sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O BALÃO DE ENSAIO DA VEREADORA

 

Raíssa Lacerda é vereadora pelo PSD em João Pessoa. Ela é filha do ex-vice governador da Paraíba, José Lacerda. Na quarta-feira, ela protagonizou um ato, que pretendia ser heroico, mas que terminou virando uma grande patacoada política. A vereadora reuniu a imprensa e anunciou seu rompimento com o governador Ricardo Coutinho. Raissa se disse decepcionada pela maneira como ele estaria tratando a sociedade. Ela afirmou que o governador não recebe nem mesmo seus secretários. Raissa se queixou de não conseguir falar com o governador a mais de um ano e disse ter se desiludido com as promessas que não foram cumpridas. Em tom de amargura ela falou: “Eu acreditei tanto nesse governador. Ele prometia tratar tão bem o servidor”.

Além das criticas e desabafos, a vereadora Raissa aproveitou a entrevista para manifestar suas vontades políticas. Ela é do bloco dos que torcem para que a aliança entre o PSB de Ricardo Coutinho e o PSDB de Cássio Cunha Lima chegue ao fim. Até aí tudo bem, pois a vereadora, como qualquer pessoa, tem direito a expressar suas opiniões. O problema foi o tom prá lá de piegas que ela adotou. Primeiro, disse que “a Paraíba vai, em breve, voltar a sorrir, com uma revelação maravilhosa”. Ela se referia a possibilidade de Cássio Cunha Lima ser candidato a governador. Depois, com uma pieguice de novela mexicana, ela arrematou: “o povo vai pular de tanta alegria, vai voltar o afago, vai voltar o diálogo de quem gosta de escutar”.

Parece que a vereadora não quer ficar exposta ao sol, caso o senador Cássio Cunha Lima retorne ao Palácio da Redenção. Mas, o que ela deixou de dizer foram os motivos reais que a levaram a tomar tal atitude. A primeira questão é que ela nunca digeriu o fato de, sendo filha de quem é, não ter sido apoiada pelo governador, quando de sua postulação a uma vaga na Câmara Municipal de João Pessoa em 2012.  O outro motivo foi exposto por Luis Torres, Secretario de Comunicação do governo. Torres disse que o que inspirou a vereadora foi “... uma ou duas alterações, em cargos comissionados, de nomes que eram ligados a ela, na cidade de São José de Piranhas”.

Mas, em política, um fato nunca se dá de forma isolada. Eu explico. O ato tresloucado da vereadora Raissa pode ter sido, também, um (mais um) balão de ensaio para se testar a viabilidade do fim da aliança entre o governador Ricardo e o senador Cássio. Antigamente, antes de se fazer subir uma aeronave com passageiros, se lançava um pequeno balão para verificar a direção dos ventos.  Na política, balão de ensaio pode ser um boato, ou um fato, que se lança ao ar para que se possa sondar reações e opiniões. Como todo balão, o de Raissa subiu, subiu, e explodiu. A ideia era provocar uma reação em cadeia. Como alguns “cassistas”, do governo de Ricardo, torcem pelo fim da aliança, queria-se provoca-la com uma ação incendiária aparentemente inconsequente.

Pareceu-me que intensão era de, através do ato da vereadora, acender o rastilho de pólvora que, adiantaria os acontecimentos, e provocaria o fim da aliança, com o consequente lançamento da candidatura de Cássio Cunha Lima ao governo. Mas, faltou mesmo combinar com os russos. José Lacerda, tal qual o pai o noiva, não sabia o que sua filha pretendia fazer. Mesmo não concordando com o rompimento, ele foi até o governador para entregar o cargo de secretario de articulação política. O governador Ricardo foi hábil. Ele não só convenceu Lacerda a ficar no governo, como ainda o fez dar uma declaração repudiando o ato infeliz de sua filha. Lacerda disse que ficou comovido com a atitude de Ricardo Coutinho. Mas, como essa família é emotiva!


O presidente estadual do PSD, partido de Raíssa, e vice-governador do Estado, Rômulo Gouveia, deu uma declaração para explodir o balão de ensaio da vereadora. Primeiro, ele disse que seu partido dá apoio incondicional a reeleição de Ricardo Coutinho. Disse, também, que a opinião da vereadora Raíssa é pessoal, isolada, e que não reflete a opinião de seu partido. Rômulo afirmou que fica ao lado de Ricardo em qualquer cenário político, inclusive no que venha a contemplar o rompimento da aliança. Como é remota a possibilidade de Rômulo se afastar de Cássio, e como o governador e seu vice se mostram unidos, o balão de ensaio da vereadora se evaporou na atmosfera. O fato é que ela deu uma cartada muito alta para um cacife político tão baixo.

O vereador Renato Martins, também do PSD, repreendeu a atitude de Raissa. Ele disse que a vereadora estava fora de si, quando fez tais declarações, porque em perfeito juízo o que se quer é criar soluções. Com sua atitude kamikaze, a vereadora Raíssa se isolou. Já os estrategistas da política paraibana acompanharam o voo desse balão e souberam tirar as lições necessárias para quando forem lançar a verdadeira aeronave rumo às eleições de outubro.

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

AFINAL, QUEM VAI ACATAR A LEI DA FICHA LIMPA?


Cada eleição tem suas especificidades. São as variáveis únicas, ou as características próprias, que diferenciam a eleição que está por vir da eleição que se foi. As eleições 2014 já possuem seu primeiro grande diferencial. É que essa será a primeira vez que a Lei da Ficha Limpa será aplicada em eleições gerais. Isso pode parecer pouco, o caro ouvinte poderá me dizer: “mas, e daí, se pouca coisa mudou desde o advento dessa lei?”. De fato, quando o assunto, no Brasil, é reforma política as coisas andam a passos de tartaruga e sem nenhuma vontade. Mas, alguma coisa mudou, pois os partidos políticos estam trabalhando para retirar, de suas listas de candidatos, o político “ficha suja”.

 Lentamente, eles vão entendendo que não adianta tentar registrar a candidatura de um político, que já teve contas rejeitadas, ou que já foi enquadrado na tal conduta vedada – o eufemismo adotado para que se finja que não se cometeu algum tipo de crime. A Lei da Ficha Limpa foi publicada no Diário Oficial, i.e., passou a ter validade, em 07/06/2010. Mas, ela só foi aplicada pela primeira vez nas eleições municipais de 2012. É que havia uma enorme polêmica sobre quando, e como, ela deveria passar a valer.  A elite política fez de tudo para que essa lei não fosse utilizada. Questionou-se, junto a STF, se ela era constitucional, se não feria o princípio da razoabilidade e da inocência prévia e se ela poderia valer para a eleição de 2012.
  
As eleições de 2014 serão as primeiras onde a lei poderá ser aplicada em sua íntegra sem que se preocupe com seus efeitos retroativos. Isto se algum advogado, a soldo de algum partido, não resolver questionar algum aspecto sombrio da lei. O que mais preocupa os políticos é o item que torna inelegível, nos próximos oito anos contados da decisão, os que tiverem suas contas, de exercício de cargo ou função pública, rejeitadas pelas chamadas irregularidades insanáveis. O que tira o sono dos políticos é que o ato doloso da improbidade administrativa não tem passado ao largo da Lei da Ficha Limpa. Foi com base nisso que o TSE negou registro, a mais de 200 candidatos, eleitos prefeitos em 2012 pelo Brasil afora.
  
É por isso que o TCE/PB está fazendo o levantamento dos gestores com contas julgadas irregulares entre 2006 e 2014. A partir disso serão elaboradas as famosas, e temidas, listas dos “fichas sujas” para serem remetidas a justiça eleitoral. Interessa ver que no último “troca-troca” partidário as legendas andaram rejeitando políticos com a ficha suja por recearem chamar atenção da justiça eleitoral. Os partidos querem sair bem na foto quando dizem que não possuem candidatos ficha suja. Mas, isso não significa que exista a disposição, no meio político, de não mais cometer as tais hipóteses de inelegibilidade. A ameaça de ser atingido pela lei da Ficha Limpa não deve servir para desencorajar os contumazes praticantes das tais condutas vedadas.
  
O presidente do PSDB paraibano, deputado Ruy Carneiro, disse que seu partido desencoraja políticos, enquadrados na Lei da Ficha Limpa, a tentarem garantir a legenda tucana para disputarem cargos. Mas, ao mesmo tempo, ele lamentou que amigos seus não puderam disputar a eleição de 2012 por estarem respondendo a processos junto ao TRE. Já o ex-governador José Maranhão afirmou que seu partido, o PMDB, não se preocupa com a Lei da Ficha limpa. Segundo ele, não se encontra no PMDB ninguém que destoe dos padrões éticos e eleitorais definidos pelo diretório estadual. José Maranhão só não explica como é que seu partido controla os padrões éticos de todos os seus filiados.
  
O ex-senador Efraim Morais afirmou que “o Democratas está limpo” e que não apresentará postulações descumpridoras da lei. Efraim disse que o DEM não aceita enquadrados na Lei da Ficha Limpa. Que bom que é assim, temia que fosse o contrário. O presidente do PT estadual, Charliton Machado, disse que seu partido vai cumprir aquilo que diz a legislação. Charliton disse que o PT será duro com qualquer filiado seu que por ventura venha a ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Mas, isso é o mínimo que se espera do partido que ocupa o poder central do país. Apesar de que se o PT julga seus mensaleiros inocentes o que dirá daqueles que tiveram contas rejeitadas? O presidente do PPS, Nonato Bandeira, foi sensato em sua avaliação.
  
Ele disse que partidos e sociedade não estam fazendo mais do que a obrigação em observar o que diz a lei e até mesmo em identificar os políticos “fichas sujas”. Nonato afirmou que tem aconselhado alguns “fichas sujas” a não se candidatarem. Não deixa de auspicioso ver que os partidos baixaram a guarda em relação à lei da Ficha Limpa. Mas, preocupa o fato deles agirem como se estivessem fazendo um enorme favor em respeitá-la. É estranho ver que eles queiram ganhar votos em cima do fato de estarem respeitando a lei. Afinal, quando é que vamos entender a atitude de ser honesto não pode ser um diferencial e sim uma obrigação?

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

CENSORES E LINCHADORES NUM PAÍS DEMOCRÁTICO

Ibsen, dramaturgo norueguês, dava um conselho fenomenal. Ele dizia para nunca se discutir com um idiota, pois ele lhe fará descer ao seu nível e ganhará por ter mais experiência. Nos últimos dias eu tenho tentado seguir o conselho de Ibsen. É que os idiotas estam soltos a falar do que pensam conhecer. Está na moda falar do linchamento, seja físico, ético ou moral. Aliás, no Brasil, é bem mais comum do que se pensa a prática do linchamento como ainda vamos ver. Também tem se falado de censura, ou seja, de como se proibir que as pessoas exerçam o direito a livre expressão. O ato de censurar é algo que trazemos conosco. Aliás, censurar é típico das sociedades pouco democráticas com passados ditatoriais.


Estamos vendo jornalistas defendendo o linchamento de marginais e políticos propondo a criação de mecanismos para censurar a atividade jornalística. No Brasil é assim, basta alguém entoar o canto da sereia para todo mundo ir atrás.  Esse é o principal traço de nossa cultura política. Não sabemos, ou não queremos, utilizar os procedimentos legais e democráticos para resolver nossos mais sérios problemas. Estamos sempre atrás de saídas de força, de mecanismos autoritários. Quando alguém expressa uma opinião que discordamos, não sabemos como, democraticamente, contra argumentar. Somos sempre tentados a fazer nosso interlocutor se calar. Isso está em nosso sangue, é algo que trazemos de nossa formação.


O linchamento é uma forma de mostrarmos que somos fortes e de afrontarmos o Estado e o seu monopólio da coerção. Quando praticamos ou defendemos o linchamento estamos dizendo que não reconhecemos o papel das instituições coercitivas. Eu busquei no Google, o santo oráculo de nossos dias, a origem da palavra linchamento. Descobri que ela veio do nome de Charles Lynch que, por volta de 1780, era coronel do exército que lutava pela independência dos EUA. Charles Lynch fazia seus soldados baterem nos inimigos aprisionados até a morte. Outra versão, diz que havia, na mesma época, um capitão chamado William Lynch que mantinha um comitê para a captura e o linchamento de ingleses.

 
 Naquela época aplicar a Lei de Lynch significa matar um prisioneiro sem que ele fosse julgado. Já no século XX os chamados "comitês de vigilância", que deram origem a organização racista Ku Klux Klan, linchavam os negros indistintamente no sul dos EUA. O linchamento era o modus operandis contra defensores dos direitos civis, ladrões de cavalos e trapaceiros. A partir 1880, se tornou comum linchar criminosos das camadas inferiores. A ideia era dar fim ao criminoso para poupar os esforços do Estado. Mas, já na antiguidade se praticava o linchamento com o apoio da lei. Os judeus praticavam a lapidação, ou seja, o apedrejamento de uma pessoa até a morte. O adultério feminino e a homossexualidade masculina eram punidos com a lapidação.

Na Inglaterra se praticava o “halifax law”, i.e., a aplicação da lei da força. A ideia de uma parcela da sociedade se apropriar do conceito de justiça, para coloca-lo em prática, se baseando no uso da força e passando ao largo da lei, é tão antiga quando a prostituição. No Brasil, o linchamento ocorre quando, em geral, se pratica um crime odioso. Existe a crença disseminada de que a população faz justiça com as próprias mãos por não acreditar na eficácia da ação policial e judicial.  Certa vez li uma tese de doutorado sobre a cultura do linchamento. A justificativa para se praticar tal ato violento girava em torno da necessidade de fazer o trabalho que a polícia não realiza devido a ausência do Estado.

Mas, o fato é que o linchador ignora o “princípio da proibição da autotutela”. Ele desconhece que nós, cidadão, contratamos, com o Estado, seu direito exclusivo como garantidor da lei, da ordem social e da Justiça, pela aplicação da coerção física ou não. Na verdade, as hordas de linchadores bem sabem que as instituições coercitivas existem e que podem cumprir o papel constitucional que a elas atribuímos. A questão é a necessidade, autoritária, de demonstrar que se tem força, ou seja, que se tem poder. Vejam que os jovens que ataram aquele adolescente a um poste, e lhe aplicaram torturas físicas, além de humilha-lo com a nudez, confessaram que tinham montado uma patrulha para policiar a região do Aterro do Flamengo em busca de marginais.

Se eles queriam se sentir cidadãos úteis e responsáveis bastava organizar um trabalho para acionar a polícia sempre que necessário. Mas, nossa cultura política não pede a participação democrática do cidadão, ela quer que o cidadão use a força física. O debate sobre se o cidadão deve ou não usar a força é tão infrutífero quanto à ideia de negar a função das instituições coercitivas. Querer que o cidadão reaja, de arma em punho, é a mesma coisa de negar a existência do Estado, esse mal necessário que, sem ele, não vivemos.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

OS PARTIDOS DE VIDA FÁCIL E A LUTA PELO CARGO DE CADA DIA.


Em qualquer dicionário vemos várias definições para o vocábulo partido. No “Caldas Aulete”, por exemplo, partido pode ser algo que se quebrou, pode ser uma opinião favorável ou contrária a alguma coisa, pode ser até alguém com quem se pode casar. A expressão “tomar partido” quer dizer que se adotou uma decisão ou resolução. Claro, partido é a associação de pessoas, com convicções e opiniões comuns, para lutar pela hegemonia no poder político.  Mas, eu encontrei outro sinônimo no mínimo curioso. No “Caldas Aulete” a expressão “ter partido” significa “ter lucro”. É isso mesmo, uma das características que dá sentido a existências de muitos partidos políticos brasileiros é, também, um de seus sinônimos.

Existem, hoje, registrados no Tribunal Superior Eleitoral, exatos 32 partidos políticos. Desses, pelo menos a metade, foi criada para atender aos interesses nada republicanos de uma espécie de subescalão da elite política nacional. Como por encanto surgiram, no espectro político nacional, duas agremiações que exemplificam muito bem (ou muito mal) essa situação. Eu estou falando do Partido Solidariedade (SDD) e do Partido Republicano da Ordem Social (PROS). Estes partidos surgiram, como tantos outros, sem representação no parlamento, ou seja, sem terem passado pelo crivo das urnas. Ao mesmo tempo em que eles requeriam o registro junto ao TSE, a imprensa denunciava fraudes no processo de suas criações.

Após se legalizarem, eles fizeram grandes campanhas no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e em várias Câmaras Municipais para arrecadar parlamentares. É que eles não se interessam em ter como filiado o cidadão comum. Para esses partidos de vida fácil, que se põem a venda como se fossem mercadorias, interessa mesmo é ter parlamentares como filiados, pois é isso que vai virar moeda de troca junto aos governantes. As lideranças dessas siglas intercambiáveis fizeram um negócio de ocasião. Tão logo conseguiram amealhar um sem número de parlamentares veio o período das reformas ministerial, no governo federal, e dos secretariados dos governos estadual e municipal.

Ao contrário do SDD, que se aliou a oposição ao governo federal, o PROS se aproximou do governo Dilma e luta para ganhar um ministério. Qual ministério? Qualquer um, pois o objetivo é dispor da estrutura governamental (eu falo de verbas, claro) para crescer. Aqui na Paraíba, o SDD partiu para a ofensiva sobre alguns governos municipais. No processo de aliciamento de parlamentares, o SDD conquistou quatro vereadores na Câmara Municipal de João Pessoa. Número suficiente para barganhar cargos. Na metade do mês de janeiro, os vereadores do SDD perderam a paciência com o prefeito Luciano Cartaxo e lhe deram o último dia do mês como prazo final para que recebessem seus cargos.

 
O vereador Marmuthe Cavalcanti afirmou que “ninguém governa sozinha, que se governa com aliados”. Ele fez questão de lembrar que o SDD é o partido com mais vereadores na Câmara Municipal de João Pessoa e que tem sido um fiel aliado. A ameaça feita, caso o prazo dado não fosse respeitado, era a de que o SDD romperia com o governo de Cartaxo e passaria para a oposição. Não vamos dourar a pílula. Na verdade, além da ameaça, existe nesses casos uma grave chantagem política. Os políticos dizem que a questão é de articulação ou falta dela. Na verdade, a questão é o velho hábito do “toma-lá-da-cá” da política brasileira. Os governantes se rendem a este tipo de chantagem que é para não sofrerem solução de governabilidade.

Aqui, em Campina Grande, vários partidos estam atentos à necessária reforma política que o prefeito Romero Rodrigues precisa realizar em sua equipe de secretários, já que quatro deles vão se desincompatibilizar para concorrer às eleições proporcionais. O PRB e o PSB se batem pela Secretaria de Agricultura. Apesar de que o PSC quer continuar na titularidade da pasta. O PROS quer uma secretaria, não importa qual. O vereador Alexandre do Sindicato disse que o PROS precisa de uma secretaria para continuar a apoiar o governo de Romero Rodrigues. O PMN seguiu uma estratégia diferente. O vereador Sargento Regis apresentou requerimento para que se crie a Secretaria de Segurança da PMCG. Claro, uma vez criada a tal secretaria, o próprio vereador Regis seria o seu titular.

Aparentemente cansado dos achaques que vem sofrendo, o prefeito Romero ironizou a situação dizendo que não tem pasta suficiente para todos. Romero ainda disse que, com tantos pedidos, teria que criar uma prefeitura paralela para atender aos partidos. Mas, não precisa começar a criar secretarias e cargos e mais cargos para estes partidos de vida fácil. Basta lhes dizer um rotundo não. Pois, eles só sobrevivem alimentados pelos cargos, sem eles essas siglas não têm partido, ou seja, não tem lucro.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

QUANDO OS ATORES POLÍTICOS DISCUTEM A RELAÇÃO.


Eu sigo atento a movimentação dos atores e partidos políticos, pois preciso entender e analisar a definição das alianças e de suas candidaturas. Por causa disso, inevitavelmente, termino acompanhando o que não deveria ou não gostaria. Fatalmente esbarro em questões fúteis que ficariam em outro plano no que dependesse de minha vontade exclusiva. São coisas que damos uma atenção além do limite, graças a essa cultura novelística que tanto gostamos de ter. Ao analista, cabe separar o joio do trigo. Existem coisas que não se deve dar atenção. Se preocupar com a vida intima dos políticos só contribui para que não se separe o “rame-rame” politiqueiro do ato de politicar. Se me permitem, do POLITICANDO.

 Graças a nossa formação política e social, não aprendemos a separar as coisas públicas das particulares. Na política regional, principalmente, as questões públicas e administrativas terminam sendo uma extensão do mundo familiar dos políticos. Acompanhamos a politicagem, pois os politiqueiros teimam em se tornar governantes. Se não nos preocupamos com os lances da política eleitoral, como poderemos cobrar dos eleitos que atentem para os muitos problemas sociais que temos? Mas, não é incomum que grupos políticos-familiares, enraizados no poder regional, lavem suas roupas sujas em público. Nossa elite política tem o hábito de ocupar a mídia para mandar recados desaforados para seus desafetos.
  
Agora mesmo, acompanhamos uma longa discussão da relação político-familiar. O ex-governador José Maranhão e seu sobrinho, deputado federal Benjamim Maranhão, seguem trocando acusações, críticas e desaforos pela imprensa paraibana. A DR da família Maranhão tem sido tão acirrada que não sabemos onde começam os problemas políticos e onde terminam as questões familiares. Não passa um dia sem que vejamos uma declaração, por menor que seja, sobre a questão. É difícil saber se a “DR dos Maranhão” tem haver apenas com questões político-partidárias ou se os problemas familiares são causa e/ou consequência da discórdia. O fato é que as questões familiares se misturam com as políticas.

 Apenas para atualizar o caro ouvinte, tudo começou quando Benjamim Maranhão resolver mudar de partido. Ele abandonou o PMDB, onde entrou pelas mãos do seu tio José Maranhão, e foi para o Partido Solidariedade, também conhecido pela sigla SDD. Como todo cacique político e patriarca familiar, José Maranhão não gostou do fato de seu sobrinho ter tomado uma decisão sem levar em consideração a opinião que ele havia expressado. O ex-governador queria Benjamim onde sempre esteve e ponto final. O deputado queria buscar novos ares partidários. Ele queria sair da sombra de seu tio para buscar espaço, pois sabia que permanecendo no PMDB terminaria tendo sua postulação, a mais um mandato na Câmara Federal, inviabilizada.

 

Maranhão queria Benjamim no PMDB cumprindo o papel de fiel escudeiro. Benjamim se foi para o SDD ignorando os apelos e as ameaças de seu tio. Consumado o fato, o ex-governador passou fazer duras criticas ao seu sobrinho, sempre através da imprensa. José Maranhão já chamou seu sobrinho de traidor, equivocado e irresponsável. Há a alguns dias, ele disse que Benjamim “não terá apoio na legenda que está, porque ela não existe na Paraíba”. José Maranhão se mostra bastante magoado com seu sobrinho. Ele afirma que Benjamim saiu do PMDB por vontade própria. O ex-governador deserdou politicamente seu sobrinho quando lhe retirou o apoio político. Será que ele deserdou, também, das heranças familiares?

 Benjamim Maranhão disse que não aceita a alcunha de traidor e que saiu do PMDB por causa do jeito arrogante de seu tio em tratar os aliados políticos. Ele chegou a lançar uma nota à imprensa com sua versão para os fatos. O deputado disse que foi obrigado a sair da legenda por não acreditar que é possível que duas candidaturas, da mesma família, disputem o mesmo cargo e pelo mesmo partido. Ele afirmou que sempre foi fiel ao PMDB e que nunca negou a liderança do seu tio. João Almeida, presidente do SDD de João Pessoa, afirmou que a briga entre Benjamim e José Maranhão é coisa de família. Ele a comparou a uma briga entre marido e mulher, onde ninguém deveria meter a colher. Mas, se tudo se resume a uma questão familiar, porque o presidente do SDD tem que dela tratar?
  
Dessa confusão político-familiar se deduz duas questões. A primeira é que a política segue sendo tratada como um negócio exclusivo das famílias tradicionais da Paraíba. Negócio este que não deve sofrer interferências por ser pouco-republicano. A outra questão é que a política partidária deixa de ser tratada como uma coisa pública para se tornar um espetáculo, onde o ator seria o político, a peça encenada seria o drama político-familiar e o espectador seria o cidadão-eleitor que, vez por outra, é convidado a assistir o espetáculo, ou melhor, é convocado a votar.

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

AS ALTERNATIVAS RACIONAIS DE VENEZIANO

A Teoria da Escolha Racional estudo fenômenos sociais e políticos, considerando que o comportamento humano pode ser tratado, ou modelado, pelos pressupostos da racionalidade. E isso não é algo novo, vem desde o filósofo grego Aristóteles. Foi Aristóteles quem afirmou que “o homem é um animal político”. Ou seja, sendo dotado de razão, ele necessita de um instrumento, a política, para abalizar suas relações sociais. Mas, isso só se daria no campo da racionalidade. Assim, a Teoria da Escolha Racional demonstra que, em situações de múltiplas escolhas, os homens optam sempre por estratégias onde possam maximizar seus resultados e minimizar suas perdas. Assim é, no jogo da política partidária eleitoral.
  
Na terça-feira eu citei Ulysses Guimarães para lembrar que não se faz política pelas emoções e pelos sentimentos. Há uns dias atrás eu afirmei que os atores políticos paraibanos estavam à beira de um ataque de nervos. Eu havia percebido uma irracionalidade emocional crescente entre algumas lideranças políticas de nosso Estado. Mas, é preciso lembrar que nas articulações políticas, que visam o jogo eleitoral, os políticos se orientam pelos postulados da escolha racional. Nas negociações, para formar condomínios eleitorais, eles primeiro elencam suas melhores prioridades. Como trabalham para maximizar interesses, os políticos têm sempre a 1ª melhor opção, a 2ª melhor opção, a 3ª melhor opção, etc, etc, etc.

 Vejamos o caso do ex-prefeito de Campina Grande Veneziano Vital, que lançou prematuramente sua pré-candidatura ao governo do Estado. Por não estar ocupando cargo eletivo, Veneziano dispõem de bastante tempo para se dedicar a sua campanha. Veneziano ascendeu rápido na carreira política. Ele foi eleito vereador pela primeira vez em 1996 e reeleito em 2000. Em 2002 se candidatou a deputado federal, mas não foi eleito. Em 2004 foi eleito prefeito de Campina Grande e em 2008 foi reeleito. Em 2012 ele teve seu maior revés eleitoral quando apostou todas as fichas na candidatura de Tatiana Medeiros, uma neófita na política eleitoral. Na época se dizia que sua postulação ao governo estadual estava enterrada.
  
Eu mesmo questionei como é ele poderia ser candidato ao governo do Estado, se não tinha conseguido eleger sua sucessora, na prefeitura de seu reduto eleitoral. Mas, Veneziano se recompôs do ponto de vista partidário. Se ele conseguiu manter seu capital eleitoral, e até ampliá-lo, junto ao eleitorado de Campina Grande, só vamos mesmo saber nas próximas eleições em que ele voltar a se submeter ao crivo da opinião pública campinense. Até que se prove o contrário, Veneziano é o candidato ao governo. Apesar de sabemos que as lideranças do PMDB atuam em várias frentes de articulação. Não se descarta a possibilidade de outra alternativa que passe ao largo do nome de Veneziano.
 

O ex-prefeito acaba de ter uma significativa vitória no âmbito judicial. O TSE decidiu não dar provimento a um recurso interposto contra Veneziano, onde se pedia sua cassação. A alegação era de uso do dinheiro público na campanha de 2008. Mas, Veneziano tem muito a remar para poder tornar sua candidatura uma realidade. Uma das principais dificuldades é a debandada de prefeitos do PMDB em direção à base aliada do governador Ricardo Coutinho. Como Veneziano não é bem conhecido pela Paraíba afora, precisa dos prefeitos, eleitos em 2012 pelo PMDB, para se apresentar ao eleitorado dos rincões paraibanos. O problema é que prefeitos pouco resistem ao centro gravitacional da máquina administrativa do governo.
  
Mas, a mãe de todas as dificuldades de Veneziano é que ele não é senhor de suas alternativas. Hoje, ele se posiciona no jogo de forma desconfortável, pois a viabilidade de sua postulação depende de decisões que seus adversários venham a tomar. Se é verdade que não existe mais, se é que existiu, alguma possibilidade do PMDB compor com o PSDB de Cássio Cunha Lima, não resta outra alternativa a Veneziano do que torcer para que Cássio e Ricardo mantenham a aliança de 2010. Foi por isso que ele disse que “Cássio e Ricardo são almas gêmeas”. Falando assim, ele tenta assumir o papel de líder da oposição. O pior cenário para Veneziano seria Cássio Cunha Lima romper a aliança com Ricardo e se lançar candidato ao governo do Estado.
  
O ex-prefeito teria que lutar contra dois adversários de peso, correndo um sério risco de nem ir para o 2º turno. O melhor cenário para Veneziano é Cassio não sair candidato e pouco se envolver na eleição estadual, a favor de Ricardo. Nesse cenário Veneziano ficaria frente a frente contra Ricardo Coutinho. Como se vê, as opções de Veneziano independem de suas forças. O jogo para Veneziano, hoje, é o de acomodar seus adversários, para que ele possa pensar em enfrenta-los muito em breve.
  
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A CAIXINHA DO PT E A MULTA DOS MENSALEIROS


Lá pelos idos de 1977, eu estudava numa escola, aqui mesmo em Campina Grande, quando o general e Presidente da República, Ernesto Geisel, veio a nossa cidade para uma daquelas visitas protocolares. Eu não lembro exatamente o que ele veio fazer aqui. Mas, fixei na memória que as escolas tiveram que ir a um ato público, misturado com um desfile militar, para saudar o ditador/presidente. Lá fomos nós, estudantes de escolas públicas e particulares, homenagear aquele homem estranho que jamais sorria.

 Fomos orgulhosos, fardados, carregando bandeirinhas verde-e-amarelo. Levávamos, no peito, preso a camisa, uma flâmula com algumas palavras de ordem que não consigo lembrar. O fato, é que lá estávamos perfilados e orgulhosos. Com o passar do tempo, senti vergonha de ter participado daquilo, mesmo que obrigado. Como diria meu filho, foi o maior mico que eu paguei em toda a minha vida. Na verdade, foi um gigantesco king kong.

Mas, porque lembrei essa história dantesca? É que, ontem, me deparei com uma foto que deve ser guardada, na esperança de que os que nela aparecem possam, no futuro, se verem e se arrependerem. Na foto, vejo militantes e parlamentares do Partido dos Trabalhadores num um ato ridículo, patético. Eles acampam, nos jardins do STF, em solidariedade ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (um dos condenados na Ação Penal 470) que acaba de se entregar a Polícia Federal para cumprir sua pena. Eu espero que no futuro alguns desses aloprados se envergonhem de terem participado de um ato que prega a impunidade. Um ato que tenta nos convencer que a quadrilha mensaleira não cometeu todos os crimes pelos quais foi julgada e condenada. 

Eu torço para que os jovens, que aparecem na tal foto, possam rever suas atitudes para, no futuro, admitirem sentir vergonha de terem afrontado a Suprema Corte de nosso país para defender um bando de criminosos que assaltaram os cofres públicos. Antes, os petistas se contentavam em dar declarações em favor de Zé Dirceu, e et caterva. Que seja, afinal vivemos numa democracia, frágil, mas uma democracia. A despeito do próprio PT, ainda não abolimos o direito à livre manifestação de ideias. O PT armou uma campanha para arrecadar fundos para que as multas dos mensaleiros fossem pagas. É repugnante um partido arregimentar seus filiados para saldar dívidas de pessoas condenadas, não em um tribunal qualquer, mas na Suprema Corte.

 A criatividade dessa gente não tem limites. Eles criaram sites para que as pessoas contribuíssem. Eu fui ao www.solidariedadeadelubio.com. Lá aparece a quantia de R$ 466.888,90. Ou seja, o valor da multa que o STF aplicou sobre Delúbio. Aparece, também, o que se arrecadou para se ajudar o pobre Delúbio. Pasmem! Em apenas dois meses o site reuniu o valor de R$ 1.013.657,26. Ainda se vê no site uma mensagem agradecendo a todos que doaram. Diz ela: “1.668 companheiras e companheiros doaram recursos em favor de Delúbio Soares, visando o pagamento da injusta e exorbitante multa que lhe foi imposta”. Ainda aparece uma fala do presidente do PT, Rui Falcão, e de outros filiados.

 Delúbio se tornou um case das doações pela internet. Em 2010, Dilma Rousseff, como candidata, recebeu 2.032 doações num total de R$ 180 mil. Marina Silva, com sua campanha avassaladora pelas redes sociais, teve 3.095 doações, arrecadando R$ 171 mil. Delúbio juntou mais de um milhão de reais pela caridade de seus companheiros. E ele já pagou sua multa de quase R$ 470 mil. O excedente será usado para ajudar José Dirceu a pagar sua multa de R$ 960 mil. Isso é que é ser companheiro! O STF atribuiu a José Genoíno a multa de R$ 667.513,92. Coincidência ou não, o seu site arrecadou quase R$ 700 mil reais. Maria Leonor Poço, advogada de Delúbio, disse que as doações, nas mais diversas quantias, foram feitas por livre e espontânea vontade.
 
 Mas, não se divulga nomes e valores dos doadores, pois essa informação é protegida por sigilo bancário. Só uma ordem judicial permite acessar os dados. Essa história está muito mal engendrada. Será que se achou que ninguém nesse país iria desconfiar? O ministro do STF, Gilmar Mendes, disse que “acha esquisito os petistas terem arrecadado em poucos dias tanto dinheiro”. Por ser quem é, Gilmar Mendes pode, até deve, perguntar se este dinheiro vem de fato dos militantes? Gilmar Mendes questionou se não estaria havendo uma distribuição de dinheiro estre os militantes para que eles, então, fizessem as doação?

Por fim, o ministro perguntou: “Será que, aqui, não há um processo de lavagem de dinheiro?”. Se por acaso se confirmar as desconfianças do ministro, se o Ministério Público provar algo, ficará claro que a “companheirada” de Zé Dirceu não reconhece as leis desse país, pois até para cumprir uma sentença judicial eles são capazes de andar às margens da lei.

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

AFINAL, PORQUE O PORTO DE MARIEL É UM BOM NEGÓCIO?

Na segunda-feira eu afirmei que não concordo que governos democráticos mantenham laços amistosos com governos ditatoriais. Eu me referia às relações que governos do PT mantêm com a ditadura dos irmãos Castro na ilha de Cuba. Afirmei, ainda, que relações entre nações se dão por interesses econômicos e geopolíticos, que estam longe de serem humanitários. Os países não costumam estabelecer laços de afetividade. Por causa disso, recebei um saudável desafio.  Alguns ouvintes, que acompanham o POLITICANDO, pediram que eu mostrasse o que o Brasil ganha, se é que ganha, com o financiamento e a construção do Porto de Mariel em Cuba. A ideia é verificar se estamos tendo prejuízos com os negócios em Cuba.

É que se tem dito que o governo brasileiro não deveria investir em Cuba, pois somos uma sociedade necessitada de muitas coisas e com muitos problemas sociais. Além disso, se diz que o PT só ajuda Cuba por causa de supostas afinidades ideológicas. O jornalista Heródoto Barbeiro, da Record News, entrevistou Thomas Zanotto, que é o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Foi uma conversa esclarecedora, despida de ranços partidários. Zanotto representa a FIESP que, para o PT e para Lula, é o centro da reação ao governo de Dilma Rousseff. De fato, a FIESP é o ninho do “tucanismo” liberal que tem reagido aos programas sociais e à política econômica dos governos petistas.

A entrevista com Zanotto é crível, pois a análise feita, e as informações fornecidas, partem de uma esclarecida oposição ao governo Dilma. Natural seria ver a FIESP contra os negócios entre o Brasil e Cuba. Mas, o que se vê é o inverso. A primeira questão, abordada na entrevista, é sobre que interesses econômicos teria o Brasil para investir no Porto de Mariel em Cuba. Zanotto pôs a questão política de lado e abordou a problemática pelo viés econômico. Zanotto disse que os investimentos do Brasil, em Cuba, começaram no governo de Fernando Henrique Cardoso. Foram os economistas tucanos que primeiro perceberam as possibilidades de comércio com os cubanos.

Ao contrário do que querem crer os seguidores da estrela vermelha, não foram os petistas que sacaram as funções geopolítica e econômica da Ilha de Cuba em relação à América Central e ao mar do Caribe.  Segundo Zanotto, foi no governo de FHC que o Brasil começou a liberar créditos alimentícios para Cuba. Funciona assim: o Brasil abre linhas de crédito para que Cuba compre alimentos, com a condição de que as compras só possam ser feitas no Brasil. Essa é uma forma de o Brasil ganhar duas vezes. Ganha quando empresta dinheiro a Cuba e quando Cuba usa o crédito para fazer compras no Brasil. A esquerda bolivariana diria que isso é o capitalismo internacional explorando países pequenos e pobres.

Para Zanotto o interesse do Brasil por Cuba é estratégico. Ele é bem mais econômico do que político e ideológico. Ele afirma que, como o Brasil tem baixa inserção econômica no Caribe, investir em Cuba facilitaria a abertura para um mercado pouco explorado. O Porto de Mariel é um manancial de oportunidades. Não se trata do porto em si, mas da criação de uma zona econômica, industrial e de processamento de exportação, que tem cerca de 500 quilômetros quadrados. Vejam como o negócio foi bom para o Brasil. O porto foi financiado pelo governo do Brasil, através do BNDES. Ele foi todo construído por empresas brasileiras, tendo a Odebrecht a frente. 80% dos equipamentos envolvidos na construção do porto são brasileiros. As compras foram feitas no Brasil.

 
É o mesmo caso dos alimentos. O Brasil empresta dinheiro a Cuba, para a construção do porto, mas os equipamentos que lá serão utilizados devem ser comprados no Brasil. O dinheiro sai e entra no país com taxas de juro, claro. Outra preocupação dos que acham que o governo brasileiro está sustentando Cuba é quando as garantias dos pagamentos desses financiamentos. Zanotto afirmou que os cubanos vão quitar suas dívidas, junto ao BNDES, com as próprias receitas do porto. Zanotto disse que existem cerca de 300 empresas brasileiras operando em solo cubano e que a grande maioria está no Porto de Mariel. O governo cubano criou uma legislação trabalhista exclusiva para elas e lhes dá liberdade total para as remessas de lucro.

Cuba está tentando seguir o modelo da China. É aquela história de “um país, dois sistemas”. Os Cubanos entenderam que não dá mais para sobreviver as custas do mito do paraíso socialista caribenho e que a economia de mercado tem lá suas vantagens. O empresariado brasileiro entendeu que as boas relações entre os irmãos Castro e o PT poderia lhe trazer bons dividendos. Se existem alguma nação sendo explorada aqui, com certeza não é o Brasil. Como diria Caetano Veloso, “sejamos imperialistas”.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

“NÃO SE FAZ POLÍTICA COM O FÍGADO”.


Como todos sabemos, Ulysses Guimarães foi bastante importante e influente no meio político brasileiros entre as décadas de 60 e 90. O Dr. Ulysses foi, também, um grande frasista. Suas frases são sempre citadas por políticos e analistas. Particularmente, eu gosto da frase em que ele definiu o antigo MDB, hoje PMDB. Segundo Dr. Ulysses, “O MDB é como pão-de-ló: quanto mais bate, mais ele cresce.” Eu gosto do bom humor com o qual ele impregnava suas frases. Certa vez ele assim definiu uma eleição: “Adoro as campanhas políticas. Dão-me transporte, de comer e de beber, o melhor quarto da casa, aplausos, votos, e ainda me chamam de estadista”.
  
Ulysses Guimarães aproveitava suas tiradas para manifestar uma sinceridade impar, que deixava muitos de seus pares irritados. Do alto de sua maturidade política, disse ele: “Sou louco pelo poder, seduzido pelo poder e é para isso que eu vivo”.  Uma boa frase do Dr. Ulysses é a que diz que: “Não se pode fazer política com o fígado, conservando rancor e ressentimentos na geladeira”. Mas, porque eu estou citando frases do Dr. Ulysses? Eu lembrei essa última, analisado o comportamento de relevantes atores políticos paraibanos. Nos últimos dias, vários deles deixaram de fazer política com o cérebro, ou seja, com a razão, e passaram a fazer com o fígado, ou melhor, com a emoção.

 Um dos políticos mais figadais da Paraíba é o ex-prefeito de João Pessoa Luciano Agra, que pertenceu ao PSB, e hoje está filiado ao PEN, aquele partido que entende tanto de ecologia quanto eu entendo do impressionismo francês. Luciano Agra andava distante dos holofotes da mídia paraibana. Ele vinha se limitando a utilizar seus perfis, em algumas redes sociais, para dar bom dia e boa noite a seus seguidores, e para citar frases de políticos e filósofos famosos. Luciano é uma espécie de novato na política. Ele veio à tona quando concorreu, como candidato a vice-prefeito de João Pessoa, na chapa encabeçada por Ricardo Coutinho, que era candidato à reeleição.
  
Quando Ricardo renunciou à prefeitura para se candidatar a governador, Agra se tornou o prefeito da capital paraibana. Foi aí que começamos a conhecer o jeito emocional de fazer política de Luciano Agra. Poucas vezes vi um político tão intempestivo como ele. Num curto espaço de tempo, a amizade entre Agra e Coutinho se tornou uma rixa política com efeitos devastadores na política municipal da Capital. Todos devem lembrar os motivos que impediram que Agra fosse candidato a prefeito em 2012.

 Esse jeito figadal de fazer político o fez errar feio nas estratégias. O resultado todos conhecemos. Luciano perdeu o apoio do governador Coutinho, do PSB e do extinto coletivo girassol. Ato contínuo, ficou sem legenda para concorrer. Teve que se contentar em apoiar a candidatura do atual prefeito Luciano Cartaxo. Ao que tudo indica, os “lucianos” já se desentenderam. O prefeito teria se irritado com as cobranças e os péssimos humores de Luciano Agra. 


Tanto é que Agra saiu de seu casulo para dar aquela velha declaração em que o branco é preto e o preto é vermelho. Ele disse que não existem hostilidades e que o prefeito Cartaxo tem dado toda à atenção aos seus pleitos e demandas. Se eles estivessem bem, não seria preciso dizer nada. Agra só se pronunciou porque as coisas vão desandando. Ele não tem escolha, deve cevar bom relacionamento com o PT, se quiser que os petistas sejam os fiadores do PEN nas articulações. É que existem algumas possibilidades de Agra compor a aliança majoritária, concorrendo ao cargo de vice-governador, na chapa encabeçada pelo PMDB ou então numa chapa que teria o senador Cássio Cunha Lima como candidato.

 Mas, Agra não perde a oportunidade de destilar suas raivas. No final de semana ele voltou a descarregar toda sua ira contra o governo de Ricardo Coutinho. Ele disse que o governo paralisou obras e não cumpriu promessas na educação. Agra disse que o reajuste que o governo concedeu ao funcionalismo público é aviltante. Daí ele focou seu discurso nas minucias do que faz o governo. Criticou as pontes erguidas em Itabaiana e Ingá e passagens em desnível feitas na Capital.
  
Sempre se poderá dizer que o papel do politico de oposição, que quer se candidato, é o de bater na situação. Mas, no caso de Luciano Agra enfrentar e destratar o governo estadual é um dever e é um desejo que ele cumpre a partir do fígado. O problema de Luciano Agra é se apegar às coisas menores, além de nutrir sua movimentação político com os rancores que tanto guarda. Como diria o Dr. Ulysses: “A política não é ofício da bagatela, a pragmática da ninharia. Quem cuida de coisas pequenas, acaba anão”.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O EFEITO SHEHERAZADE E A DEFESA DA POLÍTICA


A jornalista paraibana Raquel Sheherazade, apresentadora âncora do Jornal do SBT, conseguiu, mais uma vez, gerar polêmica com um de seus editoriais. Dessa vez ela se posicionou sobre o porto construído em Cuba com financiamento do BNDES brasileiro. Ela disse que não tem limites a generosidade do nosso governo para com os estrangeiros. Sheherazade estava furiosa por ter descoberto que governo federal liberou mais de R$ 800 milhões para o porto cubano. Ela reclamou, também, dos mais de R$ 500 milhões de dólares que saíram do Brasil, a título de crédito para Cuba, e do fato do governo de Dilma ter perdoado a dívida que 12 países africanos tinham já há muito tempo com o Brasil.
  
A jornalista disse que não tem nada contra o espírito de solidariedade entre os povos, mas que é um absurdo perdoar a dívida de países governados por ditadores. Subjacente ao discurso de Raquel vejo uma atitude moralista, apolítica, conservadora e reacionária. Eu não concordo que o governo do PT trate países, controlados por ditaduras, como se fosse irmãos mais novos precisando de cuidados.  Mas, entendo que as relações entre nações se dão por interesses que estam bem longe de serem humanitários. Foi numa dessas declarações que tudo se revelou. Sheherazade disse que era de esquerda, que gostava de política e que tinha votado em Lula. Mas, se decepcionou tanto com o governo petista que terminou mudando radicalmente.
  
Vejam a fragilidade ideológica dessa moça e do que ela representa. Justificar um discurso apolítico baseado nos desmandos de um governo, não importa qual, é não compreender que a política é algo bem mais complexo do que uma questão de governo. Por trás de uma pretensa atitude politizada, se percebe um trabalho contumaz de negação da dimensão política, que é fundamental para o funcionamento de uma sociedade e de suas instituições. Mas, Sheherazade não está só. Na verdade, ela é a porta-voz, o produto mais bem acabado, de um movimento que alcança vários setores da sociedade e que tem como principal objetivo rejeitar e/ou negar a política em todas as suas dimensões. 

 
Fazem parte desse movimento o deputado federal Jair Bolsonaro, que não perde a oportunidade de defender uma volta ao passado ditatorial que já tivemos, e que afirma sempre que o mal maior de nossa sociedade é a política. Outro expoente desse movimento é a Deputado Estadual Myrian Rios. Ela aprovou um projeto de lei para a implantação do “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais” na rede de ensino público do Rio de Janeiro. O detalhe é que a deputada afirmou que esse projeto não tinha relação alguma com a política, pois o objetivo maior era formar cidadãos que não pudessem ser corrompidos. A deputada só não diz como é que ela mesma faz para ficar longe da política.

 Mas, não encontraremos os despolitizados de toda sorte apenas na política institucional. Entre os profissionais liberais, entre os jornalistas e, pasmem, no meio acadêmico é fácil encontrar pessoas que acham que política só atrapalha ou que não serve para nada. Para muitos, se são os políticos que praticam os atos ilícitos, então a política não presta, é algo nefasto. Não tem sido incomum, pessoas me questionarem como eu posso ficar falando de política, quando existem tantas outras coisas mais importantes para tratar. É bem verdade que, toda essa bandalheira só contribui para a proliferação de tais atitudes não só no meio popular, como nos setores intelectualizados. Mas, um erro não justifica o outro. O fato é que o desprezo pela política virou moda.
  
Tive que me acostumar com os pronunciamentos enfurecidos contra a política. Convivo com um bando de “Sheherazades” que se dedicam a campanha de negar a dimensão política, por não entenderem que ela rege o funcionamento de nossa sociedade. Hoje em dia, prova que tem uma atitude moderna, descolada, os que se consideram apolíticos. Certa vez, ouvi um colega dizer que “eu sou um pesquisador, não me envolvo com a política universitária, pois ela só serve para reproduzir os vícios do parlamento”. 

Os adeptos de Raquel Sheherazade são os “puros de alma”, defensores da pureza da ciência e dos valores morais. São os que defendem tudo o que é politicamente correto. São os que acham que acima de tudo está a questão social, como se ela pudesse ser descolada da dimensão política. Eles esquecem que a dimensão política existe independentemente de suas vontades, humores e interesses. Eles não percebem que seus discursos (aparentemente conscientes) só contribuem para a manutenção desse estado de coisas. Agindo assim, oferecem seu quinhão para que muitos pensem que o mal da humanidade está na política. Eles não educam, apenas desconscientizam, e participam de um poderoso processo de alienação. Sheherazade, e seus seguidores, deveriam parar com seus discursos revoltados e irem estudar os clássicos da política.


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