terça-feira, 15 de outubro de 2013

POR FAVOR, RESPEITEM O PROFESSOR!






Eu era um adolescente que, claro, não sabia o que queria ou poderia fazer na vida. Estudava numa escola que mais se parecia com um colégio militar. Lá os princípios da hierarquia e da disciplina eram mais valorizados do que o próprio conhecimento. Mas, foi nesta escola que tive um professor que me abriu os olhos para muita coisa. Ele ensinava ciências, mas eu odiava estudar as funções dos órgãos do nosso corpo, os micro-organismos, os animais vertebrados e invertebrados e as bactérias.




Eu não conseguia entender, se é que eu queria, porque tinha que saber que a célula é composta pelo núcleo e pelo citoplasma e que é envolta por uma membrana celular. Para mim, nada daquilo fazia sentido.  Eu era, como disse uma diretora dessa escola, um aluno sofrível e um caso sem solução por causa de meu péssimo comportamento, de minha indisciplina e de uma ironia que insistia em não me largar. Esse professor de ciências não me via dessa forma.




Ele achava que eu tinha salvação. Depois de tentar me convencer de várias formas a prestar atenção às aulas, ele mudou sua abordagem. Certo dia ele me fez uma proposta irrecusável. Na verdade, ele propôs um trato. Eu não mais seria obrigado a assistir as aulas dele, nem precisaria fazer as atividades que tanto detestava. Em troca, teria que ler alguns livros que ele me emprestaria e depois discutir com ele sobre cada um desses livros. Eu aceitei o trato na hora. O primeiro livro que ele me deu foi “O que é ditadura”, da Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense.  Eu tinha uns 13 anos e adorei ler sobre o sistema político em que vivíamos lá pelos idos de 1982. Acho que o cientista político começou a surgir ali.




E assim, cumpríamos o trato. Ele me dava livros para ler e eu não perturbava as aulas dele. Nas horas vagas, nos intervalos e na saída da escola ficávamos conversando sobre o que eu lia e sobre filmes, músicas, história, futebol e, claro, sobre política. Foi pelas mãos desse professor que tive acesso a um sem número de leituras que foram primordiais em minha formação. Eu não percebia, mas ele estava, no bom sentido, claro, fazendo minha cabeça. Mas, porque eu estou lembrando essa história?




Porque hoje é o dia do professor! Nada mais justo do que lembrar a relevância social desse profissional. Mas, eu não vou repetir o mantra do “quanto o professor é importante e deve ser valorizado”. Eu não vou cair na vala comum dos discursos oficiais. Eu não vou fazer uma ode a mim, a meus colegas e a nossa profissão e me recuso a reproduzir o discurso da vítima. Aquele que diz “olhem o quanto é difícil ser professor, vejam como ele sofre”. Eu não quero que ninguém tenha pena de nós.


 


É lógico, óbvio, que ninguém em sã consciência vai negar a importância do professor na formação de um cidadão e no desenvolvimento social. Mas, se é assim, como seguimos sendo profissionais tão pouco valorizados em nosso país? Porque os governantes continuam a praticar a política de poucos direitos e muitos deveres para com funcionários públicos da área de educação? Porque governos tendem a criminalizar os atos dos professores que lutam pelos seus direitos?




Recentemente professores foram tratados como “black blocs” alucinados em manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio eles protestavam contra um projeto da Prefeitura que instituiu o professor “tudólogo”, i.e., o especialista em tudo. O Plano de Cargos e Salários do prefeito Eduardo Paes cria o professor que pode dar aulas de qualquer matéria, independente de sua formação. Assim, um professor, como eu, formado em história, poderia dar aulas de ciências. Vejam que perigo!




Mas, isso não é de hoje. Quem não lembra o ex-governador de São Paulo, Mário Covas, em plena praça pública colocando o dedo na cara de um professor e dizendo a plenos pulmões que (SIC) “... professor meu não tem direito de reclamar, tem que dar aulas”. Em Campina Grande as coisas não são diferentes. Vejam que entra e sai governo e os professores municipais seguem com as mesmas reivindicações. E seguem sendo desrespeitados, até chamados de vagabundos, quando resolvem reivindicar seus direitos e aquelas melhores condições para poderem cumprir seus deveres.




Hoje, a Câmara Municipal realizará uma sessão, proposta pelo vereador Lula Cabral, para homenagear professores. Nesta sessão, Jonilda Alves receberá medalha de Honra ao Mérito Municipal por relevantes serviços prestados a educação no município. Eu não duvido que esta seja uma justa homenagem. Aliás, eu proponho que, também a título de homenagem, os professores sejam bem mais ouvidos em suas reivindicações e demandas para que não precisem fazer greves. Para terminar, aquele professor de ciências que tive lá na escola se chamava Raimundo. E ele me ensinou o que era uma célula e, mais do que isso, me mostrou que o conceito de célula pode ser usado em muitas coisas, inclusive na política.




Você tem algo a dizer sobre essa COLUNA ou quer sugerir uma pauta? gilbergues@gmail.com


AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.




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Este foi um dos últimos artigos que publiquei: “SOMOS TODOS UM BANDO DE ARAMIS". Neste artigo analiso porque somos avessos à consolidação de nossa democracia. Discuto a contradição de praticarmos procedimentos democráticos enquanto cevamos um ancestral saudosismo de nosso passado ditatorial. Sugiro refletirmos sobre o paradoxo de parte da sociedade usar a liberdade de expressão para pedir um regime que pode acabar com ela. http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9920-somos-todos-um-bando-de-aramis---parte-i.html

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