terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Golpes e suas tentativas no Brasil Republicano

Ao invés de termos regimes democráticos duráveis e ocasionalmente ditaduras, nos acostumamos, no Brasil, aos regimes de força intermináveis, tendo poucas situações em que formalismos democráticos eram seletivamente utilizados.

Em nossa existência republicana a regra foi sempre os regimes ditatoriais, militares ou não; já a exceção é quando adotamos regimes que se utilizam de alguns procedimentos democráticos.

Note-se que o termo “estado de exceção”, para denominar uma ditadura, não se aplica, pois, aqui, a regra é o uso do autoritarismo, da força, e a exceção é quando se pratica a democracia. Não é de se estranhar que tivemos duas longas ditaduras, com um período democrático entre elas.

1937-1945: Ditadura do Estado Novo

1945-1964: Interlúdio Democrático

1964-1985: Ditadura Militar

Aqui temos uma breve contagem de golpes de Estado e congêneres. Mas, essa lista é incompleta e falha nas denominações.



A América para os americanos do norte, supremacistas e ultraliberais!

A atualização da Doutrina Monroe através do Corolário Trump e das Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o neoliberalismo.

        O ex-presidente do Equador Rafael Correa me fez pensar: “Imagine por um momento que Vladimir Putin capturasse Volodymyr Zelensky”. Gostaria mesmo de saber como estaria o mundo, agora, se uma tropa de elite russa tivesse sequestrado Zelensky e sua esposa, levando-os para uma prisão em Moscou?! O que fariam o Império do Norte e seus asseclas europeus se Xi Jinping, presidente da China, tivesse montado uma operação militar para invadir e reanexar Taiwan ao território chinês? Provavelmente já estaríamos na 4ª Guerra mundial, aquela que Albert Einstein disse que lutaríamos com paus e pedras.

Enquanto a comunidade internacional hablaba pelos canais diplomáticos, Donald Trump enviava sua armada para a costa venezuelana em outubro de 2025. Assim foi em 1938 – enquanto Hitler invadia a Polônia, os Aliados tentavam estabelecer compromissos democráticos com os nazistas, como se isso fosse possível! Correa foi certeiro em dizer que a invasão praticada pelos EUA, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, é exemplo da hipocrisia global e de aplicação seletiva do direito internacional.

A operação militar na Venezuela é assustadora, porém não surpreendente. Ela lembra ações como quando os EUA invadiram o Panamá em 1989 e sequestraram seu presidente, Manuel Noriega, levando-o para os EUA onde foi condenado, sob acusação de narcotráfico, a mais de 20 anos de prisão. Na época, não importava se Noriega era traficante, pois a questão é que ele ameaçou fechar o Canal do Panama aos EUA e países europeus. Também não se trata de se Maduro é ou não chefe de uma organização narcoterrorista. Importa que os EUA querem TODO O PETRÓLEO DA VENEZUELA, pois a matriz energética do capitalismo não sobrevive a base de energia renovável que não degrada o meio ambiente.

Os EUA não costumam falar a verdade quando vão invadir um país ou entrar em uma guerra. Eles preferem mistificar a realidade. Em geral, dizem que estão defendendo a liberdade e a democracia ou que estão caçando um perigoso ditador que é também terrorista, narcotraficante, corrupto ou coisa que o valha. Quando o Departamento de Estados montou a Operação Brother Sam em 1964, o governo de Lyndon Johnson disse que estava enviando tropas ao Brasil para garantir liberdade e democracia e depor um presidente corrupto. Simples assim!

 


Em 1917, o presidente Woodrow Wilson disse que os EUA iam à Guerra Mundial para levar democracia à Europa e o povo estadunidense apoiou o envio de tropas. Nos anos 1950 Edward Bernays, sobrinho de Freud, trabalhava na United Fruit Company, multinacional que produzia frutas tropicais na América Central e Caribe. Quando o presidente da Guatemala, Jacob Árbenz, quis nacionalizar as terras da United Fruit, Bernays produziu publicidade falsa, recheada de desinformação, acusando Árbenz de ser um comunista a serviço da URSS e os EUA promoveram um golpe de Estado na Guatemala, mandando a CIA depor Árbenz.

Inspirando-se no expansionismo bélico de Hitler, Donald Trump disse que tudo remonta à Doutrina Monroe. De fato, tudo se relaciona a Ideia Base da Dominação de que a América é para os americanos, mesmo que os estadunidenses estejam falando em um tal "Documento Donroe", uma espécie de acrônimo entre os nomes de Trump e James Monroe, presidente dos EUA entre 1817 e 1825 que lançou a doutrina que colocava os EUA como nação protetora dos países latino-americanos. Na verdade, ainda no início do século XIX, os EUA já postulavam seus interesses intervencionistas sobre o que sempre considerou ser o seu quintal.

As Ideias Base da Dominação serviram (e ainda servem) para orientar a política externa estadunidense em relação a América Latina tendo como pressuposto (falso) que o destino dos povos latino-americanos está atado aos interesses dos EUA sob laços de submissão. Aliás, o Estado e a sociedade estadunidenses cultivam desde sempre um dogma de superioridade que deu lastro, por exemplo, ao supremacismo e ao neocolonialismo.

Em 1855, eles lançaram a doutrina do Destino Manifesto para provarem ao mundo sua autoconfiança e ambição suprema. Em “EUA X América Latina: As Etapas da Dominação”[i], Voltaire Schilling demonstra como eles desenvolveram a ideia de que anexar, abarcar, para si os territórios que vão do México até a Patagônia seria o cumprimento de uma inevitável missão moral que teria sido determinada pela providência divina. 

 

O Destino Manifesto é a doutrina citada por Trump que faz EUA se enxergarem como a nação escolhida


As Ideias Base partem de doutrinas (leis que orientam a política externa por longos períodos) que vão sendo atualizadas pelos ideários (ideias que referenciam políticas intervencionistas) e pelo corolários (que adequam doutrina às conjunturas). Dessa forma, seria mais correta nos referirmos a um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Se Monroe queria a “América para os americanos” e Roosevelt a queria apenas para os americanos do norte, Trump quer a América para ele mesmo e para seus amigos brancos, supremacistas e ultraliberais.

Dessa forma, fazem mais de dois séculos que os EUA sustentam em doutrinas suas ações militares pelo mundo afora. Foi assim com a Política da Boa Vizinhança (que visava aproximação com Brasil, Argentina, México, etc, através de relação diplomáticas, culturais, políticas e econômicas) e com a Doutrina de Segurança Nacional (que intervinha na América Latina com golpes de Estado e ditaduras militarizadas durante a Guerra Fria).

Schilling  afirma que as Ideias Base eram utilizadas pelo imperialismo ianque para camuflar, por trás de princípios liberais e humanitários, os interesses que tinha sobre as Américas Central, Caribenha e do Sul. Apenas, temos uma diferença, na forma não no conteúdo, entre a Doutrina Monroe e o Corolário Donroe. É que se a primeira se preocupava em ter uma feição idealista, de que a América deveria ser dos americanos, o segundo não tem maiores veleidades de negar o que de fato é, pois Trump até faz questão de dizer que quer o petróleo da Venezuela e que está pouco se lixando para o que vai ser do povo venezuelano.


O fato é que os EUA atendem a seus propósitos e interesses ao invadirem a Venezuela. O primeiro deles é o de se apropriar do petróleo venezuelano porque sem este não se faz nada e o Império do Norte sabe que terá que ir à guerra contra o mundo multipolar se quiser continuar em sua zona de conforto bipolar. Claro, ocupar a Venezuela significa estabelecer uma base militarizada em plena América do Sul com fronteiras escancaradas para o Mar do Caribe e toda América Central, Colômbia, Guiana e Brasil e, consequentemente, Peru e Equador. Também, invadir um país e depor seu presidente mostra aos aliados e reais adversários e inimigos a verdadeira lógica perversa dos governos ultraliberais e de extrema direita.

Reeditar a Doutrina Monroe, com a invasão\usurpação da Venezuela, significa ao Império do Norte voltar a se sentir “dono do mundo” e a ter, novamente, a América Latina sob rédeas curtíssimas. Com seu Corolário, Trump faz o povo estadunidense lembrar de quando os EUA se comportavam como a “polícia do mundo”. Numa fantasmagórica coletiva de imprensa, logo após o sequestro de Maduro, Trump deixou claro que governará a Venezuela e levará Washington para Caracas e que só quando a situação estiver estabilizada, com a extração de petróleo a todo vapor, é que fará uma transição política, seja lá o que isso posso significar.

A invasão da Venezuela não é um ato isolado, apenas para cumprir objetivos localizados. Os EUA estão provando ao mundo que estão no jogo, dispostos a ir a uma grande e universal guerra. Com suas ações, Trump traz à tona as Ideias Base da Dominação estadunidense em um contexto de preparação para guerras mundiais e de reafirmação da aliança entre a extrema direita e o ultraliberalismo. Como bem disse seu fiel amigo, Elon Musk: "Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso". Ao invadir um país latino-americano, os EUA estão dizendo ao mundo: “Vamos fazer a guerra com quem bem quisermos! Lidem com isso!”.

 



[i] SCHILLING, Voltaire. EUA X América Latina: As Etapas da Dominação. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991,