quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA.







Como cientista político minha função é, antes de tudo, observar os fenômenos de nossa realidade. Repetidamente, tenho visto jovens em cadeiras de rodas, com muletas ou ferimentos sérios. No trânsito, vejo muitos acidentes envolvendo motocicletas. Em apenas um dia vi três acidentes e num deles o rapaz que pilotava a moto foi levado ao hospital num estado bastante grave.




Não sei o que lhe aconteceu, mas torço para que tenha sobrevivido e que não tenha ficado com alguma deficiência ou paralisia. O caro ouvinte acha que estou sendo trágico? Sim, estou. Mas, estou sendo, também, realista. Segunda-feira o Diretor Técnico do Hospital de Trauma de Campina Grande, Dr. Flaubert Cruz, deu uma entrevista aqui no Jornal Integração e apresentou dados assustadores.




Dr. Flaubert disse que 67% das cirurgias feitas no Trauma são para atender vítimas de acidentes de moto. Do total de pessoas que vem a óbito no Hospital a cada mês, 10% foram vítimas de acidentes de moto.




O Trauma é um hospital geral, atende a várias patologias, mas termina tendo que dedicar parte considerável de seus esforços no atendimento das vítimas dessa guerra urbana que é o trânsito das cidades brasileiras.



Além dos mortos, Dr. Flaubert falou dos sequelados, ou seja, dos que ficam com complicações temporárias ou definitivas ou mesmo com doenças consecutivas pós-acidentes. São os que adquirem retardo mental, paraplegias, doenças de todo tipo ou que ficam com ferimentos tão graves que precisam recorrer a cirurgias plásticas.




Os dados do Hospital de Trauma dão conta que 82% das vítimas desses acidentes têm entre 21 e 35 anos. Muitos dos sobreviventes ficam impossibilitados de estudar e/ou trabalhar. Deixam de ter vida útil e passam a viver sob os cuidados da família. Outro dado importante é que a maioria das vítimas em acidentes com motos chegam ao Hospital de Traumas nos finais de semana. Ou seja, os acidentes se relacionam pouco ao trabalho.




A maioria tem como causa a imprudência e essa mania estúpida que se tem de ingerir bebidas alcóolicas e depois pilotar motos ou dirigir carros. Dr. Flaubert afirma que muitos dos acidentados poderiam ter ferimentos leves ou mesmo não tê-los se estivessem portando o EPI (Equipamento Individual de Proteção). São os capacetes, luvas e botas.







É que tem muita gente que acha que o EPI só serve para compor o estilo do motociclista, não para protegê-lo. É comum vermos pessoas pilotando motos com os capacetes pendurados no braço. Assim, estamos criando em nossa cidade uma legião de pessoas jovens condenadas a uma vida de sacrifícios e com pouca ou nenhuma mobilidade. Além das famílias que muito cedo perdem seus entes queridos.




Além das perdas que são irreparáveis, temos os prejuízos. Segundo representantes do setor calçadista de Campina Grande só no primeiro semestre de 2012 cerca de 200 funcionários sofreram acidentes de moto. Uma indústria local deixou de produzir 70 mil pares de calçados em apenas um mês devido as ausência de funcionários vítimas de acidentes de moto. Ou seja, ainda temos que lidar com os prejuízos no setor produtivo.




Dados do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais causados por Veículos de Via Terrestre) mostram que todos os dias morrem cerca de 160 pessoas por acidente de trânsito no Brasil. Do total de indenizações pagas em 2010, 61% foram para motociclistas.




Já o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde revela que o número de mortes por acidentes com motocicletas passou de 3.744, em 2002, para 10.143 em 2010. Apenas no ano de 2011 52 mil brasileiros morreram em acidentes nas ruas e estradas do país. Os acidentes com motos responderam por 25% desses casos.




Para que o caro ouvinte tenha ideia da situação, 52 mil foram os soldados americanos mortos nos 13 anos em que durou a Guerra do Vietnã. Nós matamos e morremos no trânsito como se estivéssemos numa guerra.




Certa vez, meu filho me pediu uma moto. Eu disse que preferia lhe comprar logo um caixão. Depois, achei que havia exagerado. Mas, vendo estes dados penso ter feito um bom negócio. Não comprei a moto, muito menos um caixão, e meu filho está muito bem obrigado.






terça-feira, 18 de setembro de 2012

QUAL O DILEMA DESSA ELEIÇÃO?







Achamos que político é tudo igual. As eleições são, também, todas iguais. Mas, ao mesmo tempo cada uma delas traz algo próprio. Uma coisa que fica sendo a sua marca. Cabe aos candidatos definir que marca é essa.




Cada eleição tem um segredo próprio. Quem consegue resolver este segredo, ou dilema, praticamente garante sua eleição. Ou pelo menos não sai das urnas pior do que entrou. As eleições possuem praticamente o mesmo roteiro, por onde candidatos e eleitores, além da mídia e das instituições políticas, se guiam. São rotinas previsíveis com prazos e procedimentos a cumprir.




Isso é ainda mais acentuado no Brasil já que temos eleições a cada dois anos. Sem contar que não gostamos de fazer mudanças, do contrário a Reforma Política já teria sido feita. Como não somos lá muito afeitos a respeitar normas e como mudamos a lei a cada nova eleição, elas terminam ganhando variações próprias e dinâmicas definidas que determinam procedimentos únicos.




Cada eleição acontece numa conjuntura própria, singular. E, como sabemos, conjunturas e nuvens mudam ao sabor dos ventos. Existem fatos que ficam no entorno de cada eleição. Temos, agora, o julgamento do Mensalão fazendo estragos em projetos eleitorais como do ex-deputado João Paulo Cunha (PT) que teve que abortar sua candidatura a prefeito de Osasco por já ter sido condenado.




Eleições são diferentes pela dinâmica política ocorrida entre uma e outra. Barack Obama está tendo dificuldades nas eleições desse ano. Se em 2008 ele poderia resolver a crise econômica, agora é responsável por ela.




As mudanças socioculturais que colocam ou retiram temas do debate eleitoral e a forma como o eleitor reage a elas, dão novos ares aos processos eleitorais. Nas eleições passadas discutíamos se era possível ou não utilizar as redes sociais para fazer campanha. Nas eleições desse ano, o candidato que não tiver um perfil em pelo menos uma rede social perde muito.




Cada eleição formula uma questão e o resultado que vem das urnas é a resposta a essa questão. O que cada candidato deve fazer é tomar posse dela, não permitindo que seus adversários façam o mesmo. Essa posse tem que ser feita de tal forma que os eleitores se convençam que só aquele determinado candidato é que pode responder o segredo da eleição. A resposta do eleitor é eleger o candidato que resolveu o dilema.



  
O que faz um candidato resolver o dilema, ou seja, ser eleito é a capacidade que ele tem de perceber qual é a questão do momento e, claro, de apresentar a resposta que seja convincente aos olhos dos eleitores.



E essa é uma tarefa das mais difíceis. Bill Clinton foi eleito presidente dos EUA, em 1992, graças à percepção que seu chefe de campanha, James Carville, teve quando pronunciou a famosa frase: “é a economia, estúpido!”. O que Carville queria dizer é que a questão daquele momento era se os empregos estavam assegurados para que se continuasse a gerar prosperidade. Carville matou a charada e Bill Clinton ganhou a eleição.




Resolver o dilema da eleição é um problema de natureza intelectual e estratégico. A que se ter conhecimento e bastante experiência política para se detectar qual é a agenda de cada eleição. Descoberta qual é a agenda, é preciso impô-la aos adversários. Esta é uma tarefa das mais difíceis, pois em maior ou menor grau, todos estão tentando o mesmo.  Na eleição para governador em 2010 vimos bem isso.




José Maranhão tentou o tempo todo impor sua agenda de campanha para Ricardo Coutinho, não obteve êxito e Ricardo foi eleito explorando os erros estratégicos que Maranhão cometia. José Serra perdeu duas eleições presidenciais porque não percebia qual era o dilema delas. Em 2002 ele surfava na onda do continuísmo, mas a maré era de mudança. Em 2010 ele surfou na onda da mudança, mas a maré era de continuidade.




Mas, não basta impor uma agenda. É preciso acertar o alvo. É o eleitor quem tem que aceitar que a agenda proposta é a do momento. Tem candidatos com projetos políticos perfeitos, ideais, que não encantam por não deterem a questão do momento.




Enfim, cada eleição tem sua questão central em torno da qual os candidatos são comparados aos olhos do eleitor. Se você, caro candidato, não consegue percebê-la, lamento, a derrota inevitavelmente virá.




O fato é que a questão do momento deve ser imposta pelo cidadão. É eleito quem consegue detectar que questão é essa e traduzi-la na forma de propostas concretas, não em promessas que só cabem no fantástico mundo de Bob.




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

CITADINO CONTINUA NÃO ENTENDO NADA.







Eu voltei a conversar com meu amigo Citadino e ele não anda nada satisfeito com o que tem visto na propaganda eleitoral dos candidatos a prefeito de Campina Grande e João Pessoa. Mas, ele não me falou só do guia eleitoral. Disse-me que foi ao site do TSE e viu que dos 415 candidatos a vereador de Campina Grande, 41 estam com seus registros indeferidos, sendo que 12 recorreram da decisão.




Ele não entende como um candidato pode ter seu registro impugnado e mesmo assim seu nome continuar constando da lista de candidatos. Podendo mesmo aparecer na urna eletrônica. Eu disse que é porque o indeferido vai à justiça para reaver seu status de candidato. Citadino é ingênuo, mas não é burro, e disse que os impugnados querem ter da justiça o que não conseguem obter das urnas.




Citadino disse que tem três candidatos a vereador, em Campina, que são estudantes e declararam não possuir bem algum. Mas, mesmo assim estam gastando entre 250 e 400 mil reais em suas campanhas. Citadino ficou impaciente e quis saber de onde virá esse dinheiro. Eu disse que é melhor ele não me fazer perguntas difíceis, pois eu sou analista político e não um técnico em finanças do Tribunal de Contas do Estado.




Citadino disse que tem candidatos a vereador que declararam guardar dinheiro em casa. Disse que viu a declaração de um candidato a reeleição onde ele afirma guardar a bagatela de 111 mil reais em casa, num cofre. O fato é que virou moda entre os políticos guardarem seus valores em casa. Citadino perguntou por que será que os políticos preferem manter dinheiro em casa ao invés de guardar em um banco. Ele mesmo concluiu que deve ser porque dinheiro em casa não precisa ter sua origem declarada. O dinheiro que se guarda em casa entra e sai por vias nunca antes declaradas.




No caso dos candidatos a prefeito Citadino disse que a única prestação de contas em que se pode crer é na de Sizenando Leal, pois ele declara que vai gastar bem menos do que tem como patrimônio. Os outros seis candidatos declaram que vão gastar bem mais do que o tamanho de seus patrimônios. O patrimônio deles varia entre 380.000 mil e 1 Milhão de reais. Mas, os gastos variam entre 2 e 6 milhões de reais.




O que Citadino não entende é qual a garantia que esses candidatos dão, de que vão honrar seus compromissos de campanha, se seus patrimônios são bem menores do que o que eles pretendem gastar. Eu lembrei que eles têm as doações que são registradas no TRE. Mas, Citadino me lembrou que tem candidato que se recusa a dizer quem doou recursos para sua campanha, mesmo sendo uma informação pública. Eu preferi me calar.




Eu provoquei Citadino sobre as propostas e ele ficou irritadíssimo. Disse que os candidatos ficaram loucos de vez. Ele disse que, em João Pessoa, prometeram que vão construir 11 mil casas. Como todo mundo promete a mesma coisa, teve candidato que não se fez de rogado e disse que além da casa vai dar geladeiras e fogões. Às vezes, Citadino é meio folgado e disse que também quer uma casa.
Mas, ele quer uma casa mobiliada, com TV de plasma e uma geladeira cheia de alimentos. Eu perguntei se ele não gostaria que a geladeira viesse com muitas cervejas. Ele disse que só toma suco de laranja.




Citadino disse que os candidatos de Campina Grande ficam disputando para ver quem promete construir mais casas populares, sem dizer de onde virá o dinheiro. Mas, Citadino não é tolo e percebeu algo interessante. Os candidatos prometem fazer a quantidade de casas referentes ao seu número. Isso é uma estratégia para que o eleitor grave na mente o número do candidato. Assim, se o número do candidato é 30, ele diz que vai fazer 30 mil casas.




Meu intrépido observador viu que tem candidato dizendo que vai dar um salário a mais para quem já é cadastrado no “Bolsa Família”. Ele concluiu que vai ser dobrado feito tapioca. Tem candidato dizendo que vai distribuir tablets para os estudantes da rede pública. Eu disse a Citadino que isso funciona assim: o candidato promete às crianças, que não votam, para que elas insistam com seus pais para que votem no candidato que fez a promessa.




Citadino viu prometerem que vão instituir o passe livre para estudantes. Tem candidato que não explica se é para todos os estudantes de Campina Grande ou se apenas para os da rede pública. Citadino disse que tem um amigo que trabalha numa empresa de transporte público que quer saber quem é que vai apagar a conta. Ele não entende como se promete algo sem se dizer como se vai pagar esse algo. E o pior é que nem eu, e muito menos Citadino, entendemos também.




sexta-feira, 14 de setembro de 2012

OS CANDIDATOS E AS DROGAS.








Na série de entrevistas sobre políticas públicas para o enfrentamento a drogadição com os sete candidatos a prefeito de nossa cidade eu vi um show de obviedades. O objetivo era saber quais são as propostas dos candidatos no sentido de promover políticas públicas contra as drogas. Parece-me que vamos continuar sem saber.



Eu comparei as declarações que os candidatos deram na série sobre segurança pública com as que foram dadas nesta série sobre o enfrentamento a drogadição. O caro ouvinte quer saber o que conclui? Ou melhor, quer saber qual a nítida impressão que tive ao comparar as duas séries? Cada candidato parece ter um único texto sobre os dois temas. É como se eles tivessem colado, mudando algumas coisas.



Todos fazem questão, cada um a seu modo, de afirmarem que a segurança pública e a questão das drogas não estão no âmbito de competência do governo municipal.  Dos sete candidatos, cinco iniciaram suas entrevistas fazendo essa afirmação. É sempre o mesmo discurso. Eles começam dizendo que a questão não é responsabilidade do poder público municipal.



É como se eles quisessem dizer: “no futuro, se eu for eleito, não me cobrem por uma coisa que eu não tenho obrigação legal de lidar”. Mas, para não passarem a impressão de descaso para com questões que afetam a sociedade, eles citam políticas públicas como propostas.



E é aí é que eles demonstram não estarem preparados para enfrentar a questão das drogas. Eles reproduzem pontos do discurso sobre a segurança pública na tentativa de dizerem como vão lidar com as drogas.



Dos sete candidatos, quatro disseram que vão dotar as escolas públicas com monitoramento eletrônico para combater o tráfico de drogas, da mesma forma que disseram que é assim que combaterão a violência.



Disseram que a Guarda Municipal vai atuar no combate às drogas. Aí é o de sempre. “Vamos aumentar o efetivo de guardas”; “a guarda vai atuar junto à polícia”; “vamos criar mais uma guarda”; vamos isso, vamos aquilo.







É não tem jeito. Virou moda. Nesta eleição, os candidatos não param de propor a criação de todo tipo de guarda. Propuseram a criação de uma guarda comunitária e a criação de uma guarda anjos da escola.



É impressionante, mas ninguém traz um estudo sério demonstrando que câmeras nas escolas ou guarda municipal diminuem os índices de jovens viciados em drogas. Ninguém traz uma proposta relevante.



E tem a mãe de todas as propostas. Aquela que os candidatos elegem como a que é imbatível, que não pode ser questionada. É a proposta, ou promessa, que está acima do bem e do mal. Os sete candidatos enfatizaram a criação, para os de oposição, e a ampliação, para os de situação, das chamadas escolas de tempo integral. Existe uma espécie de ideia-força entre eles nesta proposta.



Quanto mais tempo a criança e o jovem ficarem na escola, menos serão expostos as drogas, a violência e criminalidade. Por essa lógica, a escola seria uma espécie de bolha onde crianças e jovens ficariam protegidos. Se essa ideia-força é correta, se a escola de tempo integral é realmente eficiente para manter nossos filhos longe das drogas, eu sugiro que eles fiquem nelas em regime de internato.



Claro, os candidatos dizem que vão construir mais praças, locais de lazer e vilas olímpicas. É que eles acreditam que basta colocar um equipamento desses num certo lugar para fazer com que as drogas se evaporem. Meu caro Arquimedes eu vou lhe parafrasear: “data máxima vênia e, com o devido respeito, vocês, caros candidatos, não entendem nada do assunto”.





quarta-feira, 12 de setembro de 2012

OS “FICHAS SUJAS” OU OS BARRADO NA FESTA DA DEMOCRACIA.








Demorou, mas a Lei da Ficha Limpa está sendo usada em larga escala e eu tenho motivos para acreditar que atores e partidos políticos já entendem que não podem mais lutar contra ela e que é preciso respeitá-la.




Os Tribunais Regionais Eleitorais barraram 317 candidaturas a prefeito com base na Lei da Ficha Limpa. A constatação foi feita por um levantamento realizado pela Folha de São Paulo em 26 estados do país.




Mas, este número pode tanto aumentar como diminuir, pois em 16 TRE´s existem casos que ainda vão a julgamento e, como se sabe, os barrados na festa da democracia podem recorrer ao TSE.




Entre os “fichas sujas” barrados temos o ex-presidente da Câmara dos Deputados, e líder do baixo-clero, Severino Cavalcanti (PP), que queria se reeleger prefeito do município de João Alfredo (PE). Ele foi enquadrado na lei por ter renunciado ao mandato de deputado federal, em 2005, sob a acusação de ter recebido propina de um concessionário da Câmara. Vejam a lei retroagindo para punir alguém.



Temos Rosinha Matheus, atual prefeita de Campos (RJ). Ela teve o registro negado sob a acusação de abuso de poder econômico e uso indevido de meios de comunicação durante as eleições de 2008. Na Paraíba, Cláudia Alencar (PSDB) teve sua candidatura a prefeita de Mataraca impugnada. A ex-prefeita teve suas contas reprovadas pelo TCE e pela Câmara Municipal. Assim, não teve jeito, virou “ficha suja”.



Desses 317, 53 são paulistas. Isso pode ser bom, se significar que São Paulo é modelo na implementação da Lei da Ficha Limpa, e pode ser ruim se comprovar que o estado é pródigo na quantidade de políticos ficha suja.



A aplicação da Lei da Ficha Limpa é a boa notícia dessa eleição. Já a notícia ruim é que pelo Brasil afora o 3º turno judicial vai acontecer, pois alguns atores políticos lutarão até o fim para passarem ao largo dessa lei.



A maioria dos barrados na festa do dia 07 de outubro foi enquadrada no item da Lei da Ficha Limpa que torna inelegíveis os que tiveram contas públicas rejeitadas por TCE´s. A lógica é clara. Se um governante foi reprovado por causa da gestão das contas públicas, ele não pode mais querer continuar sendo gestor. Se a reprovação se deu por improbidade administrativa, tanto pior.








A Lei da Ficha Limpa foi iniciativa popular sancionada em 2010. Mas, ela só está sendo aplicada nessas eleições. O fato é que atores e partidos políticos se organizam para não caírem na malha fina da Ficha Limpa. O que essa lei tem de mais positivo é ter ampliado os casos em que o político fica inelegível. Antes dela, os cassados, os condenados em colegiados ou que renunciaram para evitar a cassação podiam se recandidatar. A Lei da Ficha Limpa colheu esses casos.




O Juiz eleitoral Márlon Reis, um dos autores da minuta da lei, disse que "A lei anterior era permissiva demais". Era permissiva porque dava ao “ficha suja” a possibilidade de se proteger no sagrado manto do foro privilegiado. Outro efeito da lei é que, com sua normalização, vamos perceber os próprios partidos políticos evitando lançar candidatos “fichas-sujas” por saberem que eles fatalmente serão impugnados no TRE.



Mas, meu otimismo para por aqui, pois como a reforma política não foi feito (provavelmente não será) tivemos que nos contentar com a Lei da Ficha Limpa que ajuda a depurar nosso espectro político-partidário. Tem quem diga que a Lei da Ficha Limpa é uma etapa do processo de consolidação da democracia, assim como a Lei de Responsabilidade Fiscal e a adoção da urna eletrônica. Mas, isso são apenas procedimentos formais da democracia.



O cientista político Fernando Abrúcio disse que a "grande reforma não virá, mas o país tem feito modificações positivas em suas instituições”. Abrúcio acredita mesmo que essa depuração ajudará a reduzir a corrupção. Infelizmente, eu não sou tão otimista assim. Mas, darei o benefício da dúvida a Lei da Ficha Limpa. Eu contarei três eleições, a partir de 2014. Darei um tempo para que essa lei deixe de ser uma novidade.




Se ao final desse prazo o número de impugnações de candidaturas diminuírem é porque os “ficha suja” resolveram baixar a cabeça para a lei. Do contrário, a Lei da Ficha terá entrado no rol das leis que não pegaram.






terça-feira, 11 de setembro de 2012

COM A PALAVRA, SUA EXCELÊNCIA, O ASSESSOR.









Nicolau Maquiavel, o bruxo italiano da política, já alertava em “O Príncipe” para os problemas da ausência de limites entre o político e seus assessores. Maquiavel já tratava a política como uma carreira e o político como um profissional.



A política exige competência e muito trabalho. Já o assessor em tempo integral (que tem que ser de confiança e bem qualificado) precisa ser o profissional que atende às demandas do político. O assessor é o "faz tudo" do político. Não conheço um único político que não tenho pelo menos um assessor. É difícil definir o que é e quais são as funções do assessor, até pela falta de visibilidade de seu trabalho.



A assessoria política não possui uma definição objetiva de atribuições, responsabilidades e poderes. Ela fica mesmo num campo subjetivo e só adquire contornos mais precisos nos períodos eleitorais.



O assessor pode ser o "faz-tudo" do político, que desempenha funções em espaços públicos e privados de seu chefe. Assessor importante é o que faz a ponte para que se chegue ao líder.  É fácil identifica-lo. Ele é o que carrega os telefones do político e, claro, os atende para filtrar quem fala e quem não fala com o líder. E existem os especialistas setoriais que são consultados apenas quando uma matéria de sua especialidade está em pauta. Este é o assessor que pensa.



O assessor de verdade é aquele que, a parte funções executivas, faz o papel de conselheiro. Por sua lealdade, experiência e capacidade orienta seu chefe com criticas e sugestões. Ele é o cara! Mas, qual a diferença entre assessorar e bajular? O babão finge que não vê os defeitos de seu chefe. Ele transforma defeitos em qualidades. O assessor tem que perceber os defeitos e apontá-los para seu chefe.



Maquiavel deu a solução para o político que não quer ser alvo de bajulação. Basta fazer as pessoas verem que ele não se ofende quando lhe dizem a verdade, pois a relação entre político e assessor deve se basear em lealdade e confiança. A confiança favorece mais ao assessor, pois ele deve usá-la para não mentir, como faz o babão. O assessor diz a verdade mesmo que seja dolorosa. Mas, é bom não ultrapassar limite.








Tem coisas que só são ditas em conversas reservadas. O assessor escolhe a hora certa para falar e não diz tudo. O babão, na ânsia de ser útil, vai falando sem pensar e sem olhar quem está em volta. Falar uma verdade pode provocar mal-estar, então é preciso escolher o momento certo. Mas, não é bom tomar a iniciativa na abordagem das criticas. É melhor esperar que o chefe solicite a opinião.



O político deve buscar o conselho de seus assessores e deixar que eles falem a verdade, mesmo que incômodas. Mas, e citando Maquiavel, quando todos dizem a verdades é porque se perdeu o respeito pelo chefe.  Salvo nas circunstâncias em que o assessor possui informações que podem afetar seu chefe, a iniciativa de buscar a assessoria deve ser do político. É ele quem deve tocar no assunto e pedir uma opinião.



O político deve buscar conselhos, mas só quando sente que precisa e não quando outros querem. O assessor que contraria essa regra ultrapassa os limites e corre riscos.  Já o babão não tem esse tipo de problema. Ele fala o que lhe dá na telha, desde que seja para agradar seu chefe, mesmo que seja uma mentira deslavada.



Acompanhando o dia-a-dia de nossa política eleitoral vemos bastante o assessor que mata-e-morre pelo seu chefe político. Não que ele morra de amores pelo líder que lhe emprega. É que ele precisa dar seu sangue para eleger seu político-patrão, do contrário fica desempregado. Se o político ganha a eleição, o assessor faz tudo, vira assessor parlamentar, chefe de gabinete, etc.




Mas, se ele perde a eleição o assessor fica sem função e pode perder o emprego. Daí que tem assessor que se dispõe a fica na linha de tiro do político para defendê-lo. Ou seria para defender a si mesmo?




O caro ouvinte deve estar se perguntando o que, afinal, ele tem haver com isso. Eu explico com o provérbio: “me diga com quem andas e eu te direi quem és”. Dito de outra forma, mostre-me seus assessores eu digo se voto ou não em ti.






segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O “HOMEM CORDIAL” E A “LEI DE GÉRSON”







Hoje, eu vou explicar a ideia do “homem cordial” e da “lei de Gérson” para analisar aspectos do nosso caráter e de nossa personalidade que nos fazem ser tão passivos diante dos problemas que nos cercam. O historiador Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico Buarque) afirmava, em seu livro “Raízes do Brasil”, que o brasileiro é um “homem cordial” e que marcas de seu caráter são a fineza no trato e a generosidade.



Para ele, a cordialidade seria a maior contribuição do povo brasileiro para a humanidade. Mas, Sérgio alertava que esse caráter não seria sinônimo de boas maneiras e civilidade. Ser amável seria um modo de resistir. Os escravos só se rebelavam quando tinham forças. Quando não, eram cordiais para lidarem com a opressão. A polidez e a submissão seriam um meio deliberado de resistência.



A “Lei de Gérson” é uma instituição informal por onde explicamos nossa obsessão em obter vantagens em tudo. Usar a “Lei de Gérson” é buscar benefícios passando por fora da ética e da moral. A expressão surgiu em 1976 quando o jogador tricampeão do mundo, Gérson, fazia um comercial para os Cigarros Vila Rica. Mostrava-se o produto como vantajoso por ser o melhor e o mais barato.



Sorridente, Gérson dizia carregando no sotaque carioca: “Eu gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também”. O caro ouvinte está estranhando um jogador de futebol fazendo propaganda de cigarros? É que as coisas giravam em torno de se ter mais benefícios e menos custos. Daí que jogador fazia comercial de cigarros sem o menor pudor. Dizer “eu gosto de levar vantagem em tudo” virou mania e era a forma de se mostrar esperto, descolado.



Eu acompanho a F1 a muito tempo. Vi de Emerson Fittipaldi a Felipe Massa, passando por Nelson Piquet e Airton Senna. Rubens Barrichello seria o “homem cordial” e Nelson Piquet Fº o que usa a “Lei de Gérson”. Barrichello é simpático e alegre. Ele foi cordial quando, no Grande Prêmio da Áustria (em 2002), estava a caminho da vitória e foi obrigado pela Ferrari a deixar Schumacher passar à sua frente na reta final da corrida.



Foi um vexame, uma decepção. Galvão Bueno já pedia o “tema da vitória”, mas teve que engolir seco e gritar que aquilo era um absurdo. O orgulho nacional estava ferido de morte. Como iríamos gritar Brasil-sil-sil!!! O que faríamos naquele resto de domingo sem uma vitória para nos entorpecer? Jornalistas exigiam reparação. Queriam ver Barrichello respondendo à altura das atitudes de Piquet e Senna.







Mas, Barrichello, cordial como ele só, disse que aquilo era assunto da equipe. Ele sabia de suas fragilidades. Consciente do raquitismo de seu papel e, adotando a tática dos escravos, resistiu cordialmente. Sempre que a Ferrari segurava Barrichello nos boxes por 1 ou 2 segundos para beneficiar Schumacher eu torcia para que ele saísse do carro e atirasse o capacete nas câmeras de TV. Mas, ele apenas ria cordialmente.



Nelsinho Piquet chegou a F1 capitalizando esperanças de termos mais um herói das pistas. Sem resultados, não pestanejou e aplicou a “lei de Gérson” quando surgiu a oportunidade de assinar um novo contrato. Ele aceitou bater de propósito para beneficiar Alonso, o mesmo que hoje ultrapassa Massa sem se esforçar, e em troca assinar um novo contrato. Nelsinho sabia que era preciso maximizar benefícios e minimizar custos.



Piquet Jr. não quis saber de nada e de ninguém, queria garantir-se na F1. Como Macunaíma (o herói sem caráter de Mário de Andrade) ele lançou mão da malandragem para fazer frente aos outros pilotos. Em tempos de “politicamente correto” não se fala mais na “Lei de Gérson”. Mas ela vive em nossa cultura política. A “lei do é dando que se recebe”, tão comum na política partidária, tem o mesmo espírito da “Lei de Gérson”.



Porque será que tantos trocam ou vendem o voto? É que gostamos de levar vantagem em tudo. Preferimos trocar o voto por um benefício circunstancial a ter que suportar os custos de uma escolha mal feita.



Muito já se falou que herdamos dos escravos o horror ao trabalho e dos índios a preguiça. E que a mistura disso foi essa malandragem sem fim, essa mania de querer levar vantagem em tudo, usando a cordialidade.



Eu não concordo com isso, mas o malandro vive em nosso imaginário e na nossa realidade. Ele investe contra as regras e leis para obter vantagens. É cordial, nunca violento.  Como os dois pilotos, ele dá sempre um “jeitinho” para driblar as dificuldades e “se dar bem, levando vantagem em tudo”.



Neste período eleitoral, se o caro ouvinte identificar em algum candidato as características do “homem cordial” ou do aplicador da “lei de Gérson” não se assuste pois isso é o comum em nossa sociedade e os políticos não são de Marte, são daqui mesmo do Planeta Terra.




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PROPAGANDA ELEITORAL – UM SHOW DEMOCRÁTICO DE HORROR.









Vendo e ouvindo Propaganda Eleitoral no Rádio e na TV de Campina Grande e de cidades como João Pessoa, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife tenho assisto a uma espécie de show democrático de horrores. Um show que piora a cada nova eleição. Na propaganda dos candidatos a vereador às coisas seguem os postulados da lei do engenheiro aeroespacial americano Edward Murphy.



Para Murphy nada é tão ruim que não possa piorar. Parece ser nisso que acreditam os candidatos a vereador de Campina Grande. Eles tem feito um tipo de propaganda pavorosa, cometendo erros de todos os tipos. E eu não vou falar do contínuo massacre que a língua portuguesa sofre.



A propaganda eleitoral em nossa cidade não é boa, mas poderia ser pior. Se compararmos com o que tenho visto de outras cidades, talvez possamos ter algum alento. Mas, se Murphy estiver certo, devemos nos preocupados com os guias eleitorais que assistiremos para 2014 e 2017. Eu colhi personagens do guia eleitoral pelo Brasil afora. Dá para rir, dá para chorar e se revoltar com as coisas que se vê.



Eu vi Didi Cachorrão do Brega (PTC/PI), Pela Égua (PTB/PI), Perereca do Alumínio (PV/CE), Bixa Muda (PRB/CE), Barata Obama (PTB/BA), Elvis não Morreu (PMDB/MG), Chupa Cabra (PSC/RJ), Cobra Choca (PSC/PI). Eu vi ainda Divino Bosta de Vaca (PRP/MG), Retardado (PC do B/MG), Mulher Xuxu (PSB/SP), Pai Gay (PV/PE), Pirulito do Amor (PMN/AC), A Idomada (PSDC/CE), Rola Italiana (PRP/ES), etc, etc, etc. A lista é muito grande. Esses exemplos já mostram bem nossa miséria eleitoral.





Aqui em Campina Grande nossos candidatos são mais comedidos. Mas não escapamos de algumas excentricidades e nem daquele tipo de candidato que desconhece totalmente o papel de um vereador. Eu vi no guia eleitoral de terça-feira cerca de 60 candidatos. Apenas dois falaram das funções de um vereador. Um deles disse que o edil é um representante do povo que fiscaliza os atos do executivo municipal.



Mas, foram apenas dois num mar de defensores do povo ou de lutadores em defesa da educação, da saúde, do meio ambiente, da segurança pública. Quando será que eles vão entender que o cidadão não quer ser defendido, nem vitimizado, que ele quer é ser bem representado.



Tem candidato dizendo que se for eleito vai criar a Secretaria de Segurança Pública Municipal. O caro ouvinte não cai numa balela dessas, pois para que isso seja feito tem que se mudar a Constituição Federal. Tem uma candidata que quer criar a guarda feirante. A Guarda Municipal nem funciona ainda e já querem criar outra. Imagine se a moda pega? Vai ter guarda camelô, guarda comerciante, guarda taxista, guarda bancário.



Um candidato diz que se for eleito vai doar seu salário de vereador para as associações de combate ao câncer. Ele até apresenta um papel para provar que registrou a promessa em cartório. Ótimo. Isso é admirável. Mas, se ele doar o salário dele como vai manter-se? Sem salário, terá que trabalhar em alguma outra coisa, daí não vai poder representar seus eleitores na Câmara Municipal.



Tem candidatos querendo ser eleitos com votos de sua categoria profissional. É um tal de fulano do estacionamento, de sicrano da construção, de beltrano da farmácia, de não sei quem do veículo. Tem um que vai lutar pelos 10% para os garçons. Imagine um mandato para uma única coisa.





E tem quem use seus segundos para falar de suas crenças religiosas. Esquecendo que é candidato a ocupar uma vaga numa instituição política que é, constitucionalmente, laica, que não faz votos religiosos. E, como está virando moda, tem o candidato que diz que não tem a política como profissão, que é empresário. É incrível, mas os candidatos desdenham daquilo que querem fazer parte.


Tem aqueles que estam no desespero. Tem um que pede encarecidamente, com cara de sofrimento, para que se vote nele. Mais um pouco, ele vai implorar de joelhos. E tem o que cria uma frase de efeito que no final não diz nada, como “eu vou ajudar a ajudar”.



E tem os candidatos festivos. Que não falam, apenas riem, abraçam, beijam, correm e até dançam. Em geral, com aquelas versões pavorosas de músicas mais pavorosas ainda. Tem candidato desprovido de personalidade própria que imita sem o menor pudor os gestos e palavreados de lideranças como Cássio Cunha Lima e Veneziano Vital.



Enfim, caro ouvinte, o guia eleitoral está aí para que tenhamos elementos para escolher. Se depois de tudo você não gostar de nada do que viu e ouviu é simples de resolver. Na Urna eletrônica tem duas opções para isso.












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