quinta-feira, 17 de março de 2016


Convido a todos para o lançamento de meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande – 1968/1972”, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB)



O lançamento será no dia 19 de março de 2016 (sábado), as 19 horas, naLivraria Nobel - Via Cultural Campina Grande, à Rua Irineu Joffily, nº 162, Centro, em frente ao antigo Cinema Babilônia.

Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento politico das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura militar e a relação delas com a democracia politica. 

Abaixo mais um pequeno trecho do livro, a título de aperitivo:


"Temos, então, a contextualização necessária que dá lastro

para o que vem a ser o objeto central desse trabalho. A
intenção era apresentar a ambiência política que permite a
análise da atuação e organização dos grupos de esquerda em
Campina Grande. Também, precisava recolher elementos,
teóricos e práticos, para entender o que faz a esquerda partir
para a ação revolucionária, abandonando a perspectiva
política no campo democrático. Saber da existência, numa
cidade como Campina Grande, de uma entidade que congregava
os estudantes, de um movimento nacionalista e de
organizações em defesa das reformas de base, além de Ligas
Camponesas, facilitará, por certo, o entendimento das motivações
de um grupo de campinenses que partiu em defesa
da luta armada. Depois de termos entendido que a estrutura
organizacional do PCB era autoritária, além de fortemente
ligada a um passado leninista, teremos o caminho facilitado
para observar o tipo de organização utilizada pelos comunistas
entre as décadas de 1960 e 1970".


“A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá, quem viver verá”.


Acordei hoje com uma música antiga na cabeça, chama-se "NÃO LEVE FLORES" de um de meus heróis, Belchior. Isso significa que ainda não fui consumido por essa burrice autoritária e conservadora que graça por aí, pois poderia ter acordado com uma “música” de Wesley Safadão na cabeça. Aí, sim, tudo estaria perdido.

É natural ter lembrado a “filosofia belchiana”, pois fiquei até muito tarde lendo notícias e vendo imagens de uma “revolta” estulta, autoritária, golpista, estreitamente (in)consciente de nossa realidade. Em tempos de convulsão política a solução pode ser buscar os clássicos, talvez eles nos digam o que fazer. Os antigos podem nos ensinar muito, de como reagir ao mal sem se igualar a ele. Belchior e o velho Brizola (lembrei dele também) diriam que ... É TEMPO DE RESISTIR!!!!


“A imprensa e o judiciário não podem atuar como partido político. O que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará a Presidência da República. O que está em jogo é a própria democracia, a estabilidade do país e todas as instituições do Estado.
O protesto desta sexta-feira será contra os abusos da imprensa e do Judiciário. Não se pode esquecer que na história do Brasil o combate à corrupção já foi usado como justificativa para golpes. Em 1964, a ditadura derrubou o governo eleito falando contra a corrupção. Depois de muito sofrimento e dor, descobrimos que na ditadura havia corrupção. O que não havia era liberdade para investigar e denunciar a corrupção”.


Dia 18 vamos para rua pela democracia.

Confirme sua presença no evento: http://on.fb.me/1RdmScE

João Pessoa
18/03/16 - 14h
Ato na Lyceu Paraibano

Campina Grande
18/03/16 - 15h
Praça Clementino Procópio



Não Leve Flores - Belchior
  “Não cante vitória muito cedo, não.
Nem leve flores para a cova do inimigo,
que as lágrimas do jovem
são fortes como um segredo:
podem fazer renascer um mal antigo.

Tudo poderia ter mudado, sim,
pelo trabalho que fizemos - tu e eu.
Mas o dinheiro é cruel
e um vento forte levou os amigos
para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,
e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não.

 
Palavra e som são meus caminhos pra ser livre, e eu sigo, sim.
Faço o destino com o suor de minha mão.
Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza.
- Sempre é dia de ironia no meu coração.


Tenho falado à minha garota:
- Meu bem, é difícil saber o que acontecerá.
Mas eu agradeço ao tempo.
o inimigo eu já conheço.
Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço.
A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá.
A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá.



https://www.youtube.com/watch?v=ZZrfupr3S-Y

terça-feira, 15 de março de 2016

Quando a “Casa-Grande” vai à rua


Existem imagens que de tão ululantemente óbvias, como diria Nelson Rodrigues, não pedem legendas. A imagem (ao lado) que “viralizou” nas redes sociais se basta a si mesma e me fez lembrar a ilustração (abaixo) de Jean-Baptiste Debret. Em ambas vemos a mesma coisa: uma família de brancos na rua seguida pelos seus serviçais negros.

Na foto a família branca (vestida com a cor oficial de uma crescente onda de despolitização conservadora e autoritária) se dirige, no Rio de Janeiro, para a manifestação anti governo e pró-impeachment, contra corrupção, por intervenção militar, ou seja lá pelo que essa gente se bate, seguida pela babá (negra) que guia o carrinho com os bebês. Notem que a mãe segura a coleira de um cachorrinho também branco. Os donos da “Casa-Grande” foram à rua portando a moradora da “Senzala”. E é essa gente que diz lutar por um Brasil mais justo. Eles lembram líderes da Conjura Mineira que diziam que uma vez vitoriosos não poderiam acabar com a escravidão, pois do contrário quem iria trabalhar na extração do ouro, no plantio da cana-de-açúcar ou nos serviços domésticos?

O caro leitor interpretará a imagem da maneira que bem quiser, mas lembre que quem bate na panela não é a moça de branco e quem protesta é a “sinhá” que até se preocupa em olhar para seus filhos, mas que não se dá ao trabalho de carrega-los. Os donos da “Casa-Grande” não suportam a ideia de ter que pagar direitos trabalhistas para a moça, de branco, que veio da “Senzala”. Deve ser por isso que lhes negam o direito do descanso dominical.

No século XIX, o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil com a Missão Artística Francesa que fundou, no Rio de Janeiro, a Academia Imperial de Belas Artes. Aqui, Debret pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros. O quadro ao lado é o “Passeio com a família”, publicado em “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. E o que nele se vê? Mesma coisa da imagem do domingo 13 de março. O senhor vai passear com sua branca família trazendo consigo um séquito de negros. Note que uma das escravas carrega um bebê tal qual a babá negra do século XXI.

Vi numa rede social alguém dizer que não dá para discutir direitos sociais com quem ainda não aceita a “Lei Áurea”. Pois é, não dá para discutir sobre a transformação de nossa realidade politica, social e econômica com uma gente que vai participar de manifestações levando consigo os excluídos de sempre. Não posso tratar das coisas da politica, sequer do fato que é preciso reformar nossas instituições para tentar controlar a descontrolada corrupção, com pessoas que reproduzem em casa e fora dela uma ancestral desigualdade social, racial, econômica.

Em outra imagem, uma senhora, de verde-e-amarelo lógico, branca e loira, toma champanhe em uma taça. Madame fez questão de mostrar o símbolo de seu status e de seu poder. Estaria madame disposta a ir às últimas consequências para ver na Presidência da República alguém acostumado aos bons vinhos e jantares? Parece que sim, do contraria não estaria sacrificando seu regabofe dominical para xingar a presidente, constitucionalmente eleita, da República. Madame cansou de ter um caboclo presidente como diria Herbert Viana. Notem que outros abnegados pelas causas da politica brasileira também bebem de um champanhe que descansa em um balde de gelo que bem poderia ser de prata. Tinha razão Cazuza quando dizia que a burguesia fede, apesar de ter muito dinheiro para comprar perfumes.

E o que dizer da singela imagem do barquinho que ia mesmo que a tardinha ainda não tivesse caído? A Globo News exibiu demoradamente a imagem de um iate singrando os mares cariocas ostentando a faixa “fora Dilma”. É um verdadeiro negócio de ocasião. Enquanto se divertem, cariocas endinheirados pedem para alguém por a presidente eleita para fora. São nesses dias de estultice politica que um Millôr Fernandes faz tanta falta, pois só mesmo ele poderia se sair com uma frase curta e franca sobre a mãe de todos os paradoxos que essas imagens encerram. Lembrei-me de Karl Marx que afirmava que a burguesia é capaz de tudo para defender seus interesses até mesmo lutar contra o sistema politico que lhe garante ser dona dos meios de produção.

Enquanto sinhôs e sinhás desfilam suas belezas pelas manifestações, indignados por que um governo se atreveu a promover alguma justiça social na ordem tupiniquim, a elite politica, gerada entre a Casa-Grande e a Senzala, se despe de qualquer recato republicano e/ou democrático e se lança ensandecida, numa luta de vida e morte, para impedir que nas próximas eleições o caboclo presidente volte a frequentar os corredores dos palácios e a compartilhar dos bons vinhos.

É que o Sinhô não quer mais ver o filho da escrava sentado naquela cadeira, daí pediu aos seus filhos, formados em quatrocentonas entidades de ensino, para aprisionarem o presidente Macunaíma. Um dos filhos togado perguntou que motivos alegariam para enquadrá-lo. O senhor disse que qualquer motivo é bem vindo. Pode ser a suspeição da vontade (não realizada) de compra de um imóvel, pode ser uma quantia recebida pelo caboclo presidente para dar uma palestra, pode ser o fato de a esposa cabocla ter ido olhar as obras de um imóvel. O Senhor disse a seus filhos togados que fossem perguntar ao dono do império das comunicações que argumentos utilizar.

Um dos filhos lembrou que não saberia instrumentalizar o processo contra o presidente jararaca por não ter lido os livros dos filósofos que seus professores recomendavam. Ele disse que não sabia diferenciar Friedrich Engels, um dos teóricos que formatou o socialismo científico no século XIX, de Friedrich Hegel, um dos expoentes do chamado idealismo alemão. O senhor disse que eles poderiam tirar as duvidas todas que tivessem com aquele ex-presidente que foi professor de sociologia.

As sinhás e senhorios que vão as ruas aos domingos não se conformam em ter perdido mais uma eleição. É que essa gente não suporta a ideia de saber que parte dos impostos que pagam vai para os programas sociais do governo federal. Essa gente não está preocupada com a corrupção, nem com o suprapartidário assalto aos cofres da Petrobras. Tal qual os militares e civis, que deram o golpe de 1964, usam o discurso piegas, pretensamente nacionalista, de salvar a pátria da corrupção para maximizarem seus interesses mais comezinhos.

A “Casa-Grande” se comporta como se estivesse na segunda metade do século XIX participando de organizações contrárias à abolição da escravidão. Elas querem impeachment de Dilma, golpe e intervenção porque tiveram seus privilégios atacados e porque as classes que ficam ao final do alfabeto passaram a ter acesso a coisas como educação superior, moradia e consumo. E isso é inadmissível para quem sempre se alimentou das desigualdades sociais que historicamente tivemos.

Março/2016.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Hoje não te dou parabéns, te dou todo meu respeito


Hoje é aquele dia em que nos sentimos obrigados a parabenizar todas as mulheres. É que com o passar do tempo o Dia Internacional da Mulher foi deixando de ser um dia de lutas para ser um dia de festas. Cada vez mais o papel político desse dia vai sendo substituído por um dia destinado a homenagear as mulheres, com aquelas mensagens que, em geral, servem para escamotear a realidade em que vivemos. Hoje, mulheres vão receber flores, declarações de amor e mensagens que as enaltecem. Em apenas um único dia a mulher será tratada como se não tivesse defeitos, como se não fosse um ser humano normal. Mas, é só por hoje. Amanhã mesmo mulheres de todas as etnias, credos, classes sociais, ideologias, profissões, voltarão a ser desrespeitadas em seus direitos e bastante cobradas em seus deveres.

Em 2013 vi um folder, feito pela diretoria de Recursos Humanos do Hospital de Emergência e Trauma de Campina Grande, que promovia um ato alusivo à data. No folder não havia nada que lembrasse o papel político do oito de março, pois não se aludia ao fato dessa data ser consagrado às mulheres pelas lutas que elas travaram ao longo da história. O folder enfatizava que a mulher é raiz da sensibilidade, tronco da multiplicidade, folha da serenidade, essência da natureza humana. 

O oito de março foi consagrado à mulher em reconhecimento às lutas por ela empreendidas. Foi em 8 de março de 1857 que operárias de New York ocuparam uma fábrica têxtil onde trabalhavam para reivindicar redução na jornada de trabalho, equiparação de salários com os homens e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. As manifestantes foram violentamente reprimidas. Elas foram trancadas na fábrica, que foi incendiada. Cerca de 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, numa conferência na Dinamarca, se convencionou o oito de março como o "Dia Internacional da Mulher" em homenagem àquelas que, como as têxteis, lutavam por seus direitos. Em 1975, a ONU oficializou a data.

Assim, e pelo mundo afora ao longo do século XX, o oito de março ficou sendo usado para que mulheres se manifestassem e lutassem pelos seus direitos. O oito de março passou a ser o símbolo da luta das mulheres contra a opressão, a violência, o preconceito e pelos direitos sociais. É por isso que hoje não é um dia para se dar parabéns às mulheres, apesar de que nada impede que um homem faça uma declaração de amor para sua esposa, namorada, companheira. Hoje não é o dia ideal para você ofertar flores para sua amada. Também não indico que dê uma caixa de bombons de chocolate para ela, pois corre o risco dela comer tudo e, depois, dizer que engordou por causa dos bombons que você deu a ela. Não dê nada disso a sua amada. A melhor coisa a dar a ela hoje é RESPEITO. Diga a ela, com sinceridade, claro, que a respeita pelo que ela é, pelos valores e opiniões que ela têm.

Se você é daqueles que costuma violentar física e/ou emocionalmente a mulher que diz amar, aproveite o dia de hoje para refletir. Já que o oito de março é uma homenagem às mulheres que se levantaram contra a opressão. Use o dia de hoje para prometer a sua amada que nunca mais vai oprimi-la. Quando chegar o dia do aniversário dela, ou o dia dos namorados, ou ainda o aniversário de casamento de vocês, aí sim, você solta a imaginação. Declara-se para ela, mande flores, dê os parabéns, recite poemas, mande mensagens apaixonadas.

Hoje, é um dia para as mulheres se manifestarem politicamente e para reafirmarem seus direitos, mesmo que estejam reavaliando se realmente valeu a pena lutar tanto para entrar no mercado de trabalho e ter os mesmo direitos e deveres dos homens. O movimento feminista não fez a luta completa. Deveria ter lutado para que a mulher fosse para o mundo do trabalho, com os mesmo direitos dos homens, e para que estes assumissem as tarefas de casa. Nessa luta as mulheres saíram perdendo na medida em que passaram a ter a dupla jornada de trabalho e os homens seguiram tendo a jornada de sempre, mesmo que muitos sejam bons donos de casa.

Outra coisa que fugiu do roteiro foi o fato de que a mulher entrou pela porta dos fundos na política institucional. Vejam que as deputadas, vereadoras e prefeitas da Paraíba (e do Brasil) são, com raras exceções, meras extensões dos interesses de seus maridos, país ou irmãos. Mas, elas tiveram conquistas fabulosas, como a de não mais precisarem adotar o sobrenome do marido após o casamento. É que antigamente os senhores cravavam no gado, nos escravos e em suas esposas a marca que carregavam, como símbolo de poder. O fato é que não adianta, hoje, parabenizar a mulher, apontando as qualidades dela, e passar o resto do ano desrespeitando-a em seus direitos. Eu mesmo, hoje, não vou dar parabéns para minha esposa e para minhas filhas. Eu vou, na verdade, reafirmar todo o respeito que tenho por elas.

Março/2016.

domingo, 28 de fevereiro de 2016




Convido a todos para o lançamento de meu livro "Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande – 1968/1972”, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB)

O lançamento será no dia 19 de março de 2016 (sábado), as 19 horas, na Livraria Nobel - Via Cultural Campina Grande, à Rua Irineu Joffily, nº 162, Centro, em frente ao antigo Cinema Babilônia.


Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento politico das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura militar e a relação delas com a democracia politica. Abaixo mais um pequeno trecho do livro, a título de aperitivo:


"Costuma-se dizer que a “direita” brasileira sempre foi conservadora e autoritária e que nunca se preocupou em ter uma prática política democrática. Isso é bem verdade, à medida que ela esteve a frente de quase todos os movimentos que redundaram na quebra da legalidade constitucional da história brasileira. Digo quase todos os movimentos porque, ao analisar a história política do Brasil no século XX, vejo que, não só a “direita”, mas também a “esquerda” estiveram envolvidas em vários acontecimentos pautados por atitudes autoritárias e antidemocráticas.
(...)
Ao contrário do que muitos pensam, não foi só a direita que organizou golpes, assaltos ao poder e “revoluções” armadas. A esquerda também o fazia, só que com objetivos e interesses diferentes. Enquanto a esquerda golpeava as instituições para impulsionar mudanças, a direita o fazia para impedi-las como, por exemplo, em Março de 1964. Muitas vezes, a esquerda não teve como um de seus objetivos centrais a consolidação da democracia política. A luta por melhorias de vida no campo social e econômico sempre foi o centro das atenções. É preciso atentar para o fato de que, em muitos momentos, por defender reformas em prol da sociedade, a esquerda aceitou quebrar a legalidade constitucional através de movimentos armados ou golpes de força, mesmo sabendo que, dependendo dos resultados, poderia ser duramente reprimida".



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido?


Muito em breve lançarei “Heróis de uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um Tempo Perdido? A atuação das organizações de esquerda em Campina Grande – 1968/1972”, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB). O lançamento será após o carnaval para seguir a tradição de que o ano só se inicia, de fato, após aqueles dias em que levamos tão a sério a arte de ser brasileiro. Este é meu primeiro livro, fruto das pesquisas que desenvolvo desde 1997, sobre o comportamento politico das organizações de esquerda que lutaram contra a ditadura militar e a relação delas com a democracia politica. Abaixo um pequeno trecho do livro, a título de aperitivo:



“Mas, será mesmo que os militantes das organizações revolucionárias, que reagiram armados à opressão imposta pela ditadura militar, foram tão impulsivos assim? Podemos aceitar passivamente que uma pessoa tenha deixado sua vida “legal”, para reagir às infâmias, unicamente pelo ímpeto revolucionário, ou pelos estímulos e incitamentos que a década de 1960 oferecia? Satisfaz chamar esses atores políticos de “aventureiros”? Será que não poderemos ter uma explicação política racional para as atitudes da época? Será que só poderemos tratá-los como aventureiros de um tempo perdido, “apenas no grau superlativo” como nos diria Charles Dickens? Ou então, para sermos condescendentes com a boa vontade deles, vamos chama-los de heróis de uma revolução anunciada, bem ao estilo das ideias de Lênin e Che Guevara que diziam caber ao comunista apressar o que é inexorável e inevitável? Aceitaremos a racionalização de que os tais atos heroicos eram irremissíveis, que a revolução iria acontecer de qualquer maneira? Ou seja, ela estava posta, era enunciada por algum tipo de força superior. Dessa forma, uma vez anunciada, caberia ao militante coloca-la em prática com seu heroísmo?”.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Quando eles cruzam o Rubicão – Parte III



É já é hora de explicar porque trato o processo de impeachment como golpe, considerando que ele é previsto e regulamentado na Constituição Federal. É que o impeachment só se justifica se houver o chamado crime de responsabilidade, i.e., as violações do dever legal cometidas por agentes políticos. Até aqui não se pode apontar, a oposição assume isso, crimes de responsabilidades no atual mandato de Dilma Rousseff. E é sempre bom lembrar que as tais pedaladas fiscais deixaram de existir quando o Congresso Nacional aprovou a nova meta fiscal. Se não há crime de responsabilidade, não pode haver impeachment, portanto as tentativas de se apear Dilma do seu cargo não passam de golpes com uma carapaça constitucional.


Para o jornalista Mário Magalhães, num artigo publicado no site UOL/Folha em 03 de dezembro, as alegações pró-impeachment desprezam a soberania popular ao negligenciarem o resultado das urnas de 2014. Gosto sempre de lembrar que o Senador Aécio Neves perdeu a eleição por uma exata diferença de 3.459.963 votos e que ele deixou de ser eleito presidente da República por ter perdido em seu próprio estado onde governou por dois mandatos consecutivos. Magalhães afirma claramente: “A Carta exige crime de responsabilidade para expulsar um presidente. Foi o que aconteceu com Collor. Inexiste prova ou indício de que Dilma seja ladra. Quem tem conta secreta na Suíça é o deputado que deu sinal verde para o impeachment. Com crime de responsabilidade, impeachment é legal. Sem, é golpe”.


A lamentar temos o fato que estamos sofrendo de uma paralisia institucional como a muito não se via. Não se governa e não se legisla, só se pensa em estratégias para se ganhar esse FLA X FLU cuja troféu é a faixa presidencial. Partidos e atores políticos mandaram às favas suas consciências e seus, poucos é bem verdade, escrúpulos. Agora se trata de ver quem leva a cadeira presidencial como troféu mesmo que as próximas eleições estejam logo ali, daqui a três anos. Mas, louvemos iniciativas em prol da manutenção da ordem politica e social. 


Dezesseis governadores assinaram a "Carta pela Legalidade" onde se colocam contra o processo de impeachment. O documento foi escrito pelo governador de Sergipe, Jackson Barreto, que é do mesmo PMDB que trama o fim do mandato de Dilma. Nele pode-se ler: "A história brasileira ressente-se das diversas rupturas autoritárias e golpes de estado que impediram a consolidação da nossa democracia". O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, um dos signatários da “Carta pela legalidade”, afirmou que “não está configurado atos da Presidente que possam ser tipificados como crime de responsabilidade”.


Tudo isso deve nos ensinar que nosso sistema politico democrático é ainda frágil e pouco republicano. Enquanto insistirmos em saídas de força para nossas crises e dilemas institucionais não seremos uma democracia consolidada. De uma vez por todas precisamos aprender a lidar com as incertezas do jogo democrático. Enquanto partidos e atores políticos agirem para reverter o resultado das urnas em “terceiros turnos”, abaixo de toda e qualquer suspeita, seguiremos sendo essa república bananeira que vive de formalismos democráticos, mas que só se sustenta mesmo com um conteúdo dos mais autoritários.

 

Quebrar a legalidade democrática para privilegiar projetos político-partidários não nos levará ao melhor termo. Estamos mesmo dispostos a pagar o preço alto pela quebra da legalidade democrática? Se esse impeachment vingar retroagiremos ao nosso passado ditatorial e nos distanciaremos do processo democrático que pensávamos próximo, quando as instituições politicas não sofreriam com os desvãos soturnos de personagens como esse Eduardo Cunha que bem poderia ter inspirado Chico Buarque em o “Hino de Duran” da Opera do Malandro: “Se tu falas muitas palavras sutis/ Se gostas de senhas sussurros ardis/ A lei tem ouvidos pra te delatar/ Nas pedras do teu próprio lar/ Se trazes no bolso a contravenção/ Muambas, baganas e nem um tostão/ A lei te vigia, bandido infeliz/ Com seus olhos de raios X”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Quando eles cruzam o Rubicão – Parte II

A presidente, contrariando os que a tomam como estulta, fez a leitura correta da situação. Pode parecer um paradoxo, mas Dilma viu algo de positivo no desvario oportunista de Cunha quando afirmou que “foi melhor assim, pois a indefinição que imobilizava o governo acabou”. É que finalmente ficou claro que não se pode esperar nada de bom de alguém que só tem a chantagem, a barganha e a voracidade por cargos como arma politica. O governo entendeu que se os deputados petistas votassem a favor de Cunha no Conselho de Ética num dia, ele se voltaria contra o governo no dia seguinte. Foi por isso que Rui Falcão pediu pela admissibilidade do processo. Afinal, o que esperar de quem acatou o pedido de impeachment apenas para retaliar o governo?


Cunha não é republicano. Ele vive num mundo pré-medieval, onde a “coisa pública” ainda não era utilizada. Cunha é um golpista cínico que só pensa em salvar seu mandato, seu status e o dinheiro que esbulhou dos cofres públicos. Ele não passa de um joguete nas mãos dos que jamais cruzariam o rubicão para se jactarem como heróis. Cunha será manuseado por seus pares e cúmplices, para fustigar Dilma e o PT, e quando não mais for útil será cuspido do Congresso Nacional como foi Severino Cavalcanti, por exemplo.


Dilma quer apressar o andamento do impeachment para ver se governa em águas menos revoltas e para estancar as articulações golpistas, revestidas de alguma legalidade e/ou legitimidade, que permeiam o ambiente contaminado pelo inconformismo antidemocrático dos que perderam a eleição de 2014. Mas, a imobilidade segue, pois o espírito cívico republicano sumiu de Brasília. A situação é a pior possível e só confirma a tese de Luis Fernando Veríssimo de que “no Brasil, o fundo do poço é tão somente uma etapa”.


Vejamos que se estabeleceu um dilema institucional. É que o governo não tem maioria no Congresso para governar e a oposição não possui maioria qualificada para dar célere prosseguimento ao golpe disfarçado de impeachment. No episódio da formação da Comissão, na Câmara dos Deputados, que analisará o pedido de impeachment se viu isso. A oposição teve 272 votos, mas precisa de 342 para aprovar o impedimento. A situação teve 199 votos quando precisa ter 172 para barrar o processo. Essa vantagem de 27 votos se esvai rapidamente num Congresso onde se parlamenta à base de chantagens, cinismos, ameaças, barganhas e toda sorte de comportamentos nada republicanos.

Como farsa não como tragédia, o vice-presidente Michel Temer também cruzou o rubicão ao criar o fato que declarou seu rompimento com a presidente Dilma. Ele a enviou uma carta lamuriada pelos interesses do PMDB que só enxerga cargos. O estadista, expert em constitucionalismo, que acreditávamos ser o vice-presidente sucumbiu a uma cantilena onde se regateia a atenção da presidente e se cita atos comezinhos da vida palaciana. Temer vem manobrando, pelos braços de Eduardo Cunha, a defenestração de Dilma seja pelo impeachment, seja pela renúncia forçada. A carta, instrumento de chacota nas redes sociais, queria provar uma fragilidade do vice-presidente que jamais foi real.


Temer está para Dilma assim como muitos dos que cercavam João Goulart em 1964- faziam parte do seu governo, eram seus mais diletos aliados, mas tramavam sua derrubada junto aos militares. O bloco civil golpista de 1964 tinha um pé na oposição e outro na situação tal qual o PMDB que governa e é oposição tudo ao mesmo tempo agora. Temer diz na tal carta que a "desconfiança (de Dilma em relação a ele e ao PMDB) é incompatível com o que fizemos para manter apoio ao seu governo". Como se Eduardo Cunha, Renan Calheiros e o baixo clero medicante de verbas e cargos fossem de outro mundo.


A Carta de Michel Temer é pateticamente mesquinha na direção do rompimento com Dilma. Temer não temeu a ridicularizarão a que se expôs, pois confessa na carta que tudo gira em torno de cargos, favores, homenagens e status. Subliminar ficou que Temer parece disposto a embarcar nas aventuras golpistas que se tramam no Congresso Nacional. Quem melhor definiu essa situação foi o jornalista Xico Sá em sua coluna semanal no site do Jornal El País: “O vice que versa em latim — de velha missa — quer reza. Ego inflamado na paquera com as sinhazinhas da Casa Grande e federações das indústrias, tentou inverter a cabeça da chapa mais de um ano depois das eleições. Tomou a pílula azul do golpismo”.

Continua amanhã...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quando eles cruzam o Rubicão – Parte I


Por volta de 50 a.C., Júlio César cruzou o rio Rubicão atrás de Pompeu descumprindo leis de Roma que proibiam que seus generais fizessem a travessia para que a sede do Império não fosse desguarnecida. A atitude foi heroica, mas temerária, pois ele pôs Roma em risco. Júlio César até marcou o fato com a frase “Alea jacta est” (a sorte está lançada). “Cruzar o Rubicão" passou a significar a tomada de uma decisão, que envolve riscos, sem que se possa voltar atrás.  Quando políticos cruzam o rubicão estam dando um grande salto.


O presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, cruzou o rubicão. Ele acolheu um dos pedidos de impeachment da Presidente Dilma, protocolados na Câmara por partidos: o PSDB à frente, o PMDB por trás. O ato “rubinesco” de Cunha não teve nada de heroico, não foi uma decisão cerebral, baseada em um cálculo considerando a relação custo/benefício de um ato de tal envergadura. Cunha, e seu exército de Brancaleones, atravessou o rubicão brasiliense devido a cavalares doses de cinismo e uma mórbida estultice que moldam essa figura que a politica do Brasil tão bem reproduz.



O poeta e dramaturgo Oscar Wilde afirmou que “o cínico sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”. Assim é Eduardo Cunha despido de valores republicanos, falso moralista hipócrita (que vê no caduco Estatuto da Família a obra de uma vida), arrecadador de propinas que deposita em faraônicas contas bancárias. Num artigo de 04 de dezembro o colunista da Folha de São Paulo, Marcos Gonçalves, chamou Cunha de “jihadista da direita corrupta, um patife entrincheirado no comando da Câmara”. Para permanecer na Presidente da Câmara dos Deputados Cunha terá ainda que cruzar um rubicão amazônico. Quando suas chantagens não mais surtiam efeito se atirou nas águas de um rio que ele não sabe onde, e se, tem pé suficiente para deixar sua cabeça acima do nível da água.


Eduardo Cunha acolheu o pedido de impeachment motivado (1) pela mensagem que o presidente nacional do PT, Rui Falcão, postou no Twitter: “Confio em que nossos deputados votem pela admissibilidade do processo”; (2) pelo anuncio dos deputados do PT, com assento no Conselho de Ética, de que votariam pela continuidade do processo contra ele; (3) pelo palpite de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedirá ao Supremo Tribunal Federal seu afastamento da presidência da Câmara. Cunha usava o impeachment contra a presidente como clara chantagem para preservar seu mandato depois que até a Ordem dos Congregados Marianos já sabiam de suas contas na Suíça e das peraltices de sua esposa na Europa e nos EUA.


Eduardo Cunha finge não saber que foi o PSOL e o Rede Sustentabilidade que entraram com uma representação contra ele no Conselho de Ética. Prefere achar que é tudo uma (SIC) “perseguição sórdida vinda do Palácio do Planalto”. Sim, interessa ao governo ver Cunha cada vez mais enredada na teia de embustes, veleidades, empáfias e estupidez por ele próprio tecida. Sim, o governo barganhou com Cunha ao propor que ele não acolhesse pedidos de impeachment em troca de sua defesa no Conselho de Ética. Mas, Cunha, chantagista de quatro costados, formado nos bastidores putrefatos do parlamento brasileiro, não aceitou o toma-lá-dá-cá porque deve favores a uma oposição pró-impeachment que contribuiu para que ele deixasse o baixo clero e se tornasse presidente da Câmara dos Deputados.


Mas, como já se disse, (SIC) “a chantagem é a arma dos fracassados”. O chantagista pensa ser forte pelo temor que causaria no chantageado. Mas, este pode ser o dono das ações se resolver revelar as verdades que dão lastro à chantagem. Cunha, ignorante contumaz, não entendeu isso. Deveria ouvir mais e melhor os que manuseiam os humores e quereres do governo, Lula, Michel Temer, Renan Calheiros, et reliqua. Já o PT, finalmente, tomou uma atitude consequente e resolveu medir forças com Cunha mesmo que tenha que entregar a cabeça da presidente Dilma.


O PT entendeu que precisa sobreviver, pois aí vêm 2016 trazendo as eleições municipais. Entendeu, também, que para acabar com o chantagista só mesmo lhe retirando o motivo da chantagem. Pareceu um salto no escuro, mas a ideia foi bem racionalizada. Ao decidir apoiar a cassação de Cunha, se viu livre de defender o indefensável. O PT está numa posição tão delicada que até aceita perder um de seus braços, que atende pelo nome de Dilma Rousseff, na esperança de recuperar o respaldo social que outrora era seu principal capital politico. Hoje, Dilma é refém do seu partido e depende dele tanto quanto tem que se submeter ao PMDB, o achacador-mor da República.


Continua amanhã...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ITARARÉ NOTÍCIAS 03 de Dezembro de 2015





Nesta entrevista, com os jornalistas Anchieta Araújo e Mônica
Victor no ITARARÉ NOTÍCIAS, analisei os últimos acontecimentos e desdobramentos da política nacional depois que o Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou um dos processos que pedem o impeachment da Presidente Dilma Rousseff.


Consideramos que Eduardo Cunha enfrenta um processo de cassação de
mandato no Conselho de Ética da Câmara Federal; discutimos os motivos (reais ou não) para o impeachment, o exacerbado nível de revanchismo de Cunha, que compromete o funcionamento das Instituições políticas, e o quanto é delicado o momento politico que vivemos. 


Ainda tratamos do papel do PT e do PMDB neste contexto e se a saída de Dilma da Presidência da República melhoraria ou pioraria a situação do país.


Minha lista de blogs

Pesquisar este blog

Arquivo do blog


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Translate

Um dia qualquer numa sala de aula qualquer

Um dia qualquer numa sala de aula qualquer

PROFESSOR ANTI FASCISTA, PELA LIBERDADE E PELA IGUALDADE.

PROFESSOR ANTI FASCISTA, PELA LIBERDADE E PELA IGUALDADE.

FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA

FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA
AMACORD. (Itália, 1973). Diretor: Federico Fellini

Seguidores

Powered By Blogger