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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Vivandeiras querem golpe para salvar a democracia


Em 1º de junho de 1950, Carlos Lacerda publicava editorial em seu jornal “A Tribuna da Imprensa” que reputo como o suprassumo da mentalidade antidemocrática. Dizia “o corvo”: "O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Inclementemente simples.

No Brasil era assim: onde se falasse em revolução logo se via golpe, assalto ao poder, intervenção militar. Lacerda liderava a União Democrática Nacional (UDN), uma espécie de PSDB só que bem mais conservadora e autoritária. Com seu libelo golpista, Lacerda expressava a impaciência de setores elitizados cansados de verem seus interesses represados pelo nacional-desenvolvimentismo. Fruto de uma sociedade desacostumada aos ritos democráticos, Lacerda pedia golpe ao invés de pedir votos para UDN.

O governo Vargas foi tumultuado, com a oposição implorando que os militares tomassem o poder, e Lacerda teve o desfecho autoritário que tanto ansiava em 1964. As ilações entre este período e o momento político que vivemos são inevitáveis. Hoje, como no passado, muitos acreditam que a força é solução única para nossas crises institucionais, pois nossa democracia representativa ruiu de vez. Fôssemos uma sociedade que cresse nos valores da democracia e não veríamos vivandeiras rondavam os quartéis.

Vivandeira vem do francês “vivandière” e significava (na Guerra de Canudos, por exemplo) a mulher que seguia a tropa levando mantimentos para os soldados. O jornalista Elio Gaspari, numa coluna para a Folha de São Paulo em janeiro de 2010, mostrou que o primeiro ditador/presidente do regime militar, marechal Humberto Castello Branco, chamava de vivandeiras os políticos que iam aos quartéis conspirar com a oficialidade. Dizia Castello: “São os que, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”. Se déssemos o real valor que a democracia tem, vivandeiras seriam coisas do passado e não veríamos brasileiros vestidos de verde-e-amarelo (por cima do preto fascista que cultuam) pedindo aos militares para intervirem na ordem política e social do país. De fato, algo em torno de 30% dos brasileiros trocaria nossa frágil democracia por um regime de força.

Este cenário de crise se agravou por causa da corrupção mesmo que esta não seja causa e nem consequência daquela. Sim, temos uma moralidade seletiva, onde se escolhe como e porque ser ou não desonesto e onde políticos não são criticados pelo envolvimento em negócios escusos, mas por ter se deixado flagrar. Não indicaria, claro, as pedaladas fiscais do governo Dilma como fato gerador da crise, pois houve quem se gabasse, antes de 2014, de pedalar para não arrombar as contas. Até os pombos da Praça dos Três Poderes em Brasília sabem que pedaladas se tornaram motivo para impeachment como estratégia de quem não conseguiu chegar ao poder pelas urnas.

Estranho foi ver atores políticos e judiciais buscando a porta lateral do golpismo, calcados na mentalidade udenista, onde crises institucionais se resolvem com saídas de força. Não se buscou o golpismo tradicional, ativado pelas Forças Armadas, mas um ato que segue as regras da democracia. Podemos conviver com tamanho paradoxo? Ainda teremos que analisar a mãe de todas as contradições desse momento que é se usar os ritos da democracia, como a liberdade de expressão, para pedir o seu fim.

Em democracias consolidadas procedimento democrático é a água que jamais se mistura com o óleo da mentalidade autoritária. Mas, com a criatividade que temos para misturar água e óleo, exercitamos nossa mentalidade pretoriana sem ter que rasgar a Constituição. Tal qual em tempos idos vivandeiras seguem batendo à porta da caserna! Assim como se fez com Fernando Collor, na vã tentativa de mantê-lo no poder, e com Itamar Franco, para garantir que assumiria a presidência no impeachment de 1992, as Forças Armadas teriam sido sondadas para a destituição de Dilma Rousseff? O senador José Serra (PSDB) se referiu, entre os meses de julho e setembro de 2015, sobre a possibilidade de a crise descambar para uma intervenção militar ao comparar o momento com o ano de 1964. Serra, vivandeira de quatro costados, batia à porta do quartel. Parecia querer lembrar aos militares que seria hora deles tomarem as rédeas do poder.


A prova disso foi que o general do Exército Eduardo Villas Bôas teve que esclarecer o posicionamento da instituição que comanda. Numa entrevista à Folha de São Paulo (14/10/2015), negou a possibilidade de uma intervenção militar, mas admitiu que uma “crise social afetaria a estabilidade do país e isso diria respeito às Forças Armadas”. Ele chegou mesmo a dizer que: “E aí, nesse contexto, nós nos preocupamos porque passa a nos dizer respeito diretamente”.

Se a crise afeta a estabilidade do país e diz respeito às Forças Armadas, o que fazer então? Intervir na ordem social e política? Ou deixar que os civis ponham ordem no frege que eles mesmos causaram? Na entrevista, o Gal. Villas Bôas diz, numa provável resposta ao senador Serra, que é a “sociedade que tem que aprender com seus erros e ter consciência que cabe a ela solucionar esses problemas”. Mas, o general lembra que “as Forças Armadas têm que estar em condições de atender às demandas da população”. Ou seja, o Exército não pretende intervir para corrigir erros da sociedade, mas segue atento as demandas intervencionistas da população.

Nunca é demais lembrar que parte da população brasileira se mostra simpática a volta dos militares ao poder central do país, segundo pesquisas do Datafolha e do Ibope realizadas entre 2015 e 2016. É preciso atentar para os perigos de se clamar por intervencionismo. Nossa história nos exemplifica que não raras vezes vivandeiras terminaram sendo perseguidas pelos que tomaram o poder a força – Carlos Lacerda, a Igreja Católica e a classe média brasileiras que o digam.

O ímpeto golpista das manifestações de rua arrefeceu, mas o ativismo autoritário nas redes sociais segue firme, forte, bem articulado, mesmo que não disfarce uma contundente estupidez quando trata de nossa história política. Vejo sempre pessoas citando casos de corrupção para logo em seguida pedir aos militares para nos salvarem (SIC) “do horror de viver numa democracia”.

Se é verdade que os militares não estão interessados em fazer cumprir o artigo 142 da Constituição, é bem verdade, também, que parte da população cansou de viver sob os dilemas da democracia. O problema é que muitos não viveram os tempos obscuros da ditadura e se recusam a saber o que acontecia com os que se opunham ao regime militar. Parte dos brasileiros querem o bônus da ordem social e política, mas esquecem do ônus histórico que essa mesma ordem nos inflige.


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