domingo, 3 de setembro de 2023

A quem interessa a prisão de Jail Bozo, o inelegível?

A pergunta de R$ 10 milhões (sou a favor da desdolarização da economia do Sul Global, promovida pelos BRICS+, por isso falo em Reais.) é a quem interessa a prisão do inelegível sem nenhum caráter?  Importa, claro, a sociedade brasileira, pelo menos àquela parte que não se deixou levar pelo ressentimento, alienação, ódio, ignorância, desespero. Interessa aos que sabem que não se pode perdoar crimes no presente, pois as cobranças vem sempre muito pesadas no futuro.


A prisão de Jail Bozo é bem vinda para os que são conscientes de que os que professam a "banalidade do mal", como diria Hannah Arendt, seguem entre nós. Precisamos trabalhar para a desnazificação do Brasil. Nossa luta é civilizacional, pois o bolsonarismo nazificado promove a barbárie. Precisamos determinar que pertencer a uma organização criminosa, que professa o nazismo e combate a democracia, é algo que não se admite, que será punido na forma da lei.

Mas, a prisão de Jail interessaria aos militares? Sim e não! SIM, porque seria uma forma deles saírem da bagunça que se envolveram ao se aliarem ao bolsomilicianismo. Ao entregarem a família Bolsonaro, e alguns de seus asseclas, à justiça os militares poderiam pedir escusas, como diria aquele ex-juiz cleptomaníaco, e buscar a “saída Leão da Montanha” pela direita, claro. NÃO, porque quanto mais se investiga as ações da organização criminosa que agia (e age) no entorno (e sob ordens) de Jair Bolsonaro, mais ficamos sabendo do envolvimento de militares de altíssimas patentes no planejamento e na execução de um sem número de crimes. Então, deve ser mais interessante para o partido das fardas verdes que tudo seja protocolarmente esquecido.

Só teremos um eficiente processo de desmilitarização das instituições políticas, e da própria sociedade, se e quando os militares forem devidamente punidos pelos crimes que cometeram durante a última ditadura, iniciada com o Golpe Civil-Militar de 1964 e só “concluída” em 1988 com a promulgação da atual Constituição Federal. Claro, para que isso aconteça, a Lei da Anistia de 1979 terá que ser bem revista. Na verdade, este entulho autoritário, que pesa às costas de nosso fragilíssimo sistema democrático, precisa ser removido de nosso ordenamento jurídico político. É isso ou os homens de verde seguirão apontando suas baionetas para nossas cabeças.

Certo, é possível que o escalão que vive na cumeeira das Forças Armadas entenda que terá que entregar uns dois ou três Mauros Cid à Justiça para poder voltar aos seus animados churrascos e, assim, esperar por outra oportunidade onde novamente tentará solapar o sistema democrático. Por isso mesmo, não basta prender Jail Bozo, ainda que seja urgente. Precisamos punir o golpismo militarizado para que possamos pensar em estabelecer um controle civil sobre as Forças Armadas, que têm que parar de agir como um partido político.

Para o conglomerado golpista de 2016 (judiciário, parlamentos, mídia corporativa, fundamentalismo neopentecostal, agronegócio, governo dos EUA, etc, etc, etc) prender Jail Bozo e jogar a chave fora seria oportuno, pois sempre se poderia dizer que “nunca participei disso”. Jornalistas, políticos, acadêmicos, empresários, comerciantes, artistas e toda essa fauna da classe média que não pode ver uma camisa da Seleção da CBF, poderiam, enfim, fingir em paz que não apoiaram a Lava Jato, o Golpe de 2016, a prisão de Lula e a eleição\governo de Jail Bozo.

Claro, os muitos desafetos de Jail esperam, ansiosamente, pelas imagens da Polícia Federal batendo à porta do solar dos Bolsonaro às 06h37min da matina. Mas, e se Jail, vendo a casa cair, resolver levar junto seus antigos aliados? Fosse eu empresário bolsonarista ficaria bem quietinho em algum lugar. Aliás, bolsonaristas espalhados pelo Brasil afora veem vantagem na prisão de Jail, pois poderiam explorar, junto ao eleitorado bovino nas eleições municipais de 2024, uma suposta perseguição ao seu mito. Como exemplo, vejamos como Donald Trump tem tirado proveito eleitoral sobre os muitos processos judiciais que enfrenta ou como Hitler soube usar, em benefício próprio, o episódio de sua prisão em 1923, após uma frustrada tentativa de golpe de Estado.


Atentemos para o fato de que a prisão de Jail interessa, ainda na seara eleitoral, a quase todo o espectro político brasileiro. É que sempre se poderá explorar a prisão do genocida pelo prisma da justiça sendo feita em defesa da democracia, do combate à corrupção e ao crime organizado, ou mesmo pela ótica de um líder sendo martirizado. Imagine quanto não renderão, para o bem e para o mal, as imagens de Jail Bozo, algemado, sendo conduzido para a sede da Polícia Federal em Brasília e, de lá, para a Papuda?

Em todo caso, anseio por essas imagens tal qual um botafoguense espera pelo título nacional de seu time que não vem a quase 30 anos, mesmo que seja comedido e não me deixe levar pelas redes sociais que decretam prisões ao deus dará. Uma prisão pictórica de Jail, sensacionalizada pela mesma mídia que até outro dia o apoiava, não deve interessar, pois vê-lo sendo solto poucas horas depois dispararia os gatilhos da impunidade dos quais somos historicamente vítimas.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O dilema do Capitão América ou o falso impasse da extremosa destra (de que adianta ser livre, se não me sinto seguro?)

 

Benjamin Franklin dizia que “os que abrem mão da liberdade essencial, por um pouco de segurança temporária, não merecem nem liberdade nem segurança”. Um dos “Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América, Franklin fez parte do “iluminismo estadunidense” que defendia princípios liberais, republicanos e federalistas, se contrapunha à autoridade centralizadora, absoluta, e aos privilégios da aristocracia, mesmo que fosse o (in)feliz proprietário de algumas pessoas escravizadas. Se vivesse no Brasil, Franklin seria chamado de comunista e a juventude (hitlerista) do Movimento Brasil Livre (MBL) o mandaria para Cuba. Nosso apressado processo político-social involutivo não aceita que se defenda sequer ideias do liberalismo burguês.

Muitos brasileiros aceitam trocar este sistema de procedimentos democráticos que temos por uma ditadura, desde que ela promova crescimento econômico, segurança pública e combate à corrupção. Isso me faz recordar as histórias do Capitão América e o dilema que ele enfrentava quando, para combater o “mal maior” (leia-se comunismo), precisava limitar as liberdades do povo que defendia. Faz-me lembrar, também, os totalitarismos europeus da metade do Século XX.



Hitler prometeu aos alemães um país desenvolvido, rico, com pleno emprego, sem as muitas limitações do pós 1ª Guerra, livre dos males da corrupção e da violência. Prometeu entregar ao povo uma potência do mundo capitalista bastando “apenas” que, em troca, os germânicos renunciassem a suas liberdades políticas. Assim foi feito e o resultado bem sabemos qual foi! Sugiro, então, refletirmos sobre a relação custo/benefício de se renunciar à liberdade em troca de segurança pública. Como e por que incautos de toda sorte negam suas liberdades para, supostamente, terem segurança? Por que tantos aceitam graciosamente o dilema do Capitão América?

Sigo tentando entender a mãe de todas as contradições que é o fato de brasileiros usarem procedimentos democráticos, como liberdade de expressão, para pedirem o fim da democracia. Por que conviver com o paradoxo de aceitar tão bem o procedimento chamado eleição (que no Brasil é panaceia para todos os males) e a ideia de que só uma ditadura resolve problemas? Por que procedimentos democráticos e entulhos autoritários coexistem pacificamente ou não?

Sigo propondo a reflexão. Porque viver numa situação sub-ótima, num sistema que tem forma democrática e substância autoritária, onde o poder das armas não se submete ao poder político? Pelo contrário, é este que busca se afiançar naquele. Porque não lutamos por consolidação democrática? Porque supomos que eleições podem tudo resolver? Porque ainda acreditamos no subterfúgio hipócrita de que “se as coisas vão mal basta trocar o governante nas próximas eleições”? Eleições em profusão pouco adiantam se não estamos dispostos a cumprir os mecanismos institucionais que permitem que os que descumprem as leis sejam responsabilizados com pressupostos penais que causem punibilidade. Como esse revezamento de nomes e siglas nos governos pode ser solução única para nossos males? Porque nos contentamos com tão pouco?

Em "Capitalismo, Socialismo e Democracia" o cientista político austríaco Joseph Schumpeter se refere à democracia como um método por onde se escolhe os que decidem, que dá ao cidadão o poder de substituir um governo por outro, para que ele próprio se proteja dos riscos dos escolhidos se tornarem uma força inamovível. Dizia ele: "A democracia significa apenas que o povo tem a oportunidade de aceitar ou recusar os homens que a governam". Devemos nos contentar com isso? Não, é insuficiente! Mas, se não consolidarmos nem isso, como avançaremos para um sistema que contemple aspectos mais amplos do funcionamento de um Estado que seja a um só tempo legal e legítimo, e, portanto, de direito e democrático? Ainda despertaremos para o fato de que nosso sistema político não passa nem no grosso filtro desse modelo minimalista de democracia?



A democracia, como sistema e cultura política, é cara apenas ao ocidente e, mesmo assim, somente onde as revoluções burguesas vingaram e as ditaduras totalitárias serviram como contraste. A democracia tem valor universal, do contrário a luta pelos direitos humanos não se daria em lugar nenhum do mundo. Como expectativa, possibilidade ou algo que o valha, lembro o clássico “A Democracia na América”, onde Alexis de Tocqueville afirma que democracia é o somatório (em doses iguais e sem hierarquias) de liberdade e igualdade.

Mas, de forma realista, serve a descrição minimalista procedural do cientista político Scott Mainwaring que diz que democracia é o regime que (1) promove eleições competitivas, livres e limpas; (2) que pressupõe cidadania adulta e abrangente; (3) que protege liberdades civis e direitos políticos; (4) onde governos eleitos de fato governam e militares são controlados pelos civis. Proponho, um simples exercício. Verifiquemos se esses quatro itens são de fato praticados em nossa sociedade. Se a resposta for sim, ótimo!, vivemos em uma democracia minimamente consolidada. Mas, se a resposta for NÃO, sugiro começarmos a ler tudo que pudermos sobre ditaduras.

Inevitavelmente a resposta será NÃO, por isso lembro que o fascismo não é discreto, não pode ser. Ele tem que ser histriônico. É pelo barulho que faz que a extremosa destra ganha adeptos, pois é sendo odiosa e violenta com seus adversários que angaria seguidores e transforma simpatizantes em militantes. E é com seus governantes praticando a necropolítica e acabando com direitos humanos, sociais e políticos que nós vamos conhecendo mais e melhor seu modus operandi. Foi assim nos quatros anos de Jail Bozo e seus asseclas no governo federal. Foi assim com Donald Trump na presidência dos EUA, que culminou com a invasão ao Capitólio. E foi assim com Hitler e Mussolini, claro. Vejamos que o 08\01, no Brasil, foi a pura expressão de uma política golpista que só sabe se expressar pelos signos da violência.



Podemos ver do que a extremosa é capaz quando ela governa. Cinicamente, o governador bolsonarista de São Paulo, Tarcísio de Freitas, destinou R$ 10,00 para um projeto de Educação em Direitos Humanos e Cidadania e tornou a Secretaria de Logística e Transportes na Secretaria de Políticas para a Mulher, como se fossem a mesma coisa. Ele disse que estava “extremamente satisfeito” com a ação da ROTA, que chacinou quase 20 pessoas no Guarujá, e ainda disse que as denúncias feitas pela população, sobre torturas sofridas por pessoas da comunidade de Vila Bahiana, são “narrativas”. Não custa lembrar do ex-governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, que dizia que “polícia vai mirar na cabecinha e … fogo”. Esses facínoras monstruosos lembram a SS nazista fuzilando judeus durante a 2ª Guerra Mundial.

O Fascismo não gosta de pessoas sendo educadas para cidadania, por isso mesmo o secretário de Educação de São Paulo, Renato Feder, anunciou  que não utilizará 10 milhões de livros em 2024, que será usado material digital ao invés dos livros do Programa Nacional do Livro Didático do MEC. A extremosa destra gosta mesmo é da morte, por isso bolsonaristas gostam tanto de armas, idolatram torturadores como Ustra, violentam seus adversários e comemoram chacinas e pandemias, pois é quando podem se livrar dos que tanto odeia.

terça-feira, 25 de julho de 2023

O Incrível Exército "verdeleone"

 

 

                                                  (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

O Incrível Exército "verdeleone" - Gilbergues Santos Soares - Brasil 247

 

    Tinha lá meus 15 anos quando assisti “O Incrível Exército de Brancaleone” (L'armata Brancaleone, 1966), filme italiano dirigido por Mario Monicelli, que satiriza costumes medievais, inspirado em “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes. A história se passa no século XI quando o nobre Brancaleone, que não tem uma lança para dar num inimigo, cria um exército andrajoso para lutar por terras que pensa serem suas. Ele vaga pela Europa com seu “exército”, num pangaré, se deparando com a peste, bruxas, bárbaros, sarracenos e bizantinos.

    Depois, quando cursava História na Universidade Federal da Paraíba, víamos esse filme estudando as relações de classe e o poder da Igreja Católica no Feudalismo. Lembro de um professor que se referia ao Exército brasileiro como a “armada Brancaleone”, pois nossa força nunca foi lá de meter medo em outros exércitos.

    O portal chinês Sohu.com classificou o Exército brasileiro como o “mais falso e vazio do mundo e sem ambição”. O site trouxe um artigo mostrando que, em média, 30% dos gastos militares da maioria dos países vão para aquisição de armamentos e equipamentos. Informou, também, que as Forças Armadas do Brasil investem 1,3% dos seus gastos militares com armas e equipamentos e que o resultado disso é uma força com “fraca eficácia de combate e armamento atrasado”.

    O Sohu.com apontou, ainda, que o Exército destina 80% de seus gastos militares para pagamento de salários, aposentadorias e pensões. Claro, não falou que parte considerável dos gastos militares são destinados para que se mantenham privilégios de uma casta de generais que nunca participou sequer de um exercício de guerra, nem tratou da farra das pensões destinadas às filhas dos generais, muito menos dos gastos com picanha, whisky, viagra e próteses penianas.

    O Sohu.com aponta três fatores para o Exército investir mal e porcamente em armamentos e equipamentos, considerando o Brasil um "país frouxo": 1) não se sente pressionada geopolítica e estrategicamente pelos seus vizinhos; 2) não sonha ser potência militar, muito menos competir com EUA por hegemonia regional (mesmo que quisesse, não poderia ou não se atreveria); 3) não precisa desenvolver suas Forças por não ter inimigos estratégicos ou imaginários. Tal qual a armada brancaleônica, em busca de poder e glória para seu nobre comandante, os objetivos dos militares são muito específicos, em geral se dão em torno de “questões internas”.

    Outra coisa que o Sohu.com não fala é que o Exército mais parece um partido político, descuidado da segurança das fronteiras do país, dedicado em ser linha de frente dos muitos golpes, intervenções e quarteladas que já tivemos e que passou 21 anos governando o país através de uma ditadura que prendia, torturava e matava. O historiador Carlos Fico nos lembra que “todas as rupturas institucionais brasileiras foram feitas por militares, mais particularmente pelo Exército”.

    Agora mesmo vimos como os militares são descolados da realidade das relações (de poder) internacionais. O presidente do Superior Tribunal Militar, ministro Joseli Parente Camelo, disse a Josias de Souza numa entrevista ao UOL, que o preconceito de militares com Lula deve-se ao medo do fantasma do comunismo. Pode o poder armado ter medo de  fantasmas e do comunismo, duas coisas que muitos nem acreditam que possa existir?!

    Depois, quando os chineses dizem que nosso Exército é o "mais falso e vazio do mundo", militares ficam com raiva. Tal qual Brancaleone, que acreditava em bruxas e em magias, os militares seguem crendo em fantasmas, mas porque isso?

    Na verdade, o preconceito dos militares em relação a Lula, ao PT e a esquerda têm outras explicações, pois Lula NUNCA foi ideologicamente comunista. Primeiro, temos questões de classe. O Exército ficou contra os trabalhadores quando se aliou a burguesia nacional e ao capital internacional, para darem o golpe de 1964. Em “1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe”, o historiador uruguaio René Armand Dreifuss chama essa aliança de “processo político e ideológico através do qual os interesses multinacionais associados e seus intelectuais, empresários, políticos e militares assumem o controle do Estado”. (DREIFUSS, 1987, p. 106).

    Temos a questão ideológica e de valores, pois o Exército é por definição conservador, reacionário, positivista e de direita. E temos a questão política, pois ele se comporta, desde os tempos do Tenentismo, como um partido que precisa intervir nas instituições e na realidade social, econômica e política do país. O jornalista Fabio Victor, em “Poder Camuflado – os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro”, cita a revista “A Defesa Nacional” (1913) para mostrar que o foco nas questões internas vem de longe: “O Exército precisa preparar-se para a sua função conservadora e estabilizadora dos elementos sociais em andamento. Ele deve estar pronto para corrigir perturbações internas”. (VICTOR, 2022, p. 277).

    Militares não têm medo de Lula, têm raiva! Eles o tratam como inimigo porque foi o PT que propôs enquadrá-los num ordenamento que os impedisse de agir como poder moderador da República. Fabio Victor traz uma resolução do Diretório Nacional do PT (2016) que defende “reformulação do papel das Forças Armadas (para) aplicar as recomendações da Comissão Nacional da Verdade sobre direitos humanos e a alteração dos currículos das escolas oficiais, expurgando valores antinacionais e antidemocráticos como o elogio ao golpe de 1964 e ao regime militar que então se estabeleceu”. (VICTOR, 2022, p. 351). Na verdade, o Exército brasileiro não quer ser uma força bem armada, prefere seguir sendo uma infantaria brancaleônica.

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Quando a extremosa destra atacou a República e como desmilitarizar\desbolsonarizar o Brasil

 

(Foto: Adriano Machado/Reuters)

O levante terrorista em Brasília só aconteceu porque não controlamos o poder militar e porque, claro, não somos uma democracia.

Começo este artigo lembrando que “EU JÁ SABIA, QUE EU AVISEI!”, pois insisti bastante, entre os meses de novembro e dezembro do ano passado, que só teríamos paz se a extremosa destra fosse retirada da frente dos quarteis. O fato é que o levante terrorista em Brasília só aconteceu porque não controlamos o poder militar e porque, claro, não somos uma democracia. Lembro, ainda, que um ditador precisa de um fato histriônico para chamar de seu. Mussolini teve a “Marcha dos camisas pretas sobre Roma”, em 1922; Hitler teve o “Putsch da Cervejaria”, em 1923; Donald Trump teve a “Invasão do Capitólio” em 2021. Agora, Jail Bozo tem sua “intentona terrorista” com hordas da extrema direita violentando a capital do país. É certo que fracassaram, mas os danos e custos são muitos e graves.
A Rede Globo insistiu, em seus editoriais, que a democracia venceu. Os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) afirmaram e afirmam que as instituições estão funcionando e que nossa democracia é sólida. Mas, devo lembrar, que a tragédia de Brasília só ocorreu porque não somos uma democracia, mesmo que nos utilizemos de alguns procedimentos democráticos. Se fôssemos uma democracia consistente, Jail Bozo estaria preso desde quando elogiou um notório torturador numa certa sessão do Congresso Nacional em 2016. Se a democracia tivesse realmente vencido, a extremosa terrorista não teria atacado os três poderes da República! SIMPLES ASSIM!
Se fôssemos uma democracia efetiva as Forças Armadas não usariam prerrogativas, trazidas da ditadura militar, para ancorar atentados terroristas. O fato é que o Exército deu suporte ao bolsonarismo nazificado que acampou, não por acaso, em frente a seus quartéis. De fato, existe uma cadeia de comando sobre os atos terroristas em Brasília. Existe uma organização (criminosa) que atuou nos locais onde o “gado patriotário” se aglomerou, passando, claro, pelos que bancaram essa festa macabra, e que foi até o alto comando das Forças Armadas e de setores do mercado e do grande capital. Será que é tão difícil entender isso?!
Gostávamos de supor que a extremosa iria enfraquecer e se desarticular. Mas a serpente golpista se alimentava, nos acampamentos, com nutrientes vindos dos quartéis. Nos divertíamos com memes e patacoadas patriotárias enquanto o ovo da serpente era chocado nos acampamentos paramilitares Brasil afora. A serpente cresceu e virou um monstro pronto para nos devorar.
Se tivéssemos um efetivo controle sobre o poder militar, ele não se voltaria contra as decisões que tomamos nas urnas. Isso só acontece por causa das tais prerrogativas militares e dos entulhos autoritários, como o artigo 142 e a Lei da Anistia, que o processo que nos trouxe da ditadura militar até aqui foi incapaz de erradicar. Quer um exemplo? A insubordinação dos militares que, descumprindo ordens da justiça e do governo, impediram que a polícia, não por acaso militarizada, retirasse a horda terrorista do acampamento-mor em Brasília. Basta ver o comportamento pusilânime do Ministro da Defesa para entender tudo. A leniência de José Múcio para com os militares beirou a prevaricação.
A democracia perdeu mais uma batalha quando a extrema direita terrorista perpetrou esse doloroso golpe bem no coração da República. É certo que medidas foram tomadas,  mas é preciso cortar a cabeça da serpente acabando com as prerrogativas militares e submetendo as Forças Armadas ao poder civil. É isso ou nunca teremos democracia, nem paz. Para que o terror não volte a agir contra nós, temos que expurgar as Forças Armadas e as Instituições coercitivas. Temos que desmontar a tutela que os militares exercem sobre nós. O que aconteceu em Brasília pode ser uma janela de oportunidades para uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que possa, por exemplo, criar um artigo que impeça os militares de atuarem na política.
 No entanto, preciso demonstrar que “desbolsonarizar” não é a mesma coisa de “desmilitarizar”, mesmo que os dois conceitos façam parte de um amplo projeto de DEMOCRATIZAÇÃO da nossa sociedade, tão acostumada ao autoritarismo.
Após a 2ª Guerra Mundial, os Aliados promoveram a desnazificação da Alemanha. Mas, para remover os entulhos nazistas usaram líderes e funcionários da ditadura hitlerista. Como podemos perceber, a desnazificação alemã não conseguiu pôr fim ao nazismo. É que nem sempre o veneno da cobra salva a vítima picada pela cobra. Não é à toa que, em dezembro de 2022, a justiça alemã prendeu 25 terroristas de extrema direita que pretendiam golpear o Estado alemão. Como se vê, não é só no Brasil onde terroristas tentam dar golpe de Estado!
E já é hora de sugerir a você, cara(o) leitora(o), que assista os documentários “O inimigo do meu inimigo, a vida clandestina de Klaus Barbie, o Açougueiro de Lyon” (2009), do diretor escocês Kevin Macdonald (que também dirigiu “O último rei da Escócia”) e “A arquitetura da destruição” (1989), do diretor sueco Peter Cohen, que fez também “Homo Sapien 1900”. Assim você entenderá porque a “cadela do nazi-fascismo está sempre no cio”, como diria Berthold Brecht.
O passo inicial para “desbolsonarizar” o Brasil foi dado quando vencemos Jail Bozo nas eleições. Mas, foi só um passo. Este processo segue com a punição dos bolsonaristas que atentaram contra a República. Como se diz por aí: ANISTIA É O C...  ENFIM! Mas, o que vamos fazer com o eleitorado bolsonarista? Temos que chamá-lo de volta à razão. Ele têm que ser responsabilizado politicamente pelo 08\01 e têm que entender que o apoio dado a um fascista criminoso, do quilate de Bolsonaro, é causa da tragédia de Brasília.
Mas, somos uma sociedade militarizada. O Exército entrou na política e se ocupou das questões sociais desde que deu o golpe de Estado que proclamou a República. Nos 21 anos em que nos governou, sob uma ditadura, militarizou a sociedade e as instituições para atender a seus interesses. O pacto que gerou a tal da “Nova República” incluía manter prerrogativas pelas quais militares são capazes de tudo, até se aliar a um desqualificado como Bolsonaro, que tinha claro projeto de tornar o Brasil uma ditadura. Então, o que é preciso fazer para desmilitarizar o país? Primeiro, as Forças Armadas não podem agir como Poder Moderador da República, tal qual fazia Pedro I no Império. Precisam saber que não pairam para acima e além do Estado. Na verdade, as Forças Armadas precisam ser despolitizadas, deixar de se comportarem como partido político e assumirem seu real papel que está, não por acaso, na Constituição.
Temos indícios promissores. O presidente Lula excluiu da Comissão de Anistia militares que foram postos lá por Jail Bozo, exonerou do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) militares comprometidos com o golpismo e desinfectou bolsonaristas da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal. A ministra Rosa Weber, atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu o decreto de indulto natalino pelo qual o ex-presidente Bolsonaro concedeu, graciosamente, anistia aos policiais condenados pelo Massacre do Carandiru em 1992. É aqui que desbolsonarização e desmilitarização se encontram.
Bastante relevante foi Lula ter demitido o General Júlio César de Arruda do comando do Exército. Foi ele mesmo quem impediu que bolsonaristas terroristas, acoitados no acampamento-mor de Brasília, fossem presos ainda na noite do 08\01. Este general desobedeceu ordens do próprio Ministro da Justiça, Flávio Dino, que seguia determinações do presidente da República, para que os vândalos golpistas fossem detidos. Ou seja, o general se insubordinou, desobedeceu, ordens que vinham diretamente do Comandante em Chefe das Forças Armadas. Foi mais uma situação, de tantas, em que o poder militar recusou se submeter ao poder civil.
Com esse ato, Lula sinalizou às Forças Armadas que elas precisam se subordinar ao poder político, afinal também precisam ser desbolsonarizadas. A Constituição também precisa ser desmilitarizada. Seria bom modificar o tal Artigo 142, no trecho que diz que cabe às Forças Armadas garantir os poderes constitucionais e “por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. A lei precisa ser clara e objetiva, não pode dar margens a interpretações, principalmente àquelas que querem acabar com a democracia.

 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

DO QUE AINDA POSSO FALAR ou “desbolsonarizar” não é a mesma coisa de “desmilitarizar”

Quero mostrar, neste DO QUE AINDA POSSO FALAR, que “desbolsonarizar” não é a mesma coisa de “desmilitarizar”, mesmo que façam parte de um amplo projeto de DEMOCRATIZAÇÃO da nossa sociedade, tão acostumada ao autoritarismo. 

Após a 2ª Guerra Mundial, os Aliados promoveram a desnazificação da Alemanha. Mas, para remover os entulhos nazistas usaram líderes e funcionários da ditadura hitlerista. Como podemos perceber, a desnazificação alemã não conseguiu pôr fim ao nazismo.

É que nem sempre o veneno da cobra salva a vítima picada pela cobra. Não é à toa que, em dezembro, a justiça alemã prendeu 25 terroristas de extrema direita que pretendiam golpear o Estado alemão. E você aí pensando que é só no Brasil onde terroristas dão golpe de Estado!

O passo inicial para “desbolsonarizar” o Brasil foi dado quando vencemos Jail Bozo nas eleições. Mas, foi só um passo. Este processo segue com a punição dos bolsonaristas que atentaram contra a República. Como se diz por aí: ANISTIA É O...  ENFIM!

Mas, o que vamos fazer com o eleitorado bolsonarista? Temos que chamá-lo de volta à razão. Ele têm que ser responsabilizado politicamente pelo 08\01 e têm que entender que o apoio dado a um fascista criminoso, do quilate de Bolsonaro, é causa da tragédia de Brasília.

Mas, somos uma sociedade militarizada. O Exército entrou na política e se ocupou das questões sociais desde que deu o golpe de Estado que proclamou a República. Nos 21 anos em que nos governou militarizou a sociedade e as instituições para atender a seus interesses.

O pacto que gerou a tal da “Nova República” incluía manter prerrogativas pelas quais militares são capazes de tudo, até se aliarem a um desqualificado como Bolsonaro, que tinha claro projeto de tornar o Brasil uma ditadura. Então, o que é preciso fazer para desmilitarizar o país?

Primeiro, as Forças Armadas não podem agir como Poder Moderador da República, tal qual fazia Pedro I no Império. Precisam saber que não pairam para acima e além do Estado. Na verdade, as Forças Armadas precisam ser despolitizadas, deixar de se comportarem como partido político e assumirem seu real papel que está, não por acaso, na Constituição.

Temos indícios promissores. Lula excluiu da Comissão de Anistia militares que foram postos lá por Jail Bozo, exonerou do GSI militares comprometidos com o golpismo e desinfectou bolsonaristas da PF e da PRF. É aqui que desbolsonarização e desmilitarização se encontram.

Ao demitir o Gal. Júlio César de Arruda do comando do Exército, aquele que impediu Flávio Dino de mandar prender bolsonaristas terroristas, Lula sinalizou às Forças Armadas que elas precisam se submeter ao poder político, afinal também precisam ser desbolsonarizadas.

A Constituição também precisa ser desmilitarizada. Seria bom modificar o tal Artigo 142, no trecho que diz que cabe as Foças Armadas garantir os poderes constitucionais e “por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. É que a lei precisa ser clara e objetiva, não pode dar margens a interpretações, principalmente àquelas que querem acabar com a democracia.

Este foi mais um “DO QUE AINDA POSSO FALAR”

 


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

DO QUE AINDA POSSO FALAR ou quando a extremosa destra atacou o coração da República

 


Começo este DO QUE AINDA POSSO FALAR lembrando que “EU JÁ SABIA, QUE EU AVISEI!”, pois insisti bastante, entre novembro e dezembro, que só teríamos paz se a extremosa destra fosse retirada da frente dos quarteis. O fato é que o levante terrorista em Brasília só aconteceu porque não controlamos o poder militar e porque, claro, não somos uma democracia.

Um ditador precisa de um fato histriônico para chamar de seu. Mussolini teve a “Marcha sobre Roma”, Hitler teve o “Putsch da Cervejaria” e Donald Trump teve a “Invasão do Capitólio”. Agora, Jail Bozo tem sua “Intentona Terrorista” com hordas da extrema direita violentando a capital do país. É certo que fracassaram, mas os danos e custos são muitos e graves.

A Globo insiste, em seus editoriais, que a democracia venceu. Governo, Congresso e Judiciário afirmam que as instituições estão funcionando e que nossa democracia é sólida. Mas, devo lembrar, que a tragédia de Brasília só ocorreu porque não somos uma democracia, mesmo que nos utilizemos de alguns procedimentos democráticos.

Se fôssemos uma democracia consistente, Jail estaria preso desde quando elogiou um notório torturador numa sessão do Congresso Nacional. Se a democracia tivesse realmente vencido, a extremosa terrorista não teria atacado os 3 poderes da República! SIMPLES ASSIM!


Se fôssemos uma democracia efetiva as Forças Armadas não usariam prerrogativas, trazidas da ditadura militar, para ancorar atentados terroristas. O fato é que o Exército deu suporte ao bolsonarismo nazificado que acampou, não por acaso, em frente a seus quartéis. De fato, existe uma cadeia de comando sobre os atos terroristas em Brasília.

Existe uma organização (criminosa) que se iniciou nos locais onde o “gado patriotário” se aglomerou, passando, claro, pelos que bancaram essa festa macabra, e que foi até o alto comando das Forças Armadas e de setores do mercado e do grande capital. Será que é tão difícil entender isso?!

Achávamos que a extremosa iria se enfraquecer e se desarticular. Mas a serpente golpista se alimentava, nos acampamentos, com nutrientes vindos dos quartéis. Nos divertíamos com memes e patacoadas patriotárias enquanto o ovo da serpente era chocado nos acampamentos paramilitares Brasil afora. A serpente cresceu e virou um monstro pronto para nos devorar.

Se tivéssemos um efetivo controle sobre o poder militar, ele não se voltaria contra as decisões que tomamos nas urnas. Isso só acontece por causa das tais prerrogativas militares e dos entulhos autoritários, como o artigo 142 e a Lei da Anistia, que o processo que nos trouxe da ditadura militar até aqui foi incapaz de erradicar.

Quer um exemplo? A insubordinação dos militares que, descumprindo ordens da justiça e do governo, impediram que a polícia, não por acaso militarizada, retirasse a horda terrorista do acampamento-mor em Brasília. Basta ver o comportamento pusilânime do Ministro da Defesa para entender tudo. A leniência de José Múcio para com os militares beirou a prevaricação.


A democracia perdeu mais uma batalha quando a extrema direita terrorista perpetrou esse doloroso golpe bem no coração da República. É certo que medidas foram tomadas,  mas é preciso cortar a cabeça da serpente acabando com as prerrogativas militares e submetendo as Forças Armadas ao poder civil. É isso ou nunca teremos democracia, nem paz.

Para que o terror não volte a agir contra nós, temos que expurgar, “desbolsonarizar”, as Forças Armadas e as Instituições coercitivas. Temos que desmontar a tutela que os militares exercem sobre nós. O que aconteceu em Brasília pode ser uma janela de oportunidades para uma PEC que possa, por exemplo, reformular o Artigo 142, impedindo que os militares atuem na política.

 

Janeiro\2023.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Sou brasileiro, sem orgulho e sem amor!

Resolvi republicar este artigo após ver Ronaldo, que já foi um fenômeno, e jogadores da Seleção da CBF que está no Qatar, competindo sabe-se lá pelo que, comendo carne polvilhada com ouro em pó. Isso mesmo, eles não comeram carne temperada com sal e pimenta, como é normal. Enquanto no país desses moços, embevecidos pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, milhões morrem de fome, sem poder sequer comer pele de frango, eles se divertem comendo ouro. Definitivamente, não dá mais para torcer por esse ... time!

 

Sou brasileiro, sem orgulho e sem amor! 

Copa do Mundo na Rússia, quinta-feira, 21 de junho de 2018. Estou em Campina Grande, numa praça de alimentação de um shopping Center (por que não digo centro de compras?!), assistindo a Croácia dar um chocolate na Argentina. Não torço pela Argentina, isso é coisa de futebol, como não consigo torcer pelo Vasco, Palmeiras e Treze.

O narrador Global fala "no amor pela nossa seleção" e os comerciais mostram um Brasil que não existe mais, insistindo num ufanismo “pachequista” de quando “Seleção Brasileira”, Ditadura Militar e Rede Globo tinha tudo haver. Pessoas passam com camisas de times de futebol (estou com uma rubro-negra da Raposa do Nordeste) e de seleções como Argentina, Portugal e Espanha. A camisa dos portugueses é tão bonita que até quis adquirir uma. Mas, se me recuso a usar a camisa do meu país, por que vestiria a da nação que nos impôs um sistema escravocrata que nos legou este presente horroroso que temos?

Um funcionário de uma loja, desse centro de compras onde estou, me disse que em uma manhã vendeu três camisas da Argentina e uma de Portugal. Perguntei quantas da Seleção da CBF foram vendidas. Nenhuma! Isso mesmo, quatro camisas de seleções adversárias do Brasil foram vendidas enquanto não se comprou uma mísera camisa amarela. O brasileiro parece não amar mais a Seleção como quer o galvanizado narrador da emissora que tem tudo haver com o estado de coisas lastimável em que vivemos.

À minha volta, “técnicos do Brasil” insistem nas estultices de sempre. Muitos não sabem que Danilo, Fernandinho, Felipe Luís e Alisson jogam nessa Seleção. São os que acham que “seleção é Neymar + dez, que não jogam porra nenhuma porque só pensam em dinheiro”, que só veem os jogos pela TV Globo, narrados por Galvão Bueno, e que Neymar é “um menino querendo se divertir”. Para mim, Neymar é mais um bom jogador, de caráter duvidoso, que se pretende pop star. Neymar só seria um ídolo se jogasse como Zico, Sócrates, Falcão. A seleção de 2018 só tem um craque, naquela de 1982 tinha dez!

Em Brasileiro pode sim não torcer na Copa, Marcelo Rubens Paiva diz: “É justa a decepção com a Seleção. Pode sim não torcer na Copa. É justo não se identificar com os heróis da ostentação, comandados por dirigentes corruptos. É um direito dizer “sou brasileiro, sem orgulho”, trata-se de um país retrógrado e conservador em direitos fundamentais, em que teses progressistas são barradas por uma classe política não laica”.

Vendo o mundo em minha volta, enquanto a Copa passa no telão, lembro que faz 94 dias que Marielle Franco foi executada e que ainda não se fez justiça, se é que se fará. Como torcer pela seleção que usa o símbolo do golpe que destituiu uma presidente eleita? Golpe este que instituiu um sistema que mescla procedimentos democráticos com entulhos autoritários, legados pelo Regime Militar, e que pôs no poder uma quadrilha formada pelo que de pior uma sociedade, forjada num sistema de exploração e violência, pôde formar.

Não posso torcer alienadamente pela seleção da CBF enquanto um ex-presidente está há 70 dias preso, condenado que foi, sem provas, a partir das convicções de um juiz de frágil instância e nenhum caráter. Lamento, não posso vestir as mesmas cores usadas para pôr fim a uma série de direitos sociais que conquistamos lenta e penosamente.

Vestir uma camisa amarela me fará sentir igual aos estúpidos que, lá na Rússia, se comportam como um bando de trogloditas que veem uma mulher como ser inferior que só interessaria por, supostamente, ter sua vagina de uma determinada cor. Não, verde-amarelo nunca mais! Meu coração é vermelho, como já dizia o poeta.

Sinto um profundo pesar quando lembro que muitos dos que torcem ardorosamente por esta seleção são os que, na abertura da Copa de 2014 em São Paulo, mandaram a Presidente Dilma Rousseff TNC. São os que bateram panelas para pedir o impeachment de Dilma e que querem intervenção e ditadura militar. O verde-amarelo ficou indelevelmente identificado com o golpismo reacionário dos “coxinhas-manifestoches!”.

Por favor, não exijam o que não posso dar. Não vestirei uma camisa verde-amarela para torcer. Sim, estou assistindo aos jogos da seleção da CBF, mas ainda não consegui vibrar. Ainda não pude comemorar uma vitória sequer, mesmo que tenha achado lindo o gol de Paulino, contra a Sérvia, com aquele lançamento primoroso de Philippe Coutinho.

Torcerei contra o Brasil? Vestirei uma camisa da Argentina em sinal de protesto? Não, nada disso! Para mim, o futebol é algo que transcende tudo isso. Amo o futebol e assisto a Copa como se fosse o maior espetáculo da terra. Mas, nesta Copa não tenho nada para comemorar, muito menos do que me ufanar. Sou brasileiro, mas sem nenhum orgulho e sem nenhum amor. (Junho/2018)

 

PS: Nunca me diverti tanto assistindo jogos de uma Copa do Mundo, como agora com essa do Qatar. Achava, e agora tenho certeza, como é bom torcer, vibrar e se emocionar pelo e com o futebol, sem o compromisso de ser nacional, sem ter que defender certas cores. Não torço mais pela Seleção da CBF e por nenhuma outra. Torço, isto sim, pelo futebol bem jogado e por seus grandes craques, como Kylian Mbappé, Lionel Messi, Robert Lewandowski, Harry Kane e ..., certo, torço para que Vini Jr e Richarlyson sejam grandes não só dentro, como fora de campo também.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

DO QUE AINDA POSSO FALAR

 



Este DO QUE AINDA POSSO FALAR é para você que acha que a eleição de Jail Bozo em 18 foi ruim, mas pelo menos nos livramos do PT. É também para quem acha que ficar à frente de um quartel pedindo golpe de estado é um direito.  Enfim, hoje eu quero que você reflita, para melhorar.

A primeira coisa que eu quero é te pedir para não se esconder atrás do biombo da ingenuidade ou da falta de conhecimento. Se você foi capaz de votar em quem defende estupro, eugenia, escravidão, racismo, homofobia, tortura, nazismo, por favor, seja capaz de enfrentar as consequências e se reposicionar.

Nossa luta é contra o fascismo e pela democracia, por isso elegemos Lula presidente! Gostaria de lembrar a frase de Paulo Freire, que o própria Lula citou na entrevista do Jornal Nacional: “a gente precisa se juntar aos divergentes para vencer os antagônicos”.

Também gostaria que você pudesse se autocriticar para não repetir erros. Quem votou em Collor e não reviu sua posição, terminou votando em Jail Bozo. Não se trata apenas de um engano, pode ser um posicionamento político, ideológico e de classe.

Certo! Eu sei bem que sempre se poderá dizer: “ahh, mas é que eu me enganei com Moro, Dallagnol e Bolsonaro”. Isso pode ser uma muleta, usada por quem não quer assumir a responsabilidade de ter contribuído para chegarmos a este estado de coisas pavoroso que enfrentamos.

No entanto, lembre-se que criminosos de guerra nazistas ou torturadores da ditadura militar costumavam dizer, para justificar seus crimes, que estavam “apenas seguido ordens".  Manter-se na extremoso destra significa seguir nesse processo de desumanização, de nazificação. Então, por favor, refaça seu pensamento. Melhore!

Eu sei que minhas palavras são duras, mas é como dizia Belchior: “ Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve. Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas. E eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”.

 

Este foi mais um “DO QUE AINDA POSSO FALAR”



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