sexta-feira, 14 de novembro de 2014

VOSSA EXCELÊNCIA NÃO É DEUS.

Nos EUA, quando um cidadão quer se impor a outro ou mesmo sobre uma instituição, pode ser um policial, ele pergunta: “Quem você pensa que é?”. A continuação da pergunta é: “... para se dirigir a mim dessa maneira”. No Brasil, quando se que fazer valer o poder econômico e/ou politico logo se pergunta: “Você sabe com quem está falando?”. Pode-se, também, usar as expressões: “Onde você pensa que está?”; “Recolha-se a sua insignificância”; ou “Vê se te enxerga”. Tanto na terra do Tio Sam como na do Zé Carioca essas expressões servem para delimitar as fronteiras entre as classes sociais. Elas são arrogantes, autoritárias e reforçam, em nós, a ideia de que a igualdade existe, mas apenas entre os iguais.

Porém, existe uma diferença. Quando um norte-americano pronuncia o “quem você pensa que é?” está se ancorando naquilo que amealhou fruto do seu estudo e do seu trabalho. É uma questão de mérito, presunçosa e soberba, mas de mérito. É que nos EUA impera a ideia do “do it yourself”, é o “faça você mesmo”. Os americanos acreditam na ideia de que é você que tem que se fazer a si mesmo. Para eles importa menos a origem e bem mais o que a pessoa fez, e como fez, para ser o que é. Por causa de sua formação liberal, anglicana, individualista, onde o trabalho é a chave para o sucesso, a sociedade norte-americana valoriza ao extremo, por exemplo, a história do imigrante que saiu da Europa e foi “fazer a América”.

Já no Brasil, impera a instituição informal do “você sabe com quem está falando?” porque nossa tradição é escravocrata. Herdamos da nobreza portuguesa essa mania estulta de viver dos títulos familiares e da riqueza deixada pelos nossos pais e avós. No Brasil, trabalhar desabonava a pessoa. A labuta foi sempre uma coisa das classes subalternas. O que fazia o nobre brasileiro se diferenciar do escravo e do pobre homem livre era o fato de não trabalhar, de viver de rendas e do sobrenome pomposo. Fomos acostumados a ver o trabalho como um enorme e pesado fardo. É por isso que a elite não dizia “quem você pensa que é?”,  pois o titulo que dispunha foi herdado. Assim, preferia dizer o “você sabe com quem está falando?”, apelando para o rico sobrenome.

Essa é nossa cultura politica. O “você sabe com quem está falando?” (e suas variantes) é, como afirma o antropólogo Roberto DaMatta, um “rito de autoridade” e é tão brasileiro como o carnaval, o seu simétrico inverso. Quando alguém usa desse expediente está querendo fazer a demarcação radical, e autoritária, das posições sociais, independente se elas existem de fato ou se são fruto das aparências que tanto gostamos de manter e, claro, demonstrar. O “você sabe com quem está falando?” mostra como ainda somos uma sociedade estratificada, desigual e preconceituosa. A única vantagem é que, a cada vez que é dito, faz cair por terra à ideia de que vivemos numa democracia racial e social.
 
Roberto DaMatta diz que ele “subverte nosso orgulho da intimidade, da suposta ausência de fronteiras e revela hierarquias mascaradas pelo carnaval, pelo futebol, pela praia”. Nosso mais grave problema é gostarmos de pensar que somos iguais em tudo. Achamos que vivemos democraticamente, sob o esplendor desse sol tropical, desde que não nos venha um juiz, como o João Carlos de Souza Correa, dar voz de prisão para a agente de trânsito Luciana Silva Tamburini por ela ter dito que “juiz não é Deus”.  Em 2011, Luciana Silva atuava em uma blitz, na zona sul do Rio de Janeiro, quando teve o azar de parar o juiz João Carlos que dirigia, embriagado e sem carteira de habilitação, um carro sem placas e sem documentos.

O juiz não aceitou que seu carro fosse rebocado, deu voz de prisão a agente de trânsito e chamou a Polícia Militar para prendê-la. Não sem antes, claro, perguntar se a agente sabia com quem estava falando ao levantar sua reluzente carteira de juiz. O caso foi parar na justiça e, pasmem, a agente Luciana Silva foi condenada a pagar uma indenização de R$ 5.000 ao juiz João Carlos. Na decisão judicial, o relator do processo, desembargador José Carlos Paes, considerou que Luciana agiu com abuso de poder. Segundo o desembargador, ao dizer que João Carlos não é Deus, e sim um juiz, a agente Luciana zombou do cargo ocupado por ele. Luciana fez a mãe de todas as constatações, irritante e ridiculamente óbvia: o juiz João Carlos de Souza não é Deus. 

 
Vinha o Juiz, num dia de sol, embriagado, dirigindo seu possante, se sentido um deus, quando a agente de trânsito, vinda das classes subalternas que trabalham, o parou para lembra-lo que ele não passa de um ser humano. Vejam como somos diferenciados. Luciana Silva alegou não poder pagar a multa que lhe foi imposta, pois recebe R$ 3.700 por mês. Várias pessoas, sem titulo nobre como Luciana, fizeram, pela internet, a famosa “vaquinha” e recolheram o dinheiro que o juiz-deus já deve ter recebido. O pior de tudo foi à decisão do tribunal que favoreceu o juiz João Carlos. Seus pares, desembargadores, fizeram um “você sabe com quem está falando?” coletivo. Foi um recado: “não mexa conosco”. No Brasil, do “vê se te enxerga”, é assim mesmo, questionou a autoridade do andar de cima, é logo punido.

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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.

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Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).