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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quando eles cruzam o Rubicão – Parte I


Por volta de 50 a.C., Júlio César cruzou o rio Rubicão atrás de Pompeu descumprindo leis de Roma que proibiam que seus generais fizessem a travessia para que a sede do Império não fosse desguarnecida. A atitude foi heroica, mas temerária, pois ele pôs Roma em risco. Júlio César até marcou o fato com a frase “Alea jacta est” (a sorte está lançada). “Cruzar o Rubicão" passou a significar a tomada de uma decisão, que envolve riscos, sem que se possa voltar atrás.  Quando políticos cruzam o rubicão estam dando um grande salto.


O presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, cruzou o rubicão. Ele acolheu um dos pedidos de impeachment da Presidente Dilma, protocolados na Câmara por partidos: o PSDB à frente, o PMDB por trás. O ato “rubinesco” de Cunha não teve nada de heroico, não foi uma decisão cerebral, baseada em um cálculo considerando a relação custo/benefício de um ato de tal envergadura. Cunha, e seu exército de Brancaleones, atravessou o rubicão brasiliense devido a cavalares doses de cinismo e uma mórbida estultice que moldam essa figura que a politica do Brasil tão bem reproduz.



O poeta e dramaturgo Oscar Wilde afirmou que “o cínico sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”. Assim é Eduardo Cunha despido de valores republicanos, falso moralista hipócrita (que vê no caduco Estatuto da Família a obra de uma vida), arrecadador de propinas que deposita em faraônicas contas bancárias. Num artigo de 04 de dezembro o colunista da Folha de São Paulo, Marcos Gonçalves, chamou Cunha de “jihadista da direita corrupta, um patife entrincheirado no comando da Câmara”. Para permanecer na Presidente da Câmara dos Deputados Cunha terá ainda que cruzar um rubicão amazônico. Quando suas chantagens não mais surtiam efeito se atirou nas águas de um rio que ele não sabe onde, e se, tem pé suficiente para deixar sua cabeça acima do nível da água.


Eduardo Cunha acolheu o pedido de impeachment motivado (1) pela mensagem que o presidente nacional do PT, Rui Falcão, postou no Twitter: “Confio em que nossos deputados votem pela admissibilidade do processo”; (2) pelo anuncio dos deputados do PT, com assento no Conselho de Ética, de que votariam pela continuidade do processo contra ele; (3) pelo palpite de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedirá ao Supremo Tribunal Federal seu afastamento da presidência da Câmara. Cunha usava o impeachment contra a presidente como clara chantagem para preservar seu mandato depois que até a Ordem dos Congregados Marianos já sabiam de suas contas na Suíça e das peraltices de sua esposa na Europa e nos EUA.


Eduardo Cunha finge não saber que foi o PSOL e o Rede Sustentabilidade que entraram com uma representação contra ele no Conselho de Ética. Prefere achar que é tudo uma (SIC) “perseguição sórdida vinda do Palácio do Planalto”. Sim, interessa ao governo ver Cunha cada vez mais enredada na teia de embustes, veleidades, empáfias e estupidez por ele próprio tecida. Sim, o governo barganhou com Cunha ao propor que ele não acolhesse pedidos de impeachment em troca de sua defesa no Conselho de Ética. Mas, Cunha, chantagista de quatro costados, formado nos bastidores putrefatos do parlamento brasileiro, não aceitou o toma-lá-dá-cá porque deve favores a uma oposição pró-impeachment que contribuiu para que ele deixasse o baixo clero e se tornasse presidente da Câmara dos Deputados.


Mas, como já se disse, (SIC) “a chantagem é a arma dos fracassados”. O chantagista pensa ser forte pelo temor que causaria no chantageado. Mas, este pode ser o dono das ações se resolver revelar as verdades que dão lastro à chantagem. Cunha, ignorante contumaz, não entendeu isso. Deveria ouvir mais e melhor os que manuseiam os humores e quereres do governo, Lula, Michel Temer, Renan Calheiros, et reliqua. Já o PT, finalmente, tomou uma atitude consequente e resolveu medir forças com Cunha mesmo que tenha que entregar a cabeça da presidente Dilma.


O PT entendeu que precisa sobreviver, pois aí vêm 2016 trazendo as eleições municipais. Entendeu, também, que para acabar com o chantagista só mesmo lhe retirando o motivo da chantagem. Pareceu um salto no escuro, mas a ideia foi bem racionalizada. Ao decidir apoiar a cassação de Cunha, se viu livre de defender o indefensável. O PT está numa posição tão delicada que até aceita perder um de seus braços, que atende pelo nome de Dilma Rousseff, na esperança de recuperar o respaldo social que outrora era seu principal capital politico. Hoje, Dilma é refém do seu partido e depende dele tanto quanto tem que se submeter ao PMDB, o achacador-mor da República.


Continua amanhã...

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