quinta-feira, 14 de abril de 2022

Sobras do “cesto departamento”

Remexendo um velho arquivo (que chamo de “cesto departamento”, para onde vão coisas que finjo que estou jogando na lixeira) encontrei esses artigos, escritos entre 1998 e 2001, que nunca foram publicados. Não sei, não lembro, porque não “postei” o primeiro, “O que esperar dos eleitos?”. Talvez, à época, ele tenha se mostrado tão frágil, que eu mesmo tenha preferido esquecê-lo. Acontece!

Os outros dois foram censurados pelo jornal, com o qual contribuía semanalmente. Sobre o artigo “A TV que faz chorar”, a justificativa foi que eu estaria (SIC) “indo de encontro à TV da qual a empresa é associada”. É que o jornal, onde eu publicava, era afiliado de umas das emissoras que havia criticado. De fato, havia mesmo, mas ... acontece, também! Sobre o artigo “Fé e iogurtes”, não lembro que justificativa se deu para o artigo ter “caído”, mesmo que desconfiei que tenha desgostado algum explorador da fé alheia.

Não queria publicar estes três artigos, pois os considerei “datados”, mas sob os incentivos de minha editora\filha\leitora Lívia Freitas, resolvi que eles deviam vir a público. Pensando bem, eles não estão tão obsoletos assim!

 

O que esperar dos eleitos? (1998)

Analisando o resultado das eleições paraibanas, de 1998, chama atenção a quantidade de votos brancos\nulos para governador e senador. Para se ter ideia, o 2° colocado para governador, Gilvan Freire, teve 175.234 votos, enquanto brancos\nulos somaram 588 mil votos. Uma explicação para isso é a falta de boas opções apresentadas aos eleitores. A apregoada falta de interesse do povo, quando o assunto é política eleitoral, é frágil, pois gostamos tanto de eleição quanto de futebol e novelas.

Tivemos um processo eleitoral onde o governador/candidato, José Maranhão, monopolizou as eleições. Outra questão é que não houve renovação para a bancada paraibana na Câmara Federal, no Senado e na Assembleia Legislativa. Sempre se poderá dizer que muitos não se reelegeram e que outros vão ao parlamento pela primeira vez. Mas, não é desse tipo de renovação que falo.

A renovação que quero discutir é a de ideias e práticas políticas, pois não há nada de novo sobre o senador e os 12 deputados federais eleitos. As práticas são as mesmas desde o começo do século, próximo de acabar, mudam apenas a forma de realizá-las. Um distribui consultas médicas em programas de rádio, outro mal sabe expressar-se, um terceiro ocupou o guia eleitoral para só ensinar como votar nele e ainda tem o que se diz herdeiro político de um outro que já faleceu. Sem contar o "senador do povão" que facilmente transita entre o trágico e o cômico.

O que estes senhores irão fazer em Brasília? Será que eles sabem para que serve um mandato parlamentar? Eles dizem que vão lutar por verbas para a Paraíba, mas e quanto a “Reforma Política”, que traz a fidelidade partidária e a revisão da reeleição dos prefeitos, e a questão fiscal, criando e aumentando impostos, além da administrativa para demitir funcionários públicos? E sobre a reforma da previdência social, algo de nosso óbvio interesse, eles sabem o que fazer? Foi possível, durante as eleições, ver o que eles tem a dizer sobre estes assuntos?

Sabemos que um único voto, de um deles, pode mudar totalmente nossas vidas. É por isso que não podemos ficar impassíveis, esperando que eles "lutem pela Paraíba" da forma que bem quiserem, pois não foram eleitos para distribuir cadeiras de rodas e nebulizadores, e sim para envolverem-se nos grandes temas nacionais, como nossos representantes. Além disso, estes senhores, que serão protegidos pelo manto da imunidade parlamentar, precisam ser monitorados pela sociedade civil, caso contrário teremos que viver apenas com a renovação de nomes, não de práticas políticas.

 

A TV que faz chorar (2000)

É domingo. Ligo a TV e vejo o apresentador de popular programa de auditório, com os olhos vermelhos, falando tristemente da vida de uma mulher que, abandonada pelo marido, teve que criar uma penca de filhos e ainda teve seu casebre destruído por um incêndio. A mulher está presente ao palco, com seus filhos, para dar veracidade a estória do comovido (des)animador. Ao fundo, ouve-se uma música que faria o mais brutal dos nazistas chorar feito criancinha. Por fim, o benevolente apresentador oferta uma casa mobiliada para a pobre família e todos se regozijam. Um final feliz!

Mas, por ser domingo, quero relaxar, ver algo ameno. Mudo de canal. Aparece-me outro apresentador que, gritando descontrolada e irritantemente, quer comover o público com sofridos detalhes da vida de uma atriz de novelas. Não há interatividade, ele faz as pergunta e ele mesmo as responde. Parece que só ele pensa. Sigo querendo relaxar, mudo o canal e vejo um terceiro apresentador que tenta ser a síntese dos dois anteriores: grita burramente, como o segundo, e faz caridades como o primeiro. Trágico, cômico, bizarro! Minha busca só termina quando me convenço que a melhor forma de relaxar é desligando a TV. Escutar uma boa música é a solução.

A questão é que os canais da TV aberta não nos dão opção, possuem uma programação que só considera o baixo nível educacional do povo brasileiro. Com o advento da chamada TV paga e com a programação segmentada (programas dirigidos a grupos específicos) criou-se a lógica de mercado (cruel e excludente) que se o telespectador quer ver boa programação que pague para tê-la, senão aguente as porcarias que lhe são oferecidas, aliás, impostas. Não é à toa que a Rede Globo exibe seu "apresentador" ao invés de um jogo de futebol. Quer assisti-lo? Pague para isso!

Uma outra grave questão é que devido à ausência de um Estado social, que efetive políticas públicas, as populações pobres ficam à mercê da própria sorte e terminam recorrendo aos oportunistas de plantão, no caso apresentadores em busca de pontos no Ibope, que renderão polpudos contratos de publicidade, e que não pestanejam em explorar as desgraças humanas. Se lembrarmos a eles que somos nós que fazemos a audiência, mudando de canal e até desligando a TV, com certeza irão se preocupar em melhorar o nível da programação. Ou não?!

  

Fé e iogurtes (2001)

Imagine a situação: cidadão, com R$ 100,00, uma ata que o designa representante de um grupo e um estatuto que regerá este grupo, vai até a Receita Federal cadastrar-se. Em dois dias, ele já tem a sua disposição, pela Internet, o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica que permite que o estabelecimento funcione. Não, não estou falando de um comércio, refiro-me a uma igreja evangélica.

Para se abrir uma igreja no Brasil basta ter fé, pois as facilidades mundanas são muitas. Veja-se que não se cobra taxa de IPTU, nem licenciamentos, e não se paga imposto de renda, já que os templos são considerados entidades filantrópicas. Mas, essas igrejas, que vemos surgir em profusão, tem um alto poder de lucro que vem, principalmente, da contribuição que cada fiel dá a seu pastor. É o chamado dízimo - aqueles 10% que cada "um oferta a Deus".

Vi um membro de uma dessas igrejas dizer que (SIC) “o aluguel da sede custa R$ 2.500,00 e é preciso mantê-la, pois a contribuição está prevista no livro bíblico de Malaquias”. Porém, o que se vê, na verdade, são denúncias de enriquecimento ilícito de pessoas inescrupulosas que, a título de dar conforto espiritual a quem precisa, exploram a fé das pessoas.

Para se ter ideia de como se dá a exploração, vejamos o caso das Igrejas neopentecostais, conhecidas pelos seus cultos barulhentos, onde os fiéis gritam a plenos pulmões palavras de exaltação a Deus, talvez acreditando que Ele seja surdo. Prometem prosperidade material, ou seja, o fiel que contribui, com o dízimo, investe em si próprio, já que “terá em dobro tudo o que doou”. Assim, Deus funciona como uma poupança: entrega-se uma quantia a Ele e após certo tempo Ele a devolve com juros e correção. Mas, é bom lembrar, "pequena" parte fica com o pastor para investimentos no “negócio da fé", como diria o cangaceiro do Auto da Compadecida.

Em tempos de crise qualquer um que prometer prosperidade material só pode conquistar adeptos. São palavras mágicas para ouvidos desesperados. O fato é que essas igrejas são negócios privados como outro qualquer, onde o lucro é a meta. Por isso deixemos de hipocrisia e passemos a tratá-las como tal. Já que elas viraram um lucrativo negócio, que explora a fé do povo, como quem vende iogurtes no supermercado, porque o Estado não as trata como tal e passa a cobrar delas impostos para fazer, pelo povo, aquilo que elas mesmas não fazem?

quinta-feira, 31 de março de 2022

O GOLPE CIVIL-MILITAR DE 1964

 

Laerte. Revista Caros Amigos. Ano IV - n° 15. Novembro/2002. Edição Especial “Para onde vai a democracia?”

Passados 58 anos do Golpe Civil-Militar de 1964 temos que revê-lo pois à medida que nos distanciamos dos fatos nossa visão sobre eles muda. Temos que redimensionar o 31 de março para nossa atual visão e refletir sobre a cultura política pretoriana que dele herdamos. Memórias do golpe e da ditadura ainda nos são vivas pois as feridas não cicatrizaram. Somos uma Sociedade e temos um Estado recheados de entulhos autoritários que nosso débil processo de liberalização não foi competente para extrair do nosso entorno. Um falso dilema entre democracia e mudanças sociais foi uma das causa do golpe. No Brasil de 1964 se antagonizava desnecessariamente esses fatores. Para a direita, se faria mudanças sociais pela democracia, por isso mesmo ela deu o golpe. Para a esquerda, só teríamos mudanças pondo fim a democracia. O resultado a que se chegou foi nenhuma reforma social, democracia inexistente e muito autoritarismo. A liberalização (notem que não falo em redemocratização) não foi capaz de afastar de nosso entorno atores políticos e entulhos autoritários da ditadura. Hoje eles governam! O que tivemos foi tão somente um pacto entre forças políticas iniciado em 1974 e capitaneado por militares. Lentamente se foi inserindo uma ritualística democrática nas instituições, sem reformá-las, mantendo intocada a espinha dorsal da ditadura: o poder militar.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Ruim, mas pode piorar!

Pesquisa do Instituto QUAEST, da quarta-feira (09\02), revelou que Ciro, Dória e Moro podem cair ainda mais nas pesquisas. 62% dos que votam em Ciro, 73% em Dória e 70% em Moro admitem mudar o voto até as eleições. Admitem votar, mas como não sentem firmeza nesses candidatos, aceitam que pode também não votar.

Nessa Pesquisa da QUAEST, Ciro tem 7%, Moro 7% e Dória 2%, a situação da 3ª via é de desespero. 74% dos que votam em Lula dizem que não vão mudar o voto até as eleições. Lula tem 45%. Somando os 16% do trio ternura third way com os 23% de Jail Pig Bozo estamos muito perto de não ter 2º turno. E tem os cacarecos que levam traço ou tem 1% ou 2% na pesquisa. Num 2º turno, Lula ganha de todos os adversários. Contra Jail Bozo, Lula tem vantagem de 24 pontos num cada vez mais improvável 2º turno.

Na Pesquisa QUAEST, temos: Lula 45%; Jail 23%; Moro 7%; Ciro 7%; Doria 2%; Janones 2%; Tebet 1%; Pacheco e D’Ávila 0%. Branco/nulo/não vai votar 8%; Indecisos 5%. Lula tem 45% e todo o resto tem 42%. Para ter 2º turno todo o resto tem que ter pelo menos 1% a mais que Lula.

O Instituto IPESP também soltou pesquisa, sexta-feira (11\02): Lula 43%; Jail 25%; Moro 8%; Ciro 8%; Dória 3%; Tebet 1%; Janones 1%; Pacheco e D'Ávila 0%; Brancos/Nulos 9%; Não sabe/Não respondeu 3%. Aqui todo resto tem 46%, ficando na margem de erro para ter 2º turno.

Com Lula tão bem posicionado nessas pesquisas, podemos, então, entender porque nessa semana só se falou do bolsonarismo nazificado. A possibilidade de não ter 2º turno fez Jail Pig Bozo falar, mais uma vez, em golpe e a mídia das-escolhas-muito-difíceis falou até em Marina Silva e Joaquim Barbosa. Vamonos, adelante!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O ano é 2027! Veja como vivem os que operaram a Lava jato e o golpe de estado de 2016, levaram Bolsonaro ao poder e destruíram o país numa aventura fascista.

Os filhos Zero-Um e Zero-Três cumprem longas penas em Bangu 8. Queirós e esposa, Flordelis, Bob Jeff e Jairinho, também. Zero-Dois fugiu para Nova Zelândia com seu primo. Usando tornozeleira eletrônica, Zero-Quatro cumpre prisão domiciliar no Condomínio Vivendas da Barra.

Para não ser preso, Bolsonaro foi “diagnosticado” com quadro de demência degenerativa. Vive nas redes sociais xingando a tudo e a todos. Dizem que está escrevendo um livro cujo título provisório é “Os fantasmas da Casa de Vidro”. Hélio Negão lhe visita para levar remédios e dar notícias dos filhos. Jail acredita que tudo teria sido diferente se a “fakada” não fosse fake e costuma dizer que a pandemia foi um “negócio de ocasião que nós não soubemos aproveitar”.

Ex-esposas de Bolsonaro abriram o “Escritório das Ex-Mulheres do Bem”, no Rio de Janeiro, onde dão consultoria para milicianos que vão migrar para política e adotar esquema de “rachadinhas” em Câmara de Vereadores e Assembleias Legislativas. Rogéria Nantes e Cristina Valle criaram uma dupla “femineja” chamada “As ex-patroas”, uma “sofrência” sem fim!

Silas Malafaia arrumou um marido mais novo, mais rico e mais inteligente para D. Michelle que tem uma boutique frequentada apenas por evangélicas muito ricas. Ela tem uma equipe de advogados para processar quem lhe perguntar se Queiróz depositou mesmo aquele cheque de R$ 89 mil em sua conta.

Olavo de Carvalho está internado num hospital psiquiátrico, nos EUA, na ala onde ficam os que pensam que são Jesus Cristo, Napoleão Bonaparte, Cleópatra, Gandhi, etc. Olavo diz ser Dietrich Eckart, o mentor de Hitler. Janaína Paschoal está na mesma ala, ela acredita ser Margareth Thatcher.

Luciano Huck, que ainda sonha com a presidência, apresenta o Domingão da Lata Velha tendo Angélica, Suzana Vieira, Regina Duarte, Bia Kicis e Carla Zambelli como assistentes de palco. William Bonner deixou o Jornal Nacional e vez por outra vai ao programa de Fátima Bernardes lembrar de quando emparedava presidenciáveis. Em estado falimentar, a Globo bajula o governo para ter acesso a verbas publicitárias.

Merval Pereira, Eliane Cantanhêde, Vera Magalhães, Diogo Mainardi e Alexandre Garcia fazem o programa “Uma escolha muito difícil” na Jovem Pan, onde debatem temas da política nacional sempre lembrando dos tempos em que o PSDB governava. FHC aparece vez por outra no programa, como convidado mais do que especial, insistindo sempre que foi melhor presidente do que Lula.

Abranham Weintraub trabalha numa lanchonete, preparando hamburguers, próxima a sede do Banco Mundial em Washington, D.C. Ele foi demitido do banco quando exigiu ser chamado de Joseph Goebbels. Fräulein Damares abjurou o Jesus da goiabeira e diz ser a própria Madre Teresa de Calcutá.

Ernesto Araújo criou o Instituto “Só o trabalho liberta” que promove palestras com ex-ministros do governo Bolsonaro. O Instituto será fechado por fazer apologia ao supremacismo, negar o holocausto e defender o nazismo. O gabinete do ódio se tornou um partido, clandestino, e se dedica a criação de células fascistas, racistas, homofóbicas, xenófobas, antissionistas, pelo Brasil afora.

Militares, que governaram o país em 2019-2022, voltaram aos quartéis em janeiro de 2023 ou foram para reserva. Costumam lançar notas sobre a “Revolução de 1964” onde aproveitam para dizer que se não fosse Bolsonaro teriam feito ótimo governo. Participam sempre de animadas reuniões regadas a  whisky 12 anos, cervejas e vinhos importados, além de muita picanha e leite condensado.

Kim Kataguiri, Daniel Silveira, Roger Rocha e Caio Coppolla formaram a banda “Roqueiros à Direita” para tocar no programa de Danilo Gentili. O apresentador acha que uma chapa sua com Huck, Moro, Dória, Amoedo, Daciolo, Alexandre Frota ou o ET de Varginha ganha facilmente uma eleição presidencial.

Dória governa São Paulo com seus moletons em tons pastéis. Ele expulsou FHC do PSDB e trabalha para ser o nome principal da oposição. A direita limpinha segue jurando de pés juntos que não participou do Golpe de 2016, não articulou a operação Lava Jato e não votou em Bolsonaro.

Aécio Neves foi eleito vereador no município de Cláudio-MG e cuida da pista de pouso, construída em seu governo, para aviões que carregam até 1\2 tonelada de um certo pó branco. Aécio gosta de se vangloriar de ter detonado o golpe de 2016 ao não aceitar a derrota para Dilma em 2014.

Michel Temer não é mais bem-vindo aos jantares da Casa Grande após uma entrevista em que contou detalhes do golpe de 2016 e insistiu que a ideia de um golpe “com Supremo com tudo” foi dele. Dizem que Temer mudou-se para a Romênia e mora no castelo de seu irmão mais velho, o Conde Vlad Temer.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol respondem a vários processos sobre crimes cometidos na Operação Lava Jato. Só não foram presos por ainda contarem com simpatias no STF. Os Lava Jato Boys foram demitidos do Ministério Público. Abriram um escritório de advocacia cujos clientes são eles próprios.

Ciro Gomes criou o canal “Cirão da Massa”, no Youtube, onde mostra como estaria o Brasil se Lula e o PT tivessem sido destruídos antes das eleições de 2022. O “Cirão da Massa” tem 4% dos seguidores do canal “Lula, um estadista”. Marina Silva sumiu de vez nas profundezas da floresta amazônica. Dizem que fundou uma comunidade alternativa chamada “As viúvas do Jararaca”.

O gado não pede mais intervenção militar e AI-5, morre de vergonha de quando vestia amarelo, fazia “arminha” e chamava um estúpido ditador de “mito”. Mesmo que sinta falta das manifestações, em que pedia o fim da democracia, acha que fez grande burrada elegendo Bolsonaro, mas como o pastor costuma dizer que Jesus perdoa quem paga o dízimo em dia, ele não se preocupa com tudo de ruim que aconteceu ao país. Na verdade, o gado até se orgulha de ter “tirado o PT”. O problema é que Lula voltou, babaca!

Errata: Houve um equívoco temporal em relação a Olavo de Carvalho. Ele esteve internado nos EUA em 2021 e teve seu CPF cancelado em 2022. 

PS: Isso aqui é uma brincadeira, mesmo que eu leve alguns itens a sério por desejar bastante que aconteçam, mas é uma brincadeira, uma tentativa de conviver com nossa dura realidade!

Janeiro - 2022.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Estado brasileiro condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos

Estado brasileiro foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos devido a forma ineficiente como conduziu as investigação, além da forma como o processo judicial se deu, sobre o assassinato da paraibana Márcia Barbosa de Souza, em 1998.

A condenação representa um marco jurídico no país, pois é a primeira, no âmbito do feminicídio, da história brasileira. A decisão, publicada em 7 de setembro deste ano, foi divulgada no dia 25 de novembro passado. O fato é que através dela se reconhece que o Estado Brasileiro violou o princípio de igualdade perante a lei e do acesso à Justiça. 

Gilberta Soares, psicóloga que atuou como perita responsável por produzir o laudo psicossocial da vítima, e que também acompanhou o julgamento do caso Márcia Barbosa na Corte Interamericana, avalia que a "sentença internacional expõe de forma inédita, em se tratando do Brasil, a estrutura de violência de gênero e do racismo existentes no país, além dos problemas de classe, presentes na origem de Márcia e do condenado por sua morte, o ex-deputado Aécio Pereira".



terça-feira, 12 de outubro de 2021

O FUTEBOL E SUAS RAZÕES

Depois de um torcedor do Flamengo ter sido agredido violentamente por torcedores do Fortaleza, logo após o jogo de 09\10\21 pela 25ª rodada do Brasileirão, afloraram sentimentos de toda sorte em relação a caquética discussão de se nordestinos podem ou não torcer por times do eixo Rio-São Paulo. Logo que vi as manifestações, no Twiteer e no Instagram, lembrei que essa discussão é recorrente e que no já distante 01\05\2013 tinha feito uma coluna sobre isso, motivado pelo fato de Campinense Clube e Flamengo se enfrentarem na Copa do Brasil.

A coluna segue abaixo, mas lembro que tem um vídeo rodando pelas redes sociais de um torcedor do Flamengo, vestindo uma camisa do Fortaleza, afirmando que só pode entrar na Arena Castelão após retirar a camisa de seu clube. É bom não esquecer que a xenofobia é um dos componentes da cesta que compõe o modus operandi da extremosa destra que tomou de assalto a sociedade brasileira. Consideremos, ainda, a revolta dos torcedores do Fortaleza depois de verem seu time levando um sacode de 3X0 do time que, com carradas de razão, se autointitula a “nação rubro-negra”.

A seleção paraibana de futebol não vai jogar hoje!

Coluna publicada no GILBLOG (gilberguessantos.blogspot.com) em 01 de maio de 2013

Assim que se soube que o Campinense Clube enfrentaria o Flamengo em Campina Grande, pela 2ª fase da Copa do Brasil, um frisson tomou conta dos torcedores da raposa e de todos que gostam de futebol. Fiquei entusiasmado, pois finalmente poderia assistir de perto os times que torço se enfrentando numa competição nacional. O caro leitor quer saber se tenho algum problema em ver meus dois únicos times do coração disputar uma partida? Não, não tenho nenhum problema com isso. Pelo contrário, acho que vai ser uma experiência única e tenho certeza de que será, também, emocionante. Mas, não vou usar o espaço dessa Coluna para falar de minhas paixões futebolísticas.

Quero, na verdade, defender o direito do cidadão de torcer pelo time que ele bem quiser, não importando se este time é ou não da cidade, estado ou mesmo região onde ele nasceu. É que, no Brasil, a naturalidade de um cidadão não se define pelo time que ele torce. Se fosse assim, times de futebol como Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco da Gama e Cruzeiro não teriam torcedores espalhados por todos os estados e regiões desse país que tem, como sabemos, dimensões territoriais de um continente.

Eu sugiro uma reflexão. Antes de chamarmos de “paraibacas” os torcedores paraibanos que vão torcer pelo Flamengo, e não pelo Campinense, que tal pensarmos no processo que levou o futebol a se tornar nosso esporte nacional e nossa maior paixão.“Paraibaca” é uma forma agressiva e preconceituosa de se referir aos que, mesmo paraibanos, torcem por um time do Sudeste. Os que usam esse termo desconhecem fatores históricos que nos levaram a esse estado de coisas.

A partir de 1937 as rádios passaram a transmitir, em cadeia nacional, jogos dos times de futebol que mandavam jogadores para a Seleção Brasileira. É que o presidente Getúlio Vargas via nisso uma forma de integrar o país em torno do seu governo. Depois, quando já vivíamos à sombra das chuteiras imortais, como dizia Nelson Rodrigues, e quando já tínhamos a seleção tricampeã do mundo ficou quase impossível impedir que se torcesse, pelo Brasil afora, pelos grandes times de futebol.

Como impedir que se torcesse pelo Santos de Pelé, pelo Botafogo de Garrincha, pelo Flamengo de Zico, pelo Fluminense de Rivelino? Como querer que o torcedor paraibano não se encantasse, ao ponto de se tornar um torcedor, com esses artistas da bola? Por causa disso, torcedores pelo Brasil afora começaram a criar o que eu chamaria de “filiais de suas paixões”. Vejam que no Piauí existe um Flamengo, na Bahia temos um Fluminense, sem contar os “atléticos”, “esportes” e “américas” espalhados pelo país.

A televisão teve papel importante nisso. Mais não foi o futebol quem se valeu da TV para se nacionalizar. Foi o contrário. Foi Walter Clark quem sugeriu que a Rede Globo transmitisse jogos de times do Rio de Janeiro e São Paulo para todo o Brasil. A ideia era boa, pois quem não iria querer assistir ao vivo aquilo que se tornou nossa própria identidade cultural? A TV foi sendo levada pelo futebol para onde quer que houvesse um torcedor ávido por assistir um bom jogo e, quem sabe, uma boa novela.

O cinema teve sua importância nisso. Entre os anos 1970 e 1980 eu tinha duas grandes diversões aos domingos. Uma era ir ao Estádio Amigão ver o Campinense Clube jogar. A outra era ir para as matinês do Cine Capitólio ou do Cine Babilônia. Além dos filmes, assistíamos ao Canal 100, um cinejornal que trazia notícias da semana e variedades, além de fazer propaganda da ditadura militar. A parte mais esperada era a do esporte. Em geral, um clássico do campeonato carioca ou paulista era apresentado. O Canal 100 era o casamento entre o futebol e o cinema. Nelson Rodrigues disse que o Canal 100 “inventou nova distância entre o torcedor e o craque em plena cólera do gol. Tudo o que o futebol possa ter de lírico, dramático, patético e delirante era ali apresentado”.

Não foi difícil para mim, que já torcia pelo Campinense, torcer, também, pelo Flamengo. Assim como não foi difícil para amigos meus, que torciam pelo Treze Futebol Clube, torcerem pelo Vasco da Gama ou pelo Corinthians. Era uma questão de identificação. Assim, vejo com naturalidade que um paraibano torça por um time local e por outro do Sudeste. Se o jogo de logo mais fosse entre a Seleção de Futebol da Paraíba e a Seleção do Rio de Janeiro, aí sim deveríamos torcer pelo nosso Estado. Mas, não é o caso.

Os times materializam paixões. Quem conseguir explicar racionalmente essa questão que peça a um trezeno para torcer pelo Campinense. Eu não peço, pelo contrário, defendo o amplo direito de cada um torcer por quem bem quiser. Deixemos de lado esse bairrismo tolo de que se não é de nossa terra deve ser rechaçado. Esqueçamos esse complexo de vira-latas “nelsonrodriguiano” de que somos pequenos Davis unidos para enfrentar o grande Golias. Se por acaso você vai torcer contra o Campinense, não se preocupe se vão te chamar de “paraibaca”. Afinal de contas seu compromisso, hoje à noite, não é com o estado ou cidade onde nasceu e sim com seu time do seu coração e suas “razões” futebolísticas.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Brasil e o mais perigoso de sua jovem democracia

 

Ao PB Agora, cientista político faz análise de manifestações do 07 e 12 de setembro

POR REDAÇÃO 14.09.21 11H00 · ATUALIZADO HÁ 2 HORAS

 

Cientista político faz análise sobre o retrato atual que o país atravessa com ameaças de ‘insurreição’ antidemocrática, crise entre os poderes, medo do país “entrar” em estado de sítio e temor por um novo golpe de Estado.

O Brasil vive um momento conturbado, o mais perigoso de sua “jovem democracia”, com ameaças às instituições democráticas e com os protestos do 07 setembro que dividiram o país e enfraqueceram as relações institucionais entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

O cientista político, historiador e professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Gilbergues Santos Soares analisa o momento turbulento que o país atravessa. Ao discorrer sobre os atos do 07 de setembro, com o discurso inflamado do presidente da República, em Brasília e em São Paulo, e com os episódios que se sucederam, Gilbergues garantiu que mesmo tentando fazer uma pacificação com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Morais, Bolsonaro “colocou o impeachment sobre a mesa”.

Como forma de fundamentar o seu argumento, o cientista enfatizou que, depois do 07 de setembro, partidos como PSDB e PSD, e até mesmo alguns do Centrão, passaram a discutir a questão do impeachment. Inclusive tucanos e PSD anunciaram a saída da base do governo. Sem contar as inúmeras manifestações realizadas desde o último domingo (12) pedindo o impeachment do presidente.

“A insanidade do 07 de setembro serviu para colocar o impeachment na mesa. Existe uma pressão dentro da própria Câmara dos Deputados para que Arthur Lira tome uma atitude que seria desengavetar um ou mais processo de Impeachment”, destacou Gilbergues.

Para ele, mesmo firmes, os discursos do presidente do STF, ministro Luiz Fux, e do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, repudiando os ataques à democracia, precisam vir acompanhados do início do processo de impeachment. “Toda e qualquer outra questão, passa pelo afastamento de Bolsonaro”, enfatizou.

A questão militar, com o risco da volta dos tanques às ruas, também preocupa o cientista político. Ele ressaltou que o presidente Bolsonaro conta com apoio de parte da hierarquia militar, embora perca apoios a cada ato que realiza. Gilbergues observou que o cenário se torna mais complexo devido a mentalidade autoritária do brasileiro. “A sociedade brasileira, com sua formação pouco ou quase nada democrática, não nos autoriza a pensar saídas democráticas para uma crise institucional e social como essa”, observou.

 


Expectativa de golpe

Particularmente, Gilbergues Santos não acredita em mais um golpe de Estado no Brasil a curto prazo, pelo menos. Ele enfatizou que o golpe aconteceu a partir de 2016 com três atos em sequência a partir do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e da ascensão do atual inquilino do Palácio do Planalto. “O golpe de 2016 aconteceu em três atos. Primeiro foi a deposição de Dilma Rousseff; segundo foi a prisão de Lula, através da Lava Jato, que o retirou do jogo político eleitoral; e, terceiro, a eleição do próprio Bolsonaro”, observou.

O cientista político alertou para o que ainda está por vir no país e que novas manifestações podem acontecer em datas pontuais como o 15 de novembro. Gilbergues classificou os atos realizados na Esplanadas dos Ministérios como “catastróficos, terríveis e horrorosos”.

Para Gilbergues Santos, o que está acontecendo é que o presidente Bolsonaro não tem mais saída e chegou a uma situação em que ele não tem mais para onde retornar. Na visão do cientista político paraibano, o pânico de Bolsonaro é que “ele e os filhos sejam presos”. Por isso, o presidente não estaria disposto a uma solução negociada para resolver a crise institucional que se instalou no país.

 

Sobre as manifestações do último domingo (12)

Gilbergues explicou ao PB Agora que o que aconteceu foi uma tentativa frustrada de alguns, como o Movimentos Brasil Livre (MBL) e partidos como o PSDB, de tentarem demarcar uma posição. “Eles não conseguem porque não podem ficar mais a favor de Bolsonaro. Eles que votaram e fizeram campanha para Bolsonaro e estão comprometidos com todo esse estado de coisas que infelizmente nós estamos passando. Mas, eles também não podem se unir à esquerda, com Lula“, observou. Na análise do cientista político, o grande problema é fortalecer o movimento e atrair pessoas, visto que as manifestações de domingo estiveram praticamente vazias.

“Não deu ninguém nestas manifestações nem poderia dar. Porque quando eles dizem ‘nem Lula nem Bolsonaro’, na verdade estão deixando de responder a uma pergunta que é a grande questão do nosso momento – queremos democracia ou fascismo?”.

Para ele, o Brasil está em uma encruzilhada já que os organizadores da manifestação do último domingo não conseguem se apresentar como terceira via, pois não sabem responder a uma questão primordial sobre o regime que queremos: “Eles têm que responder se querem democracia ou fascismo?”, indagou.

  

Severino Lopes   -   PB Agora

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O “Putsch da Cervejaria” de Donald Trump ... ou quem com golpe fere com golpe será ferido!

Publicado no www.brasil247.com.br em 14 de Janeiro - 2021.

https://www.brasil247.com/authors/gilbergues-santos-soares

É difícil dizer o que “entra” para a história e o que dela fica “fora”, mas é provável que o 06 de janeiro de 2021 venha a ser tratado como o dia em que a extrema direita supremacista dos EUA, liderada por Donald Trump, tentou dar um golpe de Estado. Meus alunos de História do Brasil e da América poderão, em suas aulas, dizer que um presidente dos EUA tentou permanecer no poder, após perder uma eleição, incitando seus eleitores a invadirem o Congresso. Tenho uma certeza: o 06\01 será visto como o dia em que o modelo de democracia, tido como sólido, rachou. Os chineses gostam de dizer que isso é o começo do fim do império.


Tido e havido como modelo a ser imitado a democracia estadunidense agoniza, pois os princípios do federalismo foram trocados pelos interesses do Complexo Industrial Militar que Fred James Cook tão bem analisa em “O Estado militarista”. Nessa obra seminal (aqui publicada em 1965 pela Editora Civilização Brasileira) vemos como se desenvolveu o “Estado total e a estratégia da guerra total”, após a 2ª Guerra Mundial, quando os EUA se “dedicaram ao verdadeiro poder - do dólar e das armas”. Cook cita o Presidente Eisenhower que, em 1961, alertou para a existência nefasta de “um colosso que domina vastas áreas da vida americana (que) é a verdadeira ameaça à democracia”. O autor relata como os EUA adotaram, nos anos 1950, o modelo prussiano militar industrial que produz ditadores como Hitler e faz da guerra sua própria razão de ser.

Os EUA provam que não existem democracias imunes às ofensivas da cadela do fascismo, sempre no cio, como diria Bertolt Brecht. A mãe das ironias é o berço da democracia moderna, o império da liberdade, “pagando” de república bananeira com um ditador bufão que arregimenta seguidores para invadir o parlamento. Quem cravaria que a eleição dos EUA terminaria sob toque de recolher?!  Desesperados com a derrota e com a revolta do povo negro, Trump e sua malta supremacista lançaram mão da ideia Coringa: "quando tudo estiver perdido, estabeleça o caos".

A democracia não é mais hegemônica no ocidente, se é que um dia foi. Nós, que vivemos bem ao sul da América, vimos congressistas confirmarem a eleição de Joe Biden ancorados nas armas. Os EUA adotaram o modus operandis aplicado nas republiquetas caribenhas e latino-americanas onde as armas garantiriam a “democracia”. Foi trágico, cômico, patético! Confesso que sorri ao ver os congressistas, lívidos, reafirmando a vitória de Biden sob a ameaça das bombas de uma extrema direita chucra que se fantasia de bisão para defender seus interesses.

Estadunidenses sentiram na pele o que é ver seu sistema político derretendo pelo fogo do autoritarismo. Os Vargas, Peróns, Arbenzs, Jangos, Allendes, Dilmas, experimentam o agridoce sabor da vingança vendo o “stupid white man” tocando fogo em suas instituições democráticas. Enquanto via a escumalha supremacista arruinar seu capital democrático disse ao meu sofá: “bem feito, pois eles invadem nossas instituições para fazer valer seus interesses”.

Vi jornalistas e analistas dos EUA evitando falar em golpe de estado. Não existe, no inglês, uma palavra para designar o ato de se tomar, pela força das armas, o poder conquistado pelo voto – é que os EUA nunca tiveram um golpe de estado. Por isso, tomam emprestado do francês o “coup d’état” (sem acento, claro). Países que já viveram a experiência da usurpação autoritária do poder possuem expressões para isso. Na Alemanha e em países do leste europeu, por exemplo, golpe de estado é “putsch”. Como no Brasil a democracia é apenas uma fina camada sobre um espesso extrato de autoritarismo, não precisamos pedir emprestado aos franceses o “coup d’état”.

Devia-se criar um termo, nos EUA, para o que pode vir a ser regra, já que os supremacistas não parecem dispostos a uma conversão democrática. Talvez possam usar o termo alemão numa referência ao “Putsch da Cervejaria” – a tentativa farsesca de golpe de estado do Partido Nazista em 1923. A ideia de assaltar o poder fracassou, mas foi a partir disso que o nazismo se fez conhecer até Hitler subir ao poder em 1933. O que Trump e seus bisões amestrados fizeram não difere tanto do putsch nazista. Na verdade, o fascismo precisa dessas ações teatralizadas para vir a público atestar suas reais intenções e arrecadar a simpatia popular. A invasão do Capitólio pode ser o primeiro de uma série de atos nos quatros anos do governo Biden.

Temos o efeito bumerangue das democracias burguesas, onde a liberdade pouco importa, a igualdade é um estorvo e a fraternidade uma farsa. Em eleições, os donos do capital se valem dos Trumps e Bolsonaros onde os votos dão a impressão de legitimidade política e social, porém o retorno é a fascistização das sociedades. Assim como Hitler, desmerecem o procedimento que os levou ao poder, pois não creem na democracia. Desde que se convenceram de que perderiam as eleições, Trump e sua trupe lançaram dúvidas sobre a legalidade das eleições, pois precisavam de uma muleta que ancorasse a derradeira tentativa de ficar no poder.

A ideia é que se as eleições foram fraudadas, o povo tem o direito de reagir. Para Bolsonaro isso tudo é um laboratório – ele já sabe o que fazer caso perca as eleições em 2022. Pouco importa que Trump seja cancelado nas redes sociais pelas big techs.  Importa que o fascismo viceja, pois ele teve mais de 70 milhões de votos, na eleição de novembro, e Bolsonaro teve quase 50 milhões em 2018. Hitler revive nesses homens apoiados por milhões. Isso é o que importa!

... ou quem com golpe fere com golpe será ferido

Em 2016 o conglomerado golpista depôs Dilma Rousseff contando com a colaboração do Departamento de Estado, do FBI e da CIA estadunidenses. Os golpes civil-militar de 1964 e parlamentar\jurídico\midiático\militar\religioso de 2016 foram apoiados pelos EUA, mas os brasileiros golpistas agora defendem a democracia. Os EUA racionalizam os golpes que deram na América Latina como a “defesa da liberdade e da democracia”, mas a invasão do Congresso foi um ato de “terroristas domésticos”, como disse Joe Biden. Não vi ninguém dizer que os EUA estão tendo o que merecem depois de tantos golpes de estados que já promoveram mundo afora. Pelo contrário, tomou-se para si as dores da democracia estadunidense.

Vi jornalistas e analistas políticos brasileiros admirados com a marcha lúgubre dos supremacistas em direção ao Capitólio. Qual a surpresa? O fascismo só se utiliza dos procedimentos democráticos para ocupar o poder. Feito isso, age para desmontar o Estado de direito acabando com as garantias da lei e da ordem política e social. Bolsonaro só esteve próximo do procedimento democrático eleitoral para se tornar presidente. Feito isso, atuou e atua para desmontar os vestígios de democracia que ainda temos. Se amanhã ele marchar, junto com seus seguidores bovinos, para fechar o STF e/ou Congresso Nacional, quem há de se surpreender?

Em “Como as democracias morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como as democracias tradicionais vão se enfraquecendo, de modo legal ou não, até perecerem. Eles nos fazem pensar porquê as democracias sólidas se fragilizam ao ponto de deixarem-se dominar pelo fascismo e tratam da “crise do sistema político norte-americano – sobretudo a partir das ameaças trazidas pela ascensão de Donald Trump”. Outra questão é por que países renunciam a seus sistemas democráticos para viverem sobre o tacão das ditaduras. Por que brasileiros e estadunidenses aceitam ser (des)governados por homens como Bolsonaro e Trump? Essa é a questão para pensarmos, pois o “retrocesso democrático, hoje, começa nas urnas”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Os votos não movem moinhos

É preciso entender, de uma vez por todas, que conciliar com partidos de centro direita e com setores das elites não constrói um projeto social e político que promova profundas transformações no país.

Já diziam os Secos & Molhados que ”os ventos do norte não movem moinhos". E não movem mesmo! Os ventos, digo os votos, saídos das urnas não farão os moinhos da esquerda girarem na velocidade desejada. Mas, como o que “importa é não estar vencido”, nos apeguemos às nossas conquistas mesmo que nos pareçam frágeis. Aquele “antigo compositor baiano” segue tendo razão, pois “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

Confesso minha contradição. Nem deveria falar tanto de eleições, pois as considero tão somente o procedimento democrático que escolhe governantes e legisladores. Mas, nossa cultura política nada democrática costuma vir à tona nas eleições. Então, farei breve avaliação delas e tratarei de perspectivas futuras. Peço-lhe apenas, caro leitor, que não desconsidere que a análise é de momento, pois a política eleitoral, como as nuvens, dança ao sabor do vento.

Jair Bolsonaro é o derrotado das eleições 2020. Onde pôs a mão, seus escolhidos malograram. No 1º turno, dizia não querer se envolver, mas quando o fazia seus candidatos “embicavam” para baixo. Celso Russomano e Wal do Açaí que o digam. Nas pavorosas “lives” do 2º turno, detonou o capital eleitoral de seus seguidores. Ele pediu votos para 13 candidatos a prefeito, mas apenas Gustavo Nunes em Ipatinga (MG) e Mão Santa em Parnaíba (PI) se elegeram. Crivella no Rio e Capitão Wagner em Fortaleza provam como o bolsonarismo pode erodir um projeto eleitoral.

A direita não bolsonarista, mas que se valeu do próprio quando lhe foi conveniente, se saiu bem. Trabalhará para se ver livre de Bolsonaro e ter condições de disputar as eleições de 2022 com alguém palatável ao eleitorado que se encanta com “antipetismo”, Lava Jato, combate a corrupção, etc. Essa tal direita deve dispensar os serviços de seus "bons moços" (Moro\Huck\Dória\Covas\Amoedo) e ter um nome que lhe seja confiável, de “dentro da política”. Como as organizações criminosas, que só confiam em bandidos, os políticos tradicionais preferem os que não rejeitam a política, que não se travestem de novos, apolíticos.

Eduardo Paes, eleito no Rio de Janeiro, disse que o DEM deve “lançar um quadro da política para a eleição de 2022 e que há resistências a Sergio Moro e a Luciano Huck, mesmo que este converse com o DEM”. Dizendo de onde virá o canto da sereia, Paes mostra que seu partido descarta as “novidades”, que quer lançar um nome e que este nome pode ser o seu. ACM Neto, prefeito de Salvador e presidente nacional do DEM, disse que “não vamos apoiar um Bolsonaro dos extremos em 2022”. Desdenhando do bolsonarismo, a direita quatrocentona aponta para uma correção de rumos no sentido de uma volta aos tempos em que PSDB\PFL\PMDB governavam.


A direita venceu em Recife e Porto Alegre, pelo menos, se baseando em “fake News” (inseridas de vez nas campanhas), no discurso racista\machista\misógino, com um conservadorismo reacionário flertando com o fascismo e na mais descarada compra de votos. Despida de qualquer pudor, a direita de São Paulo foi para o 2° turno e venceu. FHC não larga Covas para impedir que bolsonaristas se aproximem. Neoliberais golpistas de 2016 (PSDB, DEM, MDB), extrema direita abrigada em siglas como Republicanos e o “centrão” de sempre governarão 85% dos eleitores dos 5.570 municípios brasileiros. É preciso entender que quem melhor sabe jogar o jogo eleitoral é a direita. Sua maior vitória é quando impõe à esquerda que escolha entre dois dos seus atores políticos como aconteceu em João Pessoa e no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a direita venceu jogando nos erros da esquerda que não soube, não quis ou não pode se unir.

Do ponto de vista das vitórias, a esquerda saiu-se mal nessas eleições, mesmo com boas votações em Recife, São Paulo, Vitória e Porto Alegre. Vejamos que ela elegeu prefeitos em 12 cidades de 9 estados diferentes. É muito pouco. O PT precisa entender que não é mais o protagonista da esquerda. Precisa aceitar que o PSOL deixou de ser mero coadjuvante, do contrário Boulos não teria chegado ao 2º turno em São Paulo. É certo que a esquerda mantém alto capital eleitoral, mesmo considerando o comportamento volúvel do eleitor brasileiro. Considero pontual a vitória de Edmilson Rodrigues (PSOL), em Belém, pois ela não prova uma onda de votos à esquerda como nas eleições de 2008 e 2012. A esquerda não saiu em bloco para enfrentar as eleições municipais. Ao contrário da direita, não pensou nos cenários para 2022. Como sempre, o erro foi PT, PSOL e PCdoB se dedicarem às suas questões paroquiais, esquecendo que a luta contra o fascismo\neoliberalismo é diária independente de estarmos ou não em eleições. Resultado? Mais uma vez, a esquerda terminou fazendo o jogo da direita.


Tomemos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro onde a esquerda enfrentou o jogo eleitoral esfacelada. A direita se uniu e foi para 2° turno podendo se livrar do bolsonarista de plantão e ainda vencer com um político “mais do mesmo”. A esquerda se viu tendo que escolher entre Paes e Crivella. Muito me incomoda essa situação de ter que escolher entre o “menos ruim”. É preciso entender, de uma vez por todas, que conciliar com partidos de centro direita e com setores das elites não constrói um projeto social e político que promova profundas transformações no país. A esquerda deve, ainda, compreender que a tal frente ampla só beneficia projetos de poder do grande capital. De que adianta compor uma ampla frente política, contra o bolsonarismo, com partidos que participaram do golpe de 2016 e apoiaram Jair Bolsonaro em 2018? A esquerda precisa saber que não é a árvore que tem que amolar o machado.

Ainda tenho que tratar do fator Ciro Gomes e seu comportamento destrutivo em relação a esquerda. Ele sabe que seus 10% não o levarão ao 2º turno em 2022, como não o levaram em 2018. Isso o deixa irado, ressentido, agressivo, invejoso. Ciro segue agredindo o PT e Lula, com os despautérios de sempre, atingindo Boulos com a pecha de radical e dizendo que Flavio Dino está fora da realidade por ter ido votar com uma camisa vermelha escrito “Lula Livre”. Ciro não assimila o golpe de ver Boulos e Dino ocupando o lugar que pensa ser seu.


O que fazer? Sugiro que uma liderança da esquerda dê uma declaração definitiva, dizendo o que Ciro Gomes é e com todas as letras, sem tergiversar. É preciso dizer que ele não é de esquerda, nem de centro esquerda e que o PDT gravita na centro direita. Ideologicamente Ciro nunca se identifica com os valores da esquerda. Politicamente seus interesses estão do centro para a direita. Importa que tudo fique claro. Quando Ciro chama Boulos de radical faz o papel, que a direita lhe atribuí, e que ele quer fazer para se tornar palatável à direita. Deixar as coisas claras é o melhor para se seguir em frente sempre pensando em como fazer para que os ventos possam mover nossos moinhos.


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