segunda-feira, 31 de outubro de 2016

“UM CONVITE A UTOPIA”


“Vamos Utopiar?” Esse é o convite (eu diria uma convocação) que nos fazem os editores do Projeto “UM CONVITE A UTOPIA”. Cidoval Moraes, que organiza o primeiro volume e é um dos seus editores, nos diz: “Há quase um ano fiz um convite a todos para uma insurgência – “Utopiar”. O convite permanece aberto, com uma novidade: já temos o primeiro produto das reações que recebemos de insurgentes de diferentes lugares, e que tenho a alegria de compartilhar com vocês”.

Para celebrar o surgimento de tão interessante produto coletivo, teremos seu lançamento oficial na Paraíba no próximo dia 04/11/2016 (sexta-feira) no auditório da Biblioteca Central da Universidade Estadual da Paraíba, no Campus de Campina Grande, às 14 horas. O lançamento do Projeto Convite à Utopia contará com uma palestra do professor Adalmir Leonídio (USP), um dos autores do Volume 1. O tema da palestra será “Utopias para um mundo melhor”.

O projeto foi concebido para acesso público e gratuito. Por esta razão, este convite segue acompanhado de uma tarefa que os editores nos atribuem: o compartilhamento do texto para leitura crítica e discussão com pessoas, grupos, redes, movimentos que possam nos ajudar a disseminar o espírito “Utopiar”.




Abaixo temos uma nota técnica, a título introdutório, dos editores do projeto “UM CONVITE A UTOPIA”.


A coleção Um Convite à Utopia insere-se no contexto das comemorações dos 500 anos do lançamento do livro A Utopia (1516), de Thomas Morus. Trata-se de projeto editorial de natu­reza pública e coletiva, capitaneado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), com apoio da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU) e uma série de insti­tuições acadêmicas, científicas e culturais nacionais e estrangeiras. Pretende-se, de um lado, resgatar obras/textos que marcaram a construção da utopia como um projeto de contraposição a um mundo injusto e desigual; e, de outro, estimular a atualização da utopia, a partir de construções inéditas e provocadoras, arti­culadas em uma rede de esperanças. A ideia é que cada autor ou coletivo de autores, a partir de seu lugar de vida/mundo, produza um ensaio instigante, recuperando a necessidade de des­pertar do sono profundo em que se encontra o espírito utópico. Contemplam-se contribuições envolvendo a utopia que discutam obras/autores clássicos e contemporâneos; problematizem o coti­diano, a cultura e a totalidade; reflitam sobre o meio ambiente e os territórios de vida, cidadania, ética, justiça, tolerância; revi­sitem a história, economia, política, filosofia, teologia e magia; em suma, comunguem das lutas abertas à esperança. Trabalha-se, por opção, com o conceito agência solidária. Autores, editores, técnicos, distribuidores, apoiadores, divulgadores, enfim, todos se integram num propósito: colaborar, com ações criativas, para que a obra alcance o maior número de pessoas, ao menor custo possível. Cada volume será disponibilizado nas versões impressa e eletrônica e, com a contribuição dos associados e parceiros, tem-se por certo a constituição de uma grande rede de popularização e apropriação social deste Convite, no Brasil e no mundo. É um projeto aberto que enseja captar desejos, sonhos e movimentos em razão de um mundo novo; vontades e capacidades inequí­vocas de pensar e agir; uma práxis coletiva que contribua para eliminar, de vez, as sombras que têm ameaçado o amanhecer, particularmente, na América Latina. Que este Convite se pro­jete como uma força mobilizadora das energias emancipatórias da humanidade.
Os Editores

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

CALAR JAMAIS





#CALARJAMAIS: CAMPANHA DENUNCIA VIOLAÇÕES À LIBERDADE DE EXPRESSÃO



A liberdade de expressão é um direito fundamental, base de toda
sociedade democrática. Não à toa, em tempos de avanço do conservadorismo e de
ruptura democrática em nosso país, as violações à liberdade de expressão têm se
intensificado. Da repressão aos protestos de rua à censura privada ou judicial
a conteúdo nas redes sociais, passando pela violência contra comunicadores,
pelo desmonte da comunicação pública e pelo cerceamento de vozes dissonantes
dentro das redações, nossa diversidade de ideias, opiniões e pensamentos tem
sido sistematicamente calada.

Para chamar a atenção da sociedade para a seriedade de tais
violações, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, em parceria com
diversas organizações da sociedade civil, lança a campanha “Calar jamais!”. Por
meio desta plataforma, queremos receber denúncias de violações que ocorram em
todo o país e dar maior visibilidade a esse problema.

Se solicitado, as informações sobre os denunciantes ficarão
anônimas. Um grupo de especialistas e organizações que trabalham com o tema da
liberdade de expressão analisarão os casos recebidos e, confirmada a violação,
as informações serão divulgadas. O FNDC não dispõe de estrutura para acompanhar
os casos individualmente, prestando assistência jurídica às vítimas de
violações. Mas a campanha encaminhará as denúncias confirmadas para todas as
autoridades competentes – dentro e fora do Brasil – dando ampla divulgação aos
casos.

Contamos com a sua participação para divulgar a campanha “Calar
jamais!” e, principalmente, para denunciar as violações em curso. Participe
aqui: http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/fndc-lanca-campanha-calar-jamais/


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

CAMPINA SÓ QUER SER NEW YORK

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Campina Grande surgiu como a “Vila Nova da Rainha” para atender necessidades da Coroa Portuguesa. Nosso “descobridor” foi Teodósio de Oliveira Ledo - um raivoso serial killer que matou tantos índios na região da grande campina que a própria coroa lhe enviou carta pedindo moderação.  Caso similar só o do General George Custer que, no século XIX, foi repreendido pelo governo dos EUA pela carnificina que promovia no oeste americano. Mandaram Custer controlar os índios e ele passou a exterminá-los tal qual Teodósio.



Certa vez falava disso em sala de aula e um aluno disse que sou um “campinense que não deu certo”. Tenho lá meus sentimentos em relação à cidade onde nasci, me criei, constitui família, onde vivo, moro e trabalho. Mas, disse também que isso não significa que tenha que fazer declarações de amor a minha cidade, muito menos fechar os olhos para os problemas e defeitos que temos. Uma coisa é ser campinense. Outra, bem diferente, é ser um “campinista” desses que acham que Campina Grande irradia para o mundo o trabalho, o desenvolvimento e a paz. Campinista de quatro costados é aquele que chora ao ver uma reportagem sobre nosso São João no Fantástico da Rede Globo.



Mas, confesso, não gosto que falem mal de Campina Grande. É que para criticar Campina tem que ter bebido das águas do Açude Velho e tem que ter ido, pelo menos uma vez, no Clube Ipiranga. Só censura Campina quem, nas sextas-feiras, ia ao Clube dos Estudantes Universitários, o “CEU”. Só pode depreciar Campina quem saía do “CEU”, atravessava a rua, entrava no “CAVE” de Carlinhos e depois tirava a pé, com o dia amanhecendo, lá para o Catolé para ouvir o Bolero de Ravel no REFAVELA de Bel.



Resultado de imagem para clube dos estudantes universitários CEU campina grandeEu aceito que você esculhambe Campina se e somente se, pelo menos uma vez, saiu do REFAVELA e foi a pé, claro, para a Feira Central comer picado de bode com pão e tomar umas lapadas de cana em D. Maria do picado, lavando tudo com cerveja no final. E se não tiver comido a tapioca de queijo de coalho com manteiga da terra de D. Maria é melhor nem abrir a boca. Para mandar ver em Campina tem que ter ido ao Açude de BODOCONGÓ, no tempo em que ele era um açude, e que fazia Jackson do Pandeiro cantar “Eu fui feliz lá no Bodocongó com meu barquinho de um remo só / Quando era lua, com meu bem, remava a toa / Ai, ai, ai que vida boa lá no meu Bodocongó”.



No final dos anos 1980 Gilberto Gil veio aqui lançar o Movimento Onda Azul. Numa entrevista, ele disse que “Campina Grande tem uma vontade danada de ser New York”. Muita gente não gostou. Alguns diziam: “quem ele pensa que é para vir falar mal de nossa cidade”. Eu fiquei com raiva. Lembro ter dito: “porque ele não vai falar mal de Salvador?”. Hoje, olhando em perspectiva, entendo o que Gil quis dizer. É que o campinense é um enxerido por natureza e exibido por definição. Se não fosse essa vontade de ser New York, de ser grande, onde estaríamos hoje? Campinense que é campinense não tem o complexo de vira-latas do qual nos falava Nelson Rodrigue.



Campinense da gema nasce aprendendo a lamber suas feridas, não esquece nossa vocação para o desenvolvimento e que exalamos política e cultura por todos os poros.  Não fosse nosso complexo de superioridade seríamos quase insignificantes. Como teríamos conseguido ser a segunda maior exportadora de algodão do mundo se sofrêssemos de um irremediável complexo de inferioridade? Eu sei que temos que conviver com o fato de sermos vice-campeões. Mas, dá para concorrer com Liverpool que deu os Beatles ao mundo? Tudo bem, ficamos em 2º lugar no algodão, mas quem, no Nordeste, se desenvolveu mais graças um produto agrícola?



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Um dos símbolos dessa época de apogeu foi um cabaré, mas não um cabaré qualquer. Foi no salão do Eldorado que desfilou a riqueza que os tropeiros traziam para Campina. Foi isso que Luiz Gonzaga cantou em “Tropeiros da Borborema”. Aliás, o rei do baião nasceu em Exu (PE), mas bem que poderia ter nascido aqui. Assim teríamos mais uma coisa do que nos orgulhar. Já pensou podermos dizer que somos da terra do “Rei do Baião”?


Temos o Maior São João do Mundo! Olha aí nosso complexo de superioridade à flor da pele. É como se olhássemos de cima para baixo para todo o Brasil e disséssemos: “somos os fiéis depositários da cultura popular tupiniquim”. Dai que a prefeitura municipal bem que poderia se valer dessa vontade danada de ser New York. Bem que poderia colocar um portal colossal, à entrada de quem vem da capital, anunciando não uma marca de cervejas, mas que se está chegando à cidade que faz a maior festa popular do mundo, quiçá da Via Láctea. Quem tem complexo de superioridade não deve ter vergonha de nada. Temos que nos orgulhar até dos nossos problemas urbanos, pois só os tem quem é grande. Agora, que estamos em período eleitoral, decidi que vou votar naquele que prometer que vai transforma Campina Grande na New York do sul do Equador.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Brasileiro, este ser de mente obscura


Em 1945 os soviéticos foram os primeiros a entrar na Berlim destruída pelos combates da 2ª guerra. Enquanto oficiais caçavam nazistas, soldados estupravam mulheres. Cerca de dois milhões de alemãs foram violentadas. Stálin nada fez, pois os russos viam o estupro como uma “necessidade do homem” e como forma de subjugar o inimigo já derrotado. Na Guerra do Vietnã, soldados americanos costumavam estuprar as vietnamitas. O governo e a sociedade americanos fecharam os olhos para esse estado de coisas. É que várias sociedades, cada uma a seu modo, aceita o estupro.



Parte de nossa sociedade tem um jeito peculiar de lidar com a violência contra a mulher. Em 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que 26% dos brasileiros acreditam que a “mulher que exibe seu corpo merece ser atacada”. Vimos com provas, não com convicções, que o estupro é legitimado entre nós. O IPEA demonstrou que muitos creem que “se a mulher se comportasse, haveria menos estupros”. Agora, o Fórum Brasileiro de Segurança Publica (FBSP) trouxe dados atualizando nossa mentalidade obscura. Como nada é tão ruim que não possa piorar, vemos que 30% dos entrevistados concordam que a “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”. Pior, é que 37% aceitam a ideia anacrônica, tosca, de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”.


Envergonha-me compartilhar minha nacionalidade com pessoas que fingem não saber que é crime tentar ou manter relações sexuais com uma mulher sem que ela consinta. É como se a mulher gostasse de ser violentada e provocasse o homem para que ele lhe atacasse. A ideia de que um padrão de comportamento, determinado à mulher pela sociedade, evita que ela seja estuprada é de uma estultice colossal. Quase 40% dos brasileiros dizem: “dê-se ao respeito e não serás estuprada”. Assusta-me saber que há quem concorde com tal parvoíce. Com temperaturas tão altas, a mulher tem que usar roupas compostas para não ser violentada?


O FBSP conclui que existe um discurso socialmente aceito que considera que a mulher só é vítima de agressão sexual por que provocou o homem. Isso se comprova com 30% das mulheres entrevistadas concordando com o raciocínio que coloca nelas a culpa pela violência sexual. Ou seja, vítimas em potencial aceitariam serem responsabilizadas pelo estupro. Nada a estranhar, pois o machismo não é exclusivo do homem. É comum mães questionarem suas filhas se de alguma maneira elas não contribuíram para serem estupradas.


Em 2014 o IPEA revelou que 82% dos brasileiros concordaram que “o que acontece entre o casal em casa não interessa aos outros”. Seguimos achando que em briga de marido e mulher não se mete a colher. A maioria de nós entende que não se deve intrometer no caso do marido espancar sua esposa desde que isto aconteça no santo recesso do lar. O primado do homem sobre a mulher ainda é aceito por nós. Seguimos sendo os trogloditas de sempre!


Assisti o documentário “Half the sky” (O céu pela metade), produzido para televisão americana, filmado em países como Camboja, Índia, Somália e Afeganistão, que trata de mulheres vítimas de coisas como tráfico de pessoas, violência sexual, fome, guerra, escravidão. É desesperador ver que, em nome da tradição, mulheres são estupradas e prostituídas pelos seus pais e maridos. Mostra, por exemplo, a depauperante tradição da infibulação. Um hábito medieval desprovido de racionalidade.


No filme vi um mundo que nós, brasileiros, queremos ignorar. Sempre se poderá dizer que quase tudo que nele se vê não acontece aqui. É verdade, não acontece, pois nos deixamos influenciar, de leve é bem verdade, por valores da democracia, em que pese uma cultura autoritária que nos faz saudosistas da ditadura militar. Estamos longe de uma Somália ou de um Afeganistão, mas não podemos nos comparar aos países que mais evoluíram em termos de direitos sociais e na redução das taxas de desigualdade. Estamos, sim, bem mais próximos de uma Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher. Vejam que aqui, como lá, ainda se pratica o tal estupro coletivo, tal qual faziam soldados russos e americanos.


IPEA e FBSP concluem que a brasileira ainda não se equiparou econômica, política e socialmente em relação ao brasileiro. O IPEA viu que 65% dos entrevistados concordam que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Muitos ainda acham que “só um tapinha não dói”. Houve um erro na apresentação dos dados do IPEA. Mas, isso não diminui o sentido nem retira a seriedade do estudo, pois a questão não é apenas quantitativa. Importa menos se duas mil ou dois milhões de pessoas concordam que é a mulher quem provoca o estupro. Enquanto tivermos um único brasileiro pensando assim, temos muito com que nos preocupar. Não basta supor que “nada tenha haver com isso já que não concordo com essas opiniões”. Se onde vivo têm pessoas legitimando o estupro tenho, sim, haver com isso.


Como exemplo, vejamos o caso da Paraíba onde a realidade confirma os dados do IPEA e do FBSP. O Centro da Mulher 8 de Março, de João Pessoa, nos mostrou que, por mês, sete paraibanas são estupradas. A ONG, que acompanhava mulheres violentadas, dizia que entre o início de 2010 e novembro de 2015 foram registrados 556 estupros na Paraíba, sendo que 65,4% dos casos foram contra crianças e adolescentes. Sempre lembrando que os números são ainda maiores, pois nem todas as vítimas vão à polícia. Será que somos tão diferentes da realidade vista em “Half the sky”?


E para quem acha que só mulheres lindas, sensuais, que andam com trajes minúsculos, são estupradas informo que metade das vítimas da violência sexual são menor de idade. Para o Programa Bem-me-quer de São Paulo, mais da metade das vítimas de estupro, em 2013, tinha até 11 anos de idade. Isso se alinha ao estudo do IPEA que mostrou que crianças seguem sendo alvos preferenciais dos estupradores e que a maioria dos casos contra crianças acontecem mesmo é no ambiente familiar. Se você é um dos que acha que é a mulher quem pede para ser estuprada sugiro que tente perceber que por trás de sua mãe, sua irmã, sua filha, sua esposa ou sua namorada existe uma mulher que, com certeza, não quer ser estuprada.


Outubro/2016.

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