quinta-feira, 21 de março de 2013

No IDH não somos campeões.




 



Imagine o caro ouvinte que a FIFA divulgasse o ranking das seleções nacionais e que o Brasil aparecesse em 85º lugar, ao invés de estar entre as 3 melhores seleções do mundo como é de costume. Provavelmente, teríamos uma comoção nacional. Imaginem o que diria Galvão Bueno em um irado editorial do Jornal Nacional? Correria o risco de termos uma revolta quando o povo soubesse que sua seleção penta campeã ocupava o 85º lugar no ranking da FIFA. Haveria rebeliões em praça pública.





As pessoas fariam greve. O trânsito das grandes cidades se tornaria um caos total e a sede da CBF seria invadida por torcedores revoltados e humilhados. O Congresso Nacional convocaria uma CPI para apurar as responsabilidades. Certo, isso tudo uma fantasia. Mas, o fato é que a ONU acaba de divulgar o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (o IDH) e nele o Brasil aparece exatamente no 85º lugar. O caro ouvinte sabe o que significa isso? Eu explico.





Nas últimas duas décadas o Brasil melhorou seu IDH, mas segue com uma taxa menor do que a média dos países da América Latina. O Chile ocupa o 40º lugar e a Argentina o 45º, enquanto nós estamos no 85º lugar num total de 186 países. Vi pessoas reclamando do fato do papa ser argentino, mas não lembro ter visto alguém protestar dessa goleada que levamos de nossos vizinhos. Maradona, aquela pobre alma, tripudiou porque o papa é seu conterrâneo, mas calou em relação ao IDH.





Certo, vamos refletir sobre a questão. Segundo dados de 2012 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Brasil teve um aumento de 24% no seu IDH nos últimos 20 anos. É uma proporção superior à de outros países da América Latina. De 1990 até 2012, a Argentina aumentou seu índice em 16%, o Chile em 17% e o México em 18%. Neste mesmo período, o Brasil foi o 14º país que obteve mais sucesso na árdua tarefa de reduzir os déficits do IDH. Nestes 22 anos o Brasil avançou muito.




Mas, isso só agrava a situação. Pois, com todas as melhoras seguimos tendo um resultado inferior a esses outros países. Se hoje estamos, ainda, 40 países atrás da Argentina, imagine como não era a situação lá no início da década de 90? O IDH é um índice de referência que avalia o desenvolvimento humano dos países membros da ONU. Ele é calculado a partir de três variáveis: vida longa e saudável; acesso ao conhecimento; e padrão de vida decente.





A primeira variável é aferida a partir da expectativa de vida dos cidadãos de cada país. A segunda é medida pelos índices médios dos anos de escolaridade que os adultos de cada país possuem. A terceira variável é obtida a partir da renda nacional per capita. É por isso que a Argentina se colocada melhor do que o Brasil, pois só em Buenos Aires existem mais livrarias e bibliotecas do que nas 10 maiores cidades brasileiras. Ser penta campeão do mundo e ter Pelé não conta pontos no ranking do IDH da ONU.




O que importa mesmo é ter qualidade de vida, boas condições materiais e cidadãos com bons níveis de conhecimento. O que interessa para a ONU não é pensar com pés calçados em chuteiras e sim com cabeças recheadas de conhecimentos. Se o IDH brasileiro não chega a ser muito baixo como de vários países do continente africano, também está um tanto quanto longe dos 47 países que foram rotulados com um IDH muito alto. O IDH brasileiro é de 0.73 em uma escala que vai de 0 a 1.





Quanto mais próximo de 1, melhor o desempenho do país. Assim, ficamos em 85º lugar num ranking composto por 186 países. O Brasil está no grupo dos que tem "alto desenvolvimento humano". Mas, fica atrás da média latino-americana que é de 0.741. Estar no grupo dos que tem "alto desenvolvimento humano" é bom para o governo utilizar em suas propagandas institucionais e para Dilma Rousseff colocar no seu guia eleitoral do ano que vem. Mas, olhando detidamente ainda temos muito que melhorar.



 



O Brasil aparece empatado com a Jamaica, que não é um primor de desenvolvimento. Líbano, Sérvia e Bósnia, devastados por guerras nos últimos 22 anos, tem IDH melhor que o nosso. Peru e Cuba, inferiores economicamente, possuem IDH melhor que o nosso. A Líbia, ainda arrasada após a ditadura Kadafi, e o Irã, onde as mulheres podem ser apedrejadas, possuem melhor IDH que o Brasil. E sabem por quê? Porque de alguma forma eles valorizam mais aquelas três variáveis do que nós.





A questão é que adianta pouco crescer economicamente, se isso não serve para fazer com que a qualidade de vida das pessoas melhore. De que adianta ter um “PIBÃO”, como quer o ministro Guido Mantega, se continuamos pobres de conhecimento. O fato é que temos um crescimento econômico baseado no consumo e isto não serve como base para o IDH, pois não adianta consumirmos tanto se não temos bons índices quando se trata de vida saudável, decente, e acesso ao conhecimento.





Mas, para que ter IDH alto se sediaremos a Copa do Mundo e as Olimpíadas? Na pátria de chuteiras, IDH não quer dizer nada. O que importa mesmo é o ranking da FIFA. No entanto, acendam a luz vermelha, pois verifiquei o ranking da FIFA e vi que o Brasil ocupa, hoje, o 18º lugar. Será possível que nem no futebol conseguimos mais ficar em primeiro lugar?








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