terça-feira, 2 de setembro de 2014

DEPOIS, NÃO DIGA QUE NÃO AVISEI.

Brasília é uma cidade de muitas histórias. Numa delas se conta que aliados do PT, com pendores mais democráticos, teriam tentado convencer Lula a não lançar a ofensiva que terminou impedindo que Marina Silva tornasse o “Rede Sustentabilidade” um partido. Lula teria dito que essa seria a forma de impedir que Marina fosse candidata e que terminasse sendo eleita. Reza a lenda que Lula repetia, para quem quisesse ouvir, que se Marina tivesse um partido para chamar de seu Dilma não se reelegeria. Conta-se, também, que Lula afirmava que essa história de deixar para resolver tudo nas urnas era um risco que o PT não poderia correr. Aliás, a desavença de Lula com Eduardo Campos foi exatamente pelo fato do PSB ter dado abrigo a Marina.

Parecia que Lula queria dizer para pararem com a ideia de dar espaços para Marina, pois ela poderia terminar passando todo mundo. Do alto de sua experiência, Lula parecia prever: “depois, não digam que eu não avisei”. O plano era perfeito, mas faltou combinar com o “Sobrenatural de Almeida”, personagem de Nelson Rodrigues dono das improbabilidades da vida. Tudo caminhava na santa paz, entre PT e PSDB, que reeditariam mais um “FLA X FLU” eleitoral. Lula e FHC já estavam com as garras afiadas para se engalfinharem em prol de seus pupilos candidatos a presidente da República. Eduardo Campos, e sua vice oculta por ações nada republicanas, comporiam o espetáculo como meros coadjuvantes.

Mas, o inesperado, o acidental ou as contingências da vida mudaram tudo. Os adeptos das teorias conspiratórias andam dizendo que “forças ocultas”, das quais nos falava o ex-presidente Jânio Quadros, entraram em ação para mexer no tabuleiro eleitoral. Marina Silva passou de expectadora de luxo para atriz principal de um espetáculo que, tal qual a Paixão de Cristo, muitos insistem em já saber como será o final. De minha parte, acredito que o jogo só acaba quando termina. Em eleições, cantar vitória antes de se apurar as urnas é arriscado e muitos dizem que dá um azar terrível. Que o diga FHC que, em 1985, sentou-se na cadeira do prefeito de São Paulo, um dia antes da eleição, se achando eleito e terminou perdendo o pleito.


Mas, o IBOPE e o Datafolha da semana passada encheram de esperança os “marineiros” e os que não querem mais governos do PT ou do PSDB. Aliás, e ao que tudo indica, nunca na história eleitoral desse país, o discurso da 3ª via foi tão forte. Na terça-feira, o IBOPE trouxe Dilma em 1º lugar com 34%, Marina em 2º com 29% e Aécio em 3º com 19%. Na sexta-feira, o Datafolha já trouxe Dilma e Marina empatadas tecnicamente em 1º lugar com 34 pontos percentuais cada uma. Aécio veio em um desesperador 3º lugar com apenas 15%. Este Datafolha de sexta aponta Marina eleita num 2º turno contra Dilma. A ex-senadora teria 50% dos votos válidos e a presidente teria 40% neste cada vez mais possível 2º turno.

Se os dois Institutos não estiverem enganados, ou maquiando os dados deliberadamente, Dilma e Aécio vão terminar tendo que fazer o mesmo discurso, pois Marina tornou-se o alvo a se acertar com todas as armas que se tiver ao alcance da mão. Dilma vem assistindo Marina alcança-la sem ter como reagir, até porque sua popularidade e a aprovação do seu governo não andam lá muito bem das pernas. A essa altura do campeonato, Lula, sempre ele, deve estar dizendo: “eu não disse, eu avisei!”. Aécio vê a situação como se tivesse caído do trem e não pudesse mais alcança-lo. No IBOPE, do começo da semana passada, Marina tinha 29% contra 19% de Aécio. Mas, no Datafolha do final da semana Aécio tinha perdido quatro pontos percentuais.

Não por acaso, Marina ganhou algo em torno de 4 pontos percentuais em apenas uma semana. Ao que tudo indica a ex-senadora tem sido mais eficiente em dissecar o capital eleitoral do senador mineiro, mesmo que possa atacar em outras paragens. Enquanto Marina era tão somente a vice, numa chapa composta para enfeitar o cenário, o eleitor brasileiro demonstrava que queria mudanças mesmo que não confiasse no PSDB, de Aécio Neves, para ser o motor dessa mudança. O eleitor sinalizava a vontade de mudar, mas dentro de uma situação em que seria a própria Dilma a implementar tais mudanças. Claro, aqui teria que se considerar a contradição do PT não querer e não poder fazer qualquer mudança que seja.

Mas, Mister Sobrenatural de Almeida resolveu intervir. Marina se tornou candidata a presidente catalisando para si este sentimento de mudança, dando clara alternativa para quem não aguenta mais o falso dilema que PT e PSDB encenam há tanto tempo. O tucanato e os “lulo-dilmistas” estam tentando encontrar aquele local que, ao baterem, farão Marina sentir fortes dores, se é que este local existe de verdade. A tirar pelo debate da TV Bandeirantes este local ou não existe ou está muito bem escondido. Marina é tão politicamente correta que irrita seus adversários. Um amigo disse que “Marina é tão boa, que chega a ser ruim”. Inclusive, ela tirou o PT e o PSDB da confortável zona do confronto bipolar. Agora é salve-se quem puder, pois de frágil Marina Silva só parece ter mesmo é a aparência.

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