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Professor do Curso de História da Universidade Estadual da Paraíba. Mestre em Ciência Política (UFPE) e Doutorando em Ciência da Informação (UFPB). Especialista em História do Brasil, com ênfase na Era Vargas e na Ditadura Militar, na democracia e no autoritarismo. Autor dos livros "Heróis de uma revolução anunciada ou aventureiros de um tempo perdido" (2015) e “Do que ainda posso falar e outros ensaios - Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar” (2024) lançados pela Editora da UEPB.
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Laerte. Revista Caros Amigos. Ano IV - n° 15. Novembro/2002. Edição Especial “Para onde vai a democracia?” |
Passados 62 anos do Golpe de Estado Civil e Militar de 1964 duas questões merecem destaque, pois em prol de nosso presente é sempre imperioso olhar para o passado. Cabe ao historiador refletir sobre a realidade em que vive a partir de um processo de comparação com o que se viveu no passado. Como afirmou o historiador inglês Peter Burke: “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”.
Assim, para falarmos do golpe militar de 1964,
precisamos reavaliá-lo como fato histórico, pois à medida que nos distanciamos
temporalmente dos acontecimentos a nossa visão sobre eles muda e, então, temos
que redimensioná-los para atendermos as nossas questões políticas, sociais,
culturais e existenciais ao nosso redor.
Também,
temos que refletir sobre uma cultura política pretoriana herdada da ditadura
militar, sem falar no que defino como nossa pobre tradição democrática da qual trato
em meu livro "Heróis de
uma Revolução Anunciada ou Aventureiros de um tempo perdido?”. Mesmo não
desconsiderando a primeira questão, prefiro me deter na segunda, pois ela
remete à nossa realidade.
Por
que as memórias do golpe de 1964 e da ditadura militar ainda nos são tão vivas?
Seria pelas feridas ainda não cicatrizadas? Ou por termos uma Sociedade e um
Estado recheados de entulhos
autoritários, que o nosso débil processo de liberalização (que culminou com
a implantação da chamada Nova República) não foi competente para extrair do
nosso entorno político?
A
principal causa para o golpe de Estado de 1964 foi a tensão (um falso dilema)
existente entre democracia e mudanças sociais. O amplo espectro
político-partidário nacional antagonizava estes dois fatores
desnecessariamente. Os atores políticos à direita acreditavam que pela
democracia se chegaria às mudanças sociais - por isso mesmo deram o golpe. Os
atores à esquerda defendiam que só teríamos mudanças sociais acabando com a
democracia.
O
confronto entre as forças políticas contrárias e favoráveis às reformas de base
destruiu as instituições democráticas. O resultado a que se chegou bem
conhecemos: nenhuma reforma social e democracia inexistente! Exploro essa
questão no artigo 52
anos após o golpe, país não aceita o valor universal da democracia publicado
em 2016 no www.uol.com.br
O
processo de liberalização política (notem que não utilizo os termos
redemocratização e transição política), efetivado com a eleição de Tancredo
Neves, é torto, pois não afasta do cenário nacional os atores políticos relevantes
da ditadura militar. O que nós tivemos foi um pacto entre as forças políticas -
iniciado ainda em 1974 e capitaneado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do
Couto e Silva.
O
resultado foi um processo em que lentamente se foi inserindo alguns elementos
do ritual democrático nas instituições sem, no entanto, reformá-las e,
principalmente, mantendo intocada a espinha dorsal do regime ditatorial: o
poder militar.
Se
democracia política são os mecanismos e práticas associados às formas de
decidir em favor dos interesses sociais; além das normas que regem o bom
funcionamento das instituições e as atitudes que marcam a relação entre elas e
a sociedade civil, veremos que não temos uma democracia minimamente consolidada.
Não tivemos um processo em que Sociedade Civil e Estado firmassem um
compromisso para banir as prerrogativas que os militares atribuíram para si
durante 21 anos de autoritarismo.
Como
na ditadura, e seguindo a lógica da Doutrina
de Segurança Nacional, que dizia que o inimigo a se combater estava dentro
do território nacional e não fora dele, as Forças Armadas seguem mais
preocupadas com a segurança interna do que com a externa, mesmo após as tentativas
de golpe de Estado entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 quando o conglomerado
golpista de 2016, incluindo a extrema direita bolsonarista, quase nos leva de
volta aos tempos da ditadura contra tudo e contra todos,
Vivemos
um momento difícil por não percebermos o quanto ainda temos que avançar no
sentido de efetivarmos uma democracia em que aqueles que detêm as armas irão
obedecer aos que não as tem. É preciso, também, que os atores políticos não
cedam às tentações de mudar as regras do jogo político enquanto ele estiver
sendo jogado, além de concordarem em se submeterem às incertezas democráticas
dos resultados.
Falta-nos, ainda, aceitar que democracia deve ter um valor universal em nosso país e rejeitarmos aquele dito do humorista Millôr Fernandes: “ditadura é você mandar em mim e democracia sou eu mandar em você!”.
Este artigo sugere nos preocuparmos com a desinformação, e com problemas por ela criados, além de uma reflexão sobre a supervalorização da informação em um contexto de práticas desinformacionais, pois a sociedade parece aceitar bem que informação é panaceia contra desinformação. Propõem atentarmos para a frágil assertiva de que quanto mais informações tivermos, menos desinformados seremos. Em uma era desinformacional, vejamos a forma como se divulgam conteúdos negacionistas e revisionistas a partir de um modelo de negócio que usa a desinformação para monetização.
Nos ufanamos da era da informação e da tecnologia
digital, ainda que usemos fake news e discursos de ódio. Gostamos da
democracia, mas usamos
procedimentos democráticos para pedir o fim dela. Temos uma relação fetichizada
com a informação, valorizando-a, mesmo que narrativas eventualmente
verdadeiras existam.
Desinformação impacta nas escolhas políticas com os
valores da democracia existindo para acima e além da sociedade. Opomos o bem
(democracia e informação) contra o mal (autoritarismo e desinformação) como se
a realidade fosse uma simples oposição entre certo e errado, opaco e
translúcido, doce e amargo.
A hiperinformação como panaceia para a
superdesinformação
Supervalorizamos a informação, em um contexto de práticas informacionais e de práticas de desinformação, aceitando com passividade que para se
combater a desinformação é preciso massificar a informação. Dito de outra
forma, quanto mais desinformação se produzir, mais informação terá que ser
disseminada, como se a justaposição desta sobre aquela fosse solução única.
Vivemos a era da Infodemia, esse excesso de informações sobre tudo e sobre todos, não importando se
relevantes ou não. Este termo foi difundido em função da pandemia do Covid 19,
quando dados e informações (corretos e/ou incorretos) circulavam na velocidade
do big data.
O recurso que a tal “sociedade da informação” oferece
contra a desinformação é limitado por uma visão individualista onde a questão
seria resolvida, como mostra o Profº Drº Rodrigo Moreno, quando o indivíduo
detectasse conteúdos desinformativos, bastando apenas que desenvolvesse
uma competência crítica informacional para isso.
Mas, desinformação é um fenômeno social complexo que
lastreia, por exemplo, a atuação da extrema direita em seu percurso ao poder.
Importa relacionarmos informação e desinformação a partir da crítica da
economia política e das noções de fetichismo e alienação, pois lidamos com uma
realidade onde narrativas são fatos.
Foquemos em um novo regime da
informação\desinformação como fonte de tensionamentos em relação à
democracia, ainda que se fale que a problemática da desinformação se resolveria
a partir do desenvolvimento da competência
crítica em informação que
habilitaria pessoas a detectarem conteúdos desinformativos.
Economia política da desinformação,
alienação e fetiche da informação
Nos Manuscritos
Econômicos-Filosóficos (1844), Karl Marx demonstrou que o trabalho é uma
atividade material e que o sistema industrial capitalista explora o
trabalhador, desconsiderando que parte da riqueza, investida nas indústrias,
vinha da exploração da mão de obra escravizada nas Américas. Lembremos que o
capital só se constitui através da acumulação concentrada e controlada pela
propriedade privada.
Isso importa por tratarmos da economia política da
informação\desinformação que monetiza em prol da acumulação capitalista, cuja
“indústria-base” é a tecnologia digital. Em A
Ideologia Alemã (1845-46), Marx e Engels dizem que a libertação dos
trabalhadores não é algo idealizado, mas um
ato histórico real. Isso redundou na Tese
11 onde filósofos interpretavam o mundo sem transformá-lo.
O que Marx e Engels falavam aos filósofos
contemporâneos seus é o que temos que reafirmar hoje, já que a libertação (da
exploração capitalista) ainda não aconteceu, parecendo cada vez mais distante à
medida em que o modelo de negócio, implementado por uma economia política
plataformizada, aprofunda a acumulação de capitais.
As condições materiais e a produção social de nossa
existência advém de uma base
econômica que se eleva até uma superestrutura - onde o modo de produção da vida material
conduz o processo social, político, intelectual e cultural. Essa discussão nos
é relevante à medida em que nosso estágio de acumulação de capitais, em
sociedades plataformizadas, condiciona uma superestrutura das redes sociais.
O conceito de alienação nos serve para entendermos o
que nos acomete ao lidarmos com efeitos da informação
plataformizada. Alienação é a consequência de uma ação sobre uma pessoa ou
grupo distanciados que são dos resultados de suas atividades. Alienados ficamos
quando nos tornamos alheios ao produto de nosso trabalho. A alienação é
essencial para retroalimentar o sistema capitalista.
Em “A
Sociedade do Espetáculo” Guy Debord
trata do trabalhador\usuário alienado, pois quanto mais produz (conteúdos)
menos vive, aceitando se reconhecer nas imagens dominantes, sem compreender sua
existência e seus desejos. Quanto mais alienado do fruto do seu trabalho, mais
espectador se torna de um espetáculo promovido pelo capital em grau elevado de
acumulação e de mais-valor.
O modelo de negócio plataformizado move-se pela
acintosa expropriação do tempo real da pessoa que é produtora e consumidora. O
trabalhador\usuário deve sentir-se livre, mesmo que não o seja, pois o poder
econômico se materializa na mercadoria que ele consome. Não é à toa que o lazer
se tornou atividade de consumo e as sociabilidades foram enquadradas ao
espetáculo comando pela mercadoria.
A desinformação aliena em relação à informação e
ambas são produto do trabalho nas redes sociais. Informação é criação das
instituições e desinformação vem de nossa estrutura social. Entendendo essa
relação e seu poder de alienar o indivíduo de si mesmo, aceitemos que esse
processo é efetivado pelo próprio capitalismo.
Apontando contradições das formas de produção,
circulação e consumo da informação, o Profº Dr. Arthur Coelho afirma que
enfrentamos dilemas éticos que se escondem sob a “fina epiderme de vidro e
plástico que carregamos no bolso”, é a sociedade da
hiperinformação que inaugura a era da desinformação. O século XXI nos
oferece um novo regime de informação, com formas hodiernas de lidar com ela,
subjugadas às mesmas relações de sempre do capitalismo.
O fetiche da mercadoria faz objetos materiais
portarem características herdadas de relações sociais dominantes. Assim,
fetichismo é uma ilusão que nos faz aceitar a mera aparência de um fenômeno
como se fosse sua essência e se revela ao admitirmos que relações de dominação
e exploração são naturais do próprio sistema capitalista.
Fetichismos escamoteiam relações sociais de dominação
ocultas nas manifestações dos fenômenos informacionais. Por isso, enfrentemos,
sob as lentes da crítica da economia política, o debate sobre plataformas
digitais, governança da internet, colonialismo
digital e, claro, desinformação.
A “sociedade da informação” sofre um estranhamento,
levando-nos a tomá-la como um dado histórico regular e não como algo que
representa os interesses de uma classe social, pois o mercado de trabalho
capitalista escamoteia a exploração. O fetiche da informação se dá quando, por
exemplo, cremos que com o ato isolado de se informar e\ou gerar conteúdos
estamos influindo em todo o ecossistema informacional.
Os aparelhos ideológicos digitais da
Extrema Direita
Revisionismo e negacionismo, com suas omissões e
simplificações, induzem à desinformação e pululam pelas redes sociais e em
plataformas diversas. Não se trata apenas de visões alternativas, mas de
ausência de rigor metodológico, com uso seletivo de fontes e ausência de
contrapontos.
Esses aparelhos ideológicos digitais proliferam
conteúdos falsos e oferecem produções documentais que reinterpretam a história
com a formatação de um inimigo comum (comunismo). Eles simplificam a realidade
e optam por desinformação, impactando o debate social com conteúdos enviesados,
seletivos e distorcidos que comprometem a formação de opiniões e alimentam
desconfianças na democracia.
Ao disseminar desinformação criam bolhas
informacionais e reforçam opiniões sem respaldo em fatos verificáveis. A
desinformação se associa ao aumento da polarização política, pois a
disseminação de conteúdos falsos intensifica a divisão entre grupos, retroalimenta
intolerâncias, dificultando o diálogo.
Foi com desinformação que a extrema direita conduziu
a campanha que elegeu Jair Bolsonaro, manipulando a população para favorecer um
projeto antidemocrático. O fato é que processam e propagam informação e fatos
distorcidos em proporções inimagináveis, tudo ao mesmo tempo agora.
A desinformação compõe um novo modelo de regime
informacional, contribuindo para o processo de acumulação de capitais
plataformizados. Nesse momento o capital aumenta exponencialmente, enquanto
pessoas são substituídas por máquinas e softwares. As tecnologias da informação
e da comunicação contribuem para a expansão de mercados, acumulação de riquezas
e novas relações de exploração do trabalho.
Em “Post-Truth”,
Lee MacIntyre (pesquisador da Universidade de Boston), tenta nos incomodar
perguntando como chegamos à era da pós-verdade, em que fatos alternativos
substituem fatos verídicos, sensações importam mais que evidências e crenças,
intuições e afetos passam a ser mais relevantes do que a realidade.
Como vivemos em um estado de profunda inconsciência,
sufocados pela desinformação, considero que perdemos as referências sobre o que
é verdade e o que é mentira, aceitando a “pós-verdade”, deixando a verdade para
trás. Precisamos nos atormentar com isso, pois sempre que esquecemos da
verdade, os campos de concentração abundam mundo afora.
A lealdade política e ideológica da extrema direita e o uso das cores da bandeira
Existem imagens que parecem prescindir
de legendas e\ou explicações. A imagem da família, indo a uma manifestação
vestida de verde-amarelo, que “viralizou” nas redes sociais parece bastar-se a
si mesma. Podemos até compará-la à ilustração de Jean Baptiste Debret, pois
vemos a mesma situação em ambas: uma família de brancos, em movimento pela rua,
seguidos pelos seus serviçais.
Na figura 1, a família branca, informando pelas cores seu alinhamento à extrema direita, vai à uma manifestação pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e por uma intervenção militar, sendo seguida pela babá que guia o carrinho com os bebês. A mãe segura a coleira de um pequeno cachorro, também branco. Ela até se preocupa em olhar seus filhos, mesmo que não se dê ao trabalho de carregá-los. Nessa imagem, o verde-amarelo nos remete ao patriotismo e a simbologia de uma “família de bem”. A Figura 2 nos remete ao início do século XIX quando o pintor francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa. Aqui, pintou quadros retratando paisagens e o cotidiano dos brasileiros.
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| Figura 1 – Casal vestido de verde-amarelo indo à manifestação com os filhos e a babá. |
A imagem da Figura 2 traz a mesma informação da Figura 1. O senhor e a senhora vão à rua com sua branca família, trazendo consigo um séquito de pessoas escravizadas ou quase isso. Notemos que pessoas pretas, em ambas as figuras, vestem branco e carregam bebês brancos. Isso prova os lugares sociais definidos a partir da cor da pele, ratificando o domínio de seus senhores.
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| Figura 2 -Jean Baptiste Debret –
Funcionário público saindo de casa com a família e seus escravos. |
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| Figura 3 - Na Av. Paulista, manifestante favorável ao impeachment comemora o resultado da votação no Senado. |
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| Figura 4 - Na Av. Paulista, manifestantes favoráveis ao impeachment esperam resultado da votação no Senado. |
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| Figura 5 – Manifestantes fazem ato na Esplanada para pedir intervenção militar e prisão de Lula. |
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| Figura 6 – Manifestações em 2016 a favor ao impeachment e em defesa de uma intervenção militar. |
Na figura 7 vemos imagens que, separadas por 51 anos, dão significado às mesmas questões e a dois atos: a tragédia do Golpe de Estado Civil-Militar de 1964 e a farsa do Golpe de Estado Jurídico, Parlamentar, Midiático e Religioso de 2016. Esses atos têm em comum a profunda descrença que parte da sociedade nutre em relação à democracia e o fato de que a elite brasileira busca saídas de força cada vez que se sente ameaçada por movimentos reformistas e/ou revolucionários. No entanto, existe uma diferença entre as imagens. É que a de 2015 informa as cores utilizadas como descrição abreviada – é a extrema direita informando que, sendo o verde-amarelo as cores de sua bandeira, o Brasil não seria um nova Cuba, que é vermelha. As figuras 8 e 9 representam a mesma coisa: setores da sociedade implorando aos militares para que intervenham na ordem social e política do país, usando o verde oliva para demonstrar respeito, obediência e temor às Forças Armadas.
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Figura 2 - https://tokdehistoria.com.br/2022/04/28/a-historia-do-brasil-pela-arte-de-debret/
Figura 3 - Fonte Agência O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419
Figura 4 - Fonte Agência O Globo https://oglobo.globo.com/politica/com-bolo-champanhe-grupo-comemora-impeachment-na-paulista-20027419
Referências
FRASER, Tom;
BANKS, Adam. O guia completo da cor (Livro essencial para a consciência das
cores). 2ª ed. São Paulo: Ed. Senac, 2007.
GUEDES, Simoni
Lahud; SILVA, Edilson M. Almeida da. O segundo sequestro do verde e amarelo:
futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia, 3, 73-89. En
Memoria Académica, 2019. Disponível em:
http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.9691/pr.9691.pdf Acesso:
04 fev. 2025.
Guimarães,
Luciano. As cores na mídia: A organização da cor-informação no jornalismo. São
Paulo: Annablume, 2003.
NOVELINO,
Maria Salet Ferreira. A linguagem como meio de representação ou de comunicação
da informação. Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 137 - 146,
jul./dez.1998. Disponível em
https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/22325/17926 . Acesso: 15
set. 2024.
OLIVO, Júlio
César Cancellier. A cor na propaganda política: significados e produção de
sentidos. Florianópolis-SC. Anais do 6º
Encontro do Celsul - Círculo de Estudos Linguísticos do Sul, novembro, 2004.
Disponível em:
https://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/CELSUL_VI/index.htm Acesso: 30 jan. 2025.
PEREIRA, C.;
FRANCA, H.; FREITAS, S. O significado das cores nas eleições presidenciais de
2022: uma análise de artefatos gráficos da campanha do PL. Anais do 11º CIDI e
11º CONGIC. Sociedade Brasileira de Design da Informação – SBDI. Caruaru, 2023.
Disponível em:
https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-significado-das-cores-nas-eleies-presidenciais-de-2022-uma-anlise-de-artefatos-grficos-da-campanha-do-pl-39096
Acesso: 27 jan. 2025.
SOARES, Gilbergues Santos. Do que ainda posso falar e outros ensaios (Ou quanto de verdade ainda se pode aceitar). Campina Grande\ PB: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), 2023.
A cor como relato identitário da extrema direita
Para Novelino (1998) representar a
informação significa substituir uma “entidade linguística longa e complexa” - o
texto de um documento, por exemplo, por uma descrição abreviada que prove sua
essência. A representação da informação realiza a transferência da informação
útil para se obter a essência do documento, considerando, claro, sua
recuperação. Guimarães (2003) nos diz que a cor é uma informação, desde que
seja usada para organizar, hierarquizar e atribuir significado à informação.
Mas, para lidarmos com a cor como
informação, temos que considerar a visualização da imagem e seu processo de
significação. Aqui, interessa pouco descrever dados (ou metadados) de uma
imagem por suas cores, mas sim fazer uma análise de seu conteúdo, mais
especificamente do que ela pode representar por sua descrição abreviada. É por
isso mesmo que Fraser & Banks (2007) afirmam que a cor informa “complexas
interações de associação e simbolismo”, além de mensagem e palavras.
Vejamos como povos do Sul Global e do
Hemisfério Norte dão significados diferentes ao preto e ao branco. Atentemos
para o que essas cores representam para colonizadores e colonizados. Como uma
sociedade estruturalmente racista dá significação ao preto e ao branco? Para os
estadunidenses (do norte) ou para a maioria dos europeus, o branco é símbolo da
paz e da luta pelos direitos humanos; mas para estadunidenses (do sul),
latino-americanos e africanos, o branco é símbolo de opressão, violência,
terror e escravidão. Em países ocidentais, ditos democráticos, o preto é a cor
do luto, mas em muitos países orientais é o branco que representa o luto e que
tem conotações negativas.
Para Pereira, Franca & Freitas
(2023) a cor informa o que vemos a partir da conformação social em que vivemos
- ela importa como fenômeno cultural e social a partir do uso que se faz do
poder de comunicação política, caracterizado pelos confrontos entre grupos
diferentes. Notemos os significados que o vermelho e o azul recebem
historicamente, mesmo que o Partido Republicano, ao qual Donald Trump pertence,
adote o vermelho. Certo, o vermelho é a cor do comunismo e de partidos e
movimentos socialistas, mas também aparece nas bandeiras do Japão, Espanha,
Bélgica, França, EUA, Itália, etc. É Olivo (2004) que diz que a comunicação na
política tem sua própria linguagem, materializada no discurso e em símbolos.
A mensagem enviada ao eleitor se ancora
em signos (cores) que conformam a imagem de uma candidatura, por exemplo.
Pereira, Franca & Freitas (2023) fizeram uma análise qualitativa que gerou
uma interpretação dos significados das cores que identificam princípios e
norteiam comportamentos de grupos políticos. Eles tratam da intencionalidade no
uso das cores que dá visibilidade às peças gráficas, informa dados de uma
campanha e projetam uma imagem positiva de candidatos.
Um movimento político de extrema
direita pode considerar-se vitorioso ao tornar as cores nacionais de seu país
em símbolo próprio, mesmo que perca eleições. Ao contrário do partido nazista
alemão, que adotou cor inexistente na bandeira alemã para suas milícias, o
bolsonarismo tornou seu o amarelo. Ele não criou um novo símbolo, pois se
apoderou (ou sequestrou) a bandeira nacional. Guedes & Silva (2019) dizem
que houve uma apropriação das cores e da bandeira nacionais para se atender a
interesses políticos.
O processo foi tão bem idealizado que se criou uma espécie de permissão (ideológica) para quem poderia e quem não poderia usar a camisa amarela. Tornou-se algo proibitivo para os que se consideravam de esquerda usar as cores nacionais, sendo que os eleitores de Jair Bolsonaro se sentiam autorizados, para não dizer obrigados, a usarem o verde-amarelo. Também, havia (e segue havendo) o patrulhamento ideológico nas hostes da extrema direita para que não se usasse o vermelho. Pereira, Franca & Freitas (2023) confirmam isso ao demonstrarem que, ao sequestrar as cores nacionais, se afetou e deturpou o comportamento dos brasileiros em relação às cores. Podemos, por exemplo, lembrar que na Copa do Mundo de 2022 muitos se recusaram a usar verde-amarelo e até mesmo a torcer pela Seleção Brasileira pelas óbvias implicações que isso causava.
Os símbolos nacionais foram manipulados a partir do poder de suas cores em informar um conteúdo de instrumentos de legitimação políticos e ideológicos, que funcionavam como descrição abreviada, cumprindo o papel de representação da informação que substitui uma entidade linguística por um símbolo em cores vivas. Ao invés de longos discursos, ou mesmo de propaganda política exaustiva, lançavam efusivamente símbolos verde-amarelo que cumpriam a função de descrição abreviada.
As cores, aqui tratadas como informação, nos falam sobre lealdades políticas e ideológicas. Por isso interessa saber o papel delas no processo de empoderamento de um movimento político de massas. A cor influencia propagandas políticas e estratégias de partidos e candidatos, com as imagens servindo para compreendermos como a associação entre cores e contexto político importou no processo que levou a extrema direita ao poder.
A
turma a qual dava aulas estava bastante contaminada pelo clima político
eleitoral da cidade a ponto de parte dela vestir sempre camisas laranjas e a
outra parte trajar camisas amarelas. Chamava-me atenção que não havia exceções,
todas(os) as(os) alunas(os) assumiam um dos matizes políticos - ninguém
usava azul, vermelho, verde ou branco. As
camisas eram iguais, tanto na cor como no modelo, e todas(os) usavam uma
espécie de fardamento de campanha – calça jeans, tênis branco, camisas laranjas
ou amarelas.
Mas,
aconteceu que eu, inadvertida e descuidadamente, fui em um dos sábados dar aula
com uma camisa laranja, idêntica as que as\os eleitoras(es) da candidatura
laranja usavam. Adentrei na sala de aula e me deparei com duas reações
distintas: uma parte da turma me saudou eufórica enquanto a outra demonstrou
descontentamento com lamúrias de toda sorte. O fato é que não lhes passou à
cabeça que eu não poderia, nem deveria, ter alguma relação com as colorações
políticas daquela cidade. A única forma de contornar a situação foi trajar uma
camisa amarela na aula do sábado seguinte.
Essa
situação me fez refletir sobre a relação que as cores têm com a política, mesmo
que já tivesse ouvido tanto sobre o uso das cores em eleições no Nordeste
brasileiro. O fato é que as cores servem para que digamos ao mundo o que, como
e porque somos. Se quero que todos saibam minha ideologia, uso vermelho ou
azul; se desejo que entendam que me preocupo com o meio ambiente, uso verde; se
estou preocupado com paz mundial, uso branco; se apoio a causa LGBTQIAPN+ uso
as cores do arco-íris; se quero protestar contra a corrupção, uso preto. Da
mesma forma, posso procurar me vestir com as cores do meu time de futebol,
evitando usar as cores do seu principal rival.
A
cor informa algo sobre nós, é uma forma de nos expressarmos. Como informação
ela pode representar ideias, opiniões e crenças. A cor pode materializar ou que
é imaterial. Vejamos que historicamente movimentos
políticos totalitários associaram cores as suas ideias e práticas. Foi assim que o fascismo italiano
adotou o preto, ficando conhecido como os “Camisas Pretas”; que o Nazismo
alemão fez do marrom claro uma de suas cores oficiais; que o Integralismo
brasileiro usava o verde escuro; que o Salazarismo português usava o azul; e
que o fascismo mexicano era conhecido como os “Camisas Douradas”.
Para
Olivo (2004) a cor é fenômeno e manifestação cultural na comunicação humana e fala
de um tipo de comportamento que gera sentidos. Tudo o que se refere a cor não é
devido ao acaso, pois o que ela apreende, transmite, armazena e informa é
orientado por normas e preceitos sociais e culturais. A cor é própria da
comunicação humana que se dá por interferência dos códigos da linguagem e dos códigos
culturais.
Considerando
que a cor informa desde sentimentos e afetos até interesses de toda sorte, qual
seria o papel dela nos processos políticos e sociais que vivenciamos? No caso
do empoderamento da extrema direita bolsonarista, entre 2013 e 2018, vimos como as cores da bandeira nacional passaram a informar
a lealdade política de militantes a uma candidatura e a uma causa sustentada em
valores morais (conservadores) e políticos (reacionários). Ficou manifesto que
o verde-amarelo, usado pela extrema direita, seria a descrição resumida de sua
conformação.
A
camisa da Seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se tornou um tipo
de crachá para informar que seu usuário foi ou é eleitor de Jair Bolsonaro e
que aderiu a ideias e a um modus operandi comportamental. E isso ocorre pois a cor
empresta significado a um movimento quando a relacionamos a uma ideologia. O
amarelo representa algo na política, pois dificilmente deixaremos de relacionar
ao bolsonarismo alguém que traja uma camisa da Seleção da CBF. Fraser &
Banks (2007) afirmam que associamos um conceito a uma cor para levá-lo para
onde bem quisermos. O conceito vai para toda parte levado pela cor, com os
significados que queremos que tenha.
Mesmo
com a derrota do bolsonarismo nas eleições de 2022 ainda vemos seus símbolos
espalhados: são pessoas vestindo camisas da Seleção da CBF e\ou usando
capacetes pintados com as cores da bandeira nacional; são carros ostentando
adesivos ainda da campanha de 2022; são casas com muros pintados em
verde-amarelo e edifícios ostentando a bandeira nacional em suas janelas; são
lojas comerciais vendendo bandeiras, toalhas, bonés e toda quinquilharia verde-amarelo.
Fato é que para parte da sociedade usar amarela é o mesmo de vestir uma camisa
com a imagem de Jair Bolsonaro.
Também, expresso uma indignação sentida ao ver as ruas pintadas de verde-amarelo para se praticar a mãe de todos os paradoxos que é usar liberdade de expressão para pedir a volta da ditadura militar. Estou atento ao oxímoro democracia autoritária, pois parte dos brasileiros se utiliza de procedimentos democráticos (eleições, por exemplo) para pedir o fim da democracia e a implantação de uma ditadura (Soares, 2023).
O
ex-presidente do Equador Rafael Correa me fez pensar: “Imagine
por um momento que Vladimir Putin capturasse Volodymyr Zelensky”. Gostaria
mesmo de saber como estaria o mundo, agora, se uma tropa de elite russa tivesse
sequestrado Zelensky e sua esposa, levando-os para uma prisão em Moscou?! O que
fariam o Império do Norte e seus asseclas europeus se Xi Jinping, presidente da
China, tivesse montado uma operação militar para invadir e reanexar Taiwan ao
território chinês? Provavelmente já estaríamos na 4ª Guerra mundial, aquela que
Albert Einstein disse que lutaríamos com paus e pedras.
Enquanto
a comunidade internacional hablaba pelos canais diplomáticos, Donald Trump
enviava sua armada para a costa venezuelana em outubro de 2025. Assim foi em
1938 – enquanto Hitler invadia a Polônia, os Aliados tentavam estabelecer
compromissos democráticos com os nazistas, como se isso fosse possível! Correa
foi certeiro em dizer que a invasão praticada pelos EUA, com o sequestro do
presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, é exemplo da hipocrisia
global e de aplicação seletiva do direito internacional.
A
operação militar na Venezuela é assustadora, porém não surpreendente. Ela
lembra ações como quando os EUA
invadiram o Panamá em 1989 e sequestraram seu presidente, Manuel Noriega,
levando-o para os EUA onde foi condenado, sob acusação de narcotráfico, a mais
de 20 anos de prisão. Na época, não importava se Noriega era traficante, pois a
questão é que ele ameaçou fechar o Canal do Panama aos EUA e países europeus.
Também não se trata de se Maduro é ou não chefe de uma organização
narcoterrorista. Importa que os EUA querem TODO O PETRÓLEO DA VENEZUELA, pois a
matriz energética do capitalismo não sobrevive a base de energia renovável que
não degrada o meio ambiente.
Os
EUA não costumam falar a verdade quando vão invadir um país ou entrar em uma
guerra. Eles preferem mistificar a realidade. Em geral, dizem que estão
defendendo a liberdade e a democracia ou que estão caçando um perigoso ditador
que é também terrorista, narcotraficante, corrupto ou coisa que o valha. Quando
o Departamento de Estados montou a Operação
Brother Sam em 1964, o governo de Lyndon Johnson disse que estava enviando
tropas ao Brasil para garantir liberdade e democracia e depor um presidente
corrupto. Simples assim!
Em 1917, o presidente Woodrow Wilson disse que
os EUA iam à Guerra Mundial para levar
democracia à Europa e o povo estadunidense apoiou o envio de tropas. Nos
anos 1950 Edward Bernays, sobrinho de Freud, trabalhava na United Fruit
Company, multinacional que produzia frutas tropicais na América Central e
Caribe. Quando o presidente da Guatemala, Jacob Árbenz, quis nacionalizar as
terras da United Fruit, Bernays produziu publicidade falsa, recheada de
desinformação, acusando Árbenz de ser um comunista a serviço da URSS e os EUA
promoveram um golpe de Estado na Guatemala, mandando a CIA depor Árbenz.
Inspirando-se
no expansionismo bélico de Hitler, Donald Trump disse que tudo
remonta à Doutrina Monroe. De fato, tudo se relaciona a Ideia Base da
Dominação de que a América é para os americanos, mesmo que os estadunidenses
estejam falando em um tal "Documento Donroe", uma espécie de acrônimo
entre os nomes de Trump e James Monroe, presidente dos EUA entre 1817 e 1825
que lançou a doutrina que colocava os EUA como nação protetora dos países
latino-americanos. Na verdade, ainda no início do século XIX, os EUA já
postulavam seus interesses intervencionistas sobre o que sempre considerou ser
o seu quintal.
As
Ideias Base da Dominação serviram (e ainda servem) para orientar a política
externa estadunidense em relação a América Latina tendo como pressuposto
(falso) que o destino dos povos latino-americanos está atado aos interesses dos
EUA sob laços de submissão. Aliás, o Estado e a sociedade estadunidenses
cultivam desde sempre um dogma de superioridade que deu lastro, por exemplo, ao
supremacismo e ao neocolonialismo.
Em
1855, eles lançaram a doutrina do Destino Manifesto para provarem ao mundo sua
autoconfiança e ambição suprema. Em “EUA X América Latina: As Etapas da
Dominação”[i], Voltaire Schilling demonstra como eles desenvolveram a ideia de
que anexar, abarcar, para si os territórios que vão do México até a Patagônia
seria o cumprimento de uma inevitável missão moral que teria sido determinada
pela providência divina. As Ideias Base partem de doutrinas (leis que orientam
a política externa por longos períodos) que vão sendo atualizadas pelos
ideários (ideias que referenciam políticas intervencionistas) e pelo corolários
(que adequam doutrina às conjunturas). Dessa forma, seria mais correta nos
referirmos a um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Se Monroe queria a
“América para os americanos” e Roosevelt a queria apenas para os americanos do
norte, Trump quer a América para ele mesmo e para seus amigos brancos,
supremacistas e ultraliberais.
Dessa
forma, fazem mais de dois séculos que os EUA sustentam em doutrinas suas ações
militares pelo mundo afora. Foi assim com a Política da Boa Vizinhança (que
visava aproximação com Brasil, Argentina, México, etc, através de relação
diplomáticas, culturais, políticas e econômicas) e com a Doutrina de Segurança
Nacional (que intervinha na América Latina com golpes de Estado e ditaduras
militarizadas durante a Guerra Fria).
Schilling afirma que as Ideias Base eram utilizadas
pelo imperialismo ianque para camuflar, por trás de princípios liberais e
humanitários, os interesses que tinha sobre as Américas Central, Caribenha e do
Sul. Apenas, temos uma diferença, na forma não no conteúdo, entre a Doutrina
Monroe e o Corolário Donroe. É que se a primeira se preocupava em ter uma
feição idealista, de que a América deveria ser dos americanos, o segundo não
tem maiores veleidades de negar o que de fato é, pois Trump até faz questão de
dizer que quer o petróleo da Venezuela e que está pouco se lixando para o que
vai ser do povo venezuelano.
O
fato é que os EUA atendem a seus propósitos e interesses ao invadirem a
Venezuela. O primeiro deles é o de se apropriar do petróleo venezuelano porque
sem este não se faz nada e o Império do Norte sabe que terá que ir à guerra
contra o mundo multipolar se quiser continuar em sua zona de conforto bipolar.
Claro, ocupar a Venezuela significa estabelecer uma base militarizada em plena
América do Sul com fronteiras escancaradas para o Mar do Caribe e toda América
Central, Colômbia, Guiana e Brasil e, consequentemente, Peru e Equador. Também,
invadir um país e depor seu presidente mostra aos aliados e reais adversários e
inimigos a verdadeira lógica perversa dos governos ultraliberais e de extrema
direita.
Reeditar
a Doutrina Monroe, com a invasão\usurpação da Venezuela, significa ao Império
do Norte voltar a se sentir “dono do mundo” e a ter, novamente, a América
Latina sob rédeas curtíssimas. Com seu Corolário, Trump faz o povo
estadunidense lembrar de quando os EUA se comportavam como a “polícia do
mundo”. Numa fantasmagórica coletiva de imprensa, logo após o sequestro de
Maduro, Trump deixou claro que governará
a Venezuela e levará Washington para Caracas e que só quando a situação
estiver estabilizada, com a extração de petróleo a todo vapor, é que fará uma
transição política, seja lá o que isso posso significar.
A
invasão da Venezuela não é um ato isolado, apenas para cumprir objetivos
localizados. Os EUA estão provando ao mundo que estão no jogo, dispostos a ir a
uma grande e universal guerra. Com suas ações, Trump traz à tona as Ideias Base
da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e
de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o ultraliberalismo. Como
bem disse seu fiel amigo, Elon Musk: "Vamos dar golpe em quem quisermos!
Lidem com isso". Ao invadir um país latino-americano, os EUA estão dizendo
ao mundo: “Vamos fazer a guerra com quem bem quisermos! Lidem com isso!”.
[i] SCHILLING, Voltaire.
EUA X América Latina: As Etapas da Dominação. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1991,