quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O BRASILEIRO, ESTE OTIMISTA POR DEFINIÇÃO.




Nos tempos em que vivíamos assolados pelo espiral inflacionário, um amigo contava o diálogo entre dois brasileiros: um otimista e o outro pessimista. Ele dizia que o otimista afirmava que a situação era tão desesperadoramente ruim que ainda iríamos comer lixo. Vejam bem, era o otimista quem dizia isso. O pessimista, para não ficar atrás em termos de negativismo, retrucava que o pior de tudo é que o lixo não ia dar para todos os brasileiros. Alguns, não teriam sequer lixo para comer.



Esse diálogo, claro, não aconteceu de verdade. Apesar de que passamos décadas tendo motivos de sobra para encarar nossa realidade econômica e social da forma mais pessimista possível. Hoje, podemos nos dar o luxo de sermos ao menos realistas. Apesar de que, o brasileiro é um otimista por definição. Mesmo tendo sido formados sob o tacão da escravidão e do colonialismo, desenvolvemos, como estratégia de sobrevivência, esse jeito bem humorado de enxergar nossa realidade. Já passamos por épocas tão ruins que não nos restou outra alternativa a não ser sermos otimistas em relação ao futuro. Nosso passado e presente foram tão deficitários que perdemos o direito de sermos pessimistas em relação ao futuro.



Eu sempre vejo essas pesquisas, que aferem o otimismo e o senso de humor do brasileiro, de forma reservada. Até relutei em analisar a pesquisa, que o IBOPE fez, dando conta que 57% dos brasileiros acreditam que 2014 será melhor do que 2013. É lógico que eu não vou esperar que este ano seja pior do que ano passado. Pelo contrário, temos mais é que torcer para que as coisas e a vida melhorem. Eu acredito que deve ser a isto que chamamos de otimismo. Inclusive, não acho que devemos ser nem otimistas e muito menos pessimistas. É que num e noutro caso estamos maximizando um estado de coisas. Na verdade, o otimista e o pessimista se parecem por exagerarem em seus desejos e vontades.


Ao analista não cabe ser nem uma coisa e nem outra. Eu sou um realista por definição. Entendo a política, o sistema e o Estado em que vivemos e o funcionamento de nossas instituições de uma forma realista. Eles são o que são graças a nossa cultura política. É claro que a pesquisa do IBOPE reflete as impressões que as pessoas tem em relação a economia. É por isso que apenas 35% dos norte-americanos acreditam mais em 2014 do que em 2013. Do ponto de vista econômico, a vida nos EUA não tem sido fácil. Não que a nossa vida seja bem melhor. É que já fomos tão sofridas em termos de crescimento e desenvolvimento econômico que qualquer melhora nos faz sorrir. Com esses pífios resultados na econômica, deveríamos ser bem mais realistas para 2014.


Eu mostrei, num POLITICANDO da semana passada, que a revista inglesa “O Economista” traçou um perfil nebuloso para a economia de países, tidos como em desenvolvimento, a exemplo do Brasil. A revista deu conta de um cenário econômico com crescimento anêmico, trouxe que a criação de empregos está esfriando e que a inflação está subindo.  E nem precisaria ler a matéria, basta ir à feira para ver que os preços estam sempre em alta. Mas, o que vamos fazer com esse nosso otimismo incorrigível?


 Talvez a presidente Dilma deva se preocupar com o fato de que o otimismo dos brasileiros tenha caído 17 pontos percentuais justamente no ano em que ele tentará se reeleger. Talvez os marqueteiros de Dilma devessem olhar as taxas dos outros anos. Em 2011, 72% dos brasileiros eram otimistas. Em 2010, eram 74%, e em 209 eram 73%. Essa taxa de 57% de otimistas deveria ser algo para se preocupar? Não, diriam os marqueteiros, pois daqui a pouco vamos ter a Copa da FIFA e vamos ter o mundo colorido do guia eleitoral, no radio e na TV, onde não vai haver espaço para pessimistas e realistas, só para otimistas, e de preferência daqueles cegos e surdos.


Interessa ver que nós, nordestinos, somos os mais otimistas pela pesquisa do IBOPE. No Norte e no Centro-Oeste 65% dos brasileiros são otimistas. No Sudeste são 47% e no Sul são 43%. Aqui, 72% de nós acreditamos que 2014 será muito melhor do que 2013. Como? De que forma teremos um 2014 melhor se continuamos ameaçados pela violência gritante, se seguimos inseguros do ponto de vista hídrico e se, na política, só teremos mais do mesmo como opção eleitoral?



A pesquisa do IBOPE foi parte de levantamento feito pela Rede WIN que afere taxas de otimismo em 65 países. O Brasil ficou em 7º lugar no ranking dos países mais otimistas. A Índia e a China aparecem em 5º e 6º lugares respectivamente. Já Dinamarca, Suíça e Japão aparecem nos últimos lugares como países menos otimistas. Essas são as nações rebeldes sem causa. Mesmo ricas, não otimizam suas possibilidades. Nós, ao contrário, rimos a toa, felizes da vida, só não se sabe bem por que.


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AQUI É O POLITICANDO, COM GILBERGUES SANTOS, PARA A CAMPINA FM.


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