quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA.







Como cientista político minha função é, antes de tudo, observar os fenômenos de nossa realidade. Repetidamente, tenho visto jovens em cadeiras de rodas, com muletas ou ferimentos sérios. No trânsito, vejo muitos acidentes envolvendo motocicletas. Em apenas um dia vi três acidentes e num deles o rapaz que pilotava a moto foi levado ao hospital num estado bastante grave.




Não sei o que lhe aconteceu, mas torço para que tenha sobrevivido e que não tenha ficado com alguma deficiência ou paralisia. O caro ouvinte acha que estou sendo trágico? Sim, estou. Mas, estou sendo, também, realista. Segunda-feira o Diretor Técnico do Hospital de Trauma de Campina Grande, Dr. Flaubert Cruz, deu uma entrevista aqui no Jornal Integração e apresentou dados assustadores.




Dr. Flaubert disse que 67% das cirurgias feitas no Trauma são para atender vítimas de acidentes de moto. Do total de pessoas que vem a óbito no Hospital a cada mês, 10% foram vítimas de acidentes de moto.




O Trauma é um hospital geral, atende a várias patologias, mas termina tendo que dedicar parte considerável de seus esforços no atendimento das vítimas dessa guerra urbana que é o trânsito das cidades brasileiras.



Além dos mortos, Dr. Flaubert falou dos sequelados, ou seja, dos que ficam com complicações temporárias ou definitivas ou mesmo com doenças consecutivas pós-acidentes. São os que adquirem retardo mental, paraplegias, doenças de todo tipo ou que ficam com ferimentos tão graves que precisam recorrer a cirurgias plásticas.




Os dados do Hospital de Trauma dão conta que 82% das vítimas desses acidentes têm entre 21 e 35 anos. Muitos dos sobreviventes ficam impossibilitados de estudar e/ou trabalhar. Deixam de ter vida útil e passam a viver sob os cuidados da família. Outro dado importante é que a maioria das vítimas em acidentes com motos chegam ao Hospital de Traumas nos finais de semana. Ou seja, os acidentes se relacionam pouco ao trabalho.




A maioria tem como causa a imprudência e essa mania estúpida que se tem de ingerir bebidas alcóolicas e depois pilotar motos ou dirigir carros. Dr. Flaubert afirma que muitos dos acidentados poderiam ter ferimentos leves ou mesmo não tê-los se estivessem portando o EPI (Equipamento Individual de Proteção). São os capacetes, luvas e botas.







É que tem muita gente que acha que o EPI só serve para compor o estilo do motociclista, não para protegê-lo. É comum vermos pessoas pilotando motos com os capacetes pendurados no braço. Assim, estamos criando em nossa cidade uma legião de pessoas jovens condenadas a uma vida de sacrifícios e com pouca ou nenhuma mobilidade. Além das famílias que muito cedo perdem seus entes queridos.




Além das perdas que são irreparáveis, temos os prejuízos. Segundo representantes do setor calçadista de Campina Grande só no primeiro semestre de 2012 cerca de 200 funcionários sofreram acidentes de moto. Uma indústria local deixou de produzir 70 mil pares de calçados em apenas um mês devido as ausência de funcionários vítimas de acidentes de moto. Ou seja, ainda temos que lidar com os prejuízos no setor produtivo.




Dados do DPVAT (Seguro de Danos Pessoais causados por Veículos de Via Terrestre) mostram que todos os dias morrem cerca de 160 pessoas por acidente de trânsito no Brasil. Do total de indenizações pagas em 2010, 61% foram para motociclistas.




Já o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde revela que o número de mortes por acidentes com motocicletas passou de 3.744, em 2002, para 10.143 em 2010. Apenas no ano de 2011 52 mil brasileiros morreram em acidentes nas ruas e estradas do país. Os acidentes com motos responderam por 25% desses casos.




Para que o caro ouvinte tenha ideia da situação, 52 mil foram os soldados americanos mortos nos 13 anos em que durou a Guerra do Vietnã. Nós matamos e morremos no trânsito como se estivéssemos numa guerra.




Certa vez, meu filho me pediu uma moto. Eu disse que preferia lhe comprar logo um caixão. Depois, achei que havia exagerado. Mas, vendo estes dados penso ter feito um bom negócio. Não comprei a moto, muito menos um caixão, e meu filho está muito bem obrigado.