquerda, que fazia reformas e promovia desenvolvimento social, do poder essa gente promoveu um golpe de Estado, com direito a Lava Jato, e elegeu um fascista. Mas, para tirar esse fascista do poder lançam “manifesto em defesa da democracia”. Estranho, não?! Não posso “assinar” manifestos junto com a direita pois é ela que sempre dá os golpes de Estado no Brasil. Não votei em Haddad, em 2018, para agora me juntar com os que votaram em Bolsonaro. É uma questão de coerência política e ideológica! É uma questão de resistência e, por que não, de sobrevivência!