As cores, aqui tratadas como informação, nos falam sobre lealdades políticas e ideológicas. Por isso interessa saber o papel delas no processo de empoderamento de um movimento político de massas. A cor influencia propagandas políticas e estratégias de partidos e candidatos, com as imagens servindo para compreendermos como a associação entre cores e contexto político importou no processo que levou a extrema direita ao poder.
A
turma a qual dava aulas estava bastante contaminada pelo clima político
eleitoral da cidade a ponto de parte dela vestir sempre camisas laranjas e a
outra parte trajar camisas amarelas. Chamava-me atenção que não havia exceções,
todas(os) as(os) alunas(os) assumiam um dos matizes políticos - ninguém
usava azul, vermelho, verde ou branco. As
camisas eram iguais, tanto na cor como no modelo, e todas(os) usavam uma
espécie de fardamento de campanha – calça jeans, tênis branco, camisas laranjas
ou amarelas.
Mas,
aconteceu que eu, inadvertida e descuidadamente, fui em um dos sábados dar aula
com uma camisa laranja, idêntica as que as\os eleitoras(es) da candidatura
laranja usavam. Adentrei na sala de aula e me deparei com duas reações
distintas: uma parte da turma me saudou eufórica enquanto a outra demonstrou
descontentamento com lamúrias de toda sorte. O fato é que não lhes passou à
cabeça que eu não poderia, nem deveria, ter alguma relação com as colorações
políticas daquela cidade. A única forma de contornar a situação foi trajar uma
camisa amarela na aula do sábado seguinte.
Essa
situação me fez refletir sobre a relação que as cores têm com a política, mesmo
que já tivesse ouvido tanto sobre o uso das cores em eleições no Nordeste
brasileiro. O fato é que as cores servem para que digamos ao mundo o que, como
e porque somos. Se quero que todos saibam minha ideologia, uso vermelho ou
azul; se desejo que entendam que me preocupo com o meio ambiente, uso verde; se
estou preocupado com paz mundial, uso branco; se apoio a causa LGBTQIAPN+ uso
as cores do arco-íris; se quero protestar contra a corrupção, uso preto. Da
mesma forma, posso procurar me vestir com as cores do meu time de futebol,
evitando usar as cores do seu principal rival.
A
cor informa algo sobre nós, é uma forma de nos expressarmos. Como informação
ela pode representar ideias, opiniões e crenças. A cor pode materializar ou que
é imaterial. Vejamos que historicamente movimentos
políticos totalitários associaram cores as suas ideias e práticas. Foi assim que o fascismo italiano
adotou o preto, ficando conhecido como os “Camisas Pretas”; que o Nazismo
alemão fez do marrom claro uma de suas cores oficiais; que o Integralismo
brasileiro usava o verde escuro; que o Salazarismo português usava o azul; e
que o fascismo mexicano era conhecido como os “Camisas Douradas”.
Para
Olivo (2004) a cor é fenômeno e manifestação cultural na comunicação humana e fala
de um tipo de comportamento que gera sentidos. Tudo o que se refere a cor não é
devido ao acaso, pois o que ela apreende, transmite, armazena e informa é
orientado por normas e preceitos sociais e culturais. A cor é própria da
comunicação humana que se dá por interferência dos códigos da linguagem e dos códigos
culturais.
Considerando
que a cor informa desde sentimentos e afetos até interesses de toda sorte, qual
seria o papel dela nos processos políticos e sociais que vivenciamos? No caso
do empoderamento da extrema direita bolsonarista, entre 2013 e 2018, vimos como as cores da bandeira nacional passaram a informar
a lealdade política de militantes a uma candidatura e a uma causa sustentada em
valores morais (conservadores) e políticos (reacionários). Ficou manifesto que
o verde-amarelo, usado pela extrema direita, seria a descrição resumida de sua
conformação.
A
camisa da Seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se tornou um tipo
de crachá para informar que seu usuário foi ou é eleitor de Jair Bolsonaro e
que aderiu a ideias e a um modus operandi comportamental. E isso ocorre pois a cor
empresta significado a um movimento quando a relacionamos a uma ideologia. O
amarelo representa algo na política, pois dificilmente deixaremos de relacionar
ao bolsonarismo alguém que traja uma camisa da Seleção da CBF. Fraser &
Banks (2007) afirmam que associamos um conceito a uma cor para levá-lo para
onde bem quisermos. O conceito vai para toda parte levado pela cor, com os
significados que queremos que tenha.
Mesmo
com a derrota do bolsonarismo nas eleições de 2022 ainda vemos seus símbolos
espalhados: são pessoas vestindo camisas da Seleção da CBF e\ou usando
capacetes pintados com as cores da bandeira nacional; são carros ostentando
adesivos ainda da campanha de 2022; são casas com muros pintados em
verde-amarelo e edifícios ostentando a bandeira nacional em suas janelas; são
lojas comerciais vendendo bandeiras, toalhas, bonés e toda quinquilharia verde-amarelo.
Fato é que para parte da sociedade usar amarela é o mesmo de vestir uma camisa
com a imagem de Jair Bolsonaro.
Também, expresso uma indignação sentida ao ver as ruas pintadas de verde-amarelo para se praticar a mãe de todos os paradoxos que é usar liberdade de expressão para pedir a volta da ditadura militar. Estou atento ao oxímoro democracia autoritária, pois parte dos brasileiros se utiliza de procedimentos democráticos (eleições, por exemplo) para pedir o fim da democracia e a implantação de uma ditadura (Soares, 2023).
Nenhum comentário:
Postar um comentário