quarta-feira, 13 de maio de 2020

O que um vírus pode nos ensinar?


O COVID 19 nos faz olhar para frente na expectativa de como será nossa vida “quando tudo isso passar”. Mas, o cacoete do historiador é olhar para trás em busca de respostas. Me volto questionando como e por que aprendemos tão pouco com Influenza, Ebola, H1N1, Gripe Aviária, SARS. Lembro que não é próprio de nossa espécie aprender com seus erros. A 2ª Guerra Mundial ainda terminava e os Aliados só pensavam nas guerras futuras, por isso Einstein disse: “não sei como será a 3ª guerra, mas a 4ª será com paus e pedras”. 

O nosso paradoxo é saber como ir até a lua, como construir um artefato que mata milhares ao mesmo tempo, mas não termos ciência precisa do que fazer para que nosso frágil sistema imunológico resista aos vírus e bactérias com os quais dividimos o meio ambiente que supomos ser só nosso. Transplantamos um órgão de um corpo humano para outro e nos quedamos diante de um vírus que já era nosso conhecido. Por que, em geral, demoramos tanto para responder aos ataques desses vírus? Não estamos preparados para o COVID 19, como não estávamos para o vírus Influenza da Gripe Espanhola. 

Miseravelmente custamos agir no combater a um vírus em constante mutação e que mata no atacado. O que chegou aos EUA já é diferente do seu original de Wuhan, na China. Aliás, o COVID 19 é peçonhento nos EUA porque seu povo tem um sistema imunológico frágil. Eles têm problemas respiratórios crônicos advindos de seus péssimos hábitos alimentares, sem contar um sistema de saúde privado onde o Estado não se preocupa com o bem estar das pessoas. A pandemia se estabeleceu como se não tivéssemos ameaças de uma guerra nuclear mundial, aquecimento global, deterioração da democracia e (re)ascensão do fascismo, praga do neoliberalismo, desigualdades sociais, etc, etc, etc.  

A pandemia frearia o culto ao estado mínimo e a autorregulamentação da economia que só o deus mercado teria? Já se fala numa reedição do “New Deal”, quando os donos do capital imploram ao Estado para que os salve da bancarrota. É que governos, suas instituições, e sistemas públicos de saúde é que devem enfrentar uma pandemia. Pois, por definição, o capital privado cuida dos CNPJs e o Estado dos CPFs. Falo, claro, de nações civilizadas onde o COVID 19 é uma pandemia, não uma “gripezinha”. O fato é que o vírus se alastra num mundo capitalista e, como sabemos, lucrar é o oposto de salvar vidas. 

Urge entender o que nos faz ficar em casa. Fugir da ignorância que nos assola é primordial. A visão falso moralista da pandemia não nos serve, pois ela não existe “por que Deus quer” ou por ser “uma vingança da natureza”, apesar de que parece ser isso, também. O meio ambiente costuma nos mandar recados, em forma de tragédias naturais, que em geral não entendemos. A natureza tem lá suas formas de nos fazer ver como nosso comportamento é equivocado. Parece mesmo que ela quis tirar “férias” do dito “homo sapiens” e mandou este vírus, que nos obriga a ficar em casa, enquanto ela se desintoxica de nós.  

Saberemos tirar lições disso tudo? Mudaremos quando soubermos como não morrer
com este vírus? Nos comportaremos melhor em relação ao meio ambiente? Ou será que seguiremos insanos destruindo o que não sabemos criar? Sou um realista incorrigível, mas por força desse destino” (como diria meu herói Belchior) estou numa onda de pessimismos de causar inveja a hiena Hardy(1), então não farei maiores expectativas. Acho mesmo que voltaremos a viver como se não houvesse amanhã, até que o próximo vírus venha nos encontrar para mais um acerto de contas. 

(1) Lippy the lion & Hardy Har Har era um dos desenhos animados do programa "The Hanna-Barbera New Cartoon Series", que fazia sucesso entre as décadas de 1960 e 1980. Lippy era um leão sempre acompanhado da hiena Hardy, pessimista, angustiada, descrente do futuro da humanidade.



Post Scriputm: Finalizo esta coluna vendo na TV Cultural o Diretor do Hospital das Clínicas de São Paulo, médico Arnaldo Lichtenstein, dizer que quando não se defende o isolamento social e se mantém o comércio e a indústria abertos, sob o argumento (oportunista) de que a economia não pode parar, está se condenando os mais vulneráveis, idosos e doentes, e que isso é perverso. Quando não se pensa nos mais vulneráveis, que eles podem morrer, e se valoriza apenas os "jovens atléticos" se está na verdade defendendo a EUGENIA. A ideia de que "alguns vão morrer, e daí?" é baseada na "eugênica" ideia nazista de que só os fortes devem viver.  

A extrema direita já louva seu “mito” com a saudação nazista e o governo usa palavras de ordem da Alemanha nazista ("trabalho liberta"; "... acima de todos, Deus acima de tudo), então adotar a eugenia é um passo largo rumo ao breu total que o fascismo oferece. Os fascistas estão acampando, armados, em Brasília bem próximos ao Congresso Nacional e ao STF, mas e daí? Vamos esperar os corpos dos primeiros esquerdistas, espalhados pelas ruas, crivados de balas, para nos espantarmos ou vamos começar, pelo menos, a nos indignarmos já, agora?

terça-feira, 21 de abril de 2020

40 FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA PARA ASSISTIR NA QUARENTENA


 

Esta é apenas mais uma seleção de filmes. Como toda seleção não deixa de ser, para o bem e para o mal, arbitrária, podemos tratá-la apenas como sugestões de filmes para se ver durante o isolamento social e/ou na quarentena.

Coloquei aqui alguns dos filmes que considero fundamentais para minha formação pessoal, emocional, profissional, política, ideológica. É por isso que são os “40 filmes que fizeram minha cabeça”.


01 - Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)
02 - Os Canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961)
03 - Trilogia do “Homem sem Nome” de Sérgio Leone (Por um punhado de dólares - 1964; Por uns dólares a mais - 1965; Três homens em conflito - 1966)
04 - Amarcord (Federico Fellini, 1973)
05 - Era uma vez no Oeste (Sérgio Leone, 1968)

06 - Trilogia de Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão I, 1972; O Poderoso Chefão II, 1974; O Poderoso Chefão III, 1990)
07 - 2001, uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968)
08 - Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979)
09 - PsicosE (Alfred Hitchcock, 1960)
10 - Cidadão Kane (Orson Welles, 1941)
11 - Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
12 - Topázio (Alfred Hitchcock, 1969)
13 - Lawrence da Arábia (David Lean, 1962)
14 - Jango (Silvio Tendler, 1984)
15 - Casablanca (Michael Curtiz, 1942)

16 - Forrest Gump: o contador de história (Robert Zemeckis, 1994)
17 - Butch Cassidy and the Sundance Kid (George Roy Hill, 1969)
18 - O Grande Ditador (Charlie Chaplin, 1940)
19 - Eles não usam Black-Tie (Leon Hirszman, 1981
20 - Os Sete Samurais (Akira Kurosaw, 1954)
21 - O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998)
22 - Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990)
23 - O Desafio das Águias (Brian G. Hutton, 1968)
24 - El Cid (Anthony Mann, 1961)
25 - Estado de Sítio (Costa-Gavras, 1972)
26 - O Franco atirador (Michael Cimino, 1978)
27 - Prá Frente Brasil (Roberto Farias, 1982)
28 - A Excêntrica Família de Antônia (Marleen Gorris, 1995)
29 - Os Doze Condenados (Robert Aldrich, 1967)
30 - Cantando na Chuva (Gene Kelly & Stanley Donen, 1952)
31 - Doze Homens e uma Sentença (Sidney Lumet,1957)
32 - Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963)
33 - A Ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957)
34 - Fuga de Alcatraz (Don Siegel, 1979)
35 - Sete Homens e um destino (John Sturges, 1960)
36 - O Encouraçado Potemkin (Serguei Eisenstein, 1925)
37 - Metrópolis (Fritz Lang, 1927)
38 - O Homem Elefante (David Lynch, 1980)
39 - Bem -Hur (William Wyler, 1959)
40 - Doutor Jivago (David Lean, 1965)





segunda-feira, 13 de abril de 2020

“LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”


No Brasil vale a regra do “nada é tão ruim que não possa piorar”. Hoje ela foi elevada a potência máxima com Moraes Moreira indo morar no céu dos grandes músicos. Belchior deve ter ido receber Moraes na entrada desse céu que não é para qualquer um. Renato Russo já dizia "é tão estranho, os bons morrem cedo".

Fui atrás dos meus dois vinis com aquela batida única, tão típica dos Novos Baianos, com a energia que só Moraes Moreira tinha. “Bazar Brasileiro” (Ariola, 1980) traz um Moraes Moreira já madura, com composições e arranjos bem feitos resultados dos anos em cima dos trios elétricos baianos. E tenho uma raridade, em vinil claro. Trata-se de Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira ao vivo no XV Festival de Montreux (Ariola, 1981). Moraes canta "Bateu no Paladar", "Davililença" e "Forró do ABC" - clássicos da MPB raiz.

Moraes é do tempo em que a gente tirava o "pezinho do chão e jogava a mãozinha para cima" sem precisar que o cantor pedisse, do Trio Elétrico de verdade, sem cordão de isolamento nem abadá. Moraes Moreira vem lá de trás, do tempo do NOVOS BAIANOS com Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Paulino Boca de Cantor, Galvão, Dadi, etc. Foram eles que pegaram a Tropicália, Bossa Nova, Rock, Samba, Forró, além do psicodelismo, e juntaram tudo num pacote conhecido como a música dos Novos Baianos. Quer entender bem isso? Ouça já “Acabou Chorare”. Isso tudo fez, no melhor dos sentidos, a minha cabeça.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA

Estamos na 3ª semana de isolamento social e já é hora de lermos sobre o que nos faz ficar em casa, pois uma de nossa tarefas é fugir da ignorância que nos assola. "CORONAVIRUS E A LUTA DE CLASSES" (2020), Editora "Terra sem Amos", é uma tradução de Alain Badiou para a obra “Sobre la situacion epidêmica” e traz artigos úteis para fugirmos de uma visão falso moralista da crise do Coronavirus.

Artigos de David Harvey e Slavoj Žižizek, por exemplo, são úteis para nos libertarmos de coisas como: “só está acontecendo por que Deus quer” ou “isso é uma vingança da natureza sobre os seres humanos”, apesar de que em certo sentido parece mesmo ser isso, também.

Os autores não tratam de casualidades e explicam, dentre outras coisas, qual classe social sofre mais com o vírus e qual chega até a se beneficiar com e dele. Em “Coronavírus: a militarização das crises”, Raúl Zibechi fala da onda de autoritarismo mundo afora, com governos inimigos da democracia, porém eleitos, dizendo que precisam endurecer seus regimes para combaterem o vírus.

Em “A crise do Coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo”, Mike Davis nos dá a dica do livro “The Hot Zone” (1995) de Richard Preston, publicado no Brasil com o título “A ZONA QUENTE” pela Editora Rocco. Preston fala de como de uma caverna na África Central, empestada de morcegos, surgiu o “demônio exterminador”, ou seja, o Ebola. 

O livro de Preston deu origem a série “Zona Quente”, produzida por Ridley Scott, diretor do clássico da ficção científica “Blade Runner - O caçador de androides” de 1982. Essa minissérie foi exibida no canal National Geographic em 2019. 

E já que o assunto é este, segue dicas de filmes que tratam de pandemias como o Coronavírus.

“PANDEMIA” (Netflix, 2020) - O papel de médicos e cientistas que buscam a solução dos grandes surtos.

“CONTÁGIO” (de Steven Soderbergh, 2011) - Trata da proliferação de um vírus transmissível pelo ar. A epidemia se espalha e médicos buscam encontrar a cura enquanto o pânico avança mais rápido que o vírus, desmontando a sociedade.

“FLU” (Netflix, 2013) - Explora as consequências para uma cidade, na Coréia do Sul, obrigada a entrar em quarentena por causa de uma doença letal.

sábado, 4 de abril de 2020

O Golpe de Bonaparte XVII

À pergunta se vamos ou não ter golpe, responderia sim e não, pois podemos ter mais um golpe de Estado a qualquer hora e podemos nem mais precisar de um, posto que há muito abrimos mão da democracia que para nós foi “sempre um lamentável mal entendido”, como diria Sérgio Buarque de Holanda. Discordo dos que dizem ser  improvável, mas não impossível que tenhamos um golpe em 2020, pois numa república bananeira, empestada de vírus e vermes, golpes são prováveis e possíveis como o sol parido a cada novo dia.

Em 1992, quando se soube que Collor sofreria o impeachment, a pergunta que se fazia era se teríamos um golpe. Só depois é que se pensava se Itamar Franco, o vice, assumiria. Às vésperas da posse de Lula para seu 1º mandato era corrente a dúvida de se os militares o deixariam subir a rampa do Planalto. Nos governos de Dilma Rousseff a pergunta não era se os militares a deporiam, mas quando. E vejam que nem falo do ritual golpista, no século XX, regiamente cumprido com ou sem eleições. Fôssemos uma república assentada nos princípios do federalismo e da democracia e não faríamos essas perguntas.

Quando um inimigo da democracia, adulador de torturadores, ocupa o Palácio do Planalto e, ensandecido, tenta instituir sua própria ditadura, cabe mesmo perguntar se teremos um golpe. Há uns dias um bajulante José Luiz Datena perguntou a um cáustico Bolsonaro se 
ele pretendia dar um golpe e fechar o país. A resposta foi quase um sim: “Quem quer dar golpe jamais vai falar que quer dar”. Se vivemos em uma democracia porque se pergunta tanto sobre golpes? O presidente falastrão só não deu um golpe de Estado ainda porque os militares parecem só aceitar subir nos tanques se for para depô-lo.

Postei no Twitter, em tom de pilhéria, que temos que declarar Bolsonaro incapacitado e tirá-lo do governo antes que babe, rasgue dinheiro e se auto nomeie Napoleão Bonaparte XVII. Pelo andar do tanque de guerra, digo da carruagem, o deboche pode ser real, pois segundo a jornalista Thaís Oyama, autora do livro Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, o antipresidente está à beira de um ataque de nervos. Oyama diz que ele chega a chorar no expediente, afirmando que mundo está contra ele.

A Folha de São Paulo pediu a psicanalistas uma análise do atormentado presidente e o resultado é apavorante. Os especialistas apontam, numa personalidade teatral e histérica, questões como insegurança, lógica paranoica, messiânica e delirante, narcisismo desmedido, agressividade, além do sentimento de onipotência e da ideia do “eu sozinho” contra o mundo. Assim temos um governante “psicopatologicamente acometido” e eu acrescentaria a esse “diagnóstico” uma perversidade de chefe de campo de concentração. Isso tudo agrava a situação política e soma mais um argumento ao fato de que Bolsonaro não reúne mais as condições objetivas para seguir na presidência.

Com os feitos e defeitos do presidentizinho (para quem coronavirus é uma “gripezinha”), quem neste país réprobo já não perguntou aonde andam os militares que não dão um golpe e botam essa delinquente da lei, da ordem e do bom senso na rua? O caro leitor se assustou em desejar um golpe de Estado para que, finalmente, nos livremos do fascista celerado e seus filhos ardilosos? Desculpe-me ser o portador da má notícia, mas é que, para nós, querer golpe é como o desejo de comer chocolate, todo mundo tem ou vai ter.

Sim, este facínora, que não poderia ser eleito, já deveria ter sido chutado da presidência. O conglomerado golpista de sempre não pestanejou em depor João Goulart e Dilma Rousseff do poder, por que, agora, se revestiria de tantos pruridos aparentemente democráticos? O que ainda parece sustentar o caviloso na presidência é o fato de Mourão não inspirar credibilidades na caserna mesmo com essa moderação que até os pombos candangos sabem ser falsa. Mourão é mesmo da tradição da linha dura do Exército. Quem não lembra dele em 2015 pedindo intervenção militar para depor Dilma? Sem contar que o alto comando das Forças Armadas, que gosta do poder mas detesta governar, não quer assumir o país - é que o Exército ainda lida com o ônus de ter governado nos 21 anos da ditadura.

Na Ordem do Dia Alusiva ao 31 de Março de 1964, os chefes das Forças Armadas dizem que cumprem “sua missão constitucional e estão submetidos ao regramento democrático”. Paradoxalmente, ao tempo em que fazem lembrar de um golpe de Estado, falam em defender a democracia. Os militares dão uma no cravo, ao se colocarem como guardiões da democracia que nunca tivemos, e outra na ferradura, quando se põem a postos para qualquer eventualidade que passe ao largo dos procedimentos democráticos.

Na verdade, os militares preferem mesmo é malhar a ferradura, pois quando o inominável presidente convocou seus apoiadores para irem às ruas, no 15 de março, pedirem o fechamento do Congresso Nacional, o Clube Militar do Exército publicou um comunicado anunciando o apoio da instituição ao ato, numa clara demonstração que quando os militares se mobilizam politicamente não é para defender a democracia. A Mafalda do Quino já diria que não se salva a democracia com golpes.

Concordo com Priscila Perazzo, doutora em História Social pela USP, que diz que os “ideais autoritários refloresceram (...) a população legitima um governo forte, armado, opressor, de ideias únicas impostas. A ditadura já está na população. Agora só falta ser implantada no governo”. A prova disso é que desde 2013 não há uma única manifestação, dessas onde se usa a liberdade de expressão para pedir o fim da democracia, onde não se queira intervenções militares e a instituição de uma ditadura. No surto antidemocrático do 15 de março ficou evidente que parte da sociedade até aceita ficar sem o seu Hitler de meia tigela, mas não abre mão de um retorno a uma ditadura militar.

O conglomerado golpista receia que numa possível renúncia/deposição do aviltador mor da república, a esquerda possa assumir após uma futura eleição. Entre o Bozo surtado e Lula fazendo reformas, para diminuir a desigualdade social, com quem você acha que a elite fica? A direita se pergunta com que roupa irá na próxima eleição, se é que teremos uma, pois seus quadros foram todos detonados, Aécio Neves que o diga. Assim o conglomerado irá mesmo é de golpe e ditadura, afinal é para isso mesmo que ele existe.

Finalizo esta coluna lendo matéria da Revista FORUM dando conta que o La Reppublica fala em golpe branco no Brasil e confirma Braga Netto como “presidente operacional” no lugar de Bolsonaro. O jornal italiano fala de um “suposto golpe de estado” e que o chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, seria o “presidente operacional” após acordo entre ministros, comandantes militares e o próprio Bolsonaro para que o mesmo se afaste das decisões sobre tudo que se relacione a pandemia do Coronavírus. Braga Netto seria uma espécie de primeiro ministro militarizado. Duvido que Bolsonaro tenha aceitado de bom grado passar adiante suas funções, se o fez foi premido por algum tipo de força exercida sobre ele, ou seja, ele foi golpeado! Presidente Operacional seria o eufemismo de quem vai de fato, não de direito, desempenhar as funções de governante.


Segundo o La Reppublica, ele “terá a direção e centralização de toda a administração do governo enquanto durar a crise do coronavírus com o título de Chefe do Estado Maior do Planalto”. Dito de outra forma, Braga Netto seria uma espécie de presidente de uma junta militarizada que governaria a partir de uma intervenção silenciosa. Neste caso, Bolsonaro figuraria num misto de rainha da Inglaterra com bobo da corte.
A se confirmar a informação, minha resposta para a pergunta se teríamos ou não um golpe está dada. Os militares parecem ter encontrado a solução para o mega impasse gerado (1) pela recusa de Bolsonaro em renunciar, diante do fato de que ele não tem mais condições legais nem legitimidade para governar; (2) pelo fato de Mourão não ser bem visto e nem aceito; (3) pelas impossibilidades de se mover um processo de impeachment neste momento, por causa da crise do coronavirus; (4) por causa de o alto comando das Forças Armadas não querer mais um Golpe de Estado em seu currículo intervencionista. Um “golpe branco” solucionaria todo esse impasse, mas só por enquanto. A médio e longo prazo ele só serve para que fiquemos cada vez mais longe da democracia.



PS: A cientista política Anna Lührmann é vice-diretora do Instituto de Variações da Democracia da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. O V-DEM afere a qualidade da democracia no mundo. À Folha de São Paulo, Lührmann diz que a crise do coronavírus vai acelerar onda autoritária no mundo. Suas conclusões são pavorosas para quem gosta da liberdade. O último levantamento do V-DEM mostra que em 179 países, 87 são democráticos e 92 são. A cientista política fala que num quadro de crise econômica, com recessão, “pode aumentar o apoio a líderes autoritários e populistas”. Ela cita Hungria e Polônia, onde governos inimigos da democracia, porém eleitos, aceleram a onda de autoritarismo se valendo do argumento de que é preciso combater o coronavírus. As democracias consolidadas têm instrumentos, como o “Estado de Emergência”, para lidar com crises, catástrofes naturais ou não e pademias. Já as ditaduras e arremedos de democracia se valem desses momentos para acelerar a centralização do poder, a neutralização da oposição e da imprensa, além de lançar mão de coisas como censura.

terça-feira, 31 de março de 2020

Da Série: "LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA"


Em "O PAPA DE HITLER - A HISTÓRIA SECRETA DE PIO XII" de John Cornwell, Editora Imago (2000), temos um relato sobre Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, que reinou de 1939 a 1958, contribuindo para que o 3º Reich se alastrasse pela Europa e praticasse a "Solução Final".

A obra surgiu do desafio dos alunos de Cornwell que queriam que ele provasse ser injusto o epiteto de “Papa de Hitler” dado a Pio XII. O autor lançou-se em uma pesquisa, pois não acreditava que alguém, em nome de Deus, pudesse fazer coisas tão terríveis. O resultado da salutar provocação é um livro embasado em documentos que faz o leitor acreditar que Pacelli era, sim, o “Papa de Hitler”.


Pio XII fez acordos com Hitler que ajudou a alastrar o poderio da Alemanha nazista pela Europa e ofereceu facilidades para que judeus fossem levados ao extermínio. Ele tinha especial predileção pelas ditaduras fascistas e via Hitler como um enviado de Deus para acabar com o comunismo. Ele mesmo sabia que alimentava um monstro, mesmo assim foi em frente em sua cruzada moralista, tal qual fizeram os cristãos fundamentalistas brasileiros ao elegerem o anticristo que coloca o “Brasil e Deus acima de todos de tudo”.


Este livro mostra o triste papel da Santa Sé nos terríveis anos da 2ª guerra mundial. Relata, por exemplo, a criação das “linhas de ratos” que facilitavam a fuga de criminosos de guerra nazistas da Europa para a América do Sul. Enquanto lia o “Papa de Hitler”, descobria os crimes de Pacelli e dava graças a Deus ter deixado o catolicismo quando ainda era adolescente.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Mas, afinal o que é um golpe de Estado?



O golpe civil-militar de 1964 faz 56 anos, mesmo que sua ditadura tenha acabado a 35 anos. Acabou? Dilma Rousseff foi deposta por um golpe de Estado que fez erigir das urnas um governo inimigo da democracia. Isso não me autoriza afirmar que vivemos numa ditadura, mas daí dizer que este sistema de procedimentos democráticos leves, ancorados em entulhos autoritários, é algo bom vai longa distância. Mas, afinal, o que é um golpe de Estado?

Um bom conceito de golpe de Estado tem que apontar os protagonistas da articulação e da ação golpista, os meios excepcionais utilizados e os fins que o justificariam. É que golpes são a manifestação da estrutura que não aceita o resultado das urnas. Isso ocorreu em 2016: os perdedores de 2014 recorreram a um golpe para desfazer o resultado das urnas.

O cientista político Edward Luttwak diz que: “Golpes podem operar na área externa do governo, mas dentro do Estado”. Os golpes não são dados por alienígenas inimigos da democracia, mas por agentes do Estado para depor um governo legal e/ou legitimo. Foi assim que se deu o golpe no Chile em 1973. Hoje, eles são promovidos pelos poderes legislativo e judiciário. Em 2016, um conglomerado golpista apeou do poder uma presidenta eleita. Assim como em 1964 que militares, respaldados no Congresso e no STF, com apoio de parte da população e dos EUA, derrubaram um presidente eleito.

Não tivemos golpes “puro sangue”, pois eles contam sempre com o apoio e articulação de setores da sociedade civil e com a força das armas militares. Em geral, civis começam as articulações para só então baterem às portas dos quarteis. Gostamos de supor que golpes são dados por enfurecidos militares insubordinados. Não, eles são lançados pela elite política e empresarial do país. São os “controladores do poder” que decidem quem e como governa. 


O golpe de 1964 se deu pela tensão entre democracia e mudanças sociais. A direita acreditava que pela democracia se chegaria às mudanças, por isso o golpe. A esquerda defendia que só se faz mudanças pondo fim a democracia. O confronto destruiu as instituições e ficamos com democracia inexistente e nenhuma reforma social. O que a tragédia de 1964 e a farsa de 2016 têm em comum é a descrença que nutrimos da democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas.


terça-feira, 24 de março de 2020

Da Série: "LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM MINHA CABEÇA"


Em tempos de isolamento social, por causa da PANDEMIA, uma dica de leitura que vem bem a calhar é "A PESTE" de Albert Camus, numa tradução de Graciliano Ramos. Este livro foi publicado no Brasil pela histórica LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA em 1973.

A cidade de Oran, uma possessão francesa na costa da Argélia, norte da África, é atingida pela peste bubônica. De repente, ratos começam a morrer aos montes. Rapidamente, a população da cidade é atingida. Camus fala como é viver numa cidade sitiada pela peste. 
São vários personagens, cada um com suas Idiossincrasias, vivendo as angústias de um tempo difícil. É o editor quem diz: “Na cidade sitiada pela peste, pequeno mundo fechado em si mesmo com um sem número de problemas pessoais associados ou paralelos aos problemas de toda a coletividade...”. 
É impossível, não associar Oran, conflagrada pela peste, com o mundo em que vivemos sitiado pelos dois vírus mais perigosos dos dias de hoje: o coronavirus e a ignorância.


Na mesma direção de “A PESTE”(de como reagimos às tragédias sociais e pessoais) temos Franz Kafka, um dos escritores mais relevantes do século XX, nascido na Tchecoslováquia em 1883, mas que escrevia em alemã, talvez porque pudesse via a concordar com Caetano Veloso que diz na música “Língua”: “Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção, está provado que só é possível filosofar em alemão”. 
Sugiro, então, a coletânea, lançada pelo editora Civilização Brasileira, em 1969, com as três mais importantes histórias de Kafka, onde realismo e absurdo são os dois lados de uma mesma moeda para que se explore a atormentada alma humana.

“METAMORFOSE” - A história apavorante de Gregor Samsa, que acorda transformado em um inseto, onde Kafka usa a metáfora do homem sendo “insetizado” para tratar dos nossos maiores medos e dilemas.

“O ARTISTA DA FOME” - Fala de um homem que vive de jejuar e que pretende bater seu próprio recorde de fome. Mas, porque num mundo onde tanta gente passa fome, devido as desigualdades sociais, alguém seria um faminto por opção?

“NA COLÔNIA PENAL” - Num lugar terrível, onde os condenados são submetidos a um aparelho de tortura que não poupa ninguém, inclusive o homem que o inventou, Kafka fala da opressão a que todos nós podemos ser submetidos.


Outra dica interessante é “BANDIDOS” de Eric Hobsbawm lançado no Brasil pela Editora Paz e Terra. Num tempo em que é comum se achar que “bandido bom, é bandido morto”, Hobsbawm nos mostra como tratar o banditismo numa perspectiva social. 
Aqui, ele é um campo de pesquisa para nós, historiadores, com uma perspectiva que “o coloca no contexto do poder, da política, e do controle por parte dos governos e do Estado”. 
Neste livro, Lampião e os cangaceiros, Pancho Villa e os revolucionários, Robin Hood e os que “tiravam dos ricos para dar aos pobres”, além dos despossuídos de sempre, não são bandidos comuns, são rebeldes em potencial. Eles são o “elemento social que, estando fora do alcance do poder e sendo ele mesmo detentor de poder, resiste a obedecer.


A dica “bônus track” é o disco “FRANCISCO” de Chico Buarque de 1987, lançado
pela RCA. Hoje, é o aniversário de minhas filhas, que nasceram no mesmo dia, mas em anos diferentes, e eu acordei cantando a música “As minhas meninas” que é desse disco, pensando que as minhas meninas, não são minhas. 
Chico teve três filhas e eu tive duas. Sempre convivemos com muitas mulheres e as coincidências param por aqui, pois ele dedicou atenção especial em sua obra ao
universo feminino, escrevendo músicas em que as mulheres falam o que sentem. “AS MINHAS MENINAS” é a constatação que “As meninas são minhas / Só minhas na minha ilusão”.
Neste disco tem uma das mais belas canções de Chico Buarque que é “LUDO REAL”, feita em parceria com Vinicius Cantuária, pois Chico não é “apenas” o melhor compositor da MPB, é também grande músico.

Vale prestar atenção na letra da música “O VELHO FRANCISCO” que fala desse nosso passado inglório de escravidão e monarquia: “Fui eu mesmo alforriado/ Pela mão do Imperador / Tive terra, arado / Cavalo e brida / Vida veio e me levou”.
Muita interessante, é “BANCARROTA BLUES” sobre como tudo pode ser ou não uma mercadoria, num sistema onde tem pessoas mais preocupadas com a lei da oferta e da procura do que com a vida.

quinta-feira, 19 de março de 2020

E assim se passaram 56 anos


O golpe civil-militar de 1964 completa 56 anos. Sei que é difícil relacionar um passado, que já vai distante, com um presente que nem sempre entendemos. Deixe-me tentar, então, demonstrar que muito do que somos e fazemos se relaciona com esse passado onde quase ninguém acreditava no que muitos dizem não querer mais. Falo de DEMOCRACIA.

O golpe de 1964 se deu porque não se apoiava a democracia. No Brasil, era (ainda é) usual a ideia de que crises se resolvem com saídas de força. O ato golpista se consumou quando generais colocaram tanques e soldados na rua e o presidente eleito João Goulart foi deposto e mandado para fora do país. 


A ditadura foi se instituindo aos poucos. Numa primeira etapa de instalação tivemos o Ato Institucional nº 02 com o bipartidarismo da ARENA governista e do MDB oposicionista. Mas, que ditadura aceitaria um partido lhe fazendo oposição? Essa era uma das estratégias para que se tivesse a impressão de que o óbvio não era ululante. Inclusive, dizia-se que o MDB era o partido do sim e a ARENA do sim, senhor!

O multipartidarismo desideologizado e oligarquizado que temos é fruto desse bipartidarismo autoritário, pois aquele sucedeu este sem um processo de reorganização. Em 1965 se impôs eleição indireta e passamos 24 anos sem votar para presidente. Votar é como andar de bicicleta, não pare senão cai. Em 1967 aprovou-se uma nova Constituição que era o somatório dos atos e decretos editados desde o golpe e dos interesses dos grupos no poder.

A Constituição de 1988 herdou itens do ordenamento jurídico da ditadura. O Artigo 142 dá aos militares prerrogativas que eles só possuíam para reprimirem seus inimigos. Como não confiamos na democracia, convivemos com procedimentos democráticos e entulhos autoritários. Aprendemos bem as lições da ditadura!

Em 1967 o Gal. Costa e Silva assumiu o poder e a esquerda revolucionária iniciou as ações armadas contra o regime, expropriando bancos em São Paulo. Em 1968 explodiram os protestos estudantis nas grandes cidades. Foi o tempo de fazer a hora e não esperar acontecer. Muitos pegaram em armas para fazer a revolução. Outros para impedir que ela acontecesse.

Em dezembro de 1968 os militares impuseram a ditadura total com o AI-5 que vetava até conversa em público. Nossos avós e pais eram proibidos de votar e não puderam nos ensinar como se faz. É por isso que hoje elegemos de tudo, até um boçal fascista.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Da Série “LIVROS, DISCOS E FILMES QUE FIZERAM A MINHA CABEÇA”

Você tem todos os discos, em vinil e em CD, filmes e a Antologia dos Beatles? Têm livros, inclusive a biografia “The Beatles”, de Bob Spitz, que tem quase 1.000 páginas e começa falando do bisavô de John Lennon e, claro, já a leu e pretende lê-la novamente? Você tem posters emoldurados dos Beatles e acha mesmo que Yoko Ono poderia nunca ter saído do Japão? Mesmo achando aqueles terninhos ridículos, você não quer nem saber e adora a primeira fase romântica dos Beatles? Você não admite que digam que Ringo Star era a morsa que Lennon falava em Am The Walrus?

Você diz que George Harrisson era o melhor dos Beatles, o mais espiritualizado? Você discute horas a fio quem era o melhor letrista e o melhor guitarrista dos Beatles? Sabe dizer quem de fato compôs Yesterday, Strawberry Fields Forever ou Hey Jude, se Lennon ou McCartney? Já assistiu um show de Paul McCartney, aqui no Brasil, e chorou feito um bebê quando ele cantou “Close your eyes and I'll kiss you / Tomorrow I'll miss you....”?

Se você respondeu SIM para essas perguntas, bem-vindo ao clube, você é um beatlemâniaco! Por isso mesmo precisa ler "THE BEATLES - A HISTÓRIA POR TRÁS DE TODAS AS CANÇÕES" de Steve Turner, da editora Cosacnaify, lançado no Brasil em 2005 com tradução de Alyne Azuma. Pronto! Não precisa dizer mais nada, só um fanático pelos Beatles quer saber detalhes pormenorizados de como todas as letras foram compostas, quem de fato as escreveu, como as músicas foram feitas e produzidas. 

A ideia do autor é saber o que inspirava os Beatles a compor sua obra. É Steve Turner quem diz que o livro trata do “onde, como e porquê das composições e tenta rastrear o caminho da inspiração até a fonte”. O livro não tem a intensão de revelar o que os Beatles queriam “realmente dizer” em suas canções. Turner não revela, finalmente, se John Lennon escreveu Lucy In The Sky With Diamonds inspirado num desenho de seu filho, e numa viagem de LSD, ou as duas coisas. 

O autor quis, “apenas”, contar como surgiram as canções. Esta é a beleza do livro, ele não quer quebrar a magia das músicas com revelações que causariam algum tipo de decepção. Something, Golden Slumbers, Penny Lane, Here Comes The Sun, e todas as 208 músicas dos Beatles, têm um sentido bem maior do que possa prejulgar nossa vã filosofia.

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