quinta-feira, 17 de abril de 2014

VOCÊ LEMBRA EM QUEM VOTOU NA ÚLTIMA ELEIÇÃO?


Se considerarmos, única e exclusivamente, que votar é o ato pelo qual se contrata a representação política, devemos, então, aceitar que esquecer os nomes daqueles em quem se votou na última eleição é, no mínimo, um contrassenso. Como é que se esquece o nome da pessoa com quem se contratou algo? Imagine assinar um contrato de locação, de um imóvel, e esquecer o nome do locatário? Isso é mesmo possível? É aceitável? Mas, por acaso, não é isso mesmo que acontece quando o cidadão-eleitor contrata um representante? Se não é bom esquecer o nome de quem contratamos um serviço, porque pode ser bom esquecer o nome do cidadão-representante?

O fato é que é comum as pessoas esquecerem em quem voltaram na última eleição. Em geral, justifica-se que “político é tudo igual e que é melhor mesmo esquecer o nome deles”. Se os políticos são todos iguais, o nome deles é o que menos importaria. Já ouvi pessoas dizerem que são tantas eleições e que temos que votar em tantos candidatos que termina sendo normal o esquecimento. Já ouvi que se nossa função é tão somente votar, porque deveríamos lembrar o nome de quem elegemos? Mas, eu não vejo o esquecimento como fruto da apatia política ou mesmo por uma atitude irresponsável do eleitor. Chego mesmo a desconfiar dessas justificativas dadas. Elas não me parecem críveis, além do fato de representarem certo comodismo.

Na verdade, o esquecimento se dá pelo fato das pessoas tratarem a política como algo distante delas. A maioria dos cidadãos não se vê fazendo parte do mundo onde as decisões são tomadas. É como se o eleitor escolhesse os que vão entrar num mundo que é proibido para ele mesmo. Parece que o eleitor se conforma bem com a situação de poder escolher quem vai entrar neste mundo a parte, mesmo que seja proibido de participar dele. O esquecimento é fruto de uma perversão de nosso sistema político que consagra o ato da escolha dos representantes como mais importante e relega o momento da representação a um segundo plano bem distante.

De fato, nos acostumamos a participar, animadamente é bom que se diga, das campanhas eleitorais e do ato da votação. Mas, não temos a menor ideia do que fazer em relação ao mundo da representação, ao parlamento, por exemplo. O problema é que não participamos do processo seguinte à eleição. Talvez, por não termos 0 hábito ou porque não gostamos, preferimos nos eximir de nossas funções de contratantes da representação. Historicamente não fomos acostumados a atentar para quando os representantes tomam posse em seus cargos e vão trabalhar, pelo menos teoricamente, em nosso nome para decidir coisas que dizem respeito a nós mesmos.

 

Esquecemos rapidamente em quem votamos porque desconhecemos o que fazer para acompanhar a atuação do nosso representante. Esse esquecimento é, na verdade, uma válvula de escape para nós que vivemos em uma sociedade pouco democrática. Claro, é providencial para muitos políticos que seus eleitorais esqueçam mesmo que votaram neles. Assim, ficam livres para atuarem do jeito que bem quiserem. Apesar de que, eles vão sempre precisar reavivar a memória do eleitor de quatro em quatro anos. Imaginem que qualquer um desses políticos, enredados nas teias da corrupção, precisem contar com o esquecimento de seus eleitores para que possam, no futuro, voltar a pedir o voto deles.

Se o eleitor restringe sua participação, no sistema democrático, ao ato de votar está, sim, assinando um enorme cheque em branco para o político que elegeu. O nosso sistema funciona na base do jogo de soma-zero. É tudo ou nada. Não tem meio termo. Mas, do contrário, se o eleitor acompanha o comportamento político do eleito, fiscalizando seus atos e até denunciando eventuais práticas irregulares a coisa muda de figura. Isso é muito difícil? Ou mesmo é impossível? Não, por favor, não me digam que não há como fazer isso. Se foi possível demandar ao legislativo a lei da ficha limpa, dá para usar os mecanismos de controle disponíveis. Sim, é possível acompanhar a atividade de nossos representantes.

Afinal, vivemos na era da informação. Se os ditadores do Oriente Médio não conseguem bloquear totalmente a informação, o que dirá nossos governantes com todo o aparato informacional que dispomos? Pela internet, pela TV, pelo jornal, pelo rádio é possível acompanhar as sessões legislativas. Assim ficará mais difícil você esquecer em quem votou na última eleição.  Em todo caso, uma busca em sites, do próprio governo, pode ser útil, basta querer.

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

AFINAL, QUEM É RICARDO COUTINHO?

Ricardo Coutinho foi eleito governador da Paraíba, em 2010, sob condições adversas. Numa onda de continuísmos, tivemos a mudança. Ao invés de José Maranhão, os paraibanos preferiram Ricardo que representava o novo, a mudança. Numa eleição difícil, ele esteve sempre em 2º lugar. A virada só se deu nos últimos dias e de nada adiantou lançar panfletos apócrifos dizendo que o “mago” tinha feito um pacto sinistro com as forças ocultas do mal. A transição foi das mais complicadas. Ricardo Coutinho dizia não ter acesso às informações. Várias vezes ele afirmou que o então governo José Maranhão lhe sonegava dados. Maranhão, por sua vez, dizia que o governador eleito não queria dialogar.

Veio a posse e todos deram a Ricardo o benefício da dúvida. A oposição lhe deu três ou quatro meses iniciais sem pressioná-lo. Aqui mesmo em Campina Grande se deu bem mais tempo, até por causa da influência da aliança com o PSDB de Cássio Cunha Lima. Mas, eis que as contradições “ricardistas” vieram à tona. Como governador, Ricardo Coutinho abandonou, de uma só vez, as características do parlamentar que foi sempre afeito ao diálogo, ao debate e ao convencimento político. Como vereador e deputado estadual, Ricardo foi um intransigente defensor do diálogo e da participação da sociedade nas questões político-institucionais. Mas, como governante, passamos a ver em ação um político dado a atos unilaterais.

Um bom exemplo disso foi quando Ricardo Coutinho, como prefeito de João Pessoa, atropelou a tudo e a todos e decidiu, unilateralmente, que Luciano Agra seria seu lugar-tenente na prefeitura da capital do Estado. Surpreendeu ver Ricardo Coutinho desestimulado ao diálogo. Como governador, ele se tornou absolutamente indisposto a ouvir os que o cercavam. No poder executivo, Ricardo adotou o estilo de tomar decisões passando ao largo dos aliados. Causou, e eu não sei se ainda causa, estranheza o fato de Ricardo Coutinho ter mudado tão rapidamente a relação política com as forças e lideranças paraibanas. Ricardo, que tinha alta capacidade para atrair aliados pela via do diálogo, mudou sua estratégia.

 É bom não esquecer que ele já foi aliado e adversário de José Maranhão.  E que ele já se colocou como alternativa a todo espectro político paraibano. Recentemente, ele disse que é o avesso, do avesso, do avesso dos políticos da Paraíba. Inclusive, não se descarta a possibilidade José Maranhão vir a apoiar Ricardo Coutinho num provável 2º turno contra Cássio Cunha Lima. Fala-se até que, pelo menos em João Pessoa, Maranhão poderia emprestar algum tipo de apoio a Ricardo já no 1º turno. Claro, não vamos esquecer que Ricardo já foi um crítico do senador Cassio Cunha Lima e que com ele se aliou em 2010. Aliança que, tal qual um gigantesco castelo de areia, ruiu na primeira ventania política e eleitoral que passou.

Para não fugir do script da política, Ricardo montou uma composição líquida para dar sustentação a seu governo. Composição esta a base de água e óleo, por mais que tenha se tentado misturar, cada elemento sempre esteve em uma camada diferente. Ricardo já teve em seu governo todas as colorações partidárias. Desde o extinto “Coletivo Girassol”, passando pelo PPS (para onde costumam ir os muitos desafetos do governador), até o PSDB cassista e o DEM de Efraim Moraes. Mas, que não se reclame da composição água-e-óleo ricardista, já que este é o modelo de governança em nosso país. Quem acreditou que seria diferente, que Ricardo Coutinho agiria de outra forma, atestou uma altíssima dose de 
ingenuidade política.


Aliás, o que afinal aconteceu com o tal “Coletivo Girassol”? Porque aquele sólido agrupamento em torno de ideias políticas, que logrou êxito em levar Ricardo Coutinho ao governo estadual, foi sendo dissecado até que sumisse na paisagem? Na verdade, o Coletivo Girassol era, tão somente, um ajuntamento em torno de um projeto político individualizado, útil até quando legitimou a inserção “ricardista” nas alianças políticas. Apesar de que, em tempos eleitorais, os girassóis sempre podem voltar a brilhar. Ricardo nunca foi dado à vida político-partidária. Sua eloquente personalidade não parece caber em siglas. Lembrem que ele esteve acima do PT, por onde passou.

O tal “Coletivo Girassol” dizia muito da grandiloquente personalidade “ricardista”. Como se sabe, o girassol é uma flor que se move em torno do sol. Ricardo é, ou foi, o sol. Já o tal coletivo girava em torno dele, buscando sua luz orientadora. Mas, parecia que, de alguma forma, isso incomodava o governador. Tanto é que ele resolveu decretar o fim do coletivo. É que, vez por outra, um dos girassóis revolvia querer ter luz própria e passava a questionar os raios enviados pelo rei-sol. Continuará Ricardo Coutinho sendo o sol que, de tão luminoso, a todos ofusca? Ou será que ele se contentará em ser uma estrela, mesmo que de primeira grandeza? O problema é que, agora, existem outros sóis disputando o mesmo céu. E o céu paraibano é pequeno demais para tantos sóis.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

VOCÊ SABE O QUE É ACCOUNTABILITY?


Muito já se disse que uma eleição não deixa de ser o momento pelo qual eleitores julgam o desempenho de governantes e parlamentares. Tem sido comum os políticos afirmarem que vão enfrentar uma eleição plebiscitária. É bem verdade que num sistema político representativo, como o brasileiro, as eleições funcionam como o instrumento mais fácil para se avaliar a atuação dos políticos e de seus partidos. Pelo menos na teoria é assim mesmo. O que mais se espera dos eleitos, e dos eleitores, claro, é que eles tenham em mente que, nas campanhas eleitorais, estão se submetendo a avaliação de seus atos e desempenhos. Por uma lógica mais do que formal, bons representantes devem ser reeleitos.

Por essa ótica, os políticos que correspondem às expectativas de seus eleitores devem seguir no sistema representativo. Já os que decepcionam seus eleitores deveriam ser enviados de volta para os locais de onde saíram. Simples assim. Políticos e eleitores devem, então, atentar para o que, na Ciência Política, chamamos de accountability. Eu já explico o que é isso, mas antes me deixem dizer algo sobre o voto como critério de julgamento. Votar dessa forma significa que o eleitor pondera sobre o comportamento dos governantes e o cumprimento das promessas de campanha para decidir em quem votar. Na verdade, essa é a forma mais coerente de votar.

Se, ao votar estamos contratando a representação, o mínimo que se espera do eleitor é que ele atente para a coerência entre as atitudes de alguém como candidato e, depois, como governante. Claro, espera-se que ele não esteja envolvido em eventos corruptivos. Convenhamos que utilizar esses critérios, para decidir em quem votar, é bem mais interessante do que vender ou trocar o voto. Mas, afinal, o que é accountability? Este termo não possui tradução literal para o português. Mas, seu sentido vincula-se à ideia de “responsabilidade” e “prestação de contas”. Os americanos usam accountability para, dentre outras coisas, responsabilizar uma pessoa pelos seus próprios atos. Políticos, inclusive, e principalmente.

Um bom exemplo para accountability é quando os comerciais de bebidas alcóolicas dizem “beba com moderação”. Eles estam afirmando que se você for imoderado a responsabilidade é sua, tão somente sua. No mundo da política, accountability refere-se, de modo geral, ao relacionamento entre governantes e cidadãos. Principalmente, no que toca aos mecanismos de controle, i.e., os instrumentos que os cidadãos possuem para acompanhar os atos dos governantes. Um sistema político é tanto mais democrático quanto mais seus cidadãos tiverem acesso aos mecanismos de controle que garantem bons índices de accountability. A ideia é que o representado possa ter algum controle sobre o que faz o representante.


O instituto norte-americano de pesquisas “Freedom House” acompanha e avalia o desempenho de regimes políticos em 200 países pelo mundo afora e nos cinco continentes. O “Freedom House” afere os níveis, ou mesmo a inexistência de accountability, através de indicadores como: grau de corrupção, liberdade de imprensa, participação da sociedade civil e lisura nos pleitos eleitorais. Antes que o caro ouvinte me diga que estou vendo coisas, que no mundo real da política brasileira isso tudo não passa de conversa para embalar bovinos, é 
preciso esclarecer que a combinação desses indicadores é de suma importância.



Mas, não basta ter eleições. Se elas não acontecerem com plena lisura e com regras bem definidas, esqueçamos todo o resto. Não é de hoje que afirmo, aqui no POLITICANDO, que eleição é condição necessária, mas não suficiente para se ter democracia. Se não tivermos eleições limpas e competitivas, o cidadão terá seu instrumento (o voto), para punir ou recompensar mandatários, apenas como mera figuração do sistema representativo. Muito se fala que o sistema eleitoral brasileiro é um dos mais eficientes que se tem no mundo. Isso é mesmo verdade, pois vejamos que as democracias consolidadas do mundo buscam copiar nosso sistema de escolha de governantes e representantes.

O problema é que nós aprendemos a valorizar o sistema que escolhe a representação. Mas, não temos a menor ideia do que fazer no momento seguinte que é quando os eleitos vão, de fato, atuar no sistema político. Adianta pouco termos eleições limpas e livres, se não estamos dispostos a acompanhar de perto as atividades de quem elegemos. O accountability deve ser praticado diariamente e não apenas neste momento que tanto gostamos chamado eleição.

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

E O OSCAR DE MELHOR POLITICO COADJUVANTE VAI PARA...

No cinema, o ator coadjuvante é aquele que tem papel secundário, em que pese estar sempre por perto do ator principal. Ao contracenar com a estrela do filme, o coadjuvante dá suporte e contribui para que a trama se desenrole. Com suas interferências, o coadjuvante pode contribuir de forma decisiva para que o papel principal se desenvolva bem para transmitir suas mensagens e ideias. É comum, inclusive, o coadjuvante roubar a cena e ofuscar o papel principal. Nos filmes do Cavaleiro das Trevas os coadjuvantes se apoderam da trama. Vejam, por exemplo, que os atores Heath Ledger, o Coringa, e Michael Caine, o mordomo Alfred, nos dão a sensação que poderíamos passar sem Christian Bale, que faz o Batman.

Assim é na política partidária eleitoral. Os principais partidos e atores políticos se tornariam estrelas menores não fossem os pequenos e médios partidos. O espetáculo da política eleitoral seria bem diferente não fossem os coadjuvantes de toda sorte. Quem não lembra as eleições presidenciais de 2010 quando Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio, como coadjuvantes, roubavam a cena de Dilma Rousseff e José Serra, os atores principais daquela eleição. Lembro-me bem de Marina e Plinio, naquele último debate da TV Bandeirantes, polarizando a discussão, com boas provocações, fazendo Dilma e Serra se calarem numa espécie de silêncio pré-programado e pré-combinado. Imaginem como seriam as eleições se em cada uma delas tivéssemos um Plinio de Arruda Sampaio. Com todo aquele bom humor provocativo e suas ironias cortantes, ele desempenhou, com maestria, o papel do coringa coadjuvante roubando a cena.

Numa eleição, tão importante quanto às conversas no palco principal, que definem quais são os candidatos aos cargos majoritários, são as articulações de bastidores onde se resolve quem apoia quem, porque apoia e, principalmente, para que apoia. Numa eleição todo e qualquer partido se autovaloriza na medida em que empresta não apenas votos, mas, principalmente, aqueles minutinhos, na propaganda eleitoral, que vão sendo somados ao tempo do partido que encabeça a chapa ao cargo majoritário. Os pequenos e médios partidos bem sabem que não podem pleitear a cabeça de uma chapa numa eleição para governador, mas sabem, também, que um grande partido sem os apoios das pequenas agremiações está fadado ao fracasso nas urnas.

Neste caso, a regra é clara: apoios são bem vindos, e retribuídos com cargos, se o projeto eleitoral vingar nas urnas. Mas, os coadjuvantes barganham de tudo um pouco e, às vezes, um muito também. O bom coadjuvante é aquele que sabe valorizar seu passe. Nas eleições de 2012 partidos com pouca ou nenhuma representação parlamentar souberam oferecer bem seus papeis de coadjuvantes. Vejam que a coligação que elegeu o prefeito Romero Rodrigues era composta de nada mais nada menos do que dez partidos. O partido coadjuvante não encabeça a chapa majoritária. Também não ocupa as principais secretarias governamentais. O bom coadjuvante é aquele que sabe o tamanho de sua participação e que não pede nem mais nem menos do que realmente vale.

Coadjuvantes de primeira grandeza barganham uma vaga na disputa para o Senado Federal ou o cargo de vice na chapa majoritária. Coadjuvantes menores pedem vagas nas composições que disputarão cadeiras no parlamento federal e estadual. Claro, os coadjuvantes existem para maximizar os interesses de seus chefes políticos. O Partido Republicano tenta encaixar o Deputado Federal Wellington Roberto numa vaga de Senador ou vice-governador, seja de Ricardo, seja de Cássio, seja de Veneziano. O PTB quer o mesmo para o ex-senador Wilson Santiago. O “Democratas”, de Efraim Moraes, só apoia quem lhe garantir um desses dois cargos. O PSD, do vice-governador Rômulo Gouveia, tem uma situação melhor a ponto de só querer a vaga de senador.

 

O jogo é assim mesmo, os coadjuvantes aceitam participar de qualquer tipo de roteiro, pode ser drama, pode ser comédia, pode ser ficção, desde que possam atuar na condição em que o ator principal precisa deles para desempenhar seu papel. Existem dois tipos de coadjuvantes. Tem os que são por livre e espontânea vontade, é o caso do PT paraibano que costuma abrir mão da possibilidade de ascender ao lugar de ator principal. Vejam que a candidatura de Nadja Palitot já foi retirada para atender a interesses exógenos. E tem os que são coadjuvantes porque ainda não conseguiram reunir uma determinada quantidade de poder de forma que possam deixar de ser “barganhadores” para serem “barganhados”.  Um dos dilemas nas eleições paraibanas deste ano é saber que atores políticos desempenharão o papel de coadjuvantes. No entanto, o Oscar de melhor coadjuvante só nos será revelado em outubro despois que as urnas forem apuradas.

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sexta-feira, 11 de abril de 2014

DE QUE ADIANTA SABER A VERDADE, SE NADA FAREMOS COM ELA.


No dia 31 de março passado completávamos 50 anos do Golpe Civil Militar de 1964. A presidente Dilma discursava sobre o tema e mandou recado para ONGs, como a Anistia Internacional, para grupos de esquerda e os que querem a revisão da “Lei de Anistia”. Disse Dilma Rousseff: “Reconheço e valorizo os pactos que nós levaram à redemocratização. Reconquistamos a democracia à nossa maneira, por meio de lutas, sacrifícios, pactos e acordos, muitos deles traduzidos na Constituição de 88". Dilma disse que “verdade" é oposto de “esquecimento", é “algo tão forte que não dá guarita para ressentimentos, ódios e nem tão pouco para o perdão". Dilma disse, ainda, que “devemos a verdade aos torturados, aos perseguidos e às suas famílias”.

A presidente lembrou o discurso que fez quando da instalação da Comissão Nacional da Verdade. Na ocasião, ela disse que respeita, reverencia e enaltece os que “lutaram pela democracia, enfrentando a truculência ilegal do Estado”. E não poderia ser diferente, pois ela mesma lutou contra a ditadura. Nossa presidente foi presa, tortura, julgada e condenada em um tribunal militarizado. É por isso mesmo que ela não deveria valorizar os pactos políticos que nós levaram à redemocratização. É por isso mesmo que ela não deveria tratar a verdade como o que supera o ressentimento, pois quem enfrentou a dores da repressão só apaziguará suas iras, e até mesmo perdoará, se tiver a certeza que nunca mais haveremos de ter outra ditadura.

O pacto principal a que Dilma se refere é a “Lei da Anistia” de 1979. Essa lei foi uma das exigências que as Forças Armadas fizeram para poder deixar o governo, coisa que só aconteceu em 1985 com a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney. Eu não sei exatamente o que a presidente quis dizer com “reconquistar a democracia a nossa maneira”. Será que ela se referia ao fato que saímos de uma ditadura, para um sistema de procedimentos democráticos, sem um necessário ajuste de contas? À nossa maneira atabalhoada e irresponsável instituímos uma anistia sem definir quem era culpado. Para nos livrarmos de uma ditadura, aceitamos que torturadores e torturados fossem anistiados como se ambos tivessem cometido os mesmos crimes.


Em 1979, Dilma Rousseff, que pertencia a uma organização guerrilheira que lutava contra a ditadura, foi anistiada. Sabe qual é a cruel ironia disso? Os homens que a colocaram no “pau de arara” e a torturaram barbaramente foram, também, anistiados. E comum vermos as vitimas de nossa violência cotidiana querendo justiça, querendo que criminosos paguem pelos crimes que cometeram. Não deveria Dilma Rousseff, por uma questão de justiça, querer que seus torturadores fossem punidos? Porque nossa presidente insiste em dizer que valoriza o pacto, i.e., a Lei da Anistia, que permitiu o processo de liberalização que nos levou a “Nova República”? Porque Dilma não apoia iniciativas que defendem a revisão da “Lei de Anistia”?

Do que tem medo nossa presidente? Porque Dilma não quer deixar, como legado de sua gestão, o fato de ter permitido que nosso passado, que tanto nos envergonha, seja de fato passado a limpo. Adianta revelar a verdade se não sabemos o que com ela fazer? É por causa da “Lei de Anistia” que o coronel reformado Paulo Malhães veio a público para, cinicamente, admitir que torturou, matou e fez corpos desaparecer. Malhães parecia se divertir em seu depoimento à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Malhães revelou, sem meias palavras, que foi o Coronel do Exército, Freddie Perdigão, o responsável pela morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, em 1982. Depois, ele saiu tranquilamente se sentindo agasalhado pelo manto protetor da “Lei da Anistia”.

Em que sociedade verdadeiramente democrática isso aconteceria? Nos 50 anos do golpe civil militar de 1964 uma pessoa confessa ter cometidos crimes, tidos como de lesa humanidade, e absolutamente nada acontece. Se é que acontecerá. O fato é que os militares repudiam a revisão da “Lei da Anistia”. Não falta quem lembre que esta lei foi fruto de um acordo do final da década de 70. Os remanescentes saudosistas da tal “revolução de 64” não querem, claro, revisão nenhuma. Mas, não é estrando que os remanescentes da época, que sofreram na carne as consequências de suas escolhas, estejam, agora, também contra a revisão da “Lei da Anistia”? Eu bem entendo porque o torturador é contra a revisão dessa lei. Mas, o que dizer do torturado que não quer que a verdade venha à tona? Ou melhor, ele até pode querer ver as verdades publicadas, mas não querer que seus algozes sejam punidos na forma da lei é, no mínimo, estranho.

 
A presidente Dilma usa o Twitter para defender princípios democráticos e se solidarizar com as famílias que sofreram com a ditadura. Ela já se referiu várias vezes às “cicatrizes visíveis e invisíveis" deixadas pela ditadura militar. Será que quando Dilma olha para suas cicatrizes visíveis, além de lembrar as invisíveis, não sente vontade de fazer a verdade se tornar justiça? Uma sociedade que não tem justiça, porque a própria lei assim proíbe, não é séria, muito menos democrática.

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quinta-feira, 10 de abril de 2014

AFINAL, AS PESQUISAS ORIENTAM AS ESCOLHAS DOS ATORES?


Eu sempre falo que os números das pesquisas eleitorais não falam por si só. É preciso interpretá-los. Existem várias maneiras de se analisar uma aferição. No entanto, a maioria das pessoas prefere mesmo ler uma pesquisa tal qual se vê o placar de um jogo de futebol. É mais simples se olhar os números absolutos das pesquisas estimuladas. Uma aferição, como está do IPESPE, acomoda quem quer, tão somente, saber quem está na frente e quem está em 2º lugar. Ou seja, os dois candidatos que vão para o 2º turno. Mas, existem os vários outros dados que devem ser analisados. Às vezes, é o caso desta pesquisa IPESPE, os números da pesquisa estimulada dão a entender que temos uma eleição praticamente resolvida, pois tem um candidato despontando na frente. 

Os números da estimulada podem querer dizer uma coisa, e os vários outros dados, como a rejeição, podem ou questionar a estimulada ou mesmo negá-la. O IPESPE, como tantos outros institutos, não gosta de vírgulas, muito menos de frações. Ele não costuma colocar os valores com suas casas decimais. Talvez para facilitar o entendimento do eleitorado. Talvez para facilitar a comunicação entre as pessoas. Afinal é sempre mais fácil dizer o placar da eleição em números redondos. Mas, como será que este tipo de arredondamento é feito? É preciso lembrar que números nunca são exatos. É preciso nunca esquecer que as eleições majoritárias, na pequena e heroica Paraíba, costumam se resolver pelas frações e casas decimais.

Vejamos, por exemplo, que na pesquisa estimulada o IPESPE traz Cássio com 43%, Ricardo com 23% e Veneziano com 11%. Dito dessa forma quase não se pode duvidar que o senador tucano não se sairá vitorioso das urnas em outubro. Mas, está é uma visão simplória, verticalizada. Vamos horizontalizar a análise. Na verdade, vamos aprofundar a discussão, buscando ver onde os dados questionam o placar da consulta estimulada. Sabemos que os dois maiores colégios eleitorais da Paraíba são, respectivamente, João Pessoa e Campina Grande. Sabemos, também, que ninguém ganha uma eleição para o governo do Estado se não se sair bem nas urnas da Serra da Borborema.

O potencial de votos de João Pessoa não pode, claro, ser desprezado. Inclusive, o eleitorado da capital tem, historicamente, demonstrado ser o mais consciente e o mais coerente de todo o estado em suas manifestações eleitorais. O dado mais relevante dessa pesquisa é o que mostra que Cássio tem 50% das intenções de voto na mesorregião do agreste que, não por acaso, é polarizada por Campina Grande. Já Ricardo tem 14% e Veneziano tem 13. Já na mesorregião da mata, polarizada por João Pessoa, Cássio tem 34%, Ricardo tem 30% e Veneziano tem 9%. Ou seja, no que dependesse do agreste não haveria nem 2º turno. Mas, no que depender da mata teremos uma eleição daquelas.

O fato é que Cássio e Ricardo entram nesta disputa potencializando seus capitais eleitorais baseados em seus redutos. Isso contraria a aparente hegemonia, pró-Cássio, que a pesquisa estimulada quer demonstrar.  O IPESPE pesquisou a intenção de votos na capital e em Campina Grande isoladamente. O que se vê é tao somente a confirmação de uma espécie de disputa entre os dois maiores colégios eleitorais, cada um querendo eleger seu líder maior. Em Campina Grande Cássio têm confortáveis 58 pontos percentuais, contra 16 de Veneziano e 6 de Ricardo. O eleitorado daqui parece não querer mesmo nada com o governador. Inclusive, no que dependesse do campinense a disputa seria entre Cássio e Veneziano.

 

Já em João Pessoa, a questão quase se reverte, pois Ricardo aparece com 30 pontos percentuais, Cássio com 28 e Veneziano com 12. Estou querendo dizer que está eleição vai virar um FLA X FLU entre a capital e Campina Grande? Não! Claro que não. Por favor, não esqueçamos a força do sertão e do cariri paraibanos. Onde mais o ex-governador José Maranhão amealhou tantos votos para ser três vezes governador desse Estado? Olhando a questão da rejeição, essa tendência se reafirma. Na mesorregião do agreste a rejeição de Cássio é de apenas 11 pontos percentuais. Já Ricardo ultrapassou o limite dos 27 pontos e foi a 33% de rejeição. Veneziano teve rejeição de 19%. JÁ na mesorregião da mata a vida não está fácil para ninguém.

O eleitor da capital parece mesmo ser o mais exigente do estado, pois Cássio, Ricardo e Veneziano aparecem, cada um, com 26 pontos percentuais de rejeição. Será que o eleitorado da mata está querendo mostrar que nenhum dos candidatos lhe serve? Em números redondos, o resultado da pesquisa é de um tipo. Mas, quando olhamos os números atravessados, com suas impurezas, vemos outro resultado. Em todo caso, sugiro que não se leia esta, ou qualquer outra pesquisa, como o decreto de um resultado. É que eleições, assim como a matemática e a vida, não são, e não podem ser, absolutamente exatas. Estamos falando de um jogo de variáveis irregulares, com distintos participantes, assim não dá para querer arredondar o resultado.

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quarta-feira, 9 de abril de 2014

NÃO EXISTEM MAIS PRÉ-CANDIDATURAS


Agora, não tem mais jeito, está aberta a temporada da caça ao voto e as pesquisas eleitorais. Não adianta fingirmos que não existem candidaturas definidas e que a campanha eleitoral ainda não começou. Por favor, deixemos de tergiversar, pois estamos em plena campanha eleitoral ao governo do Estado da Paraíba. Temos, pelo menos, três candidaturas definidas com três postulantes trabalhando diariamente em torno das composições partidárias e eleitorais. Chega de eufemismos. Quase não existem mais pré-candidaturas. A maioria dos políticos paraibanos, principalmente os de primeira grandeza, sabem bem a que cargos concorrerão nas eleições de outubro e, sim, eles estam em campanha eleitoral.

E isso é bem verdade se observarmos que a pelo menos um mês o governador Ricardo Coutinho, o senador Cássio Cunha Lima e o ex-prefeito Veneziano Vital só aparecem na imprensa para falar de eleições, composições, articulações e, claro, votos. E isso é tão claro que, ontem, o vice-governador Rômulo Gouveia falou em um calendário eleitoral quando deveria, na verdade, ter se referido ao calendário escolar da rede de ensino público da Paraíba. Mas, tudo bem, afinal atire a primeira pedra quem nunca cometeu um ato falho e quem nunca se pegou confessando que só pensa em eleição. É que o vice-governador comentava sobre a situação, ruim, das escolas públicas fechadas para reforma.

Mas, deixemos essa questão para outro POLITICANDO. Mesmo que minhas atenções se voltem, também, para outras coisas da política, e não exclusivamente para as eleições, devo, preciso, comentá-las. Esse é minha função, meu ofício. O fato é que os partidos e atores políticos precisam tomar uma série de cuidados com a tal campanha extemporâneo. É que a justiça eleitoral pode implodir uma candidatura se conseguir provar que o político fazia campanha fora do calendário eleitoral. Mas, atire quantas predas quiser aquele que nunca fez uma campanha eleitoral fora de época. Aliás, nossos políticos são especializados em fazer campanha eleitoral, poucos se voltam para suas atividades executivas ou parlamentares de forma exclusiva.

É no mínimo irônico que fiquemos cheios de pruridos, de escrúpulos, para nos referirmos aos políticos que são candidatos. Em geral, dizemos o pré-candidato fulano de tal. Também usamos expressões como: “se sicrano de tal fosse candidato”. No entanto, quando falamos das pesquisas nos referimos aos candidatos e ponto final. As pesquisas eleitorais que estam saindo nos últimos dias falam em Veneziano, Ricardo e Cássio como candidatos ao governo do Estado. É claro, que eles só serão candidatos de fato e de direito a partir do momento em que as convenções partidárias fizerem as devidas homologações. O fato é que nosso sistema político é assim mesmo, recheado de firulas, como diria o presidente do STF.

A ironia da situação é gritante. O político fala como candidato, se comporta como candidato, se veste com as cores de sua candidatura, só trabalha para maximizar sua candidatura, mas não pode ser tratado como candidato? Isso é, no mínimo, ridículo. A recente pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE) quase não destoou da pesquisa que a Campina FM e a TV Itararé contrataram ao Grupo 6SIGMA, pelo menos na aferição estimulada. O Grupo 6SIGMA trouxe Cássio em 1º lugar com 43.5%, Ricardo em 2º com 22.5% e Veneziano em 3º com 14.3%. Já o IPESPE trouxe Cássio com 43%, Ricardo com 23% e Veneziano com 11%. A margem de erro 6SIGMA é de dois pontos percentuais.  Já a margem de erro IPESPE é de 2,6 pontos percentuais. Esta diferença é pequena, mas é bom não esquecer que as eleições majoritárias na Paraíba, e principalmente em Campina Grande, são sempre muito disputadas.


 Às vezes, diferenças mínimas de percentuais, apresentadas pelos institutos de pesquisa, são justamente a diferença entre o vencedor e o derrotado no 2º turno. O IPESPE colocou a advogada Nadja Palitot em sua pesquisa estimulada. Inclusive, ela apareceu em 4º lugar com 2% das intenções de votos. Mas, considerando que o PT nacional já ordenou ao PT estadual a composição com o PMDB de Veneziano Vital, eu vou tratar este 2% de Nadja como uma impureza da pesquisa.

Na pesquisa espontânea, Cássio tem 32%, Ricardo tem 19% e Veneziano tem 6%. São diferenças nada desprezíveis, em relação à estimulada, se considerarmos que estas três candidaturas estam postas e em plena atividade. Amanhã eu vou continuar analisando o cenário eleitoral da Paraíba de posse desses e de outros dados. Não existem certezas, sobram dúvidas. Certo mesmo é que o jogo está aberto e apenas começando. Não percam amanhã a segunda parte da coluna: “NÃO EXISTEM MAIS PRÉ-CANDIDATURAS”.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

“BRASILEIRO, ESSE POVO DE MENTE OBSCURA – PARTE 2”.


Ontem, tratei do estudo do IPEA que mostra que parcela considerável de nossa sociedade concorda que “mulheres que usam roupas, que mostram o corpo, merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”. Eu afirmei que esse estado de coisas me deixa envergonhado por ser brasileiro. Mas, isso não quer dizer que eu tenha desejado nascer em outro país, pois pelo mundo afora o estupro é algo bem mais aceito do que se possa imaginar. Recentemente, assisti o documentário “Half the sky”, ou “O céu pela metade”, que foi produzido para a televisão pública americana e filmado em 10 países: Camboja, Quênia, Índia, Serra Leoa, Somália, Vietnã, Afeganistão, Paquistão, Libéria e Estados Unidos.

O filme relata a vida de mulheres que são vítimas do tráfico de pessoas, da violência sexual, da falta de educação, da fome, das guerras, da escravidão, etc. É desesperador contatar que, em nome da cultura e da tradição, mulheres possam sofrer tanto. O documentário mostra mulheres sendo sistematicamente estupradas e prostituídas pelos seus pais e maridos. Mostra, por exemplo, a depauperante tradição da infibulação. Um hábito medieval desprovido de qualquer racionalidade. Eu sugiro a você, caro ouvinte, que assista este filme. Mas, saiba que você vai ver um mundo real que nós, brasileiros, preferimos ignorar.

Sim, você poderá me dizer: “mas, quase tudo do que vemos neste documentário não acontece no Brasil”. É verdade, não acontece, pois a nossa tradição, cultura e religião se deixaram influenciar, de leve é bem verdade, pelos valores universais da democracia, em que pese nossa cultura autoritária que nos faz saudosistas das ditaduras do século XX. Se não estamos tão próximos de uma Somália, de um Afeganistão ou de uma Índia, não quer dizer que podemos ser comparadas aos países que mais evoluíram em termos de direitos sociais e que reduziram ao extremo suas taxas de desigualdade. Na verdade estamos, sim, bem mais próximos de uma Índia com seus hábitos que desumanizam a mulher. Vejam que aqui, como lá, ainda se pratica o tal estupro coletivo, tal qual faziam os soldados do Exército da URSS, em Berlim, ou dos EUA, no Vietnam.

O estudo do IPEA concluiu que, desgraçadamente, a mulher brasileira ainda não atingiu a equiparação em relação ao homem seja do ponto de vista econômico, político, social e até mesmo familiar. No estudo do IPEA se viu que 65% dos entrevistados concordam totalmente que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Vejam, que coisa mais irracional. Pois é, muitos brasileiros ainda acham que “só um tapinha não dói”. Um dado peculiar dessa pesquisa é o que demonstra que mais da metade das pessoas que concordam com esse tipo de opinião medievalizada são do sexo feminino. Pois é, muitas mulheres brasileiras pensam com a cabeça do mais machista dos homens.

Houve uma confusão na divulgação dos dados pelo IPEA. Os números desta última questão foram trocados com os da primeira sobre a mulher fazer por merecer ser atacada. Mas, isso diminui o sentido do estudo ou retira a seriedade do IPEA? Não. Pois, a questão não é apenas quantitativa. Não importa se 2.000 ou 2 milhões de pessoas concordam que é a mulher que provoca o estupro. Enquanto tivermos uma única pessoa com esse pensamento medieval, temos muito com que nos preocupar. Não basta a cômoda atitude de afirmar que “não tenho nada haver com isso, pois não compartilho dessas opiniões”. Se no meio social onde vivo existem pessoas legitimando o ato criminoso do estupro eu tenho, sim, tudo haver com isso.

 

No estudo do IPEA tivemos dados sobre as questões regionais. No caso da Paraíba, a realidade, mais uma vez, não deixou os números mentirem, infelizmente. Entre 2010 e 2013 foram 629 casos de estupros notificados pela Secretaria de Estado da Saúde. Apenas no ano de 2013 foram 201 casos. Isso significa que, em 2013, a cada 43 horas uma mulher foi estuprada em nosso estado. Eu fico me perguntando, então, qual a diferença disso para aquela cruel realidade que vi no documentário “Half the sky”?

E para quem continua achando que a maioria das brasileiras estupradas são mulheres lindas, sensuais, que andam por aí em trajes minúsculos, eu quero informar que metade das vítimas da violência sexual, no Brasil, são do sexo feminino e menores de idade. Segundo assistentes sociais do Programa Bem-me-quer, que funciona no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, mais da metade das vítimas de estupro, em 2013, tinha até 11 anos de idade. Essa informação se alinha com o estudo do IPEA.

O levantamento do IPEA mostrou que crianças seguem sendo os alvos preferenciais dos estupradores e isso em todo o Brasil. E, tem mais, a maioria dos casos de estupros contra crianças acontecem mesmo é no ambiente familiar. Se você continua achando que é a mulher que cria as condições para ser estuprada, eu sugiro que olhe a sua volta e tente perceber que por trás de sua mãe, de sua irmã, de sua filha, de sua prima, existe uma mulher que, com certeza, não quer ser estuprada.

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segunda-feira, 7 de abril de 2014

“BRASILEIRO, ESSE POVO DE MENTE OBSCURA – PARTE 1”.

Em 1945, o Exército Vermelho da URSS foi o primeiro a entrar na Berlim quase totalmente destruída pelos combates da 2ª guerra mundial. Os oficiais soviéticos se certificavam que Hitler estava morto e caçavam nazistas que tentavam fugir. Já seus soldados caçavam mulheres para estupra-las e, assim, satisfazer seus instintos mais selvagens. A revista alemã “Der Spiegel” mostrou que eles invadiam casas, arrancam mães e filhas de lá e as estupram em praça pública. As alemãs eram estupradas várias vezes por grupos de até 10 soldados. Cerca de 2 milhões de alemãs foram estupradas apenas em 1945. Meninas de 8 anos até mulheres idosas de 80 anos eram violentadas indistintamente.

O que fez o governo soviético de Stálin? Nada. Absolutamente nada, pois os russos viam o estupro como uma necessidade do instinto masculino. Stálin via as violações em massa como mais uma forma de subjugar o inimigo já derrotado. Durante a Guerra do Vietnã, soldados americanos estupravam mulheres vietnamitas com os mesmos objetivos dos soldados russos. Hoje, existe no Vietnã algo em torno de 50 mil vietnamitas que são filhos e netos dessas violações. O governo e a sociedade americanos sempre fecharam os olhos para essa situação até porque eles são falso moralistas o suficiente para fingirem que não sabem que os EUA são, justamente, um dos países onde mais se pratica, e praticou, o estupro.

O caro ouvinte, como eu, fica chocado quando ouve histórias como estas? Se a reposta for sim, eu devo dizer que não deveríamos nos sensibilizar com essas atrocidades, pois elas só aconteceram por que as sociedades as aceitavam cada uma a seu modo. Nós, brasileiros, não temos porque nos horrorizarmos com essas coisas. A tirar pelas informações que o “Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA” trouxe, somos tão sujos quanto os soldados do Exército Soviético. Num levantamento de dados realizado entre maio e junho de 2013 em todo o Brasil se descobriu algo perturbador. Ficamos sabendo, com provas cabais, que o estupro é algo aceito e até legitimado em nossa sociedade.

As duas principais conclusões do IPEA é que parte da população brasileira acredita que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Muitos brasileiros parecem desconhecer que quando um homem mantém, ou mesmo tenta manter, relações sexuais com uma mulher, sem que ela consinta, está cometendo um crime que já foi tipificado em nosso código penal a muitos e muitos anos. É como se a própria mulher decidisse que queria ser violentada por um homem e passasse a provoca-lo de forma que não lhe restasse outra alternativa a não ser ataca-la. É como se a mulher gostasse, a ponto de desejar, ser violentada, estuprada.

Quando eu li o estudo do IPEA senti uma profunda vergonha de ser brasileiro. Os pesquisadores do IPEA faziam afirmações aos entrevistados e eles diziam se concordavam ou não. Já na primeira questão caiu a máscara do brasileiro liberal. Quando se colocou se mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, 26% dos entrevistados disseram que concordavam totalmente ou parcialmente com essa afirmação.

É triste constatar que parte dos brasileiros concorda, de alguma forma, com uma visão tão esdrúxula. Num país tropical, com temperaturas tão altas, uma mulher terá, então, que andar com roupas compostas para não ser atacada? 35.3% dos entrevistados disseram que concordam totalmente com a ideia estulta e medieval de que se a mulher soubesse como se comportar haveria menos estupros. 22.4% concordaram parcialmente. Assim, quase 60% dos brasileiros concordam com a sandice de que é a mulher quem provoca o estupro.

O IPEA revelou que no que se refere à violência doméstica não temos a menor coerência. Perguntou-se, por exemplo, se as pessoas concordam que o homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia. 78.1% disseram que concordam totalmente. E 13.3% disseram que concordam parcialmente. Depois se perguntou sobre se a mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos. 69.8% disseram que discordam totalmente e 12.3% disseram que discordam parcialmente. Mas, ao mesmo tempo, a maioria, 82% dos brasileiros, concorda plenamente com a afirmação de que “o que acontece com o casal, em casa, não interessa aos outros”. Ou seja, seguimos achando que em briga de marido e mulher não se mete a colher.

O fato é que se a violência física do homem sobre a mulher não é mais tão tolerada, o primado do homem sobre a mulher ainda é algo muito bem aceito pela população. Ou seja, continuamos sendo os trogloditas de sempre. Amanhã, eu ainda vou analisar esta pesquisa para ver como ela se aplica em nossa realidade, pois o IPEA mostrou que 201 mulheres foram estupradas na Paraíba no ano passado. I.E., a cada 43 horas uma mulher foi estuprada na Paraíba. Na perca, amanhã, a segunda parte da coluna: “BRASILEIRO, ESSE POVO DE MENTE OBSCURA”.

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