sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sergio Porto e o Stanislaw de cada um.









Quando eu tinha uns 16 ou 17 anos, me caiu nas mãos um livro chamado 1º FEBEAPÁ, que é a sigla para Festival de Besteiras que Assola o País. O nome do autor era estranho, chamava-se Stanislaw Ponte Preta. Só quando eu já tinha terminado de ler o tal livro é que descobri que o nome verdadeiro do autor era Sérgio Porto. Sergio nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta  para se proteger daqueles que falava mal. Quando Sérgio queria falar mal de um poderoso, Stanislaw entrava em cena.





Dizem que o pseudônimo e sua marca registrada, a irreverência e a ironia, foram retiradas do livro “Memórias de Serafim Ponte Grande” de Oswald de Andrade. Sergio era carioquíssimo e utilizava a exaustão o jeito carioca de ser em suas crônicas. Sergio dizia que sua marca era a disposição de desfazer o sentido de uma palavra ou de uma situação. Ele era mestre em, a partir de pistas falsas, conduzir suas histórias até um final totalmente inesperado. Vejam “Menino Precoce” e “A Charneca”, por exemplo.





Sergio se auto definia como “jornalista, radialista, televisista (o termo não existe, mas a atividade sim), teatrólogo em recesso, humorista, publicista e bancário”. Dizia que tinha as atividades “marido, pescador, colecionador de discos de samba e jazz”. Certa vez ele escreveu que tinha três atividades paradoxais. Era um boêmio que adorava ficar em casa; era um irreverente que revia sempre o que escrevia; e um humorista a sério. Ele dizia também que sua principal motivação era a mulher.





Sergio dizia que tinha uma completa incapacidade para se deixar arrebatar pelo poder, que jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública e que detestava puxa-sacos, homens metidos a machão, burros metidos a sabidos e racistas de todo tipo. Ele era um homem simples e prático. Dizia que quando sentia dores do umbigo para cima tomava aspirina e que quando a dor era do umbigo para baixo, aí tomava Elixir Paregórico.





Outra arte de Sérgio Porto era a elaboração das comparações enfáticas, tais como: “mais inchada do que cabeça de botafoguense"; "mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas"; "mais suado do que o marcador de Pelé"; "mais duro do que nádega de estátua"; "mais feio do que mudança de pobre". Como Chico Anysio, Sergio criou personagens maravilhosos como a Tia Zulmira, o Rosamundo e o Primo Altamirando. Quando O Festival de Besteira que Assola o País foi lançado o Brasil já vivia sob uma ditadura militar, eram os idos de 1966. Aliás, Stanislaw Ponte Preta chamava a ditadura militar de “A Redentora”. Pura ironia acerca do discurso de que o golpe e a ditadura iriam salvar do Brasil dos políticos corruptos e incapazes.



 




Stanislaw dizia que não podia precisar o dia em que as besteiras começaram a assolar o Brasil, mas notou que algo não ia bem depois que uma inspetora de ensino de São Paulo, uma senhora de nível intelectual sofrível, acusou o professor de seu filho de agente comunista apenas porque o pimpolho tinha tirado um zero. Sérgio Porto fazia o mesmo que eu faço no POLITICANDO, só que num nível que eu não tenho e com uma leveza, além de fino humor, que eu jamais poderei dispor. Sergio colhia coisas da realidade política da época dele e as tratava de um jeito que parecia ficção.





Era tudo tão absurdo que parecia não ser verdade. Acostumei-me a ler as histórias de Sergio Porto sabendo que por mais inverossímeis que fossem tinham acontecido de fato, pois elas eram recolhidas no Brasil, não na Dinamarca ou na Suécia. Vejamos algumas.  No mesmo dia em que o governo interviu nos sindicatos, mandou uma delegação à 16ª Sessão da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra, para participar de uma Comissão de Liberdade Sindical. Imaginem falar de liberdade sendo perseguido.





Quando a seleção de futebol da Alemanha Oriental, comunista, veio ao Brasil, o Itamarati distribuiu nota avisando que ela só jogaria se a partida não tivesse cunho político. Em Mariana, MG, um delegado proibiu casais de se sentarem juntos na praça da cidade e as moças da cidade só podiam ir ao cinema com um atestado dos pais. Em Belo Horizonte, outro delegado coloca espiões nas arquibancadas dos estádios. O torcedor que dissesse mais de três palavrões era preso.


 



Na revista Manchete tinha um colunista social que elegia as mulheres mais bem vestidas do ano. Para não ficar por baixo, Stanislaw criou a lista das “Mulheres Mais Bem Despidas do Ano". Eram chamadas as “certinhas do Lalau”. Pura ironia e gozação. Stanislaw Ponte Preta, não Sérgio Porto, falava mal de Deus e o mundo. Ele dizia as maiores barbaridades sobre as misérias da humanidade com um fino humor e uma ironia corrosiva.




A maior qualidade de Sergio Porto era fazer humor sem caricaturar o assunto. Quando ele queria fazer graça, dizia a verdade. Ele fazia humor falando verdades, descobrindo verdades, tendo a coragem de ser odiado por dizê-las. Eu vou ser sincero. Ainda bem que Sergio e Stanislaw não estam vivos para ver esses dias horrorosos do politicamente correto. Se estivesses vivos eles seriam apedrejados em praça pública pelos puros de alma que dizem que travam o bom combate.









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