quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Com que roupa você vai para o 2º Turno? Parte II.






Romero Rodrigues e Tatiana Medeiros voltaram à campanha buscando novos apoios para aumentarem o capital eleitoral que dispõem em busca da vitória no segundo turno. Amanhã começa o guia eleitoral para sabermos qual será o tom dessa nova disputa.





Em breve saberemos quem Daniella Ribeiro vai apoiar, se é que apoiará alguém. A condição para seu apoio está ligada à eleição de 2014. Ela não dará um único passo sem se aconselhar com o ministro Aguinaldo Ribeiro e deve apoiar a candidatura que oferecer o melhor cenário para os interesses eleitorais de seu irmão em 2014.





Aliás, ontem a deputada Daniella deu entrevista coletiva e negou-se a dizer em quem votará no 2º turno. Ela disse que “Meus adversários foram Cássio e Veneziano. Foi com eles que disputei. Queiram ou não, Campina agora tem uma nova força”. O que a deputada quis dizer foi que a disputa para a prefeitura acabou para ela. Que agora seus interesses se voltam para 2014. Ela citou Cássio e Veneziano porque eles, neste momento, são adversários do Ministro Aguinaldo para as disputas de 2014.




Daniella está racionalizando sua derrota e se valorizando. Mas ela tem dificuldades em apoiar uma das candidaturas depois de ter se confrontado com as duas, seguindo aquela tal linha de independência que o eleitorado campinense não comprou. Talvez a melhor saída seja não apoiar ninguém e guardar as cartas. Mas, as cartas do mundo da política tem prazo de validade. Ás vezes é melhor jogar o que se tem na mão, para não correr o risco de ver o jogo acabar com cartas guardadas.





Romero e Tatiana buscam todo e qualquer apoio, pois no segundo turno a decisão se dá por maioria simples. Por um voto a mais se ganha uma eleição. Veneziano não foi eleitor prefeito pela primeira vez com uma diferença de 700 votos? Vejamos os possíveis movimentos neste jogo de xadrez tomando como base a pesquisa eleitoral CAMPINA FM/GRUPO 6SIGMA da metade de setembro. Nela, se aferia a tendência probabilística de migração de votos no segundo turno.



Media-se a capacidade de candidatos derrotada em transferir votos para candidatos classificados para o 2º turno. Assim, Arthur Bolinha transferiria 8.4% de seu capital eleitoral para Romero e 5.3% para Tatiana. Já Guilherme Almeida transferiria 3.7% para Romero e 5.7% para Tatiana. Mas, Arthur afirmou que não apoiará ninguém. Declarou-se neutro, como se isso fosse possível, e liberou seus eleitores para votarem da maneira que bem quiserem.





Uma amiga, eleitora de Bolinha, disse-me ter ficado bastante irritada com a atitude dele de não só se ausentar do processo como ainda ironizar a sociedade campinense que não soube (ou não quis) seguir seu projeto que defendia eficiência máxima na gestão. Arthur foi vítima do que seria sua maior qualidade. Como Daniella, seguiu a linha da independência, além de propor um modelo de gestão pública despolitizado. Talvez as urnas possam ensinar a Bolinha que a política importa e muito.




Guilherme deverá apoiar uma das candidaturas. Se buscar coerência, apoiará Tatiana, já que esteve ao lado dela no governo Veneziano. Se quiser reorientar sua atividade, buscando novos ares para si, pode apoiar Romero e até se inserir no grupo cassista. Nos últimos debates do 1º turno vimos Romero e Guilherme batendo bola cordialmente, evitando agressões e enfrentamentos. Seria essa a senha para o apoio? Aguardemos os próximos lances.









Com seus 6.871 votos Guilherme não redefine o jogo eleitoral. Mas, seu apoio terá um peso político e até psicológico no eleitor. E num 2º turno um apoio deste se não fizer bem, mal com certeza não fará. Guilherme não foi mal na campanha. Mas, o projeto de uma Campina ideal não encantou porque muitos têm clareza que o mundo real da política é diferente desse mundo ideal onde tudo funciona bem, como se não houvesse contradições e conflitos, enfim, um mundo que de tão bom, não existe.




Sizenando anunciou que não apoiará ninguém. Defendeu o voto nulo, deu as últimas estocadas em seus adversários e se foi para retornar na próxima eleição. Torço para que nas próximas ele e seu partido voltem melhor preparados. Afinal de contas, quem disse que para ser do contra tem que ser, também, desorganizado?





Alexandre Almeida anunciou seu apoio a Tatiana. Mas, nem precisava, todos sabíamos que ele faria isso. O papel de Alexandre neste 1º turno precisa ser investigado pelos analistas. Eu diria que ele já se tornou um case. Nunca antes, na história desse país, como diria aquele ex-presidente, um candidato se prestou para o papel, vulgarmente chamado de laranja, de uma forma tão profissional e eficiente como a que vimos nesta eleição.





Mas, foi também pedagógico. Penso que ensinou algo aos eleitores campinenses que poderão nas próximas eleições identificar com precisão o tipo de candidato que entra na disputa sem se preocupar em ganhar votos. Essa é ambiência política do momento. Aguardemos os próximos movimentos para podermos saber com que roupa cada um vai para o 2º turno.






terça-feira, 9 de outubro de 2012

Com que roupa você vai para o 2º Turno? Parte I.






A eleição acabou e, como sabemos, vamos ter 2º turno em Campina Grande. Romero Rodrigues vai disputar com Tatiana Medeiros o direito de administrar a segunda cidade mais importante da Paraíba do ponto de vista econômico. Digo isso, porque do ponto de vista político é mesmo Campina quem mais influencia a modelagem do cenário político paraibano nas eleições para governador do estado.  É o resultado de Campina que pode projetar o resultado estadual.



Os atores políticos relevantes dependem do resultado das eleições campinenses para definirem seus futuros políticos. Veneziano Vital, Cássio C. Lima, Ricardo Coutinho, Aguinaldo Ribeiro, Vital Filho, dependem do processo local mais do que do oxigênio.
Romero ficou em primeiro lugar com 97.659 votos, ou 44.94% dos votos válidos. Tatiana obteve 65.195 votos, ou 30% dos votos válidos. Ou seja, Romero teve exatos 32.464 votos a mais do que Tatiana.




Daniella Ribeiro teve 36.501 votos, ou 16.8% dos votos válidos. Vejam que a diferença entre Romero e Tatiana é quase a quantidade de votos que Daniella obteve. Isso, claro, valoriza a participação da deputada Daniella neste 2º turno. Tanto Romero como Tatiana já anunciaram que vão buscar fazer novas alianças. Mas, para se obter o apoio de Daniella a que se considerar algumas questões. A primeira, é que Daniella terá que refazer todo o seu discurso.




Durante a campanha ela se colocou como candidata independente. Propunha um projeto eleitoral passando ao largo dos dois grupos hegemônicos da cidade. Nos debates, ela se confrontou tanto com Romero como com Tatiana. Para que o apoio de Daniella seja confiável aos olhos do eleitor, ela vai ter que fazer um discurso convincente. Não vai dar para falar em coerência política, talvez seja melhor explorar a justificativa de um acordo baseado em propostas que foram encampadas.




Talvez seja melhor assumir que houve um acordo para, em troca de apoio, se distribuir cargos no executivo municipal. O eleitor prefere ouvir a verdade, não importando qual, a ter que ouvir falsas versões para acordos feitos nos bastidores. Um dos motivos de Daniella não ter ido para o 2º turno foi o fato de ter-se apresentado como candidata independente. O eleitorado não comprou essa ideia porque ainda quer experimentar mais da bipolarização entre os grupos representados por Romero e Tatiana.




O eleitor campinense até aceitaria uma candidatura independente, desde que ela não dependesse de nenhuma grande liderança e/ou grupo político para de fato convencer o eleitor de sua real condição. Como sabemos, Daniella está longe de ser independente.




A candidatura de Daniella sofreu solução de continuidade pelos percalços jurídicos que enfrentou. Ter ficado sem o vice e os minutos do PT foi devastador para suas pretensões. Não ter podido contar com a imagem de Lula no guia eleitoral abateu a estratégia de Daniella. Ele e sua equipe não tiveram maturidade suficiente para enfrentar a situação.







O caro ouvinte quer saber se o apoio de Daniella pode vir a resolver a eleição no 2º turno? Teoricamente sim. Se ela se decidir apoiar um dos candidatos e se dedicar a esse apoio, se entrar na campanha, sim, pode vir a influenciar. Mas, teríamos que ver a capacidade de transferência de votos de Daniella. Nisso ela nunca foi testada. Aliás, ela nunca tinha sido verdadeiramente testada numa campanha para cargo majoritário.



Não é que ela tenha tido um desempenho ruim. É que lhe faltou ânimo, disposição. Em várias situações, era perceptível a impaciência e até certo desinteresse de Daniella para com a campanha. É como e ela quisesse ser prefeita, mas não quisesse enfrentar os custos da negociação de um processo eleitoral.




Na pesquisa eleitoral CAMPINA FM/GRUPO 6SIGMA da metade de setembro, aferia-se a tendência probabilística de migração de votos no 2º turno. Media-se a capacidade de transferência de votos dos candidatos derrotados para os classificados para o 2º turno. Viu-se que se Daniella decidisse apoiar Romero num 2º turno poderia transferir 55.3% de seu capital eleitoral para o deputado. Mas, se Daniella resolvesse apoiar Tatiana essa taxa de transferência de votos cairia para 45.3%.




São taxas de transferência nada desprezíveis que tornam o apoio de Daniella objeto de cobiça. Como a deputado já esteve, junto com seu grupo, em ambos os lados em outros carnavais acredito que não vá ter dificuldades em se decidir por este ou aquela. A questão não é se ela vai ou não apoiar. A questão é como ela vai apoiar. É bom não esquecer que isso é importante, mas que uma eleição não se decide por uma única e exclusiva variável. A que se somar vários aspectos de um processo.




O fato, é que neste momento Romero e Tatiana traçam ou retraçam suas estratégias de campanha para o 2º turno. Mas, pode ter certeza, que elas passam fundamentalmente pelos apoios que eles podem vir a conseguir.




domingo, 7 de outubro de 2012

O QUE NÃO PODEMOS ESQUECER HOJE, ALÉM DO TÍTULO DE ELEITOR.







Hoje é domingo. Mas não é um domingo qualquer. Hoje é dia de eleição. Alias, não seria melhor que a eleição acontecesse em outro dia da semana? Pois domingo é um dia para ficar em casa, com a família, descansando. O domingo existe para que fiquemos desacelerados nem que seja torcendo para que ele acabe logo. Não que eu não goste de votar. Na verdade, não se trata de gostar ou não. Trata-se, de realizar um direito, eu diria mesmo cumprir um dever.




Mas, hoje é domingo e tem eleição. Estamos agora nos preparando para ir às urnas. Para votar é preciso não esquecer algumas coisas. Primeiro, claro, ninguém pode deixar de levar consigo o titulo de eleitor. Mas, é preciso não esquecer (e acredite, muita gente esquece) que hoje vamos tão somente escolher as pessoas que vão representar e executar nossos interesses e direitos, além de nossos deveres, pelos próximos quatro anos.




Devemos não esquecer que nosso sistema político dá aos eleitos uma liberdade de ação inimaginável. Por isso eu sugiro que você, caro ouvinte eleitor, guarde num lugar seguro aquela colinha que levou para votar. Ou seja, procure não esquecer pelos próximos quatro anos em quem votou. Claro, se você não lembra em quem votou como vai poder cobrar alguma coisa de alguém. Eu sei que tem muito eleitor que prefere mesmo esquecer em quem votou.




É que aqueles que vendem seu voto a um candidato desqualificado e/ou corrompido sabem que estam fazendo algo errado, então é melhor esquecer. É que na relação de compra e venda do voto, aquele que vendeu é tão responsável quanto o que comprou. Imagine quando você entra num supermercado para adquirir um iogurte. Após efetuar o pagamento, este produto pertence exclusivamente a você. Ao pagar, você adquiriu o direito de fazer o que bem quiser com ele, inclusive derramá-lo na pia de sua cozinha.




Quando você vende seu voto para um político esta fazendo uma transferência de propriedade. Assim como o iogurte que se compra, o político pode fazer o que bem quiser com os votos que pagou para tê-los, inclusive jogá-los fora depois de eleito, claro. Se a essa altura você já vendeu seu voto, se ficou a noite passada pelas calçadas esperando candidatos endinheirados virem comprar seu voto, não tem mais o que fazer. Aos olhos do politico que comprou seu voto você não representa mais nada.







Se você trocou seu voto por um saco de cimento, por tijolos, remédios e consultas médicas, por gasolina, ou seja lá o que for, saiba que ele está perdido. O comprador, digo político, fará com seu voto o que bem quiser. E, lamento informar, pelos próximos quatro anos você não poderá fazer nada. Não adianta reclamar, dizer que todo político é ladrão. Tem que aguentar e esperar pela próxima eleição para que só então possa adotar uma prática diferente.




Se você conseguiu 200 ou 300 votos para um candidato em troca de um emprego público, de um cargo de assessor ou mesmo de substancial quantia em dinheiro aí, não tem jeito, não dá para saber se nesta relação você é vendedor ou comprador. Se você é do tipo de eleitor que não vende o voto e que já sabe bem em quem vai votar, além de estar consciente de sua escolha, ótimo, isso é muito bom. Fossem todos os eleitores como você e teríamos um sistema político com uma democracia robusta.



Mas, se você está, ainda, indeciso não precisa se preocupar ou mesmo se culpar. Eu sei que se aproxima a hora de encarar a urna. Mas, pondere comigo, é melhor ter dúvidas, ficar indeciso, do que votar no primeiro político que bateu a sua porta. Estar indeciso não é ruim. Significa que você oferece o benefício da dúvida aos candidatos. E, cá entre nós, tem que ser assim mesmo. Nós vamos entregar o cofre de nossa cidade para um desses sete candidatos, então se permita as dúvidas que quiser.




Na eleição vale a regra básica do trânsito que diz na dúvida não ultrapasse. Se você continua em dúvida, se os candidatos não foram capazes de tirá-las, não precisa se preocupar, pois na urna eletrônica tem opção para o eleitor indeciso. Não esqueça, quando ganhar as ruas em direção ao seu local de votação, que os homens fortemente armados, com roupas verdes, camufladas, não estam indo para uma guerra. É que nossa democracia é tão frágil que precisa da força para se sustentar.




Eu tenho uma sugestão.  Afaste-se dos que encaram a eleição como uma festa, pois amanhã eles terão esquecido tudo que aconteceu hoje. Convém evitar contato com os que dependem da vitória de um candidato para sustentarem a si e a sua família. Como eles estam lutando pela sobrevivência são capazes de tudo. Eles podem ficar raivosos se, por exemplo, perceberem que o candidato deles vai perder a eleição. Esse tipo de eleitor encara a eleição como uma luta de vida e morte.




Eu sei que dar um conselho é coisa de grande responsabilidade. Mas, eu vou correr o risco. Não discuta com quem quer que seja porque esta pessoa votou em um adversário de seu candidato, pois os adversários de hoje podem ser os aliados de amanhã. Nunca, nunca mesmo, discuta com um idiota, pois ele lhe fará descer ao nível dele e, por certo, ganhará a parada por ter bem mais experiência do que você.






sexta-feira, 5 de outubro de 2012

The Grey Zone - a zona cinzenta da democracia brasileira.







No Brasil temos eleições assíduas e alternância no poder há 27 anos. Não muito diferente de Honduras, onde por 21 anos se usou procedimentos democráticos, até que um golpe de Estado os jogou na lata do lixo.





O Brasil tem uma democracia frágil, pois não respeita os itens que fazem um sistema democrático. Ontem eu os citei aqui no POLITICANDO. São eles: eleições competitivas, livres e críveis; cidadania vigorosa; liberdades civis e direitos políticos; governo de fato e militares controlados pelos civis.





Os militares hondurenhos serviram-se do artigo 272 de sua Constituição para deporem o presidente Manuel Zelaya em 2009. Lá as Forças Armadas devem “defender a soberania da República, manter a paz e a ordem pública”.  Em nossa Constituição, o artigo 142 dá às Forças Armadas o papel de garantidoras dos poderes constitucionais, da lei e da ordem. É que entulhos autoritários permanecem em nosso ordenamento jurídico impedindo que esqueçamos nosso passado ditatorial.





Considerando que eleição é necessária pra termos democracia, em que pese não garantir sua solidez, podemos assegurar que não temos mais possibilidades de uma volta ao autoritarismo? Honduras experimentou a democracia, mas voltou ao estado de força. No Brasil, vivemos uma situação letárgica, uma espécie de torpor ou desânimo, onde nem fortalecemos as instituições, para que não sejam ameaçadas, e nem retroagimos para uma ditadura.




Vivemos em uma zona cinzenta, nebulosa, entre o autoritarismo e a democracia. O instituto chileno Latinobarômetro aferiu que 40% dos brasileiros aceitaria trocar seu governo democrático por um governo forte desde que ele promova desenvolvimento econômico e combata a corrupção. Isto confirma a tese de que a democracia precisa de elementos substanciais para se sustentar, além dos formais. Por aí se entende por que parte da população hondurenha apoiou o golpe militar patrocinado pelos poderes Judiciário e Legislativo.




Em 1992, Alberto Fujimori apoiou-se nas Forças Armadas peruanas para, explorando a corrupção e a guerrilha, dar um golpe de Estado. Antes, quis saber se a população concordava com o fechamento, devido à corrupção, do Congresso e do Judiciário. 71% dos entrevistados aprovaram a dissolução do legislativo e 89% concordaram com a intervenção no judiciário. Quando a comunidade internacional condenou o golpe, o “Chino” proclamou que “o povo está comigo!”.




Em abril de 2009, o senador Cristovam Buarque lançou estapafúrdia ideia de um plebiscito para que a população decidisse sobre o fechamento do Congresso brasileiro, devido a corrupção e a disfunção causada pelas medidas provisórias do poder Executivo. Cristovam lembrou que quem legisla é o Judiciário, já que o Congresso Nacional segue se recusando em fazer a reforma política. Ele nada disse sobre quem e como se fecharia o Congresso, caso a população brasileira, tal qual a peruana, assim o quisesse.




Charge do cartunista Laerte. Revista Caros Amigos - Ano IV - n° 15 - Novembro/2002. 
Edição Especial “Para onde vai a democracia?”




Na noção clássica latino-americana de golpe de Estado é o Exército, a pedido da sociedade civil, quem enquadra o parlamento.  No golpe civil/militar de 1964, parlamentares foram cassados sob acusação de corruptos. Golpes são racionalizados pela necessidade de se aplicar remédios amargos em doentes graves.



Discursos fáceis, tentativas de se perpetuar no poder e asfixia do Congresso podem vir a acabar com o pouco oxigênio que nossa democracia ainda respira.




Governo e parlamento só são legítimos, se consentidos pela população. Esta autorização se materializado pelo voto, não pela força das armas.  A democracia é um método institucional de se escolher os que vão decidir. Ela é também uma forma de se evitar que os escolhidos se perpetuem no poder. Devemos nos contentar com isso? Não, é muito pouco. Mas, se não consolidarmos nem isso, como avançaremos para um patamar superior?




Como avançaremos para um sistema que contemple amplos aspectos do funcionamento de um Estado e que seja a um só tempo legal e legítimo, portanto, de direito e democrático? Desde a proclamação da República, ainda não tivemos mais de 35 anos contínuos de democracia, sem que autoritarismos de toda sorte perturbem o funcionamento das instituições políticas.




Do fim do regime militar, em 1985, até aqui, somamos menos anos do que os vividos sob as duas ditaduras do século XX. Nossa frágil democracia eleitoral tem muito que evoluir. Essa evolução pode começar agora se adotarmos um comportamento diferente diante desse processo eleitoral.





Que tal começarmos a tratar o processo eleitoral como o momento em que contratamos nossos representantes através do voto e não como uma festa ou, pior, como um luta de vida e morte que ganha quem conquista um cargo público?






quinta-feira, 4 de outubro de 2012

VITÓRIA DE PIRRO DA DEMOCRACIA



Charge do cartunista Laerte. Revista Caros Amigos - Ano IV - n° 15 - Novembro/2002.

Edição Especial “Para onde vai a democracia?”


Fala-se que Pirro, rei do Épiro na Grécia, disse, ao ganhar a batalha do Ásculo no ano 208 a.C., que outra vitória daquela e ele estaria perdido. Pirro se referia a quantidade de guerreiros que viu morrer e ao fato de não ter mais onde recrutar soldados. É por isso que se diz, quando uma vitória é obtida a um alto preço e com graves prejuízos, que se teve uma “vitória de Pirro”. Assim estamos nós em relação ao sistema democrático que temos.



Não vivemos mais em uma ditadura. Ganhamos a batalha contra o autoritarismo. Avançamos em muitos aspectos. Mas, a que preço? O que conseguimos levar dessa vitória? Temos uma democracia sólida? Vivemos em uma democracia de procedimentos, recheada de formalismos, mas nossa cultura política é herdeira das prerrogativas que as ditaduras que tivemos no século XX nos legaram. O nosso “custo democracia” é muito alto e os benefícios são muito baixos.




Antes que alguém pense que eu prefiro algum tipo de sistema autoritário, quero dizer que a mais deficiente das democracias é sempre melhor do que a mais eficiente das ditaduras. Mas, a falta de qualidade de nossa democracia é gritante.




Ouvimos o tempo todo que a democracia brasileira está consolidada. Afirma-se que eleição é a festa da democracia. Festa? Como assim? Eleição é o processo pelo qual escolhemos nossos representantes. Simples assim.



Por que, depois de tantas eleições, com alternância no poder (que é condição necessária, apesar de insuficiente, para se ter democracia), continuamos a tratar este momento como algo inusitado? Como algo raro. Temos eleições a cada dois anos, mas elas são aguardadas e tratadas como uma Copa do Mundo, como se fossem um cometa que nos visita a cada cem anos. Assim, temos mesmo que tratar as eleições como uma grande festa.




A realidade desmente os desprovidos de cautela, os que apressadamente proclamam que nossa democracia é sólida. Nós não temos, neste momento, ameaças de uma volta a um passado autoritário. Mas, isso é tudo?




Nossa democracia tem deficiências que as eleições que acompanhamos fazem aflorar. Vejamos exemplos, quem sabe se não nos convencemos do óbvio ululante. E vejam que não vou falar de fatos isolados, mas de coisas que ocorrem a cada nova eleição. Vejamos a presença das Tropas Federais nas ruas no dia das eleições. Se nossa democracia é sólida, as urnas é que deveriam assegurar as armas, não o contrário. Como na época da ditadura, seguimos recorrendo a força para garantir procedimentos formais.




Nas eleições de 2010 e nas deste ano traficantes e milicianos, em pontos da cidade do Rio de Janeiro, usavam e usam uma espécie de “tabela” com valores que variam entre 10 e 30 mil reais a serem pagos por candidatos que buscam votos nos domínios deles. Em 2010, tivemos em Campina Grande denuncias dando conta do envolvimento promíscuo de candidatos a cargos eletivos com traficantes. Sabemos que em alguns locais foi imposta a lei do silêncio para que certos candidatos fossem beneficiados.






O nosso estado de direito é tão frágil que precisa das Forças Armadas para garantir princípios e direitos do cidadão, como o de ir e vir e o de expressar opiniões. Não bastam as instituições coercitivas como a Polícia Militar? Precisamos mesmo daqueles que são treinados para a guerra?




Cada um de nós tem pelos menos uma história para contar acerca do comportamento pouco republicano de muitos candidatos que descem ao submundo dispostos a tudo para se elegerem e assim viverem às custas dessa generosa mãe que é o Estado brasileiro.



Nós sabemos que as definições sobre as coligações partidárias e sobre quem será candidato passam bem mais pelos espaços privados (familiares até) e bem menos pelos espaços públicos das instituições que por certo deveriam nos representar.



Entre os meses de maio e junho estabeleceu-se um mercado, não de produtos, mas de siglas partidárias. Era a dança das agremiações. Teve partido que circulou por entre quase todas as candidaturas até que se batesse o martelo e terminasse o leilão.



O cientista político norte-americano Scott Mainwaring definiu, num artigo chamado “Classificando Regimes Políticos na América Latina”, que para que um sistema político seja considerado minimamente democrática precisa ter cinco componentes básicos. Seriam eles: (1) a promoção de eleições competitivas, livres e limpas para o legislativo e o executivo; (2) a existência de uma cidadania adulta e abrangente; (3) ampla proteção às liberdades civis e aos direitos políticos; (4) governos eleitos e de fato governando; (5) a existência de um efetivo controle dos civis sobre os militares.



Eu sugiro que o caro ouvinte tente verificar se nós temos, aqui mesmo em nossa cidade, pelo menos metade dessas condições. Se você chegar às mesmas constatações a que chego diariamente tenha certeza que nosso sistema político está muito longe de ser uma sólida democracia.




quarta-feira, 3 de outubro de 2012

QUEM VENCEU O DEBATE DE ONTEM?






No POLITICANDO de segunda eu falei da importância de um debate como o que foi promovido ontem pela RADIO CAMPINA FM. Eu lembrava que este seria o último debate entre os candidatos a prefeito de Campina Grande antes da eleição do 1º turno.




Dizia que o debate de ontem seria a última chance dos candidatos de se colocarem frente a frente para confrontarem ideias, projetos, modos de governar, currículos, enfim, seria o último ato do espetáculo eleitoral com todos os candidatos presentes e ao vivo.




Eu me referia ao fato de que ainda temos um expressivo contingente de eleitores indecisos e explicava que o eleitor indeciso não é bem o que não sabe o que quer, mas o que mais pondera. É aquele que observa atentamente para só então tomar uma decisão. O debate de ontem era boa oportunidade, a última talvez, para os candidatos conquistarem corações e mentes dos indecisos. Eu o analisei na perspectiva de um eleitor indeciso, como se esperasse que um dos candidatos finalmente me convencesse.




Eu vou pontuar algumas questões do debate, talvez assim possamos saber quem se saiu melhor e quem se saiu pior. Obviamente, que quem já decidiu em qual dos candidatos vai votar no domingo tende a ter opinião formado sobre quem ganhou o debate.




Os candidatos procuraram cumprir o papel que lhes cabe nesta campanha. Cada um disse mais ou menos o que se esperava que dissesse. Inclusive, cada um deles cometeu os erros que bem sabíamos que cometeriam. Mas, nem tudo foi previsível.




Sizenando Leal começou o debate questionando Tatiana Medeiros sobre questões da saúde. Como ele se embaraçou ao fazer a pergunta, Tatiana pode se esquivar para repetir o discurso que vem fazendo, sobre a saúde, desde o início da campanha. Neste momento, Sizenando e Tatiana revelaram suas principais fraquezas. Ele, o fato de ter dificuldades em se expressar. Se tivesse se preparado mais e melhor Sizenando faria grandes estragos em seus adversários.




Já Tatiana demonstrou a fragilidade de ter um discurso só. Ela é vítima do efeito Cristovam Buarque, ou seja, só tem um tema pelo qual pode falar com desenvoltura.  Se valendo disso, Tatiana utilizou uma surrada tática do marketing eleitoral que é fazer uma pergunta técnica para um adversário, sabendo que ele não vai respondê-la. Ela perguntou a Arthur Bolinha se ela sabe o que é “terapia renal substitutiva”, que na verdade é a velha e útil hemodiálise.




Arthur disse que não tem obrigação de saber já que é candidato a prefeito não a médico. Aliás, Arthur saiu-se bem, abusando do conhecimento que tem e demonstrando, mais uma vez, que se preparou para a campanha. Mas, Arthur foi vitima daquilo que pensa ser sua maior qualidade. Debatendo com Romero Rodrigues precisou sair de sua postura de independente e teve que pontuar que já apoiou e trabalhou em favor do grupo político liderado pelo senador Cássio C. Lima.








Romero seguiu a tática de se colocar como aquele que não tem inimigos. Na verdade, Romero estava com um olho no debate e outro no 2º turno. Seus debates com Arthur e Guilherme Almeida se deram no sentido de atrair apoios, não de propor enfrentamentos.




Os candidatos aparentavam cansaço, natural em um fim de 1º turno. Romero e Daniella Ribeiro pareciam os mais fadigados. A fala pausada e as palavras mal pronunciadas de Romero denunciavam isso. Daniella Ribeiro, além do cansaço, dava a impressão de tédio. Parecia saturada com tudo aquilo que acontecia em sua volta.




Mas, isto não impediu que Romero e Daniella patrocinassem um bom momento do debate. Foi quando Daniella perguntou em quem Romero votaria para governador e presidente nas eleições de 2014. Outra pergunta da lavra do marketing eleitoral. Romero não respondeu e foi para o ataque mostrando que Daniella já esteve aliada com outros grupos políticos.



Quem soube se valer dessa pequena querela, foi Guilherme que aproveitou para falar de sua postura de independência. Guilherme seguiu a linha do não enfrentamento. Como em outros debates focou-se em suas ideias, apesar de que certa animosidade que ele e Tatiana vêm desenvolvendo foi, mais uma vez, perceptiva. Isso pode até ser uma senha para o 2º turno.




Alexandre Almeida não repetiu o desempenho de outros debates. Nem de longe fez a defesa enfática do governo Veneziano que nos acostumamos a ver desde o início da campanha. Seus adversários pareciam não querer lhe dirigir perguntas, pois ele ficava sempre por último na ordem de escolha do outros seis candidatos.




O fato, é que se o debate não foi ruim, também não foi lá um primor. É que um debate com sete candidatos impede que enfrentamentos mais duradouros aconteçam. Tenho lá minhas dúvidas se o comportamento dos candidatos serviu para esclarecer os indecisos.




O que eu vi ontem foi um debate que serviu para cristalizar certezas e incertezas sobre os candidatos. E, lamento informar, as dúvidas só serão esclarecidas no próximo domingo, por volta das oito horas da noite, quando saberemos um resultado concreto.





segunda-feira, 1 de outubro de 2012

VOCÊ JÁ EM QUEM VAI VOTAR?






Domingo, meio da tarde, eu tentava me concentrar para escrever esta e outras colunas. Mas, estava difícil com carreatas passando em frente ao edifício onde moro. Muito barulho, fogos de artifício, musica da pior qualidade, era a festa da democracia. Chegará o dia em que candidatos que fizerem carreatas serão duramente punidos com uma fabulosa perda de votos. Mas, o POLITICANDO de hoje não é sobre isso. Estou apenas, mais uma vez, desabafando na esperança que um dia se faça algo a esse respeito.




Na verdade, quero falar dessa última semana de campanha e o que espero que os candidatos venham nela fazer. Seis dias nos separam da ida às urnas. O que os candidatos a prefeito de Campina Grande devem fazer até lá? Todos ainda vão aparecer no guia eleitoral. Todos ainda vão às ruas. Todos vão se esforçar ao máximo para que nesta última semana possam conquistar mais e mais corações e mentes, principalmente dos eleitores indecisos.




Temos muito que decidir nesta eleição. Salvo alguma surpresa, teremos o 2º turno. Mas, é bom não esquecer que existe, de acordo com a pesquisa CAMPINA FM/GRUPO 6SIGMA, um manancial de votos a se conquistar. Os indecisos (estou incluindo os que não informaram em quem votarão) são 11.6%. Se todos votarem num dos três candidatos que ocupam os três primeiros lugares na pesquisa CAMPINA FM/GRUPO 6SIGMA teremos uma reviravolta daquelas.




Romero tem 37.1%. Com estes 11.6% vai a 48.7% e ganha a eleição no 1º turno. Tatiana tem 23.3%. Se todos os indecisos nela votarem chega a 34.9% e vai para o 2º turno numa situação confortável. Mas, se todos os indecisos resolverem votar em Daniella (que tem 16.3%) ela chega a 27.9%, toma o 2º lugar de Tatiana e vai para o 2º turno com Romero.  Esses três cenários são impossíveis? Não, claro que não.




Como eu já disse, em uma semana tudo pode acontecer, até um terremoto de magnitude 7 na Escala Richter. Em Condições Normais de Temperatura e Pressão vamos para o 2º turno com Romero e Tatiana. Mas, enfim, o jogo só acaba quando termina.




Amanhã teremos o último debate dessa eleição aqui mesmo na CAMPINA FM. Os sete candidatos terão uma última e valiosa oportunidade de apresentarem suas propostas e convencerem os indecisos. Aliás, o fato do último debate acontecer aqui nos estúdios da CAMPINA FM não deixa de ser uma forma de reconhecer o eficiente trabalho de cobertura, das eleições 2012, feito pela equipe de jornalismo dessa emissora de rádio.



Mas o que cada candidato precisa fazer (ou dizer) para convencer cada eleitor que se sente no sagrado direito de permanecer indeciso? Primeiro, é preciso entender que, em geral, o indeciso não é o eleitor que não sabe em quem votar. O indeciso é o eleitor que pondera mais. Que observa atentamente os candidatos para só então tomar uma decisão. Todo eleitor deve ser respeitado, claro, mas o indeciso é um tipo de eleitor que deve ser tratado com máximo cuidado, carinho e atenção.








Os candidatos devem saber que é na semana que antecede a eleição que o indeciso forma sua opinião. Um bom ou mau desempenho no debate de amanhã atrai ou espanta um indeciso. Portanto, candidatos, tratem o debate com o respeito que ele merece ter.




Digamos que eu estivesse indeciso? Digamos que estivesse esperando o último debate da eleição para me decidir? O que eu esperaria dos candidatos? O que eu gostaria de ouvir deles? Em primeiro lugar gostaria que, finalmente, eles dissessem de onde virão os recursos para financiaram às propostas (algumas mirabolantes) que eles fizeram durante toda a campanha eleitoral.




Gostaria, também, que cada um deles não se perdesse no labirinto das generalidades do tipo “minha prioridade é a educação e a saúde”. Gostaria que eles fizessem propostas pontuais, reais, baseadas em estudos técnicos, não em sonhos e alucinações.




E eu ia querer que eles aproveitassem o debate para se diferenciarem uns dos outros. Gostaria que fossem para o embate de ideias e palavras, sem baixarias, claro. Se a eleição é um jogo, não me parece que se possa ganha-lo sem que se vá para o enfrentamento.




Não me parece que indecisos gostem de candidatos frágeis, passivos, lenientes, ou seja, que tentam aliviar a dureza do jogo. Não me parece que o eleitor indeciso possa vir a votar em um candidato que não tenha como prioridade ganhar a eleição.




Indecisos não gostam de candidato sem identidade própria, que não tenha até agora conseguido demonstrar a que veio. Não me parece que um indeciso escolha votar num candidato que não saber para onde ir.




Se eu estivesse sem saber que caminho tomar, não seguiria alguém que estivesse mais perdido do que eu. Seguiria aquele que me convencesse, ou pelo menos tentasse, que o melhor caminho a seguir seria aquele por onde ele mesmo estava indo.





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