O UOL/Folha
entrevistou, também, o técnico em contabilidade Tiago da Silva de São Paulo. Tiago
é um idólatra do autoritarismo, um néscio que acredita nas tolices que o
ex-roqueiro Lobão publica na Revista Veja. Tal qual Aramis, crê que "seria bom (uma intervenção militar) para limpar toda essa sujeira". Ele
diz confiar no “Exército para ter um país
menos corrupto”. Tiago afirma que “o
golpe de 64 foi uma intervenção em defesa da pátria para livrar o país do
comunismo e que o abuso de poder de alguns militares foi o lado ruim do
período”. O que será para Tiago o “lado ruim do período”? Será que ele leu
sobre o fato da tortura ter sido uma politica repressiva do Estado
militarizado? O que aconteceria se Tiago soubesse que os militares eram tão
corruptos quanto os governos dos tempos da democracia?
Tiago não
diferencia a conjuntura de 1964 com está em que vivemos, pois só considera uma intervenção
militar pelo “medo de que o Brasil adote
o socialismo”. Como assim? É risível falar em socialismo quando vivemos (para
o bem e para, bem mais, o mal) uma situação de “pleno capitalismo”. Será que
Tiago é dos que acreditam que os governos de Cuba e da Venezuela planejam
invadir o país para implantar uma republicana fidelista/bolivariana e que João
Pedro Stédile seria o novo ditador brasileiro?
Mas, Tiago é obrigado
a conviver com uma incoerência. Mesmo defendendo o fim do governo Dilma, seja por
impeachment, seja por intervenção, ele só estuda em uma universidade privada por
ter 50% da mensalidade através de bolsa do PROUNI e os outros 50% financiados
pelo FIES. Tiago financiou sua casa por um desses programas sociais do governo
federal. Se é verdade que a economia move as decisões do cidadão/eleitor, Tiago
teria mais motivos para querer que esse governo não acabasse. É ele mesmo que
diz que: “Não adianta dar com uma mão e
tirar com as duas. A corrupção apaga o mérito desses programas".
Mas, se é assim,
a melhor coisa a fazer seria abrir mão dos tais programas e aderir a um projeto
politico autoritário que promovesse desenvolvimento sem corrupção, claro. O
problema é que Tiago parece desconhecer que é possível promover
desenvolvimento, sem programas assistencialistas, diga-se de passagem, dentro
de um sistema político democrático. Mas, não o culpo, Tiago é conseguência
dessa cultura politica pretoriana que fomos cevando ao longo do século XX.
Por ingenuidade,
por oportunismo ou por terem sido acometidos por essa demência cega que pensa
que bater panelas é solução para alguma coisa, Aramis e Tiago se quedam a tese
do caminho mais curto para resolver o problema da corrupção que a própria
ditadura militar não resolveu, até por que dele se valia para maximizar seus
interesses. Conheço alguns Aramis que defendem uma intervenção militar, para
acabar com a corrupção, por um colossal desconhecimento de nosso passado
autoritário. Apesar de que se a pessoa reúne condições para defender suas
ideias autoritárias, numa rede social, bem que poderia ler um livro didático de
história para entender porque os militares golpearam as instituições
democráticas em 1964.
Sou réu confesso
de minhas incompetências por não conseguir explicar o que nos leva a querer um
regime de força, para resolver problemas que temos numa sociedade que pratica
procedimentos democráticos. Está em nossa cultura politica a contumaz ideia que
os militares são os únicos capazes de resolver os problemas que nós, os civis,
criamos. Persiste em nosso entorno a ideia, oriunda do movimento tenentista, de
que seriam os militares a reserva moral de nossa sociedade. Talvez a
antropologia politica possa me ajudar. Tem razão o antropólogo Roberto DaMatta
quando diz que “o Brasil não é mesmo para
principiantes”.
E já é tempo de
perguntar: mas, afinal os que pensam os militares disso tudo? Atenderiam o clamor
das ruas? Que o alto comando das Forças Armadas acompanha tudo com olhar atento
não resta dúvidas. A questão é: a caserna está se movimentando? Haveria
articulações, nos meios militares, para atender ao chamamento dos que imploram
por intervenção e golpe? Lideranças civis, a frente dessas arrogantes
manifestações, já teriam combinado com lideranças militares para uma espécie de
reedição do golpe de 1964?
Eu não creio
nisso ou, pelo menos, não disponho de elementos críveis neste sentido. Existe
uma nova geração de oficiais de alta patente formados no pós-ditadura militar.
Mesmo que concordem com a manutenção do histórico papel politico das Forças
Armadas e que não abram mão das prerrogativas (herdadas da ditadura militar e que
lhes permite intervir nos poderes constituídos) os militares parecem confortáveis
em não terem o ônus de governar, mesmo que possuam o bônus de interferirem nas
questões administrativas da República.
As Forças
Armadas parecem ter se convencido, ao contrário da sociedade civil, que é mais
interessante serem fiadoras desse sistema democrático do que estar a frente de
um regime de força que, óbvio, só se sustenta por reprimir seus adversários. Os
militares entenderam bem a tese de Elio Gaspari em seu seminal livro “A
ditadura escancarada”: “A essência das
ditaduras não está naquilo que elas fazem para se perpetuar no poder, mas
naquilo que a partir de certo momento já não precisam fazer” (pag. 232). Na ditadura era preciso sujar as mãos
perseguindo as oposições ao regime. Na democracia não precisa mais descer aos
porões da coerção, pois a Constituição Brasileira manteve alguns entulhos
autoritários a exemplo dos artigos 142 e 144.
Continua amanhã...
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