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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vivandeiras querem golpe para salvar a democracia - Parte III.



Certo. Se a crise é de tal monta, que afeta a estabilidade do país e diz respeito às Forças Armadas, o que fazer então? Cumprir a Constituição Federal e intervir na ordem social e politica? Ou deixar que os civis ponham ordem no frege que eles mesmos causaram? A entrevista do Gal. Villas Bôas é algo dúbia. Num momento ele diz, numa provável resposta ao senador Serra, que é a “sociedade que tem que aprender com seus erros e ter consciência que cabe a ela solucionar esses problemas”. Já em outro ponto da entrevista afirma que “as Forças Armadas têm que estar em condições de atender às demandas da população”.


É como se ele estivesse dizendo que o Exército não vai intervir para corrigir os erros da sociedade, mesmo que possa vir a atender uma demanda de intervenção vinda da população. Nunca é demais lembrar que quase a metade da população brasileira se mostra simpática a volta dos militares ao poder central do país, segundo pesquisas do Datafolha e do Ibope realizadas neste ano. É preciso atentar para os perigos de costumeiramente se pedir, aos que detém o monopólio da força, para que intervenham no poder político (civil, por excelência). Nossa história nos exemplifica que não raras vezes vivandeiras terminaram sendo perseguidas pelos que tomaram o poder a força dos sabres e tanques de guerra – Carlos Lacerda, a Igreja Católica e a classe média brasileira que o digam.


Resultado de imagem para frágeis democraciasEm democracias frágeis agitações politicas na caserna querem sempre dizer algo. Agora, no mês de outubro, o Ministro da Defesa, Aldo Rebelo, teve que exonerar o Comandante Militar do Sul, Gal. Antônio Hamilton Martins Mourão, por ele ter dito que: “mera substituição da presidente não trará mudanças significativas (...) mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção (...) toda consciência autônoma, livre e de bons costumes precisa despertar para a luta patriótica, contribuindo para o retorno da autoestima nacional”. Com tais comentários o Gal. Mourão incorreu em vários erros: (1) desrespeitou a (sua) comandante em chefe das Forças Armadas; (2) atingiu a ordem hierárquica das instituições coercitivas; (3) opinou sobre uma seara que não lhe diz respeito; (4) induziu civis e militares a atuarem em defesa de valores pouco democráticos.


Para piorar a situação, se promoveu no quartel da 3ª Divisão do Exército, em Santa Maria (RS), homenagem póstuma ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador da ditadura militar que chefiou o DOI-CODI de São Paulo. Homenagear figura tão abjeta, num país governado por uma ex-militante que foi presa e barbaramente torturada, soa como um escarnio, mas não deixa de ser uma movimentação política da caserna. Os militares gaúchos quiseram enviar um recado ao governo que acusou o golpe e tomou uma atitude drástica, coisa rara nos dias de hoje, mandando o general boquirroto realizar tarefas burocráticas em Brasília.


O ímpeto golpista das manifestações de rua arrefeceu, mas o ativismo autoritário nas redes sociais segue firme, forte, bem articulado em que pese não conseguir disfarçar uma contundente estupidez quando o assunto é a recente história politica brasileira. Não passa um dia sequer sem que alguém cite um caso de corrupção para logo em seguida pedir aos militares para nos salvarem (SIC) “do horror de viver numa democracia”, frágil, mas uma democracia. Se é verdade que os militares não estam interessados em fazer cumprir o art. 142 de nossa Constituição, é bem verdade, também, que quase metade da população cansou de viver sob os dilemas da democracia. O problema é que essa metade não viveu os tempos obscuros da ditadura e se recusa a travar conhecimento a cerca do que acontecia com aqueles que se oponham ao regime militar.


Brasileiros apontam a possibilidade de termos uma nova ditadura por não considerarem a democracia como o único sistema político possível. Essa insistente lembrança que temos da ditadura quer dizer que não apostamos todas as nossas fichas na democracia. Sérgio Buarque de Holanda já dizia que a “democracia, no Brasil, foi sempre um lamentável mal entendido”. Foi, e continua sendo, para pelo menos 45% da população que pensa ser bom viver num sistema onde as liberdades e os procedimentos democráticos são artigos de luxo para bem poucos.


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