quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O verde-amarelo como descrição resumida da extrema direita brasileira – PARTE I

As cores, aqui tratadas como informação, nos falam sobre lealdades políticas e ideológicas. Por isso interessa saber o papel delas no processo de empoderamento de um movimento político de massas. A cor influencia propagandas políticas e estratégias de partidos e candidatos, com as imagens servindo para compreendermos como a associação entre cores e contexto político importou no processo que levou a extrema direita ao poder.

Em 2012, ano de eleições municipais, eu compunha o corpo docente de um curso de pós-graduação lato sensu pela Universidade Estadual da Paraíba. As aulas aconteciam aos sábados e eu me deslocava a partir de Campina Grande(PB) para dar aulas. Em setembro, que antecedeu às eleições de outubro, fui lecionar a disciplina de Introdução à Política numa cidade da mesorregião do agreste paraibano. Como era de se esperar, a eleição monopolizava atenções, interesses e afetos da população local e a disputa se dava entre duas candidaturas - uma que adotava o amarelo e a outra que envergava o laranja.

A turma a qual dava aulas estava bastante contaminada pelo clima político eleitoral da cidade a ponto de parte dela vestir sempre camisas laranjas e a outra parte trajar camisas amarelas. Chamava-me atenção que não havia exceções, todas(os) as(os) alunas(os) assumiam um dos matizes políticos - ninguém usava  azul, vermelho, verde ou branco. As camisas eram iguais, tanto na cor como no modelo, e todas(os) usavam uma espécie de fardamento de campanha – calça jeans, tênis branco, camisas laranjas ou amarelas.

Mas, aconteceu que eu, inadvertida e descuidadamente, fui em um dos sábados dar aula com uma camisa laranja, idêntica as que as\os eleitoras(es) da candidatura laranja usavam. Adentrei na sala de aula e me deparei com duas reações distintas: uma parte da turma me saudou eufórica enquanto a outra demonstrou descontentamento com lamúrias de toda sorte. O fato é que não lhes passou à cabeça que eu não poderia, nem deveria, ter alguma relação com as colorações políticas daquela cidade. A única forma de contornar a situação foi trajar uma camisa amarela na aula do sábado seguinte.

Essa situação me fez refletir sobre a relação que as cores têm com a política, mesmo que já tivesse ouvido tanto sobre o uso das cores em eleições no Nordeste brasileiro. O fato é que as cores servem para que digamos ao mundo o que, como e porque somos. Se quero que todos saibam minha ideologia, uso vermelho ou azul; se desejo que entendam que me preocupo com o meio ambiente, uso verde; se estou preocupado com paz mundial, uso branco; se apoio a causa LGBTQIAPN+ uso as cores do arco-íris; se quero protestar contra a corrupção, uso preto. Da mesma forma, posso procurar me vestir com as cores do meu time de futebol, evitando usar as cores do seu principal rival.

A cor informa algo sobre nós, é uma forma de nos expressarmos. Como informação ela pode representar ideias, opiniões e crenças. A cor pode materializar ou que é imaterial. Vejamos que historicamente movimentos políticos totalitários associaram cores as suas ideias e práticas. Foi assim que o fascismo italiano adotou o preto, ficando conhecido como os “Camisas Pretas”; que o Nazismo alemão fez do marrom claro uma de suas cores oficiais; que o Integralismo brasileiro usava o verde escuro; que o Salazarismo português usava o azul; e que o fascismo mexicano era conhecido como os “Camisas Douradas”.

Para Olivo (2004) a cor é fenômeno e manifestação cultural na comunicação humana e fala de um tipo de comportamento que gera sentidos. Tudo o que se refere a cor não é devido ao acaso, pois o que ela apreende, transmite, armazena e informa é orientado por normas e preceitos sociais e culturais. A cor é própria da comunicação humana que se dá por interferência dos códigos da linguagem e dos códigos culturais.

Considerando que a cor informa desde sentimentos e afetos até interesses de toda sorte, qual seria o papel dela nos processos políticos e sociais que vivenciamos? No caso do empoderamento da extrema direita bolsonarista, entre 2013 e 2018, vimos como as cores da bandeira nacional passaram a informar a lealdade política de militantes a uma candidatura e a uma causa sustentada em valores morais (conservadores) e políticos (reacionários). Ficou manifesto que o verde-amarelo, usado pela extrema direita, seria a descrição resumida de sua conformação.

A camisa da Seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se tornou um tipo de crachá para informar que seu usuário foi ou é eleitor de Jair Bolsonaro e que aderiu a ideias e a um modus operandi comportamental. E isso ocorre pois a cor empresta significado a um movimento quando a relacionamos a uma ideologia. O amarelo representa algo na política, pois dificilmente deixaremos de relacionar ao bolsonarismo alguém que traja uma camisa da Seleção da CBF. Fraser & Banks (2007) afirmam que associamos um conceito a uma cor para levá-lo para onde bem quisermos. O conceito vai para toda parte levado pela cor, com os significados que queremos que tenha.

Mesmo com a derrota do bolsonarismo nas eleições de 2022 ainda vemos seus símbolos espalhados: são pessoas vestindo camisas da Seleção da CBF e\ou usando capacetes pintados com as cores da bandeira nacional; são carros ostentando adesivos ainda da campanha de 2022; são casas com muros pintados em verde-amarelo e edifícios ostentando a bandeira nacional em suas janelas; são lojas comerciais vendendo bandeiras, toalhas, bonés e toda quinquilharia verde-amarelo. Fato é que para parte da sociedade usar amarela é o mesmo de vestir uma camisa com a imagem de Jair Bolsonaro.

A cor, como informação, teve papel central na atuação da extrema direita entre os anos de 2013, quando ela acessou as ruas através das manifestações antidemocráticas, e 2018, quando logra êxito em levar seu principal representante à presidência da República. Aqui, analiso imagens do período citado para compreender como a associação entre cores e contexto político importa no processo que leva a extrema direita ao poder.

Também, expresso uma indignação sentida ao ver as ruas pintadas de verde-amarelo para se praticar a mãe de todos os paradoxos que é usar liberdade de expressão para pedir a volta da ditadura militar. Estou atento ao oxímoro democracia autoritária, pois parte dos brasileiros se utiliza de procedimentos democráticos (eleições, por exemplo) para pedir o fim da democracia e a implantação de uma ditadura (Soares, 2023).

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Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”

Da Série “40 E TANTOS MUITOS DISCOS QUE FIZERAM MINHA CABEÇA”
"THE DARK SIDE OF THE MOON" - PINK FLOYD (1973)

A LISTA DOS 40 E TANTOS MUITOS DISCOS

Para fazer esta seleção pensei numa “fórmula mágica” para evitar as dificuldades que só quem se mete a fazer as tais “listas dos melhores” enfrenta. Para não ter que arcar com o ônus da escolha/seleção, pensei em colocar todos os discos dos Beatles e pincelar com mais alguns de Pink Floyd & Rolling Stones, Chico, Caetano & Gil. Mas, seria muito casuísmo de minha parte! Assim, apresento a lista dos 40 discos que fizeram minha cabeça que servem para ouvir a qualquer hora e em qualquer lugar. Como diria Belchior, “não quero te falar das coisas que aprendi nos discos”, apesar de que estes aqui me ensinaram muito. A lista vem com um bônus +20, que são os que deveriam estar na lista dos “40 discos”, mas assim teria que retirar e colocar, colocar e retirar, enfim... 1) “The Dark Side of the Moon” - Pink Floyd (1973). 2) “Abbey Road” - The Beatles (1969). 3) “Boca Livre” - Boca Livre (1979). 4) “Highway 61 Revisited” - Bob Dylan (1965). 5) “The Freewheelin” - Bob Dylan (1963). 6) “Ópera do Malandro” - Chico Buarque (1979). 7) “Double Fantasy” - John Lenno/Yoko Ono (1980). 8) “Milk and Honey” - John Lenno/Yoko Ono (1984). 9) “The Concert in Central Park” - Simon & Garfunkel (1982). 10) “Pet Sounds” - The Beach Boys (1966). 11) “Atom Heart Mother” - Pink Floyd (1970) 12) “Electric Ladyland” - The Jimi Hendrix Experience (1968). 13) “Rattle and Hum” - U2 (1988). 14) “Brothers in Arms” - Dire Straits (1985). 15) “Cabeça de Dinossauro” - Titãs (1986). 16) “Getz/Gilberto” - João Gilberto, Stan Getz e Tom Jobim (1964). 17) “Then and Now” - The Who (1964-2004). 18) “90125” - Yes - (1990). 19) “Hoje” - Paralamas do Sucesso (2005). 20) “Some Girls” - Rolling Stones (1978). 21) “Exile on Main Street” - Rolling Stones (1972). 22) “Balada do asfalto & Outros Blues – Zeca Baleiro (2005). 23) “Revolver” - The Beatles (1966). 24) “Alucinação” - Belchior (1976). 25) “Era uma vez um home e seu tempo” - Belchior (1979). 26) “Meus caros amigos” - Chico Buarque (1976). 27) “Cinema Paradiso” - Ennio Morricone (1989). 28) “Antônio Brasileiro” - Tom Jobim (1994). 29) “Kind of Blues” - Miles Davis (1959). 30) “Back to Black” - Amy Winehouse (2006). 31) “Band on the Run” - Paul McCartney & Wings (1973). 32) “All Things Must Pass” - George Harrisson (1970). 33) “O descobrimento do Brasil” - Legião Urbana (1933). 34) “Luz” - Djavan (1982). 35) “Led Zeppelin IV” - Led Zeppelin (1971). 36) “Tropicália ou Panis et Circencis” - Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé (1968). 37) “A Night at the Opera” - Queen (1975). 38) “The Doors” - The Doors (1967). 39) “461 Ocean Boulevard” - Eric Clapton (1974). 40) “Cavalo de Pau” - Alceu Valença (1982). 1) “The Beatles (White Album) - The Beatles (1968) . 2) “Jobim Sinfônico” - Paulo Jobim/Mario Adnet (2002). 3) “Um banda um” - Gilberto Gil (1982). 4) “Cores, Nomes” - Caetano Veloso (1982). 5) “In The Mood!” - Glenn Miller (1943). 6) “Achtung Baby” - U2 (1990). 7) “Osvaldo Montenegro” - Osvaldo Montenegro (1980). 8) “Clube da Esquina” - Milton Nascimento & Lô Borges (1972). 9) “Fa-Tal - Gal a Todo Vapor!” - Gal Costa (1971). 10) “Pérola Negra” - Luiz Melodia (1973). 11) “Birth of the Cool” - Miles Davis (1957). 12) “Revoluções por Minuto” - RPM (1985). 13) “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” - The Beatles (1967). 14) “The Velvet Underground & Nico” – The Velvet Underground (1967). 15) “Barcelona” - Freddie Mercury e Montserrat Caballé (1988). 16) “Money Jungle” - Duke Ellington, Charlie Mingus & Max Roach (2002). 17) “Little Creatures” - Talking Heads (1985). 18) “Aquarela do Brasil” - Gal Costa (1980). 19) “Mais” - Marisa Monte (1991). 20) “Outras Coisas” - Leila Pinheiro (1991).