quinta-feira, 15 de outubro de 2015

UM PROFESSOR CHAMADO RAIMUNDO



Eu era um adolescente que, claro, não sabia o que queria ou poderia fazer na vida. Estudava numa escola que seguia regras de um colégio militar. Lá, hierarquia e disciplina eram mais valorizadas do que o conhecimento. Mas, foi nesta escola que tive um professor de ciências que me abriu os olhos para muita coisa. Eu odiava estudar as funções dos órgãos do corpo humano, os micro-organismos, os animais vertebrados e invertebrados e as bactérias. E não conseguia entender, se é que queria, porque tinha que saber que a célula é composta pelo núcleo e pelo citoplasma e que é envolta por uma membrana. Para mim, nada daquilo fazia sentido.  Eu era, como disse uma diretora dessa escola, um aluno sofrível e um caso sem solução devido ao péssimo comportamento, a indisciplina e a uma ironia que insistia em não me largar.
Mas, esse professor de ciências achava que eu tinha salvação. Depois de tentar me convencer a prestar atenção às aulas, ele mudou sua abordagem e fez uma proposta, na verdade um trato, irrecusável. Eu não mais seria obrigado a assistir as aulas dele, nem precisaria fazer as atividades que tanto detestava. Em troca, teria que ler alguns livros que ele me emprestaria e depois discutir com ele sobre cada um desses livros. Aceitei o trato na hora. O primeiro livro que ele me deu foi “O que é ditadura”, da Coleção “Primeiros Passos” da Editora Brasiliense.
Eu tinha uns 13 anos e adorei ler sobre o sistema político em que vivíamos lá pelos idos de 1982. Acho que o cientista político começou a surgir ali. E assim, cumpríamos o trato. Ele me dava livros para ler e eu não perturbava as aulas dele. Nas horas vagas, nos intervalos e na saída da escola ficávamos conversando sobre o que eu lia e sobre filmes, músicas, história, futebol e, claro, sobre política. Foi pelas mãos desse professor que tive acesso a um sem número de leituras que foram primordiais em minha formação. Eu não percebia, mas ele estava, no bom sentido, fazendo minha cabeça.
Mas, porque eu estou lembrando essa história? Porque hoje é o dia do professor! Nada mais justo do que lembrar a relevância social desse profissional. Não vou repetir o mantra do quanto-o-professor-é-importante-e-deve-ser-valorizado. Nem vou cair na vala comum dos discursos oficiais. Não quero fazer uma ode a nossa profissão e me recuso a reproduzir o discurso da vítima. Aquele que diz “olhem o quanto é difícil ser professor, vejam como eles sofrem”. Não quero que ninguém tenha pena de nós.                                                         
É óbvio que ninguém em sã consciência vai negar a importância do professor na formação de um cidadão e no desenvolvimento social. Mas, se é assim, como seguimos sendo profissionais tão pouco valorizados em nosso país? Porque os governantes continuam a praticar a política de poucos direitos e muitos deveres para com funcionários públicos da área de educação? Porque governos tendem a criminalizar os atos dos professores que lutam pelos seus direitos?
Professores foram tratados como black blocs alucinados em manifestações no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Curitiba. No Rio eles protestavam contra um projeto da Prefeitura que instituiu o professor “tudólogo”, i.e., o especialista em tudo. O Plano de Cargos e Salários do prefeito Eduardo Paes criava o professor que pode dar aulas de qualquer matéria, independente de sua formação. Assim, um professor como eu, formado em história, poderia dar aulas de ciências. Vejam que perigo!