LIVROS ILUSTRAM A VIDA

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sexta-feira, 21 de junho de 2013

“EU NÃO SEI BEM O QUE QUERO, MAIS SEI EXATAMENTE O QUE NÃO QUERO MAIS”.



Aconteceu de repente! Sem que se saiba o que, como e porque as pessoas foram às ruas para protestarem contra o aumento das passagens dos ônibus e contra a péssima qualidade do transporte público. Na verdade, sabemos como aconteceu. As pessoas começaram a reclamar do aumento abusivo das tarifas, pelas redes sociais, e logo se propôs que todos fossem protestar nas ruas.

As redes sociais cumpriram um papel político. Elas são eficientes para que se divulguem ideias, propostas e protestos, além de muita baboseira, infelizmente. Nós, a sociedade, sabemos disso. Quem ainda não entendeu nada foi nossa elite política que parece só saber se comunicar com o povo por cartas. Aliás, chega a ser prosaica a forma como a elite política lida com a situação. Tal qual cangurus aflitos, se enterram em seus gabinetes esperando o furacão passar. Alguns, com um senso de oportunidade e de sobrevivência mais apurado, dizem que são a favor das manifestações desde que de forma ordeira. Não tem jeito, neste país “Ordem e Progresso” segue sendo a grande verdade. Claro, muitos esperam que a polícia resolva tudo seguindo a velha lógica de que manifestação é coisa da polícia, não da política.

E que não se diga que o preço das manifestações são os míseros R$ 0,20 referentes ao aumento das tarifas. Claro, que aumentos repercutem na renda mensal do trabalhador. Mas, a motivação para os protestos não é unicamente econômica, apesar de ter pessoas lembrando que a inflação voltou a nos assombrar. O fato é que o que importa mesmo é protestar, tirar fotos das manifestações e coloca-las em alguma rede social. A principal característica dessas manifestações é a difusa “pauta” de reivindicações. Protesta-se contra tudo e contra todos. É como se cada manifestante tivesse uma pauta própria de reivindicações. É como se cada um fosse uma ilha cercada de reivindicações por todos os lados.

Vi no santo oráculo de nossos dias (Google/You Tube) alguém com a máscara do "V da Vingança” falando em uma pauta de cinco pontos que justificariam as manifestações. Uma voz metálica ridícula, com um fundo musical piegas, diz que é preciso definir pontos já que a mídia acusa os manifestantes de não terem uma causa específica. O mascarado diz que a diminuição das passagens dos transportes públicos não satisfaz e que por isso mesmo “causas diretas” são levantadas.

Diz ainda que não deve haver polêmicas religiosas ou ideológicas, coisa que o pessoal na rua não deve concordar do contrário não estaria protestando contra o “Projeto da cura gay” de Marco Feliciano. Seriam cinco as causas para o movimento: (1) Não a PEC 37 (que quer retirar o poder de investigação do Ministério Público); (2) saída Renan Calheiros da presidência do Senado Federal; (3) imediata investigação das irregularidades nas obras da Copa do Mundo; (4) criação de uma lei que torne a corrução crime hediondo; (5) o fim do foro privilegiado por ultrajar o artigo 5º da Constituição Federal.

Mas, as manifestações contrariam os que tentam lhe dar alguma orientação. Fala-se na legalização da maconha, dos direitos para os homossexuais e para as vagabundas, critica-se a Rede Globo e a mídia em geral, se atacam personalidades da vida pública nacional, pede-se para que a Copa do Mundo não seja mais realizada no Brasil, fala-se em mais amor, mais respeito e até mesmo nos valores da família. O que os manifestantes querem dizer é: “se você tem algo a reclamar junte-se a nós”. Por isso que eles tomaram para si o slogan da Caixa Econômica Federal, “VEM PRÁ RUA VOCÊ TAMBÉM, VEM!”, e usurparam aquele que diz que “A RUA É A MAIOR ARQUIBANCADA DO BRASIL”.




As manifestações são a confluência de toda sorte de insatisfações, revoltas e vontades represadas. Elas acontecem com pelo menos 30 anos de atraso, pois não é de hoje que coisas erradas acontecem e nada fazemos, fazemos pouco e/ou equivocadamente. A questão é: porque foram os aumentos das tarifas de ônibus que detonaram o processo? Porque nossa histórica desigualdade social e econômica não serviu para iniciar uma revolta popular? Porque a corrupção, que revira as instituições pelo avesso, não fez a massa explodir em fúria? Porque não protestamos pela nossa violência de cada dia? Porque foram aqueles parcos R$ 0,20, e não os R$ 28 bilhões que o governo federal está torrando com a Copa do Mundo, que tiraram a massa de sua irritante letargia? Como diria o antropólogo Roberto DaMatta, o Brasil não é mesmo um país para principiantes, pois vá entender o que se passa na cabeça de um povo que se deixa roubar por anos a fio e depois se rebela por causa de uma quantia irrisória.

Como não temos respostas para tantas perguntas vejamos o que pode nos oferecer algum conforto nesse mar de incertezas. A primeira é no que exatamente vai dar tudo isso. Eu não sei, ninguém sabe, pois a hora é de protestar. Os manifestantes estam indo às ruas não para dizer o que querem. O que desejam é chamar a atenção da sociedade e do governo para tudo que não mais suportam.

Vejam que na questão do transporte público surgiu a interessante e inteligente palavra de ordem: “SE É PÚBLICO, PORQUE É PAGO, SE É PAGO, PORQUE É TÃO RUIM?”. Aliás, a fraseologia dessas manifestações é fantástica. Vi um manifestante com um cartaz que dizia que “NOSSA VITÓRIA NÃO SERÁ POR ACIDENTE”. Além do excesso de confiança, existe a ideia de que há uma causa e que ela é justa. Concordo. Existe uma causa. Mas, qual?

É preciso lembrar que o Brasil não é uma ilha. Pelo mundo afora as manifestações vem acontecendo sistematicamente. Aconteceu no Oriente Médio, pela Europa e até mesmo nos EUA. Agora mesmo vimos o caso da Turquia. Se os jovens que vivem em ditaduras fundamentalistas no Oriente Médio conseguiram ir às ruas, porque os nossos que vivem numa democracia não iriam? Certo, nossa democracia é frágil e meramente eleitoral, mas é já é alguma coisa.

Essas manifestações podem ensinar que o oxigênio da democracia é a participação política da sociedade, excetuando, claro, o vandalismo. As manifestações trazem o povo às ruas depois de tantos e tantos anos adormecido. O problema é que não é fácil acordar de um sono profundo. Se desperta com a visão turva, com a audição dispersa e a mente embaralhada. Passamos tanto tempo sem nos mobilizarmos que agora não mais sabemos como se faz.

Por causa das ações tresloucadas dos vândalos vi a seguinte postagem no Twitter (SIC) “O gigante acordou, tropeçou e caiu de cara no chão”. Agora mesmo assisto, incrédulo, estultos manifestantes atirando pedras e tentando invadir o Palácio do Itamaraty (em Brasília) que vem a ser um patrimônio mundial da arquitetura, um obra de arte concebida por Oscar Niemeyer. Se era para o gigante acordar dessa forma, melhor que continuasse dormindo em seu berço esplêndido. Esse tipo de coisa só leva a um distanciamento ainda maior da democracia e causa uma sensação de incredulidade em relação a capacidade das manifestações ocasionarem mudanças e transformações.

Uma frase numa camiseta de uma manifestante dizia: “LIBERDADE É POUCO, EU QUERO O QUE AINDA NÃO TEM NOME”. Eis o melhor slogan das manifestações, pois deixa claro que ainda não se sabe o que se quer. Mas, vemos manifestações politizadas que lembram os confrontos com a ditadura militar. Vi cartazes com o famoso trocadilho de Chico Buarque: “AFASTA DE MIM ESTE CALE-SE”. Só que o “cale-se” é o verbo não o copo. E tem a frase que traz a boa vontade da juventude que é ao mesmo tempo ingênua, como tem que ser, e realista, pois são os jovens que buscam as transformações. Diz ela: “DESCULPE OS TRANSTORNOS, ESTAMOS MUDANDO O PAÍS”.

Tem uma dessas frases que eu, por puro corporativismo, adorei: "BRASIL, VAMOS ACORDAR, PROFESSOR VALE MAIS QUE NEYMAR”. Aliás, valemos muito mais do que essa Copa estulta e esse nacionalismo sem discernimento algum. Algumas das imagens da TV me enchem de esperança, pois antes de qualquer coisa sou um cidadão que também quer mudanças. Mas, a racionalidade do analista me faz lembrar que é preciso ter calma, pois tudo o que é sólido pode vir a desmanchar no ar. Em algum momento a sociedade, e os próprios manifestantes, vão se cansar disso tudo, então precisaremos de muita habilidade políticas para que os benefícios das manifestações sejam maiores do que os custos.

Minha esperança é que as manifestações ponham um fim neste conformismo verde-amarelo estulto que temos. Se as manifestações possuem força suficiente para fazer o gigante adormecido despertar de vez eu não sei, ninguém sabe. O que sei é que os protestos podem reacender meu otimismo a muito suplantado por um realismo insurportavelmente pessimista.





Entrevista sobre as manifestações no Itararé Notícias de 19 de Junho de 2013.



Entrevista com o cientista político Gilbergues Santos, na TV ITARARÉ de Campina Grande-PB, analisando as manifestações pelo Brasil afora que estam acontecendo nesta semana.

A entrevista foi concedida ao jornalista Anchieta Araújo, no Itararé Notícias de 19/06/2013, sobre o calor dos fatos, sem que se possa fazer uma análise mais aprofundada deles, pois a função do analista político é mesmo atender as demandas da imprensa e da sociedade no momento em que os acontecimentos estam se dando.

Uma ideia central da entrevista foi destacar que as manifestações demonstram que a possibilidade de se mobilizar politicamente é algo amplamente possível e que a participação política é o oxigênio da democracia. A questão não era se deter no atos de vandalismos midiáticos e sim analisar o fato do ponto de vista da nossa realidade política.

ÚLTIMO ARTIGO PUBLICADO

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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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